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sábado, agosto 22, 2026

Biblioteca Humana

 

Pronto, vá, condescedo: nem tudo ali é mau. Nas redes sociais, quero eu dizer. Na realidade, se tenho sido exposta a toda a espécie de parvoíces e de gente sem substância, a verdade é que também tenho feito algumas descobertas interessantes. É verdade, tenho que reconhecer.

Procuro avidamente boas notícias, descobertas de curas, projectos inovadores, novos artistas, coisas e pessoas que, de facto, sejam diferentes para melhor. E tenho sido agradavelmente surpreendida. Parece que as coisas boas da vida deixaram de ser notícia, temos que garimpar para dar com elas. Mas, depois, o algoritmo, sabendo das nossas preferências, vai-nos bafejando com notícias daquilo que sabe que nos interessa. Nem tudo é mau, no meio da maldita engrenagem dos algoritmos que fazem girar a caixa registadora das redes sociais

Ao escrever isto, estava a lembrar-me de uma coisa que republiquei (ou partilhei?, não sei o nome corrente do acto) no Instagram: geradores de energia quer eólica, quer fotovoltaica em 'árvores' urbanas em que as 'folhas' oscilam com o vento e que, na base têm mini-painéis. Ficam bonitas, integram-se nos espaços urbanos, são quase silenciosas e aproveitam cada bocadinho de sol e de vento. Coisas assim, parecem-me interessantes. Neste caso, isto parece-me um gostoso ovinho de colombo.

Daqui

Mas é só um exemplo. Se estivermos atentos, por entre a lixeira a céu aberto em que toda a gente diz e mostra coisas e faz propaganda a marcas e difunde aldrabices ou exibe a sua futilidade e vacuidade, vão-se encontrando alguns oásis. 

Há pouco, por exemplo, apareceu-me uma coisa de que nunca tinha ouvido falar e que me parece verdadeiramente fantástica. Nasceu na Dinamarca. As pessoas vão lá não para escolher um livro mas uma história. Só que a história não está escrita, será dita, cara a cara, através de respostas a perguntas. O conceito é simples: algumas pessoas disponibilizam-se para falar sobre a sua vida ou sobre acontecimentos em particular ou sobre algumas circunstâncias ou sobre a sua própria condição. E os 'leitores' vão até lá, presumo que se inscrevam, sentam-se ao pé da pessoa e conversam. Há condições: não deve haver preconceitos, não devem ser feitos julgamentos.

Acho a ideia fascinante. O hábito de se conversar -- com tempo, sem querer iludir ninguém, sem receio de se ser mal interpretada, dando espaço para pensar, para olhar nos olhos -- tem-se vindo a perder e é pena pois é tão bom, tão, tão bom.

Gostaria de poder participar em coisas assim, quer num papel quer no outro. Estar sentada e aparecer alguém com a mesma disposição que eu: conversar, ouvir, partilhar ideias ou experiências. Pode ser numa sala, pode ser num jardim. A organização da Biblioteca Humana escolhe os locais. 

Do que me informei o conceito já se expandiu, já está noutros países. Da pesquisa que fiz sobre Portugal, vi que tem havido eventos pontuais. 

  • Torres Vedras teve uma Biblioteca Humana em 2026, na Biblioteca Municipal, com pessoas como “livros” e conversas sobre experiências de vida.
  • Coimbra teve uma Biblioteca Humana em março de 2026, no Jardim Botânico, com investigadores como “livros humanos”.
  • Porto teve em março de 2026 uma Biblioteca Humana no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, integrada no projeto Somos Livros e Livres.
  • A Rede de Bibliotecas Escolares também apresenta o conceito e há escolas portuguesas que o utilizam.

Tomara que se generalizasse. Tomara que em vez de as pessoas estarem isoladas a deslizar o dedo no telemóvel estivessem em jardins ou salas a conversar umas com as outras, com desconhecidos, sobre os mais variados temas. Não é uma ideia incrível?

