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segunda-feira, abril 14, 2014

Eu, bird girl, entre glicínias e poemas in heaven


Se descerem, a seguir a este post poderão ver um cavalo que, este domingo, na praia, não fazia sombra no mar, e poderão ouvir falar de um outro cavalo à solta e, descendo ainda um pouco mais, ouvirão uma belíssima ode ao mar enquanto me recordo de um lugar ao qual sempre voltarei como se fizesse parte de mim.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.

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Se, como verão abaixo, neste domingo a tarde foi de praia - as crianças numa alegria, todos nós descontraídos, bem dispostos, o sol abre ainda mais os corações, a beleza do mar torna-nos melhores, reduz-nos à nossa real dimensão e, humildes, sentimo-nos agradecidos pela paz das nossas vidas - o sábado foi de campo. 

Os perfumes da primavera estão intensos e a passarada canta num desatino. Eu própria, quando caminho por entre estes caminhos que se fizeram por neles caminharmos, sinto-me uma bird girl. Tantas vezes penso, eu poderia voar. Um dia hei-de voar. Bird girls go to heaven.

O chão ainda está atapetado de musgo, tanta a chuva que tem caído, e a erva cresce desenfreadamente. 

O campo está numa euforia de cores. A esteva mimosa, o rosmaninho perfumado, o tojo amarelo intenso, tão intenso que parece luz. Mas tão frágeis estas flores, pétalas finas como papel. As abelhas não têm descanso: doce, doce que deve ser este pólen dourado.



O marmeleiro, a ameixeira, tudo está em flor. A macieira também está florida em branco e rosa e, no abrigo verde onde descanso nos bancos forrados a azulejo e onde uma mulher de Magritte se reclina e poemas de Sophia e O'Neill dão voz ao que os deuses murmuram por entre o vento, eu penso que deveria ter nascido com o dom da poesia para aqui vos contar melhor a serenidade que me cobre a pele, a alma, me envolve o coração.

E lembrar-me de uma outra primavera, numa longínqua primavera em que a natureza e toda a esperança rebentaram como flores longamente aprisionadas.

Mas não sei fazer poesia. Socorro-me então daqueles a quem os deuses iluminam.


Dizer uma vez mais da primavera
seus gestos sem perdão e sem quimera;

não mais deixar nenhum papel em branco,
nenhum gesto desfeito sobre o banco

de jardim que foi feito dos amores
pintados de maus-versos, furta-cores.

Dizer-te da longínqua primavera,
despedir-me do tempo que não espera





E depois começa a anoitecer. As glicínias estão a maravilha de sempre, longos e exuberantes cachos de azul e lilás. Pudesse eu, nua, vestir-me apenas destas flores delicadas cuja cor me encanta.

Quando a noite cai, um esboço de lua branca no céu, crescente, indefinida entre a névoa da noite, a casa parece envolta em magia. As glicínias treparam pelas azinheiras, envolveram o limoeiro, debruçam-se sobre todos os arbustos e, de noite, adquirem um tom de veludo tentador. A luz junto à porta ilumina levemente estes véus delicados e eu podia ficar dias e noites  inteiras contemplando estes suaves cachos de flores que me trazem a primavera e me mostram como é delicada a nossa breve passagem pela vida.


O que foi teu e o que juntaste à vida,
tudo te mostra a casa iluminada:
no fim do caminho a luz estremecida,
no rasto dos teus passos a morada.


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Os poemas, lindos, lindos, são respectivamente Primavera e A casa na noite de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados.

A música lá em cima é Antony and the Johnsons interpretando Bird Gerhl.

I am a bird girl now . I've got my heart . Here in my hands now. 
I've been searching . For my wings some time . I'm gonna be born. Into soon the sky .
'Cause I'm a bird girl . And the bird girls go to heaven .
I'm a bird girl . And the bird girls can fly . Bird girls can fly

As fotografias foram feitas este sábado in heaven.

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Relembro: se descerem um pouco mais, poderão ir em busca do mar, um mar branco e limpo, onde passeiam cavalos brancos que não fazem sombra no suave ondular das águas.

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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu Ginjal e Lisboa onde hoje tenho um outro vídeo do Cine Povero, desta vez Herberto Helder por Fernando Alves. Uma maravilha, mesmo.

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   E, por agora, é isto. 
          Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.


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