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terça-feira, setembro 29, 2026

Se há uma mão invisível que vem de lá e toca no meu coração ou na minha pele ou nas minhas vísceras então é porque é arte?
Pergunto.

 

Há temas que me são caros, talvez porque encerrem um enigma que não consigo deslindar. O tema da arte é um deles. O que é a arte? Como distinguir se uma obra é arte, se é artesanato, se é artifício, se é uma mera provocação?

Imagino que isto seja tema de estudo nos cursos de Arte ou de História da Arte. Poderia, agora, ir pesquisar sobre o que se diz sobre o tema, talvez até interrogar as inteligências artificiais, mas não quero. Prefiro que permaneça sem resposta.

No outro dia, ao conversar com uma amiga que ensina e pratica a matéria, ela dizia que também não tem resposta: qual a fronteira entre uma escultura e um objecto de decoração? Quando a dúvida lhe ocorre, ela sabe formular a pergunta mas não arrisca na resposta.

Desde muito cedo me interessei por arte. Enquanto estudava na faculdade, era rara a semana em que não me enfiava na Gulbenkian. Como entrei para a faculdade aos dezassete anos, posso dizer com segurança que parte de mim se formou nessa altura, no contacto directo com todas as formas de arte. 

Já contei várias vezes o efeito que uma grande exposição do Miró provocou em mim: espanto, dúvida, admiração, alegria, incompreensão. Isto também é arte?, perguntava-me eu. Na altura não consegui assimilar tudo. Ao longo dos anos, as imagens foram fazendo o seu caminho dentro de mim. Algumas palavras foram criando raízes. Fascínio. Liberdade. Como se consegue ser tão livre a ponto de encher telas com cores e símbolos e estrelas e pontinhos? Como se consegue ser tão livre a ponto de fazer peças com escadas, sapatos e peças de roupa? Como se consegue que aquelas cores e formas façam tanto sentido?

E aquela exposição de Rodin, que comoção. Não conseguia deixar de andar de volta daquelas figuras. E depois a obra que mais me marcou, quase a mais insignificante. Até hoje, uma imagem que ficou gravada em mim. Voltei ao puro encantamento ao revê-la, anos mais tarde, em Orsay. Celle qui fut la belle Heaulmière. Uma escultura relativamente pequena, uma mulher curvada, enrugada, os seios esvaziados, caídos, o ventre lembrando talvez distantes maternidades. Outrora bela. Aquela que em tempos foi bela. A inclemência com que se pode olhar para um corpo velho e apenas ver nele a sombra do que se foi.

Tive vontade de chorar pela beleza da mulher, ainda tão bela na sua nudez sugada pelo tempo. Arte, sem dúvida. Arte maior.

Tantos exemplos. Um dos casos que mais me toca, não apenas porque é dos pintores que produz em mim um impacto emocional mais forte, mas também porque me deparo com a total indiferença, senão mesmo repúdio por parte da maioria das pessoas com quem falo. Rothko. Não tenho como explicar. Leio que acontece muitas pessoas ficarem em frente de uma tela de Rothko e chorarem. Comigo aconteceu isso. Sempre me senti inexplicavelmente atraída pelas suas pinturas. Conhecia de livros, de vídeos, de documentários. Mas quando me vi em frente a uma, de uma dimensão maior que eu, fiquei quase hipnotisada, não conseguia dizer nada nem afastar-me dela. Parece que me apetecia entrar por ela adentro. E, estando ali, ao vivo, apercebi-me de nuances de cores, da transição esfumada entre as faixas de cor de que não tinha tido ainda total percepção, e isso provocou em mim um efeito ainda mais imersivo. Quem não vê ali nada, não consegue sequer perceber o que digo. Acham que aquilo não vale nada, dizem que o filho ou neto de cinco anos faz melhor. Já ouvi esse comentário mil vezes. Mesmo que se saiba que o valor de mercado é brutal, cada tela vale muitos milhões, ainda assim consideram que as excentricidades do mercado não transformam uns borrões sem graça nenhuma em arte. E eu não sei rebater. Sei apenas que, para mim, é arte, arte suprema, intemporal, quase imaterial. Não sei dizer se o que ali vejo é beleza. Creio que é mais que isso, é transcendência. Não sei o que é o espírito, não sei mesmo, mas creio poder dizer que as pinturas de Rothko alcançam o que em mim há de mais espiritual. 

Mas tudo isto é subjectivo.

Estava agora a escrever e a lembrar-me de um dia ir a conduzir e ouvir uma entrevista a um escultor de cujo nome não me recordo. Contava ele tinha uma vez estava a esculpir uma figura meio abstracta que, na ideia dele, simbolizaria a compaixão. Estava a trabalhar nisso com as suas ferramentas, a aperfeiçoar a peça. Então, entrou uma pessoa no espaço onde ele estava a trabalhar e, ao ver a figura que ele estava a esculpir, emocionou-se e benzeu-se, como se aquilo não fosse o bocado de pedra no qual ele estava a trabalhar mas um personagem religioso a quem já se devia respeito e devoção. Ele contava isso com alguma estranheza e, ao mesmo tempo, com indisfarçavel emoção, como se a peça naquele instante tivesse deixado de lhe pertencer, como se tivesse adquirido alma e voado. E eu, ao ouvi-lo, percebi como pode ser estranho tanta gente rezar e benzer-se e dirigir-se ao divino quando está em presença de peças esculpidas por uma pessoa. Acontece e alguma explicação há-de haver.

Nestas matérias em que a subjectividade impera, não há conclusões: há mistérios. E é na ignorância da sua explicação que poderemos maravilhar-nos, deixando-nos levar nas asas dos indecifráveis enigmas. Afinal a arte está em quem a sente -- talvez seja isso. Só isso.

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Não me canso de ver vídeos sobre Rothko mas aqui contenho-me e coloco um com apenas um minuto, um shot, coisa que se pode ver quase de penalti

Mark Rothko em 60 segundos


Desejo-vos uma boa terça-feira

sexta-feira, agosto 28, 2026

Netos devoradores de sushi, e outras breves à mistura

 

Hoje fomos almoçar com três dos rapazes. O outro rapaz e a mana estão num campo de férias. Com estes três resolvemos ir a um conhecido japonês, na modalidade all you can eat, que é a possível com aqueles três esfomeados, sempre com um apetite extraordinário tanto mais agora que já andam com ginásiios e treinos, o que só lhes potencia ainda mais o apetite devorador. Dois deles, aliás, confessaram que nem tinham tomado o pequeno almoço. Imagine-se, pois.

