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domingo, março 05, 2017

Um dia bom





Ontem à noite, já bem tarde, estive a enviar fotografias à minha filha. No exacto momento em que tinha começado a vê-las e tinha parado numa fotografia dela com o sobrinho mais novo ao colo, recebi uma sms: Se houver alguma foto daquelas q me tiraste c o baby q tenha ficado fixe envia-me para eu ficar com o recuerdo. "As nossas telepatias", respondeu ela quando eu lhe disse que tinha justamente começado a vê-las.

E tinha fotografias fixes, sim. Com uma definição e uma luz pouco famosas já que foram tiradas de noite, cá em casa, sem flash, apenas com a luz ambiente, mas, ainda assim, bonitas. Fotografias em que transparece a ternura dela pelo baby. Também ela me tirou a mim com ele e enviou-mas logo por sms. E um dos miúdos também me tirou fotografias com o bebé ao colo. Como a fotógrafa de serviço sou eu, geralmente depois fico com pena de ter poucas fotografias com as crianças. Desta vez não me posso queixar.

Também estiveram a tirar fotografias uns aos outros. E o mais velho tirou umas bem curiosas a si próprio. Direi, mesmo, que têm qualquer coisa de artístico -- e estou a falar a sério.

Também, nessa altura, ao ver as fotografias reparei, perplexa, que a grelha da lareira tem duas figuras delicadas. Pode parecer mentira mas nunca tinha reparado. Quem tirou a fotografia (aquela ali em cima) foi um dos miúdos. Mostrei ao meu marido e também ficou admirado, também não tinha visto. Não dá para acreditar.


Cá estiveram todos e, como sempre, mal se viram logo os três rapazes se puseram a lutar. Não sei que coisa é esta. Não é a lutar zangados. Nada disso. Adoram-se. É apenas uma forma explosiva de manifestarem o seu afecto. Ela não é disso: pediu-me uma folha branca e foi para a sua mesinha fazer uma história com autocolantes. O bebé, nessa altura, ainda dormia.

A semana passada tínhamos estado no parque do Jamor e aí, na largueza, a jogar à bola ou a trepar por cordas, têm muito espaço para gastar energias. Dentro de casa, o espaço é demasiado confinado para o pico energético que desenvolve quando se juntam sem estarem completamente cansados. Depois das lutas, depois do tio ter ensinado judo aos mais velhos (o filho, apesar dos seus tenros quatro anos, já é praticante), depois de terem andado às lutas no tapete e sei lá que mais, lá se aquietaram. O mais novo cantou, o primo tocou guitarra e acabaram a cantar o hino nacional. Entretanto o bebé, que mal tinha deixado a coitada da mãe jantar em paz, mamou, andou entre o meu colo e o da tia, sempre sob o olhar atento e maternal da maninha.

Depois foram para casa, que já era hora das crianças irem para a cama.


Antes disso tínhamos estado em volta da mesa a refeiçoar (como dizia o outro). Coisa simples, já que antes tinha ido a casa dos meus pais e, de caminho, tínhamos ido a uma adega comprar vinho. Portanto, não havendo tempo para demoradas confecções, a ementa foi:

Canja 
(numa panela coloco uma cebola grande, um pedaço de frango e miúdos; deixo cozer; quando cozido, retiro a carne e, com a varinha mágica, desfaço a cebola; volto a colocar os miúdos e a carne, agora tudo cortado aos bocadinhos; junto dois ovos inteiros e desfaço-os ao de leve com um garfo; junto massinhas de letrinhas; coze durante uns quinze minutos)
e grelhada mista
(pernas de frango, costeletas de porco e costeletões de vitela, temperadas com azeite, sal, alho, louro; umas peças, para além disso, foram temperadas também com tomilho limão e outras com alecrim -- primeiro forno ao máximo, vazio, durante uns 10 minutos; depois, quando introduzo a carne na grelha, reduzo para 160º: vou virando de vez em quando até a carne estar tostada; a carne de vaca entra a meio da confecção das restantes carnes, pois, para ficar macia, não pode ficar muito passada)
acompanhada por arroz basmati 
(num tacho coloco um fio de azeite, 1 dente de alho e um pouquinho de bacon cortado aos bocadinhos; frita ligeiramente; junto o arroz e envolvo na fritura; junto o dobro da água; quando está quase sem água, desligo, ponho num pirex e levo ao forno), 
e feijão preto
(numa frigideira, com um fio de azeite, frito umas lasquinhas de bacon  e cebola picada; depois junto feijão preto enlatado com algum caldo e envolvo -- por acaso, quem preparou o feijão foi o meu marido) 
e salada de tomate.

