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quinta-feira, julho 03, 2014

O que é o amor? Há amor puro? Consegue amar-se um outro independentemente do efeito que ele produz em nós? Ou o verdadeiro amor mede-se pelo efeito que produz em nós?





A propósito do comentário da Leitora JV que considera o texto de Judite Sousa no Facebook uma ode ao egoísmo pois, em vez de se centrar no filho desaparecido, fala sobretudo no efeito que a sua perda tem nela, ocorrem-me umas quantas observações.


Transcrevo o comentário:


Uma ode ao egoísmo. (...) 

Uma mãe que perde um filho e vem dizer "pobre de mim, tão triste sou, tão triste já andava, tão triste este ano que passou, tão triste que fiquei agora". Uma mãe que se dá ao trabalho de vir queixar-se, coitadinha dela que morreu o filho, "estranha vida a minha", não a dele que acabou tão cedo, a dela é que é estranha. O filho que se lixe. Morreu, pronto. Foi-se. Agora eu é que estou muito mal. Ele já era, que se lixe, não vale a pena pensar mais no rapaz, eu é que fiquei aqui, "estranha vida a minha", fiquei tão mal. O que importa é a forma como a morte do filho a afeta a ela. Eu, eu, eu. E eu. E a minha dor. EU.

Comovermo-nos com um texto destes, é algo que não percebo. Não percebo. Não me consigo comover com sentimentos impuros assim, tão pouco nobres. Pessoas que tem pena delas próprias que chega e sobra. Isto se calhar que estou a dizer é muito feio, tratando-se de um acontecimento tão trágico, mas é o que é. Está aí o texto, não fui eu que o escrevi. Feio é esse texto.


Uma das maravilhas da vida é que, perante o mesmo facto, cada um o lê à sua maneira. Percebo o que a Leitora JV diz sobre o texto mas, no entanto, não concluo daí que o que ressalta do texto de Judite Sousa é a manifestação de um egocentrismo.

Explico o que quero dizer.

Para mim, o amor que sinto por uma pessoa mede-se, sobretudo, pelo efeito que produz em mim, pela capacidade que essa pessoa tem de se misturar comigo, como se a minha vida, sem essa pessoa, deixasse de fazer o mesmo sentido.


Posso admirar uma pessoa, admirar mesmo, achar que é o máximo, que o que faz é motivo de orgulho, posso amar devotamente o que essa pessoa faz, achar que a pessoa é genial, posso escrever loas e loas sobre o seu trabalho, a sua maneira de ser, a sua atitude perante os outros (e estou para aqui a ver se me lembro de alguém assim para exemplificar mas, tanto carreguei nas tintas, que agora não me ocorre ninguém que seja o supra sumo da barbatana como aqui o pintei) - e, no entanto, posso conseguir passar bem sem essa pessoa junto a mim.  

Já aqui falei disto: tive, há séculos atrás, um namorado que era bonito, inteligente, boa pessoa, cultíssimo, que escrevia muito bem, que compunha músicas fantásticas, que tinha uma voz poderosa, que cantava como poucos, e que me amava perdidamente - eu era a sua musa, a sua razão de viver. E tudo o que acabei de escrever é verdade e muito mais eu poderia dizer como que os seus olhos são azuis-violeta, as suas pestanas longas, as suas mãos têm longos dedos, as pessoas ficam cativadas com a sua presença, tem uma presença forte, sedutora. A sua carreira tem sido extraordinária e os seus feitos são frequentemente louvados pelas mais exigentes figuras dos meios culturais. E poderei continuar a falar dele, só dele.

E o facto de eu falar dele, só dele, não quer dizer que eu sinta por ele um amor puro. É o contrário. Não sinto amor por ele. A sua vida não influi na minha.

Ao fim de alguns anos a namorar com ele, deixei-o. O afecto era desigual. Eu sou terrena, humana, imperfeita. E, no entanto, para ele eu era uma deusa, a sua inspiração, a sua razão de respirar. E isso era responsabilidade que eu não queria para mim. Mas, mais do que isso, eu conseguia ver tudo o que ele tinha de bom e dizer a mesma coisa que agora escrevi e, no entanto, o meu coração não disparava, a minha pele não se entregava, o meu corpo não exigia a presença do corpo dele.

Eu podia passar um dia, dois ou três sem ele e, durante esses dias, eu continuava igual a mim própria, completa, sem carência dele.

Pelo contrário, quando um dia me cruzei com um outro, então desconhecido, e os meus olhos se cruzaram com os dele, eu senti uma atracção irresistível. E quando o comecei a conhecer, deixei de ser capaz de estar longe dele. Não tem olhos azuis, pestanudos, não compõe músicas, não se senta ao piano e não desata a compor de improviso ou de ouvido, não me faz poemas, não me diz que quando morrer quer as minhas mãos e só as minhas mãos junto às suas, nem nada disso. E, no entanto, ano após ano eu não tenho conseguido viver longe dele. Com ele fiz dois filhos, com ele tenho construído a minha vida. Se ele me faltasse (e já aqui bati três vezes na madeira), num momento de dor o que eu diria seria sobretudo a minha infelicidade por não o ter comigo. O que me ocorreria seria dizer seria certamente que os meus dias perderiam o significado, que a sua falta iria tornar-me frágil, que os meus dias sem ele seriam mortalmente tristes.

Amar é ter o outro dentro de nós, é a sua vida confundir-se com a nossa, é sentir a sua ausência como uma amputação de nós.