[Interrompi, entretanto, para ver as notas dos últimos colocados e, se aquilo se confirmar, o meu mais velho entrou onde queria, coisa com a qual contava com razoável à vontade pois tem uma média bastante confortável; mas eu sou de ver para crer. A ser mesmo assim, e há de ser, está, pois, a poucos dias de se tornar um estudante universitário e ir percorrer as mesmas escadarias e corredores que um dos avôs e um dos tios pisaram. Um orgulho. Estou mesmo contente. No entanto, só vou mesmo atirar foguetes quando ele receber o mail com a colocação ou vir no recibo (não me perguntem a que recibo me refiro, só sei que é um recibo de inscrição a que se acede no portal em que se fez a candidatura) que entou mesmo naquele curso, naquele estabelecimento de ensino. E já estive a trocar mensagens com ele, diz que também já tinha visto, só não tinha mandado mensagem geral porque julgava que a esta hora a família estava toda a dormir; esqueceu-se que tem uma vovó coruja...]

 E já é tarde, de facto. Vou pregar para outra freguesia.

Mas, entretanto, partilho uns vídeos sobre as Bibliotecas Humanas.

Na Biblioteca Humana da Dinamarca, pode ler as pessoas como se fossem um livro e 'desjulgá-las'...

Conheça a biblioteca humana, onde ao invés de livros, uma pessoa conta a vida dela para você


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Desejo-vos um sábado feliz

quarta-feira, julho 22, 2026

Maitê

 

A vida das mulheres bonitas ou das grandes actrizes nem sempre é um mar de rosas. Olhando de fora, imagina-se glamour, festa, sucesso e recompensa, rosas com fartura, mesa farta, casas divinas, cabelos sempre impecáveis, pele replandescente, sorriso sempre presente. E, no entanto, pode não ser exactamente assim. A beleza não mostra forçosamente os antecedentes, os sofrimentos, a carne marcada. A arte de bem representar esconde por vezes a força da sobrevivência -- e não são apenas as artistas de cinema, televisão ou teatro que recorrem a essa arte.

Com Maitê Proença a vida começou por ser bem dura, trágica mesma. Mas, talvez porque sempre foi de fibra, a verdade é que foi vingando na vida. E foi desbravando caminhos. E foi trabalhando, lavrando a escrita, inventando, criando. Os anos de vida foram-lhe tanto segurança, ainda mais força, maior capacidade para escolher.

E continua linda. Assertiva, inteligente, leve. Pode não ser exactamente assim por dentro mas, depois de ouvi-la, é isso que parece. Uma mulher muito interessante. E gosto de ouvi-la falar da terra, das coisas simples. Conversa gostosa. É bom ouvir conversar assim.

Maitê Proença: “Acho que quis me matar durante anos, sem saber” | THE BUSINESS OF LIFE

“Acho que quis me matar durante muitos anos, sem saber que queria aquilo,” disse Maitê Proença, aos 66 anos. Relembrando sua difícil história familiar, a atriz revelou que se colocou em situações de alto risco, porque não via tanto valor na vida. “Se eu fosse embora, seria um grande alívio,” afirmou a Nilton Bonder neste episódio do The Business of Life.

Aos 12 anos, precisou lidar com a trágica morte de sua mãe - assassinada por seu pai por ciúmes. Anos depois, em 1989, seu pai se suicidou. Na sequência, seu irmão adotivo também tirou a própria vida. “A morte da minha mãe teve consequências em outras mortes igualmente trágicas. Todo mundo à minha volta foi afetado.”

Maitê Proença contou que precisou criar uma “persona para si” para poder ficar de pé. “Eu não tinha mais família. A família do lado da minha mãe nunca mais falou comigo [após o ocorrido],” por ela ter sido testemunha de defesa do pai no processo. “Escolhi não odiá-lo pois entendi, não sei como, que o ódio não levaria a um bom lugar.”

Após o falecimento da mãe, a atriz morou num pensionato luterano e estudou um tempo em Paris. Indecisa sobre qual profissão seguir, prestou vestibular para várias faculdades, mas resolveu viajar o mundo, indo para diversos países da Europa, África e Ásia. Dois anos depois, retornou ao Brasil e ingressou no teatro, convidada pelo diretor Antunes Filho. Em pouco tempo, estreou na TV: primeiro na TV Tupi, em 1979, com Dinheiro Vivo; depois, em 1980, na Globo, como uma das protagonistas na novela As Três Marias. 

O começo não foi fácil, porque ainda não estava pronta para expor minhas “vulnerabilidades emocionais,” afirmou. “Até meus 20 anos, eu era muito fechada. Achava que, se eu lidasse com o emocional, iria morrer. Aí bebi, me droguei, para dar conta de tudo.” O teatro foi desafiador no início, mas, ao mesmo tempo, maravilhoso. “Fui obrigada a mexer num vespeiro. Se tivesse escolhido outra profissão, teria vivido naquela aridez emocional até hoje.”

