Mostrar mensagens com a etiqueta blogue. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta blogue. Mostrar todas as mensagens

domingo, julho 11, 2021

Um feliz dia de calor entre brincadeiras, sorrisos e monetizações.
E uma breve referência a Azeredo Lopes.
E o testemunho de um improvável optimista

 


Na parte da manhã, fizemos uma grande caminhada. Estava muito calor mas, sempre conversando e bebendo água, não custou nada. Queríamos ver onde era o colégio de que temos ouvido falar. Por nada, mesmo só por curiosidade. Afinal já tínhamos passado lá muito perto e nunca tínhamos entrado naquela rua. Bonito e muito bonitas também as casas lá ao pé. Gosto de casas. Gosto muito de ir passeando e vendo as casas dos outros. Há gostos para tudo e eu gosto de apreciar o gosto dos outros, em especial os jardins. E gosto quando vejo os proprietários a regar, a desbastar arbustos ou a apanhar ervinhas. Há qualquer coisa de muito pessoal nesses momentos. Olho com discrição e algum pudor. Como estou a caminhar, estou de passagem e, por isso, é sempre um olhar fugaz.

O que nos custou foi a espera, na fila, no exterior do supermercado, a seguir. O meu marido tem sempre a ideia de que a hora boa é por volta da hora do almoço mas acho que toda a gente deve pensar o mesmo. Muita gente, muito calor. A temperatura alta,um calor espesso.

O meu marido tinha perguntado: de que é que temos falta? Eu tinha dito: pouca coisa, salada, coisas para a sopa.

Contudo, o meu ex-lado consumista reaparece quando vejo as oportunidades da semana. Tenho que me forçar a responder à sacrossanta pergunta: preciso disto? Sempre que hesito ou que tento resvalar para uma resposta dúbia, forço-me a mão dura sobre mim própria. Mas, se penso que os meninos vão gostar, aí a minha razão amolece. 

Resultado: entre o que faz mesmo falta, o que vai dar jeito e aquilo de que as crianças devem gostar, viemos carregados. 

A seguir fiz almoço, arrumámos as coisas e, quando almoçámos, já eram para aí uma duas e meia.

Com a canseira pré-almoço e com o almoço que foi cabeça de pescada com batata, brócolos, feijão-verde, cenoura, batata doce e normal, cebola e ovo, a seguir deu-nos uma valente pancada.

Deitámo-nos sobre a cama e, tiro e queda, adormecemos.

Quando a minha filha chegou com os miúdos estávamos naquela boa e santa sesta das tardes de verão. O estore corrido mas a deixar entrar luz, os vidros abertos, os pássaros a cantarem. Um sono solto e descansado.

Fomos para o jardim. O calor estava quase opressivo mas à sombra estava-se bem.

Os miúdos brincaram com pistolas de água, molharam-se, jogaram à bola, lancharam, perseguiram-se, mangueiraram-se. Nós, à sombra, descansando, conversando, preguiçando.

Depois o mais novo andou a cortar a relva com o avô. E eu disse que estava a pensar numa coisa para quando o blog chegar aos cinco milhões e que gostava de contar com o apoio do mais velho. E aí o seu lado empreendedor, geneticamente igual ao do tio homónimo, começou a tintilar. Eu com uma ideia simples e ele já a falar-me em 'monetizar' o blog, já a querer que eu insira publicidade, já a mostrar-me o que ganham influencers de renome. E já era um canal de vídeo e o blog, tudo a ganhar dinheiro a valer. Sugeriu que eu o deixe gerir o tema e lhe pague 5% do que eu ganhar. 

Disse-lhe que não quero que o blog me sirva para ganhar dinheiro, que é apenas para eu escrever umas larachas, mas ele, num entusiasmo, tentava aliciar-me, que há modalidades distintas de inserir publicidade, que há algumas que são inócuas, pouco invasivas. E já me falava também em merchandising. E eu a querer que ele se focasse no meu pedidozinho simples, uma coisinha inocente só para marcar os cinco milhões e ele que sim, está bem, mas, ó Tá, quando é que podemos pensar em começar a monetizar o blog?

Chegámos a um compromisso. Quando me reformar, faço um blog de jardinagem, culinária, decoração. [A minha filha diz-me: lifestyle]. E, nessa altura, então pode ser. Tratas do assunto, monetizas o que quiseres. Fazes vídeos, editas vídeos, tratas da publicidade. 

Ficou entusiasmado. Passado um bocado, foi o mais novo: se quiseres, posso ser o teu assistente pessoal. Achei bem. Acrescentou: um euro à hora.

E contou-me que tem já uma boa quantia no mealheiro. Eu disse: boa, assim podes ser tu a comprar o que quiseres. Respondeu: Não, é uma poupança para o futuro que é o melhor que posso fazer. Fiquei admirada e dei-lhe razão.

Estivemos cá fora, no jardim, até perto das nove. Estava-se muito bem. Quando estavam a ter o segundo lanche, apareceu uma abelha que desestabilizou um bocado. Toda a gente a fugir, eu a tentar afastá-la e ela, gulosa, só a querer ver o que podia ciscar. Tenho que ver se há maneira de afastar abelhas ou moscas quando estamos a comer. Deve haver. Não há tomadas ali pelo que terá que ser qualquer coisa que funcione por si. 

E, pronto, foi isto. Na televisão, por todo o lado, Vieira, Vieira, Vieira. Não há pachorra. Parece que o país foi sugado por este tema. Parece não haver mais nada que interesse. Nada no Vieira me interessa, nunca me interessou. Todo este carnaval me enfada. Investigam durante anos, fazem dossiers enormes que levam anos a ler, há fugas de informação para tudo o que é canto e esquina, depois virão recursos e contra-recursos, anos e anos, a vida das pessoas em suspenso durante anos e anos e anos. Uma pouca  vergonha. Não há pachorra. Haver corrupção e compadrio é um problema em Portugal, haver muita gente que só acorda e só pensa nas coisas que lhes põem debaixo do nariz é outro problema, e termos uma Justiça relapsa, prepotente, burocrática, lenta, ineficiente, que despreza os direitos e a dignidade das pessoas é capaz de ser um problema ainda maior.