3 rapazes a devorarem sushi
num cenário que, humildemente, pretende homenagear a maravilhosa Yayoi Kusama,
recentemente falecida  
[by ChatGPT]

Confesso que perante a dinâmicia que ali se gerou, fiquei meia apardalada, sem saber o que já tinha pedido e o que era suposto comer. Dois tablets em cima da mesa, um em cada ponta, com o menu para se ir pedindo. Eles sempre a aviar, pumba, pumba, pumba. Vinham travessas e travessas, enormes, carregadas de sushi, sashimi, nigiri e tudo o que se possa imaginar e eu e o meu marido sem sabermos se aqulo seria alguma coisa do que nós tínhamos pedido. Os empregados riam-se e diziam que não, que era tudo do lado deles. Frequentemente, quando eu e o meu marido pedíamos as nossas coisinhas, tínhamos que esperar. A empregada ria e dizia que tinha que haver algum intervalo entre pedidos, que os meninos tinham pedido muitas coisas, várias vezes. O que eles comeram não tem explicação. Não sei se não levámos o restaurante à falência.

Por fim, eu e o meu marido já olhávamos um para o outro sem fazermos a mínima ideia de se o que tínhamos pedido para nós já tinha vindo ou não. Mas a verdade é que, sem ser capaz de dizer o que comi ou deixei de comer, vim de lá cheia. E ele também. 

Mas o engraçado não é só a quantidade de comida que comem, é que não param de conversar. Sobre tudo e mais alguma coisa. Acho que não houve um minuto de silêncio. Entre encomendarem mais peças, comerem-nas e conversarem acho que aquelas bocas não tiveram descanso. Meninos lindos. Sempre uma animação.

O mais crescido está a poucos dias de ter a sua primeira aula universitária, e vai começar também novo desporto. Está mais responsável e não se assusta com a perspectiva de ter aulas às oito da manhã e ter que se levantar às seis e meia. Gosto de senti-lo já com uma atitude de rapaz crescido, inclusivamente a pensar em quando começar a trabalhar, em ter casa, família, etc. Dos dois outros, futebolistas a sério, com os seus treinos intensíssimos, a ver se começam a levar as aulas um pouco mas a sério. Têm notas altas mas a verdade é que pouco estudam. Mas, em especial o que vai para o décimo funciona muito na base da insustentável leveza do ser, easy going. No futebol é focadíssimo e, quando está a conversar, sai-se frequentemente com argumentos fora da caixa, mas acho que se fia na virgem, acredita que não vale a pena esforçar-se muito nos estudos porque, mesmo nesse regime, a coisa se dá. Mas no décimo e com matemática e física e química, se deixa acumular matéria e não pratica bastante, em especial a matemática, a coisa pode complicar-se. Ainda por cima gostava de tirar um curso cuja média mais baixa de entrada é dezoito e tal. Vamos ver.

Depois de os termos distribuído, fomos eu e o meu marido ao Leroy. O meu marido meteu na cabeça tirar a banheira da nossa casa de banho. Diz que já não se usa, que não vamos para novos e que é melhor um daqueles duches que praticamente nem base têm. Eu acho que duche já temos na casa de banho do corredor, para quê outro? Mas se calhar ele tem razão, na casa de banho que está afecta ao nosso quarto se calhar faz sentido uma coisa assim. Por isso, fomos lá ver o que há, perceber quais as medidas, etc. Tirei algumas fotografias. 

Há pouco, estava a escolher uma fotografia que tinha feito durante a caminhada nocturna para partilhar no instagram e apareceu-me antes uma fotografia de um homem a olhar muito admirado na minha direcção. Fiquei desconfortável. De repente, parecia que aquela fotografia não era minha, que algum hacker tinha injectado uma foto alheia no meu telemóvel. Depois é que percebi que por trás aquilo estava uma cabine de duche e que, ao fotografá-la, nem reparei que estava lá um senhor, por sinal com ar de espantado por eu estar a fotografá-lo. Enfim. Nestas ocasiões é que percebo que sou mesmo despassarada. Como é que lá não vi o homem?

Aproveitámos e trouxémos outras coisas. Espanto-me sempre com isto: como conseguíamos encontrar aquilo de que necessitávamos quando não havia lojas como o Leroy?  Ainda me lembro de ir com a minha mãe a uma drogaria. Era uma loja que vendia produtos estranhos. E havia uma de ferragens, com muitas caixinhas. E havia, ao pé do mercado, uma que vendia sementes, plantinhas para plantar, vasos, coisas assim. Tudo em ponto pequeno. Mesmo já casada e com filhos era assim. E chegava. Agora há mega lojas como o Leroy, sempre cheias, com milhares de artigos, e parece que já nem passamos sem elas. 

Cá em casa, tirámos o funil ao cãoplicado. Atirou-se logo à cauda, a lamber, a lamber. Por mais que disséssemos que não o fizesse e nos zangássemos, não parava. O meu marido pôs-lhe outra vez aquela porcaria. Rosnou, protestou e o meu marido diz que até tentou virar-se. Mas lá lho pôs. Amanhã vamos à veterinária para percebermos o que fazer. Que chatice esta. 

Falei também com a minha menina que está no campo de férias. Animada, no meio de grande confusão, voz e pressa de quem está feliz e sem tempo a perder. Com o mais novo não falo pois ainda não tem telemóvel, apenas mando beijinhos através da mana. 

E é isto. Nem leituras, quase nada de televisão, e pouco mais a dizer.

Obrigada pelos vossos comentários. A ver se amanhã à noite estou mais fresca para me debruçar sobre temas mais interessantes.

E agora vou dormir porque amanhã entre caminhadas, ginásio, veterinária e outros compromissos não me vai sobrar muito tempo. Vida de dondoca é assim: parece que todos os afazeres transbordam da agenda.

quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

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Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

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Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, maio 15, 2026

Um pesadelo -- e, no fim, para rematar, dois mandamentos que encerram o conteúdo de 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança'

 

Hoje tive um dia mais ocupado e disperso do que é costume. Para além disso, um pesadelo acordou-me ainda muito cedo e era daqueles que, de tal forma se enrodilham em volta dos neurónios, já não me deixou voltar a adormecer. Por isso, durante o dia, nos momentos em que estive parada, estive a combater o sono. Mas não consegui: há bocado adormeci aqui no sofá, de forma pesada. A ver se não me vai causar insónia.

