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sexta-feira, abril 04, 2014

Rainha Isabel visita o Papa Francisco no Vaticano e leva-lhe ovos, cerveja, chutney, whisky, sabonete e outros produtos regionais. Um cabaz de Natal em Abril.


No post a seguir a este falo de Manuela Ferreira Leite a dar uma bela bofetada no cherne. Claro que estava de luvas (brancas, por sinal) senão ficaria com as mãos a cheirar a pexum (pexum ou pechum?, não sei - procurei nos dicionários e não encontrei; na minha terra é peixe pouco fresco que já cheira mal).

Mais abaixo ainda, tenho uma coisa que todos vós gostarieis que vos acontecesse quando andardes às compras no supermercado [espero que os tempos verbais estejam correctamente usados e a conjugar-se como deve ser; quando usei vós em vez de vocês meti-me por um caminho demais estreito para a minha perícia gramatical; mas, se estiver mal, por favor corrijam-me].





*

Mas aqui, agora, a conversa é outra. Falo da Rainha de Inglaterra e do Papa Francisco no Vaticano. A Rainha foi conhecer mais um Papa. Salvo erro é o quinto ou sexto que conhece.


A Rainha Isabel e o Papa Francisco no Vaticano
(Philip, o Príncipe, discretamente afastado)

Notou-se a simpatia mútua, aquela simpatia amena tão característica das pessoas de alguma idade que se conhecem de longe, se admiram e que, finalmente, se conhecem pessoalmente.

A rainha, com 87 anos, estava elegante, com aquela toilette que lhe é tão típica, um casaco comprido sem gola, um belo chapéu de abas com flores, tudo nuns tons azul alfazema e lilás, cores claras e luminosas que a valorizam.

O Papa olhava-a com carinho, talvez com condescendência.

Mas não é por nada disso que estou aqui a falar. A questão é fiquei admirada com o presente que ela lhe levou, dizendo que era especialmente para ele (it is for you personally): uma espécie de cabaz de Natal, com ovos, cerveja, compota, e até um sabonete. 18 produtos ao todo. Tudo coisas regionais, explicou a família real a Jorge Bergoglio. 

Isto sim são presentes
[Repare-se no ar apreensivo da Rainha.
São habituais as boutades de Philip
e ela deveria temer que o marido se saísse com algum disparate]

Achei graça. Achei graça ver o Príncipe Filipe, 92 vigorosos anos, a pegar numa garrafa, a gabar o produto. Quanta simplicidade nisto.

Ocorreu-me que Isabel e o marido e os secretários pessoais devem  ter tido aquela dúvida que uma pessoa tem quando tem que oferecer um presente a alguém que não tem falta de nada.

E, muito justamente, optaram pela simplicidade.

Nada de ostentações, coisas de prata, artefactos sem utilidade que seriam enfiados num armazém ou num expositor, e que seriam para o Vaticano e não para o Papa.

Pensando na frugalidade de Francisco, devem ter pensado que ele iria apreciar isto e, pela expressão do Papa, acho que acertaram.

Na minha família também temos muito este hábito: oferecer coisas deste tipo, cestos com produtos alimentares artesanais ou gourmet ou com alguma característica mais ou menos especial.

Por exemplo, os meus filhos volta e meia, não sabendo o que nos oferecer e não sendo nós capazes de os ajudar, oferecem-nos coisas boas de comida, tostas com sementes, massas italianas boas, patés saborosos, compotas apuradinhas, chocolates suculentos, coisas assim.

E aos meus pais também: oferecem-lhes bolachinhas diferentes, doces, bolinhos, bombons.

E eu aos meus filhos também. Chego a dar-lhes, a par de roupa e livros e coisas assim, garrafas de azeite.

Eu própria e o meu marido cada vez parece que estamos mais gulosos. Acho que são os meus filhos, com as coisas que nos dão, que nos habituam mal. Agora, quando vamos os dois ao supermercado, vamos escolher mel de zonas de rosmaninho, tostinhas gourmet, compota de mirtilo e arando, queijos diferentes, bons, coisas do género. Já me tenho lembrado que isto, se calhar, significa que estamos a ficar velhos. Sempre ouvi dizer que os velhos se tornam gulosos. Lembro-me da minha avó dizer, ternurenta, para o meu avô que adorava doces: é doce, é bom, não é? E ele ria-se, passando a língua pelos lábios, dando-se ares de lambão.

Portanto, às tantas a esta hora está Jorge Bergoglio, depois da oração da noite, a barrar tostinhas com o chutney - e isto se não estiver a dar um golinho de whisky, o pecador.





April 3, 2014 Queen Elizabeth met Pope Francis for first time and gave the bemused pontiff culinary delights from the royal estates, including a dozen eggs and a bottle of whisky.



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A música lá em cima era Flower duet - C & Elina Garanca (Lakmé de Delibes)


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Próximo Futuro/Next Future
Exposição no edifício da fundação Gulbenkian

E assim, uma vez mais, chego a esta hora já incapaz de avançar para a reportagem sobre a ida às exposições da Gulbenkian no fim de semana passado.

Já nem sei o que vos diga, já parece mal andar a prometer e não cumprir.

Digo apenas que uma ida à Gulbenkian é sempre tempo bem empregue. Seja pelas exposições, seja pelos jardins, seja pelo restaurante/cafetaria do CAM, vale sempre a pena.

