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segunda-feira, agosto 31, 2020

Deixar-vos-ei palavras




Regressei à casa nova. Embora estivesse feliz e descansada in heaven, sentia vontade de voltar.

Trouxe de lá umas cobertas branquinhas que estavam guardadas e as duas carpetes maiores de Arraiolos, umas em tons claros. Troquei-as por duas, feitas por mim, modelos originais do Sec XVII, nos tons fortes originais que estavam no apartamento. Mas trouxe tudo lavadinho, tudo seco ao vento e ao sol.

Mal cheguei, vim logo colocar nos devidos lugares. Nesta sala em que agora estou, os dois sofás, um de três lugares e um de dois lugares, estão cobertos por cobertas brancas. Há ainda um cadeirão pequenino em tecido aos quadradinhos cor-de-rosa esbatido e branco. E uma banqueta clarinha, com um galão florido em tons claros. As almofadas são também brancas ou em veludo em cor-de-rosa velho muito claro. E, imagine-se, a coincidência de tudo isto (porque tudo isto já existia e parece que estava tudo à espera de ser conjugado) é que a carpete de arraiolos que aqui coloquei é justamente em tons rosados, um rosa pastel claro, com barra beige, floral, tudo muito claro, a barra muito nos tons do galão do banquinho. Fica tudo de uma harmonia que me parece perfeita, tudo muito tranquilo e feliz.

Desde o início, a minha filha dizia-me que esta casa poderia ser assim, clara, luminosa. Eu dizia-lhe que não ia deitar fora as coisas que tinha em casa e comprar tudo de novo e ela ia enviando fotografias que obtinha nos instagrams e quejandos desta vida para me mostrar como poderia ser. E a verdade é que, revirando tudo do avesso, trazendo coisas daqui e dali, redescobrindo o enxoval, desencantando cobertas e colchas, a casa está, em tudo, o oposto do que era a minha outra casa. 

E depois dá-se esta coisa de eu estar a colocar cobertas e colchas e carpetes tudo acabadinho de lavar pois, obviamente, não ia colocar coisas guardadas há muito tempo nem ia trazer carpetes de uma casa para a outra sem aproveitar a ocasião para fazer coincidir a lavagem anual que lhes faço com a mudança de casa. E, então, cheira tudo muito bem, a lavadinho. Um ambiente verdadeiramente bom, clean. E até tinha duas bonecas curiosas, igualmente em tons rosados, que agora aqui estão sobre os móveis. A ver se um dia destes perco a preguiça e volto a usar a máquina fotográfica para vos mostrar. E os quadros também são em tons neutros, claros, pastel. Tudo parece ter nascido para aqui se reunir.

E, na salinha dos lusófonos, a tal em que as estantes novas saíram em tom a modos que pardo -- mas de que agora até já gosto --, penso que está também tudo em total harmonia. A carpete também veio da casa in heaven e é identicamente um arraiolos em tons pastel mas, neste caso, em tons verde seco claro, beige, amarelo quase dourado claro. A chaise longue que está junto à janela é em cetim às risquinhas douradas e pérola com franja dourada. Mas cobri-a com uma coberta branca e, por cima, na zona do assento, por uma colcha de renda simples, branca. Por cima tem um rolo e duas pequenas almofadas em tecido igual à chaise-longue. Os quadros são em tons predominantemente amarelos, ensolarados. Gosto mesmo. Quando vou ao quarto ou à casa de banho, vou lá espreitar. E sinto-me feliz.

Antes de aqui chegarmos passei pela minha mãe para a ver e lhe deixar figos. Tinha, para me dar, uma tarte que fez, daquelas boas que toda a gente come e chora por mais, o vestido da minha filha arranjado nas mangas, uma pulseira para a minha nora, uma pêra abacate grande que uma vizinha lhe tinha dado e um vaso com umas hastes de feto. Sabe que sempre adorei fetos grandes.  A ver se consigo ter um, a ver se o mudo para um vaso maior e arranjo um lugar à sombra. Também gostava de ter uma avenca. Um dia ainda hei-de tentar. E também gostava de ter uma orquídea. Mas receio não ser capaz e ter um desgosto grande se a perdesse. Deve ser uma flor de alma demasiado sensível. As rosas são mais carnais. Estas rosas que agora aqui tenho estão bonitas, parece que estão mais vivas. Pelo menos, gosto de pensar nisso, que as flores gostam de mim. Mas de uma orquídea não sei se saberia tratar. Parece-me flor esquiva, cheia de subtilezas, uma flor com alma de gato. 