O pesadelo foi mais um daqueles que não tem por onde se pegue mas que teve uma ponta final que me deu conta do juízo. Conto. Tinha sido um daqueles dias na empresa que começavam da pior maneira: mal punha o pé dentro, logo alguém se acercava para me atazanar a cabeça com problemas, sem me dar tempo a pousar, a beber café, a ligar o computador. Portanto, tinha largado a carteira e o telemóvel e tinha sido puxada por esse colega para ir ver um assunto urgente. Mas o tema em causa não era no nosso piso: fomos pelo corredor, mas era um corredor comprido que parecia que circulava em torno de muitos gabinetes, até que chegámos a um elevador, no que devia ser a extremidade do edifício; e tínhamos ido para outro andar. A pessoa com quem ele queria que eu falasse estava ocupada e ele sentou-se à espera. E eu pensei que de líder ele não tinha nada pois a pessoa, que hierarquicamente dependia dele, tinha continuado, nas calmas, como se não visse que nós estávamos à espera e como se nem tivesse consciência que ambos éramos pessoas muito ocupadas, para estar ali especados, à espera. E eu com vontade de beber café e a pensar que devia ter trazido o telemóvel. O meu colega, entretanto, tinha começado a contar-me sobre os filhos, sobre o seu amor ao teatro, e falava, falava, falava. E eu a ver o tempo a passar. Às tantas, fartei-me daquele número e resolvi voltar para o meu gabinete. Mas apanhei um elevador que me levou para uma zona que eu não conhecia e que não tinha saída. E não vou estar a descrever o raio do labirinto em que me vi metida. Só que andava por lugares em que toda a gente com que me cruzava me era desconhecida. E eu pensava que àquela hora já o meu marido deveria estar lá em baixo à minha espera pois tínhamos combinado ir almoçar juntos. E eu, sem telemóvel, não tinha como avisá-lo. 

E o sonho basicamente foi isto. Mas eu não dar com a saída, andar acima e abaixo, às tantas já andava em monta-cargas, imagine-se, e não dar com o caminho para o meu gabinete, não poder comunicar com ninguém, fez com que acordasse completamente desatinada.

Provavelmente tem a ver com um colega me ter dito que a empresa agora já ocupa mais uma ala do edifício, aliás, se bem percebi, o edifício contíguo, que têm estado a admitir montes de gente, que, se eu lá fosse, se calhar, tirando uns três ou quatro, já não ia conhecer ninguém, que ele, que lá trabalha todos os dias, passa a vida a cruzar-se com gente que não sabe se é de lá ou se são consultores ou alguém de fora que veio para alguma reunião.

Ainda no outro dia, um outro que trabalhava directamente comigo, um dos resistentes, me contava que ia sair dentro de poucos meses, que já tinha tratado de tudo. Eu fiquei muito espantada pois ele está ainda bem longe da idade da reforma. Mas disse-me que começou a trabalhar cedo, tem muitos anos de descontos, e que, sobretudo, que as coisas tinham perdido a graça, que aquilo mais parecia o recreio da escola ou, por vezes, uma esplanada, que 'a malta gosta é de conviver, todos lá muito na curtição deles, ao fim do dia, e ainda o dia não terminou, é vê-los a juntarem-se para irem para o rooftop', que parece que a história e a tradição da empresa se estavam a esvair rapidamente. Quando pergunto por um ou outro, já tudo saiu. Não sei se é a empresa a querer rejuvenescer à força toda, se é a malta mais velha que se cansou. 

Mas deve ser por isto que depois, de noite, a minha cabeça se perde em meandros que já não conheço.

Tinha dito que ia tentar partilhar o resto do estudo de ontem sobre a Terceira Idade mas, muito francamente, pouco tempo e pouca disponibilidade mental tive para avançar nisso. E amanhã também não vai ser fácil, mas logo vejo.

Também estou a hesitar sobre se devo partilhar aqui alguma da 'descodificação' dos papéis velhos, velhíssimos, alguns com mais de um século, que trouxe de casa dos meus pais e que pertenceram a bisavós, um de cada lado e que o Claude -- apesar das manchas do papel ou da tinta esbatida ou da caligrafia muito diferente da actual -- descortinou com uma perna às costas. São documentos que têm muito a ver com a história da minha família.

Talvez partilhe amanhã, pela graça -- e porque nada têm de pessoal ou reservado --  o 'Padre Nosso d’um bêbado' e 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança' que um tio-avô ou a mãe dele, minha bisavó -- certamente algum dos dois -- , escreveram, com uma caligrafia espantosa, em 1911. Não sei se é coisa de lavra deles ou se reproduziram alguma coisa que ouviram algures. Por hoje, limito-me a transcrever o remate desses mandamentos:

"Estes 10 mandamentos se encerram em dois: - Comer até arrebentar, beber até cair."

Ora bem!

Pintura by ChatGPT
(pedida para ilustrar os ditos 10 mandamentos)

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Desejo-vos um dia feliz

domingo, março 22, 2026

A crise tramada em que ainda estamos só a entrar.
Os meus meninos e a política.
E, para desanuviar, pastéis de massa tenra e gelados.

 


Não é obsessão, é verdadeira preocupação. Não dá para assobiar para o lado. Pode ser-se muito optimista e pensar que é lá longe ou que um dia destes o maluco recua. Mas nada disto elimina os riscos graves que todos corremos.

Com um doido varrido, narcisista maligno e demente, ao comando na nação mais poderosa do mundo, rodeado de nacionalistas que aliam um belicismo exacerbado a um espírito doentia e deturpadamente religioso, de ignorantes, de gente que luta pela sobrevivência (pois sabem que, mal sejam apeados, serão presos), ninguém está seguro. Poderia pensar-se 'coitados dos americanos' ou 'votaram nele, agora amanhem-se'. Mas não é uma visão correcta pois, como se vê, o mal que ele faz é extensivo a todo o mundo.

Os combustíveis vão continuar a subir e poderão tornar-se proibitivos, especialmente para quem não usa viatura de empresa e tem que os pagar do seu bolso. Acredito que possam até vir a ser rateados. O impacto que isso vai ter nas nossas vidas vai ser enorme. Em Espanha, muito correctamente, já está a ser recomendado o regresso ao teletrabalho, o incremento do uso do transporte público, o conselho para evitar viagens desnecessárias.  E isto afecta a sociedade em cadeia de uma maneira de que não consigo perspectivar o limite inferior.

Ao mesmo tempo que Trump dá sinais de que quer retirar, aumenta o número de tropas a caminho (e o uso da base das Lages...), aumentam os bombardeamentos, destroem instalações críticas -- e as retaliações iranianas não se ficam atrás. Ou seja, é o caos. E se do caos tranquilo nasce frequentemente a beleza e a criatividade, quando é um caos destrutivo é difícil ver se pode sair algo de bom.

Aqueles países agora tocados por esta guerra absurda dependem, para sobreviverem, de muita coisa que lhes é externa mas também, como todos nós, de água. E grande parte da sua água resulta de dessalinização. Uma central já foi atacada. Um primeiro aviso. Se várias o forem, a crise escalará para outros patamares. E nem quero pensar com que consequências.

