Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, janeiro 20, 2015

Um amor de parar a respiração, doces tardes de verão, um convento abandonado, escadas que já não levam a lado nenhum - memórias apenas.


Depois de umas montagens adaptadas ao slogan que correu mundo e que, mais que certo, se dissipará enquanto grito de intenções ficando para a história sobretudo como um dito romântico, aqui, agora, volto-me para as minhas memórias.





Amore, Ryuichi Sakamoto




Íamos em grupo, talvez umas quatro ou cinco raparigas, outros tantos rapazes. 

Uma das raparigas tinha uma casa de campo quase encostada à casa de um primo, um dos rapazes do grupo. Os rapazes começavam por se juntar em casa dele mas logo vinham para o lado da prima, e passávamos a tarde todos juntos. Não me lembro de como ia para lá, não sei se de autocarro se a pé. Sempre gostei de andar a pé, na altura adorava correr, na volta ia a correr. Aquilo era, então, campo, hoje é zona de moradias da cidade e algumas pessoas bem conhecidas têm lá casa.

Não estavam lá adultos. Ou, se estavam, eu nem os via. Talvez lá estivesse uma das irmãs mais velhas da minha amiga. Estudava medicina, era feia, durante anos vi-a sempre a estudar, mal arranjada. Mesmo quando o grupo se alargava a irmãos mais velhos, primos e primas, tias e amigas das tias, e nos juntávamos todos na praia, essa irmã mais velha nunca aparecia.

Mas, mesmo que não estivessem lá adultos nessa grande casa de verão no meio de um pinhal, havia sempre um grande saco de pão, manteiga, doce de tomate e, a meio da tarde, nós arranjávamos o nosso próprio lanche.

A casa era ampla, à medida da família, tinha vários quartos, uma sala muito grande. No jardim, que era enorme, havia um coreto. Era para lá que íamos lanchar.

Quando eu ia a casa dela, na cidade, também pouco via a mãe. Era uma senhora com ar antigo. Quando se abria a grande porta da rua dessa casa num dos bairros antigos da cidade, havia uns degraus que levavam à parte da casa onde viviam mas havia uns degraus que desciam até à cave. Aí trabalhava a modista que eu via lá com frequência, acho que adaptava os vestidos das irmãs das mais velhas para as mais novas. Trabalhava também uma das empregadas a passar roupa a ferro, com tanta a gente era natural que houvesse sempre roupa para tratar. No verão, provavelmente a mãe ficava na casa da cidade enquanto os filhos iam para o campo. Do pai não tenho nem ideia. Havia também um menino silencioso, filho mais novo, certamente nascido quando já não o esperavam.

A minha amiga era bonita, uma beleza um pouco invulgar embora discreta, e tinha também um ar antigo. Tinha a pele muito branca e cabelo muito negro que usava em tranças compridas, mesmo quando, adolescentes, as tranças já pareciam coisa de crianças. Assistia aos meus amores, paixões arrebatadas, intermediava brigas, e sempre suave, sempre amiga. Tornou-se médica como a irmã mais velha. Nunca lhe conheci amores, nem de rapazes em relação a ela, nem me lembro de alguma vez ela confessar alguma paixão clandestina. Contudo, quando andava na faculdade arranjou um namorado e casou-se.

Outra das minhas amigas era quase como eu, amores em permanência. No entanto, às tantas arranjou um namorado com uma vida complicada, ao fim de pouco tempo ainda adolescente, engravidou, pouco tempo depois separou-se do namorado, e, de seguida, foi arranjando mais uma dúzia deles. Depois foi a filha que lhe seguiu os caminhos, tendo uma criança ainda ela própria era uma criança. A esta hora já é capaz de ser bisavó. Fez-se professora mas emocionalmente qualquer coisa falhou. Procurou amores pela vida fora e nunca os encontrou. Sempre foi linda mas diz-me a minha mãe que agora tem um ar envelhecido e esquisito, que se arranja como uma mulher de beira de estrada. Percebo o que diz pois uma vez vi-a num centro comercial e mal a reconheci. Ainda bonita, vestia-se como uma adolescente mas a forma como se maquilhava e a roupa que usava davam-lhe um ar vulgar.

