quarta-feira, junho 22, 2022

Nudez, intimidade, prazer, sexo (pago)

 

Está a fazer furor. Eles desdobram-se em entrevistas. Mais ela que ele. Compreende-se. Vários aspectos são tabu: sexo, prazer, intimidade, nudez. Tanto mais sendo sexo pago, sexo pago por uma mulher, nudez duma mulher com mais de 60. Tanto mais quanto ela é a Dame Emma Thompson.

Ao ver a apresentação do filme e ao ver algumas das entrevistas, fiquei a pensar. Será que, em circunstâncias idênticas, eu seria capaz de contratar um profissional de sexo? Não sei. Poderia ter vontade, poderia sentir curiosidade, mas não sei, sou um bocado medrosa para coisas assim. Ficar sozinha com um desconhecido, sem conhecer a sua índole, assustar-me-ia. 

E se fosse um ladrão? E se fosse um assassino? E se fosse um violador? E se fosse agressivo? E se fosse estranho? E se fosse um tarado? E se fosse um chantagista? E se fosse um palerma?

Sou um bocado esquisita, ou seja, exigente. Melhor: muito exigente. O diabo está nos pormenores. Se alguma coisa me desagradasse 

(um cheiro pouco convidativo, dentes mal lavados, cabelo pouco limpo, mais do que um pontapé na gramática, sinais de burrice aguda. umas cuecas foleiras, uma tatuagem ridícula, todo depilado, uma camisa com colarinho ensebado, umas meias encardidas, desatento... sei lá, mil coisas) 

já não ia dar. Tem que haver clima. Pode até ser apenas um climinha. Mas tem que haver. E, para haver climinha, não pode haver nada que distraia, nada que perturbe, nada que possa comprometer.

Por isso, com tanto receio, tanta ressalva, acho que não me arriscava a abrir a porta a um desconhecido havendo o risco de, no minuto seguinte, só querer vê-lo pelas costas. 

E se o mandava embora e ele se recusava a ir? Que medo...

Não... acho que o meu espírito de aventura não é para isto. Mas já me pareceria viável conhecer alguém num encontro em público com a intenção de o conhecer, de conversar. Claro que também poderia não funcionar. Ao fim de dois minutos poderia ter vontade de arranjar uma desculpa e desandar. Mas se, por exemplo, me aparecesse alguém com quem se pudesse ter uma boa conversa sobre a situação na Ucrânia e na Rússia, sobre o suicídio do PCP, sobre os problemas ambientais nos próximos anos... coisa assim, já me parece que poderia ser interessante. Poderia nunca passar disso. Mas isso, em si, poderia ter piada.

Mas, pronto, eu não poderia dar a personagem interessante que a viúva Nancy Stokes parece ser. E também não sei se há por aí muitos Leo Grandes.

Agora uma coisa é certa: não sei se, depois de um filme assim --  e falo apenas por ver a apresentação e as entrevistas -- se vai continuar a olhar para os profissionais do sexo da mesma maneira. É censurável que Nancy Stokes tenha recorrido a Leo Grande para voltar a estar nos braços de um homem, para voltar a sentir prazer, para voltar a sentir o aconchego da intimidade?

Falo por mim: não acho censurável.

Mas... se fosse ao contrário? Se for um homem a contratar uma mulher... já o é? Porquê? Porque um homem vender-se para dar prazer a uma mulher é menos censurável do que se for uma mulher a fazê-lo?

Good luck to you, Leo Grande

com
Emma Thompson, Daryl McCormack


Dame Emma Thompson wants to talk about sex. It’s all because of her new film Good Luck To You, Leo Grande. In it, she plays a widow in search of sexual fulfillment. Relative newcomer Daryl McCormack plays the sex worker she hires to help her in her quest.

Desejo-vos um dia bom
Graça. Alegria. Confiança. Paz.

terça-feira, junho 21, 2022

Um presente para os amigos de Putin

A Rússia de Putin: a síndrome do ditador e o crescimento de um 'estado mafioso'

 

Os desagradáveis amigos de Putin têm a particularidade de serem tão boçais e cruéis como ele. Volta e meia aparecem por aqui para deixar o seu visco. De vez em quando, excepcionalmente, publico um ou outro comentário para que fique bem visível a sua má índole. Mas, de modo geral, vão para o caixote do lixo que é onde estão bem. 

Se o Putin invade países e os destrói até que não reste pedra sobre pedra e até que não reste um único opositor, os amigos de Putin ofendem, insultam -- e penso que apenas não maltratam fisicamente aqueles que condenam as invasões e agressões porque isto da internet apenas lhes permite fazer sangue virtual.

Têm ainda uma desconfortável particularidade: frequentemente dão erros ortográficos. E isso maça-me um bocado. 

Claro que nem toda a gente é obrigada a saber escrever e, para além do mais, por vezes a pessoa distrai-se e as letras saem-lhe trocadas. 

Mas com alguns amigos do Putin parece que é coisa recorrente, quiçá até endémica: é gente que não gosta dos outros, que não gosta da democracia, que não respeita a lei, que despreza a liberdade e que, ainda por cima, não gosta da língua portuguesa. Do piorio, portanto.

Por isso, ao partilhar aqui o vídeo do Guardian sobre a pérola que é o Putin e sobre o maravilhoso regime putinista, já estou à espera que os cobardolas e hipócritas -- que, desejando a rendição de um país independente às mãos de um regime ditatorial, oligárquico, corrupto e cruel, se pintam de branco para fingir que querem a paz -- aqui apareçam para me insultar.  

Mas que venham. Make my day. 

Quantos são, quantos são...?

E reparem como sou subtil. Poderia enfeitar o texto com ilustrações das paulas, das anas, dos miguéis, tiagos, filipes, jerónimos, pachecos, lúcios ou estátuas desta vida. Mas não. Fico-me por artistas de outro campeonato, gente fina como Trump, Bolsonaro ou Kim Jong-un, tudo grandes apoiantes de Putin. Olé.

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Um breve preâmbulo: o vídeo não é apenas interessante. Tem um atractivo suplementar: o sotaque de Irina Borogan, jornalista russa que fala inglês quase como os franceses do saudoso Allô, allô!

Putin's Russia: dictator syndrome and the rise of a 'mafia state'

O correspondente do Guardian, Luke Harding, narra os momentos decisivos no início da presidência de Putin que ajudaram a transformar a Rússia num 'estado mafioso' – desde a repressão da comunicação social independente, até assassinatos chocantes e o surgimento de movimentos democráticos pró-ocidentais na vizinha Geórgia e Ucrânia

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E, caso queiram deixar cair uma lagriminha e, ao mesmo tempo, refrescar a mente e pegar um jazzinho, recomendo que se deixem descair até ao post já aqui abaixo.

