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quinta-feira, agosto 25, 2016

Vem aí a guerra e só os alemães é que sabem?
Para que é que vão armazenar água e alimentos?
Não sei.
Mas, do que conheço dos alemães, avanço com uma explicação.
[E, atenção, o que digo não é para causar alarme, é apenas para alertar para o que estamos fartos de saber]





Depois de ter louvado a iniciativa de Renzi atribuindo 500 euros a cada adolescente para consumir em cultura, volto-me agora para a notícia que está a causar estranheza e a lançar alguma suspeição nos europeus:

O plano de defesa civil, que inclui o conselho para os alemães armazenarem comida e bebida para dez dias, foi hoje aprovado pelo Governo.


O governo alemão aprovou hoje um plano de defesa civil, que pede aos cidadãos para fazerem aprovisionamentos de água e alimentos, permitindo uma resposta em caso de atentados ou catástrofes naturais. (...)
Entre as recomendações feitas à população, contam-se a necessidade de reservas de água, de "dois litros por pessoa e por dia, por um período de cinco dias". Os cidadãos devem abastecer-se de alimentos suficientes para dez dias.
Prevê também planos de emergência em caso de interrupção do fornecimento de água ou eletricidade, uma série de medidas de segurança em caso de crise de natureza química, atómica ou biológica, ou ainda em caso de ataques cibernéticos.


Soube disto e desde então já ouvi interpretações diversas e comentadores para todos os gostos a especular a razão de ser de tão inusitada medida: que tem a ver com a Ucrânia, ou com a Turquia, ou com o Daesh, ou com severas ameaças às centrais nucleares ou com indícios de terramotos bárbaros, ataques cibernéticos ou, acrescento eu, invasão por marcianos.

Pode ser. Mas, como não tenho espiões debaixo das saias da Merkel, de facto não faço ideia.

Contudo, já trabalhei diversas vezes com alemães, uma das quais recentemente. E já trabalhei em diversos contextos e circunstâncias, algumas vezes durante períodos bem longos.

Já aqui o disse algumas vezes: gosto de trabalhar com alemães embora venha achando que, enquanto organização (isto é, a nível não pessoal), se vêm tornando mais quadrados, tudo muito by the book. A nível pessoal continuo a achá-los descontraídos, simpáticos, até folgazões. Mas, a nível profissional, não brincam em serviço nem sabem desviar-se um milímetro do que antes planearam.

Contudo, se reconhecerem e lhes provarem, mas provarem bem, que uma solução menos ortodoxa parece valer a pena, então equacionam-na, enfiam-na no plano e deixa de ser heterodoxa e, portanto, passa a estar regulamentada, tornando-se admissível. E, uma vez estabelecido um plano, seguem-no ferreamente. Podem levar um ano ou mais a fazer um plano ao pormenor, quando, em iguais circunstâncias, os portugueses o fazem numa manhã, de forma não detalhada para deixar margem para os imprevistos que sempre acontecem. Os alemães não: os alemães elencam previamente todos os passos e todos os possíveis imprevistos e, neste caso, para cada um, estudam qual o antídoto. Só depois se abalançam à acção.

Para além do mais têm a paranóia da segurança e da propriedade das suas coisas. Podem optar por soluções pouco operacionais e pouco económicas mas priveligiam (ou melhor, exigem) a segurnça e o controlo absoluto das situações (a propriedade inquestionável e regulamentada da informação gerada nas suas organizações, a segurança à prova de bala das suas redes de dados, dos seus ficheiros, etc).

Ou seja, do que lhes tenho observado -- e, como disse, do que tenho constatado desde há alguns anos para cá, esta atitude vem-se tornando generalizada e inquestionável -- só se sentem bem se tiverem planos para tudo e, sobretudo, planos que garantam que, haja o que houver, eles estão sempre salvaguardados pois preveniram-se em terra antes de se fazerem ao mar.

Por isso, do que lhes conheço, não precisam de saber de alguma ameaça concreta para desencadearem estas medidas que agora aprovaram. Leio e acredito que isto faz parte de um plano global que vem sendo estudado desde de 2012 (ou seja, há 4 anos) e que visa substituir um outro que estava em vigor desde 1995.

Agir como eles, tem prós e contras. Eu acho que, com alguma frequência, tendem a levar a coisa ao limite do absurdo; acho que perdem a noção de que tamanha pre-ocupação é um excesso de zelo que pode não se justificar. No entanto, acho que entre a despreocupação portuguesa, de deixar tudo muito ao improviso, de não divulgar riscos para não lançar alarme, de se fiarem na virgem e não correrem e a confiança cega dos alemães em que tudo poderão prevenir haverá um meio termo virtuoso.

Por exemplo (e sem, de modo algum, querer cavalgar a onda da tragédia do sismo italiano), refiro um tema do qual já aqui, de resto, falei algumas vezes: algumas zonas do país e, em particular o Algarve, a Costa Alentejana e Lisboa e Vale do Tejo. são de alto rismo sísmico e o não ter voltado a haver um abalo violento como o de 1755 já é uma improbabilidade. Ou melhor, é uma grande sorte que devemos agradecer a todos os santinhos mas é, também, uma improbabilidade. 


Dito de outra forma: pode ser que ainda falte muito tempo e espero bem que sim mas o mais provável é que volte a acontecer e que, acontecendo, possa vir a ter efeitos devastadores.


Por isso, teríamos já mais do que tido tempo não apenas para reforçar as estruturas dos edifícios que não aguentarão um desses tremores de terra valentes como para traçar um plano de contingência e de recuperação (a todos os níveis) em caso de desastre. Mas qual o quê...