Antes da hora de almoço, tínhamos passeado na praia. Não havia um único surfista, o que não era de admirar: maré cheia e mar alteroso. 

Não estava muito frio mas havia algum vento. Apesar de tudo, agradável andar à beira da água e um prazer andar a fotografar as águas revoltas e as pessoas por ali andam.


Tirando isso, as tarefas domésticas normais, ida ao supermercado e assim. Nada de mais. Mas um sábado bom. Bem bom.

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Abaixo um poema para Trump por um dos mais elogiados escritores da actualidade.

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quarta-feira, janeiro 13, 2016

Viver no céu - Acordar dentro das nuvens [Primeiro de seis postais ilustrados do Gerês]




Acordei dentro das nuvens. Durante a noite algum sonho me levou para bem longe. Devo ter ido em busca de castelos, segredos, lugares misteriosos onde me posso perder entre palavras doces, céus envoltos em abraços brancos como tule, músicas longínquas.


Foi, já acordada, que fui em busca das terras que as nuvens tinham envolvido, percorri montanhas brancas, senti o rosto e as mãos molhadas, aspirei o ar limpo que se respira dentro das nuvens.


Por vezes, pouco se via. Cá em baixo as casas pareciam uma miragem, uma leve alusão. Eu cá em cima, muito alto, habitando as nuvens, envolta em brumas, era também uma inexistência, uma mulher que ninguém vê. 


Depois a névoa foi-se desfazendo, a paisagem foi-se descobrindo, a beleza surgiu, esplêndida: o céu na terra.


E o meu dia começou, cheio de beleza.

Convido-vos a descerem comigo: vamos passear por entre lugares encantados, pelo Gerês.

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domingo, julho 27, 2014

Estás aqui comigo à sombra do sol



In heaven, em paz, numa noite do fim de Julho. Enquanto vejo um filme - no qual duas mulheres se aproximam e se afastam, amores e desamores, pele contra pele, lágrimas, gritos, abraços - vou revendo as imagens de hoje à tarde. 







As figueiras estão carregadas mas os figos ainda estão pequenos, rijos, verdes. Percorrem os mesmos caminhos que os cavalos azuis que por aqui passam em tropel enquanto, sonolenta, deslizo entre o sono e a leitura, o sono e o sonho.

Os marmeleiros também têm marmelos, não muitos mas já a amarelecer. De longe parecem reluzentes mas, vistos de perto, estão cobertos por dócil penugem. Quando estiverem mais maduros libertarão um odor doce. Os figos também. Tal como os loendros agora. E o rosmaninho, o alecrim, o alfazema, o tomilho, os orégãos. E os pinheiros e os cedros. De todos se solta o doce perfume que atrai os cavalos azuis, os dançarinos nus, os pássaros misteriosos que cantam sem que eu os veja, as sombras cúmplices, o tempo que passa com vagar.

O sol vagueia pelos muros, entra em casa, ilumina os meus passos, e eu quase durmo, deitada a ver o céu sobre a copa das árvores ou as árvores do lado de lá dos vidros.

Não dormi, estava a ler, mas estava com muito sono, fechava os olhos, quase adormecia, e a luz do fim da tarde e os sons e os cheiros embalavam o meu corpo agradecido.