Especula-se (e, por enquanto, este é o verbo que quero usar) que, com toda a escassez de combustíveis e consequente aumento de preços,  os juros começarão a subir. Ao subirem, sobem as prestações ao banco de quem está a pagar casa. E isso apertará ainda mais o garrote a muito boa gente. Mas subirá para muito mais que essas pessoas pois todas as empresas e todos os países têm dívidas e, portanto, o impacto será generalizado.

Não sei se há uma saída possível para isto. Se Trump saísse de cena (mas não é provável que saia, pelo menos no curto prazo) e se, em vez dele, houvesse um tipo inteligente e decente, talvez pudesse reunir-se com a China, talvez conseguissem pôr o Putin a bordo (idealmente, alguém mais decente e menos criminoso que Putin), talvez fizessem a delicadeza de contar com o contributo da Europa -- e talvez conseguissem pôr-se de acordo em que já é tempo de pensar em destruição e morte e começar a pensar em paz, no futuro, nas crianças e no mundo que lhes queremos deixar. Mas isto sou eu a efabular, sou eu a querer ter pensamentos positivos

E, muito sinceramente, não estou a consegui-los ter. Parece que o mundo está a ser sugado pela vertiginosa demência e malvadez de uns quantos homens possuídos pelo diabo. Netanyahu é um criminoso insaciável. É como Putin. Não há compaixão, não há misericórdia nesses dois seres viciosos, sanguinários. Matam crianças, famílias inteiras, destroem-lhes as casas, aniquilam-lhes o futuro, fazem com que toda a gente viva apavorada, sem perspectivas, entre mortos e ruínas. E não se condoem.

Poderia acabar-se-lhes o dinheiro, não conseguirem suportar a pesadíssima factura da guera. Mas com esta crise, o Putin fica a rir-se e a facturar. E de onde vem o dinheiro de Israel? Há anos a bombardear tudo e mais alguma coisa... Sabendo-se que o armamento e munições são dispendiosíssimos, de onde lhes vem todo esse capital? São frentes de guerra em simultâneo e em força: Gaza, Líbano, Irão. Não percebo. Têm de tal maneira os Estados Unidos na mão que é de lá que o dinheiro vem? Dívida? Mas estão a financiar-se onde? (Se não fosse tão tarde, tentaria agora pesquisar. Follow the money. Mas daqui a nada são três da manhã, já tenho sono). O dinheiro em Israel parece vir de um poço sem fundo. E um poço sem fundo de dinheiro nas mãos de um regime facínora, com uma apetência insaciável pela destruição alheia e pela ambição desmedida, é um grande, grande e dramático, problema.

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Mas adiante. Não quero contagiar-vos com o que a mim me atormenta.

O meu dia foi muito bom. Tive cá a almoçar os meus rapazes crescidos, desportistas, cheios de apetite e boa disposição. Um deles contou que na preparação física lá no clube onde é guarda-redes levanta 90 kg. Usou uma palavra que não identifiquei. Traduziu: com agachamento. Nem consigo imaginar... 90 kg...? Vai fazer 15 anos. Desde pequeno que é todo dado ao desporto, ágil, habilidoso. O mano mais velho, também guarda-redes, está a pensar começar também a praticar box. Outro dos rapazes, igualmente guarda-redes, agora mudou-se para futsal. O mais novo também já lá andava. E a menina agora faz vólei. No outro dia vi imagens da equipa, um grupo de miúdas giras, divertidas. Tudo gente dada ao desporto. Fico contente.

E estivemos também a fazer o teste dos partidos. Já no outro dia, um dos meninos, um que percebe e gosta de política, o tinha feito. Não se pode dizer que tenhamos que atribuir um grande significado aos resultados pois, com a tenra idade dele, muitos conceitos não estão ainda bem compreendidos nem saberá avaliar correctamente as implicações das opções que se tomam. Mas tenho ideia que lhe deu AD, creio que logo seguida do PS. Fiquei surpreendida. Os dois que hoje o fizeram, sem surpresa a um deu-lhe a AD, logo seguida do Chega e da IL, e a outro o PS. Ao mais velho, o segundo lugar do Chega deve-se ao tema da imigração. Faz-lhe impressão a quantidade de imigrantes que, segundo ele, parecem ter tomado de assalto a Baixa, acha que isso é sinónimo de entrada desregulada de imigração. O irmão perguntou-lhe se lhe faria a mesma impressão se fossem ingleses ou alemães. Gostei da pergunta. Gosto muito de os ouvir discutir estes assuntos, gosto que se interessem por política. O mais velho, 17 anos, prestes a entrar na universidade, preocupa-se que não venha a ter um salário que lhe permita ter a sua casa, a sua família, os seus filhos. É a sua grande preocupação. E imagina que as políticas liberais serão a resposta a isso. E imagina isso porque diz que se as políticas que têm vigorado nas últimas décadas -- e que cola às políticas socialistas -- deram o resultado actual (salários baixos, dificuldade em ter casa, natalidade reduzida), então há que mudar. Compreendo o seu ponto de vista.

Há muita literacia política a levar a cabo junto da juventude. E há que perceber as preocupações e os ensejos dos jovens. Os partidos democráticos deveriam, de forma muito honesta e sensata, apresentar perspectivas e soluções que vão ao seu encontro.

Depois, já para o fim da tardinha, fui comer o meu belo geladinho de gianduja e cheesecake. Quando peco, peco a sério, duas bolas a preceito. Pelo-me pelos melhores gelados de Lisboa e arredores (já devo ter dito mil vezes mas não me canso de os louvar: Casa do Gelado, Avenida de Roma). E passeámos por lá, pela avenida e adjacências, e, antes,  pelo parque do Campo Grande e, apesar de serem lugares que conheço muito bem, que frequentámos assiduamente durante uma parte significativa da nossa vida, senti-me como me sinto sempre: uma turista à descoberta.

E, claro, não poderíamos regressar a casa sem uns pastéis de massa tenra do Frutalmeidas para o jantar (e, note-se: não sou parte interessada nos lucros nem daqui nem dos gelados, sou apenas cliente satisfeita). Claro que tudo isto tem um senão: o estacionamento. Cada vez mais difícil. Carros, carros, carros. Voltas e mais voltas para descobrir onde largar o carro.

Dependemos totalmente dos carros, eu e toda a gente. Até por esta dependência, a crise dos combustíveis em que estamos ainda só a entrar é um problema que deve ser levado muito a sério, que deveria estar já a merecer atenção e medidas como em Espanha. E é tão a sério que até volto a trazê-lo à conversa, aqui, na despedida, entre pastéis de massa tenra e gelados.

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Nas imagens, geradas através de Inteligência Artificial, procuro trazer sempre o motivo da paz [ao mesmo tempo que evoco alguns pintores (Geogia O'Keeffe, Paul Klee, Matisse, Mondrian, Kandinsky)].

