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sexta-feira, janeiro 23, 2015

Salvé Mario Draghi! Venha daí essa injecção de liquidez que já devia ter vindo há uns anos e que, por não ter vindo, tanta miséria causou a tantas famílias. Resta ainda saber se vai ser bem aproveitada mas isso são outros quinhentos. Entretanto, divertido vai ser ver os vira-casacas, os que só queriam austeridade e que agora já aí andam a deitar foguetes como se sempre tivessem defendido a compra de dívida por parte do BCE. Lobo Xavier já mostrou como vai ser. Aos mais sensíveis recomendo que nem ouçam nem vejam porque é pouco recomendável e muito pouco higiénico.


Quem por aqui me acompanha deste o deflagrar da crise financeira sabe que tenho defendido a solução que Mario Draghi hoje, finalmente!, desbloqueou.

Há cerca de cinco anos que os EUA estão a fazer isto, a colocar o dinheiro em circulação. Só gente muito burra (ou forças contrárias anulando-se entre si, ou moscas mortas, ou vendidos) poderia acreditar que o problema português era só português e resultava de esbanjamento, e que a solução para o problema era secar a economia.

Passos Coelho, tal como os que o apoiaram, não sabe - porque, do que tenho percebido, não tem cabeça para mais - que a coisa pior que se pode fazer a um país é secar a liquidez.

Reduzindo o rendimento disponível das pessoas (ou por corte de ordenados, ou por brutal aumento de impostos ou por fomentar desemprego ou emigração), o edifício económico desmorona ainda mais rapidamente.

As absurdas medidas de austeridade acéfala ainda poderiam ter algum efeito benéfico se aplicadas a um país fortemente industrializado e/ou fortemente exportador que aguentasse uma redução abrupta da procura interna. Acontece que, fruto de políticas nefastas - muitas delas do tempo de Cavaco primeiro-ministro - a indústria, as pescas e a agricultura foram reduzidas à sua ínfima expressão e, portanto, embora alguns governos, entre os quais o de Sócrates, tenham tentado (e em alguns casos mais ou menos conseguido) relançar a industrialização, o que acontece é que o tecido económico é muito frágil e, portanto, nunca poderia resistir a uma drenagem como aquela a que se assistiu de há quase quatro anos para cá.

Claro que não foi só Passos Coelho, Paulo Portas, e os que apoiam a actual coligação no poder: não, esta foi a linha Merkel, que alguns cães de fila seguiram.


No entanto, se há país que, em parte, contribuíu para o estado fragilizado das finanças dos países que mais sofreram, esse país é justamente a Alemanha (tal como os outros países que assentam a sua estratégia na exportação pura e dura). A esses países nada convém mais do que países frágeis que importam tudo o que eles para lá querem enviar. Os países frágeis importam os produtos e endividam-se juntos dos seus bancos (vide o caso do Deutsch Bank), e portanto pagam, quer os produtos quer os juros - e os alemães e os seus amigos esfregam as mãos de contentes porque estão sempre a facturar.

Portanto, fomos vítimas da ganância de todos os que gostam de ganhar muito à custa dos mais carentes. 

A vinda da troika serviu apenas para que se pagasse aos bancos alemães e a todos quantos temeram não reaver a dívida. Que, para isso, os portugueses, gregos e outros pobres, tenham ficado ainda mais pobres, que o desemprego aumentasse, que os apoios aos desempregados e pobres tenham diminuido, que os direitos dos trabalhadores tenham ficado quase reduzidos a nada, que o Serviço Nacional de Saúde esteja na miséria que está, que o Ensino Público caminhe para o descrédito, etc, ... isso foram efeitos secundários para os quais Passos Coelho, Paulo Portas e a sargenta Merkel se estão bem nas tintas.

Por isso, só posso ficar contente com a compra de dívida que o BCE anunciou. Comprando dívida, injecta dinheiro.