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Avery Dixon, o irmão mais novo de Terry Crews

 

Por vezes nem nos ocorre pensar no que sofrem os que nasceram com alguma diferença. Pode ser porque se é alto e magro demais, porque se é mais gordo do que os outros, porque se tem um cabelo que não cresce para baixo mas, antes, em caracóis que ficam agarrados à cabeça, ou porque se é estrábico, ou porque se é gago, ou porque se coxeia, ou porque se tem uma voz que não desenvolve... ou por qualquer outra coisa. Quem não passou por isso nem se lembra do que eles sofrem na escola, ridicularizados pelos colegas, atormentados com a crueldade das outras crianças. 

Sabemos que essas crianças não querem ir para a escola, ficam doentes só por antecipar a vergonha por que vão passar. Sabemos que há jovens que querem desistir, que há os que tentam o suicídio. 

Sabemos como crescem atormentados os que passaram por essa angústia quotidiana.

Nunca se fará o suficiente para que todos, crianças e adultos, aceitem e convivam normalmente com a diferença. Não será necessário fazer de conta que não se vê. Pode até comentar-se, com naturalidade. Sem superioridade. Com respeito.

Nessa pedagogia, o programa Tabu do Bruno Nogueira foi extraordinário. Ele ria mas de forma a que os próprios se rissem também. Os que são diferentes não são piores nem melhores, são apenas diferentes. E toda a gente se pode rir de si próprio ou rir dos outros e com os outros: desde que não humilhemos os que vemos como diferentes, desde que não os façamos sentir inferiores, desde que não exerçamos sistemáticas acções de bullying.

Avery Dixom nasceu prematuro, com menos de 700 gr. Tem agora 21 anos, não é muito alto, de acordo com os padrões não será especialmente bonito, tem uma voz estranha. Tem sido gozado, humilhado, quis suicidar-se.

Quando lhe perguntam o que faria se ganhasse o AGT, diz que gostava de ter um espaço para ele, a mãe e o irmão viverem e onde pudesse ensaiar. Diz que agora, quando toca, os vizinhos chamam a polícia e mandam-no parar de tocar. 

E é este jovem que, apesar de tudo por que tem passado, tem um sorriso meigo e que, quando pega no saxofone, se transforma dando-nos a conhecer um fantástico músico. Nessa altura, a sua aparência e a sua voz deixam de ser relevantes. Ele e o saxofone fundem-se e ele vibra e faz vibrar quem o ouve.

Depois da exibição no America's Got Talent, depois de pôr a sala a dançar, depois de emocionar o gigante Terry Crews que ofereceu a sua protecção de irmão mais crescido e depois do Golden Buzzer, certamente ninguém mais ousará apoucar o simpático e talentoso Avery Dixon.

Golden Buzzer: Avery Dixon's Emotional Audition Moves Terry Crews to Tears | AGT 2022

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Um dia bom

Saúde. Generosidade. Tolerância. Paz.

segunda-feira, junho 20, 2022

E esta sou eu

 


Qual a vez em que foi mais feliz?
Mais ainda do que quando nasceram os meus filhos -- e foi uma felicidade imensa--, quando nasceu cada um dos meus netos. 

Qual o seu maior medo?
Tudo o que se relacione com a saúde e/ou a felicidade dos meus filhos, dos meus netos, do meu marido e da minha mãe

Qual a pessoa viva que neste momento mais admira e porquê?
Zelensky. A coragem, a determinação e o respeito pelo voto que recebeu dos seus eleitores merece-me muito respeito e admiração

Qual a característica que mais deplora em si?
A impaciência

Qual a característica que mais deplora nos outros?
A desonestidade intelectual

À parte as casas, qual a coisa mais cara que já comprou?
Livros

Descreva-se em três palavras.
Optimista, determinada, curiosa

O que a torna infeliz?
Ver como o populismo, a hipocrisia e a estupidez são ilimitadas, omnipresentes e poderosas

O mais lhe desagrada na sua aparência?
Os quatro ou cinco quilos que tenho a mais. Para me ver livre deles terei que abdicar persistentemente de comer o que me apetece e, como abdicar do que gosto e ser disciplinada são coisas que não estão no meu ADN, é com pena que constato que, se calhar, nem tão cedo me livrarei deles.

Se pudesse dar vida a alguma coisa já extinta, o que escolheria?

Um pinheiro grande, lindo, plantado pelo meu pai, que tombou e se perdeu irremediavelmente num dia de ventania

Que livro se envergonha de não ter lido?
Não sou muito dada a vergonhas. No caso dos livros, se há livros que gostaria de ler, espero ainda lê-los.

Preferiria fama ou anonimato?
Anonimato, claro.

Qual o seu prazer mais pecaminoso?
Não sei o que são pecados. Actos reprováveis, sim. Todos os meus prazeres são altamente aprováveis.

O que deve aos seus pais?
Não sei se devo (no sentido de ser algo que tenho em dívida por regularizar). O que aprendi com eles e que tenho sempre muito presente é o valor do trabalho e, também, o valor da honestidade absoluta, seja sob que perspectiva for, seja em que circunstância for. 

O que ou quem é o maior amor da sua vida?
Os meus filhos e os meus netos, o meu marido

Já alguma vez disse ‘amo-te’ sem que isso tivesse qualquer significado?
Não me dá jeito dizer 'amo-te'. Não me soa bem. Sílabas mudas não me parece que representem bem um sentimento que se quer bem forte. Também não sou muito de andar a dizer 'gosto de ti'. Acho desnecessário, uma redundância. A quem o digo de forma espontânea é aos meus netos mas isso é porque tudo com eles é novo, inocente, ainda não vulgarizado. Gosto de lhes dizer 'gosto muito de ti'. De resto, em geral, provo o meu amor em actos. De todas as vezes que o digo, sou totalmente sincera.

Qual o pior trabalho que já teve?
Quando era professora do ensino secundário, o período de mês e meio em que estava a fazer o estágio. O orientador era maluco, era preciso fazer planos, fichas e mais não sei o quê, coisas que me pareciam uma perda de tempo, uma macacada. Tudo aquilo me parecia uma banhada, uma absurda burocracia, um pesadelo. Mudei de trabalho sem pensar duas vezes.

