Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, setembro 10, 2014

O que é a beleza? O que é uma mulher bonita? E se a beleza for fruto da maquilhagem ou de plásticas? E é isso relevante para o amor? Ou para alguma coisa?


No post a seguir falo do primeiro debate televisivo antes das primárias entre os dois candidatos à liderança do PS. Judite Sousa, essa mulher que está a revelar ter rara fibra, moderou as contendas. Debates como estes não esclarecem nada em termos programáticos, dois minutos para cada resposta não dão para aprofundar coisa alguma, mas, em contrapartida, desvendam de forma algo brutal o que é a personalidade e o carácter dos candidatos. António Costa e António José Seguro, de certa forma, desnudaram-se perante nós.


Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, retomo o texto que há uns dois dias já tinha começado. Já está um pouco fora de tempo. Vim do Algarve no sábado à tarde mas parece que já foi noutra era. O tempo na cidade corre muito depressa. Por isso, é hoje ou nunca que o completo.

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Um hotel grande e cheio é uma espécie de micro cosmos. Gosto de observar tudo e, muito em especial, as pessoas. Tivesse eu mais descaramento, pedia autorização para fotografar algumas pessoas e fazia-lhes perguntas, tentava perceber a sua história. 









No outro dia, na piscina interior que é a que prefiro quando o tempo cá fora está fresco, estava um casal que podia ser árabe ou talvez indiano, não consegui perceber bem nem pelo tom de pele ou feições nem pela língua que falavam. Mas deveriam ser muçulmanos: ambos vestidos de preto, sentados na escada da piscina, dentro de água. Ele tinha calções justos pelo joelho e blusa de mangas compridas, ela calças justas até aos tornozelos, blusa de gola quase alta e mangas compridas, tudo justo, de lycra, e uma criança de uns cinco ou seis anos também vestida de alto abaixo mas de azul. A criança tinha medo da água, estava com um colete insuflado e não largava os pais. Os pais sorriam. Quando passei por eles, e passei várias vezes, eles sorriam-me e eu sorria para eles. Depois eu fui pôr-me debaixo de uma das cascatas e ela sorria e falavam ambos a sorrir, enquanto olhavam para mim. Quando saí, ela foi a andar pela piscina e foi lá pôr-se, sorrindo imenso, sorrindo para mim como que contente por estar a fazer o mesmo que me tinha visto fazer e o marido sorrindo para ela. A criança chorava desalmadamente ao ver a mãe debaixo daquele cacho de água mas eles sorriam. Depois o marido tentou nadar mas não sabia, dava umas braçadas com grande falta de jeito mas sorria e a mulher sorria para ele. Não estava mais ninguém na piscina, eles estavam à vontade e eu também lhes sorria quando eles sorriam. Poderiam parecer ridículos assim naqueles propósitos mas, a meus olhos, não achei nem um pouco. Fiquei a simpatizar com eles. Quanta diferença para eles a nossa cultura e, no entanto, ali estavam numa situação de compromisso, todos vestidos dentro de água mas tão enternecidos um com o outro.


Passado um bocado chegou um homem enorme, andar confiante, um bocado gordo, seria talvez um alemão. Mas tão alto era que quase não parecia gordo. Nessa altura o casal com a criança saíu da água e foram-se embora, embrulhados em toalhas.

Meio mundo anda agora com tatuagens, nuns casos só se vê quando estão despidos mas há casos de pernas e braços que desfeiam completamente quem os tem. Flores, pássaros, tartarugas, símbolos orientais, frases, desenhos que não entendo. Mulheres com aspecto normal e com as pernas e braços tatuados de alto a baixo. Fica estranho, não vejo beleza naquilo. E, no entanto, lá andam com manifesta auto-confiança, achando belo aquilo que eu acho feio.

