Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

terça-feira, setembro 09, 2014

Missa do 1º mês mais uns dias pelo moribundo BES (que ainda não morreu) e encomendação de algumas almas. Quando o Novo Banco começar a funcionar logo faço aqui a missa do baptizado. Hoje limito-me a trazer a Quadrilha e a dançar em volta do Buraco.


Pedro Queiroz Pereira, primeiro, e José Ricciardi depois, denunciaram a situação de sobre-endividamento do Grupo Espírito Santo e de basculação de liquidez do Banco para o Grupo e, em sentido inverso, o basculamento de dívida periclitante para dentro das contas do Banco.

O Expresso e o Jornal de Negócios pegaram no assunto e, quando Pedro Santos Guerreiro transitou para o Expresso, pôs de vez a boca no trombone.


Carlos Costa foi, então, obrigado a chegar-se à frente. Mandou de castigo para casa Ricardo Salgado e pediu que ele indicasse sucessor. Mais tarde, Carlos Costa veio a dizer que desde Outubro do ano passado que já andava de olho no que se estava a passar. Veio a dizer, através de informação que foi mandada plantar nos jornais, informação essa devidamente papagueada pelos papagaios e catatuas do regime e da comunicação social, que tinha blindado o BES e que este não apenas estava imune ao regabofe que ia no Grupo como tinha até uma sólida almofada financeira. O aumento de capital social do BES destinava-se mesmo a isso, a aumentar a estabilidade financeira do banco.

Lembro-me, mas ó tão bem, de como a papagaiada tecia loas ao Governador e como afirmavam, serenos e convictos, que o assunto BES não tinha nada, mas ó nada mesmo, a ver com o caso BPN.

Supostamente também com base na informação do Banco de Portugal, Passos Coelho e a sua chefe, a ministra das Finanças, vieram dizer que não havia problema nenhum com o BES mas sim com o GES e que, de qualquer forma, não havia plano nenhum para agir no banco, que o problema do banco era dos accionistas, que o Estado não tinha nada que ajudar privados. Os papagaios rejubilaram, assim é que é!, as catatuas aplaudiram e as galinhas da oposição continuaram entorpecidas.

Disse supostamente pois custa-me a crer que não haja no Ministério das Finanças uma única alma que se dedique a acompanhar o sistema bancário, que estejam todos intelectualmente dependentes da informação que lhes é dada à boca pelo BdP. E quem diz o Ministério das Finanças diz também o adjuntinho do láparo, o trokinhas. Tantos testes de stress, tanta coisinha e tão competentinho que ele é todinho e passou-lhe tudo ao ladinho? Ó que belo comissário que ele vai ser, tadinho.
Adiante.

Ricardo Salgado indicou como sucessor o seu braço direito, um Sr. Silva, digo o Sr. Amílcar, leal súbdito. Carlos Costa não disse nem sim nem sopas e o Expresso dizia que a escolha não agradava lá muito ao senhor Costa mas que a Assembleia Geral que dissesse. E a equipa de gestão manteve-se em gestão e Ricardo Salgado, em vez de ir para casa, continuou a tratar do expediente já que não havia sucessor em funções e um barco daquela dimensão não pode ficar sem comandante.

Enquanto isso, o Expresso continuou a lavar a roupa suja do Grupo em público. Ora era o investimento da PT sem se perceber como, ora era a bandalheira em Angola, ora eram os empréstimos com garantias cruzadas e efeito nulo.

De cada vez que o Expresso fazia nova barrela, o inefável Carlos Costa dava mais um soluço. O Sr. Amílcar Pires não!, veio então a balbuciar. E que tinha é que ser Vítor Bento, homem sério (embora sem experiência como banqueiro mas isso de se ser banqueiro em Portugal já não é medalha, isso já é bafo de onça, por isso que venha gente sem cadastro). 

Mas o Vítor Bento, que não tem apenas a cabeça pelada, tem o rabo também já razoavelmente coçado, disse que só ia quando Ricardo Salgado e restante pandilha fechassem as contas. Carlos Costas, como de costume, disse que sim.

E, portanto, o BES continuou sem outra gestão que não a de sempre: a da equipa de Ricardo Salgado.