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, março 18, 2026

Sobre bengalas, audioguias, clubes de leitura

 


No outro dia identifiquei-me completamente com o José Ricardo Costa do Ponteiros Parados. Não que isso não aconteça com uma certa frequência. Mas, naquele dia em particular, gostei mesmo do que li, senti-me acompanhada.

Não há muito, alguns amigos organizaram-se para uma visita guiada a um museu. Senti-me bem dividida pois, por um lado, gosto imenso de estar com eles, mas, por outro, não consigo ver um museu com guia. Andar ao ritmo dos outros, ouvir explicações, assistir à indecente dissecação de uma obra que se quer una, inexplicável, indescritível, parece-me a mais absoluta contradição dos termos. Nem sequer consigo visitar uma exposição com audiofones, pura e simplesmente não consigo, imagine-se, então, com um guia humano, integrada num grupo. Impensável.

Não fui. Com muita pena pois gostaria de ter estado com os meus amigos, mas foi mais forte que eu. Não conseguiria estar parada, no meio deles, a ouvir o que a guia estaria a dizer. 

Quando muito poderia ouvir os autores, os pintores. Por exemplo, gostava muito de ouvir a Paula Rego. 


A forma desprendida como dizia que já não se lembrava porque tinha pintado o quadro ou ao improvisar o que é que ali estavam a fazer aquelas figuras, ou, numa outra vez, quando lhe perguntaram porque é que estava um tomate ali e ela respondeu que, ao pintar, tinha achado que havia ali um vazio e, então, para encher, tinha pintado um tomate. Ouvir falar assim acho delicioso, fica presa. E gostava de ouvir as suas histórias, as suas recordações, a forma quase inocente como falava dos homens maus, ou o que a motivava ou como preparava o cenário para, depois, o pintar. Mas tudo contado naquela sua forma desconstruída, desligada das opiniões alheias. Disso eu gosto.

Agora um guia a interpretar, a dissertar sobre a gramática da pintura, isso para mim seria insuportável. Ou andar de sala em sala e, em vez de estar com a alma virgem, andar conduzido por um audioguia, a ver as coisas pelos olhos de outros ou a dividir o texto poético da pintura em orações e a encontrar-lhe o sujeito, predicado e complemento directo (que já nada deve chamar-se assim...), isso, para mim, seria uma tortura.

Para mim, ver pintura (ou escultura) é um acto íntimo, não quero gente ao meu lado, quero parar, deixar-me absorver, deixar que a pintura me envolva, deixar-me emocionar, sem palavras. Ou, então, seguir adiante, indiferente.


Nota: 'Gerei' as duas imagens acima com recurso a IA, descrevendo o que queria (o estilo, as cores, as texturas, etc) -- obviamente inspirando-me em Rothko, um dos meus musts, aquele género de coisa que não se explica.

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E, a propósito, vou falar de uma coisa que receio choque algumas pessoas: os clubes de leitura. 

Já faz cerca de um ano que frequento o Instagram e, volta e meia, aparecem-me referências a encontros de clubes de leitura. E lá vejo as fotografias e a alegria que têm em estar juntas. Falo no feminino porque só vejo mulheres. Uma irmandade, todas cheias de ideias, de opiniões, de entusiasmos.

IA também, mas desta vez pedi-lhe um clube de leitura actual só que à luz do Vermeer

Já quando trabalhava, uma colega com quem eu me dava muito bem, gostava muito de ler, era muito dada a actividades de voluntariado que envolviam livros e dinamizava um clube de leitura. Sabendo-me também leitora regular, de vez em quando desafiava-me. Mas nunca foi bem sucedida. Uma outra, com quem eu me dava também muito bem, uma com um certo pendor alternativo que eu muito apreciava, era também muito disso e frequentava muito os encontros, em livrarias também meio alternativas, em que falavam de livros. Dizia-me: 'Há de experimentar. Um dia venha comigo, vai ver que vai gostar.' Nunca fui. E, com esses convites, constatava que eu nunca me dava verdadeiramente a conhecer pois, se me conhecessem de verdade, saberiam que é o género de coisa a que sinto aversão, aversão incondicional. Tudo naquilo me causaria desconforto, desde o tema, à conversa, passando pelo facto de ser um clube do bolinha ao contrário.

É certamente um défice meu, pode até ser um défice cognitivo (ou psicológico, tanto se me dá): não consigo dissertar sobre um livro. Consigo resumir vagamente, consigo dizer também vagamente porque gosto ou não gosto. Não mais que isso. Não me interessa esvaziar a alma dos personagens, não quero saber das hipotéticas intenções do autor, muito menos tenho qualquer interesse em conhecer a opinião detalhada das outras pessoas sobre o livro. 

E depois, geralmente, os livros que escolhem como alvo de autópsia são geralmente livros sobre os quais eu não dou um chavo, são livros mais ou menos mainstream, não quero saber daquilo para nada, nem daqueles livros nem daquelas conversas. E, note-se, nunca fui a nenhum desses encontros. Digo isto só de imaginar. Se lá fosse, então, viria certamente a espumar, cansada da cabeça de tanto me esforçar para parecer educadamente interessada, desidratada e com a tensão arterial nos mínimos. Não sei porquê mas quando estou com pessoas que falam muito, em especial quando falam sobre coisas que não me interessa, fico assim, arrasada.

Um livro, tal como uma pintura, uma escultura, uma música, o que for, são para ser apreciados de forma individual, intransmissível, recatada. 

Neste caso, pedi à Inteligência Artificial que me gerasse uma imagem inspirada na arquitectura de Luis Barragán: um templo sóbrio, com aquelas cores típicas dele e com aquelas maravilhosas entradas de luz, e em que uma mulher estivesse, sozinha, a ler um livro

Não sou dada a rezas nem a nada disso mas, neste caso, acho que uma obra de arte deve ser venerada em silêncio, tomada para nós -- isto quando nos toca, evidentemente. Se não nos diz nada, bye bye, adeusinho,  por aqui me desbaldo. Não temos que dar justificações.

Mas, enfim, isto sou eu. Cada um é como é, já lá dizia o outro. 

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Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

sábado, janeiro 03, 2026

Imaginação

 

Como se costuma dizer, sou insuspeita. 

De Francisco Louçã creio que ninguém poderá dizer que sou suspeita de ser sua fã, sua adepta, sua seguidora, sua admiradora. Zero. Não quer dizer que nunca concorde com ele pois claro que, por vezes, concordo. Mas, em geral, não é a minha praia.

Portanto, um livro escrito por ele não me faz ir a correr para a livraria, física ou virtual. Zero. E, contudo, aqui o tenho. Surpreendeu-me o título, o subtítulo e a capa. Surpreendeu-me o texto da badana da contracapa, abaixo transcrito. Abri o livro e folheei. E não está a desiludir. Direi mesmo: a surpresa mantém-se. 