E chegaram-me mensagens, palavras brincalhonas escritas por um menino que já tem seis anos e depois foi o irmão que quis falar comigo, disse que queria vir para cá. Disse-lhe que estamos quase de férias e que, não tarda, virão todos para cá. Depois, começaram os dois a dizer palermices e a rir, e depois pedi ao mais pequeno que cantasse o hino porque não há igual. A plenos pulmões, cantou com aquela energia fantástica que se lhe conhece, 'Às ajas! Às ajas!'. Sei que não se deve rir quando alguém canta o hino mas como resistir a este hino...? Claro que ninguém o corrige, fica melhor assim, às asas, às asas. Além disso, como lhe iríamos explicar o que são armas?

Já de manhã tinha estado com os meus outros meninos, já chegados do sul. O bebé, quase a fazer dois anos, já sobe sozinho as escadas do escorrega e grita, 'Eu conchego!'. E consegue mesmo. Trepa muros, sobe escadas de rede (embora, por vezes caia, claro) e fala quase como gente grande. A maninha linda, de vestidinho florido, rodopia, coquette, e vai dar-lhe um beijinho.

Também telefonei aos meus pais, estão bem, o meu tio esteve lá, estiveram a conversar mas, para o fim, como sempre, o meu pai já estava impaciente. Conversar ou ouvir conversar durante muito tempo, cansam-no. Mas está bem. Este domingo à tarde lá estarei. Comprei de tarde, antes de vir para cá, dois Pães de Deus da Padaria Portuguesa para lhes levar, são muito fofos e cremosos e eles gostam muito. Se já houvesse figos ou marmelos maduros, levaria. As uvas também ainda estão verdes. O que está maduro são as amoras, adoro comer amoras escuras e doces. Por vezes, fico picada, as silvas são ariscas. Mas não é coisa que lhes leve, ficaria toda picada se tentasse apanhar uma quantidade que se visse.

Tenho sempre pouco tempo para estar aqui no campo, sossegada, mas o tempo aqui parece que dura mais tempo, é uma tal acalmia.

Ao anoitecer caíu uma leve neblina e a serra aparecia-me suavizada, em contra-luz. É lá que o sol se põe e, em dias de muito calor, o céu fica em chamas. Não hoje que o sol estava dourado e depois se deixou envolver pela fresca névoa que trouxe a noite.

Gostava de poder ficar cá já esta semana, estou a precisar de descansar. Chega a esta altura do ano e começo a ficar cansada. De cada vez que alguém me entra no gabinete a dizer que temos um problema só me apetece que o vão resolver e que, só depois, me venham falar nele, mas, se fazem favor, com os verbos no passado, tivemos um problema. Mas não é possível, ainda tenho que pôr a minha resistência à prova por mais uns tempos. Mas não me queixo. Como poderia queixar-me se tenho trabalho, se sou respeitada, se sou remunerada pelo que faço? Não, por todas as pessoas que queriam ter trabalho e não tem, ou que têm um trabalho de que não gostam ou que não se sentem reconhecidas ou recompensadas, por todas as pessoas que, para terem trabalho, tiveram que se afastar do país, eu tenho que sentir-me agradecida pela sorte que tenho e desejar que todos esses venham, em breve, a ter também sorte. A desigualdade fere-me.

Por isso, pelo que tenho, sinto-me agradecida, sim. E sinto-me tanto mais agradecida quanto tenho a sorte de ter descoberto, em vida, a parcela de paraíso que me estava destinada, este bocado de terra de cujas pedras nascem árvores carregadas de fruta e de pássaros, e flores que perfumam o ar doce que respiro.

E tanto mais agradecida quanto sei que, junto a mim, estão todos vocês, a receber estas minhas palavras que espero que cheguem intactas e limpas até vós.

Obrigada por estarem aqui comigo.








Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela










e sou amável
selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso
talvez porque aqui sentado
dentro de casa
sou
 outra coisa








Estás aqui comigo 
e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala 
a pensar noutra 
coisa





Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. 
Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome 
depois talvez encoberto noutro
nome 
embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico





Estás aqui comigo
deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz




Deixa-te estar aqui 
perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos 
não pares 
procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo 
mas sei que tu estás aqui








___


A música lá em cima é  Rachmaninov, Rhapsody on a Theme of Paganini

Os excertos de poema pertencem a Tu estás aqui de Ruy Belo que, no vídeo, é dito por Luís Miguel Cintra


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo e feliz domingo. 


