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sábado, janeiro 03, 2026

Imaginação

 

Como se costuma dizer, sou insuspeita. 

De Francisco Louçã creio que ninguém poderá dizer que sou suspeita de ser sua fã, sua adepta, sua seguidora, sua admiradora. Zero. Não quer dizer que nunca concorde com ele pois claro que, por vezes, concordo. Mas, em geral, não é a minha praia.

Portanto, um livro escrito por ele não me faz ir a correr para a livraria, física ou virtual. Zero. E, contudo, aqui o tenho. Surpreendeu-me o título, o subtítulo e a capa. Surpreendeu-me o texto da badana da contracapa, abaixo transcrito. Abri o livro e folheei. E não está a desiludir. Direi mesmo: a surpresa mantém-se. 

Einstein, no auge da sua fama, afirmou «sou suficientemente artista para me basear livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação cerca o mundo» – é dela que trata este volume. Ao percorrer a revolução cromática com os sóis sobre sóis de Van Gogh e o quilo de verde de Gauguin, o ensolarado sorriso azul de Proust e o verde-ouro de Frida Kahlo, encontram-se vislumbres de harmonia em mundos devastados pelas tragédias. É sempre a imaginação que anuncia a sua libertação, como através dos percursos pelo desconhecido, como as mentiras de Preste João, o deslumbramento de Marco Polo e Ibn Battuta, as poderosas ideias religiosas, as fantasias da Itália romântica e do Oriente sensual, ou ainda como as viagens mais fascinantes, o amor e a sexualidade, que concluem este livro. O que assim se estuda é como imaginamos.


Transcrevo a primeira página e parte da segunda. Poderão ajuizar. Como a mim é tema que me interessa, vou continuar a surpreender-me. E, se continuar como até aqui, continuarei agradada.
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INTRODUÇÃO

A invenção vem da imaginação e a imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada.

Rubem Fonseca

Com a sua peça Sonho de Uma Noite de Verão, William Shakespeare encenou uma comédia amorosa em que os seus personagens se desencontravam numa floresta encantada, onde elfos e fadas lhes confundiram a razão e uma poção mágica lhes trocou as paixões. Há ainda dentro daquele Sonho o ensaio de uma representação teatral para uma boda, e os diversos níveis da história vão-se entrelaçando em sucessivos equívocos. Teseu, duque de Atenas, cidade onde decorre a peça, queixou-se deste jorro de imaginação que permitia tudo o que perturbava a ordem: «Os amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes, e fantasias tão criativas, que captam mais do que à fria razão é dado apreender. O lunático, o amante e o poeta são compostos só de imaginação».¹ Este desdém era obviamente uma paródia sobre o choque entre a imaginação, designada como loucura, e o poder. No entanto, o próprio Teseu reconhecia que a imaginação chega mais longe do que a razão. Essa ideia é um dos pontos de partida deste livro, que retomará temas do mesmo Sonho, como o ímpeto carnavalesco, a afirmação do amor e, sobretudo, o imaginário como linguagem da esperança e da felicidade.

Enquanto aquela peça era apresentada, nos finais do século XVI, pensa-se que na festa de um casamento aristocrático, Miguel de Cervantes escrevia em Castela as suas novelas e algum teatro. Passada uma década sobre a estreia do Sonho, deu à estampa o Dom Quixote. Nesse mesmo virar do século, o frade dominicano Giordano Bruno, ensaísta, matemático e filósofo, foi condenado por heresia e morto na fogueira em Roma; o médico e cientista William Gilbert publicou o seu livro sobre o magnetismo da Terra e Galileu Galilei leu-o com entusiasmo, enquanto estava a observar o firmamento e a aperfeiçoar o telescópio; e Johannes Kepler completou os seus estudos sobre o heliocentrismo, ao mesmo tempo que escrevia em segredo sobre o sonho de uma viagem à Lua. A literatura moderna é contemporânea tanto da emergência da ciência quanto da invenção ou da difusão de novas tecnologias, que, com a bússola, a impressão com tipos móveis, a pólvora e o telescópio, mudaram os sistemas de autoridade. Foi igualmente o tempo do início da colonização do Novo Mundo, da Reforma protestante e de guerras no Centro da Europa e no Mediterrâneo (Cervantes combateu contra a marinha otomana em Lepanto, onde foi ferido e perdeu o uso de uma mão, e Kepler foi frequentemente forçado a fugir das refregas entre príncipes católicos e protestantes). Deveriam assim acrescentar-se à lista de Shakespeare e à de Cervantes novos personagens, pois, além das fantasias de poetas e amantes, ou do Cavaleiro da Triste Figura, seguir-se-iam outros portadores de imaginação fervilhante, que eram os cientistas, os dissidentes religiosos, os viajantes e os soldados dos impérios.

Poder-se-ia perguntar, como Shakespeare sugeriu pela voz do duque de Atenas, se a vida é uma tensão entre o que imaginamos, com a nossa cultura e paixões, e o entendimento.

[Excerto de "Imaginação - Cores, Deuses, Viagens e Amores" de Francisco Louça] 

sexta-feira, maio 08, 2015

Aquele que chamam Amor que dizem que é um rapaz ceguinho



Sem chão


- Maravilhado estou, senhor, da desenvoltura de Altisidora, a donzela, a donzela da duquesa: bravamente a deve ter ferida e trespassada aquele que chamam Amor que dizem que é um rapaz ceguinho que, com estar rameloso ou, por melhor dizer, sem vista, toma por alvo um coração, por pequeno que seja, nele acerta e trespassa-o de parte a parte com suas flechas. Ouvi dizer também que na vergonha e recato das donzelas perdem a ponta e se embotam as amorosas setas, mas nesta Altisidora mais parece que se aguçam que embotam.

