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terça-feira, maio 27, 2014

Eleições Europeias 2014: o day after. O que fazer quando tudo arde? Percorrer as noites com longas facas? Contar cartuchos? ...Ou reflectir seriamente...? A Europa treme nestes dias que se seguem ao 25 de Maio de 2014, os partidos agitam-se, desenham-se perplexidades - mas tomara que não fique tudo na mesma




Disseram-me que ninguém analisa os números como eu ontem os apresentei, que as percentagens são sempre calculadas na base dos que votam e não na base do total dos eleitores. Até posso concordar quando a abstenção não grita mais alto. Contudo, desta vez, os valores da abstenção, brancos e nulos, depois de 3 anos de violência, significam mais do que as percentagens ridículas que os partidos obtiveram.

Depois das violações descaradas e dos atentados a tudo e mais alguma coisa a que os partidos da coligação que suporta o governo têm vindo a sujeitar a população, o que seria normal seria que toda a gente se pusesse a caminho e votasse vigorosamente contra eles. O que seria normal seria que o PS, o PCP (e até o BE) tivessem uma votação esmagadora, inequívoca, arrasadora.

Mas não. As pessoas não votaram. Ou, os poucos que se deram ao trabalho de votar, entregaram votos riscados, ou dispersaram os votos. Ou entregaram o voto a um partido cujo programa se desconhece e fizeram-no apenas porque, por algum motivo, acreditaram que esse homem os defenderá. Um cheque em branco.



Desculpem a falta de qualidade gráfica mas não consegui exportar este gráfico que fiz com dados reais da votação das europeias/2014 pelo que fotografei o ecrã e inseri a fotografia (será nabice minha ou não dá mesmo para fazer de outra forma?).

Mas acho que dá para perceber a fraca minoria que apoia este governo assim como a fraca minoria que prefere o PS (o PS é a fatia com o azul mais escuro, que é ligeiramente maior do que a que está ao lado e que é do PSD + CDS) ou as ainda minorias mais insignificantes que preferem o PCP ou a CDU ou o BE



Eu, como provavelmente cada um de vós, sabe de muitos casos de pessoas que estão furiosas com o que se está a passar mas que estão, sobretudo, descrentes face à idoneidade de todos os agentes políticos, os do governo e os outros. 

Poderia falar de vários colegas meus (ex-devotos do PSD ou CDS) que me disseram que se recusavam a votar já que naqueles anormais (sic) do PSD ou do CDS estava fora de questão e no Totó do Seguro só se estivessem parvos. Como são meninos que desconhecem o que é o PCP ou o BE, está bom de ver que se abstiveram. Mais: dizem que isto já só lá vai se esta porcaria rebentar de vez (sic e seja lá o que isso quiser dizer), que então talvez 'eles' aprendam. 


A minha filha, que costuma votar e que é pessoa de mente aberta, não foi votar e disse que pode ser que, se a abstenção chegar aos 90%, 'eles' acordem e vejam que política não é nada disto.

A minha mãe acabou por votar depois de uma feroz campanha anti-abstenção da minha parte. Sempre votou mas desta vez está tão revoltada, acha tudo tão inconcebível que lhe parecia que não votar seria a maior ofensa que 'lhes' podia fazer. Eu disse que não, que era para o lado em que 'eles' dormiriam melhor, que então votasse noutro qualquer. O outro qualquer em que naturalmente votaria seria o do PS mas a resposta fou sempre categórica: Mas aquilo é lá capaz de decidir alguma coisa? É igual ou pior que o outro. Gente sem credenciais. Nem pensar. Referia-se ao Seguro, claro. No sábado, disse-lhe, Não se abstenha, não faz sentido. Se não quer votar no PS, vote no Bloco de Esquerda, no PCP, no do Marinho, qualquer coisa. Respondeu-me com uma pergunta: Qual é o partido do Marinho? Disse-lhe que era o MPT e nem lhe perguntei porque queria saber. No domingo à hora de almoço disse-me que já tinha ido votar. 

O meu filho, rapaz informado, politizado, no domingo à noite, enquanto o Seguro fazia a festa, atirava os foguetes e apanhava as canas, enviou-me um sms de que transcrevo a primeira parte (a segunda é pior, nem transcrevo): Estás a ver o Seguro?? Faz-me o favor de não comemorar no teu blog a vitória de um partido que tem este gajo à frente, a celebrar com uma música tipo filme manhoso dos anos 90.