Qual foi o seu maior desapontamento?
Na sequência de um processo de fusão, houve uma reorganização e uma redistribuição de funções e eu, que antes acumulava duas funções, perdi a função de que mais gostava porque o administrador que tinha o pelouro era do outro accionista e escolheu uma outra pessoa da sua confiança, por sinal incompetente e desonesta.

Qual a sua maior conquista?
Conseguir ter uma vida profissional motivante e recompensadora mantendo sempre como primeira e inalienável prioridade a família.

Qual o seu contacto mais próximo com a lei?
Não terá sido o mais próximo mas, de todos, o que mais me tocou foi o primeiro: quando fui testemunha de um amigo cuja mulher lhe tinha movido um processo injusto e infame. 

O que lhe tira o sono?
O cansaço extremo

Preferiria ter mais sexo, mais dinheiro ou mais fama?
Dinheiro, porque sexo tenho que baste e fama não quero.

Qual a lição mais importante que a vida lhe ensinou?
Que tudo é efémero e que os que se julgavam todo-poderosos, eternos e arrogantes, também adoecem, também ficam vulneráveis, também morrem

Como quer ser lembrada?
Gostava de ser lembrada com carinho. Mas, na realidade, como cá não estarei para o testemunhar, não penso nisso, não estou nem aí.


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As perguntas a que acima respondi são as que Rosanna Greenstreet colocou a Fran Lebowitz no Guardian. 

Em alguns casos, gostei tanto das respostas que a minha vontade era papagueá-las. Mas não. Estas são mesmo as minhas. Sem pensar muito e, em alguns casos, francamente redutoras. Mas não vale a pena complicar. Noutro dia posso responder outra vez e, provavelmente, as respostas sairão diferentes, quiçá mais fiéis ao que sou. Mas, também, sei lá quem sou... 

Cheguei à entrevista pela mão do João.

 As fotografias foram feitas in heaven.

Era para ter escrito isto ontem mas, para mal dos meus pecados, não consegui pois, inesperadamente, foi dia e noite de juízo, uma directa das antigas. Cheguei a casa às sete da manhã, felizmente com notícias razoáveis e a minha mãe já em casa, sentindo-se bem e livre do susto que apanhámos. Pelo meio, de madrugada, enquanto esperava pelo resultado de exames e tentava espantar os receios, consegui escrever o post-ito a que dei o desinspirado nome de Vinham os dois ali mas só o mais alto se vê

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Confiança. Força. Paz.

domingo, junho 19, 2022

Vinham os dois ali mas só o mais alto se vê

 

Há muitas cores e muitos cheiros. Os calores intensos da semana passada fizeram com que as cores torradas do verão já estejam presentes. Aqui e ali, pelas folhas secas e douradas no chão, quase parece outono. Os perfumes densificam-se nestes dias em que a chuva dissolve os aromas que as árvores, os arbustos e as flores exalam. 

A fotografia foi feita na quinta-feira e os únicos sons eram os da chuva. Se tivesse sido neste sábado, ouvir-se-ia a música que vem lá de baixo, da aldeia. Por estas alturas as pessoas organizam-se em festejos. Não fomos até lá mas certamente, a par da música, haveria petiscos e gente na rua pronta para o que der e vier.

No momento da fotografia, andava eu a caminhar e a registar tudo e nada e, nesse comprimento de onda, fotografei o meu marido por entre todo aquele belo colorido. O ursinho felpudo vinha com ele. Tinha andado ao meu lado e, ao vê-lo, foi a correr ter com ele. Mas, como é rodas baixas, não aparece na fotografia. Mas vinha lá, feliz e contente, correndo, dando ao rabinho, saltitando. 

Não é nada de mais mas, para mim, estes são momentos felizes.


sábado, junho 18, 2022

Os seguidores do Frei Hermano e, para disfarçar, Hit The Road Jack

 

Ela mistura com graça e alegria a dança no varão com as artes performativas de projecção. Chama-se Kristy Sellars, tem três filhos e umas pernas bem fornecidas. E tem, sobretudo, força, sensualidade, capacidade para surpreender quem a vê.

Depois de ter visto na televisão parte do tresloucado discurso do psicopata, assassino, fora-de-lei e hipócrita-mor que dá pelo nome de Putin, abri o computador para ver qualquer coisa que me dispusesse bem. 

Felizmente, dei de caras com a Kristy. 

Entretanto, o meu marido ligou a televisão e demos de caras com um grupo também bacano. Estamos meio incrédulos a ver se descortinamos o racional da coisa. O programa chama-se Em casa d'Amália. É apresentado por um dos bacanos a quem parece faltar a parte redonda da cabeça atrás. Coitado, não tem culpa nem tem mal. Só o refiro porque, curiosamente, está ali sentado um outro, sentado muito direitinho, muito apertadinho, vestido de militar, mas que quase aposto que de militar não tem nada. Mas tem a particularidade de parecer ter a parte de trás da cabeça do outro colada à sua. Por isso, aquilo que me parecia uma boina é afinal tudo cabeça. Ao lado deste está um calmeirão vestido de cor de rosa na vertente fúcsia, cabelos compridos, e sobre quem perguntei ao meu marido se seria o Jesus Cristo em pessoa. Pois logo de seguida ouvi-o dizer que é o Nazareno. Pois claro, quem mais haveria de ser? Estava na cara. Ao lado, neste momento a cantar, está um muito bem vestidinho e com um cabelão que faz favor, um penteado todo muito armado. A tocar guitarra estão dois um bocado mal encarados, quase como se tivessem regressado da guerra.

Não sei o que é isto. O meu marido diz que parece que têm em comum cantarem coisas do Frei Hermano da Câmara. Não sei. Por acaso nem sei se não serão todos padres ou por lá perto.

Olha! Afinal está também aqui o Padre Borga. Está com aquele ar de quem gosta de andar da farra. Ia a dizer 'andar na borga' mas seria vulgar. Um bacanão, este Borga, sempre na maior informalidade. Cantar não canta nada mas tem aquilo de ser padre e isso parece que rende no mundo musical.

Agora, o Jesus Nazareno, todo exuberante, falou de um certo dia em que presenciou a aparição do Frei Hermano vindo de uma varanda e de como isso o fez chorar. Mas, acrescenta ele, já de si é de lágrima fácil. Olha, olha, o Nazareno-cavalão afinal é um choramingas.. 

É de mais. 

O meu marido prepara-se para fazer zapping e eu não vou impedi-lo. Presumo que vou perder bons momentos mas, ainda assim, deixa estar.

Que entre a Kristy. Assim como assim, a gente vê e também não percebe bem mas, parecendo que não, sempre parece mais normal e tem mesmo graça.


