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quarta-feira, outubro 19, 2016

Cartas para Anne
- 1218 cartas de um grande amor (clandestino)
François Mitterrand, o louco amante de Anne Pingeot


Chegarão cá e eu, que gosto tanto de cartas, lê-las-ei.

Para já, vou sabendo que a escrita culta, de sumptuosa gramática, transbordante de paixão e toda ela revelando cumplicidade e amor, mostram um François Miterrant completamente enamorado por uma outra mulher. A outra. Não Danielle, a sorridente legítima, mas a outra, a que todos desconheciam. Depois a que todos fingiam desconhecer. Anne Pingeot.




Na inauguração do Musée d'Orsay,
Anne é a cicerone vestida de branco,
com uma flor branca no cabelo e capa vermelha,
que acompanha a visita à área de escultura
com Miterrand e outros

Casado com Danielle, François, então com 47 anos, caíu de amores por uma jovem de 20. Era bela, culta, filha de uma família conservadora, gostava de arte. Ele o seu tutor, ansioso por ensiná-la. Ela a jovem cativa.

O amor durou até François morrer e encontra-se expresso nas imensas cartas que escreveu a Anne, sua namorada, sua amante clandestina. 


Formada em História de Arte, foi à escultura que Anne, a mulher-sombra, se dedicou, trabalhando no  Louvre e no Musée d'Orsay.


Vimo-la com um véu, tristíssima, no dia em que o mundo a conheceu, no dia em que o seu amor foi a enterrar. Era ela, a mulher que trouxe preso o coração de um dos homens mais importantes da Europa recente, a mãe de uma filha nascida fora do casamento oficial de François. Vimo-la, então, consolando a filha de ambos, a menina de seu pai, a jovem Mazarine. Muito perto, aceitando a situação, Danielle, a legítima com os filhos.

Então como depois, as fotografias mostram que Anne é uma mulher bela, uma estatura elegante, uma beleza serena e distinta. 

Discreta durante a vida do seu amor e discreta depois do seu amor se ir, Anne não deu entrevistas, não procurou o perdão da sociedade mais conservadora que tanto censurou o adultério de Miterrand, não procurou a luz da ribalta.

Até que agora cedeu ao pedido e mostrou que, aos olhos do seu enamorado, ela não era sombria mas luminosa. Anne aceitou agora revelar a imensa paixão que François nutriu por ela ao longo de tantos anos. Não sabe se fez bem ou mal ao fazê-lo. Esperou que Danielle também se fosse, não quis dar-lhe mais esse desgosto. Esperou. 

E, lendo excertos de algumas cartas das cartas de amor de Miterrand, enterneço-me.

No amor, no amor grande, todas as pessoas são iguais.
Frágeis, carentes, inseguras, ternas, exageradas, infantis, generosas, delicadas, arrebatadas -- assim são sempre as pessoas que muito se querem, que desenham caminhos de luz que só elas vêem, que se aproximam em pensamento mesmo quando os corpos estão longe, que se sentem docemente dependentes uma do outra, que anseiam por uma palavra, por um gesto, que vivem para o momento em que, de uma qualquer maneira, conseguem sentir-se próximas.
Transcrevo excertos de cartas que obtive na Elle francesa e no Le Figaro e, porque não saberia traduzir mantendo a intensa toada das palavras de amor tal como foram pensadas, peço-vos desculpa mas deixo-as em francês:

« Vous êtes pour moi la vie, la mort, le sang, l'esprit, l'amitié, la paix, l'espoir, la joie, la peine. Tout cela cogne, fait mal, ou bien émerveille et purifie »

« J'aime mes mains qui ont caressé ton corps, j'aime mes lèvres qui ont bu en toi, j'aime le goût de ton être mêlé de soleil et de lumière, avant de m'endormir j'ai évité de frotter la journée de mon corps à grande eau comme je fais toujours pour garder ta trace, ton parfum, ta présence vivante sur lui. » 

Ela, a quem ele chama Anne Chantilly, Nannon, Nannour ou Animour, retribui:

« Que j'aime ces merveilles que tu n'écris que pour moi ! » 

« J'aime toutes tes folies, toutes celles qui arrachent d'un gluant quotidien. Avec toi, on ne se laisserait pas faire par ce qu'on ose appeler 'la vie'. Ô mon créateur de joie, je vous aime. » 

Nas últimas cartas, dirigidas a Anne em 1995, um anos antes de morrer, François escreve: « Mon bonheur est de penser à toi et de t'aimer. Tu m'as toujours apporté plus. Tu as été ma chance de vie. Comment ne pas t'aimer davantage ? »

___

Mas são muitas as cartas, muitos os excertos que a imprensa já divulgou:

O olhar cúmplice do amante secreto

«J'ai, moi, dépassé le point du non-retour.»

(…) Mais je veux que tu saches aussi ceci: j'ai, moi, dépassé le point du non-retour. Merci ô mon Anne d'être celle par qui j'atteins le sommet de ma course: jamais plus je ne reviendrai en arrière. Je suis à toi, comme hier, aussi intensément mais par mon âme et non mon corps quand je t'écris ceci: depuis toi je ne puis qu'aller et regarder devant moi.

(Nevers, samedi 25 juillet 1964)


«Je t'aime.»

Anne, mon amour,

Voilà, c'est fait, après de longues méditations, de longues hésitations et maintenant la certitude d'une lourde charge: j'ai fait connaître ce soir, à 6 heures, à l'issue de la conférence de presse du général de Gaulle, que j'étais candidat à la présidence de la République. Les moments d'hier soir et de ce matin ont été intenses, parfois dramatiques. Defferre, Maurice Faure, Mollet, beaucoup d'autres… le Parti socialiste a fait bloc pour me demander de mener ce combat… Bref j'en suis là. (…)

Sais-tu que je pense à toi et que c'est merveilleusement utile qu'il y ait l'amour Anne-François? Je t'adore Anne et je porte en moi la hâte de tes bras, de tes lèvres, de ta tendresse, de ta paix. Anne, mon Anne, à demain.

Je t'aime.


(Jeudi 9 septembre 1965, 17h30)

«Ô mon amour de vie profonde»

C'est une vague de fond, mon amour, elle nous emporte, elle nous sépare, je crie, je crie, tu m'entends au travers du fracas, tu m'aimes, je suis désespérément à toi, mais déjà tu ne me vois plus, je ne sais plus où tu es, tout le malheur du monde est en moi, il faudrait mourir mais la mer fait de nous ce qu'elle veut. Oui, je suis désespéré. Le temps de reprendre souffle et pied? Ô mon amour de vie profonde j'ai pu mesurer un certain ordre des souffrances. Ce sera peut-être le seul mot tranquille de cette lettre: je t'aimerai jusqu'à la fin de moi, et si tu as raison de croire en Dieu, jusqu'à la fin des temps. (…)

(3 juillet 1970)

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A quem se aventure pela língua francesa, recomendo:


ou


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14 comentários:

Anónimo disse...

Como qualquer pessoa, impressiono-me com esse tipo de escrita inflamada. E, como sempre fui completamente a favor de relações abertas, sem exclusividade, e crente de que é possível amar duas ou mais pessoas de forma igualmente poderosa, em simultâneo ou em momentos distintos da nossa vida, também não me custa a crer que alguém - Miterrand, no caso - tenha amado Anne Pingeot imensamente. Mas quando se sabe que teve outros casos também tão gloriosamente inflamados com outras mulheres, durante grande parte do período em que esteve com Anne, parece um pouco estranho conceber que, para ele, essa mulher fosse "a vida, a morte, o sangue, o espírito, a amizade, a paz, a esperança, a felicidade, a dor", enfim, tudo. Porque se tinha outras, uma não podia ser "tudo". Quando ela responde: "como adoro essas maravilhas que não escreves senão para mim", não deixo de sentir que uma história que parece tão forte, tão poderosa, mesmo bela, se estraga e desvirtua por ser quase artificial, no mínimo exagerada, talvez um engano (para Anne). Sou contra pensarmos que para amar alguém é preciso amá-la em exclusivo (e desde sempre tive a ideia de que aceitar uma relação aberta era dar o maior voto de confiança e amor a outra pessoa), mas para mim tem de ser tudo às claras: se há enganos, mal entendidos, uma (ou cada uma das várias mulheres) acha que é mais que as outras, mas na verdade não é, então esse "tudo" que cada uma julga que é, pode ser, afinal, muito menos que isso, talvez mesmo quase nada.