Nem reparei na música, para dizer a verdade. Reparei, sim, que tudo aquilo me parecia um filme falhado. Aliás, toda a noite eleitoral me pareceu um filme falhado. Tudo ao lado, tudo gente fora de prazo, atitudes fora de prazo.


Os partidos implodem, o regime implode, cá e em todo o lado, a Europa está a pisar caminhos muito perigosos, ascendem os que não acreditam no projecto europeu, o cherne tenta sair de fininho, com comentários e recomendações tão balofas quanto foi balofa a sua actuação à frente da Comissão Europeia. Reina a Merkel mas tem pés que rapidamente se podem tornar de barro e grande parte da Europa vê nela a personificação do Mal.


Uma nódoa em Portugal, Durão Barroso foi alcandorado a um lugar de relevo na Europa onde só fez porcaria, abrindo caminho à destruição da instituição a que presidia e estendendo a passadeira vermelha à extrema direita, aos nazis e, aqui e ali, à esquerda mais radical. 



O que vai ser de uma Europa nas mãos de gente que apenas quer destruí-la ou sair dela?


Gente fraca a fazer política leva à rejeição por parte da população, e quando as pessoas não vêem que os partidos sejam capazes de se regenerar, descrêem. São sempre os mesmos, é tudo igual - é o que mais se ouve dizer. Pode ser injusto para alguns mas, de forma geral é correcto. A gente vê as mesmas caras entrar e sair do governo, rodar no parlamento, nas empresas públicas, nos debates. 

Sempre as mesmas caras ao longo de anos e anos, usando os mesmos argumentos, esgrimindo artifícios verbais gastos.

As pessoas de idade não suportam ver o seu destino entregue a gente impreparada, desrespeitadora, os mais novos não suportam esta forma de fazer política feita por gente em que não se revêem, a classe média que se tem vindo a ver espoliada não suporta a ignorância aboletada no poder.

Eu, que como aqui o refiro frequentemente, a identificar-me mais com algum programa, seria com o do PS. A social-democracia humanista, aberta, moderna, que aposta no desenvolvimento e no conhecimento, que assenta na igualdade de oportunidades e ma liberdade, é o ideal de sociedade que orienta as minhas escolhas.

No entanto, como me sinto distante deste Seguro que parece ansiar que chegue a sua vez de ser poderoso, para saciar a sua fútil ambição e vã vaidade...

Há nele qualquer coisa de postiço, de artificial, de prosápia frouxa que me incomoda. Vê-lo a sair, motorista à espera, bruto carrão... ui, que incómodo.

E, no entanto, não me move qualquer dessa inveja miudinha que tantas vezes turva o raciocínio. Mas, ó senhores, que sentido faz um chefe de um partido da oposição andar num bruto carrão, como se não houvesse austeridade no País? Sentir-se-ia mal se andasse num carro robusto e confortável mas de uma gama mais baixa? São peanuts, sei que são, mas é a imagem, é o que está por trás da atitude. Como pensará ele que os reformados, os desempregados, os jovens, olham para ele todo armado em barão? 


Há por toda a Europa - entregue a políticos já de rabo pelado por tantos bancos do poder por onde tem passado, ou a políticos de pacotilha, jotas que saíram do aviário sem terem passado pela vida, a burocratas não eleitos, a gente que não se percebe de onde saíu - um frémito de revolta que não se sabe como vai acabar. E a bem de todos, seria aconselhável que, a nível dos partidos, os seus líderes e apaniguados soubessem sair a tempo, soubessem ter uma saída limpa.

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A última imagem, como se vê, provem do blogue We Have Kaos in the Garden

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Estava com vontade de falar na FN, no UKIP, nos nazis e nessa malta estranha que agora vai tentar incendiar a Europa mas hoje não estou em condições. No fim de semana fartei-me de pegar nos pimentinhas ao colo e acho que dei cabo de um ombro. Estou a escrever isto completamente aflita pelo que me vou ficar por aqui, vou tomar um comprimido, pôr gelo e meter-me na cama. Nem vou rever. Tenho recebido tantas coisas engraçadas ou comoventes e ainda não vai ser hoje que vou conseguir inclui-los aqui. Nem consegui responder aos mails. A ver se amanhã estou fina.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira.


