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terça-feira, abril 19, 2016

Hospital


Uma vez, à noite, estava eu acabada de sair de um período de acumulação amorosa, e em fase de namoro agudo com aquele que eu, forçada a optar, tinha escolhido, quando me senti com umas estranhas dores no peito.

Durante o dia tinha aulas, saía a correr das aulas para ir ter com o meu namorado ou era ele que vinha a correr para vir ter comigo, passeávamos, andávamos de bicicleta, íamos ao cinema, ao teatro, às gelatarias todas da capital, íamos passear a Sintra, a Cascais, à praia, aqui, ali e acolá, e namorávamos, namorávamos, namorávamos. Não sei se era o exercício que  era demais, se era o amor que não me cabia no peito, se quê  -- o que sei é que, nessa noite, tive umas dores quase incapacitantes que pareciam garras em volta do pescoço. Nunca tal me tinha acontecido nem conseguia perceber a natureza daquelas dores estrangulantes.

Teria uns dezoito anos, talvez, ou dezanove acabados de fazer, não sei bem. E ele uns meses mais que eu. Jovens, apaixonadíssimos, felizes e contentes -- e eu ali, de noite, naquele aflitivo estado. Face àquela crise, ele, assustado, disse que achava que havia uma clínica ali perto. Metemo-nos num táxi e lá fomos. Quando chegámos à recepção, tão aflita eu estava que foi ele que falou. 'Ela está com umas dores, está a sentir-se mal, custa-lhe até a respirar'. E eu, incomodada com aquele aperto doloroso, que sim. A senhora da recepção olhou para mim, interrogativa. Perguntou onde eram as dores. Apontei para o peito e para o pescoço. Ela, com ar estupefacto, disse: 'Isto é uma clínica de obstetrícia, uma maternidade'. Em situação normal, acho que teria desatado a rir mas tenho ideia que não, que devo é ter pensado que não resistia até descobrir um lugar onde me pudessem ver. Sei que dali nos recomendaram uma outra clínica e lá apanhámos outro táxi.

Eram espasmos musculares, já nem me lembro provocados por quê. Tenho ideia que me deram uma injecção, provavelmente um Buscopan e passado um bocado estava boa. Mas ainda hoje me rio quando penso naqueles dois totós, a meio da noite, a aparecerem numa maternidade com queixas de dores no pescoço.
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Lembrei-me disto ao ver o último vídeo da Porta dos Fundos


Hospital


Poucas instituições hoje em dia são tão caretas quanto os hospitais. Particulares, claro. Tirando o "de praxe" - um examezinho, uma receita pra calmante - , o serviço é extremamente limitado. A começar pelo básico: privacidade. Você quer? Não tem. Um lençolzinho de cetim. Você quer? Não tem. Um poledance? Não tem. Hidromassagem. Você quer? Não tem! É foda. Quer dizer, não é.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça-feira muito feliz.

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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

O amor tem dessas coisas. Gostei de ler!!!!