Mas atenção, ainda não sei bem como é que isto vai funcionar.

O BCE vai comprar dívida aos bancos. E, portanto, quem vai ficar com as contas mais arejadas é, numa primeira análise, o sistema bancário.


Se bem estou a ver, o benefício vai ser indirecto: os bancos vão ter dinheiro livre para emprestar. Estando os juros baixos, as empresas vão poder beneficiar de crédito para se relançarem. Por outro lado, o Estado, tendo menos juros para pagar por via da compra também de dívida pública, poderá reduzir impostos pois a despesa relativa ao serviço da dívida deve ser reduzido.

Isto, sem ter podido ainda ler o que quer que seja sobre o assunto, é o que me parece.

Ora, para que tudo isto reverta favoravelmente para o comum dos cidadãos é necessário que o Governo retome uma política de apoio à economia, quer lançando investimentos reprodutivos, quer apoiando o relançamento da indústria.

[E não é apenas Portugal que deve sofrer um rápido mudar de agulha na sua condução: é também a UE como um todo. Ou a Europa quer afirmar-se como uma potência forte, desenvolvida, coesa, ou nada disto surtirá efeito, será dinheiro que os fundos abutres e outras almas iluminadas não tardarão a farejar, descobrindo a forma de o surripiarem airosa e rapidamente.]

Em Portugal, obviamente que um governo decente (não este desgraçado que ainda está em funções) fará mais do que o que acima referi: relançará em força o apoio ao ensino e à investigação, reconstruirá os serviços públicos vitais ao funcionamento de qualquer país desenvolvido tais como a saúde, a justiça, os apoios sociais. 

Estou a ser minimalista pois não estou em campanha nem quero aqui fazer um programa de governo às três pancadas, mas há uma coisa que eu sei: este miserável governo, constituído por gente que maltratou e humilhou o povo português, não poderá continuar em funções já que durante quase quatro anos defendeu com unhas e dentes as sinistras medidas que quase destruíram o país.

Contudo, há coisas que já se perderam e isso não se resolverá com tudo aquilo de que tenho estado a falar: refiro-me à venda das empresas mais estratégicas a outros Estados ou a empresas estrangeiras de mérito duvidoso. Grande parte do valor criado em Portugal se perdeu ou virá a perder por via da venda da EDP, da REN, da ANA, de bancos, seguradoras, correios, cimenteiras, algumas águas e sei lá que mais.

No meio desta hecatombe, o governo assistiu ainda passivamente à desregulação, queda e desmantelamento de grandes grupos nacionais como o GES/BES e PT.

Tudo isto é uma irreversível perda para o País que lamento tanto, tanto. E, por tanto lamentar quero, com todas as minhas forças, que se abram rapidamente caminhos de esperança.

Não sei quantos anos vão ser precisos e qual a dimensão do apoio de que Portugal vai necessitar para se levantar e poder recuperar alguma da sua soberania e dignidade, e para os portugueses voltarem a acreditar no seu futuro. Mas acredito que a medida de Draghi abre caminho para que um governo decente possa vir a trabalhar nesse sentido e para que a Europa volte a poder ter esperança de ser um lugar de progresso, inclusão e liberdade.

Entretanto, enquanto escrevo estou a ouvir a Quadratura do Círculo e estou espantada, chocada, siderada, com a súbita viragem de casaca de António Lobo Xavier que aplaude a medida do BCE, critica a austeridade, lamenta os anos perdidos em que se andou a destruir valor. Há gente sem vergonha na cara. Já há bocado, ao vir para casa, tinha ouvido um qualquer do PSD a regozijar-se com esta medida com a cara de pau da gente sem vergonha, gente que parece que pensa que os portugueses são mentecaptos e amnésicos, como se toda a gente não soubesse que fizeram de tudo para secar a economia sob o argumento beato de que os portugueses tinham que empobrecer para expiar os pecados anteriores. E li que Pires de Lima é outro que já para aí anda a saracotear-se como se há muito tempo defendesse isto. Que cara de pau, senhores! Gente assim faz mal a um país, caraças!