http://www.closermag.fr/article/francois-mitterrand-15-ans-d-amour-avec-sa-journaliste-suedoise-351588
http://www.parismatch.com/People/Politique/Les-souvenirs-de-l-amie-secrete-de-Mitterrand-157620
http://www.gala.fr/l_actu/news_de_stars/francois_mitterrand_les_derniers_secrets_d_un_libertin_342092

A Anne teve de fazer um ultimato para que ele lhe "desse um bebé" ("o único presente que ele me deu"); ele prometeu-lhe que se divorciaria da mulher para viverem juntos, como verdadeiro casal, não escondidos, ilegitimamente, e depois afinal a mulher, Danielle, não o permitiu... Será este rol de mentiras, enganos, chantagens, promessas incumpridas, o amor? E ela foi sempre perdoando, inclusive as traições de que teve conhecimento. Será que não poderia "perdoá-lo" se ele lhe dissesse: "adoro-te, mas também amo esta ou aquela?" Será que só funciona a mentira ("é a ti que amo de verdade")?

JV

bea disse...

As relações humanas - e sobretudo as amorosas - são coisa muito complexa para ser ajuizada do exterior. O melhor é não julgar, quem as vive já sofre por vivê-las, não precisa de juizos; e isso mesmo que julgamos pode ainda vir ao nosso encontro.

Relações abertas e com várias pessoas em simultâneo parecem-me extravagâncias. Mas podem não ser. Talvez haja maneiras - difíceis - de existirem em coexistência.

Por outro lado, não vejo razão para Anne dar a público o que foi tão privado. Será para mostrar que, de todos os casos dele, ela foi "o caso"? Uma forma de ainda reivindicar a sua posição especial...ou de estar de pé perante o mundo que sempre lhe faltou. Ela saberá.

O que me parece é que amores desta natureza causam muito sofrimento. Se consegue aguentar os revés, grande é o sentimento.

Não sei, acho que não gostaria de ler essas cartas. Por muito bem escritas e apaixonadas que sejam, ou sobretudo por isso, há em mim uma reserva, um certo sentido de invasão que me trava o gosto.

Anónimo disse...

Também nem me passa pela cabeça julgar a vida amorosa dos outros. Mas é precisamente o que diz, bea, sobre a Anne, se calhar, ter querido mostrar que ela foi "o caso". A jornalista sueca que teve o affair com Mitterrand entre 1980 e 1995 (ano da morte de Mitterrand) dá a entender, claramente, que nao concorda e acha que foi show off da Anne ter aparecido com a filha no funeral. É que se Anne nao foi o "caso", mas acha que foi (e até vou partir do pressuposto que Mitterrand a amava tao fortemente como dava a entender nas cartas, por ser um homem capaz de amar muitas mulheres de forma tao apaixonada e durante tanto tempo), então a sua relação - talvez os seus sentimentos! - basearam-se num engano, numa falha de perceção, talvez na vontade de nao ver as coisas como verdadeiramente eram. E isso dá-me pena e nao vontade de a julgar (ou ao amante).
Quanto às relações abertas, vejo-as com a maior naturalidade. É claro que quando penso em relação aberta não penso em alguém estar constante e perpetuamente à procura de novos companheiros de vida (tipo ter muitos namorados/namoradas), se bem que isso é um fenómeno em crescimento, por exemplo, no Brasil (paradigmaticamente, o poliamor, em que vários homens e mulheres partilham uma vida em conjunto). Não me oponho obviamente a nada disso, mas aquilo a que me referia quando falava em relação aberta era apenas à possibilidade de uma pessoa, mesmo estando numa relação séria com outra, ter sexo com outra (com quem terá maior ou menor grau de intimidade). Recuso a ideia de que estar numa relação implica dar a alguém o controlo e o exclusivo do nosso corpo, implica abdicar da nossa liberdade sexual, da possibilidade de, querendo, ter relações sexuais com outra pessoa. Em minha casa, nunca foi segredo que o meu pai teve relações sexuais com mulheres para além da minha mãe e nunca me passou pela cabeça que isso fosse algo que me dissesse sequer respeito, quanto mais pôr em causa o seu comprometimento com a família.
Abraço,
JV