Antes disso, como disse (e deu para perceber através dos posts anteriores), tínhamos estado no campo, eu a varrer, fazer máquinas de roupa, a lavar a casa, a lavar mais três tapetes -- gosto cada vez mais de fazer limpezas, lavagens -- e a ler. Estive a ler parte de «O Rei Faz Vénia e Mata» de Herta Müller que a querida JV um dia me recomendou. Depois passei para outro de que já antes tinha lido uma parte. Pensei ler a partir do ponto em que tinha ficado mas, depois, voltando a sentir o prazer da bela escrita, regressei ao início. Há na inteligente escolha das palavras qualquer coisa de ancestral. Vitorino Nemésio escreve sobre Raul Brandão, «Íntimo».
Como ele saberia aproveitar a medula trágica deste brado do serrano empolgado pela solidão e a penedia -- «braveza, solidão e negrume», como escreve --, ele que chegou a este apuro: «olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado do mundo. Que vim eu aqui fazer?»!
O que gostei de ali estar, deitada, sentindo o calorzinho bom do fim de Agosto, lendo um escritor a falar sobre um outro escritor, lendo palavras sobre a casa, os hábitos e algumas peripécias de Raul Brandão. Agradável. Nestes últimos dias voltei finalmente aos livros, e com que prazer voltei.

À vinda, ainda não eram nove da noite e já anoitecia. Os dias parece que se fartaram do verão, fogem para a noite, parece que procuram o outono. E eu pensei nas minhas roupas mais quentinhas, pensei nas minhas écharpes. Tive saudades de me perfumar. Tive vontade de fazer um chá quente e cheiroso.

Tive vontade de me sentar a uma das mesas desta minha casa onde as janelas dão para um jardim -- e começar a escrever.

Penso por vezes que, da minha passagem pela terra, vão sobrar os tapetes que fiz e, talvez, as palavras que tenho escrito e que, se ninguém as tirar do ar, para sempre poderão ficar por aí, pelo espaço, voando ao sabor de quem as procurar.

Je te laisserai des mots
En dessous de ta porte
En dessous de la lune qui chante
Et quand tu es seule pendant un instant
Embrasse moi
Quand tu voudras

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Ilustrações do Cântico dos Cânticos, das quais as três últimas da autoria de Marc Chagall. Ao som de Je te laisserai des mots de Patrick Watson

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E uma boa semana. Saúde e amor.

sexta-feira, junho 19, 2020

Sem fantasia




Conhecer-te-ia? Saberia reconhecer-te quando és uma pessoa normal, feita de carne e osso e não apenas de palavras? Se o acaso da vida nos pusesse frente a frente -- e será que nunca nos pôs? -- saberia eu quem tu és? O teu olhar será igual aos teus silêncios? As pausas ao falares serão idênticas às palavras que não dizes quando escreves?

Sabes? Quando me imagino, não estou. Quando me imagino, estou a chegar. Eu a chegar e tu a apareceres ou eu a chegar e tu à minha espera, alguém sentado à minha espera, sorrindo à minha chegada, sorrindo, de surpresa, ao me veres. Quando me imagino, sou o vulto que chega sabendo que vai partir mas fazendo de conta que não. Não, fazendo de conta não. Não me lembrando de que terei que partir. Não imagino, pois, o momento da partida. Quando me imagino ainda estou. E tu estás a olhar e a sorrir para mim. A atravessar uma rua, sentados à volta de uma mesa, olhando-nos junto a um elevador. Momentos assim. Fragmentos. Peças de um puzzle inexistente.


