Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, abril 01, 2016

O imediato perde história e nome






Isto podia ser a história da minha vida.
O que digo eu? Podia ser? Podia ser, não: é
Passa, e passa bem, da meia noite e agora é que cheguei ao pé do computador. 
Está bem que hoje tive desculpa. Trabalhei até tarde, depois festa de anos, uma alegria, mas daqui a nada tenho que estar a pé que o dia começa como eu não gosto nada que comece: mal ponha o pé no escritório já tenho que ir a correr para uma reunião. Os dias inteiros nisto, sem um tempo para respirar. E se há épocas que me desagradam são destas. Altura de avaliações. Odeio. Eu não devia dizer isto que supostamente não há empresa evoluída que não adopte estas métricas, KPI's (Key Performance Indicators) e o escambau. Dir-me-ão que só existe o que pode ser medido e que a gestão deve ser top down e os objectivos das empresas devem desdobrar-se em cascata até ao nível mais baixo. Tretas. Para mim isto é a maneira de entregar a gestão efectiva, a liderança. o acompanhamento efectivo a uma ferramenta de avaliação. Uma coisa é monitorizar, através de métricas, a evolução da empresa a todos os níveis, que isso é indispensável, e outra, bem diferente, é avaliar o desempenho de cada pessoa segundo metodologias todas xpto, como se fossem a última coca-cola do deserto. Claro que há funções em que as métricas são importantes mas, mesmo para essas e para todas as outras, a avaliação de verdade é sempre subjectiva e vale o que vale. Mas, enfim, é matéria em que estou em minoria e, portanto, não apenas sou avaliada como tenho que avaliar segundo o que está instituído. Da parte que me toca, ao avaliar, nem consigo disfarçar que acho aquilo uma brincadeira de crianças e, portanto, aligeiro o processo. Todos sabem o que penso de cada um pois vou dizendo ao longo do ano, tudo aquilo é, pois, apenas um pró-forma maçador que cumpro porque tenho que cumprir. Tabelas para preencher, objectivos, competências comportamentais, e sei lá que mais (até versejei). Depois comunicar um a um, uma trabalheira. E, se quase todos alinham pela minha bitola, há sempre quem queira levar a coisa a sério ou se sinta injustiçado. Isso é o pior. Não tenho paciência para aquilo, quanto mais para justificar porque é que acho que não são tão proactivos quanto deviam ou que comunicam deficientemente ou outra coisa qualquer.


Enfim. Para quem está desempregado, uma coisa destas é frescura pois tomara passarem por estas chatices mas terem trabalho. E terão razão. 

Mas a questão é que, ainda por cima, esta pincelada das avaliações calha a meio um conjunto de cenas, uma conjugação de complicações, e reuniões e imprevistos e maçadas. Penso (e digo) por vezes, a lastimar-me: andou a minha mãezinha a criar-me para isto. Mas não posso dizer ao pé dela, que ela bem me avisou que eu deveria era ser professora. Se bem que, com o que se tem passado ultimamente, não sei se ainda mantém essa opinião. Provavelmente chegam ao fim do dia com a cabeça mais feita em água do que eu. Também não lhes gabo a sorte.


Pronto, já carpi. E sinto que estou a carpir de barriga cheia pelo que isto é mesmo apenas um desabafo lançado para o espaço.

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E agora, falo de quê? Ando a milhas disto. Nem sei bem o que se anda a passar. Ouvi, ao vir para cá uma coisa chata mas nem quero falar disso. Tenho medo. Tenho medo até de falar. Cruzes, canhoto. 


Vi também no online qualquer que o Rangelinho, o Três Pelos, que coitadito parece um enfezado desde que fez dieta, ainda mais incredível ficou, sempre armado em maria-amélia cheia de chiliques, agora deu para se armar em machão, a querer que o PSD faça mais sangue, parece que acha que o Láparo anda feito mariazinha, que isto não é oposição que se faça. 


Pobrezito. Alguém lhe devia dizer para ensaiar aquela conversa em frente ao espelho para perceber que, coitado, não é possível que alguém o tome a sério. Não é que eu tenha alguma coisa contra os rangelitos deste mundo mas este, em particular, tem falta de qualquer coisa, um je ne sais quoi que lhe falta e sem o qual nunca poderá ser nada a sério nesta vida. Até como deputado europeu já levou um raspanete dos valentes por ir para lá fazer queixinhas, armado em puto mal educado, sobrinho de tia velha, daqueles sobrinhos que, quando resolvem soltar a franga, só fazem disparates -- como se em pequeninos tivessem vivido aperreados e, quando chegam a adultos, desatam a ser uns putos apalermados, sem tino, desorbitados.

Parece também que o Rui Rio voltou àquela de agarrem-me senão eu avanço. Mas ninguém o agarra pelo que ele não consegue avançar.