E até já.

sexta-feira, junho 17, 2022

A room with a view -- in heaven

 


Chovia. Trovejava ao longe. Aquele som que parece familiar, uma companhia longínqua. A serra difusa, envolta em nuvens. As árvores e as flores e os musgos molhados, exalando perfume e melancolia.

Caminho devagar, inspirando o ar tão puro, caminho e ouço os pássaros, caminho sentindo-me fora do mundo em que geralmente habito. Caminho devagar, olho a copa das árvores já tão altas, olho o céu que se esconde acima da neblina branca e silenciosa.

Quando passo ao lado da casa, olho par dentro. O meu ninho, o meu conchego, o sofá onde costumo sentar-me, os espelhos por cima do sofá, a almofada forrada a lantejoulas douradas, o reflexo da folhagem e das flores no vidro da porta que quase parece uma renda. Guardo em mim a imagem, penso que vai ser uma recordação eterna de um momento efémero. Depois fotografo. Penso: vou oferecer esta imagem, vou deixá-la voar no vasto espaço etéreo onde tudo flutua, palavras, imagens, sons, emoções, sonhos, memórias.

Aqui está. A room with a view. Ou melhor: A view with a room. Momentos de felicidade em estado puro.

O mamilo da freira que habita in heaven

 


Tentei não castigar as almas mais sensíveis, lembrei-me de tapar o mamilo da portuguese nun com uma flor. Mas não fui bem sucedida. O mamilo está visível. Que desvie o olhar quem não suporte ver o botão florido de um seio de mulher.

A impudica monja que segura o seio desnudo com a sua mão oferece-o aqui à vista de quem quiser olhá-lo. Não sei porque está ela assim. Estará a pensar no seu bem amado? Chorará o seu inacessível amor amparando a tristeza de um seio abandonado? Ou estará a ver-se ao espelho, a explorar a sua própria sensualidade, sonhando no que poderá fazer com ela?

Quem souber que guarde o segredo para si. Há segredos que devem permanecer assim, envoltos em mistério, em lembranças, em subtis e evanescentes rêveries.

quinta-feira, junho 16, 2022

Tempos sem tempo dentro.
Casas com a natureza dentro.

 



Nem vale a pena eu aflorar pois parecerá que estou para aqui a armar-me ao pingarelho. Ou bem que era precisa e explicava mesmo a complexa situação (que, a não resolver-se, terá pesado impacto económico e mediático) ou mais vale ficar calada.

O que posso dizer é que foi desde que me levantei até há pouco. Telefonemas a atropelarem-se, danças e contradanças, gente que se compromete para logo se descomprometer -- foi obra. E o complicado é que nada ficou resolvido. Por isso temo que me estraguem o feriado. 

Ao longo da minha vida profissional tenho passado por momentos em que me vejo em becos sem saída. Nunca é fácil. Mas mais difícil é quando se está com uma equipa em que não se tem confiança a cem por cento. Imagine-se, então, quando, ainda por cima, há muitas frentes abertas em simultâneo e a gente tem forçosamente que delegar (porque é fisicamente impossível estar em todas) e quando a gente sabe, porque sabe, que alguns não vão dar conta do recado. Fica uma danada sensação de insegurança.

Nunca mais consegui ter tempo para pegar num livro, nunca mais tive tempo de me sentar no cadeirão lá de cima de onde vejo a copa das árvores, nunca mais tive tempo para ter tempo para mim.

É muito absurdo isto de passar um dia e outro e outro e a gente deixar o tempo escorrer para o fim dos tempos sem conseguir agarrar nem um bocadinho dele. 

Faz tempo comecei um diário. Depois de andar há anos a pensar deitar mãos à obra, nesse dia pensei que era o dia certo para começar. Pois nunca mais tive disponibilidade nem disposição para retomar. 

No inverno ansiava pelos dias grandes, pensava que as horas de dia a mais bastariam para me dar a mim as horas de fazer coisa nenhuma por que eu tanta ansiava. Não tenho tido essa sorte.

Enfim. Adiante.

Tinha deixado as almofadas nas espreguiçadeiras e, apesar de estar a ouvir como que um longínquo ribombar e apesar de ver o tempo a escurecer, não dei logo conta da chuva. Quando dei por ela, fui a correr lá fora mas já as almofadas estavam ensopadas. Trouxe-as para debaixo do terraço e pu-las a ver se escorrem, sobre as costas de outras cadeiras.

Ao fim do dia fomos até à praia. O carro estava todo sujo. A chuva devia estar cheia de terra. E estava frio, vento, humidade. A pequena fera toda agitada com os pelos em remoinho pelo vento. 

Não tinha levado agasalho, tinha pensado que ia gostar de sentir na pele a aragem fresca e molhada. Mas estava para além disso e senti algum frio.

Vimos aquele senhor simpático que tem um cãozinho parecido com o nosso mas em ponto mais pequeno, um rafeirinho arraçado de urso felpudo, uma coisa muito fofa. No outro dia veio falar connosco, veio confirmar que o nosso é um Serra de Aires, diz que sempre gostou de Serras de Aires. O nosso gostou muito do mini me e foi amizade recíproca. Também achei o senhor uma simpatia. 

Vimos também um grupo animado. Riam-se, abraçavam-se, chegavam-se uns aos outros, faziam poses. Um outro, com equipamento profissional, filmava-os. Uma outra dava instruções. Reconheci um conhecido actor. Se calhar era o elenco de alguma telenovela. Há tantos novos actores e actrizes que não conheço que já começo a sentir-me um bocado fora deste mundo. Digo-o sem nostalgia mas com um sentimento bom de liberdade,

À hora de almoço fui dar uma volta com o urso felpudo, num instante, entre reuniões, em passada involuntariamente aeróbica. Voltei a passar pela casa em que os donos andam junto ao chão com um regador pequenino, um sachinho, uma pazinha a amanhar os pequenos canteiros. Em volta de cada árvore há uma fiada de amores-perfeitos, depois uma fiada de pequenos seixos brancos. Há um pequeno lago com fetos em volta, pedrinhas, mais amores-perfeitos. Tudo mimoso. Reparei que, num recanto, quase escondido, há um caracol colorido em cerâmica pintada. Kitsch e inocente. O senhor lá estava de joelhos, as mãos na terra, boné na cabeça apesar de estar à sombra. Enterneço-me sempre que passo por lá. Tudo ali mostra o amor e o vagar com que aquelas mãos tocam e tratam de tudo.