Enquanto isso, o Governo foi a banhos. Entrevistado na Manta Rota, Passos Coelho reagiu como se o BES fosse drama de desocupados lisboetas: que estava tudo bem, tudo controlado, nada que lhe dissesse respeito. 

Nas televisões continuava a louvar-se o fantástico papel de Carlos Costa: tinha prevenido tudo, o BES estava solid as a rock, refastelado numa folgada almofada financeira de centenas de milhões.

Mas o sacana do Pedro Santos Guerreira, sempre pronto a atirar baldinhos de água fria, dava a entender que não.

Claro que, perante tanta delonga, semanas nisto, suspeitas, dúvidas, gente que reage a pedal e que demonstra que não é capaz de ver um boi à frente dos  olhos, o dinheiro começou a fugir do Banco. A PT, os petróleos da Venezuela, grandes depósitos de empresas e particulares, tudo a fugir de lá. Em situação de chatice, ficam defendidos os depósitos até 100.000 euros por depositante. Mas, quem tem muitas centenas de milhares ou milhões, safa enquanto é tempo!

Claro que o Banco de Portugal teve que injectar liquidez e, com a situação a arrastar-se desta maneira, não havia como não agir. Mas a verdade é que não agia. Então o BCE, vendo a arrastadeira em que o BdP  estava armado, encostou-lhe a faca ao peito: ou fazem alguma coisa ou a gente fecha essa porcaria em três tempos.

Durante esses últimos tempos, a confusão reinava no Banco de Portugal. Sem gestão nova em funções no BES e com um clima de desconfiança em relação à anterior, ninguém sabia ao certo o que se passava nem a real dimensão do buraco.

Ricardo Salgado começava a organizar-se no Palácio do Estoril, a tratar de algum expediente, coisa pouca, umas cartitas de conforto, nada de mais, e o hotel começava a ser o escritório onde se organiza a defesa do ex-Dono Disto Tudo.

Mas, enquanto isso, os papagaios e catatuas continuaram a louvar a eficiência e presciência do grande crânio Carlos Costa, esse génio de imaculado curriculum, sempre a agir atempadamente, nada que se compare com a actuação do BdP no escândalo, esse sim, um escândalo, do BPN..

No fim de semana da confusão final, sob pressão, sem cabeça já para saber bem o que fazer, com um Vítor Bento instalado mas a declarar não se responsabilizar pelas contas do 1º semestre, com o BCE à perna, foi parida uma solução aberrante, confusa e operacionalmente difícil de implementar. Carlos Costa, titubeante, apareceu perante o País como o único pai da criança, criança essa que viria a materializar-se como uma borboleta verde.

Entretanto, o BES já repescou alguns administradores da anterior equipa, já contratou assessores, consultores, certamente muitos advogados, já mudou de nome, já lançou publicidade, etc. Mas que eu saiba tudo continua na mesma, todos os movimentos e todas as contas a serem contabilizadas no BES. 

Na altura, disse-o aqui que na melhor das hipóteses precisariam de 3 meses para montar toda a máquina informática, contabilística, administrativa para acomodar o Novo Banco e para migrar para lá tudo o que foi apregoado, incluindo o respectivo histórico de movimentos mas que, para a coisa ser feita como deve ser, seriam precisos cerca de 6 meses, e isto com uma equipa experiente a liderar o assunto. Presumo que seja, neste momento, a prioridade deles e espero que consigam chegar a bom porto. Não é coisa fácil e só gente experiente pode montar de raiz toda uma nova máquina, segregar as coisas e passá-las de um banco para o outro de forma a não ocorrer paragem de operações ou algo pior.

E, entretanto, a que assistimos?


_____________

(intervalo)



Que entre a Quadrilha






(fim de intervalo)
_______________



A que assistimos, entretanto?, perguntava eu.

Pois bem.

Carlos Costa, tendo constatado as críticas e acusações que lhe eram feitas, começou por insinuar que a culpa tinha sido do auditor do BES, a KPMG, que não o tinha avisado a tempo. Depois que a culpa era também do fraudulento Ricardo Salgado que tinha armado trambique quando já tinha sido posto de castigo. Finalmente, não sabendo quem mais culpar, saíu de cena, foi mandado para casa. Não sei se já regressou e se veio em condições. Mas não há milagres: mesmo que tenha dormido 15 dias de seguida, não será o crânio que nunca foi.


