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sexta-feira, fevereiro 06, 2015

A Grécia na boca dos tubarões ou como, sem medo, um gato pode fazer recuar um jacaré


Num mundo que anda às arrecuas, em que a humanidade é desprezada em detrimento da eficiência económica, em que em nome de uma tal de meritocradia se enaltecem os medíocres, em que a saúde e a própria vida humana são factores secundários quando se fazem contas numa folha excel, em que se aceita que uns quantos doentes fiquem sem tratamento, outros morram, ou que uma família após outra entregue a casa, perca a guarda dos filhos e sei lá que mais, eis que um grupo de pessoas se ergue e caminha em direcção à boca dos tubarões, dos senhores da austeridade, dos burocratas não eleitos ou dos arautos do sacrifício humano.

Varoufakis e Tsipras andam a suar as estopinhas percorrendo as capelas todas, tentando evitar o calvário a que os querem votar, tentando evitar mais uma humilhação. Mas nas ruas de Atenas milhares de pessoas desfilaram em silêncio mostrando o seu apoio àqueles que foram eleitos para, em nome do povo grego, tentar recuperar a dignidade para o País.


E eu só espero que Tsipras e Varoufakis aguentem o medo, se mantenham fortes, afirmem a valentia do povo grego na defesa da sua vontade soberana.

Ouvi já mais do que uma vez que, se a dívida grega fosse perdoada, cada português teria que contribuir com cem euros. Nada mais errado a todos os títulos. Por um lado, o que está em cima da mesa é a dilatação do prazo e a renegociação das amortizações tentando indexá-las ao crescimento. Mas, por outro, admitamos que se obriga a Grécia a pagar cada fatia de dívida a que está obrigada. Como a Grécia não tem excedentes que lhes permita satisfazer o serviço da dívida, sempre que o faz endivida-se de novo ao abrigo dos programas de resgate. Ou seja, paga por um lado e endivida-se por outro. Portanto - se a coisa fosse tão simplista como o dinheiro ir da bolsa do contribuinte de um país para a banca de outro país - o que se verifica é que os gregos pagam por um lado aos países mas os contribuintes desse país mandam para lá mais dinheiro. Ou seja, um faz de conta de soma nula. Só não é soma nula para os gregos pois há a agravante de a dívida grega ir aumentando por via dos juros que paga aos bancos. 

Portanto, mais vale deixá-los respirar, reequilibrar a economia, e, então, depois, regularizar o pagamento das dívidas. 

E aplica-se à Grécia como a Portugal (a Portugal que por aí anda, na boca do láparo e dos duartes vírgulas marques, armado em bom, pondo-se do lado dos que querem sangrar os povos - como se nós, Portugal, não estivéssemos a sofrer em macas nos corredores dos hospitais, a perecer sem medicamentos, e tantos, tantos desempregados sem esperança de voltar a trabalhar, tantos sem saber como sobreviver quando o subsídio de desemprego se acabar, tantos que emigraram para Angola e agora a verem-se na contingência de voltar para a pobreza sem esperança).

Ou seja: não vale a pena exigir a um pedinte que nos pague o dinheiro que lhes emprestámos. Não tem esse dinheiro. Mais vale arranjar-lhe emprego, ajudá-lo a trabalhar e, então, com a vida equilibrada, querer que nos devolva o que lhe emprestámos.

Parece-me fácil de perceber, é uma coisa tão simples.


Rihanna by Norman Jean Roy

Tsipras."A Grécia não aceitará mais ordens, sobretudo ordens recebidas por email"



Por isso, só espero que a Grécia saiba conviver com a boca dos tubarões, sem medo, e que, qual indefeso gato, mostre ao jacaré que não é nenhum láparo que tirite de medo, oferecendo-se ao sacrifício.




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