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5 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem. Penso o mesmo. Acho que em Portugal não se da valor a eleições europeias, o que significa uma enorme falta se visão. Mas compreendo , por exemplo, a atitude da sua mãe., e até a da sua filha., pois havia um enorme apelo a abstenção para fazer provar o pensamento dela. No entanto, sabemos que não e assim que se processam os votos . Eu fui votar, fiz um enorme desvio , em tantos anos de eleições, e votei na Marisa. E ainda bem, porque ajudei a eleger uma pessoa que tem feito um bom trabalho no PE, e por pouco quase se perdia todo esse esforço. Eo do Miguel, que tão cedo se foi, e que podia ter sido tanto e muito mais, não fosse a simplicidade com que regia a sua vida. Mas tenho pena que o castigo que os portugueses aplicaram aos imbecis dos governantes tivesse sido tão fraco. Aliás, ouvi dizer que eles esperavam uma derrota maior e que ficaram muito aliviados... Mas estou assustada com a Europa, Aquela Marine, francesa, mete medo, mas os franceses podem ser muito violentos nos seus juízos . Espanta-me mais a Dinamarca, onde o povo além de muito informado politicamente, onde se costuma dar a conhecer aos eleitores todos os factos , ideologia e projectos dos candidatos, foram votar na extrema-direita, como a Filandia e até a Áustria. Que Deus nos ajude, aqui no nosso cantinho do continente.... TBM

Vitor Gomes Freire disse...

MUITO BEM, UJM !
Mais um objectivo e assertivo post.
Aguardemos por sábado, para já . . .
Melhores Cumprimentos
Vitor

Anónimo disse...

“As pessoas não votaram. Ou, os poucos que se deram ao trabalho de votar, entregaram votos riscados, ou dispersaram os votos. Ou entregaram o voto a um partido cujo programa se desconhece e fizeram-no apenas porque, por algum motivo, acreditaram que esse homem os defenderá. Um cheque em branco.” Este um interessante parágrafo do seu Post. As pessoas não irem votar, com os níveis conhecidos, creio dever imputar-se sobretudo aos Partidos. Tal terá sucedido por várias razões. Ou porque o tal Projecto Europeu pouco lhes diga e a memória que fica é a da imposição de uma austeridade injusta que penalizou os mais fracos economicamente. Ou porque quem lidera os Partidos não soube passar a mensagem das razões em votar e que soluções apresentavam para resolver os problemas dos eleitores. Agora, estou convencido de que em eleiçoes nacionais essa percentagem baixará significativamente. Quanto à dispersão de votos, é normal em Democracia. Sinceramente, prefiro este método de Hondt, apesar de tudo, do que os sistemas francês, ou inglês, para só dar estes exemplos. Isto porque nos dá outras alternativas eleitorais, que não apenas nos Partidos maioritários do sistema. Dificulta as maiorias absolutas sem dúvida, mas é mais democrático. Sempre tive grandes desconfianças face às maiorias absolutas de 1 só Partido e houve exemplos para esquecer, como sabemos. Quanto ao cheque em branco (Marinho Pinho), bem vistas as coisas não creio que seja menos “em branco” do que o que foi dado a Passos Coelho, há 3 anos, veja-se o que aquele cabotino prometeu e no que veio a praticar posteriormente. Passos “pegou no cheque e levantou milhões á nossa custa”, poder-se-ia dizer. Dou-lhe o benefício da dúvida, até porque Marinho não é uma Le Pen versão portuguesa e tem uma concepção da política que difere e muito deste governo de direita, por exemplo. Quanto a Seguro, retiro uma impressão semelhante daquela que aqui escreveu (“Seguro que parece ansiar que chegue a sua vez de ser poderoso, para saciar a sua fútil ambição e vã vaidade...Há nele qualquer coisa de postiço, de artificial, de prosápia frouxa que me incomoda. Vê-lo a sair, motorista à espera, bruto carrão... ui, que incómodo”). Na minha modestíssima opinião, tendo em conta a situação dramática economica-social em que nos encontramos, gostaria de ver um governo liderado pelo PS que incluísse o BE, o Marinho e o Livre. Mas, tal nunca sucederá. Fiquemos entretanto à espera do que Costa fará (a última esperança para o PS poder ter um resultado à altura do que o eleitorado necessita em 2015). Lamento que Seguro não tenha a coragem para tirar ilações desta sua pirríca vitória. Mas, a coragem é uma palavra que só políticos com a estatura de estadistas possuem. O que não é claramente o caso de AJS. A terminar, gostaria de referir que concordo com a sugestão de um seu Leitor quanto à reforma da Lei eleitoral, que adoptasse o sistema uninominal. Um aparte:: naquela foto, entre AJS e PPC, de pé, curvado, pode ver-se a sinistra figura do chefe de gabinete do PM (e antes de Luís Amado e antes de outros tantos), FRM, o marido de Teresa Leal Coelho (esta que ainda há pouco disse que o constitucionalista Mota Pinto, hoje juiz do TC, ao aceitar aquelas funções estaria a “manchar” o seu currículo!!).
P.Rufino


Anónimo disse...