Mas os portugueses não são parvos e saberão mostrar que estão fartos de ser molestados para nada. Para nada! Anos perdidos para nada. 

Se Passos Coelho e Paulo Portas fossem homens de verdade, se tivessem um pingo de sentido de Estado, demitiam-se já. Já. Já! com ponto de exclamação e tudo. E pudesse eu encher o texto de pontos de exclamação sem, com isso, dificultar a vossa leitura, palavra que o fazia (já que não posso correr com esta laparada e companhia a pontapé)

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5 comentários:

Rosa Pinto disse...

Bom dia.

Comentário lúcido! Quanto aos portugueses ...os anos de ditadura acho que arrasaram com a sua inteligência...

Beijinho

Vitor disse...

Valente,lúcido e destemido texto, estimada UJM .
Disse, MUITO BEM !
Melhores Cumprimentos .
Vitor

Anónimo disse...

Parecem boas notícias. Haja alguém que pense como resolver a crise e não deixe essa gestão à Srª Merckel. Quanto aos tratantes que nos desgovernam, preparemo-nos para muita demagogia nos próximos tempos. Portas, sempre feirante, já começou.
Quanto à Oposição nada sei sobre o que pensa em concreto para o país. Andaram entretidos com uma merda de uma treta, a questão da adopção por caasis homossexuais, como se isso tivesse qualquer relevância para o país e para nos tirar da crise!
Os pequenos Partido de esquerda esvaziam-se, só PCP a mostrar-se, mas dali não vem, ao que se vê, alternativa.
O PS e Costa dão tiros nos pés com aquele absurda decisão camarária relativa ás viaturas mais antigas, com umas preocupações ambientais do raio que os parta! Razão tem o presidente do ACP, Carlos Barbosa, em dizer que quem se lixa com isto é quem tem menos poder de compra e não pode (nem tem, era o que faltava!) comprar viatura nova.
E depois ouve-se falar de outra irrelevância política, para o momento que se vive, o da Regionalização! Um assunto para mais tarde, que ninguém sabe o que pensam quem agora avançou com isso (implicaria devolver o que foi retirado à Província, como as escolas públicas, os hospitais públicos, mais os tribunais, redução substancial do IRC para as empresas que para ali se deslocarem, menos IRS para quem ali trabalha, etc).
Só nos faltava que com estas distracções e irrelevâncias a Oposição deixasse escorregar o que hoje aparece como uma certa vitória para o Outono deste ano, para uma derrota face a estes tresloucados e incompetentes, do Passos/Portas.
Também fiquei um pouco mais animado com esta do Super-Mário. Quanto aos oportunistas, como os que refere, mandemo-los para o Diabo que os carregue.
P.Rufino

Bastardo disse...

E põe-se quem..o chamuças e o seu bando de Xuxas incompetentes!? a governar...!?

Anónimo disse...

Bando de xuxas imcopetentes são a cambada que esta no governo e o seu presidente da republica, meu ele nunca foi nem nunca será. Imcopetentes que nem um sistema informatico num ministerio sabem implementar, ou secalhar sabem e despentearam aquilo td só para meterem documentos na gaveta! Mataram pessoas com o caos na saude...estragaram o que de bom foi feito pelo ensino publico e pela inclusão social, as novas oportunidades eram isso mesmo uma forma de combate à exclusão social dos jovens! Sabe para que bastardo? Para lhe dar um incentivo na vida e impedir que sejam manipulados por gente de maus caminhos que acabam em crime! Tudo o que estes paspalhos fizeram foi destruir a dignidade do nosso povo e nas eleições vão levar a maior derrota da historia. Qualquer lider politico faria melhor do que esses senhores, nao tenho duvidas. A minha indignação é imensa. Boa noite