E outra, grande amiga, agora médica, muito atenciosa para com a minha mãe quando se cruza com ela no consultório, e que era muito bem humorada. Não era especialmente bonita mas era muito divertida. O irmão, que aparece frequentemente na televisão, dá-lhe ares. Chorava a rir com ela, e ela comigo. Muitas vezes estive para ser posta na rua, tais os ataques de riso que me davam com coisas que dizíamos entre nós. Casou um homem interessante, mantém-se igual a ela própria, uma mulher serena, carinhosa, eficiente.

Eu não tinha segredos com elas e elas vibravam com as minhas arrebatadas paixões.

Havia mais duas ou três mas que não eram tão permanentes, iam apenas de vez em quando.

Um dos rapazes desse grupo era o meu grande amor da altura. O meu coração disparava junto dele. Ele olhava-me, vencido de mor, e eu retribuía, com vontade de viver entre os braços dele até ao resto da minha vida. Lembro-me tão bem dele, dos momentos de ternura e cumplicidade entre nós.

Agora, ao escrever isto, experimentei escrever o nome dele no google e fui parar à sua página no facebook. Fiquei-me pela primeira página pois, não tendo eu conta no facebook, não consigo avançar. Até me ri quando o vi. É bem ele, ar descontraído, risonho. Talvez esteja nos caminhos para a praia onde tanto conversámos olhando-nos com devoção mútua. Gostava de saber se ainda tem os dentes da frente partidos, uma falha na parte central de cada dente - e eu achava-o ainda mais sexy com aquela imperfeição. Partiu-os numa dessas tardes, a fazer cavalinhos na bicicleta, a derrapar na areia. Caíu, partiu-se todo, ficou a deitar sangue da boca, pregou-nos um susto - e eu achei-o um herói.

Nesses dias de verão em que de manhã íamos para a praia e à tarde para a casa dela, éramos muito felizes.

Conversávamos, ouvíamos música, dançávamos na rua, junto ao coreto, lanchávamos, ríamos.

Não existiam preocupações nem restrições. Não me lembro de alguma vez ter sentido frustrações, receios quanto ao futuro ou qualquer inadaptação.

Vivia o dia a dia, não desperdiçando um minuto. E, que me lembre, era esse o espírito de todo aquele grupo. 

E, nessas ternas tardes de verão, fazíamos ainda uma outra coisa.

Saindo da casa, atravessando a rua, entrávamos num caminho rural que avançava pela serra. Às tantas já não havia caminho, apenas mato. Eu seria incapaz de dar com o nosso destino mas os rapazes guiavam-nos. As árvores adensavam-se. Ficava mais escuro e nós continuávamos a subir. Por vezes eu sentia medo. Pensava que os meus pais não poderiam jamais descobrir que eu andava por ali, e eu sentia que aquelas expedições poderiam ser perigosas, pensava que podiam estar lá bandidos, ou temia que algum de nós se magoasse e não conseguisse sair dali. Mas não me passava pela cabeça não ir. Iria sempre pois aquele sítio era mágico.

Depois chegávamos. Um convento abandonado, em ruínas, belo na sua absoluta decadência.

Os rapazes tentavam assustar as raparigas, faziam barulhos medonhos, soltavam lancinantes gemidos, atiravam pedras, e eu por ali andava, transida mas com a adrenalina ao rubro. No entanto, não deixava de andar de sala em sala, encantada, sempre temendo encontrar alguma coisa estranha, um corpo esquecido, uma parede manchada de sangue. Mas, ao mesmo tempo, sentia-me protegida pelos rapazes e, em especial, pelo meu amor.

O chão estava pejado de restos de azulejos partidos, as portas arrancadas, as paredes raspadas, com mil coisas escritas. E eu percorria aquele cenário, tentando descobrir histórias, vestígios de outros tempos, tentando imaginar que vida teria lá havido nos tempos em que aquele belo edifício, tornado convento, era habitado.