Não sei se alguns dos canalhas que, antes, difamaram e andaram a pedir a demissão do ministro Azeredo Lopes e que enchiam a boca e inundavam as televisões com inflamadas acusações a um homem que nitidamente é um homem honrado, vieram agora fazer o mea culpa por terem humilhado aquele de quem agora os mesmos que o acusaram vieram pedir a ilibação. Não sei pois pouca televisão tenho visto. Às vezes penso que sempre que está para sair uma notícia que envergonha o Ministério Público, os artistas do dito Ministério Público, se saem com uma cena que nitidamente vai anular o impacto da barracada. Acredito que, se não tivesse arrancado o Cartão Vermelho, alguém teria tempo para pensar e se arrependesse do mal feito a Azeredo Lopes. Assim, acredito que a malta se marimbou pois já nem se lembram desse 'caso'. A comunicação social e as redes sociais são um antro de maledicência e falta de carácter. Destroem o bom nome de uma pessoa por dá cá esta palha, na maior das ligeirezas, seguem em frente, sempre a ver de quem podem dizer mal a seguir.

Mas, enfim, nada a fazer. Vou antes ver se vou espreitar o que há para ver na Netflix. O meu filho instalou isto e ainda não fui desbravar. O meu marido já se foi deitar há um bom bocado. Levantar-se-á quando eu ainda estiver no meu primeiro sono. Hoje, quando me levantei, já ele tinha ido e vindo do seu desporto matinal (muito matinal), já tinha pintado uma mesa, um suporte de vaso, já tinha andado a aparar a sebe e mais não sei o quê. 

Os opostos dão-se sempre bem: uma noctívaga e um diurno. Há sempre um desfasamento horário entre nós. E funciona bem assim. Por vezes pode parecer que não... mas os números falam por si: mais de dois terços da nossa vida foram vividos em conjunto. Um eterno desafio.

_________________________________________

Já agora, deixem que partilhe convosco um vídeo que gostei de ver

Um indefectível optimista


________________________________

Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Maioritariamente jovens, maioritariamente homens.
E os homens do Expresso ainda em primeiro lugar




No outro dia, intrigada com um número anormal de visitantes, resolvi consultar com algum detalhe as estatísticas deste blog. E se algumas me esclareceram sobre o que pretendia, constatei que há outras que desconhecia, estatísticas demográficas, sobre os leitores.

Confesso que não sei se as informações são credíveis pois, segundo percebo, serão obtidas a partir dos dados que os próprios disponibilizam quando criam uma conta. Ora há quem passeie anonimamente e desses, presumo eu, o Google Analytics não conhece nada. Mas que sei eu do que o Google sabe...? Depois haverá quem não se confesse ao dizer a data de nascimento, digo eu. Ou quem aproveite a oportunidade para declarar o outro sexo que existe em si. Embora, se calhar, a maior parte das pessoas seja fiel ao seu cartão de cidadão. Mas não sei.

Seja como for, o Google não quer cá saber de funfuns e gaitinhas e se é para dar estatísticas ele dá. E eu, apesar de nestas coisas gostar sempre de aferir o rigor da coisa, uma vez que aqui não tenho como, vendo pelo preço que comprei. Vendo é como quem diz que eu, nisto do blog, é tudo pro bono, não há cá dinheiros envolvidos. 
Penso que já o contei: já me convidaram para participar num programa de televisão e para outros números. Declinei, embora sensibilizada pelos convites. Mas ainda não chegou o momento nem sei se alguma vez vai chegar. Gosto de sentir liberdade de movimentos, de escolha, de tudo. Não gosto de me sentir condicionada. Para isso já basta o que basta a nível profissional em que tenho compromissos, em que tenho que me sujeitar a regulamentos, procedimentos e demais paramentos. Aqui, escrevendo sobre o que me dá na gana ou partilhando fotografias que faço ou outras, ou pinturas, bailados, músicas, vídeos ou o que for, tenho que me sentir livre, sem laços nem limites, sem querer saber se agrado ou desagrado, se sou bem ou mal interpretada, se tenho ou não audiências. Livre.
Mas adiante.


Voltando às estatísticas e a serem verdadeiros, pelo menos na maioria, os dados que o Analytics usa, concluo que o 'público' é maioritariamente masculino, embora a distribuição por sexos esteja quase equilibrada.


Curiosamente, quem me procura é um 'público' bastante jovem.
  • 61% dos Leitores tem menos de 34 anos. 
  • Se subir a fasquia para os que têm menos de 44 anos, aí atingem-se os 76.5%. 
Não me espanto por aí além pois sei de alguns. E fico contente. Tal como na 'vida real' -- ou seja, no dia a dia, no face a face -- me dou muito mais com jovens do que com gente muito sénior, pelos vistos aqui, a ser credível a estatística, também é junto daqueles a quem o passado pouco pesa que melhor sou entendida.


Quanto aos posts mais lidos desde sempre, são estes:


Ou seja, em posição destacada, um post que, na altura, até mereceu um esclarecimento por parte de um dos envolvidos (cujo nome até consta do título do post), tendo-me escrito para dizer de sua justiça. Como me pediu sigilo, respeito-o. Ainda agora, ao lembrar-me disso, estive a reler a troca de mails e é deveras curiosa.

Um outro post que, ao longo dos tempos, continua a receber visitas e que (à data de hoje) já conta com 6.594 visualizações é este aqui abaixo. Não apenas fico surpreendida como fico contente pois nele falo do meu avô e, ainda que muito brevemente, do meu pai e no que deles há e sempre haverá in heaven e em mim.
______________________________________________________


As fotografias foram feitas hoje quando fui recolher oxigénio, verde, perfumes, canto de pássaros e paz de espírito para ir usando ao longo da semana.

Se quiserem dar um pezinho de dança, queiram descer até ao post abaixo: há para todos os gostos.

_______________________________________

A todos desejo uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

domingo, janeiro 05, 2020

Aquela que vocês pensam que eu sou





Ia dizer que há um mundo que desconheço. Iria referir-me ao Facebook, ao Instagram. Ou ao Tinder. Ou a redes sociais desse tipo. Mas tenho o blog, ainda por cima sem me identificar, e, por isso, se calhar, não posso dizer que desconheço. 
Mas o blog é um lugar onde escrevo ou partilho fotografias que faço ou outras de que gosto. Ou pinturas ou músicas ou filmes. Ou danças. Não o tenho para fazer amigos, para interagir, para me aproximar de alguém. Não sou uma pessoa solitária, muito pelo contrário, nem tenho necessidade ou dificuldade em arranjar amigos por via directa. Também pelo contrário, penso muitas vezes, com pena, que vou deixando pessoas para trás, pessoas que se queixam do meu esquecimento. Mas não é esquecimento, é mera indisponibilidade física para manter o contacto. Com a vida que tenho, não me sobra tempo. Ou estou a trabalhar ou no trânsito ou com a família. Ou no campo ou a ler ou no blog. Ou sei lá em quê.

Mas, se as minhas circunstâncias fossem outras, se calhar tentaria experimentar divertir-me ou arranjar companhia através de uma qualquer dessas redes sociais. Porque não?