Há sempre matéria que fará as delícias de cada um (e, ao falar em delícias, não me refiro, especificamente, ao cavalheiro aqui ao lado)

Desta vez não almoçámos lá mas, claro, lanchámos.

Ainda parte da tripulação estava a abastecer-se na livraria, já os miúdos estavam ao balcão a pedir queques de chocolate. Ainda fui à pressa a ver se comiam primeiro iogurtes mas já não cheguei a tempo, o avô já lhes tinha feito a vontade: queques de chocolate e bongos.


E há os lagos, as esculturas, os patos e, agora, até o grande  rinoceronte.

E esplanadas e namorados e crianças e aviões no céu a caminho do aeroporto. E há as recordações gravadas em cada recanto e há as sombras e o sol e os reflexos e a vida que se vai desdobrando de geração em geração.

O tempo passando e a Gulbenkian permanecendo. Um marco na cidade. Um marco na minha vida. 




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Relembro. Descendo um pouco mais encontrarão a Drª Manuela Ferreira Leite, provavelmente a desfazer-se da luva branca que usou para dar um valente bofetão no cherne. Um pouco mais abaixo encontrarão uma cena imprevista passada num supermercado inglês.


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Resta-me, por agora, desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira! 
Estamos quase lá, no fim de semana, tão bom.

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6 comentários:

Bob Marley disse...

e o protocolo obriga a que não se fale nas malvinas. estragar a visita para quê.

Bob Marley disse...

a colar junto ao selo seguro - https://dl.dropboxusercontent.com/u/68156231/CERTIFICADO.pdf

Bob Marley disse...

https://www.youtube.com/watch?v=Gw79smKZB9E#t=11

Anónimo disse...



entre muitos outros, poderá ver aqui:

http://algarvias.no.sapo.pt/algarvio.htm

«Particularidades morfológicas
1 - Formação de palavras:
[...]
g) Sufixo -um: este sufixo, que normalmente serve para designar raça ou qualidade de animal, tem no Algarve ainda outro uso muito especial, para formar palavras que designam cheiro desagradável. Ex.: pexum (cheiro a peixe), [...]»


cumprimentos
A.S.

Anónimo disse...

Uma delícia, este encontro entre a Raínha e o Papa! E as oferendas, simplesmente encantadoras. Gestos simples, mas sofisticados. Tenho uma particular simpatia pelos ingleses e pelo R.U. Que já é tradição de família, sobretudo do lado paterno. Meus avós durienses eram grandes admiradores daquele país (e da sua Democracia) e meu avô chegou a enviar e a oferecer a W.Churchill umas garrafas de Vinho do Porto produzidas nas suas quintas (algumas produzidas pelo pai dele, nosso bisavô e todos nós, tios, nosso pai e agora eu e meus irmãos possuímos em casa garrafas desse tempo, datadas de 1906, 1912 e eu tenho ainda uma de 1897!). Ou ele, ou um ou outro filho (temos dois tios que se casaram com inglesas e lá vivem) iam até Downing Street entregar em mão as garrafas, como oferta de meu avô ao PM Churchill, o que naquele tempo era possível! Bastava chegar lá, identificar-se e entregar a dita oferta a quem de direito para a receber e encaminhar ao destinatário. Hoje seria impensável. E Churchill agradecia, posteriormente, numa carta manuscrita, cartas essas que hoje são parte da família, um dos meus tios ficou, por decisão entre os irmãos, por ocasião da herança, com essas cartas, hoje emolduradas e guardadas no escritório da sua casa. Nosso pai, quando eramos mais novos, entre os 16 e 18 anos, costumava enviar-nos para Oxford, para uns cursos de Verão, de 1 mês, que então existiam (e se calhar continuam), normalmente entre Junho/Julho. Convivíamos com outros jovens estrangeiros, aprendíamos a língua inglesa e divertiamo-nos. Ainda me recordo de por lá praticar um desporto típico do país, o “Punting”. E numa das vezes ainda tive por lá um namorico com uma jovenzita oxfordiana. Mais tarde, ainda vivi um outro romance intenso com outra inglesa. O tempo foi passando, mas a ligação afectiva da nossa família áquele país manteve-se. Meus (nossos) filhos estudaram por lá, alguns sobrinhos igualmente (um deles até já obteve a dupla nacionalidade, inglesa com a portuguesa, depois de anos por lá a viver, embora após rigorosos exames, o que por cá ninguém exige) e lá vamos sempre que se proporciona, apesar de agora, com a crise, as visitas serem mais evasivas. E de lá encomendamos, por vezes, uns livros, via “Amazon”. E para além de alguma família por lá, também temos amigos que se estabeleceram naquele país e não só em Londres e por lá casaram. Daí este afecto especial que temos pelo Reino Unido e a graça particular que achei a este seu delicioso Post!
P.Rufino
PS: até as minha viatura preferidas são inglesas: o eterno jeep “Defender” (os novos modelos são ainda melhores) e o Aston Martin! Não podendo “chegar” ao último, estudo a hipótese de um dia destes adquirir o primeiro destas preferências...após convencer minha mulher (o conforto...)!

jrd disse...

Decerto que o Henrique VIII deu voltas na tumba ao saber de tantas prendas.