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terça-feira, março 27, 2012

Eva ou o esplendor da poesia na relva


Música, por favor
(no botãozinho mais pequeno da esquerda em baixo, para não saltarem para o youtube)

Paganini - Sonata nº 6 para violino


Não há dia em que, ao levantar-se, Eva não abra, de imediato, a grande janela que dá para a varanda e espreite o dia.

Assim que vê o céu antevê o tempo que vai estar, a temperatura e, logo, lhe acodem ao pensamento várias ideias, planos, disposições, estados de espírito.

Depois do banho e, enquanto toma o pequeno-almoço, Eva pensa na sua indumentária para o dia, o tom dominante que será claro se estiver numa de peace and love, ou colorido se estiver virada para a acção, ou monocromático de cores fortes se quiser impor a sua vontade, ou cinzentos, castanhos (o que é raro) se estiver vagamente indeterminada, ou escuro se estiver para nem admitir conversas. Também pode ser um branco e preto com fronteiras bem definidas se quiser perturbar a mente de alguém.

A maquilhagem e os adereços tais como brincos, colar, anel, pulseira (tudo escolhido na perspectiva de que o que é bom pouco basta) acompanharão a tendência do vestuário, os sapatos e a carteira obviamente farão pendant. Mas também pode acontecer que esteja para a brincadeira e, nesse caso, a carteira e os sapatos farão um inesperado contraste com o vestuário e apenas se conjugarão com a cor do baton (ou, até, apenas com a cor da lingerie que, isso sim, é indispensável).


Hoje Eva vestiu um vestido aparentemente austero, de riscas. Para o caso de ser necessário, levará na mão um casaco preto, fluido, uma malhinha muito fina. Contudo, vendo bem, perceber-se-á que há ali qualquer coisa de subversivo. Talvez o decote, talvez a suave textura do tecido que convida ao toque, talvez a cor do baton que combina ostensivamente com o tom dos sapatos, uns Christian Louboutin encarnados bordados a preto, obviamente de tacão bem alto.


Apanhou o cabelo com displicência, sabe que as indisciplinadas ondulações apenas valorizarão um pouco mais o aspecto de bad girl. Depois de sair voltou atrás: a écharpe, claro. Finíssima, quase transparente, comprida, encarnada com leves desenhos pretos.

Ao vê-la sair de casa, quem a conheça dirá que o dia vai ser complicado, Eva vai para arrasar - mas alguma folia não estará fora de questão.

Passada firme, rosto tranquilo mas decidido, feminina, lábios flamejantes, grandes óculos escuros, eis, então, que Eva sai de casa.

O carro arranca com suavidade. Eva estará certamente a ouvir música, provavelmente música barroca. Se tivesse aberto a janela, arrancado com vivacidade, provavelmente estaria a ouvir reggae mas, hoje, pela forma como curvou deslizando, a sentir o prazer da curva, provavelmente será violino, talvez Paganini.

Depois conduz até uma zona residencial, estaciona, toca à campainha, entra. Passado algum tempo sai e volta a entrar no carro. Desloca-se agora até à zona de escritórios com mais cachet da capital. O carro entra na garagem e só voltará a sair a meio da tarde.

Contudo, ligeiramente antes da grande movimentação da hora de almoço, alguém mais atento repararia que Eva sai do edifício, rápida, quase furtiva, o casaquinho escuro e fluido cobrindo o vestido, a écharpe esvoaçando, um saco de pele (Hermès) em vez da elegante pequena carteira, outros sapatos, agora uns quase baixos. Soltou o cabelo que esvoaça, despenteado. Nem parece a mesma.


Se alguém a seguisse repararia que vai apressada, olha o relógio e anda sem ver com quem se cruza. Dirige-se, então, a uma rua murada quase escondida, um grande portão. Entra, pois, no Jardim botânico.