Aconteceu que, mesmo não sendo esse o propósito do blog, arranjei alguns amigos, não muitos mas alguns, pessoas especiais que jamais conheceria se não fosse o blog. E conheci outras pessoas, não direi amigos-amigos, mas pessoas em que penso, pessoas invulgares, pessoas, em certo sentido, extraordinárias. E posso testemunhar que, apesar de tudo -- da distância, da imaterialidade do contacto, do desconhecimento concreto de quem está do outro lado -- genuíno afecto pode acontecer.

Agora que estou a escrever, lembro-me que há muito tempo, seguramente para cima de mil anos, havia uma coisa chamada mIRC. Presumo que, entretanto, se tenha extinto. Foi o meu filho, então adolescente, que me falou nisso, me explicou o conceito e como funcionava. E experimentei. E gostei. Falava-se com desconhecidos. Usava um nome, por sinal ainda me lembro, por sinal ainda gosto desse nome. Aliás, estou a lembrar-me, depois, querendo sair de cena com o primeiro nome, arranjei um segundo de que talvez ainda goste mais. Falava com pessoas muito interessantes. Um é hoje presidente de uma grande autarquia. Aprendi algumas coisas com ele. Era, então, como hoje, tanto tempo depois, ainda é: desconcertante, provocador, culto e polémico. Outro era administrador de uma empresa, disse-me o seu nome e a empresa onde trabalhava (e eu não) e deu-se o caso de, inesperadamente, o encontrar em contexto profissional e, num súbito ataque de nervosismo, não ter sido capaz de me identificar. De resto, não estava sozinha, estava integrada numa delegação, e pareceu-me que a conversa poderia desencadear perplexidade junto de quem a ouvisse. Nessa noite, pelo computador, disse-lhe que tinha estado com ele e ele ficou aborrecido por eu não me ter apresentado. Lembro-me também da noite em que a mãe dele morreu e de como estava triste enquanto conversava comigo. O contacto escrito em tempo real com desconhecidos, por razões que não sei explicar, pode gerar uma estranha proximidade. Mas pode ser também um espaço de sedução. E havia quem quisesse mais. E estar sempre a dizer que não tornava-se um bocado esgotante.


À medida que vou escrevendo, vou recordando: provavelmente esse mIRC foi o precursor das actuais plataformas de encontros, sejam eles virtuais ou físicos. 

Acabei por me deixar daquilo provavelmente por saturação ou porque aquilo, na verdade, era um bocado viciante, ou pelas duas razões -- já nem me lembro bem. Mas sei que, como tudo na minha vida, tendo sido porta que se fechou, para sempre ficou fechada. E, se agora estou a recordar, é certamente pelo filme que vi.

Juliette Binoche extraordinária, como sempre. Um filme belo, com uma bela música, envolto em silêncio e onde a luz de Binoche cintila. Muito interessante, também, o desempenho de Nicole Garcia.


Não vou desvendar o enredo mas posso apenas dizer que me parece uma situação muito plausível, provavelmente muito comum. Assumir um perfil que não é exactamente o seu, pretender fazer-se passar por outra pessoa, construir uma persona, vestir completamente a pele dessa persona, agir já como se fosse essa persona, manter a verosimilhança, ir acrescentando pormenores para lhe dar consistência, depois já não ter como voltar atrás, ver-se preso na teia que se urdiu e que já não é teia mas armadura, tudo isso me parece possível, real. Quantas vezes, sob outro nome, com outra fotografia, outra história de vida, não é assim que algumas pessoas se apresentam perante outras? Juraria saber de alguns casos.

Pode começar por ser uma brincadeira. Um jogo de espelhos. Pode acabar por ser um vício. Ou um modo de vida. Pode ser a heteronímia levada ao extremo, pode ser já a incapacidade em saber qual o verdadeiro eu. 


Se puderem, vejam. É interessante sob todos os pontos de vista.

Em Portugal ficou Claire e Clara. No original é Celle que vous Croyez

Realização de Safy Nebbou, banda sonora a cargo de Ibrahim Maalouf

________________________________________________

As fotografias que usei foram feitas no outro dia in heaven
_____________________________________________________

A todos desejo um belo dia de domingo

domingo, agosto 18, 2019

Nisto da greve do Pardal, Rui Rio e Francisco Louçã e mais uns quantos distraídos mostraram-se unidos na irresponsabilidade e na tremenda falta de sentido de Estado.
O mail de Fernando Frazão, um motorista (que escreve muito bem), explica o que estavam eles a preparar-se para fazer ao País.
Claro que a PGR e as Secretas não andam a dormir e que o Governo, felizmente, também não.
Recomendo ainda a leitura de "A seriedade e o prestígio da greve" de Helena Araújo.


O insuspeito David Dinis escreve no Expresso um artigo onde dá conta de uma coisa que, muito sinceramente, não me espanta mas que deixa a nu a irresponsabilidade dos que criticam a actuação do Governo ao garantir que o País não mergulhasse no caos que os motoristas pretendiam.

Transcrevo alguns pontos:

Motorista que transportou Marcelo avisou para “revolução civil”


Motorista que, em janeiro, transportou Marcelo escreveu um e-mail a ameaçar com uma greve que provocaria uma “revolução civil”. 

Governo mandou para PGR e secretas. email foi enviado há uma semana para uma estrutura do topo do Estado, na sexta-feira, horas antes dos plenários dos sindicatos. E fez soar os sinais de alarme. Não só por confirmar que os motoristas estariam dispostos a seguir uma estratégia de terra queimada, mas...

Em sete parágrafos, que o Expresso pode consultar, o email lembra o exemplo do Chile ou do Brasil 
26 dias foi quanto durou a greve no Chile, o governo caiu.(...)
A população vai revoltar-se e (...) está muito iminente uma revolução civil que pode não ser tão civilizada como o 25 de abril de 1974 (...)
O primeiro dia da greve talvez não tenha grande impacto, mas ao avançar-se para uma paralisação prolongada com a atenção dos media, poderá ser o caos total”, avisava Fernando Frazão, destacando à cabeça que o Algarve seria alvo preferencial “não só pela invasão de turistas, mas pela falta de gásoduto (...)
Nos primeiros dias, o Algarve foi, de facto, a região mais prejudicada pela falta de combustível. Só que o autor não contava com a eficácia da resposta do Governo ao apontar as consequências da paralisação. (...)
No segundo dia as prateleiras dos supermercados irão estar a 20/30% sem produtos de primeira necessidade; os postos de combustível estarão já a acusar rutura de stock, a agricultura começará a abrandar as colheitas para não perder os produtos da época. No terceiro dia as fábricas terão que parar pela falta da matéria-prima como pelo não escoamento do produto acabado; centrais termo-elétricas reduzirão a potncia e dar-se-à uma crise energética instalando-se o caos. (...)
Olhando para nós, uma greve dessas dimensões seria o desastre nacional
(...) A verdade é que a requisição civil travou os efeitos imediatos da greve. Mas durante a semana foram vários os avisos de responsáveis dos vários setores económicos a avisar: se a greve se prolongar por muito mais tempo, será inevitável haver problemas mais sérios.