Einstein, no auge da sua fama, afirmou «sou suficientemente artista para me basear livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação cerca o mundo» – é dela que trata este volume. Ao percorrer a revolução cromática com os sóis sobre sóis de Van Gogh e o quilo de verde de Gauguin, o ensolarado sorriso azul de Proust e o verde-ouro de Frida Kahlo, encontram-se vislumbres de harmonia em mundos devastados pelas tragédias. É sempre a imaginação que anuncia a sua libertação, como através dos percursos pelo desconhecido, como as mentiras de Preste João, o deslumbramento de Marco Polo e Ibn Battuta, as poderosas ideias religiosas, as fantasias da Itália romântica e do Oriente sensual, ou ainda como as viagens mais fascinantes, o amor e a sexualidade, que concluem este livro. O que assim se estuda é como imaginamos.


Transcrevo a primeira página e parte da segunda. Poderão ajuizar. Como a mim é tema que me interessa, vou continuar a surpreender-me. E, se continuar como até aqui, continuarei agradada.
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INTRODUÇÃO

A invenção vem da imaginação e a imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada.

Rubem Fonseca

Com a sua peça Sonho de Uma Noite de Verão, William Shakespeare encenou uma comédia amorosa em que os seus personagens se desencontravam numa floresta encantada, onde elfos e fadas lhes confundiram a razão e uma poção mágica lhes trocou as paixões. Há ainda dentro daquele Sonho o ensaio de uma representação teatral para uma boda, e os diversos níveis da história vão-se entrelaçando em sucessivos equívocos. Teseu, duque de Atenas, cidade onde decorre a peça, queixou-se deste jorro de imaginação que permitia tudo o que perturbava a ordem: «Os amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes, e fantasias tão criativas, que captam mais do que à fria razão é dado apreender. O lunático, o amante e o poeta são compostos só de imaginação».¹ Este desdém era obviamente uma paródia sobre o choque entre a imaginação, designada como loucura, e o poder. No entanto, o próprio Teseu reconhecia que a imaginação chega mais longe do que a razão. Essa ideia é um dos pontos de partida deste livro, que retomará temas do mesmo Sonho, como o ímpeto carnavalesco, a afirmação do amor e, sobretudo, o imaginário como linguagem da esperança e da felicidade.

Enquanto aquela peça era apresentada, nos finais do século XVI, pensa-se que na festa de um casamento aristocrático, Miguel de Cervantes escrevia em Castela as suas novelas e algum teatro. Passada uma década sobre a estreia do Sonho, deu à estampa o Dom Quixote. Nesse mesmo virar do século, o frade dominicano Giordano Bruno, ensaísta, matemático e filósofo, foi condenado por heresia e morto na fogueira em Roma; o médico e cientista William Gilbert publicou o seu livro sobre o magnetismo da Terra e Galileu Galilei leu-o com entusiasmo, enquanto estava a observar o firmamento e a aperfeiçoar o telescópio; e Johannes Kepler completou os seus estudos sobre o heliocentrismo, ao mesmo tempo que escrevia em segredo sobre o sonho de uma viagem à Lua. A literatura moderna é contemporânea tanto da emergência da ciência quanto da invenção ou da difusão de novas tecnologias, que, com a bússola, a impressão com tipos móveis, a pólvora e o telescópio, mudaram os sistemas de autoridade. Foi igualmente o tempo do início da colonização do Novo Mundo, da Reforma protestante e de guerras no Centro da Europa e no Mediterrâneo (Cervantes combateu contra a marinha otomana em Lepanto, onde foi ferido e perdeu o uso de uma mão, e Kepler foi frequentemente forçado a fugir das refregas entre príncipes católicos e protestantes). Deveriam assim acrescentar-se à lista de Shakespeare e à de Cervantes novos personagens, pois, além das fantasias de poetas e amantes, ou do Cavaleiro da Triste Figura, seguir-se-iam outros portadores de imaginação fervilhante, que eram os cientistas, os dissidentes religiosos, os viajantes e os soldados dos impérios.

Poder-se-ia perguntar, como Shakespeare sugeriu pela voz do duque de Atenas, se a vida é uma tensão entre o que imaginamos, com a nossa cultura e paixões, e o entendimento.

[Excerto de "Imaginação - Cores, Deuses, Viagens e Amores" de Francisco Louça] 

segunda-feira, outubro 27, 2025

Pedro Paixão, o outro

 

Como vejo cada vez menos televisão deixei passar a entrevista a Pedro Paixão, feita, se bem percebi, a propósito do lançamento do seu último livro. Felizmente, o algoritmo do youtube, que, como se sabe, me topa à légua, agora serviu-ma de bandeja. 

Sempre gostei imenso de o ouvir. É daquelas pessoas que tem um grão daquela loucura que, quando vem com mansidão e com inteligência, se torna sedutora. 

Li vários dos seus livros, alguns com alguma perplexidade, outros com curiosidade, outros com admiração. Outros nem tanto -- mas isso não tem mal pois não é suposto que alguém agrade sempre a outra pessoa.

Pedro Paixão, pelos seus excessos e pela forma articulada e, ao mesmo tempo, despojada, é uma daquelas personagens contraditórias a que pessoas como eu acham piada. Pessoas mais recticulares, menos dadas a apreciar os desvios à norma, não acham graça nenhuma, dizem que 'o tipo é maluco' e viram-se para outro lado.

Desta vez, Pedro Paixão está diferente. Ele próprio o diz: mais sensato. De facto, achei-o outro. Mas, ainda, interessante. E ainda dado a excessos. 

Conta que, porque a mulher se ofereceu duas telas, uns pincéis e uns tubos de tinta, começou a pintar e já pintou para cima de 250 telas. Identifico-me muito com ele. Quando o meu filho me fez idêntica oferta aconteceu-me esse mesmo entusiasmo, uma loucura, ficava a pintar até às tantas da manhã, não conseguia parar de inventar formas, misturar cores, descobrir ousadias. Parei por já não ter onde guardar tantas, tantas, tantas telas. Tenho telas pintadas guardadas em todos os buracos que consegui descobrir. Tive que parar, claro. Mas só eu sei a vontade que volta e meia sinto, quase um formigueiro nas mãos.

Fiquei curiosa com o livro. Sendo o tema que é, um tema que nos rasga as entranhas, imagino que seja da pesada. Literalmente, até  -- tem mais de 800 páginas. Mas diz ele que são anotações que não precisam de ser lidas em sequência e, portanto, assim sendo, sinto-me desobrigada de ler como 'deve ser' podendo fazê-lo apenas salteadamente, e isso é bom pois cada vez mais sou praticante dessa forma de leitura. 