Aí os movimentos passam a ser outros, mais distendidos, a cabeça ergue-se, vê-se que Eva aspira longamente o ar puro e vegetal.

Anda como quem muito bem conhece cada recanto. Vira à direita, desce, entra na vegetação, procura o pequeno lago, procura um certo banco.

Jardim Botânico de Lisboa

Senta-se, reclina-se, atira a cabeça para trás, inspira longamente. Solta devagar o ar. Depois tira um pequeno livro do saco, lê. Lê e pára de ler, olha em frente, respira fundo, lê.

Um pouco depois, um sobressalto mas quase como se fosse um sobressalto aguardado. Alguém parece ter surgido do nada. Um homem - moreno, grisalho, interessante, de barba, descontraidamente vestido, calças claras, blusão de cabedal, camisa desportiva azul clara - atira-se para o banco. Na mão traz um saco de papel.

Eva retira então do saco guardanapos de papel e, ali mesmo, no banco de jardim, entre os dois, põe a mesa. Sandes, caixas de salada, sumos, um iogurte para ela. Conversando, rindo, almoçam tranquilamente. Vê-se que ambos apreciam verdadeiramente aquele picnic assim improvisado; dir-se-ia, aliás, que é usual fazerem-no. No final, limpam a boca e há elegância nos seus gestos; a seguir, Eva arruma meticulosamente as embalagens vazias, os talheres de plástico, os copos, os guardanapos, tudo no saco de papel.

Depois, ele parece convencê-la a fazer qualquer coisa, levanta-se, puxa por ela. E ela, sorrindo, vai. Ele procura então um local abrigado dos olhares, plano, limpo. Apalpa o chão, 'está seco, ainda bem que não chove...' e sorri, com ironia e doçura. Abraça-a e, depois, puxa por uma ponta da longa écharpe e abre-a como quem estende um lençol numa cama. Puxa por Eva, que não oferece qualquer resistência, uma vez mais parece ser coisa habitual. Depois despe o casaco e dobra-o para servir de almofada, descalça os sapatos. E então, Eva, a intrépida, é apenas Eva, a dócil, e deita-se na relva, num jardim público. Com um gesto de pudor ajeita o vestido, e pensa que em dias assim mais valia vir de calças, e ali fica a olhar a copa das árvores, o céu por cima. O homem vira-se de barriga para baixo, beija-a ao de leve no rosto, depois pega no livro e lê em voz alta, não muito alta, de facto quase sussurrada, enquanto Eva fecha os olhos, deleitada, entregue a um dos mais supremos prazeres, ouvir o seu amor a dizer poesia:

                      Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
                      e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
                      da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
                      Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
                      só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

                      É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
                      um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
                      Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
                      Que lentas são as folhas largas e as areias!
                      Que denso é este corpo, esta lua de argila!

                      Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
                      fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
                      Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
                      Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
                      Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.


Se Paganini já chegou ao fim, então, por favor,
George Gershwin - The man I love por Ella Fitzgerald


Ele olha-a, sorri, procura aprovação, ela também sorri, mostra que gostou. Depois Eva põe uma mão à volta do pescoço de Miguel e puxa-o para si. Dois namorados, nem mais, nem menos.

Alguns minutos depois, levantam-se, sacodem as roupas - Eva sacode com cuidado a sua écharpe, coloca-a em volta do pescoço branco e ajeita-a com gestos femininos, veste o casaquinho, ajeita-o, despedem-se. Ela desce, faz o caminho de retorno, ele sobe. Uns segundos depois, Eva olha para trás. Miguel também. Como adolescentes dizem-se-se adeus, sorriem.

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O poema é  'A mulher feliz' de António Ramos Rosa.
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[E por poema: se estiverem numa de poesia e palavras em volta de uma fotografia, sugiro que cliquem aqui para irem até ao Ginjal e Lisboa. Hoje tenho Ruy Belo que acompanha com Mendelssohn]
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E tenham, meus Caros, uma gloriosa terça feira!