Havia uma cisterna que se enchia de água mas que era tão perigosa. E ele, o meu amor, andava pela beira, em arriscados equilibrismos, esgueirava-se por locais perigosos, desafiava a sorte, não sei se exibia o seu heroísmo para mim ou se o faria mesmo se eu não estivesse lá.

Depois voltávamos, felizes, a tarde já caindo e eu apressada para chegar a casa a horas que não fizessem os meus pais proibir-me de voltar no dia seguinte.

Acho que já um dia o contei aqui. Num desses dias, ao percorrer as salas, uma a uma, descobri uma coisa que me pareceu nova e fiquei emudecida, parada, quase emocionada.
A todo o tamanho da parede, escavada certamente com um prego, estava I LOVE YOU e, por baixo, o meu nome. Nunca o tinha visto antes mas podia não  ter reparado. Ou podia não ser para mim. Depois de eu chamar a atenção para aquela declaração de amor, todos olhámos, interrogativos, para ele. No entanto, não foi capaz de dizer se tinha sido ele e eu não queria emocionar-me com uma coisa que podia não me ser destinada. Disse-me que eu devia saber se tinha sido ele ou não. Eu achava que talvez tivesse sido pois, uns anos antes, a carteira da sala de aula em que ele se sentava tinha aparecido escavada a canivete exactamente com a mesma coisa. Mas não foi capaz de confirmar. 
Muitas vezes os nossos desentendimentos nasciam assim, de teimosias à toa, e de um deles nasceu o nosso rompimento que foi tão marcante para ambos.

...




Pouco tempo depois, era eu ainda uma jovenzinha, já casada e com uma barriga enorme, a minha filha quase a nascer, ao sair de um cinema com o meu marido igualmente jovem, encontrei-o. Vinha com a sua namorada, também muito grávida. Eu conhecia-a bem. Nesses anos de liceu, nesses tempos de amor, ele dizia que, se nos separássemos, começava a andar logo com ela, porque, dizia ele, ela dava baldas, era canja que começava a andar com ela no mesmo dia. Eu ficava furiosa, ciumenta, chamava-lhe estúpido por falar assim. Passei a detestá-la porque ela era a arma de arremesso que ele usava para me provocar. Nesse dia do cinema, ele deve ter-se lembrado da forma como, então, me falava dela. Parecia quase envergonhado ou, então, era aquela timidez que ele, grande sedutor, por vezes demonstrava. Falámo-nos, apresentei-lhe o meu marido, cumprimentei-a a ela, quase senti estima por ela por transportar um filho daquele por quem a minha respiração tantas vezes tinha parado. Foi um encontro rápido, estávamos quase atrapalhados. Não tinha passado quase tempo nenhum desde esses dias de verão e, no entanto, como as nossas vidas se tinham distanciado...

Não sei o que é feito dele agora mas, pela fotografia no facebook, deve ser um homem feliz e calmo. Provavelmente acabou por perder aquela rebeldia que me fascinava. Também não sei que é feito da minha amiga das tranças nem do misterioso convento abandonado. Mas não interessa pois guardo-os na minha memória, recordações doces e luminosas como se fixadas em âmbar.




_____


As belíssimas escadas em casas abandonadas foram fotografas por Christian Richter que (tal como eu) é louco por fotografar a decadência de belos edifícios, as marcas do tempo, a beleza das casas abandonadas, as escadas que já não levam a lado nenhum e, que, tal como a memória, são belas sem motivo.
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Relembro que, no post já a seguir, temos quatro distintas figuras afirmando ou questionando a sua identidade.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

...

7 comentários:

Anónimo disse...

Contar uma história e esborratar a pintura:
"Era (?) linda e diz-me a minha mãe que agora tem um ar de mulher de beira de estrada (?), já gasta (?). Percebo o que diz pois uma vez vi-a num centro comercial e mal a reconheci. Vestia-se como uma adolescente, ainda bonita, mas com ar de mulher da vida (?)."
!?

Um Jeito Manso disse...