Nunca fui a Auschwitz nem nunca irei. E posso afirmá-lo com certeza absoluta. Não seria capaz. Nem nesta nem numa qualquer futura encarnação. Jamais. 

Houve uma altura em que lia muitos livros sobre o assunto e, de cada vez que os lia, ficava transtornadíssima. Depois deixei de conseguir ler. Há em mim uma parte que parece não ser capaz de assimilar a maldade extrema, a alienação doentia, a cegueira, a estupidez qualificada. O que se passou nesses anos é, para mim, algo que o meu entendimento não atinge. E essa falta de entendimento perturba-me. Como foi uma coisa assim possível? Como?! Como é possível haver pessoas tão doentiamente más que levaram a cabo tal desumanidade? Como é possível que tanta gente tenha pactuado? Como foi possível a tanta gente ignorar? Como foi possível a tanta gente viver depois do que aconteceu? Como não ficaram esmagadas pelo peso da consciência? Não encontro resposta para nenhuma destas perguntas. 

É quase a mesma perplexidade que sinto quando vejo que há tanta gente que não se indigna -- mas com uma indignação profunda, inequívoca, aquela indignação que vem das entranhas -- com o que se passa nos países em que há guerra e em que alguém decide invadir um país ou matar a sua população, destruir as suas casas, as suas vidas, os seus sonhos, o seu futuro. Ou quando vejo que há quem encare o que se passa nos Estados Unidos com bonomia, como se fosse apenas uma palhaçada, parecendo ignorar os perigos.

Diz o Pedro Paixão que depois de ter visitado Auschwitz deixou de conseguir ler ficção. Compreendo-o muito bem. Perante situações extremas, a cabeça reformata-se.

Ele foi corajoso: visitou o lugar e durante anos investigou o assunto, nomeadamente o papel da Igreja Católica em todo o processo. Deve ter-se sentido arrepiado muitas vezes. Diz que deu o livro por encerrado quando se encontrou sem forças para mais. Imagino. Anos mergulhado no horror devem deixar qualquer um esgotado.

Correndo o risco de estar a partilhar imagens que V. já conhecem, pois poderão ter visto a entrevista no dia em que foi emitida no Now, coloco o vídeo na mesma, nem que seja para aqui ficar como um pro memoria pessoal.

Da minha pequena janela vejo o mundo -  Pedro Paixão no Guerra e Paz, no NOW

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Dias felizes. Saúde, alegria, ânimo.
Paz.

terça-feira, setembro 09, 2025

Quem é Armando Martins?
Quem é o homem que aprecia o desvio à perfeição?

 




Eu não sabia quem era Armando Martins. 

Fiquei curiosa. E, depois de ler a sua breve biografia e depois de ter visto o vídeo, fiquei surpreendida. Muito interessante. Há pessoas com percursos ímpares. Afinal, Armando Martins é um português excelentíssimo: é o Senhor MACAM.

MACAM = Museu de Arte Contemporânea Armando Martins

Transcrevo:

Armando Martins nasce em 1949, no concelho de Penamacor, e passa a sua infância longe dos circuitos das artes.

Aos 14 anos vem estudar para Lisboa. Na adolescência realiza a sua primeira visita a um museu de arte, o Museu de Arte Antiga, experiência que não o seduz, pois seria a arte contemporânea o seu caminho e paixão.

A sensibilidade e o interesse pelo mundo da arte só começam a anunciar-se mais tarde, de forma crescente e em paralelo com o caminho que vem a traçar a nível profissional.

O colecionador que sonhou um museu

Licencia-se em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, em 1973, ano em que inicia a sua atividade profissional.

No final da década de 70 parte para o Brasil, regressando a Lisboa em meados dos anos 80. Enceta desde então um percurso de sucesso no sector da promoção imobiliária, com a criação de várias empresas.

Nos anos 90, constitui o Grupo Fibeira SGPS,S.A., com atividades na promoção imobiliária, hotelaria e serviços, do qual é hoje o Presidente honorário. 

Foi o promotor do edifício Atrium Saldanha, em Lisboa, projeto com a assinatura do arquiteto catalão Ricardo Bofill, galardoado, entre outras distinções, com o Prémio Valmor de Arquitetura em 2001.

É também proprietário do Palácio do Correio-Mor, em Loures, e do Palácio Condes da Ribeira Grande, na Junqueira, Lisboa, onde instala o projecto MACAM.

O interesse pela Arte

O interesse pelo colecionismo e pelas artes visuais começa aos 18 anos, com a aquisição de serigrafias em parceria com um amigo. 

Por ocasião do seu 25º aniversário, decide oferecer a si próprio a primeira obra de arte original.

Essa experiência é o primeiro momento de um percurso sem retorno, dando início ao que viria a ser a Coleção Armando Martins. A partir de então, a sua actividade como colecionador vai-se intensificando.

Dotado de um espírito inquieto e empreendedor, Armando Martins continua a alimentar a sua capacidade de sonhar e de desenvolver projetos que, por vezes, o conduzem para fora da sua zona de conforto. O gosto pela arte é disso exemplo.

A Coleção e o Museu

Armando Martins não só se decide a criar uma das melhores coleções de arte a nível nacional como, paralelamente, vai alimentando o desejo de fundar um museu para partilhar a sua coleção.

Em 2007, concretiza a aquisição a título privado do Palácio dos Condes da Ribeira Grande, um edifício histórico do século XVIII. Avança com o projeto de reabilitação para criação do Museu, decidindo incluir um Hotel de 5* como motor de financiamento e de sustentação da autonomia do projecto.

Em 2018, é distinguido com o Prémio "A" para o colecionismo pela Fundación Arco, instituição dedicada à promoção, investigação e divulgação da arte contemporânea.

Três anos depois, é-lhe atribuído o Prémio de Colecionador da Associação Portuguesa de Museologia, pelo seu projeto de criação de um museu privado para tornar pública a sua coleção.

O que outrora era apenas sonho, hoje torna-se realidade. O empreendimento está concretizado, a coleção Armando Martins perfez 50 anos de história e o Museu MACAM abriu portas ao público em 22 de Março de 2025.

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 Armando Martins: O Penamacorense que deu um museu a Lisboa


Salve Armando Martins.

Obrigada.

domingo, julho 27, 2025

O micro pénis


Peço desculpa se choco alguém. Acredito que as almas mais sensíveis, que nunca viram uma coisa desta triste dimensão, fiquem perturbadas. Mas não tenho culpa se a pintora o retratou fielmente.
Make American Great Again’: Illma Gore’s rendition of Donald Trump. Photograph: Courtesy of Illma Gore para o The Guardian

As revelações sucedem-se, as suposições são lançadas na praça pública em catadupa. O passado persegue-o e, quanto mais ele tenta fugir dele, mais ele vem atrás, assanhado, para lhe morder as canelas. Hoje, no Instagram apareceu-me um vídeo em que Katie Johnson que, na altura, 'trabalhava' para Epstein, descreve como foi desvirginada, à bruta, por Trump, tinha ela apenas 13 anos, a idade que a filha dele tinha nessa altura.