Há uma outra casa em que estão a arranjar uma zona do jardim. Estão a fazer não sei se será um jacuzi ou um lago. É pequeno mas fundo. No outro dia, a dona, uma mulher jovem de rabo de cavalo, estava lá dentro a colar pastilhas cerâmicas, uma a uma, à mão. Hoje vi que a superfície interior está quase coberta. Há quadradinhos azul turquesa, outros verde água. Antes das obras, estavam lá sempre dois cães que faziam uma dança de desafio e sedução com o nosso urso que correspondia, encavalitando-se na vedação, ladrando lá para dentro, saltando e dando ao rabo. Agora os cães desapareceram e o ursinho não compreende. Encavalita-se, espreita, anda de um lado para o outro a ver se os vê. Mas não. Não sei deles. Devem estar na parte de trás ou dentro de casa ou noutra casa. Engraçado, isto. Conhece ele melhor os cães vizinhos do que eu conheço as pessoas. 


E é isto. Nada mais a declarar. despeço-me com dois vídeos que vi e que mostram casas cheias de harmonia e natureza. Mesmo que se viva num andar, há-de haver maneira de levar a natureza até lá. As casas não podem ser tristes, soturnas, desligadas dos ciclos da vida. Pelo contrário devem ser acolhedoras, luminosas, amistosas. A vida das pessoas é mais feliz se a casa em que vivem for uma casa clara, tranquila, simples. E no outro dia li que mesmo umas bonitas flores artificiais transmitem a sensação florida e serena tão útil numa casa. Há solução para (quase) tudo.

A flood-proof home that looks to the river Thames for inspiration

Take a tour of former professional dancer and teacher Elizabeth Rose’s innovative stilt house. Sitting pretty above the flood plain on the banks of the River Thames, the timber-clad house, designed by Knox Bhavan, is a lesson in future-proofed architecture that takes cues from its natural surroundings.


How to Use the Principles of Biophilic Design in Your Interiors

Wildwood Spa is a private and secluded spa in the forest. This luxury one-bedroom self-contained spa sleeps two and is located in the picturesque village of Lee near Ilfracombe. It is nestled amongst 12 acres of private woodland on the North Devon coastline. 

It is a glowing example of how the principles of Biophilic Design can be applied to our interiors to create homes that are inspirational, restorative and healthy.

Studies have shown that biophilic design can provide opportunities for mental and emotional restoration by reducing stress, tension, anxiety, anger, fatigue, and confusion. It can also improve cognitive function and creativity. It can help to improve our physical well-being by relaxing our muscles, lowering our blood pressure and reducing stress hormone (cortisol) levels in the bloodstream. It can also speed up healing.

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran.
Crying of Earth. OLOX duo com Gennady Tkachenko-Papizh, Jivan Gasparyan & Jivan Gasparyan JR

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Desejo-vos um bom dia feriado
Renascimento. Recomeço. Sorte. Paz.

quarta-feira, junho 15, 2022

Crises, chapéus, árvores

 


Tive um dia assaz complicado. E a complicação começou bem cedo. A meio do dia pensei: Não estou para aturar isto. Depois pensei: tenho que ser consequente. Mas não me deram tempo para equacionar cenários de retirada. E agora, depois da meia-noite, o que posso dizer é que não fui consequente. Daqui a nada começa o dia e ainda antes de começar já eu estarei enredada em pareceres jurídicos, crises, resoluções contratuais e outros petiscos que tais. 

Mas, como dizia, a procissão começou ao raiar d'alba. Aliás, estava a ter um pesadelo quando fui acordada pelo telefone. Em condições normais teria ficado possuída por ter sido acordada quase de madrugada. Assim, salvou-me do pesadelo. 

Já não é a primeira vez que tenho este pesadelo. Sonhei que estava com várias crianças cá em casa, um dos quais ainda bebé, e que eu mal dava conta de tomar conta de tantos. E que tinha pedido à minha mãe para se ocupar do bebé. E, à noite, tinha reparado que o bebé estava invulgarmente magrinho e sem força. E eu tinha perguntado à minha mãe se tinha dado de comer ao bebé e ela, toda chorosa, tinha confessado que, no meio da barafunda, se tinha esquecido. Desde manhã que o bebé estava sem comer. O meu desespero não se imagina. Tinha pegado no bebé, toda eu numa aflição, tinha preparado leite e uma papa e o bebé estava tão fraco que mal conseguia comer. E eu numa angústia, agarrando-o, eu chorando, pedindo-lhe desculpa, implorando que comesse, que ficasse bom.

Não sei de onde veio este sonho. Se calhar foi que na véspera eu estava a ver se os meninos estavam bem, se não queriam mais, e a minha filha gozou, disse qualquer coisa como que eu só estava bem quando os via a comer, que se pudesse lhes dava de comer à boca, nem sei se não falou em alimentar toda a gente à sonda. Qualquer coisa nesta base. Respondi que é coisa de caranguejo. Os caranguejos gostam de receber, gostam de cozinhar, de alimentar os outros. Nessa altura o mais velho olhou-me consternado: 'Acreditas em signos...? Uma pessoa inteligente... Agora decepcionaste-me, Tá...' Disse-lhe que acredito um bocadinho, que sei que não faz qualquer sentido, que é uma coisa muito sem jeito mas que a descrição dos caranguejos encaixa muito em mim. Gozaram comigo. E eu não consegui rebater os seus argumentos nem dizer nada em minha defesa. Há coisas que não se explicam.

Mas o dia foi todo recheado de problemas. Pior ainda porque há gente que não aguenta as contrariedades e rapidamente entra em pânico. E há os que, estando em pânico, se entregam imediatamente, declaram rendição num ápice. Ou seja, ainda nem o outro lado esboçou qualquer reivindicação e já eles abriram as pernas (pardon my french). Depois há os que, ao panicarem, bloqueiam, deixam de pensar, ficam em estado de estupor catatónico. Estes, nos casos piores, ficam burros de todo. E há os piores, os que ficam a mil, stressados, agressivos, implicantes, conflituosos. Hoje calhou-me de tudo. E o pior foi quando um incauto, nesse estado de pânico, resolveu destravar-se e tentar vir espetar-se contra mim. Não garanto que não lhe tenha levantado a voz, irritada. Por dentro, só pensava: não há paciência.

E, neste registo, fui andando até perto das oito da noite. 