Por sua vez, não contente com as acusações, a KPMG anda pelos jornais a dizer que avisou vezes sem conta o BdP e que não tem culpa que não tenham percebido os alertas ou que não tenham sido capazes de agir. 

Um advogado de pequenos accionistas, Miguel Reis, diz que não quer saber de misérias: que neste processo falhou tudo e falharam todos e que foi tudo feito a trouxe-mouxe e que alguém vai ter que responder pelos prejuízos sofridos pelos pequenos accionistas a começar por Carlos Costa e Cavaco Silva. Nem que seja com o próprio património. Pumba! Uma bomba em cima da mesa.

Cavaco Silva que parece que tem um karma muito negativo com bancos e que está no palácio para ficar bem no retrato e não chamuscado, saíu logo a terreiro, ar de quem anda cismado, boca arreganhada, a espadeirar contra um alvo bem definido: que a culpa não tinha sido dele, que tinha dito que o BES estava sólido porque eram essas as informações que tinha do Banco de Portugal. Toma!


Quando os jornais lhe caíram em cima dizendo que lá tinha ele tirado o tapete a mais um amigo e que, face a isto, já era questionável se Carlos Costa tinha condições para se manter em funções, voltou a sair a terreiro, desta vez para corrigir o tiro: em tom profético retardado disse, sibilinamente, que esperava bem que o Governo o tivesse avisado caso tivesse em sua posse dados relevantes. E frisou que essas são as obrigações do Governo face ao estipulado pela Constituição. Penso que foi uma indirecta, a chamada boca para a geral: é que se há rapazes que se estão a marimbar para a Constituição, sabemos bem onde se acoitam.


Por seu lado, Passos Coelho, como desde o início, continua na moita. Quanto menos falar sobre isto, melhor e, com um bocado de sorte, os papagaios e catatuas nem se vão lembrar de o relacionar com o assunto. Se apertarem com ele, sumirá o que ainda lhe sobre dos estreitos lábios, colocará ainda mais os olhinhos a meia haste e ensaiará um número qualquer, daqueles redondos em que não se percebe onde começa ou acaba a prosa, onde nada se percebe ou bate certo mas em que, enfim, poderá uma vez mais mostrar o efeito positivo de uma voz bem colocada. Isto se não se limitar a rir desbundadamente como é seu apanágio ou se não largar a correr para cantar a Nini a plenos pulmões, que também é moço para isso.


Face a este passa culpas, quem é que eu acho que esteve mesmo mal nisto tudo?



  • A administração do BES (e do GES, claro - mas, para este efeito, o mais preocupante pelos riscos sistémicos é o BES). 
  • O Banco de Portugal e provavelmente também a CMVM (que deixou que o aumento de capital tivesse tido lugar quando já deveriam ter elementos que apontavam para a necessidade de uma intervenção a sério e não através de um saque aos accionistas). 
  • E também o Governo que, em vez de dizer que o BES estaria seguro fosse de que forma fosse e em vez de ter criado imediatamente uma equipa de coordenação do problema - equipa envolvendo o BES, o BdP, a CMVM, elementos do BCE e logicamente elementos do Ministério das Finanças e dos Negócios Estrangeiros (para lidar com os casos de Angola, Venezuela, Panamá, EUA, etc) - lavou as mãos e ficou na moita a assistir à derrocada e a assobiar para o lado. 
  • E também o Presidente da República que, se mais ninguém percebeu que alguém tinha que puxar as rédeas a si e gerir tudo ao mais alto nível e de forma muito controlada, ele tinha obrigação de o ter percebido e ter imposto uma gestão profissional e responsável para o problema. Não apenas é um político com décadas de tarimba, como já foi ministro da área e primeiro-ministro, foi funcionário do BdP, é professor e economista.


O deixar a situação degradar-se de dia para dia, agindo a reboque e sempre a meio gás, não garantindo a coordenação global de um assunto tão complexo e não garantindo que todas as pontas ficassem agarradas, só poderia dar em bagunça como deu.


Que mais de um mês decorrido ainda andem todos a negar a paternidade da borboleta ou a dizer que agiram sob o efeito de substâncias que os outros lhes ofereceram ou que desconheciam os efeitos secundários da coisa é sintomático do bardinanço que tem sido todo este processo: gerir o assunto com os pés em vez de com pinças cuidadosamente manuseadas, uma descoordenação incompreensível, um amadorismo aterrador, um experimentalismo leviano, uma ligeireza que demonstra desconhecimento da realidade prática da gestão e, também, muita, muita cobardia.