P. disse...

É o tipo de coisas que não leio! A Leitora Bea fez um bom ponto, nesse sentido. Sinceramente, qual o interesse de tal situação ter sido revelada ao Mundo? E porquê? Com quem cada um ou cada uma se deita, ou dorme, é assunto privado, pessoal. Ninguém tem nada a ver com isso. Uma coisa é a História - mais tarde - mencionar certas situações de determinada personagem, para melhor a conhecermos, outra é este tipo de livros serem publicados, ainda a quente. Teria sido muito mais interessante se essas cartas tivessem sido objecto de espólio, ou pesquisa histórica, quando um dia os historiadores se debruçassem sobre a figura de Mitterrand. Como sucedeu, por exemplo, com as cartas que Mendelssohn escreveu a sua irmã, que ele adorava, Fanny. Ou quando se conhece o homem (na sua vida pessoal) que foi Richard Wagner (com as suas múltiplas infidelidades, mesmo depois de ter casado com uma mulher como Cosima, a filha de Liszt). E tantas outras personagens históricas, no campo das Artes, da Política, da Antiguidade Clássica, etc.
Gostei de ler o comentário da Leitora JV. Fez-me lembrar, de algum modo, uma pequena história que um dia aqui referi, neste seu Blogue, de um tipo que vim a conhecer, por mero acaso, que tinha duas mulheres, com quem vivia feliz. Naturalmente, não era casado com elas. Mas que importa?
Quando era mais novo, teria os meus 15 anos ou coisa assim, meus pais tinham um casal conhecido, o sujeito era arquitecto (lembro-me de lhe chamarem “oh arquitecto, tal e coisa”) e vivia com a mulher e a…cunhada. A mulher era mais bonita, mas a cunhada, mais bem-feita de corpo. Sempre os conhecemos aos três, assim. E quando nossos pais os convidavam, era sempre a três (os filhos, nossos amigos, ficavam com a empregada). E recordo-me de ouvir meu pai, em conversa com um dos meus tios, a comentar, discretamente: “aquele arquitecto é que sabe. No fim de contas, acaba por ter duas mulheres”. Não sei se assim seria. Mas, que interessa? Enfim, esse livro será mais uma daquelas obras para vender, ao suscitar a curiosidade de voyeurismo.
P.Rufino

Abraham Chevrolet disse...

O falecido Mitterrand não gera simpatias.Desde a colaboração com Vichy,a condecoração com a Francisca,a mudança de atitude política quando as coisas começaram a correr mal a Leste para o III Reich,nada é entusiasmante. Como presidente da França foi o que se viu. Este caso das cartas é a natural sequência da vida que quis. As cartas,dizem os clássicos,são de quem as escreve.Não será curial a atitude de Anne ao divulgar escritos tão íntimos. Miterrand,se tanto amava Anne,deveria, em qualquer momento,tomar uma atitude de lealdade para com ela,para com a filha,para com Danielle e para com ele próprio. Não há vergonha nem crime quando nos apaixonamos! A publicação das cartas interessa a quem? Aquelas palavras, que nada geraram, não serão a geografia do carácter de quem as escreveu e de quem as publica? Salva-se em tudo isto a postura de Danielle Miterrand,demasiado indiferente para não estar a par de tudo. Valente Danielle,que tenha sido feliz com quem escolheu,oxalá não um conservador anónimo que a engravidasse para tornar o romance mais sumarento,enquanto o prolífico presidente atulhava a caixa do correio da sua paixão muito bem escondida!