Mas o dito grandalhão tinha uma tatuagem horrenda. Uma cara de bebé em tamanho natural e com as cores de uma cara de bebé, cara cor de rosa, cabelo louro, olhos azuis. Mas feio de dar dó. Ora o estúpido é que a criança poderia até não ser feia mas, com a barriga do pai dilatada como estava, a criança parecia deformada, estranha, desumana. Que ideia mais estúpida a daquele homem. Devia ser a cada do filho ou filha em bebé mas deve ter-se esquecido que, para a criança se conservar linda como devia ser, ele teria que se manter esbelto como era quando se fez tatuar. Imagino a cara daquele bebé quando o pai tiver refegos ou peles no lugar da barriga. No entanto, ele, se calhar, ainda gosta de se ver com aquele rosto com aspecto aterrador gravado no seu corpo. Imagine-se, se um dia se separa e volta a arranjar namorada, o susto de horror que ela soltará quando o homem se despir. Credo. E, no entanto, ele parecia ostentar aquela obra de arte com orgulho, como se achasse bonito, como se se achasse bonito com aquilo.


Mas aquilo de que eu me estava a lembrar quando comecei a escrever isto era de um casal de idade indefinida. Não eram já novos, eu diria que uns quarenta e muitos, ele talvez já passasse dos cinquenta e ela, se os não tinha, andaria perto. Ambos pouco dotados em termos de beleza. Num homem disfarça mais - este era mal jeitoso, mal acabado, mas a coisa não era dramática - mas nas mulheres a coisa fica mais exposta. Coitada, mesmo feiinha, cabelo muito fraco e baço, boca com um riso feio, as gengivas de fora quando se ria, pele com problemas, toda ela feiinha mesmo. Tinham um filho, um menino de uns sete ou oito anos, também não muito bonito mas muito simpático, que ambos tratavam com desvelo de avós. Ao princípio, pensei que eram os avós do menino mas logo ouvi a criança a tratá-los por pais. Mas o que me enterneceu mesmo foi o amor entre eles, sorriam-se, trocavam olhares cúmplices, volta e meia as mãos tocavam-se, um afecto indisfarçável. Quando ela se levantava para ir buscar alguma coisa, ele ficava a segui-la, nitidamente achando-a linda. A beleza deles passou para plano muito secundário depois de assistir à ternura entre aquelas três pessoas. De cada vez que o miúdo dizia alguma coisa, eles sorriam embevecidos e olhavam na minha direcção como que para ver se eu tinha ouvido aquilo que eles achavam uma prova da inteligência ou graça do filho. E eu sorria também, para que soubessem que tinha testemunhado o momento e que compreendia a razão de tanto embevecimento.


Sempre trabalhei em empresas com muitas mulheres (não em funções de gestão mas noutras). Havendo muitas, há de todos os tipos. Tenho constatado que é normal que as mulheres feias e mal jeitosas, tenham vidas conjugais mais estáveis e, aparentemente, mais felizes do que as que são espampanantes.

Sempre houve mulheres que se destacaram. Lembro-me, em particular, de uma que era (e ainda deve ser) o chamado avião, aquilo a que dantes se chamava uma brasa. Toda ela, da cabeça aos pés. Ela sabia disso e usava e abusava da sua beleza e do seu corpo escultural. Toda ela era um convite explícito. Eram-lhe atribuídos inúmeros romances e sei, de fonte certa, porque era notório que sim e porque ela o confessou a outros que não fizeram disso segredo, que teve vários casos com vários homens casados, geralmente colegas com posições de relevo na empresa. E, no entanto, com aquele corpo e aquela cara de pecado, devia ser das poucas que não tinha marido, namorado ou relacionamento de que falasse (talvez porque eram sempre clandestinos). Talvez seja a síndrome das mulheres belas demais: são tão desejadas que às tantas querem tudo o que se lhes oferece de bandeja, ou esperam sempre que algum deles largue a respectiva mulher para ficar com ela e geralmente não largam. Era tão bela e, no entanto, aparentemente, tinha uma vida afectiva menos realizada do que as amigas feias com quem trocava truques de maquilhagem. Volta e meia ia para o corredor perto da casa de banho telefonar e por várias vezes a ouvia a discutir, que tu não tens razão, que porque é que dizes isso, que diz lá o que é que eu disse para tu dizeres isso. Mudavam os affaires mas os dramas eram sempre do mesmo tipo.