- Adverte, Sancho - disse Dom Quixote -, que o amor nem olha a respeitos nem guarda termos de razão em seus discursos, e tem a mesma condição que a morte, que tanto acomete os altos alcáceres dos reis como as humildes choças dos pastores, e quando toma inteira possessão de uma alma, o primeiro que faz é tirar-lhe o temor e a vergonha; e, assim, sem ela declarou Altisidora seus desejos, que engendraram em meu peito antes confusão que mágoa.



Haut vol


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Pela segunda vez aqui, dois bailarinos da Paris Opera Ballet, Léonore Baulac e Allister Madin, dançam no telhado do Palais Garnier. Uma coreagrafia de Benjamin Millepied e uma realização de Louis de Caunes.

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Permitam que vos convide a descer para verem os três posts que se seguem. Para todos os gostos (digo eu)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela, bela sexta-feira. 

Be happy.

Fazei de conta que eu sou o ar. E as duas maneiras de formosura.


- Que ofício tens?

- Tecelão.

- E que teceis?

- Ferros de lanças, com boa licença de vossa mercê.

- Graciosinho me sois? De chocarreiro vos picais? Está bem! E aonde íeis agora?

- Senhor, a tomar ar.

- E onde se toma ar nesta ínsula?

- Onde sopra.

- Bom, respondeis mui a propósito! Discreto sois, mancebo, mas fazei de conta que sou o ar (...)





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Adverte, Sancho - respondeu Dom Quixote -, que há duas maneiras de formosura: uma da alma e outra do corpo; a da alma campeia e mostra-se no entendimento, na honestidade, no bom proceder, na liberalidade e na boa criação, e todas estas partes cabem e podem estar num homem feio; e quando se põe a mira nesta formosura, e não na do corpo, sói nascer o amor com ímpeto e com vantagens.



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Excertos ao acaso de Dom Quixote de la la Mancha, ed. D. Quixote, tradução de Miguel Serras Pereira


O primeiro vídeo - que já aqui apareceu antes -, mostra as extraordinárias esculturas em movimento de Theo Jansen (que se trate de um anúncio à capacidade de inovação da BMW é pormenor)


O último mostra os membros do elenco e da equipa criativa da produção de Carlos Acosta no Don Quixote.



quarta-feira, maio 06, 2015

Dom Quixote de la Mancha - ouvir os conselhos de quem sabe


Uma vez, teria eu uns 16 anos, fui a Madrid sem os meus pais. Ao regressar, quis trazer-lhes uns recuerdos. Acho que para a minha mãe trouxe um leque de renda e umas castanholas pretas que tinham umas bailarinas pintadas, para o meu pai, trouxe uma garrafa já não me lembro exactamente de quê, apenas me lembro de a ter achado invulgar (estou a pensar que seria de cortiça mas não estou certa). E, para a casa - mas a pensar em mim -  trouxe o Dom Quixote. Ainda lá está em casa dos meus pais, na língua original, capa de pele castanha, folhas de um papel fino, quase transparente, e com umas ilustrações muito bonitas.

Na altura, tentei lê-lo mas, do que me lembro, não avancei muito, não era bem a minha onda da altura.

E, para dizer a verdade, esqueci-me, nunca pensei em ter um Dom Quixote cá em casa.

Mas, no outro dia, ao ouvir o Patrão da Barca chamada Tempo Contado, J. Rentes de Carvalho, dizer que, depois de, em tempos, ter deixado este livro pelo caminho, se está a redimir - e transcrevo:


(...) Felizmente ainda conheço ocasiões de redenção e continuo a procurar o que ignoro ou desleixei, de modos que me deitei às quase mil páginas da edição comemorativa da D. Quixote. E em boa hora o fiz, logo cativado pelo texto de Cervantes, pela excelente tradução de Miguel Serras Pereira, e a abundância e riqueza das notas. 
Com um entusiasmo que devia ter tido na adolescência vou já no capítulo X, onde se conta Do que mais sucedeu a Dom Quixote com o biscainho e do perigo em que se viu com uma caterva de iangueses. 
Por feliz acaso, e porque sempre leio mais do que um livro, tinha também começado a leitura do fenomenal The Narrow Road To The Deep North, (*) de Richard Flanagan (1961) vencedor do Man Booker Prize 2014, quando dei com a frase seguinte, a qual, numa ocasião assim, e pela coincidência, quase me fez pensar que, lá do Além, Cervantes mandou que eu a encontrasse, dando-me motivo para "reler" a minha alma: 
"A good book leaves you wanting to reread the book. A great book compels you to reread your own soul".

lembrei-me que deveria suprir esta minha falha. E hoje, ao passar pela livraria, lá vi o livro que ilustrava o post do Tempo Contado. Trouxe-o. Estava a um preço imbatível, 10 euros e, como tenho cartão, menos 1 euro. 

Apenas me poderei atirar a ele daqui a um bom par de anos mas, até lá, irei espreitando, lendo aos poucos (e escusam os brincalhões de me enviar comentários jocosos por causa disto: vejam, se fazem favor, o post já aqui abaixo para verem a forma como Borges diz que lia).

O arranque do Capítulo 1 é conhecido:

Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um fidalgo desses de lança no cabide, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor.

Para quem goste de ouvir ler, sugiro o vídeo Don Quijote de la Mancha. Capítulo 1




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Já agora:


Don Quixote trailer (The Royal Ballet)



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Ou seja, para quem possa, é de aproveitar esta edição da editora D. Quixote.

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