Mas é uma questão de tempo. Ou o Rio ou outro qualquer haverá de fazer a caridade de tirar o Láparo de cena já que ele não tem capacidades cognitivas para perceber que ninguém o quer em lado nenhum.

Tirando isso, apercebi-me, ao ouvir a rádio enquanto conduzia à hora de almoço, que decorre a comissão de inquérito parlamentar à barracada do Banif. 


Juro que continuo sem perceber para que é que aquilo serve. Parece um confessionário a céu aberto. Dali, que eu perceba, não sai nada que se aproveite. Satisfaz a curiosidade da populaça, obriga uns e outros a humilharem-se ou a inventarem desculpas para nada, as televisões apontadas às cabeças. E os deputados, depois de horas nisto, fazem um relatório -- e está feito. Pedra em cima.

Que eu saiba, no BES, isto não substituiu a investigação judicial nem coisa nenhuma. Ainda se víssemos que, na sequência destes interrogatórios, faziam legislação para evitar mais gaitas destas ou arranjavam mecanismos para controlar incompetências e bagunçadas deste lindo calibre ainda eu acharia que aquilo serve para alguma coisa. Agora assim, abóbora. Voyeurismo, exibicionismo e humilhação gratuita e pouco mais. Ou, então, sou eu que ando por fora e do que me chega só vejo isto.

De resto, uma coisa me deixou assim: Ah..... Com pena, quase sem acreditar.

Zaha Hadid morreu e esta é daquelas perdas que me deixam mesmo prostrada. Já aqui falei dela antes. A sua obra é daquelas que me deixa com a certeza que há pessoas que têm dentro de si sementes divinas. 


Há qualquer coisa nela que é maior do que o normal, uma escala sobre-humana, um arrojo desmedido, uma ausência de medo que é incomum. As suas construções são extraordinárias, mesmo a que não chegaram a ser concretizadas. As linhas que ela desenhava erguem-se aos céus ou deslizam ao longo de terras e mares, como se não houvesse limites a uma imaginação desbragada, como se a desmesura tivesse conquistado o direito a existir mas num estado de absoluta transcendência.

Zaha começou por ser matemática e da geometria espacial transitou para a geometria material, desafiando, aí, todas as convenções.

A gente mediana que gosta de ver nos outros uma humildadezinha barata, incomodava-se com a sua assertividade, a sua segurança, a sua autoconfiança.  Falavam no seu mau feitio mas, do que li, nunca achei que fosse mau feitio mas, sim, falta de paciência para perder tempo a aturar gente parva.

São de trabalhos da intensa Zaha Hadid as fotografias que aqui coloquei ao longo deste post.

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Apetece-me ouvir um poema de Cora Coralina

Saber viver - dito por Juca Oliveira

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Gosto de ouvir dizer poesia, como já vocês sabem, mas, para além disso, tenho sempre que ler um poema. Ao menos um poema. Como habitualmente, deito a mão a um dos livros que paira aqui ao meu lado, abro ao acaso. Foi o que fiz. Partilho convosco:

Nas terras que estremecem com o ardor estival,
O dia é invisível, puro e branco. O dia
é uma estria pungente numa gelosia,
uma febre no plaino, um fulgor litoral.

Porém, a antiga noite é funda como um jarro
de água côncava, aberta a infinitos sinais,
e em canoas, perante as estrelas fatais,
o homem mede o vago tempo com um cigarro.

Com o fumo desvanecem-se as constelações
remotas. O imediato perde história e nome.
O mundo é umas quantas vãs imprecisões.
O rio, primeiro rio. O homem, primeiro homem.


[Manuscrito Achado Num Livro de Joseph Conrad, de Jorge Luis Borges, traduzido por Fernando Pinto do Amaral.]

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Sobre Zaha Hadid


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Quando aqui me sentei, apeteceu-me ouvir a Gisela João a cantar 'O meu amigo está longe', como se estivesse com saudades -- mas sem saber bem de quê ou de quem. Como não tenho tempo nem discernimento para averiguar a razão de ser disto, deixo para os descendentes de Freud a explicação.
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Tal como no outro dia, não consigo reler o que escrevi. Por isso, vai assim, completamente em bruto, escrito à pressa. Relevem as imperfeições, por favor.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.

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2 comentários:

Pedro Soares disse...

Tão bom este texto e esta lembrança e estas palavras e estes poemas. Em bruto, com muita emoção, escrevo para lhe dizer obrigado
Seja feliz.

Um Jeito Manso disse...

Olá Pedro Soares,

E tão boas as suas palavras. Não sabe como é agradável ver que a emoção que, por vezes, sinto enquanto escrevo chega até quem me lê.

Para si também, Pedro Soares, muitas felicidades. E muito obrigada.