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sexta-feira, abril 15, 2016

As mulheres de Atenas


Depois de segredos e misteriosas e verídicas histórias de amor, volto-me para outros tempos.

Aspásia e Péricles de José Garnelo Y Alda (1866-1944)


(...) Passar da perfeição civilizada de Sófocles e de Platão para a vida grega em bruto é quase como sofrer uma deslocação mental.

(...) Consideremos, portanto, a posição das mulheres em Atenas. É opinião aceite, refutada, que eu saiba, por ninguém (...) que a mulher ateniense vivia numa reclusão quase oriental, olhada com indiferença, mesmo com desprezo. A prova tiramo-la, em parte, directamente, da literatura e, em parte, do inferior estado legal das mulheres. A literatura mostra-nos uma sociedade totalmente masculina: a vida doméstica não desempenha nenhum papel. 

A comédia antiga trata quase só de homens (com excepção de Lisístrata e Mulheres no Parlamento); nos diálogos de Platão os interlocutores são sempre homens; O Banquete, tanto o de Platão como o de Xenofonte, mostram claramente que, quando um cavalheiro convidava hóspedes, as únicas mulheres presentes eram as que não tinham reputação a perder, excepto a profissional; na verdade, na questão de Neera, dá-se testemunho de que uma das esposas jantou e bebeu com os hóspedes de seu marido, como prova presuntiva de que se trata de uma prostituta.

A casa Ateniense dividia-se em: aposentos dos homens, e das mulheres. A parte destinada às mulheres tinha ferrolhos e trancas (Xenofante, Económico). As mulheres não saíam, senão vigiadas, a não ser que se dirigissem a alguns dos festivais femininos. Na tragédia (na Electra e na Antígona de Sófocles) por duas vezes as raparigas são bruscamente mandadas para casa, que é o lugar mais adequado para elas. (...)

Na verdade, as ligações românticas de que ouvimos falar, e com muita frequência, são com rapazes e jovens adultos: o amor homossexual era tido como coisa normal e tratado com tanto à vontade como o heterossexual (...). Platão tem alguns belos passos em que descreve a beleza e a modéstia de jovens rapazes, e a ternura e respeito com que os homens os tratavam. 

(...) A mulher é a dona de casa e pouco mais; de facto, ele [Xenofonte] até diz expressamente que prefere que a sua jovem esposa seja completamente ignorante, para que ele mesmo lhe posa ensinar o que ele quer que ela saiba. 


Aspásia, amante de Péricles
A educação das raparigas era passada em claro; quando queriam a companhia de mulheres inteligentes, os Atenienses voltavam-se para a classe das cultas mulheres estrangeiras, muitas vezes iónias, que eram conhecidas por 'companheiras', hetairai, mulheres que ocupavam uma posição mais ou menos entre a dama e a prostituta ateniense. (...)

Será preciso acrescentar mais? Quando o testemunho da lei se vem juntar ao da literatura (...) não é mais do que evidente que os Atenienses tratavam as suas mulheres com considerável indiferença, a que não será excessivo preferir o termo 'desprezo'? Poderemos duvidar das provas de que, nesta sociedade predominantemente masculina, as mulheres se moviam numa esfera tão restrita que poderíamos muito bem considerá-las como uma 'área de depressão'?

[in Os Gregos de H.D. Kitto; a continuar]
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Da realidade à ficção 

Deusas, mitos
Artemis
[Assim me via um Poeta que muito me amou: eu era Artemis nos seus poemas ao falar de mim enquanto adolescente]
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Mas não. Nem Artemis nem 'mulher de Atenas': etrusca, sempre o disse. 
Façam-me um teste: o meu ADN prová-lo-á.

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E, caso estejam para aí virados, queiram, por favor, descer até à confissão de Beatrice, o amor secreto de Helmut Kohl e à evocação que faço de um segredo muito bem guardado sobre um grande romance de amor de que, em parte, fui testemunha.


5 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Comprei esse livro poucas semanas antes de me mudar para Londres. Não sou entendido no assunto (uma maneira mais sofisticada de dizer que não percebo nada), mas gostei do livro.

Um Jeito Manso disse...

Olá Carlos,

Também gosto do livro. Acho que faz uma súmula abrangente, concisa e bem fundamentada.