Se me imaginar sentada à tua frente, talvez numa esplanada ou talvez sentada ao teu lado na muralha do rio, talvez sentada na relva junto ao tronco de uma árvore, de que falaríamos? De livros? Dir-me-ias poemas? Ou apenas respiraríamos em conjunto, como se não quiséssemos poluir o momento com palavras talvez pouco exactas? Ou experimentaríamos aquela inexplicável familiaridade que acontece quando duas pessoas se conhecem de outras vidas, de outros tempos? Ou sentiríamos antecipadamente as saudades de talvez nos não voltarmos a ver?

Olha: se fosse agora, estaríamos com máscara? O que achas? Eu acho que não. Não, não estaríamos. Não poderíamos desperdiçar a breve e única possibilidade de sentirmos a proximidade, de ouvirmos a voz sem filtros, o rosto inteiro. ignoraríamos o distanciamento, esqueceríamos a realidade.

Escuta: há quanto tempo nos conhecemos? Desde há uns anos? Desde sempre? Que peculiares e insólitos laços invisíveis são estes que nos unem? Ou não há laços nem estamos unidos e isto são apenas palavras desprovidas de sentido? O que dizes? Aposto que não dizes nada. Eu também não digo nada, prefiro o mistério, o infinito enigma. Desvenda-o se quiseres. Desvenda-me se fores capaz.


Mas se, por um instante, eu conseguir acreditar que existe uma ínfima e absurda probabilidade de um dia te materializares junto a mim e que, apesar de ser aburda a probabilidade de isso acontecer, nos reconheceríamos mesmo, o que te diria?

Já sei. Talvez te pedisse: diz-me uma música que eu ouça quando quiser pensar em ti. Ou: diz-me um livro em que eu pense quando quiser pensar em ti. Ou: conta-me uma história que eu recorde quando quiser recordar-me de ti. Ou: não digas nada para eu respirar o teu silêncio quando o silêncio sem ti for um vazio grande demais para mim. Ou: olha os meus olhos para eu ficar com o teu olhar para sempre dentro de mim. 

Nada explica o que não tem explicação. As palavras são disfarces, são refúgios, subterfúgios, armadilhas, recantos, segredos, mentiras, inocências, fantasias, doçuras, gume, afago, convite, sonho, sobressalto, simples conjuntos de letras. E os afectos são abstracções. E o resto é espaço que flutua em nossa volta.

Por isso, de novo te pergunto: se te encontrasse, reconhecer-te-ia? Reconhecer-me-ias? Os nossos corpos reconhecer-se-iam? Fora as fantasias, quererias ter-me junto a ti? Quereria eu ter-te junto a mim?

Ou não existes?
Se calhar, não.
E eu? Será que existo?
O que achas?

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Como é bom de ver, pinturas de Chagall

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E uma bela e happy friday a todos vós

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Amor e coragem. E os acidentes que, por vezes, acontecem.





Cada casamento terá as suas características, uns mais românticos, outros mais apimentados, outros mais tumultuados. E, quando falo em casamento, falo em sentido lato. Refiro-me a uma relação íntima, estreita, uma união para a vida (mesmo que não dure uma vida). Não precisa de papel passado. 

Conheço vários tipos de casais. Num dos mais extraordinários apenas conheço um dos elementos, o homem. O que sei daquele casamento é através do que ele conta, das fotografias que, volta e meia, mostra e dos telefonemas que recebe, frequentes, e porque, pelo exaspero em que fica, fala em voz tão alta que eu não posso deixar de ouvir. E o que ouço deixa-me perplexa. Se o meu marido falasse assim comigo, quando chegasse a casa tinha a fechadura trocada e um saco de plástico à porta com um par de cuecas, um par de meias, uma camisa que já não lhe servisse e umas calças de verão se fosse inverno ou vice-versa. Contudo, a este meu conhecido a mulher já nada deve levar a mal pois, mal ele lhe desliga o telemóvel, passado segundos já ela está a ligar de novo e ele volta a gritar e a desligar e ela volta a ligar. E, no entanto, são inseparáveis. E, aparentemente, não apenas as discussões constantes não os abalam enquanto casal como, pelo que constato, não o abalam a ele pois acaba estes turbulentos telefonemas e, acto contínuo, continua a conversa comigo ou com quem for como se nada se tivesse passado.