Novidade do dia: a abstenção compensa! Ou votar no Marinho! Se nos tivéssemos posto todos a votar PS, tínhamos um Seguro a cantar de galo uma vitória a sério - e não a que ele cantou - e convencido de que tinha a caminha feita para as legislativas... Assim, temos o António Costa a "disponibilizar-se"... Alguma coisa tem de ser feita!

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Os alemães da Opel andam pela Europa fora a vender os seus carros alemães, porque "são alemães".

http://youtu.be/1u6kCqQDz7w (esta é a versão espanhola, não encontrei a portuguesa, mas ela passa nas nossas televisões com frequência).

É preciso ter descaramento! Muita lata mesmo! É tudo a correr comprar: "it's german"!

JV

dbo disse...

Cara UJM,
mais um belíssimo post que não destoa da paisagem e ideias habituais. Como sempre, igual a si própria.
Contrariamente ao que parece apontar o título do meu blog, “baptizado” em Dezembro de 2004, com o nome de “deputado-da-abstenção”, nunca fui a favor do abstencionismo, a menos que por razões muito fortes e óbvias. Este nome procurou ser um autêntico contra-senso, pois como sabemos a abstenção não tem deputados em sítio algum.
Não considero os abstencionistas traidores da pátria, nem “não-cidadãos”, até porque, como sabemos, acabam por ser governados pelos eleitos que não escolheram e têm que se sujeitar à “ditadura” desses mesmos que ignoraram, não cumprindo um acto de cidadania e participação política directa. Só que, os que conscientemente não votaram, jamais se poderão queixar do sofrimento que lhes é infligido pelos governantes, pois poderiam ter contribuído para a sua derrota e não o fizeram.
O povo andará cansado de alternâncias, mas é mal epidémico a nível europeu, como se viu. Os autênticos “facas-longas” são quem se mantém de dentes cerrados e unhas afiadas, à espera que esta apática monotonia e alheamento lhes favoreçam o domínio das suas vítimas. Neste ritmo teremos qualquer dia o regresso dos campos de concentração e as perseguições irracionais, baseadas num novo ressurgir de “raças puras” e elites douradas”. Já faltou mais.
Quanto a maiorias, creio que já foi chão que deu uvas. Nesta Europa maniqueísta, quem teve maioria absoluta, quem foi? Ninguém, creio eu. Seguro, mesmo que algo inseguro, ganhou (esta é 2ª vez) à junção de dois partidos, cuja percentagem de cada um é apenas um pressuposto. E se, percentualmente, tiverem 50/50 o PSD e CDS? Afinal fizeram juntos a mesma destruição! Mas, mesmo que atribuam ao PSD uns 20% ( 656.629 votantes)do valor da Aliança, o grupo de Seguro ficará acima, mais de 11,4% (total de 1.032.882 votantes). Em 3.282.356 votantes só o PS ultrapassou o milhão.
Por este facto, creio que haverá alguma legitimidade para queda deste governo, pois não representa perante o “olhar” de uma pequena parcela do povo (os votantes), aquilo que representava e representa na AR. Tudo o que fizerem agora é contra uma maioria que já não os apoia.

Quanto a António Costa acho que a sua boa “costela indiana” o deverá guiar na tarefa que desempenha: governar bem Lisboa e deixar-se de querer usurpar o lugar de Seguro, mesmo que a insegurança deste não cative a maioria socialista, o que não creio. Posso falar à vontade porque não milito em qualquer partido e continuo a acreditar que a verdadeira “fera” socialista foi Sócrates, por muito que isso custe à Aliança e quejandos, que sempre viram nele um “animal” a abater. Para julgarem, que se consciencializem e auto-penitenciem primeiro.
Peço desculpa pela ousadia de lhe roubar muito espaço, mas como poucas vezes cá passo, peço-lhe alguma tolerância.
Cumprimentos e muita saúde.