Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, maio 14, 2016

Bater no fundo




Se eu estivesse a escrever um livro, talvez desenvolvesse o assunto. Falaria sobre o período negro que se seguiu, as desconfianças, as suspeitas que desencadeavam brigas familiares, a vergonha, as tentativas de ocultar do exterior o que se passava, as acusações, a culpa, as aflições, as traições. Mas não estou a escrever um livro. Não.

Por isso, omito aquilo que a família pretende manter escondido, omito as consequências sobre centenas de outras vidas. Vou manter-me focada no Pedro e na Clara, essas duas pessoas que se conheciam dos meios virtuais e a quem as afinidades uniram e que, por circunstâncias acidentais, se aproximaram ainda mais depois do dia desafortunado em que se conheceram no mundo real.

Direi apenas que Pedro tinha razão ao preocupar-se. A sua família foi uma das que muito tocada foi pela crise financeira. Depois, por uma sucessão de gestos precipitados ou impensados, por vinganças absurdas e, finalmente, já com a situação fora de controlo, a família de Pedro perdeu praticamente tudo o que tinha. Nada de mais nem de diferente do que aconteceu a várias famílias que por cá, como em muitos outros países, fruto de uma excessiva alavancagem financeira, acumularam dívidas desalicerçadas que, uma vez em situação de desequilíbrio, deixaram a nu a vulnerabilidade do que se pensava ser uma sólida e eterna riqueza familiar. Umas coisas eram garantias de dívidas para adquirir outras que vinham também a ser garantias para outras dívidas. A queda de uma fez inevitavelmente cair tudo. Gravações, denúncias e rivalidades fizeram o resto. O assunto avançou para os tribunais. Entretanto, três dos membros da família -- e aqui leia-se família alargada pois a família, sendo grande, favorecia a família alargada (primos, tios, cunhados, sobrinhos) -- já puseram termo à vida. A vergonha e a impotência, a incapacidade de enfrentar uma vida para a qual não se tem preparação, tornam-se, por vezes, insuportáveis.

A ter que pagar a advogados, sem trabalho e vivendo agora num modesto apartamento, Pedro é uma sombra do que era há pouco tempo atrás.

Trava várias batalhas: a da recuperação de uma honorabilidade que deixou de lhe ser reconhecida, a da justiça, a da tentativa de não perder o respeito dos filhos que, industriados por uma mãe revoltada, o culpam das desgraças que se abateram sobre a família e, de forma muito emotiva, também a da tentativa de recuperação de parte da bela biblioteca da família.

Do que sobrou, depois das repartições (vividas sob um clima de ameaças e gritarias), Pedro ficou com algumas mercadorias que escaparam aos arrestos, alguns prédios velhos que não estavam hipotecados e que estão arrendados com rendas baixas, uns quantos terrenos de mato que estavam esquecidos. Alguns, poucos, funcionários ocupam-se ainda de vender o que sobrou. Pedro trabalha com eles. É disso que vive. Conseguiu salvar ferramentas da sua oficina de encadernação e também faz trabalhos para alguns antiquários e isso é também uma ajuda.


Clara tem-se mantido a seu lado. Apoia-o de todas as maneiras possíveis. Tenta segurá-lo quando sente que o seu ânimo se está a esboroar. Acompanha-o quando sente que ele precisa de alguma força para travar lutas mais complicadas ou antes de se ir encontrar com os filhos. Incentiva-o a arranjar-se, a fazer a barba, a recuperar a capacidade de sorrir.

Muitas vezes, quando está à espera dele, mal o reconhece: parece um velho abandonado. Clara repreende-o. Dá-lhe o braço, quer que ele perceba que é por bem que se zanga .

Uma vez ofereceu-lhe um blusão. Quando ele viu o que era, virou o rosto. Ela percebeu que ele chorava. Fingiu que não percebia. brincou, disse que era uma consumista, que já não tinha nada que comprar para ela própria, que tinha visto o blusão tão barato que, só mesmo para não o deixar lá ficar, o tinha trazido. Clara não quer que Pedro se sinta humilhado, vencido. Quer que ele recomece. Mas quem perdeu tanto como ele, sente-se amputado e não sabe se será capaz de voltar a andar. Uma vez disse: Mesmo que quisesse, é com esta idade que vou recomeçar? Como vou ter força para enfrentar recusas ou desinteresses? Vou fazer o quê? Pedir? Humilhar-me? A única coisa que sei fazer é gerir empresas. Mas, depois do que aconteceu e com esta idade, quem é que me vai contratar? 

Nessas alturas Clara receia que ele queira desistir de tudo, até de viver.

Para ver se o anima, Clara traz sempre um livro de poemas. Sentam-se num banco de jardim ou numa esplanada e Clara abre o livro e lê poemas. Outras vezes, pede que Pedro os leia. O tempo muda de feição quando estão assim, a ler poesia um para o outro. 

Geralmente, Pedro trata do assunto da recuperação da biblioteca com o advogado da família chinesa que lá vive agora. Mas um dia quis ir lá. Combinou com o advogado, o advogado organizou tudo. Clara acompanhou-o. Ia muito nervoso, pensou voltar para trás. Clara animou-o. Anda há tanto tempo com essa ideia. Não vai descansar enquanto não o fizer. Não adie, vá. Pedro não falava, tanta a ansiedade. Quando chegaram perto da porta, Clara lembrou-se do dia em que o tinha conhecido. Tinha batido à porta sem saber o que ia encontrar. Tanta coisa tinha, entretanto, desmoronado que isso parecia ter acontecido numa outra vida.

Foi ela que, também agora, bateu à porta. Quando a porta se abriu, ele estremeceu. Clara deu-lhe o braço. Sentiu que ele estava a tremer. Encostou-se ao de leve e sentiu tanta, tanta pena, teve tanta vontade de chorar. Pensou: Pobre, pobre Pedro. 

Depois apareceu uma empregada. Abraçou-se a Pedro. Chorava, chorava. Clara percebeu que ela dizia: Meu menino, meu menino... Pedro abraçou-a em silêncio. Clara viu que ele continha as lágrimas. Talvez por isso não disse uma palavra, apenas fez uma trémula festa no cabelo branco de Maria de Lurdes.

Clara sentiu que as lágrimas se soltavam mas secou-as rapidamente e disfarçou. Vamos lá, disse.

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  • Lá em cima, Leonidas Kavakos e Enrico Pace interpretam o Adagio da Sonata Nº 3 para violino de Brahms.
  • Já aqui acima Simon and Garfunkel interpretam Bridge Over Troubled Water
  • A primeira fotografia, feita no domingo passado, mostra o Jardim da Estrela
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Este capítulo vem no seguimento de 'Desabamento' (de onde poderão passar para os capítulos anteriores) e continua em 'A primeira noite de amor'. 

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Já abaixo encontrarão a reportagem de parte da minha sexta-feira, incluindo uma ida até à praia ao anoitecer.

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