Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, dezembro 30, 2014

"Aí está outra coisa: a idade. Tanto como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!", disse David Mourão-Ferreira. E pergunta uma Leitora: "As grandes coisas "materiais" têm importância com a idade?"


O post abaixo é dedicado ao humor e mete uma mulher audaciosa e um cavalo marinho - e mais não digo.

A seguir, se não se importam.

Aqui, agora a conversa é outra. A Leitora Rosa Pinto perguntou se as grandes coisas 'materiais' são importantes com a idade.

Mas - uma vez mais o sugiro - vamos com música: Anna Prohaska interpretando Song to the moon de Dvořák, com Eric Schneider no piano. Um som quase divino.








A pergunta, da forma como é feita, é relativamente abrangente e permite-me, à laia de introdução, falar sobre a importância da idade em sentido lato.

Para começar, direi que, seja qual for a perspectiva, a idade importa mas, em minha opinião, não necessariamente no mau sentido. 

É claro que à medida que a idade avança, o corpo vai perdendo resistência e a flexibilidade, a pele vai perdendo a luminosidade, o cabelo vai perdendo a vitalidade. 




Mas em tudo isso pode ser vista beleza, a beleza de um corpo que se vai transformando, assimilando o tempo que passa.

Claro que há também, de vez em quando, o desconforto das articulações que perdem a lubrificação ideal, dores que surgem e custam a passar. Mas, para isso, há tratamentos e, aos poucos, o corpo também se vai habituando a conviver com essa nova realidade. E há a flacidez que não se cura com comprimidos mas que apenas significará decadência se a mente se sentir decadente.

E no amor?

No amor a idade traz maior exigência mas, por outro lado, maior tolerância. 




À medida que se vai conhecendo mais e melhor a vida, vai-se sendo capaz de relevar o que é insignificante e passageiro e vai-se percebendo que não se deve esperar por algo que, de tão perfeito, pode não existir, ou que não se deve contrariar a natureza e que, se o corpo pede uma coisa, deve-se satisfazê-lo sob risco de a oportunidade passar. Da mesma forma, há uma urgência que advém do contador que vai avançando e que impede que se continue a tolerar o que é intolerável.

E no sexo?

No sexo a idade traz um tempo, uma disponibilidade que antes havia em menor quantidade e qualidade e traz um maior conhecimento dos corpos, do próprio e do outro, e uma maior capacidade de entrega e partilha.

E nas grandes coisas materiais, como explicitamente a Leitora refere? 
Por exemplo (digo eu), conhecer grandes hotéis, frequentar os mais caros e luxuosos restaurantes, fazer grandes viagens e consumir sem limites, adquirir roupas de marca custem o que custarem, ter casas requintadamente decoradas com peças assustadoramente valiosas?
Penso que, à medida que a idade avança, tudo isso vai perdendo relevância. Claro que há aqueles para quem a vida apenas faz sentido em função do que conseguem possuir ou experiências exóticas e dispendiosas que conseguem averbar no curriculum - mas com esses eu não me identifico, pelo que por eles não falarei. 




De facto, a mim, isso pouco me diz e cada vez menos. Cada vez aspiro mais à simplicidade, ao valor intrínseco do que é genuíno - ou porque seja puramente natural ou porque resulte do trabalho amoroso de alguém. 

Fiz estas fotografias in heaven durante este fim de semana. O sentimento de deslumbramento que tenho
perante a perfeição de uma pequena flor que desponta no junquilho, 
ou perante os bocados do tronco do meu grande pinheiro que tombou num dia de vendaval e cuja memória preservo, contemplando a beleza da rugosidade que os cobre, 
ou perante a sumptuosidade efémera da flor do aloe vera 
ou, ainda, perante as cores suaves da rocha, entre o azul e o dourado, que se tornam ainda mais belas quando entrevistas numa tarde fria junto aos braços de um pinheiro que dança ao sabor de um vento vagaroso 
é um sentimento imenso, que me empolga, que me fascina. 

Fico perante as cores da rocha num estado de encantamento muito puro e inocente que não se compara ao prazer mundano de frequentar um bom hotel, toco a macieza da sua superfície humedecida e é-me bem mais agradável do que sentir uma cara caxemira, debruço-me e quase venero a perfeição quase intangível da pequena flor como não veneraria uma dispendiosa peça de joalharia.


D & G - 2015


Mas, dito isto, tenho que reconhecer que também não me é indiferente um confortável quarto de hotel com uma bela vista, uma obra de arte que me provoque ou um livro bem encadernado e ilustrado, uma peça de vestuário principescamente costurada - essas grandes coisas materiais.