Conheço outro que dizia que gostava em absoluto da mulher e que, desde novo, queria acabar os seus dias com ela ao lado. E era sincero. Gostava dela em todas as vertentes: achava-a bonita (e é), prendada (e é), inteligente (e é), boa pessoa (e é), educada e simpática (e é), boa companhia (e é), elegante (e é). E, no entanto, tinha uma qualquer pulsão que o levava a traí-la dia sim, dia sim, deixando-a num permanente estado de ciúmes e de nervos. Até que a rotura foi inevitável. E aí ele andou de namorada em namorada até que se fixou numa que é a antítese da primeira: feia, mal jeitosa, mal arranjada, antipática, bardajona. E, no entanto, quando se pensaria que aquilo não poderia durar, a verdade é que já lá vai quase tanto tempo com esta segunda como com a primeira. E isto mantendo-se em contacto com a primeira e quase parecendo que, tivesse ele coragem, seria para ela que voltaria. E, no entanto, não volta -- para desgosto dela e não sei se também dele. Uma coisa que jamais perceberei. 

E conheço um outro casal, uma vez mais pelo que sei do lado dele. É o segundo casamento. Para mim é um casamento de fachada pois, do que lhe conheço, não fosse ele dependente da opinião alheia e já há muito teria assumido a sua orientação noutro sentido. Faz-se de muito macho mas a mim não me engana ele. Há uns anos contou-me que a mulher andava aborrecida, queria separar-se, dizia-me que a mulher andava com ideias esquisitas. Enquanto ele falava eu só pensava: 'Qual o espanto...?'. Depois foram superando as crises e a verdade é que continuam casados. De vez em quando ouço-o ao telefone com ela. Parecem grandes amigos, diria que cúmplices. Da maneira como fala dela, diria que não passam um sem o outro.


O meu casamento não é como nenhum destes. Presumo que não haja dois casamentos iguais. Nem sei qual a receita para um casamento duradouro. Mas também não acho que o objectivo seja ter um casamento duradouro. O objectivo deve ser a felicidade, sendo que cada um se sente feliz à sua maneira. Se a relação é uma fonte de angústias ou uma permanente frustração, então, mais vale pôr um ponto final. E vida nova. 

Os membros de um casal devem sentir-se mesmo unidos, um deve apoiar o outro e esse apoio deve ser equivalente, não pode ser um apoiar totalmente e o outro fazer de conta que sim. E devem acompanhar-se, mas acompanhar-se mesmo, e devem achar que a companhia do outro é a melhor companhia do mundo. E devem estar juntos nos bons e nos maus momentos. E devem ser uma fonte de boa disposição, devem fazer-se rir um ao outro. E devem compreender os receios e as incertezas um do outro e devem ajudar o outro a encontrar forças quando elas faltam. E devem ser uma fonte de amparo e de carinho. E devem gostar mais ou menos das mesmas coisas.

Se uma relação não for um espaço de paz, harmonia e construção do futuro, então, bye-bye. 

E não pode haver desconfiança de um em relação ao outro. Não pode. A desconfiança mina, mata. Deve haver confiança plena, inquestionável. E não me refiro a minudências. Pelo contrário, acho que devemos passar ao largo das pequenas coisecas que apenas servem para chatear. Confiar não é sinónimo de possuir. Ninguém possui ninguém. Ninguém deve querer possuir ou ser dono dos actos do outro. Um casamento deve ser um espaço de liberdade. Liberdade. Referia-me à confiança de verdade. Saber que, se estivermos doentes, se necessário for, o outro se sacrificará para atenuar o nosso sofrimento, saber que, se precisarmos de suporte no auxílio a terceiros, poderemos contar com ele, sabermos que, em qualquer momento difícil que atravessemos, o outro estará lá para nos dar a mão. Esse tipo de confiança que é o chão, o ar e o céu de que precisamos.


E estou com isto porque hoje o santo algoritmo do YouTube me apareceu com uma invulgar: uma queda num número acrobático que nos faz parar a respiração. Aliás, antes da queda já a respiração quase me faltava. É preciso uma pessoa confiar muito na outra para fazer o que estes dois aqui fazem. É certo que 'love is courage'. Pelo menos assim o vi escrito numa parede. E concordo. Mas coragem como a destes dois é coisa invulgar.

