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segunda-feira, abril 21, 2014

O meu período pascal - making of


Como já várias vezes aqui o disse, os meus filhos não são baptizados nem andaram na catequese, apesar de terem andado num colégio diocesano. Logicamente, também não se casaram pela igreja nem vão à missa e, portanto, ainda são mais alheios aos rituais católicos do que eu. Por isso, nem eu nem eles ligamos muito a isto de ser Páscoa. Mas, para além de não ligar muito ao lado religioso da data, devo confessar que, além do mais, sou distraída. Há coisas que se me varrem, nada a fazer.

No entanto, por várias vezes, durante estes dias, pensei que, às tantas, toda a gente liga mais do que parece.

Eu conto.

Para a sexta feira anunciei antecipadamente que não queria madrugar e que queria ir dar uma caminhada matinal, pelo que o almoço seria composto por frangos assados comprados numa churrasqueira - e todos me responderam que franguinho assado era mais do que bom. 

Mas, quando eu penso que a coisa tem tudo para correr bem e para eu poder andar sem stresses, geralmente há uma reviravolta inesperada e tudo se complica. Na quinta à noite, o meu filho manda-me um sms: 'acho que devia ser peixe porque na sexta feira santa não se deve comer carne'. Fiquei parada a olhar para aquilo. Imaginei que só podia ser piada.

No entanto, para minha contrariedade, o meu marido disse, 'acho que o puto tem razão, faz antes bacalhau'. Achei uma bizarria sem tamanho. Aqui já eu estava a ver a minha manhã a complicar-se. Na dita sexta feira de manhã liguei à minha filha: 'olha lá, o teu irmão diz que eu não devia fazer carne...' E logo ela: 'acho bem, sabia bem um peixinho. Mas porque é que ele disse isso...?'. Expliquei-lhe, 'Por ser sexta feira santa'. Deu uma gargalhada 'Ah! Só pode estar a gozar...! Mas eu alinho, se calhar aquela pescada grandalhona do Chile.'. Protestei: 'mas está tudo doido?! Agora, num dia feriado, onde é que vou arranjar peixe fresco? E como é que tenho tempo de ter almoço pronto a tempo e horas...? Gaita'.

Claro que me podia marimbar, mas a verdade é que tenho dificuldade em não atender às vontades deles. Resultado: lá fui para o supermercado, uma fila do catano para o peixe amanhado. Pescada gigante havia, mas havia também umas vinte pessoas à minha frente. Vai daí, trouxe-a por amanhar. Trouxe-a, não: trouxe-as. É que pensei que o meu filho ia querer a cabeça e se há coisa que eu adoro nos peixes é a cabeça, andar a escarafunchar, aproveitar os bocadinhos todos, esmiuçar as espinhas, as cartilagens, não deixar nada. Além disso, uma pescada, apesar de grande, podia não era suficiente. Então trouxe duas pescadonas. E batatas, cenouras, brócolos, grão, ovos. Pescada com todos. E eu quase a correr dentro de um supermercado cheio.

Depois em casa é que foram elas. Vi-me aflita para amanhar os bichos. Não cabiam no lava-louça. Eu cheia de pressa, as tropas quase a invadirem o quartel e eu naquilo: escamar, tirar as guelras, meter-lhes as mãos pelas goelas para puxar as tripas. Agora tenho as mãos meio arranhadas. Olhava para elas sem perceber o que tinha acontecido até que me lembrei: foi de as enfiar nas cabeçorras das pescadas, imagine-se.

Mas, enfim, valeu o esforço. À hora devida, o almoço estava servido. Mas, mal entrou em casa, o meu filho protestou: 'cheira a peixe cozido! mas porque é que todas as parvoíces que eu digo são levadas a sério...? Alguma vez eu ligo a isso de sexta feira santa...? Não dava para perceber que era no gozo...?''. Mas, concluiu, 'mas ainda bem, uma pescada fresca é boa ideia' e, claro, lambões, batemo-nos os dois com uma cabeça cada um. 