Pode não penalizar os depositantes mas a ver vamos o efeito sobre os outros bancos e sobre a economia em geral. Já para não falar no efeito de desconfiança no sistema bancário português que já há-de ter levado muitas poupanças para bancos estrangeiros, nomeadamente para bancos alemães.


____


O buraco




____


O poema Quadrilha é da autoria de Carlos Drummond de Andrade que aqui também o lê.

O último vídeo é um excerto do bailado The Hole de Ohad Naharin numa interpretação pela Batsheva Dance Company 


____


Ainda não é hoje que acabo o dito post que comecei há uns dois dias e que está quase pronto. Há bocado, em vez de o acabar, pus-me a fazer isto que acabaram de ver e, como de costume, fui escrevendo, escrevendo, e depois ponho-me a enfeitar o texto com imagens e depois mais isto, aquilo e o outro e agora já passa da uma e meia da manhã. E esta minha semana é tão repleta de coisas para resolver e tantos telefonemas e reuniões que tenho que me levantar cedo e ir de cabeça fresca. 

E esta terça feira é o debate dos Antónios na TVI - e tomara que o Seguro contenha o ódio e não desate a cuspir na cara do Costa ou que não lhe dê para fazer birra em directo - que o mais certo é que depois me apeteça falar nisso.  


[A ver se a pobre Judite Sousa (... sem 'de'!) já está operacional pois esta segunda feira não apareceu e ouvi, no domingo, o José Alberto Carvalho dizer ao Prof Marcelo que lhe tinha morrido mais um familiar próximo. Pobre mulher, credo. Tomara que consiga ultrapassar este período negro da sua vida e que as marcas se vão esbatendo com o tempo. E tomara que tenha junto a si alguém que a apoie neste período tão difícil da sua vida.]


Bem, logo vejo quando é que completo e publico aquilo. Qualquer dia perde a oportunidade. Eu devia escrever menos ou aprender a portar-me como gente séria que enfeita o texto com gráficos e não com carinhas de pau.


____



Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
Muita saúde e muita sorte é o que vos desejo.



4 comentários:

FIRME disse...

Vale mais,esperar que o face ponha esta página disponível,para se perceber a trama que estes sujeitos andam a impingir ao ZÉ POVO,que ler todos os pasquins,onde são plantadas notícias vindas do bufo de belem/são bento! Depois os malabaristas/comentadores enfeitam-nas ao gosto dos seus patrões de bolsa bem recheada!!! AQUI ...Atrás,falei que o novo Banco,seria um NOVOBANDO !O fermento,já esta a atuar ! O forno está aceso,o nosso dinheiro,pronto para ser assado papado pelos do custume! Dizem batendo no peito que o BES,NÃO É O BPN...mas os autores são os mesmos,de sempre! Reli,umas páginas sobre o visconde de LUMBRALLES E O BESCL...anos 8o e lá está o fermento desta rica fornada,que agora nos saiu!!!

Vitor disse...

Belissímo retorno após umas bem merecidas e passadas férias, estimada UJM .
EXCELENTE " post" !
Já tinha saudades destes assertivos e bem completos textos.
Melhores Cumprimentos
Vitor

FIRME disse...

SOBRE O COMENTÁRIO ACIMA,DEVO CORRIGIR A BEM DA VERDADE:ONDE ESCREVI "face",LEIA-SE GOOGLE !POIS AO TENTAR ENTRAR NA PÁGINA ---APRARECE---´ NÃO É POSSÍVEL APRESENTAR ESTA PÁGINA!!!Eu insisto e lá aparece?!!!
CURIOSIDADES...

FIRME disse...

INCOMODA? Afinal que mérdola de gente?controla os nossos comentários?...povo que continuas a talhar as tábuas do teu caixão,pagas para ver a tua opinião...Acorda...Estou a ouvir de longe ,ANTÓNIO COSTA X SEGURO...! ESPERO QUE NÃO RESTEM DÚVIDAS !!! ...P.S. QUE NINGUEM SE SINTA VENCIDO!!!