O Expresso tentou contactar Fernando Frazão, mas sem sucesso.


---------------------------------------


Gostei muito de ler o post a seriedade e o prestígio da greve de Helena Araújo no seu blog 2 Dedos de Conversa. A sua escrita é sempre estruturada apesar de espontânea e há uma franqueza inteligente nas suas palavras que dá gosto ler.

Começa assim este post:
in South African History Online
Ultimamente tenho pensado muito numa história que ouvi a um antigo prisioneiro de Robben Island. Fora levado para a ilha já numa fase final do apartheid, e participou nas últimas greves da fome que alguns prisioneiros jovens fizeram nessa época, para exigir a melhoria das condições de vida na prisão. Se bem me lembro, exigiam água quente no duche e outros confortos semelhantes. Os prisioneiros mais antigos discordavam dessas iniciativas, e criticavam-nos imenso por estarem a desprestigiar algo tão sério como uma greve da fome por motivos que lhes pareciam ridículos. Os mais velhos - que tinham lutado para ter água doce em vez de água do mar nos duches, para ter uma cama em vez da esteira de sisal no chão, para acabar com a lista de alimentos e calorias do menu prisional conforme a cor da pele - afirmavam que a greve é a última medida à qual se deve recorrer, e apenas por motivos realmente fortes. Caso contrário, diziam, retira-se seriedade e prestígio a esse instrumento de luta.  (...)
Recomendo a integral leitura pois se há matérias sobre as quais alguma reflexão é necessária.

.................................

(A Helena Araújo está inocente quanto à escolha da imagem da chegada de prisioneiros a Robben Island que, de minha lavra, resolvi colocar junto às suas palavras)

segunda-feira, junho 03, 2019

Street Photo & Co.




Quem por aqi me acompanha sabe que sou dada a prazeres. E se escrever é um deles e não é pequeno, fotografar é outro e não é menor. Andar pelas ruas a fotografar é daqueles apelos a que, desde há muito, não resisto.

Por isso, em tempos, quando já tinha ganho o gostinho por este blog, resolvi ter um só para fotografias. Foi o meu marido que lhe deu o nome: Street Photo & Co. Gostei muito do nome.

Era coisa que fazia com gosto e e o meu marido, que geralmente acha alguma piada às minhas fotografias mas que, obviamente, tantas elas são que não tem pachorra para as ver, gostava de ver as que eu publicava, uma ou duas por dia.


E se tudo o que se me atravessa à frente é bom para ser fotografado, é por fotografar pessoas que mais me sinto atraída. Não imaginam quanto. O intuir que vai haver um movimento especial, o adivinhar quando é que a pessoa vai fazer o gesto pelo qual espero, o apanhar a melhor posição, a melhor exposição, tudo sem que a pessoa saiba, o agir furtivamente... isso é para mim um prazer. E não é que agir pela calada, em geral, seja a minha praia mas é que, se a pessoa que observo sabe que está alguém à espera do momento para a fotografar, perderá a naturalidade, desfigurará a espontaneidade do instante. E a magia reside, justamente, na captura do momento na sua mais pura essência.

Portanto, o acto de fotografar alguém na rua é sempre um acto de tocaia e, claro, comporta os seus riscos.


Uma vez, vi do outro lado da rua uns calmeirões com um físico extraordinário, uns verdadeiros apolos, a carregar um grande sofá. Nem lhes vi as caras pois iam encobertas pelo sofá que transportavam ao alto, ao ombro, creio. Fotografei-os, claro. Um bocado depois, eis que sou interpelada por um gigante, mulato, brasileiro. Ameaçador: 'Qu'é que cê tava fotografando? Dá isso pr'a cá!'. Furioso, tom agressivo. Nunca tal me tinha acontecido apesar do meu marido andar sempre a prevenir-me: 'Um dia ainda te tramas'. E eu digo que aí que, se alguém me disser alguma coisa, eu direi para se entenderem com ele, que é o meu agente, o meu bodygard e o meu lawyer. Pois nessa vez tenho ideia que ele resolveu armar-se nisso tudo ao mesmo tempo mas que eu, que temo os seus rompantes em situações destas, atalhei e disse que, se isso era questão, apagava a fotografia. E apaguei e o apolo lá se foi à vida dele. O meu marido disse que deviam ser trabalhadores ilegais, que não quereriam ser vistos, muito menos arriscarem aparecer nalguma rede social. Não sei. Mas a verdade é que nesse dia me assustei.


Outra vez foi um que me assustou muito, um homem muito magro, com um rosto marcado. Provavelmente, vendo-me a fotografar pessoas, veio ter comigo, colocou-se à minha frente, intimidante, uma voz grave, cava, e ordenou: 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'.  Assustei-me mesmo. Quis desviar-me mas ele não saíu da minha frente: 'Fotografe'. E eu fotografei. Ficou uma fotografia impressionante, devo dizê-lo.

Mas, apesar de tudo, sempre continuei a fotografar. Contudo, tirei do ar o Street Photo & Co. pois apesar de não ser ilegal fotografar e divulgar fotografias de pessoas na rua, nunca consegui saber exactamente os contornos legais da coisa. Claro que, se alguém se visse no blog e me escrevesse a dizer para retirar a fotografia, imediatamente o faria. Mas, seja como for, achei preferível não me arriscar. Claro que se ninguém fotografar ou filmar o que se passa nas ruas não haveria testemunhos deixados ao futuro mas, enfim, pelo menos por enquanto, tento não publicar pessoas de frente ou em primeiro plano e frequentemente opto por fotografar graffittis, árvores, montras, coisas.

[E pode ser que um dia, qualquer dia, volte a pôr no ar o meu bloguesinho de fotografias de que eu gostava tanto]


No sábado ao fim do dia, a modos que exautos, resolvemos dedicar o domingo ao descanso. Absoluto descanso, prometemo-nos um ao outro. Descontando as tarefas domésticas, claro, porque o domingo tem sempre obrigações a que não dá para escapar. Pensei dormir até às onze, no mínimo, e pedi que, sob pretexto algum, me acordasse. Mas a verdade é que acordei cedo e, quando me levantei, já ele estava na sala a ler. Portanto, estando o dia a começar e já ambos bem acordados, decidimos ir passear a pé. Eu estava com vontade de ir conhecer um sítio e ele não tinha nada contra e, de resto, é daqueles sítios onde sempre iremos de bom grado, agora e sempre. É daqueles lugares de Lisboa a que a nossa história está associada e isso, parecendo que não, parece que nos faz ainda gostar mais de por lá cirandar.