Anónimo disse...

Não me interessam absolutamente nada este tipo de cartas/documentos. Insiro-as na categoria dos reality shows. E/ou no domínio dos troféus pois a impressão que me fica é a de que Anne ao fazê-lo apenas pretendeu provar que ela foi "the one" apesar das outras todas. Não vejo problema nenhum nisso mas vir dizê-lo ao mundo é como aqueles caçadores que exibem na parede da sala as cabeças dos bichos que dominaram/mataram.

Prefiro de longe as cartas de guerra do Lobo Antunes para a sua mulher ou os aerogramas de gente anónima para as suas namoradas/esposas
Um beijo

GG

bea disse...

Anónimo(a) JV

serei antiquada. É possível. Mas tenho para mim que pior que ser conservador é fingir ser quem não somos. Portanto aí vai:

se quando fala de relação séria está a falar de amor mútuo, que tem condições de realização, digo-lhe que ele dispensa terceiros. Por norma não é sequer pensamento que aflore à mente. Mas há quem saia da norma. E quem saia até com alguma inteligência prática, como o dito arquitecto que refere. Ou, quem sabe, o próprio Miterrand. Se os intervenientes as aceitam, por que razão os outros não hão-de fazê-lo?!

Mas lembro-me de um livro de Gabriel Garcia Marquez, não sei precisar, mas parece-me que "Amor em tempos de cólera", em que o protagonista leva a vida apaixonado por uma lady. O que se passa com um e o outro durante a maior parte da vida amorosa dos dois, cada um para seu lado - e na maior parte do livro -, não macula o que, pelo menos no caso dele, os prende. Ele não se coíbe de ter mulheres, ela casa com outro, tem filhos, envelhecem ambos separados... e, no caso dele, é como se essa existência quotidiana seja qualquer coisa de paralelo, que não inibe nem incentiva. Porque está aquém. São dimensões diversas.

Não me parece que essa seja uma relação aberta. Era a que podia ser. Mas apeteceu-me contá-la.

Anónimo disse...

Também a mim pior que ser conservador (ou liberal, ou religioso, ou outra coisa qualquer) é fingir ser quem não somos. Por isso, se alguém convence outra pessoa que ela é "the one", como dizem os ingleses, mas é tudo treta, e passa a vida a dizer isso a um porradão de mulheres diferentes, então o que há é sobretudo, lá está, fingimento. Portanto, não posso senão concordar consigo.
E as pessoas são todas diferentes. No meu caso, daquilo que já descobri de mim própria, não consigo estar com alguém (sexualmente) de quem não me sinta próxima, a nível sentimental. Mas há quem separe as águas (sexo e amor) com grande facilidade, o que é mais frequente (ainda que não exclusivo) nos homens. Por isso, não acho que alguém ame menos outrem apenas por ter vontade (desejo!) de estar com outra. Se alguém se compromete a não estar com mais ninguém, é claro que fazê-lo é cometer uma traição, quebrar uma promessa. Mas isso é outra história: cada um é responsável por aquilo a que se compromete.
Quanto a ciúmes, também todos somos diferentes. E podemos ter ciúmes de um(a) amante, de um(a) amigo(a), do tempo que o nosso parceiro dedica ao trabalho, a um hobby, de um animal de estimação, etc.
Por fim, não creio o cerne da questão relação séria(aberta esteja em ela "dispensar terceiros": com certeza que esse "sacrifício" será/é possível. E, para alguns, nem é sacrifício nenhum, porque simplesmente só querem estar com uma pessoa. Mas exigi-lo, exigir que alguém renuncie à escolha de estar com outra pessoa, que nos ofereça essa sua liberdade, parece-me quase uma brutalidade. E que, na verdade, não serve de nada, porque se alguém se apaixona por outra pessoa, não é por não estar ou não poder estar com ela que se vai desapaixonar (aliás, quase sempre o efeito dessa proibição será o inverso: estilo o fruto proibido é o mais apetecido).