Ao longo da carreira, Maitê foi cronista, publicou romances, escreveu e produziu suas próprias peças de teatro. Sobre seu momento atual, ela afirmou: “Graças a Deus envelhecemos, porque as coisas vão ficando mais fáceis.”


Um dia feliz para todos

terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, junho 09, 2026

Bons conversadores

 

Agora, de vez em quando, vejo aquilo de haver um outro tipo para além de introvertido e extrovertido: o outrovertido (ou lá como lhe chama, já não sei ao certo, é um nome como qualquer outro) -- as pessoas que gostam de conviver mas só com quem lhes agrada, que se cansam quando são obrigadas a conviver com pessoas que falam muito e não dizem nada, que precisam de se isolar depois de sujeitas a um convívio forçado e cansativo. Rvejo-me nisso. Se há coisa que me cansa muito, me deixa quase de rastos, desidratada, estafada, é quando passo horas a aturar cumprimentos, conversas de circunstância, fotografias forçadas, gente que circula de grupo em grupo a ser simpática e a exigir atenção. Fujo disso a sete pés. Grupos em que, à partida, não vejo ninguém com quem se possa ter uma boa conversa, são grupos que faço de tudo para evitar

Em contrapartida, gosto imenso de uma boa conversa, gosto de ouvir, gosto que me ouçam, em especial gosto imenso que ouçam e compreendam as minhas perguntas, gosto que gostem de falar comigo, gosto de ser surpreendida com argumentos novos, gosto de testemunhar uma maneira de pensar diferente da minha, gosto de aprender, gosto de ouvir falar sobre temas que desconheço, gosto de ser desafiada nas minhas convicções.

Na televisão, se há coisa que ainda aprecio é ver uma boa entrevista ou uma boa tertúlia. Isso é cada vez mais raro. O que há é bandos de comentadores, gente que tanto ouvimos a comentar o Netanyahu, o Bad Bunny ou, se for preciso, o José Mourinho. Ou uns jovens, cada um representando o seu estereótipo partidário, uns burgessos, outras parvas, outros fofinhos e outros a atirar para o intelectualóide. Não tenho pachorra, passo logo adiante.

Contudo, no youtube aparecem-me, de vez em quando, vídeos interessantes com umas boas conversas. Talvez seja a isso que se chama podcast. Não sei. O que sei é que fico, de gosto, a ouvi-los.

Abaixo partilho duas conversas gostosas: gente com ideias, com graça, com originalidade.

SEM TÍTULO - Entrevista com MIGUEL GUILHERME conduzida por Miguel Nabinho

Onde se fala de coisas sérias e coisas divertidas, de tudo, da infância, dos amigos, das representações, das 'cenas' com o Manoel de Oliveira. Etc.


E, para algo diferente (ou talvez não), que entre a sempre boa de ouvir, a grã-duquesa de New York -- digamos assim.

Fran Lebowitz | Andy Warhol, Nova Iorque e a Arte de Falar

Em comemoração do 250º aniversário da independência americana, a Rosebud apresenta uma série de entrevistas gravadas na cidade de Nova Iorque. A primeira é com a mais perspicaz observadora da vida nova-iorquina: a espirituosa, conversadora e escritora Fran Lebowitz. Nesta brilhante entrevista, Fran conta a Gyles sobre a sua família, que se mudou da Rússia e do Leste da Europa para os EUA para escapar aos pogroms contra os judeus. Fala da sua infância feliz, pedalando na sua "máquina da liberdade" pela bela cidade natal em New Jersey, onde o seu pai era dono de uma tapeçaria e a sua mãe ambicionava ser a parceira de dança de Fred Astaire. Conta a Gyles sobre os castigos que recebia por ser tagarela na escola, sobre saber desde cedo que era gay e sobre a sua mudança para Nova Iorque para se tornar escritora. Fala sobre Andy Warhol e sobre ter sido paga para escrever pornografia. Ela fala sobre o tabagismo, a internet e a sua enorme coleção de livros. Por fim, Gyles atribui a Fran uma medalha da Sociedade Oscar Wilde, em reconhecimento da sua brilhante oratória.

Como deve imaginar, esta é uma conversa fantástica. Vale muito a pena dedicar-lhe o seu tempo.

Aproveite.


Desejo-vos uma boa terça-feira