Como estão longínquos os sonhos inocentes que alimentava nos meus trintas e quarentas de que aos cinquentas me retiraria ou me atiraria à gestão autárquica. Já nessa altura vivia com demasiada intensidade, imaginando que não me aguentaria assim para além dos cinquenta. Não sei que idade tinha, talvez trintas e tais, fiz um PPR para se vencer por volta dos cinquenta. Ilusões, ilusões. Ainda cá ando, devorada por problemas. Passo a vida a pedir -- ou melhor, a implorar -- que não me tragam problemas, que me tragam soluções. Mas qual quê. Todo o santo dia: 'temos aqui um problema'. A falta de mão-de-obra é total e generalizada e isso desespera quem não consegue ter equipas completas. 

O momento melhor foi quando, ao fim do dia, fui regar com mangueira. O jardim tem rega automática mas os vasos à frente, no terraço de trás e no terraço e nas escadas de lado têm que ser regados à mão. Agora, para não dar cabo dos ombros a transportar regadores de 10 litros de água, uso a mangueira. Já temos mais um ponto de água, onde pusemos uma mangueira, e no outro ponto há uma mangueira grande. Ando descalça a regar e, para não ficar toda molhada, vesti um fato de banho. Esta de ficar molhada tem uma explicação: uma das mangueiras tem um furo a meio e esguincha que é uma frescura, fica tudo molhado à volta. Afinal já estava um bocado frio, uma aragem um bocado húmida. Seja como for, soube-me bem andar à fresca, descalça, os pés no chão molhado.

O meu jardim está bonito, frondoso, as árvores verdejantes, compostas. Mesmo nos dias de muito calor, quando se chega da rua e se entra, sente-se logo a frescura, parece que se entra num outro clima. 

No outro dia, in heaven, a minha mãe dizia para a minha filha, referindo-se a mim: 'quis plantar árvores de metro a metro, não descansou enquanto não encheu tudo de árvores, agora está assim, uma mata'. Confirmei. Não terá sido de metro a metro mas era assim que, antes, quando o terreno era apenas mato rasteiro e pedras, eu imaginava un petit bois, o meu pequeno bosque, um lugar fresco, onde pudéssemos passear à sombra das árvores plantadas por nós. 

Aqui nesta casa também me agrada a ideia de ter árvores generosas, com boa sombra para acolher os nossos corpos quentes. O meu marido olha para as copas que se alargam e os ramos que tombam, verdadeiras cortinas arrendadas em verde, e tem vontade de desbastar. Não. Não quero. As árvores são fêmeas que acolhem nos seus braços os pássaros e quem queira acolher-se à sua beira. 


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As fotografias mostram os belos chapéus do Royal Ascot (love, love, love) e vieram ao som de Sarah Vaughan que interpreta Speak Low
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Desejo-vos uma boa quarta-feira
Beleza. Elegância. Harmonia. Paz.

terça-feira, junho 14, 2022

A arte da vida

 



Nunca sabemos quanto mais tempo vamos viver. Não conseguimos saber até onde o nosso corpo e a nossa mente aguentarão nem sabemos determinar até onde os acasos nos levarão. Nem sabemos se gostaremos de viver se vivermos para além do que seria necessário. 

As múmias que reescrevem a sua própria história e abrem caminho por entre o esquecimento para imporem os seus próprios memoriais e flausinices, querendo ficar para a posteridade ungidos em patine dourada, apenas mostram como são fúteis e vãs. 

Ou aqueles outros, pobres coitados, que inventaram ilusões para se desenharem aos olhos dos outros como inteligentes e hábeis executivos, tentando construir um património a partir do nada e depois escondendo-o, urdindo falsificações, e depois fugindo para a outra ponta do mundo para tentar comprar a imortalidade que lhe fugia por entre os dedos, acabam regressando a casa dentro de um caixão e sem amigos que amparem a queda num buraco de terra.

Ou aqueles e aquelas que se injectam e se cortam para repuxar a pele e eliminar os sinais do tempo querendo simular uma juventude eterna, em que eternidade acreditam? Com quantos anos se sentem quando se vêem no espelho? Tudo porque querem entrar gentilmente e de rosto liso e infantil na boa noite escura? Quantas inúteis quimeras.

Correr atrás de absurdos objectivos, acumular luxos, contabilizar likes, emojis, visualizações, seguidores, querer ter muitos amigos mesmo sabendo que são amigos virtuais, ostentar dias fantásticos esquecendo que isso é o mesmo que exibir medalhas de pechisbeque -- tudo coisas que, aos meus olhos, não fazem qualquer sentido.

Para mim, a vida é ir por um caminho e, a cada bifurcação, ir escolhendo por onde continuar, um passo depois do outro, um dia depois do outro, e, a cada dia, a cada passo, ir gostando do que se vê, do que se sente, do que se cheira e ouve, e ter sempre a motivação, a curiosidade, o encantamento de ir em frente. 


Há por aqui casas fabulosas, de uma arquitectura extraordinária. De vez em quando, quando vamos a passar, abrem-se os portões e saem grandes carros. Começo a conhecer as casas mas não conheço quem lá vive. 

Há uma casa que tem sempre as grandes portas de vidro abertas para o jardim. Nós passamos e conseguimos ver alguém reclinado num sofá, a ler, enquanto cá fora os cães brincam. Nunca consegui ver a cara das pessoas pois olho furtivamente.

Há uma outra casa que destoa um pouco: é muito grande, por fora é quase toda revestida a madeira, quase parece um conjunto de cabanas. As portadas estão quase todas fechadas. Mas, cá fora, numa mesa num recanto que mal se vê da rua, está às vezes um homem a trabalhar num computador. Acho estranho. Não sei se vive sozinho naquela casa tão grande e quase sempre toda fechada. O meu marido diz-me que sei lá eu se ele está a trabalhar. Penso, mas não digo, que pode estar a escrever um livro.

Numa outra casa que se percebe que é das mais antigas, vive um casal já de alguma idade. O jardim é mimoso e costumo vê-los, ambos de chapéu, debruçados sobre os canteiros, por vezes de joelhos, plantando amores-perfeitos, colocando pedrinhas em volta, com umas tesourinhas aparando indesejados rebentos, tratando dos vasinhos. Se os visse na rua não os reconheceria pois creio que nunca lhes vi o rosto.


Costumamos cruzar-nos com um senhor que agora anda de calções e com um chapéu. Anda a passear o seu pastor alemão. Cumprimenta-nos, o cão puxa e rosna, quer atirar-se ao nosso mas o senhor diz que é só aparência de mau. Consigo identificar o binómio cinotécnico mas, se o visse sozinho, acho que não conseguiria identificá-lo de per se. 