JV

(Foi o P. Rufino que referiu o caso do arquiteto: um caso bem engraçado, por sinal!)

P. disse...

No meu comentário anterior, onde mencionei a Leitora JV, referia-me ao seu primeiro comentário. Quanto ao segundo, onde ela refere as relações do seu progenitor, é outra questão. Porque, das duas uma - para lá do caso pessoal de JV, com o qual nada tenho a ver – ou se concorda com relações abertas, conhecidas de todos, ou não. Isto porque, uma relação amorosa pressupõe um grau de confiança a dois. Poderemos sempre questionar esta atitude, que aliás remonta à nefasta influência da Igreja, a partir do momento em que Constantino, irresponsavelmente, decidiu conceder a uma seita fanática, inculta, meio analfabeta e deploravelmente pouco higiénica - os cristãos - a importância religiosa que veio a ter, com as consequências que se reflectiram no atraso civilizacional (durante vários séculos) que se conhecem. Isto para dizer que as relações que JV refere, vêem detrás, da Antiguidade Clássica. Dos Gregos e Romanos. O problema é que os tempos de hoje são outros. Onde os parâmetros morais diferem daqueles que os precederam há 2 mil e mais anos. Se para melhor, ou pior, resta saber. Mas são os que nos guiam hoje, com maior, ou menor variante. Ou seja, não me parece que passe na cabeça de alguém perguntar ao parceiro se durante a relação amorosa ele, ou ela, aceitam que se mantenham encontros paralelos, de cariz sexual, por exemplo. Numa relação, ou ela é passageira e tudo bem, ou não é. E se não é, o que é de esperar da parceira ou parceiro é a entrega ao outro, enquanto essa relação durar. Alguém que ama outrem, não precisa de ir à procura de sexo com outro parceiro. Tenho alguns exemplos “extravagantes” de relações a mais, a três, por exemplo. Um meu familiar divorciou-se aqui há uns 7 anos. Entre as várias mulheres que foi conhecendo, deu com uma, casada, que vivia um matrimónio de fingimento. O marido dela é uma conhecida figura, ela, outra, pois aparece nessas revistas cor-de-rosa. Vivem ambos muito bem. Em quartos separados. Ele sai com as mulheres que quer, ela com os homens que deseja. Esse familiar gostava dela e tentou persuadi-la a deixar o marido para viver com ele. Nada fazer. Dali vinha-lhe uma vida boa, numa bela casa, um Mercedes descapotável, dinheiro que o marido lhe dava, etc. Preferia uma relação em que fossem só amantes, apesar, “de gostar muito dele”. Não resultou e aquele familiar deixou-a. Outro exemplo: ele apaixona-se por uma vizinha onde ambos viviam. Ela, uma simpatia e bonita, tem um namorado que a visita de quando em quando; que vive quase todo o tempo fora. Mas apaixonou-se por este nosso amigo, que lhe retribui a paixão. Ela pede-lhe tempo e paciência, pois precisa, por razões de carácter financeiro, de manter aquela relação com o primeiro, por uns tempos. Ele desespera, deixa-a, mas acaba por voltar para ela. A pedido dela e porque gosta dela. Enfim, vidas! Um amigo meu costuma dizer: “nestas coisas de adultério, ou infidelidades, prefiro não saber. Para estragar uma relação?” A verdade é que cada pessoa tem os seus parâmetros morais e é lá com cada um. Agora, julgo que JV será algo ingénua se acredita que alguém que se diga apaixonada por ela, queira, em simultâneo, partilhar sexo com terceiras. Amar alguém e ser-se correspondido é algo de muito especial. E, numa situação dessas, os tais, terceiros deixam de interessar. Pelo menos enquanto durar essa relação. O belo é podermos dizer à parceira que ela é "aquela”. De só a ela lhe darmos a ternura que não damos a mais nenhuma outra. As relações não pedem palavras de compromisso. Mas gestos, atitudes, carinho, meiguice, partilha, etc. Às vezes há quebra de confiança, ou desgaste que até pode nada a ter que ver com terceiros. Muito bem, parte-se para outra. Acontece. Outra coisa são as relações onde a “exigência” de cada um é menor. E aí deitamo-nos com quem quisermos. Podendo continuar bons amigos e manter afectos. Mas nunca será um romance, “so to say”. É outro tipo de relação.
P.Rufino