Mas os acidentes acontecem.


E a seguir, sugeriu que visse o que aconteceu num destes dias, numa exibição já este ano.

Uma confiança ilimitada. Uma coisa que supera o imaginável.



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O algoritmo ousou, apresentando-me uma coisa que foge aos meus gostos habituais mas, uma vez mais, acertou. Gostei de ver.

Lembrei-me de ir buscar pinturas de Chagall e de trazer Grace com You Don't Own Me com Kate Moss a dar corpo à liberdade.

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Um dia feliz para si aí desse lado. E coragem, ok?

terça-feira, abril 09, 2019

Isabel, não posso dizer que seja um best of mas é uma amostra das maluqueiras de que sou capaz.
Mas, calma, há que dar desconto: vendo bem as coisas, acho que sou inimputável.





Já contei que, quando andava no liceu, atrás de mim sentava-se uma colega de quem eu gostava muito. Éramos totalmente diferentes. Eu andava sempre cheia de amores e gostava de me arranjar bem enquanto ela era desprendida, sem pingo daquela futilidade adolescente que em mim cintilava. Mas ela achava graça à minha maneira de ser e aos romances que giravam em torno de mim e ouvia atentamente as minhas conversas sobre variedades de rímel, soutiens Triumph, convívios dançantes ao sábado -- enquanto eu admirava a sua sobriedade desarmante, a sua disponibilidade para ouvir todas as parvoíces. Éramos ainda diferentes noutra coisa: ela era péssima a matemática mas excelente a desenho. Muitas vezes fomos ambas ameaçadas de nos anularem os testes por estarmos no copianço, eu desviada do que escrevia para ela, atrás de mim, copiar à vontade. Deixei-a também copiar a física e se calhar também a outras disciplinas. Achando sempre que o que eu respondia certo era fruto do acaso e admirando quem eu achava que tinha genuíno talento, eu via o que ela fazia com pasmo e achava que tudo o que fizesse para a compensar da falta de intuição para o raciocínio numérico e lógico e, ao mesmo tempo, para louvar a sua superioridade era pouco.


Lembro-me de umas bailarinas que ela pintou a guache. Estava lá a graça do movimento, estava lá a transparência dos tules, estava lá a beleza da dança. E fosse qual fosse o motivo, enquanto eu me esforçava para fazer alguma coisa bem feitinha que invariavelmente saía sem graça, ela, em duas penadas, traçava o espírito da coisa. Fosse aguarela, pastel, guache ou lápis de cor, tudo o que ela fazia era diferente de todos os outros. Separámo-nos quando fomos para cursos diferentes e, quando voltei a saber dela, já ela era escultora conceituada e professora universitária.

Voltei agora a pesquisá-la na net e dei com uma fotografia dela. Quase me emocionei. O tempo passa.  Ah, como éramos meninas naquela altura. Agora mulheres feitas. Ela serena e bonita como sempre. Não se percebe como, com aquele ar suave, tem força para trabalhar a pedra. Mas tem. É, como sempre foi, uma artista.


Sempre me dobrei perante a arte. Toda a minha vida frequentei exposições. Mesmo quando vieram as crianças. Arrastava-os para verem coisas que não percebiam. Penavam, faziam disparates, queriam fugir. Sempre achei que só podia fazer-lhes bem. Aceitar a diferença e o que inexplicável é parte do caminho que há a percorrer.

Cedo me afastei do figurativo, do perfeito. A arte abstracta, as manchas de cor, a ausência de peias e a liberdade para inventar formas, sobreposições, coisas nenhumas, isso sempre me atraíu. Por fim, os miúdos já não perguntavam 'o que é?', já rendidos à ideia de que as coisas são o que são e não o que querem parecer.