D & G - 2015


Mas isso é uma coisa e outra é gastar fortunas ou decidir o que gosto ou não gosto em função de modas, de marcas, de prestígios exibicionistas.
[Por exemplo, alguns dos quadros que tenho aqui na sala onde agora estou, e dos que mais gosto, adquiri-os por poucos euros num pintor que vendia a sua arte na rua, mais concretamente na Plaza Mayor em Madrid.]
Importante é a alegria, o gosto pela vida, os afectos, os sorrisos, a beleza das palavras, o apelo de toda a arte, o desafio infinito do conhecimento, o conforto maternal que vem da natureza - e essa importância vai crescendo à medida que a idade nos vai dando a faculdade de melhor abrir o coração e a mente. E as mãos.

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A propósito de tudo isto e da beleza da idade e da importância das grandes coisas imateriais, deixem que vos mostre o vídeo com o novo anúncio Dolce & Gabbana (Verão 2015) - a sensualidade mediterrânica, o convívio entre os dois sexos, entre as várias idades (as mulheres de idade são maravilhosas), as influências de Espanha e Itália misturadas e em festa, tudo é magnífico.





E viva a vida, em qualquer idade!

...   ...

E, se é para glorificar coisas que verdadeiramente importam nesta vida, como a beleza e a partilha, e rir e mandar os preconceitos às urtigas, pois então que entre o Freedom Ballet: esta é uma das formas de honrar a beleza imaterial do movimento e da liberdade dos corpos

6&7





...   ...

E se é para deixar que as palavras nos levem no seu voo imaterial, que se chegue a nós o Pedro Lamares e diga "Metade" (Oswaldo Montenegro)

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também





...   ...

E se é para ajoelharmos perante a beleza imaterial de seres que, de tão belos e intemporais, quase poderiam ser delicados anjos, pois que dancem para nós as medusas Água-viva-juba-de-leão, Cyanea capillata, a Urtiga preta do Mar, Chrysaora achlyos, a Medusa da Lua, Aurelia aurita e a Provocação do Mar, Chrysaora fuscescens. 


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores


(in O fundo do mar de Sophia)




...   ...

Nunca quando eu era menina e jovem mulher pude deleitar-me tanto com a infinita vastidão da beleza que está agora ao meu alcance e com a qual antes mal conseguiria sequer sonhar. Menina deslumbrada perante a imensa beleza que me cerca sou eu agora.

Elegantes medusas, sublimes cantos, poemas, danças, sorrisos, palavras que chegam vindas não se sabe de onde, essas sim são as verdadeiras coisas que materialmente importam - e isso sei-o agora, agora que a idade vem deixando as suas marcas de beleza no meu corpo.

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Relembro: a divertida história da mulher que queria porque queria um cavalo marinho é já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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5 comentários:

Anónimo disse...

De facto a idade traz-nos uma outra dimensão da vida até ai não-sentida. Estava para escrever desconhecida, mentiria, pois sabia existir e os poetas são os anjos que nos transportam para esse mundo. Se sempre gostei de poesia e em parte a Sophia o devo (foi ela que me abriu esse caminho) mas hoje sinto a poesia dela e toda a poesia de um modo diferente. Acrescente-se a isto a magia de amar um poeta (de carne e osso), esses seres etéreos, fugídios qual lucifer que tanto transportam a luz como a sua ausência, soberanos e instáveis. Costumo dizer que morrerei tranquila porque com o meu amor-poeta SENTI, finalmente, o que é o amor que eles tanto cantam.

*

Antes de mais peço desculpa por não ter respondido ao seu post em que desejou boas festas a cada um dos que se identificam como "abitués" da sua casa mas sei que a "umjeitinho" sabe que embora sem pegada no meu coraçao e pensamento lhe retribui. Obrigada pelas palavras que me deixou. Souberam-me a um beijo repenicado na face :) E sim sou uma guerreira: uma Bracari. "Appianus, historiador romano de etnia grega,fazendo referencia às mulheres guerreiras dos Bracari que lutavam contra as invasões romanas em defesa da sua terra "nunca recuando, nunca voltando as costas ou gritando de medo", preferindo a morte ao cativeiro."

http://callaici.blogspot.pt/2009/10/os-callaici-bracari.html

*
https://www.youtube.com/watch?v=rPrRpa2yie4

*
https://www.youtube.com/watch?v=-EgpCh7j78g

Madrugada, o porto adormeceu, amor,
a lúa abanea sobre as ondas
piso espellos antes de que saia o sol
na noite gardei a túa memoria.
Perderei outra vez a vida
cando rompa a luz nos cons,
perderei o día que aprendín a bicar
palabras dos teus ollos sobre o mar,
perderei o día que aprendín a bicar
palabras dos teus ollos sobre o mar.
Veu o loito antes de vir o rumor,
levouno a marea baixo a sombra.
Barcos negros sulcan a mañá sen voz,
as redes baleiras, sen gaivotas.
E dirán, contarán mentiras
para ofrecerllas ao Patrón:
quererán pechar cunhas moedas, quizais,
os teus ollos abertos sobre o mar,
quererán pechar cunhas moedas, quizais,
os teus ollos abertos sobre o mar.
Madrugada, o porto despertou, amor,
o reloxo do bar quedou varado
na costeira muda da desolación.
Non imos esquecer, nin perdoalo.
Volverei, volverei á vida
cando rompa a luz nos cons
porque nós arrancamos todo o orgullo do mar,
non nos afundiremos nunca máis
que na túa memoria xa non hai volta atrás:
non nos humillaredes NUNCA MÁIS.