Se me puser a falar dos meus filhos - que felizmente tenho comigo e sempre tão perto de mim - falarei de como são maravilhosos, brilhantes, alegres, genuínos, generosos, etc, etc, mas se falar só disso não estarei a distingui-los de outras pessoas igualmente maravilhosas que existam. O que os torna únicos para mim - e cada um deles é único (porque não é pelo facto de eu ter dois filhos que eles deixam de ser únicos, ímpares, insubstituíveis) - é o efeito que eles têm em mim. É o facto de eles me tornarem melhor, de, através deles, eu experimentar sentimentos fortes, novos, de, através deles, eu me sentir realizada e feliz, de, por eles, eu querer ser alegre, disponível, e estar bem. De eu querer saber que eles estão bem porque eu só estou bem se souber que eles estão bem. E mais, e mais, e mais que não sei dizer - porque não é possível dizer isto em palavras, porque o amor verdadeiro é visceral, torna-se intrínseco, habita as nossas células.

Não sei se fui capaz de transmitir o que penso e sinto sobre isto.

Mas, em síntese, o que penso é que uma pessoa sabe que ama muito alguém quando não consegue viver sem ela, porque ela faz parte de nós.


Quanto a um amor ser puro não sei bem o que isso é. Acho que não existe. Talvez exista amor puro no caso de um amor etéreo, uma coisa tipo exaltação mística, distante.

De resto, todo o amor terreno é um amor contaminado. O meu amor pelos meus filhos é contagiado todos os dias pelo que eles fazem, pelo que eles dizem, pela minha disposição, pelas circunstâncias, e sei lá que mais. É incondicional e infinito mas não direi dele que é puro, bacteriologicamente puro.

O meu amor pelos meus pais idem.

O meu amor pelo meu marido, então, ainda é mais facilmente contaminável.

Basta que ele queira estar a ver futebol ou comentários sobre futebol e que não queira mudar de canal apesar de eu ver que ele está mais a dormir do que acordado para o meu amor vacilar. Ou basta que ele arranje afazeres inadiáveis quando eu tenho vontade de ir para Florença para eu ficar capaz de o trocar por um estudante que vá fazer inter-rail para essas bandas.

E, no entanto, dia após dia, ano após ano, aqui estou, com ele a meu lado e o que desejo é que assim continuemos (isto, claro, se ele conseguir esforçar-se por me agradar ainda mais).

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A música é Alice de Bernardo Sassetti


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2 comentários:

Anónimo disse...

Olá, UJM,

Primeiro, deixe-me dar-lhe os parabéns pelos 4 anos de blog e pelas 600.000 visitas. É obra, sim senhor!

Quanto a esta sua resposta (é formidável a sua dedicação aos leitores, razão daquele número chorudo), concordo basicamente com tudo quanto diz. E ninguém falou em amor de laboratório, credo! Quantas vezes não nos portamos mal com aqueles de que mais gostamos, vemos coisas de que não gostamos neles e exasperamo-nos, pensamos primeiro em nós e nas nossas necessidades e só depois neles, somos egoístas! Mas um certo esquecimento de nós próprios, UJM, também é fundamental. Uma pausasinha no egocentrismo. Uma coisa é a forma como estes acontecimentos nos afetam, outra é centramos a nossa atenção precisamente nisso, esquecendo o outro. Quanto se está a sentir contente por alguma coisa boa que aconteceu a uma pessoa de que gosta muito, está a sentir-se contente por ela, não? Claro que pode sentir orgulho, até de si própria, por essa pessoa ser sua filha, por exemplo. Mas há um sentimento que não é centrado em si. E quando se comove ou se enraivece por causa de uma injustiça cometida contra essa mesma pessoa, também não está a pensar em si. O Hobbes é que dizia que a compaixão não passa de medo que a mesma tragédia que aconteceu ao outro nos aconteça a nós. E isso não é verdade. E digo-o com certeza, porque não é isso que sinto. Uma vez a minha irmã foi humilhada na escola por causa de uma coisa qualquer e aquilo que queria era ter estado no lugar dela. Não estou a fazer-me de santa, noutras ocasiões já menti e deixei que outros pagassem por erros meus, mas isso não invalida outros momentos, de sentimentos puros, nobres, que tomam conta de nós. Diz-se que não há amor mais altruísta do que o de pai para filho. E acredito que seja verdade. Mas não é, certamente, o que está refletido no texto dessa mãe. Desculpe, mas é inaceitável o facto de se queixar do ano inteiro que lhe está a correr mal! Pôr tudo no mesmo saco! Ninguém pede amor bacteriologicamente puro, mas apenas que num momento como o da morte de um filho, as pessoas pensem nesse filho. Além do mais, é de mau tom. A minha avó materna é assim também: alguém lhe diz que não está bem, está doente ou não consegue pagar as dívidas e ela faz um escanzel, o quanto essas coisas lhe fazem mal, que pena que aqueles que inicialmente estavam a queixar-se têm de ter dela, porque ela fica ainda pior do que os diretamente afetados. Aos olhos dela julga-se uma santa, que sente o mal dos outros ainda mais do que eles, mas na verdade é só uma forma de não ter de se responsabilizar, de mostrar que fica muita mal, ninguém se atrevendo, por isso, a pedir-lhe ajuda, nem que seja apenas que ouça, que conforte, uma vez que ela ainda ficou pior do que o doente ou arruinado. Centra as atenções nela e, com isso, coíbe os outros de se abrirem com ela.

Bom, era isto. Estou, de qualquer forma, bastante contente porque aquele meu trabalho sempre deverá ser publicado. Feliz, feliz, feliz, que eu estou! Foram milhares de páginas, dezenas e dezenas de horas dedicadas àquilo, aí uns cem euros em fotocópias e 2 meses à espera que me chegassem uns textos da Biblioteca Nacional de Espanha que nunca mais chegavam e eu considerava absolutamente fundamentais! Mas valeu a pena! Positivamente, UJM, valeu a pena!

Abraço,
JV

Anónimo disse...

650.000! 650.000, desculpe o erro UJM!
JV