Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 25, 2016

Apenas uma abstração




Há Leitores que dizem que ler o Um Jeito Manso é a primeira coisa que fazem pela manhã. Outros dizem que esperam que eu escreva para me lerem antes de se irem deitar. E eu aqui, na minha sala, eu que posso muito bem não ser senão uma abstracção.

Sei que há um site de escrita automática em que se escolhem uns quantos tópicos e o número de palavras e aquilo escreve um texto que, do que vi, até é razoavelmente escorreito. Se calhar até há mais do que um site a oferecer este serviço mas eu só vi este. Fiquei impressionada. 

Por isso, quem vos garante, meus Caros Leitores, quem vos garante que eu sou uma mulher de verdade e não um software?


Agrada-me essa ideia, confesso. Eu própria me espanto como, depois de dias complicados -- assuntos profissionais que se acotovelam, sucessivos telefonemas de 'temos mais um problema' e gente a entrar-me no gabinete a desabafar problemas pessoais, alguns bem graves e, pelo meio, assuntos meus, familiares, maleitas e arrufos, filhos e cadilhos e, no carro, de boa cara para saber como está a mãe e o pai, ouvir as queixas, mostrar, pela voz, que estou bem, ouvir recomendações e isto enquanto ouço, trim trim, mais mails de trabalho -- consigo, diariamente, manter este meu gosto de escrever. É que depois, logo a seguir às tormentas, à noite, aqui, já tudo desapareceu e nem um desses problemas deixou um grão de pó em cima de mim. E, enquanto escrevo isto que estão a ler, recebo e mando mensagens pelo telemóvel, combinações já para quinta-feira, e logo retomo, continuo a prosa como se não estivessem a acontecer interrupções ou como se eu não fosse senão um programa informático, sem sentimentos, emoções ou cansaços.

Penso muitas vezes: não sou normal. Às tantas, se alguém me fizesse um exame à cabeça, ainda descobria que me falta um bocado, talvez o bocado que processa e reprocessa as ralações (coisa que, de facto, nunca o faço) ou que tenho a zona da divagação maior e mais invasiva do que o normal. Ou que me falta o bocado das choradeiras, ciumeiras e invejices e que, no lugar disso, há para lá uns chips ligados às mãos e que as põem a escrever sozinhas.


Por isso, digo a quem espera por mim: não estejam certos de que, por detrás do Um Jeito Manso, está uma executiva, uma avozinha, uma esquerdista ou uma lírica sem freio. O mais provável é que não esteja ninguém. No entanto, podem continuar a esperar pelas minhas palavras. Aliás, podem não apenas ler as minhas palavras mas também imaginar-me a vosso gosto: cabelo de um louro veneziano de largo ondulado ou ruiva escarlate fortemente encaracolado ou longos cabelos lisos e negros; perigosos olhos quase verdes ou azuis de boneca cintilante ou negros profundos; e pele clara e lisa ou rosada e sardenta ou morena e macia; e de estatura média ou baixinha ou alta ou assim-assim, ou magrinha ou poderosa; ou sorridente ou triste ou galhofeira. Como quiserem. O meu nome até pode ser o nome do software: Laura, Isabel, Helena. Como queiram.


E lembro-me outra vez de Lili Marlene, aquela por quem esperavam os soldados, como se esperassem a visita de uma namorada, de uma amiga, aquela que os enchia de ternura, lhes aquietava as saudades, lhes trazia a suavidade da mão amiga, a quentura boa do ombro desejado, o amor de quem sentiam tanta, tanta falta. Lili Marlene não existia mas a sua presença imaginada era marcante como a de uma mulher de verdade.

Fecho os olhos e penso que gostava de ser como ela. Gostava de estar alojada dentro dos vossos corações e vocês à espera que as minhas palavras cheguem como se fossem a materialização de um sonho, a tangibilidade pela qual aguardam quando abrem o UJM. Mas sei bem que isso seria querer de mais, querer ser imaterial, apenas uma abstracção.


Não me iludo, pois. Não trarei a todos as palavras doces pelas quais gostariam de se sentir tocados, nem serei o bálsamo pelo qual alguns aguardam. Tantas vezes trago zangas ou revoltas (ainda ontem), outras devaneios que vocês mal entenderão (se nem eu me entendo, como poderia alguém entender?), outras trago o meu olhar encandeado depois de ler ou ouvir textos ou músicas de rara beleza ou descobertas que me trazem fascínios, outras ainda trarei água fresca nas mãos, ou brumas ou cheiros ou palavras recortadas em encantamento que vou colhendo noutras escritas. Por isso, não sabendo o que de mim esperam, é às cegas que escrevo, as mãos livres por entre jardins e bosques que desconheço.

É como quando caminho rente ao rio, as mãos segurando a câmara que vê o que eu não vejo,
      captando instantes -- o abraço que se adivinha, os beijos que estão para acontecer, a contemplação do horizonte pelos apaixonados,
             desenhando nuvens nos céus, retendo cheiros -- ah tão bom, tão fresco, o perfume da maresia,
                        guardando silêncios, segredos, sonhos,
                            gravando o barco que atravessa o rio -- enquanto a minha mente atravessa as distâncias, as lonjuras, as serranias, as neblinas
                                         e, contemplando o sol que se esconde nas varandas para dar lugar à noite que aí vem, eu espero a noite que se abeira e, no seio da qual, aqui sentada, esperando a vossa visita, farei nascer palavras envoltas em sono, sonho e agradecimento.
Serei eu mesmo que o faço? Duvido. 
E sou eu que agora aqui escolho as memórias que a máquina guardou ou é essa outra, a UJM, por quem alguns de vocês, Leitores muito queridos, esperam? Não sei. Mas também não interessa, pois não? Não interessa. Eu também não vos conheço e não é por isso que deixo de escrever, para vos oferecer, estas palavras. 
O que nos une? O gosto pela escrita? A procura do indefinível? Não sei. Mas não faz mal não saber, assim ainda é melhor. Não é?
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E, já agora, a propósito do indefinível prazer de fotografar,

O fotógrafo de Manoel de Barros lido por Eduardo Tornaghi

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As minhas fotografias foram feitas ao fim do dia bem rente ao Tejo.

Uma vez mais, ao querer ter aqui a Lili Marlene, escolho a interpretação de June Tabor. 

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira boa, cheia de luz e alegria.

Ah, e para os que gostam de andar de bicicleta mas a quem faltam pernas ou tempo, sugiro que tentem a mais recente invenção da Google, justamente lançada no dia 1 de Abril deste ano.


Enjoy!

2 comentários:

Rosa Pinto disse...

Posso escolher quem está aí.
Exemplar do sexo masculino, bonito, cheio de charme, com sentido de humor e terno.
As visitas com isto do telemóvel variam. Mas a espreitadela da noite é obrigatória.

P. disse...

Enquanto vou lendo o seu Blogue, fui ouvindo Moonlight Sonata de Beethoven e agora, neste momento, Clair de Lune de Debussy. Depois de um dia complicado, como o de hoje, sabe-me bem ambas as coisas, ler o "Um Jeito Manso" e ouvir estas belíssimas composições.
Tenha uma boa e repousante noite.
P.Rufino