E era disso que hoje teria querido falar mas, entre o post para a Isabel e a minha vontade, meteu-se este post em que me apeteceu mostrar alguns graffittis, quer os dois primeiros feitos no outro dia no maravilhoso Ginjal quer os deste domingo, na zona do belo Príncipe Real.

E se não quero publicar fotografias de pesssoas (e se as fotografei, espantosas...) pois, então, que possa mostrar paredes. E se as há também com lindezas boas para serem mostradas.

Devo até dizer que, quando fotografei a que mostro abaixo, me ocorreu pregar uma partida à Luísa e enviar-lhe para o Pinta-Amores -- mas se calhar ela é atilada e não achava graça nenhuma à minha maluqueira e, portanto, cortei-me. Portanto, a banana maliciosa, aparentemente dada a amores pouco platónicos, fica aqui, que aqui estará bem, que já se sabe que este meu Um Jeito Manso não é lugar que se recomende.


E a ver se amanhã mostro o tal lugar que fui conhecer, um lugar com que sonhei, julgando um sonho impossível, e que, afinal, hoje encontrei, materializado, fresco, sóbrio, bem cheiroso, amplo, pleno de tentações: em suma, extraordinário.

-------------------------------------------------------------------------------

A todos desejo uma bela semana a começar já nesta segunda-feira.
Saúde, sorte, alegria, amor e cacau para os gastos.

segunda-feira, outubro 01, 2018

Três milhões de visitas.
3.000.000
A autora de Um Jeito Manso mostra-se em toda a sua nudez.
É a forma de agradecer aos seus Leitores.
Muito obrigada.






Já muitas vezes aqui celebrei os marcos que tenho vindo a atingir aqui no blog -- quando fiz um ano, quando cheguei às 100.000 visitas, depois, aos dois anos, ao primeiro milhão, ao segundo. Sempre surpreendida pelo percurso, sempre surpreendida e agradecida pela sorte de merecer o agrado dos Leitores. Quase sempre recordei que isto começou sem propósito, só mesmo para perceber como se fazia, que o título aconteceu por mero acaso (por nesse dia termos ouvido e andarmos em casa a cantar 'o meu amor',) contei que não conhecia ninguém na blogosfera, que não conhecia truques para me tornar visível, não conhecia nada nem tinha interesse nisso. Era uma descoberta, uma experiência. Não tinha objectivos.

Começou como um blogue anónimo e assim continua porque não existia e continua a não existir o intuito de me dar a conhecer -- queria simplesmente perceber se o que escrevia valia por si sem andar a reboque da pessoa que escrevia. Depois veio outro motivo: o querer falar em plena liberdade sem conotações com a pessoa que trabalha onde trabalho pois isso poderia, de alguma forma, constranger-me. E este tem que ser um espaço de total liberdade ou não terá motivo para existir.


Do zero, as visitas foram crescendo, crescendo, devagar, devagar, os Leitores foram chegando e ficando e, ao mesmo tempo, fui-me habituando a, diariamente, ao fim do dia, aqui vir dar nota das minhas andanças, das minhas opiniões, dos meus gostos. Talvez tão importante como o prazer de aqui escrever à noite tenha sido também o ir percebendo que, aí desse lado, estão pessoas concretas. Não estou a escrever para mim ou para o espaço: há quem me leia e, dessa forma, me acompanhe. Tive o privilégio de conhecer, através dos comentários e de mails, vários Leitores e, com o que me têm contado, sou hoje uma pessoa com um melhor conhecimento do que é vida. A confiança que depositam em mim comove-me e, muitas vezes, quando aqui chego ao fim do dia, cansada e com alguma dificuldade em manter-me desperta, penso nas pessoas que dizem que sou a companhia ou a família que não têm ou que lhes levo a serenidade que falta na sua vida. A importância que isso tem para mim não sei explicar ou transcrever em palavras pois é uma coisa cá muito minha; mas, acreditem, é muito relevante, passou a fazer parte da minha vida. Há, por vezes, um afecto genuíno, real. Por vezes, uma saudade verdadeira.


Sei que não sou muito previsível ou bem comportada e antevejo que, de vez em quando, surpreendo os meus Leitores e talvez nem sempre favoravelmente. Sou intrinsecamente livre e não está na minha natureza deixar de dizer o que me apetece para agradar a uns e outros. Não gosto de magoar gratuitamente quem quer que seja mas também não consigo ficar calada perante injustiças ou maldades. Pessoas cuja vida gira em torno da política e que, em vez de a honrarem exercendo-a com nobreza e em prol do bem do País e dos seus concidadãos, a exercem com egoísmo, arrogância, incompetência ou desprezo pelos outros, merecem-me repúdio e não me coibo de o dizer.

Também não consigo alinhar-me com as maiorias politicamente correctas que se formam ad hoc, ao sabor da espuma dos dias. Penso por mim e não me incomodo nada por fugir à norma ou ser uma voz dissonante no meio de vozes que falam em coro. Isso vale-me, por vezes, alguma censura alheia e, quando isso chega até mim, não a rejeito, penso duas vezes. Gosto de conhecer as opiniões alheias mesmo quando não coincidentes com as minhas e, não raramente, quando as considero honestas e inteligentes, sou levada a calibrar as minhas. Quanto mais avanço na idade mais me dou conta do muito que tenho a aprender -- e é com os outros que mais se aprende.


Mas é também na vivência na natureza, na comunhão com os elementos mais naturais -- a luz, as sombras, o silêncio, o canto dos pássaros, a beleza das flores, das árvores, das pedras, dos rios, o cheiro da terra e da maresia -- que mais me construo.

Vivendo intensa e motivadamente a minha actividade profissional -- que se desenrola em meios urbanos, cosmopolitas e, frequentemente, internacionais -- é no sossego do campo ou nas caminhadas junto ao rio que encontro a paz interior de que necessito para me sentir completa e livre.

E é também com a companhia dos livros que me completo. Tenho o prazer não apenas da leitura mas também o da posse dos livros. Não é racional a minha apetência por mais e mais livros sabendo que nem que vivesse várias vidas os conseguiria ler, calmamente, a todos. Mas é uma necessidade. A emoção que sinto ao ter um livro novo não é coisa que se consiga explicar recorrendo a uma argumentação lógica.

