Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, junho 21, 2014

A matura idade de Pedro Paixão - a paz, a quietude, a religião, a doença. O inconfundível amigo (Miguel Esteves Cardoso) por quem sente uma espécie de amor e que continua vivo dentro dele.


Abaixo poderão ver um vídeo maravilhoso com a Serra do Sol, a Serra da Arrábida. Foi um Leitor que mo enviou e eu estou-lhe muito agradecida. Não deixem de ver, por favor, tanto mais que encontrarão a identificação dos lugares indispensáveis. As recordações que me avivou este vídeo, tão boas.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Tenho que vos confessar já à partida: estou perdida, perdida, perdidésima de sono. Passa da uma da manhã, cheguei há pouco a casa. Hoje foi noite de programa, os restaurantes do Avillez são, de facto, muito bons, o Chiado à noite, no verão, é uma animação, turistas e mais turistas, e Lisboa é uma beleza com o rio lá em baixo. E, enquanto por ali ando a cirandar, a aspirar o ar fresco da noite, na conversa, a ver as montras, no laré, sinto sempre aquela sensação que adoro: ser turista, andar à descoberta, livre de convenções, amarrações e outras aperreações.

Enquanto lá, não sinto cansaço, ando de gosto, feliz e contente e só não compro écharpes - lindas e a cinco euros - aos indianos que por ali andam porque sou arrastada antes de fechar negócio. E o ar levemente frio e húmido é o complemento perfeito para a terapia que aquilo é para mim.

O pior mesmo é vir para casa e, no carro, já a quebrar, depois chegar a casa a precisar de ir directa para a cama... e ainda querer vir para aqui. É que o cansaço acumulado por uma semana preenchida e cheia de momentos de tensão (e noites mal dormidas) parece que se guarda inteiro para se despejar em cima de mim quando chego a casa de um programa nocturno. Como é que eu, até há algum tempo, conseguia ir às sextas para a night, chegando a casa madrugada alta e, se necessário fosse, repetir a dose ao sábado?

Deve ser isto a idade, só pode.

Bem, adiante, que se faz tarde.

Pedro Paixão ainda. E posso dizer-vos: foi com espanto que li algumas das palavras que vou transcrever e com as quais ele fecha o livro 'Espécie de Amor': como poderão constatar os que, por aqui, me acompanham, algumas das palavras são muito similares a palavras minhas, que aqui tenho partilhado convosco.


(Os parágrafos fui eu que os abri, acho que torna o texto mais fácil de ler no computador. No livro as frases sucedem-se sem espaço entre elas)




Smile





Ser não é ter, a vontade de poder sendo uma espiral infinita cujo único objectivo é ser mais poder, sempre e apenas mais poder, uma vontade que termina inevitavelmente numa catástrofe de limites variáveis. Quanto a mim envelhecer passou a ser uma coisa natural, com largas vantagens. Primeiro deixei de lutar contra o tempo, um combate, deste sempre, condenado ao fracasso. Depois deixei de amar e odiar ao mesmo tempo, aprendendo devagar a ser quem sou, e não quem julgava que seria. Depois deixei de dever o que quer que fosse ao mundo, ou exigir do mundo o que ele não me pode dar. Abandonei o projecto absurdo de querer justificar a minha existência, julgando que ela precisava de ser justificada, uma injustificável vaidade. 

Comecei a olhar o que antes descuidava. Um frágil cogumelo no chão do meu caminho tornou-se algo maravilhoso, que me traz uma breve mas preciosa alegria, e me obriga a parar, e ajoelhar, para o ver de perto, de mais perto. 





Comecei a agradecer, todos os dias, os dias que vivia. Um agradecer sem destinatário, e, assim, sem pedir resposta. Uma religião privada, apenas minha, sem a calculada intenção de ganhar um céu, ou o que quer que seja e não se sabe, o que lhe retiraria o valor que porventura tenha. Uma religião sem sacerdotes, rituais, e sacrifícios. Uma religião que diga sou aqui, e baste. Que guarde em silêncio o que não tem palavras e a bondade que não tem história.

Deixei de ter insónias e de atafulhar-me em comprimidos. O que não quer dizer que não continue a ter a doença que sempre tive, apenas passei a aceitá-la, o que a transformou por completo.

Não quero ser mais ninguém, um trabalho altamente corrosivo. Chega-me a pensão que recebo dos bons tempos em que tentava ensinar História da Arte. 






Lamento ter gasto tanto dinheiro, que ganhei em tão pouco tempo. 

Gostava de ter sido melhor e mais generosos para os vários amigos que fui tendo. 

Arrependo-me de ter atraiçoado as mulheres da minha vida, antes de elas me atraiçoarem.

Desejo que o meu inconfundível amigo esteja em paz consigo, e com o mundo, se isso for possível. Quem sabe, ninguém sabe, talvez tenha começado a escrever o seu livro, que será o melhor da geração. A escrever-se. A escrever-me. A escrever-nos. Não a ambos, mas a todos aqueles que são poetas no coração e nada mais têm que lhes pertença além das palavras e a indomável vontade de amar e aprender a morrer. Entre mim e ti nunca existiu ninguém. Se morreres, terei de te matar outra vez.





I have tried to write Paradise

Do not move.
Let the wind speak
that is Paradise. 
Let the Gods forgive what I
have made
Let those I love try to forgive
what I have made.

Canto 120, Ezra Pound in 'Espécie de Amor'  



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  • As imagens são de um dos meus fotógrafos de eleição, Steve McCurry e fazem parte da série Lost in Thought
  • A canção Smile é interpretada por Jaimee Paul. 
  • Os excertos pertencem ao livro 'espécie de amor' de Pedro Paixão no qual fala do seu (ex-)melhor amigo, Miguel Esteves Cardoso.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana a começar já por este sábado.

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