bea disse...

Bom. Vocês sabem tudo tão bem que quase nada fica por dizer.
Todos nós somos uns ases teoricamente e na prática grandes aselhas.


ninguém, suponho, exige fidelidade. Confia-se que ela exista. E cobra-se se não existe. Por ser uma quebra de confiança, a traição é um golpe profundo numa relação e no amor que lá exista. Pelo que representa. Mas também porque o pior de cada um, aquilo que o amor iludiu ou afastou, se expressa em força. Não é montanha fácil de escalar.

E não vejo que Miterrand fosse assim um mentiroso por dizer a várias mulheres que eram o seu sol; se o disse em tempos diversos, por que razão não estaria falando verdade?! Quase diria que pertencia ao género amores seriados, se não fora manter a legítima cuja existia fora da seriação.

Também não vejo o cristianismo com esse peso negativo. É verdade que não estudei a seita nos seus tempos iniciais, ma fiquei curiosa, o que a faz ser menos higiénica que outras? As relações de um para um continuam a parecer-me saudáveis. E, ainda que a promessa seja arrojada, é exactamente assim que ela é sentida na altura: para sempre. Não o sendo, mais vale nem começar.

Rosa Pinto disse...

Eu cá gosto de ler as cartas. São como outro romance qualquer. Se são de A ou B ou C...isso é que já é secundário. Gosto do que dizem as cartas. Não estou a sublimar - ah! este fulano! assim como gosto de ver um bom filme romântico.

que é isso de relação aberta? isso é relação? estar apaixonada por duas pessoas ...como? se a paixão até tira a fome de tanto pensar na outra pessoa.

amar (erótico)mais que uma pessoa? pode ser. mas não o amar de proteger. de colocar a outra pessoa "dentro" si. é mais um amar de curtir.

boa sexta.


Anónimo disse...

Esta discussão até ganhou destaque de post autónomo, presente da nossa querida UJM.
Estas questões são complicadas e de difícil teorização. Quanto a traições, ela só existem quando se quebra uma promessa, expressa ou tácita (é claro que toda a gente parte do princípio de que há exclusividade e se alguém pretende algo de diferente deverá falar sobre isso!). Quanto a eu ser ingénua, acho que não. A mim nunca ninguém me convenceu de nada. Isto são ideias minhas, sensatas ou completamente aberrantes que sejam. O cerne da questão é que apenas se dá a liberdade, a possibilidade, nada mais. Acho que se deixaram impressionar pelo facto de ser dada essa liberdade logo no inicio da relação: no início de uma relação também concordo que, nornalmente, nenhum terceiro interessará, nem sequer se pensará nisso. Pensemos numa relação de 30, 40, 50 anos. A chama entre o casal será sempre igual? Acho que é do senso comum que não. E se num momento em que ela é fraquinha, alguém desejar intensamente outra pessoa? É crime? Ou só o ceder à tentação o será? E porquê? Para mim, dependerá dos termos da relação, das promessas feitas.
Quanto a Mitterrand ter dito a várias mulheres que cada uma era "o sol" em épocas diferentes, isso nao foi bem assim. Ele teve longas relações com varias mulheres em simultâneo, por isso estamos a falar de coisas diferentes. Para mim, até acredito ser possível amar imenso duas ou mais ao mesmo tempo (ainda que nenhuma possa, naturalmente, ser "tudo para ele"), mas isso é outra história. Para quem acha que só há "amor verdadeiro" se for todo direcionado, num dado momento, para uma mulher, então certamente ele nao amou nenhuma.
Se calhar tudo isto me vem de sempre me terem impressionado os heróis byronianos, lermontovianos, numa palavra, don juanescos.
Bom fim de semana,
JV