Há também uma senhora que anda a passear a sua cadela. Não a leva pela trela. Diz-nos que ela não faz mal. Mas ela não lhe obedece e, em vão, a senhora farta-se de chamar e dar-lhe ordens. Há aquela dinâmica entre elas, ficando a ideia de que a cadela é que manda na senhora. Quando passamos por ela, a senhora ri-se, desculpa a cadela, 'É assim mas é só para brincar, não faz mal a ninguém'. A cadela permanece indiferente, a fazer das dela, não perde tempo a justificar a senhora.

E há um homem bonito que anda de bicicleta pelo caminho de fora e que leva um cão bonito pela trela, agarrada à bicicleta. O senhor sorri, cumprimenta-nos e diz bom dia mas, quando fala com o cão, não percebemos o que diz, ainda não conseguimos identificar aquela língua. Se o vir fora da bicicleta e sem o cão estou certa de que não o reconhecerei.


E eu, que sempre participei na elaboração de planos estratégicos e na definição de visões e outras coisas supostamente rigorosas e relevantes e que sempre tanto gostei de conhecer outras terras, museus, galerias, lojas e tudo o mais, agora sinto-me feliz com as coisas mais simples, viver um dia de cada vez, estar no meu jardim a ouvir os pássaros, estar com os meus, tratar da casa, caminhar por aqui, ver os jardins das outras casas, entrever o corpo de alguém que lê na sua sala, cruzar-me com pessoas que passeiam o cão e nos cumprimentam com um sorridente bom dia. 


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A propósito, deixem que partilhe um vídeo muito tranquilo, onde as palavras e os gestos são vagarosos, serenos e simples. Felizmente está legendado em português (do Brasil...). Traduzo (às três pancadas) o texto de apresentação no youtube.

A arte da vida
Como uma estrela em ascensão no campo da matemática abstrata, Michael  Behrens descobriu que podia ver beleza e padrões onde outros não conseguiam. Mas o seu caminho não era estar dentro da academia, nem mesmo dentro da sociedade. Ele partiu numa grande aventura para unificar o seu budismo com sua capacidade de ter uma visão expandida da realidade. Ele criou beleza num lugar onde ninguém mais o faria, e fez amigos entre os golfinhos.

Zaya e Maurizio foram ao Havaí há alguns anos e, numa praia remota, conheceram Michael. Depois de um tempo, ficou claro que Michael não era um homem comum… Nós conversamos sobre física quântica, budismo, espiritualidade, arte e ele convidou-nos para a sua casa depois de se certificar de que tínhamos “sapatos suficientemente bons”

Logo depois de estacionarmos o carro numa estrada remota, entendemos o porquê…Michael mora no meio de uma selva densa, a 20 minutos da estrada num terreno que ele mesmo limpou. …à mão!!!

Ele levou todo o material aos ombros e construiu um jardim incrível baseado na geometria sagrada. Um lugar incrível dedicado à beleza e impraticabilidade...

A casa não tem água corrente no interior, apenas um chuveiro do lado de fora e sem eletricidade. Michael comprou recentemente um pequeno painel solar para poder continuar a sua pesquisa e comunicar através de seu computador com outros matemáticos e com o mundo. (...)


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Pinturas de Claude Monet ao som de Jacob Collier - Never Gonna Be Alone (com Lizzy McAlpine & John Mayer) 

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Boa sorte. Confiança. Paz

segunda-feira, junho 13, 2022

Com vossa licença, agora vou falar um bocadinho a sério

 


À hora de almoço, já por volta das três da tarde, liguei a televisão. Não sei qual o canal ou o programa mas sei que se apresentavam equipamentos que aliam a inteligência artificial à realidade aumentada. Mostravam como um cirurgião pode estar a operar e, através dos óculos, não apenas vê o doente como vê imagens ou instruções relacionadas com o que tem que fazer. Ou como a cirurgia pode decorrer sob orientação de um outro médico num outro país. 

Nada disto me é estranho. A par dos avanços a nível da computação (tantas vezes tão perigosamente desregulada*) há os avanços a nível das comunicações. Quando se faz uma incisão ou quando se tem que extrair um tumor não se pode ficar à espera que as comunicações se refaçam, caso vão abaixo ou caso haja um delay que ponha em perigo a saúde do paciente. 

Agora, com as tecnologias 5G (e 6G) e com a computação na nuvem, poderosa, ubíqua, a ciência médica está numa daquelas fronteiras em que, daqui por algum tempo, olharemos para trás e ficaremos espantados com a falibilidade e demora nos resultados dos exames, na falibilidade na interpretação e diagnósticos por parte dos médicos.

Só que, no mesmo dia, era notícia de abertura a falta de médicos nas urgências e as fatais consequências que isso está a provocar. Várias urgências fechadas em várias especialidades. Um bebé que se perdeu por falta de assistência atempada. E não sei se foi o único.

A ideia de que uma mãe, depois da alegria e ansiedade da gravidez, quando vê chegada a hora, não tem quem a acuda, deixa-me muito perturbada, parte-me o coração.

Há poucos médicos no país e há pouca organização nos hospitais. Não sei se os horários estão bem feitos, se as escalas estão ajustadas. Mas sei que quando se fazem horas extraordinárias, em especial ao fim de semana, se adquire o direito a dias de compensação. Fazer horas extraordinárias é uma bola de neve de custos e ineficiências. Quando se gozam esses dias de compensação, como as equipas estão curtas, alguém terá que compensar, fazendo mais horas extraordinárias. Mas há limites legais às horas extraordinárias. Portanto, é um círculo vicioso do qual é difícil sair.

Supostamente, não se podem gozar férias ou compensações sem autorização. Por isso, se os médicos e enfermeiros foram todos gozar férias ou dias de compensação durante estes dias de junho é porque alguém os autorizou.

Mas para isso, as chefias têm que estar a ver os dias de férias que as pessoas pretendem gozar e têm que avaliar se não estão a ir vários ao mesmo tempo. Se as chefias não o fazem, quando se dá por ela, chega o dia e a escala está incompleta. E se faltam enfermeiros, anestesiologistas, técnicos de eletromedicina ou médicos, a equipa não pode funcionar. Fecha o serviço.

Ou seja, a ciência avança a toda a velocidade em tudo o que é de ponta mas descura-se o básico, descuram-se os processos. Aí onde deveria haver automatismos para racionalizar horários e escalas, automatismos para calcular o número de técnicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos, médicos por especialidade, não há nada que se aproveite. É tudo a olho, à mão, ingerível, sujeito a todo o tipo de falhas e erros..

