Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, março 31, 2015

Livros junto ao peito, a nova moda nesta saison. E o rio ao anoitecer, belo e tranquilo. E o Bebedor Nocturno. E Mirleos.


Depois de no post abaixo ter mostrado cuecas adequadas a homens elegantes e a badochas fofos e de, mais abaixo ainda, ter mostrado uma fotografia que Leitor, a quem muito agradeço, me enviou sobre o wi-fi alentejano, aqui, agora, parto para outra.

À hora de almoço fui aos livros. Nada de mais. Vou para ver se há alguma coisa de novo, convencida a só trazer mesmo aquilo sem o que não vou conseguir passar. Mas, quando dou por mim, já estou a folhear sem me conseguir vir embora sem um, sem outro. Ainda hesito, tento controlar-me, mas é irresistível, coisa mesmo mais forte que eu.

Quando fui pagar, a empregada perguntou se queria um saco e disse-me o preço.

Lembrei-me, então, que no outro dia vi, salvo erro na Vogue, que o último grito da moda é usar livros ou revistas apertados contra o peito ou na mão, como se fosse uma clutch ou, na provável ausência de livros, uma clutch em forma de livro.

Na altura achei que aquela parvoíce era mesmo a última coca-cola do deserto, a ideia mais estapafúrdia que alguém podia ter tido. É o disparate completo: as modelos, todas fashion, a andarem todas produzidas e com um livro como se fosse uma carteira. É que não sei se estão a ver: a ideia não é ler o livro ou sequer parecer que se tem um livro, é apenas ter um ar sartorialist, street fashion, uma coisa nessa base.

Pois bem, naquele instante em que a empregada me informou sobre o preço do saco, pensei que isto, de facto, mais vale uma pessoa não se pôr a cuspir para o ar, que é como quem diz: nem mais, não levo saco, poupo os 60 cêntimos e ainda vou toda fashion. E assim vim, uma erudição em quatro volumes junto ao peito, toda eu com aquele ar saison que dá uma alegria primaveril de dar gosto.

Cheguei a casa e vi que um estava repetido (coisa que, de resto, já temia) e, portanto, pouca sorte, lá tenho que o ir trocar. Melhor: agora que estou a escrever, lembrei-me que não o vou trocar coisa nenhuma, fica é para os meus filhos.

Estive aqui a fotografá-los, já sem o repetido, e juntei os que comprei a semana passada. Claro que isto é sobretudo mais uma dose de frustração pois quando é que eu tenho vagar para me pôr de perna estendida a ler como deve ser...? 

Enfim, tristezas não pagam dívidas e, portanto, a alegria é estar rodeada de livros e poder ir espreitando, lendo aqui e ali (e fazer planos para os ler com tempo daqui por uns anos).


E vamos mas é com música para irmos melhor


Shostakovich interpreta o seu Concerto No 2 para Piano 





Do livro do Mia Couto, do Cem Poemas para salvar a nossa Vida e de mais um do Robert Mapplethorpe já aqui deixei alguns apontamentos ao longo da última semana.


Dos de hoje, já aqui estive de namoro com o Mirleos do João Miguel Fernandes Jorge e está a parecer-me um namoro promissor.

Transcrevo o poema Maria Madalena

Requebros do manto vencem o andar
perde-se a folha
onde escreveu o seu saber - ave, que não, o
simples mundo serpenteante

 - Querem mesmo saber de mim?
Os cabelos repousam na clareira dos ombros.
Ela estendeu a mão para que não lhe tocasse.
A meio caminho da cidade, do pântano, o zumbido dos
mosquitos o coaxar das rãs o grito do milhafre
erva queimada, as presas maceram ao sol.
Ele estendeu a mão - É verdade, somos imorais.



Quando saí do trabalho ainda era de dia. Com a mudança da hora, os dias trazem a duração que prenuncia o verão, o sul. 



Belo deslizava o rio no seu leito, e melhor seria
nele mergulhar a boca do que mergulhá-la numa boca de mulher.


[Início de 'O rio' de Ben Jafacha, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



Peguei na máquina e quase tinha vontade de voar para a beira do rio. O meu marido teme estas minhas alegrias de máquina na mão, já sabe que a caminhada não vai ser a limpeza do costume. Ele vai andando e eu fico-me perdida na beleza do pôr-do-sol sobre o rio. E ele, para não me deixar abandonada, anda em frente, depois volta para me resgatar, depois segue e assim sucessivamente - já farto, claro está, e a avisar-me que eu nem pense que vai ser isto daqui para a frente. A ver vamos (como diz o ceguinho).



O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do
crepúsculo sobre a prata da água.

Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado
cujo reflexo mordia as mãos dos convivas.


[Final de 'O rio' de Ben Jafacha, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



Depois, aos poucos, o dia foi caindo, uma beleza sem igual, uma paz imensa, silêncio, apenas o som ligeiro das águas que, aos poucos, vão absorvendo a falta de luz, escurecendo devagar.

E as luzes da cidade foram-se acendendo, aos poucos também, e eu podia ficar ali durante horas a fotografar a serenidade que envolve o rio, o céu, a cidade bela, e sentindo a serenidade macia que me cobre como um véu afável e transparente.



     As mãos da Primavera edificaram, no cimo dos caules, os castelos de açucena;
    castelos com ameias de prata onde, em volta do Príncipe, os guerreiros empunham espadas de oiro.


['A açucena' de Ben Darreach Al-Qastalli, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



E depois a lua escondeu-se numa casa em ruínas e espreitou-me de uma janela aberta como devem ser todas as janelas - mas eu apanhei-a para vos mostrar.



A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o papel branco


['A lua' de Ben Burd El Nieto, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



E então, já noite, vim para casa, feliz da vida, ligeira, leve, despida das preocupações que, ao longo do dia, se vão depositando sobre mim.


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E, para espantar qualquer resto de preocupação ou tristeza que vos cubra, desçam, por favor, até aos dois post seguintes. O humor é um remédio eficaz para qualquer mal.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela e serena terça-feira. 

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