Lembro-me de que uma vez uma Leitora chamou a minha atenção para o preço dos livros que eu estava a mostrar e, a partir daí, quando tenho vontade de partilhar convosco os meus livros, tenho em atenção este facto verdadeiro: os livros são caros e nem todas as pessoas têm a sorte de os poder ter. Por isso, gostando de dar a conhecer livros de que gosto muito, não quero que isso possa parecer exibicionismo da minha parte ou que aumente a tristeza de quem gostaria de os ter mas não tem poder de compra para tal. Por isso, não sei se bem, se mal, tenho moderado esse aspecto.

E a arte em geral. Pintura, escultura, fotografia, dança, música. Preciso de me rodear do prazer livre da arte. Este blog disso vos tem dado conta. Aqui não há arte bem comportada, não há arte confinada a géneros, não há arte sujeita a modas: há aquilo de que gosto e que é coisa de amplo espectro. Os meus gostos não são canónicos. São os meus. E muito gostaria que aquilo de que gosto também vos agradasse.


Destaco a fotografia. Prazer maior na minha vida. Não consigo estar sem fotografar. Os meus olhos aprenderam a ver melhor o mundo através da lente. Se, como hoje, passeio junto ao rio ou ao mar ou, como ontem, in heaven, pisando a caruma nos caminhos ladeados de pinheiros, os pormenores requerem que eu os isole e registe no enquadramento em que se desenharam perante o meu olhar. Este meu blog está repleto de fotografias minhas. Tenho muitos milhares de fotografias que um dia talvez organize. Ou não. Adoro fazer (escrever, fotografar, ler) mas sou completamente displicente em relação a organizar o que faço. Tento convencer o meu marido a complementar-me aí mas a minha produção é sempre tão excessiva que ele se sente incapaz de acompanhar o meu ritmo produtivo e, perante a tarefa ciclópica, não ganha coragem para deitar mão a esse trabalho. Compreendo-o muito bem.

E, falando nele, tenho que aqui deixar nota de um dos aspectos mais importantes na minha vida: a minha família.


Quem por aqui me acompanha, sabe bem dos laços estreitos que me unem à minha família, a primeira última das minhas prioridades: os meus filhos tão, tão amados, amores absolutos e incondicionais, os meus netos queridíssimos, pimentinhas irrequietos, alegres e inteligentes, meus amores pequeninos mais lindos, os meus pais que felizmente ainda tenho a sorte de ter comigo, e, claro, o meu marido, companhia de uma vida, amor que entrou no meu mundo como um vendaval de paixão e que, tantos anos depois, ainda me olha com olhos de um amor que sempre senti como eterno enquanto dura mas que dura, com a mesma intensidade, até hoje.

São dele estas fotografias que aqui vos mostro. Enquanto ando em total liberdade, in heaven, gosta de me fotografar. É pois através do olhar dele que aqui hoje me desvendo. O meu olhar, no início, a minha pele a terminar.

Pensei em pedir a alguns Leitores que escrevessem umas palavras sobre este meu espaço, palavras não apologéticas mas verdadeiras. Mas depois inibi-me. Porque haveria eu de dar trabalho a quem me lê? E como saberia, depois, se eram sinceras e não apenas simpáticas as palavras que recebesse? Resolvi ficar-me por estas minhas fotografias. Se fosse ao vivo, ofereceria um lanche, cozinharia com esmero, poria flores nas mesas, música boa, desejaria que a conversa fluisse com alegria e tranquilidade. Assim, o que tenho para mostrar o meu agradecimento é pouco.


Se hoje sou quem sou, devo-o aos meus amores, à minha família e amigos e, também, aos meus Leitores que, aí desse lado, me incentivam com a sua companhia.

O Um Jeito Manso ultrapassou as três milhões de visualizações e eu espanto-me perante este número que, a todos os títulos, vai para além das minhas expectativas e da minha compreensão. Sinceramente penso que, mais do que mérito meu, é generosidade vossa. A todos, sentidamente, agradeço. 

Espero que possamos continuar juntos por muito e bom tempo. Bem hajam. Muito obrigada.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

2017, ANO ESQUIZÓIDE -- diz o Henrique Manuel Bento Fialho


Posso nem sempre concordar com o que o hmbf escreve e, neste caso, um ou outro aspecto merecer-me-iam alguma reticência. Contudo, concordo muitas vezes e, neste texto, em particular, mais do que concordar bastante, o que aprecio é a inteligência, a abrangência da análise e a capacidade de síntese que ali são evidenciadas.

Vem-lhe esta capacidade, talvez, da mão de poeta, habituada a destilar ideias e sentimentos, reduzindo o tudo às palavras essenciais.

Li o texto enquanto caminhava entre pinheiros, cedros, alecrim e madressilva, ouvindo o canto dos passarinhos, respirando o ar frio da manhã e o que me ia ocorrendo é que ali estava uma bela escrita em vol d'oiseau. 

Como sou péssima a fazer listas, resenhas ou recapitulativos de qualquer espécie não faço a mínima ideia se está ali tudo o que devia estar ou se há falhas imperdoáveis. Não faço mesmo ideia. Só sei que li e gostei de ler.  Reconheço o 2017 que o Henrique redesenhou com as suas palavras.

Permito-me, pois, recomendar aos meus Leitores a sua leitura: 2017, ANO ESQUIZÓIDE

....................


domingo, outubro 15, 2017

Breve apontamento sobre isto





Longe vão os tempos em que eu via crescer, um a um, o número de leitores do meu blog e ficava intrigada: quem serão? como deram comigo? Tinha, então, a vontade de atingir o número simbólico e que me parecia quase inatingível das 100 visitas por dia.

Uma vez li no Vida Breve um agradecimento por ter recebido, na véspera, 400 visitas. Nessa altura eu acompanhava uma meia dúzia de blogs e desconhecia, mesmo de nome, os mais visitados da blogosfera portuguesa. 400 visitas parecia-me uma coisa espantosa, um objectivo que nunca estaria ao meu alcance. Atribuí-o ao mérito do seu autor e à qualidade que eu lhe reconhecia, apesar de tantas vezes discordar do que ali lia.

Enquanto isso, aos poucos, as visitas ao Um Jeito Manso iam crescendo. Até que um ano e oito meses depois de ter criado o blog, o impossível aconteceu e atingi o surpreendente número de 100.000 visitas. Fiquei tão contente, tão agradecida. Nunca tinha imaginado tal feito.