No meio deste vendaval, Melania está, como sempre, desaparecida. Deve estar também cheia de medo. Tomara, também sabe demais. Viver com um animal já de si deve ser mau para além da conta. Imagine-se o que será atravessar uma crise destas que remexe num passado que ela também deve querer esquecer.

Trump é um troglodita, um corrupto, um egoísta, um ignorante, um psicopata destituído de empatia, um joguete nas mãos de Putin e de Netanyahu. Trump está a destruir a credibilidade americana, está a minar, pela base, os já de si instáveis equilíbrios geopolíticos, está a fazer mal a milhões de pessoas, está a desrespeitar a dignidade de muita e muita gente, está a agir prepotentemente junto de outros países, está a revelar-se rude e mal educado, está a revelar-se cada vez mais autoritário, vingativo, déspota, está a alimentar o sonho de muitos mini-trumps espalhados por todo o mundo. Parece que talvez por se sentir acossado ou por a idade estar a retirar-lhe alguns filtros, se importa cada vez menos de parecer um fascista, um nazi. E um vendido.

Mas se agora começa a dar mostras de começar a sentir-se encurralado, com o escândalo Epstein a cercá-lo por todos os lados e a toda a hora, a verdade é que, narcisista como é, o ser gozado parece deixá-lo ainda mais fora de si. O episódio em que se goza com o seu micro pénis deixou-o ao rubro. O big guy que se acha o máximo, ver-se assim ridicularizado é, para ele, um vexame que o deixa ainda mais desnorteado. E talvez seja mesmo este o caminho: tirá-lo do sério, pagar-lhe da mesma moeda, ridicularizá-lo a torto e a direito.

Com a malta do MAGA a ficar indisposta e com a trajectória que isto está a seguir, quero crer que o filho da mãe (que agora já quer impor políticas anti-imigração aos países da União Europeia sob pena de nos fustigar com a porcaria das tarifas) não se aguente por muito mais tempo. 

Tentei ter aqui um vídeo que tem dado que falar e que, dizem, anda a deixá-lo de cabeça perdida. Mas não é possível, aparece-me a mensagem que, por ter conteúdo sexual explícito, só se consegue ver no youtube. 

Por isso, se quiserem ver, carreguem AQUI

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Desejo-vos um bom dia de domingo

domingo, setembro 29, 2024

Ele aí anda...


Marcelo, esquecendo que é mestre em dissolver a Assembleia sem nenhuma necessidade disso -- apenas porque tinha essa 'fisgada' já que andava mortinho por tirar o PS do Governo --, agora anda por aí 'ó tio, ó tio' com medo de acabar o mandato a dissolvê-la outra vez, desta vez sem querer.

Então, andando, como sempre, pela rua a distribuir beijinhos e a fazer selfies e, pelo meio, apanhando-se com microfone à frente da boca, manda bocas: diz ao Governo que tem que perceber que o interesse do País está acima do programa do Governo e diz ao PS que tem que compreender que não é Governo e que, se o 1º e o 2º partido não se entendem, vai ficar o poder de decisão para o 3º partido. E se o 3º partido quiser não decidir, sobra para ele. Dá vontade de lhe perguntar: 'Ah é... e só agora contaram pr'a você, foi...?'. Não pensou nisso quando criou este caldinho? Agora que esta gentinha desqualificada da AD por aí anda aos papéis e agora que o Chega chegou aos 50 deputados é que anda aflito...? Não pensou antes nas previsíveis consequências dos seus actos?

Não tenho pachorra. 

Corro o risco de me repetir e de repescar o que o meu marido aqui disse mas acho que é bom que se tenha presente o que a comunicação social parece quase branquear.

Entretanto, as televisões continuam a mostrar uma porção de Urgências fechadas. Passam os meses e nem Montenegro nem a sua Madame Arruaceira da Saúde conseguem resolver o que, na campanha eleitoral, garantiam que eram favas contadas, em 60 dias resolviam tudo. Já decorreu meio ano, já correram com meio mundo... e o que se vê é que não resolvem coisa alguma. Nada. Uma zaragata pegada com a ministra a arranjar confusão com todos e as mulheres a parirem nas ambulâncias que é uma vergonha.

Quanto à Habitação, com a medida estúpida de isentar de IMT as casas para os jovens (jovens até aos 35 anos, leia-se, sejam eles podres de ricos e sejam as casas do melhor que há) o que aconteceu é que o preço das casas disparou. Ah pois é, bebé, aumento de cerca de 8%. Ter gente sem cabeça a governar só dá nisto, tiros nos pés atrás de tiros nos pés.

Da Educação, o fofo do Ministro, com aquele seu sorriso fofinho e gosto por falar para o público, por aí anda em digressão. Milhares e milhares de alunos sem professores, cerca de 150.000 alunos neste momento, e ele por aí anda, na boa, todo stand up,  todo contente.

E da Administração Pública e da Justiça nem se fala, uma desgraça sem tamanho. Da primeira, então, até dá vergonha (vergonha alheia) a gente falar. Uma pouca sorte.

Aquela do Trabalho e da Segurança Social, a mana da Margarida Rebelo Pinto, depois de destratar a Ana Jorge e despedi-la por não ter entregue um plano de reestruturação para a Santa Casa, escolheu um que diz que quando resolver as coisas logo diz qual é o plano. Gozão. E, com este, a ministreca engole e cala. Surreal.

Quanto aos outros nem se sabe o que andam a fazer. Excepção para o Nunelo de Olivença que dá ideia que não tem os alqueires bem medidos e que mais valia que não abrisse a boca.

É uma parvoíce andar sempre a votar...? Pois, se calhar é. Mas enquanto não houver uma solução estável e capaz e enquanto tivermos um PR que é um brincalhão, qual a alternativa?

Face a este lindo panorama, quem é que tem medo de ir a eleições? 

Eu, se fosse ao PS, não tinha. Para a frente é que é caminho.

Seja como for, não me apetece falar mais nisto. Já falei hoje até dizer chega (é só passar ao post a seguir a este). 

Vou antes ver pintura. Gosto desta pintora. São delas as pinturas que escolhi para atenuar a secura do texto.


Step into Flora Yukhnovich's studio


 Flora Yukhnovich and François Boucher: The Language of the Rococo

The Wallace Collection, 5 June–3 November 2024

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Desejo-vos um bom dia de domingo