Não sei quais os projectos que o PRR vai financiar mas a área da organização, da automatização de processos em organizações complexas, deveria estar contemplada. Sem gestão, sem boa gestão, sem gestão controlada, nada funciona.

E não apenas a da automatização de processos deveria estar contemplada: também a da construção de modelos de apoio à decisão. 

A Investigação Operacional -- e, no caso dos Hospitais, a teoria das Filas de Espera -- deveria ser obrigatória. Atendendo à sazonalidade das doenças, à criticidade das enfermidades e à reputação da instituição que se pretende manter, consegue determinar-se qual a duração máxima admissível para uma espera numa sala de atendimento hospitalar. Haverá casos em que a espera pode chegar às duas horas e daí não virá mal ao mundo. Mas se chegar às seis ou oito, de forma continuada ou se alguém morrer sem ser atendido, aí ter-se-á pisado a linha vermelha. Com o indicador do tempo máximo de espera, a estimando-se o afluxo de doentes e a duração média de atendimento, consegue determinar-se qual o número de equipas de atendimento. 

Nada disto é transcendente. Mas requer conhecimento, requer compreensão pelos factores que influenciam o comportamento dos sistemas, requer investimento, requer liderança.

Muitas vezes tudo isto parece óbvio e, no entanto, não se consegue levar adiante pois haverá sempre alguém que se opõe, alguém que não acredita, alguém que boicota, alguém que desiste perante as dificuldades.

E, no entanto, enquanto isto não for encarado sem os holofotes do mediatismo e sem a leviandade dos néscios, somos nós, os utentes, nós que quando ficamos doentes nos sentimos impotentes e indefesos, que ficamos à mercê de uma máquina complexa -- em que uns estão cansados, outros desmotivados, outros distraídos, outros contrariados -- que nos pode deixar entregues a um acaso que, por vezes, não é misericordioso.

Mas uma coisa é o cálculo digamos que mais ou menos científico dos recursos necessários por especialidade -- outra é a capacidade para pôr em prática o resultado dos cálculos. Por exemplo, se não houver recursos, não os podemos inventar.

Então, é preciso alargar o âmbito da análise e, neste caso, pensar a montante. 

Não seria difícil às equipas de investigação das Matemáticas determinar o número de vagas que deveriam ser abertas nos próximos anos das Faculdades de Medicina para optimizar o preenchimentos das necessidades (seja no Público, seja no Privado). Se há x doentes disto, y daquilo, localizados geograficamente consoante uma distribuição conhecida, se em média, as pessoas de cada grupo recorrem às urgências ou ao ambulatório z vezes por ano, se isso desencadeia internamentos em w% dos casos, se implica t% de cirurgias, etc, etc, então, deve haver n médicos de cada especialidade e o mesmo para as restantes categorias profissionais. Conjugue-se isso com a idade dos que hoje trabalham para prever quando saem do activo e conseguir-se-á chegar à matriz das necessidades.

Ouço dizer que é a Ordem dos Médicos, podre de corporativismo, que boicota a abertura de vagas nas Escolas de Medicina. Não sei se é, se não. Mas sei que as políticas públicas e a necessidade nacional devem ter prioridade sobre os interesses de classe.

¨[via PdC]

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Caminhamos, pois, a diferentes velocidades. As tecnologias avançam, a ciência avança. Mas a organização e a compreensão do que deve ser feito para que a organização seja mais eficiente não avançam. Pelo contrário, por vezes até parece que regridem.


Isto é agravado, naturalmente, pela maior longevidade das pessoas, que acarreta mais doentes a tratar durante mais anos e, cada vez mais, pelas epidemias, pelos novos vírus, por uma série de ínfimos organismos em transumância dos bichos para os homens e, se calhar, dos homens para os bichos, pelas doenças resultantes de um planeta cada vez mais exausto, instável e febril.

Sabemos sequenciar os genomas, sabemos fotografar estas células misteriosas que imobilizam o mundo. Mas não sabemos como evitar ficar reféns delas nem como restituir as coisas à sua normalidade primordial.


Já aqui o disse várias vezes: deve haver grupos de reflexão que identifiquem os grandes desafios dos próximos anos. São muitos e todos eles urgentes. Prioritizá-los e arranjar recursos humanos e financeiros para os tratar requer uma conjugação de ideias. E quem deve contribuir para essas ideias não devem ser os assessores de pacotilha que pululam pelos centros de poder nem os amigos dos amigos dos amigos. Não: tem que ser gente com cabeça e que contribua com ideias para o bem de todos, sem pensar no seu próprio bem.

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Há uns anos, muitos, um amigo foi passar férias a Marraquexe. Quando chegou vinha encantado com os hábitos daquelas gentes mas dizia que mau, mau, tinha sido o calor. A temperatura era elevada, a humidade baixa. Falava: para cima de 40º, insuportável. Nessa altura, eu era ainda muito novinha, não tinha ideia de ser habitual temperaturas tão elevadas, custava-me até pensar como seria possível viver com temperaturas tão elevadas. Agora, por cá, temperaturas assim começam a entrar na nossa habituação. Mas o que custa... Estes dias têm sido terríveis, um calor abafado. E sabemos que não vai voltar ao que era antes pois estamos na recta ascendente das temperaturas.

O mundo não está a ser capaz de inverter a tendência da decadência do planeta. A habitabilidade estará cada vez mais comprometida num número crescente de pontos do planeta. E nem falo na loucura da guerra que um qualquer psicopata pode desencadear e em que o resto do mundo fica impotente, incapaz de travá-lo.

Como será viver neste planeta daqui por um par de anos? Temperaturas insuportáveis, seca, doenças, pragas, escassez de profissionais, escassez de materiais, descontentamentos generalizados... e as instituições desorganizadas, sem recursos suficientes, desnorteadas sem saberem como acorrer a todas as necessidades?

O mal não é apenas nosso, português, mas compete a cada país traçar as políticas que invertam o declínio que parece estar a tornar-se inexorável. Seria bom que o Professor Marcelo, em vez de andar por aí num permanente carrossel de 'bocas', condecorações, visitas e abraços, pensasse no que poderia fazer para que por cá, neste nosso pequeno rectângulo, se começasse a equacionar o futuro com o pragmatismo que se impõe.

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E o futuro já aqui tão próximo. 

Por exemplo: Calor mata trabalhadores migrantes no Catar


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A música é Falling na interpretação de Julee Cruise que se foi há poucos dias

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Desejo-vos um bom Dia de Sto António
Saúde. Confiança. Paz