Vi e fotografei vários casais passeando na praia, especialmente casais de alguma idade. Noto que se tornam quase parecidos tal a afinidade entre eles. Enternecem-me os casais que, apesar da idade avançada, caminham de mãos dadas ou que vão andando e conversando, as palavras como elos de afecto que se vão desdobrando e abraçando aqueles corpos moldados pelo tempo. Interrogo-me sempre: porque é que se desprezam os velhos apenas porque são velhos? Porque se pretende que, por serem velhos, não devem expressar opiniões públicas? Porque se acha que ficam ridículos os velhos se manifestarem jovialidade? Porque é que as mulheres escondem ou disfarçam a idade? Uma mulher ou um homem podem ser tão belos, sendo velhos, enrugados. E a opinião de um velho é preciosa: ela contém uma vida inteira de vivência, contém despojamento, verdade, compaixão.


... & ...



Não sei bem qual a moral da história. Nem sei se há grande ligação entre tudo isto que fui escrevendo sem grandes preocupações de coerência. Não sou boa com coisas do foro da moral. O que sei é que a beleza não é livre trânsito para coisa nenhuma e que ninguém deve sentir-se infeliz por não seguir os cânones de beleza, tal como ninguém se deve tornar vítima da procura de um ideal de beleza que, muitas vezes, é artificial. E sei também que a beleza - em abstracto - é indefinível. Quem o feio ama, bonito lhe parece.

Nesta era de revistas de moda e beleza para todos os gostos, de blogues que têm milhares de visitas diárias por divulgarem dietas, truques de maquilhagem ou sítios onde se vende roupa da moda, há uma campanha que despertou a minha atenção. Chama-se Stop The Beauty Madness e anuncia-se dizendo:


There Comes A Time When You Have Simply Had Enough
Enough of the impossible standards. Enough of the "ideal" image. Most of all, enough of the feeling of NOT ENOUGH when it comes to your own beauty. There also comes a time when an entire culture of women have had it. When blogs and ad campaigns and AS-IS selfie pictures start to change the rules of the game.


Algumas mulheres já aceitaram divulgar as suas fotografias sem maquilhagem e a surpresa é grande. Afinal a beleza que desperta inveja é muitas vezes construída. De facto, quando se levantam, têm as mesmas imperfeição que qualquer mulher normal tem. Algumas já se expuseram: Jennifer Lopes, Kate Perry, Gwyneth Paltrow. Susana Vieira. E muitas mais.







Depois desta conversa e destas imagens todas, e para rematar, escrevi uma frase que tinha a ver com felicidade, beleza, genuinidade, afecto. Mas depois apaguei, soava-me a lugar comum. Não é que as principais linhas mestras da vida sejam incomuns ou apenas possam ser expressas através da grande literatura ou de pensamentos profundos mas, enfim, para dizer o óbvio mais vale ficar calada.


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A canção lá em cima é interpretada por Marta Dias com António Chainho e chama-se Fadinho Simples.

O último vídeo mostra um excerto do filme 'Cet amour-là' com Jeanne Moreau e Aymeric Demarigny fazendo, respectivamente, de Marguerite Duras, então uma mulher velha, e Yann Andréa, um homem jovem, seu amor e companheiro de fim de vida, aqui ao som de Capri, c'est fini. O filme baseia-se no livro homónimo de Yann de quem já em tempos aqui falei.

As primeiras imagens pertencem à campanha Stop the Beauty Madness e as últimas mostram actrizes conhecidas pela sua beleza e sensualidade fotografadas sem e com maquilhagem.


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Relembro: sobre as minhas impressões a propósito do debate entre António Costa e António José Seguro na TVI com moderação de Judite Sousa, é favor descerem até ao post seguinte.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira!


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3 comentários:

Anónimo disse...