O tempo tem passado. Há sete anos que já por aqui ando. Quando comecei esta aventura, havia um pimentinha, ainda pequenino. Depois dele mais quatro chegaram. Os leitores também foram chegando e ficando. Os números foram crescendo. Nunca deixei de me surpreender nem de me sentir agradecida mas agora já não reparo quando passo por números redondos. Contudo, hoje vi que já tinha ultrapassado 2.300.000 visitas e voltei a ficar admirada. Em Abril tinha chegado aos dois milhões e, agora, em cerca de seis meses, já se somaram mais 300.000. Provavelmente não é nada de mais e o que não faltarão serão blogs que recebem mais do que isto por mês ou por dia. Não sei, não faço ideia. Mas eu tenho consciência das minhas limitações e, por isso, é sempre com alguma estupefacção (e contentamento) que vejo que as minhas palavras despertam algum interesse. No outro dia, um Leitor, por mail, referiu que o que o tinha feito permanecer era também o que eu juntava aos textos, nomeadamente os vídeos. Cada Leitor terá as suas razões.



E talvez, de vez em quando, eu desiluda alguns. É impossível agradar sempre, é impossível agradar a toda a gente. Mas pode ser-se sempre verdadeira. Tento ser sempre verdadeira.

O tempo passa e nós talvez nos vamos modificando. Talvez eu hoje seja diferente de quando aqui me estreei. E há dias e dias. Tantas vezes, enquanto aqui se está, escrevendo palavras cheias de despreocupação e riso, num corredor subterrâneo dentro de nós, caminham as nossas preocupações, as nossas mazelas. 

Mas quem aqui está é uma pessoa tão pessoa quanto quem nos está a ler. Contradições, fraquezas, paixões, desilusões, esperanças, prazeres, tristezas. De uma forma explícita ou implícita, tudo por aqui tem passado.

E as minhas causas. A defesa dos mais indefesos, a defesa da política inteligente e humanista, a defesa do conhecimento e da ética, o fascínio pelas artes, pelas palavras. A necessidade de afecto, de beleza e de elegância -- em tudo.


Hoje trago aqui o vídeo que fala da luta pela dignidade das meninas. Está lá em cima, para acompanhar a leitura deste texto.
This new film from director MJ Delaney featuring ‘Freedom’ by Beyoncé, calls for action on some of the biggest challenges girls face like access to education, child marriage and the threat of violence´
Já o confessei algumas vezes: tem acontecido pensar se me apetece por aqui continuar. Isto absorve-me o pouco tempo livre de que disponho e impede-me de me dedicar a outras aventuras ou a velhos prazeres. Mas depois há isto: o ter onde escrever e saber que alguém me lerá, o poder partilhar vídeos que me agradam, o poder abordar temas que me são caros, o poder mostrar fotografias que faço (como estas que fiz este sábado, in heaven) ou que vejo. No fundo, o poder ter este espaço de liberdade e partilha. O poder chegar até vós, o poder sentir-vos aí desse lado.

............................


Muito obrigada.

........................................

E queiram continuar a descer. Aí a seguir fala-se de mulheres.

.........................................

sábado, setembro 09, 2017

Até que a morte os separe.
[3º de 6 posts]



Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz


Na luz dourada da tarde, passeavam pela beira do mar, abraçados. Passaram para lá, conversando, abraçados. Fotografei-os. A felicidade de ter, ao longo da vida, alguém que nos acompanhe, que nos ouça, que nos fale das suas ideias, que nos abrace, que seja nosso amigo não cabe em meia dúzia de palavras. 

Depois voltaram a passar, agora em sentido contrário. Mantinham-se abraçados, continuavam a conversar. Belíssimos no seu amor, na luz que os envolvia, na passada certa e alinhada, na certeza de enfrentarem juntos ventos e marés.


............................................................................................

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

..................................................................................................
Há cerca de sete anos, de manhã, -- e já tantas vezes o contei -- tínhamos ido no carro a ouvir a Bethânia. 'O meu amor', que já conhecíamos cantada pelo Chico, ficou presa à língua do meu marido que todo o santo dia a cantou. E eu com ele. De vez em quando. os dois ao mesmo tempo. Nessa noite, depois dele se ter ido deitar, resolvi fazer um blog e, ao ter que lhe dar um nome, o que me ocorreu foi 'um jeito manso' dado que, lá por casa, outra coisa não se tinha cantado ao longo do dia. E cantámo-la não apenas porque a música e a interpretação nos agradavam mas também porque a letra da canção é qualquer coisa. 
Hoje, enquanto nos deslocávamos de carro durante uma curta viagem (já que, por estes abençoados dias, felizmente só temos andado a pé), de novo 'o meu amor', desta vez na interpretação da Carminho e do António Zambujo. O meu marido de novo a cantou. E eu fechei os olhos, pensando em todos estes anos, juntos, ouvindo esta mesma canção, cantando-a como se fosse feita para nós.

Fica aqui bem, junto do casal da fotografia. Quanta ternura e companheirismo naquele andar enlaçado.

......................

domingo, julho 09, 2017

Escrever. Ter um blog.
[Uma espécie de balanço de 7 anos de blogosfera, enfeitado com mais uma reportagem fotográfica à beira-praia num dia em que quase parecia querer chover]





Ao contrário do que possa pensar quem anda na blogosfera para atenuar alguma solidão ou sofrimento, nem todas as pessoas que por aqui andam terão essas mesmas razões. Eu, pelo menos, não o faço por sentir que me falte alguma coisa ou para tentar curar alguma ferida. Longe disso. Escrevo aqui ou partilho fotografias, minhas ou alheias, ou partilho pinturas ou músicas porque gosto de o fazer. Apenas por isso.

Gosto de escrever. Uma vez, há muito tempo, escrevi uma história. A ideia é que fosse um livro. Noites até de madrugada a escrever. A ideia que tenho é que era obra com duzentas e tal páginas. Depois passei-o para disquettes. Depois mudei de computador e nem mais me lembrei do livro. As disquettes não sei onde param e, mesmo que as descubra um dia, não saberei onde enfiá-las para poderem ser lidas. Além disso, se bem me lembro, estava escrito numa coisa que se chamava DisplayWrite que já não deve existir em lado nenhum.


Faz-me um bocado de impressão a forma despegada da minha maneira de ser. Escrevo, passo à frente, praticamente esqueço o que escrevi. Desinteresso-me. Bom foi escrever. De resto, bye bye.

Anos mais tarde, comecei outra história. Pensei que o tema daria um bom romance. Lembro-me que, numa altura de vírus, coisa assim, tive a ideia peregrina de pôr uma password para o abrir. Depois calhou ter que estar uns tempos sem lhe tocar. Quando a ele quis regressar, tinha-me esquecido da password. Depois esqueci-me do assunto e, provavelmente, o computador que usava também já deve ter ido à vida.