Este plano pressuporia ampla divulgação, realização de simulacros e intervenções de toda a ordem. Contudo, portuguesmente assobia-se para o lado e espera-se que, na nossa vida, tal não venha a acontecer.

Não sou eu que o digo, que eu não percebo nada do assunto. Mas ouça-se um dos maiores especialistas nacionais na matéria, o Engenheiro João Appleton:


Tivemos um bom exemplo com a Parque Escolar, em que os edifícios foram, de uma forma sistemática, analisados e reforçados do ponto de vista sísmico, mas esse programa foi interrompido. Foram feitas obras em 200 e tal escolas, mas as outras centenas de escolas estão esquecidas e abandonadas. E o que é que acontece aos hospitais, aos edifícios de bombeiros ou governamentais, onde trabalham diariamente aqueles que tomam as decisões? 
Estou plenamente convicto de que, se sofrêssemos um sismo de grande intensidade agora, colidiriam vários hospitais, vários quartéis de bombeiros, vários edifícios públicos de ministérios, porque não estão preparados para suportar um terramoto semelhante ao de 1755.
Quando acontece um sismo de elevada magnitude num qualquer lugar do planeta, especialmente quando é mais perto, as televisões salivam e a toda a hora são mostrados escombros e pessoas a chorarem. Depois aparecem os comentadores, os senhores da protecção civil, os do INEM, não sei se também o Nuno Rogeiro -- e, passados dois dias, já ninguém se lembra de nada. Ora isto com os alemães seria o oposto e, de certeza, já se iria na 50ª versão de um plano exaustivo, sempre melhorada, divulgada e ensaiada.

Portanto, mais do que enveredarmos por teorias da conspiração e desatarmos a especular sobre o que é que os alemães sabem e nós não, acho que deveríamos reflectir um pouco e talvez seguir-lhes o exemplo pois, em caso de atentados, desastre grave, acts of God ou seja o que for, os planos e as cautelas podem salvar muitas vidas ou, pelo menos, minorar o desconforto de algumas situações.

E tenho dito.

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Lá em cima Marlene Dietrich interpreta uma das minhas canções preferidas de ever and forever: Lili Marlene

As imagens que escolhi para adornarem o texto mostram obras de pintores alemães, desta vez dos modernos. A saber, pela ordem em que aparecem: Franz Marc, Max Ernst, Paul Klee, Hans Hofmann, Tomma Abts e Gerhard Richter.

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E queiram, agora, ir de visita aos antigos. 
No post abaixo falo a propósito de uma extraordinára medida de Renzi e peço ao nosso Ministro da Cultura que se inspire. 

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1 comentário:

P. disse...

Julgo ser a explicação para uma chuva de estrelas que outro dia à noite vi, com uns amigos, por aqui onde moro. Uns aventaram a hipótese, na brincadeira, de ser um exército de Ovnis. Ora bem, se calhar era mesmo isso. Também devem ter passado pelos céus alemães e depois de analisarem ambos os países, um com uma dívida, pública e privada (esta então!) do caraças e outro gordo de euros, devem ter preferido as terras germânicas e deste modo enviado aviso à Merkel, através de algum código cibernéticos e ela, depois de falar com o Schauber (que logo ali contabilizou os prejuízos) decidiu preparar-se já que não brincam em serviço, ao contrário de nós. Na volta ainda os põem a aderir à UE e ao Euro, a fim de preencherem a vaga deixada pelos ingleses e assim evitam um conflito. Os alemães pensam em tudo. Embora às vezes se enganem, como foi aquele história das duas Guerras Mundiais, contra tudo e todos, pensando que se safavam e acabaram por se lixar, tendo-lhe saído as contas furadas. Mas, aprendem com os erros. Como por ali não há terramotos e também não vejo os russos e muito menos os chineses (cuja travessia seria complicada – já imaginaram a quantidade de vistos a emitir pelos países que cedessem passagem às tropas invasoras de Pequim, para aí uns milhões, até chegarem à fronteira alemã?) a virem por aí, para dar cabo dos alemães (e porque razão?), só mesmo a tal hipótese de um grupo armado de Marcianos ou coisa parecida. Fazem bem em preparar-se. Quem deve estar contente, lá na terra deles, devem ser as mercearias, supermercados, etc, que deste modo sempre vendem à fartazana aquela água com picos que eles adoram, salsichas aos magotes, o tal pão preto para fazer o cachorro-à-alemã, com aquela mostarda picantíssima, latas de cerveja às litradas e por aí fora. Já estou a imaginar a Merkel a falar aos compatriotas:
“Querridos compatrriotas, segundo inforrmações que reputo de fidedignas, deverremos sofrerr uma invasão dentrro em brreve e assim, a partir de agorra, abasteçam-se do que puderrem. O plano do goverrno que dirrijo é de convencerr o exérrcito invasorr a levarr a mensagem amiga do povo alemão para que em vez de nos guerrearrmos, eles considerrassem uma adesão à União Eurropeia, porr nós prresidida a parrtir de Berrlim, e deste modo evitavam-se gastos e despesas inúteis. E, uma vez eles vão no engodo, enviamos-lhe uma equipa da Trroika e de seguida aplicamos-lhe um severro plano de austerridade e assim metemo-los no bolso, sem dispararre um tirro. Uma vez a situação esteja sob contrrole, ao contacto voltarei” - (Merkel fez um esforço, como podem ver, para evitar colocar o verbo no fim da frase, a fim de nós portugueses melhor a podermos entender. Só lhe escapou este último parágrafo. Só os “rr” é que ela não consegue evitar de pronunciar. Mas, estás perdoada Merkel!).
P.Rufino