A outra distração minha tem a ver com ovos da Páscoa. Sabendo que não é suposto que as crianças comam muitas guloseimas, nem me ocorreu que um dia não são dias e que, portanto, deveria ter aberto uma excepção para os célebres ovos da Páscoa. Nem me lembrei. 

Mas a minha filha tem destas coisas: trouxe amêndoas da Páscoa e ovinhos de chocolate. Com ar censor, de cabeça de lado, sentenciou, 'ainda há quem se lembre, não é....?'. Pois. Ainda bem.

Ela sempre gostou de organizar caças ao tesouro e os miúdos adoram.

Portanto escondeu os ovinhos por aqui e por ali e foi deixando pistas. Claro que o mais crescido é que comandava os descobridores, avançando à aventura, tentando decifrar as pistas. Mas, para todos, foi uma festa. 

E, no fim, andava toda a gente a comer ovinhos de chocolate. Até o bebé me apareceu de boa cheia e logo toda a gente com medo que tivesse metido a prata na boca. Mas não: tendo ganho também uns quantos e querendo comê-los, a mãe tirou a prata de um para ele provar. Chamou-lhe um figo. 

Aqui ainda estava com
os seus fortes cacóis. 
Pelo meio, e apesar de nada ter a ver com o período pascal, ainda houve tempo para o habitual hair-cut. Não me refiro ao hair-cut da dívida pelo que o apresentador-amestrado Gomes Ferreira pode ficar tranquilo. Refiro-me, sim, ao cabelo dos dois rapazinhos mais novos. Estavam mesmo a precisar, como se pode comprovar pelas fotografias tiradas antes.

Sentam-se numa cadeira, de toalha pelos ombros, e vou humedecendo o cabelo, penteando e cortando à tesoura. Pareço uma barbeira de província. Como sempre, correu muito bem. Em particular, o ex-bebé adora, nem se mexe, eu podia estar ali uma tarde inteira a mexer-lhe na cabeça, a pentear, a massajar, que ele nem ai, nem ui.

E pronto, as minhas férias estão acabadas (que isto de haver um feriado encostado a um fim de semana para mim é uma festa, verdadeiras férias grandes). 

Este domingo, antes de ir para a visita semanal aos meus pais, ainda fomos, agora já só o casal (embora num estado um bocado depauperado), dar um passeio; e a ver se vos mostro a reportagem fotográfica porque Lisboa é uma maravilha. A questão é que vou acumulando assuntos e o tempo escasseia-me. A ver vamos.

2 comentários:

Pôr do Sol disse...

Cara Jeitinho,

Por estes lados também acontece.
Às vezes apetece-me dizer "usem mas não abusem".
Mas, tal como as dores de parto, ràpidamente esqueço o trabalho e o retorno compensa .
Nada melhor que o video O Trabalho mais dificil do Mundo, partilhado por HSC em Fio de Prumo, para nos lembrar da nossa condição.

Anónimo disse...

Embora por cá também ninguém professe sentimentos religiosos, nem nós, nem os filhos casaram pela Igreja, nem eles nem o neto são baptizados e a Igreja nos diga pouco ou nada, a verdade é que a Páscoa acaba por ser um pretexto de encontro familiar (como o Natal), tal como há pouco disse no Post acima, entre irmãos, cunhados, sobrinhos e primos, mesmo que todos tenham perante a Religião o mesmo e comum sentimento, ou seja, nada. E ali se está em grande harmonia, divertidamente, comendo o tal borrego, ou cabrito, por mera tradição, enfim, convivendo. Seja por aqui, seja pelo Norte, ou na Beira. Há hábitos que se mantém por outras razões, no caso, por tradição familiar, de tal encontro familiar. Tão só. E, por um acaso dos cabrais, também comi peixe na 6Feira, porque sim, porque era bom e fresco!
P.Rufino