Paciência. 

Agora, ao menos, tudo o que escrevo vai logo para o ar, já não se perde.


Quando era adolescente tinha um diário. Gostava imenso de escrever as minhas histórias, as zangas com os meus pais, as minhas aventuras amorosas, as minhas paixões escaldantes. Tudo ali relatado, sem falsos pudores, sem papas na língua.

Pois bem. Mal saí de casa dos meus pais, desinteressei-me dele (já não tinha tempo para descrever o que vivia porque o que vivia transcendia o meu tempo). Ficou lá. Ficaram também lá as centenas de cartas que, até aí, tinha recebido de amigas, amigos, namorados, pretendentes. Cartas íntimas que, na altura em que as recebia, pensava que jamais outra pessoa que não eu as deveria ler. Tudo em gavetas, disponíveis para serem lidas. Durante as limpezas que a minha mãe gosta de fazer a armários e roupeiros deve ter visto tudo. Nunca me interessei. Por vezes, pensava que o correcto teria sido meter tudo em caixas e sacos e trazer comigo. Mas nunca me apeteceu mexer um dedo nesse sentido. Era vida passada, já nada eu tinha a ver com esses tempos.


A minha filha também gosta muito de escrever. Uma vez escreveu um livro e enviou-o para um concurso. Depois escreveu outro e andou, junto de uma ou outra editora, a ver se o publicava. Numa prosa escorreita, são textos em que há sempre um forte envolvimento emocional da sua parte. E escreve versos com uma facilidade incrível. Histórias para criança em verso. Letras de canções. Tudo muito bem.

O meu filho não tem essa tentação da escrita -- que eu saiba -- mas escreve muito bem. Já aqui publiquei uns dois ou três textos dele e penso que, quem os leu, concordará com a minha opinião. A escrita sai-lhe fluida, elegante e sempre com muito sumo.

Mas a verdade é que gostar de escrever não precisa de explicação nem precisa de motivação outra que não a da própria escrita.


Acredito que algumas pessoas sintam a necessidade de confidenciar os seus estados de alma perante o mundo desconhecido, quase como se gritassem as suas amarguras no cimo de uma montanha solitária. Ou que outras se sintam tão abandonadas e tristes que a blogosfera seja o ombro que lhes falta. Ou que algumas outras tenham vontade de ajustar contas com amores perdidos ou falsos amigos e o façam nos blogs, na esperança que eles os leiam e que a exposição pública do mal feito seja a merecida vingança. Ou que alguém, carente de um abraço ou de uma paixão clandestina, use a blogosfera para estender pontes para interditos algures. Acredito.

Por vezes leio blogs e, confesso, fico perplexa ou intrigada. Parece que estão a ser feitas feias acusações em público, outras vezes percebo ali recados, textos meio encriptados talvez com um destinatário concreto que os desencriptará. Mas não acho isso mal. Nem mal, nem bem. Posso deixar de lê-los, só isso, por achar que estou ali a mais, o destinatário é apenas um e seguramente não sou eu. Os blogs são, de facto, um espaço de liberdade. Aqui cada um faz o que quer, quando quer, como quer. Os leitores são livres de os seguirem ou não. Como espaço de liberdade que é, a blogosfera é um vasto espaço em que devem caminhar lado a lado, quem os escreve e quem os lê, apenas enquanto houver prazer nisso.


A mim a blogosfera traz-me o que vos contei: é um lugar onde não corro o risco de perder tudo o que escrevo -- porque escrever, escreveria de qualquer maneira -- e é um lugar que tem trazido até mim outros bloggers, muitos leitores, pessoas com quem, venho depois a perceber, existem afinidades, tem-me trazido a partilha de leituras, a descoberta de pontos de vista múltiplos -- ou seja, tem-me trazido muitos bons momentos. Aprendo, divirto-me, delicio-me. Se eu venho para aqui já bem disposta, ainda melhor saio a cada dia que por aqui passo. Embora também já me tenha acontecido ler textos tão tristes que me sinto tentada a enviar a minha solidariedade, o meu abraço que não é feito de braços que confortem mas apenas de palavras. E já enviei.

Não ando pela blogosfera porque sinta que me falte alguma coisa mas, na verdade, estar por aqui traz-me muitas e, por isso, sinto-me bem e agradecida por, um dia, fez esta semana sete anos (e, no dia, nem me lembrei de o assinalar; apenas agora, ao escrever isto me lembrei) ter criado este blog apenas para ver como era.


Nesse dia inicial, escrevi uma mensagem que deve ter começado por se chamar: 'Para o meu amor' -- pois é isso que aparece no link -- mas que depois troquei por 'Primeiro Dia' -- e que rezava assim:
Sem plano, sem guião, sem preconceito, sem objectivo. Uma experiência apenas. Talvez comentários sobre o que for presenciando ou sobre o que penso. Umas vezes relatos reais, outras ficção. Vamos ver.
E, de facto, assim tem sido. Uma experiência apenas. Ao começar, não sabia nada do mundo dos blogs, não conhecia ninguém na blogosfera nem sabia como dar-me a conhecer. Um, dois, três leitores por dia. Depois já dez, depois vinte. Mês após mês, os leitores vinham chegando e eu sempre surpreendida, sem perceber como me tinham descoberto. Ao fim de um ano, ainda quase nada, mas sempre crescendo. Agora, todos os dias, sempre mais de mil pessoas passam por aqui. Por vezes mais, quase duas mil, por vezes até mais. Posts publicados já são para cima de 4.400. Comentários quase 15.000 e por aí ficará já que agora, para evitar aborrecer os leitores quando não lhes respondo, os suspendi. Dos mais de 2 milhões de visitas, algumas foram para posts que tiveram um número de leituras que me espantou (uma sobre Os homens do Expresso e Ricardo Salgado e o BES foi vista quase 24.000 vezes; outra, Alô, alô Juíz Carlos Alexandre!, quase 14.000: números que sempre me deixaram atónita).

Por vezes, penso que isto me absorve demais, que devia parar. Outras vezes, tenho vontade de me dedicar a outras coisas (porque ficar sem fazer nada é que nem pensar). Mas a verdade é que o gosto por escrever se tem sobreposto, sempre. Não sei por quanto tempo mais por aqui andarei mas, enquanto andar, andarei de gosto. Espero que também vão gostando de me acompanhar. Sentir-vos aí desse lado, na verdade, é a melhor parte disto tudo.


________________________

Um abraço a todos e, nele, o meu sentido agradecimento.

___________________________________________________

E um belo dia de domingo a todos quantos por aqui passam.

Be happy
___________