Isto de beleza é, de facto, relativo. E o que aqui diz acaba por ir nesse sentido. É pena que neste mundo de hoje se use e abuse no recurso a mil e uma formas de transformar o natural em artificial. Há mulheres que são naturalmente bonitas, sem necessitarem de recorrer demasiado a maquilhagens e assim deveria continuar a ser, mas a publicidade, o mercado, as vendas, acabam por interferir. Aqui há cerca de um mês, mais coisa menos coisa, numa pequena Vila da Província, quando entrei numa espécie de lojinha local “gourmet”, para comprar uns queijinhos, enchidos, compotas, azeite e vinho, reparei numa das raparigas que nos atendia, vinte e tais anos, sorriso aberto e franco, uma simpatia e que possuía um rosto muito bonito. Sem qualquer maquilhagem. Era uma daquelas belezas naturais, ali à nossa frente. Pus-me a pensar se ela tinha consciência de que era de facto muito atraente (tinha igualmente um corpo bem feito, sob umas jeans). Ora, eu prefiro ver uma beleza assim, do que toda “tratada”. Num jantar onde estive ontem, encontrava-se uma dessas, “tratada”, impecavelmente maquilhada, sem dúvida atraente, mas havia ali algo de excessivo, pelo menos para o meu gosto. Algo artificial. Não trocaria a jovem da Província, por aquela da cidade.
Isto de as mulheres recorrerem à maquilhagem, com vista a promoverem a beleza dos seus rostos, já vem de há muito. Provavelmente, desde os primórdios. No Antigo Egipto, as mulheres, sobretudo das classes socialmente mais elevadas, da aristocracia, segundo alguns relatos históricos, dedicavam uma boa porção de tempo a arranjarem-se, sobretudo os seus rostos.
A rainha egípcia Nefertiti – cujo nome, Nefertiti, significava: “a Beleza chegou” -, consta, tinha esse particular cuidado.
Hortense Scheiner, soprano francesa dos finais do Séc. XIX (e cortesã), que terá tido um caso com Offenbach, bem como com certa realeza, como Eduardo VII (era conhecida como “le Passage des Princes”) parece que igualmente dedicava algum do seu tempo no cuidado do seu rosto.
P.Rufino

Pôr do Sol disse...

Tambem a beleza, como quase tudo, é relativa.
Conheço pessoas, jovens e não só, que, segundo os padrões impostos, de bonitas nada têm. Têm olhos pequeninos, boca e nariz grandes, traços pouco correctos. No entanto a simpatia e o encanto que emanam fazem esquecer tudo isso e achamo-las invulgares e carismaticas.

Recordo agora uma frase com que, há dias o meu marido observando um grupo de jovens numa esplanada, se saíu: as raparigas agora são todas iguais, parecem uma caixa de fruta calibrada, dos cabelos aos calções à postura. E eram mesmo assim.

Tambem não consigo encontrar beleza nos corpos tatuados. Uma pequenina flor, uma estrela ou borboleta ainda compreendo.
Mas corpos totalmente "grafitados"(como diz a minha neta)não acrescenta nada à beleza e causa-me uma certa repulsa.

Enfim gostos que se não devem discutir mas para mim são de lamentar.

Beijinhos e boa reentrée

FIRME disse...

TENHO UMA PESTINHA ,12 ANINHOS QUE CLARO QUER SABER DE TUDO...Eu que gosto muito dela,lá vou respondendo,como? posso...VIU-ME NO MEU BRAÇO ESQ. ISTO: ANGOLA/73-75...Bronca! AHHHHHHHHHHHHH,ENTÃO gostas de tatuagens???? DOEU? Perguntou ela.Disfarçando,respondi,já não me lembro,mas Acho que sim !!!Foi há 41 anos,,,!Nunca mais me tocou no assunto! Espero,que tenha percebido o que eu quis dizer...! A Mãe ,disse-me há dias ,que a pestinha nunca mais se interessou por tatuagens!QUANTO MAIS NATURAIS,MAIS BELAS SOIS,MULHERES! MESMO AS MENOS?BELAS...É 1 opinião,vale o que vale...