GG

Vitor disse...

Lindíssimo post" !
Diz, TUDO, sobre a Pessoa que é, estimada UJM .
Melhores Cumprimentos com sinceros Votos de Boas Entradas e Feliz Ano Novo para si e sua Família.
Muito grato pela delicadeza de sua referência à minha pessoa como leitor atento e apoiante dos seus Belos " post´s", sempre .
Vitor

Rosa Pinto disse...

Boa tarde.
Adorei.

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.-Vinícius de Morais

E sim - o amor, todo o tipo de amor, dá sentido à vida.

Beijinho

Anónimo disse...

A idade e outras coisas, como amar em determinada idade, levou-me a pensar em dois casos distintos, que conhecemos: num, com um amigo, de 60 anos, que depois de se ter divorciado há uns 20 e ter levado uma vida preenchida, com mulheres que foi conhecendo, embora sem nunca se fixar em nenhuma, “resolveu” apaixonar-se agora. A coisa não correu lá muito bem, todavia. Ela 52, também divorciada, há uns 10, embora sem filhos, com alguns “gostos bizarros”, ao que nos contou (para meu divertimento), estava mais numa onda de “deixar andar e gozar a companhia dele, sem compromissos de maior”. Ficou surpresa, para não dizer perplexa, com o estado de alma do nosso amigo (tipo: "paixão? Mas o que é que te passou nessa cabecinha? Nah, só amizade entre lençóis!”). O “rapaz”, excelente tipo, ainda em belíssimo estado de conservação, com “saída” junto do “meio feminino”, que nós julgávamos à prova de bala contra “fraquezas de coração”, foi-se abaixo. Andou ali que parecia uma árvore caduca. Um mocho, pouco falando (ele que era um palrador). Só lhe faltando ler a poesia toda da Florbela Espanca (uma grande Poetisa, sublinhe-se, à parte). Lá o animamos. Continua “ferido de asa”, um triste. Mas, já vai dando sinais de recuperação. O pior, foram os amigos, pois, quando esperava encontrar ombros onde carpir mágoas de amor, chocou com “espantamentos” (“enamorado, com a tua idade? E com ela, havendo outras com melhor cabeça e “tutti quanti”? Homem, assenta! Estás bem? Etc.). Lá vai, aos poucos. Quer-me parecer que aquele coração em rebuliço ficará uma pedra, para o futuro. Para prevenir idênticas “emoções”; Noutro, uma conhecida, 62 anos, também bem conservados (ainda bem que as mulheres actualmente se mantém viçosas para todo o sempre! De cada vez que me lembro de umas tantas tias velhotas, que, coitadas, envelheciam antes do tempo!), divorciada há uns 15 anos, filhos crescidos, depois de uma anterior relação menos bem-sucedida, surge-lhe outra aqui há 1 ano. Ele um pouco mais novo. Estava a correr bem, mas o “rapaz” fazia de alguns aspectos da sua vida privada, segredo. Um estilo que pelos vistos não resulta. Mistérios em relações amorosas não é receita para sucesso, ao que percebemos. E, claro, lá vieram as exigências, “ou tudo em pratos limpos, sem mistérios, ou nada mais!”. Vivendo no estrangeiro, o “galante” deveria querer preservar alguma intimidade (como eu o compreendo!). Em teoria – a meu ver, naturalmente – a solução parecia boa. Encontravam-se com frequência, mas ela cá, ele lá. E, quando se encontravam, o que sucedia com regularidade q.b, dada a distância de um voo de 2h e tal, era uma festa. Assim, de novo na minha humilde opinião, o amor era como a chama olímpica, que nunca se apagaria. Mas, não. Ela não aceitou. E a relação morreu por defeito. Agora, ambos (aqueles nossos amigos) estão sem vontade de festejar o fim do Ano. Oxalá que o próximo lhes traga “novas venturas amorosas”, foi o meu desejo de amigo, a ambos. Sou assim, amigo do peito e do coração. Gostei das poesias de GG e Rosa Pinto!
Bom Ano Para si e seus!
P.Rufino

Rosa Pinto disse...

O enamoramento pode ocorrer em qualquer idade, não há lei, não há regra, acontece porque sim. Há quem nunca se apaixone, há quem diga que está apaixonado por vários(as), há quem só se apaixone uma vez na vida... O mesmo se passa com os tipos de relacionamentos – será que existe o perfeito? Já li o Alberoni e não cheguei a uma conclusão tipo 2+2=4.
Ridículo? – lá dizia o outro: todas as cartas de amor são ridículas….
Quando nos “divertimos” com as paixonetas dos outros - ai maldita nostalgia (acreditem) !!!!!
Bom ano e boas paixões.
Beijinho.