Caro/a Anónimo/a, bom dia,

Obrigada pelo reparo. Depois de o ler, suavizei um pouco a escrita. Mas não alterei totalmente porque foi de facto a observação da minha mãe e foi o que pensei quando há tempo a vi. Não o escrevo com menos respeito por ela mas apenas descrevendo o que pensei e o que a minha mãe também referiu. Penso muitas vezes nela e tento encontrar nos tempos em que fomos tão próximas o rastilho do que viria a ser a sua vida que sei que tem sido pontuada por episódios mesmo muito maus. E não me lembro de nada que o indiciasse, era uma menina querida pela família e pelos amigos. Mas isso agora também não interessa.

De resto, quase que como para me desculpar por alguma falta de cuidado na minha escrita, quero invocar o facto de que, escrevendo eu aqui directamente, sem preparação prévia (nem sequer mental), e acabando tarde, não revejo pelo que fica como saíu e, de facto, por vezes posso ser menos feliz na forma como me exprimo.

Por isso, sinceramente agradeço a sua observação.

Obrigada.

Anónimo disse...

Nada vejo nada de errado na sua escrita. Há textos de grandes escritores que são muito mais ácidos. Continue a escrever como faz, não se autocensure, pois caso contrário está a limitar a sua pleníssima liberdade de pensar, de se exprimir e de escrever. A escrita deve ser livre. E a crítica também, claro. Ao escrever como o fez, conseguiu dar uma imagem viva da personagem que descreveu. É esse o sentido da escrita.
Mudando de assunto: esse Convento será o dos Capuchos, na Serra de Sintra? Ou, pelo contrário, a Peninha? Vá lá um dia, à Peninha (e até aos Capuchos), com bom tempo (e sem vento!), entre por ali, com filhos e netos, vão adorar os mais pequenos, aquilo parecer-lhes-á uma aventura. Está degradado, mas aquela decadência sabe a mistério. E a vista dali, da Peninha, não havendo nevoeiro, é absolutamente espantosa! De sonho! Um passeio que se recomenda, no Parque Natural de Sintra, é pelo Monte da Lua e pela Barragem da Mula, Pedra Amarela, onde os mais pequenos podem ver os burros e andar em cima deles por aqueles caminhos. Outra sugestão, menos cansativa são as Dunas da Crismina, ali no Guincho, com um passadiço bem concebido e no topo um bar muito aprazível, onde pais, avós e crianças passeiam com gosto, a ver o mar. Quem for de manhã, pode depois ir até à Azóia e comer por exemplo ou na Casa do Luís (bom peixinho grelhado), ou no Refúgio da Roca, onde a variedade é maior, também com bom peixe. Ou começa-se pelo almoço e depois faz-se o passeio, para digerir. Mas, como digo, as vistas, sobretudo da Peninha, são de maravilhar!
P.Rufino

Rosa Pinto disse...

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões

Existem Príncipes?
Hoje está frio.

Beijinho

Anónimo disse...

Cara/o UJM,
Gosto de lêr o que escreve. Quando leio não o faço apenas para me deleitar, tento dedicar à/ao autor/a um exercício de leitura com reflexão. Dialogar com o que leio. Sentir_pensar sobre os conteúdos das palavras.
Os discursos transportam sempre ideias mais ou menos critalizadas, valores, formas de olhar... (sabe P.Rufino, criticar não tem que ser um acto de censura, pode ser uma sugestão de diálogo com o conteúdo! um acto de liberdade e de encontro na re-leitura!)... sinto_sei que UJM pratica a liberdade de escrever por dentro da forma e da densidade das 'personagens' e tvz até tenha escrito aquelas expressões crueis e comuns como provocação-espelho: como forma ácida de chamar a atenção do leitor, tvz possa o leitor re-ouvir assim o que ouve, o que lê, tvz até o que pensa e_ou o que diz!
Agradeço a reflexão em diálogo UJM!
Abraço

Anónimo disse...

re-leitura: substituir a palavra 'cara/o' por 'estimado/a'

Anónimo disse...

Começo a ficar rendido á poesia de Rosa Pinto!
Caro anónimo, não o quis "provocar", de forma nenhuma, apenas chamar á atenção para a liberdade de escrita.
A ambos, ao anónimo e á doce Rosa Pinto a minha cordialidadee,
P.Rufino