E se o Carlos não é entendido, imagine eu. Mas eu, não o sendo, parece que se me sinto mais livre para olhar, com o prazer da descoberta, para o que vou lendo ou relendo.

Um bom dia para si, Carlos. Espero que, por aí, o tempo esteja mais ameno e luminoso do que por cá.

Carlos Azevedo disse...

No meu caso, dei com ele em promoção (5 euros, salvo erro), folheei-o, pedi uma opinião e comprei-o. Do mesmo autor, mais ou menos pelo mesmo preço, comprei «A tragédia Grega» (2 volumes).

Um bom dia também para si. Até agora, pouco luminoso, mas isto muda várias vezes ao longo do dia.

P. disse...

Já Heródoto quando relatava os comportamentos dos Egípcios, dizia que as mulheres egípcias gozavam de um maior controlo das suas vidas do que as suas congéneres gregas, podendo, por exemplo, ser elas a iniciar um divórcio. E podiam ser comerciantes, por oposição às mulheres gregas, que não possuíam essa liberdade, total, de negociar. Embora, a exemplo das outras sociedades dessa época, a função principal das mulheres egípcias, tal como as gregas, assentasse na sua capacidade procriadora. O grande orador e estadista grego, Demóstenes, da Antiga Atenas, costumava dizer: “nós temos as Hetairai para o nosso prazer, as concubinas para os nossos desejos mais comuns e as esposas para a procriação e guardiãs domésticas”. Na desaparecida Etrúria Antiga, as mulheres tinham mais direitos, por exemplo, participavam nos banquetes com os homens, uma prática que era criticada por Teopompo que estava habituado às prostitutas de diverso tipo (Hetairai, etc) nos tais banquetes. As mulheres Etruscas tinham inclusivamente direitos civis e financeiros e os Etruscos consideravam o casamento importante, mais do que um mero arranjo com vista à reprodução. Na Grécia Antiga, algumas Hetairai obtiveram vulto e sucesso, como Teódote a companheira do estadista Alcibíades, Aspásia a amante de Péricles (de quem se contava que o filósofo Sócrates ia a sua casa e terá tido uma relação), Prynea modelo e amante do grande escultor Praxiteles (e do orador Hiperides). Mas, houve outras, que ficaram igualmente famosas (pela beleza e intelecto), sobretudo na qualidade de Hetaeras, como as duas Lais (de quem uma delas o grande pintor Apeles se deixou encantar pela sua extraordinária beleza), a Thais, Sinope, etc. Naera era tão bonita e célebre que os seus patronos lhe compraram a liberdade, ao ponto de ela dizer de si própria “ser a amante de si própria”. Xenofontes, no seu livro “Memórias de Sócrates” dá conta dos amores de Sócrates por outra conhecida Hetairai, a bela Theodote, um misto de mulher independente, vivendo numa casa “de gosto deslumbrante”, segundo crónicas do tempo. E grande estadista e legislador Solon (misógeno e homossexual) determinou, entre muitos outros aspectos, que o homem guardião podia vender uma mulher solteira que tivesse perdido a sua virgindade. Em sua opinião, “as mulheres eram uma fonte perene de fricção e conflito entre os homens”. As mulheres da Antiga Roma tinham, mesmo assim, mais direitos do que as suas congéneres Gregas. Quanto a Artemis (a Diana na mitologia Romana) é fascinante ler o que Sarah Pomeroy escreve num dos seus livros (a “Amazonas” costumavam adorá-la e procuravam assemelhar-se a ela, segundo a mitologia Grega). Fascina-me particularmente Artemisia (Grega de Helicarnassus), a Rainha Ionian, brilhante estratega militar, ao serviço de Xerxes, durante as campanhas das Guerras Persas. A terminar, não deve comparar os costumes daquelas épocas e daquelas civilizações com as de hoje. Embora, se possa comparar com as diferenças dessas civilizações de então. Como as mulheres da Etrúria, os direitos que gozavam, com as suas congéneres Gregas. E as de Roma e da Antiga Grécia.
P.Rufino

Anónimo disse...

Corrijo: "não se deve comparar", e não, "deve comparar", pois assim até parece que me dirijo a si, UJM, quando a ideia era um comentário geral. As minhas desculpas.
Boa noite!
P.Rufino