P. disse...

“O que fez essa seita (o tal Cristianismo) ser menos higiénicas que outras”: naquela época e por alguns séculos depois, foi o facto de esse mesmo “Cristianismo” advogar que o importante era lavar a alma e não o corpo. Este não precisava de lavagem diária e quando o tivesse de ser seria sempre com reserva. Na transição da Antiguidade para a Idade Média e depois logo a seguir, sobretudo nos primórdios da Idade Média, as pessoas, por influência da Igreja, um obstáculo cultural, entre outros os aspectos, a higiene pessoal foi praticamente abandonada. Uma das primeiras medidas foi terem conseguido a proibição dos Banhos Romanos.
2. Cito: “Para quem acha que só há "amor verdadeiro" se for todo direccionado, num dado momento, para uma mulher, então certamente ele não amou nenhuma”: é uma assumpção algo bizarra, extemporânea. Um tipo pode amar várias mulheres (ou homens), mas um/a de cada vez. Quando um entra numa de “amar” várias, ou sentir “algo especial” por várias/os, já é outro tipo de relação.
Volto a citar: “Pensemos numa relação de 30, 40, 50 anos. A chama entre o casal será sempre igual? Acho que é do senso comum que não. E se num momento em que ela é fraquinha, alguém desejar intensamente outra pessoa? É crime? Ou só o ceder à tentação o será? E porquê? Para mim, dependerá dos termos da relação, das promessas feitas”: Há aqui uma contradição. Entre o que se diz antes - e no último parágrafo. Ou seja, nada como viver essa tal relação, para se retirarem conclusões.
Seja como for. Cada um pensa como bem entender. Tem é que encontrar o/ parceiro/a, que esteja nesse circuito de onda. Li ontem que 70% dos casamentos, em Portugal, dão em divórcio, ao que parece a mais alta taxa de divórcios na Europa. Excelentes notícias para os tribunais, notários e até das conservatórias. E, naturalmente, advogados. Agora mau para quem paga casamentos, normalmente os pais. E então, quando são pela Igreja (a malta pela-se por uma cerimónia desse tipo – não faz o meu género, pois jamais pagaria um casamento pela Igreja, por razões politico-religiosas) a conta sobe, dado o aparato. A malta, hoje, não leva sério um casamento. É coisa para desmontar à primeira birra e partir para a cama com outro, ou outra. E assim vamos indo, “cantando e rindo”, como dizia outro. Resumindo, o sexo é hoje o mais relevante nas relações. E a tolerância, entre relações, perdeu terreno. Tempos novos. No que vai dar? Sinceramente, quero lá saber!
P.Rufino

bea disse...

É assim, apesar do aparato das cartas, e a despeito do dito, tenho estado a lembrar-me - e não conheço nada da vida pessoal de Miterrand - que talvez Anne não tenha apenas querido mostrar-se a special one. Quem sabe foi ainda uma forma de elevar a aura de Miterrand. Quiçá tenha sido a última forma de o mimar. Afinal, ela teve a delicadeza de esperar que a legítima morresse para as apresentar, a coragem de assumir sozinha uma filha (é verdade que tinha meios para isso), o mérito de o fazer decidir enquanto presidente - e parece que decidiu bastante - sobre o mundo das artes. E haverá certamente mais a dizer. No fundo é a força dela que ressalta. Se ele teve, entretanto, outras mulheres, problema dele. Mas parece não conjugar com o que escreveu a Anne. E além disso eu sempre gostei dele e a despeito do que aqui disse alguém, considero que foi um bom presidente para a França.

E ainda: acho muito bem que Anne tenha estado no funeral. Já todos sabiam da sua existência e da filha. Parece-me um direito natural.