Tenho ideia de que já contei a surpresa que tive quando, sozinha, miúda, sem antes me ter informado, fui ver uma exposição de Miró. Achei uma loucura. Nem conseguia perceber que maluqueira era aquela, em especial as esculturas que incluíam sapatos, restos de coisas, quadros só com salpicos. E, no entanto, que alegria. Que coisa espantosa. Mais tarde já o vi com outros olhos mas com ainda maior pasmo. Que homem adulto tinha a ousadia de fazer tais infantilidades? Mas, de novo, que luminosa e inocente alegria aquela. Estrelinhas, luas, coisinhas sem sentido, bocas e olhos, céus coloridos e felizes.


Ou Paul Klee. Uma vez vi uma reprodução de Paul Klee, pequenina. Convenci a minha mãe a emoldurar. Uma cara redonda e cor de rosa, circunspecta, um olho no céu e outro na terra. Porque é que eu gostei, logo, tanto sem saber quem era o pintor, sem perceber que figurinha era aquele?

E Picasso e Gauguin e Van Gogh e Chagall e tantos outros. Mais tarde, Roth. Cada vez mais abstração, cada vez menos realismo, cada vez maior liberdade.

E, por gostar tanto de arte, nunca me imaginei sequer a cometer a irresponsabilidade de pintar.


Até que o meu filho me ofereceu aquilo que eu nunca pensei ter: material de pintura.

Ao princípio, punha-me a pensar no que ia pintar. Esforçava-me. Não queria desperdiçar telas ou tintas com a minha falta de jeito. Antes de pintar já eu antecipava a decepção.

Uma vez resolvi pintar um retrato da minha filha. Peguei numa fotografia dela do dia de casamento e pintei o vestido em tons de dourado.


O vestido despachei-o em três tempos. Mas o rosto, o sorriso, o olhar... Era ela mas não era ela. Quando alguém o vê, diz logo que é ela. Mas não é. O sorriso dela é mais aberto, os olhos mais alegres. Não sei explicar.

Foi o primeiro e o último retrato. É absurdo querer fazer igual. Para igual há as fotografias (e já a fotografei milhares de vezes). Uma pintura é para ser outra coisa. Mas, se é outra coisa, não é o retratado. Portanto, perante a total contradição dos termos, deixei-me de tentar ser retratista.

Mas foi um percurso. Pintar coisa nenhuma requer uma liberdade pela qual ansiamos mas que, tendo-a dentro de nós, temos dificuldade em usar.

Até que consegui libertar-me. Mulheres a andar por cima dos prédios, mulheres com o coração à vista, escadas que não iam dar a lado nenhum, galos faustosos, flores escandalosas. Não estava a pintar para ninguém nem para obter aprovação de ninguém. Pintava apenas pelo prazer infantil de pintar, o prazer do gesto, o prazer da liberdade, o prazer de transformar uma tela branca numa coisa cheia de cores.


E fiz como a Isabel: com medo de que acabassem as telas, comprei montes delas, com medo que acabassem as tintas, comprei montes delas.

E fui pintando. Ficava até de madrugada. Nunca me importei com a qualidade do produto final. Pintei para mim, para os meus filhos, para os meus pais. Queria pintar coisas neutras, incolores, simples mas, sem perceber como, as cores jorravam de dentro de mim. Por vezes, chegava ao fim e ainda juntava brilhos, purpurinas. Um exagero. Uma alegria. Depois já era apenas para guardar. Até que já não tinha onde pôr. Pintei, então, canteiros. E já estão, outra vez, a precisarem de ser pintados.

Agora pouco pinto. Mas tenho saudades. Volta e meia 'pinta' uma vontade louca de ir buscar uma tela grande e desatar a pintar, a espalhar cores, brilhos, loucuras. Mas, em vez disso, ponho-me para aqui a escrever, a soltar palavras ao vento.


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Já viu, Isabel? Não custa nada. Só é preciso descaramento, não ter vergonha, nem medo, nem nada. Aliás, que mal pode fazer a gente fazer 'obras de arte' destas...? Alguém nos vai mandar prender...? Acho que não. Pelo menos, eu continuo livre para fazer das minhas.

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Flores e cores


E, para que haja arte neste post, três dos muitos pintores a sério de que muito gosto







E haja alegria para que os dias sejam felizes.

quinta-feira, dezembro 13, 2018

Oh pá, vejam lá este vídeo, está bem? É tão ternurento, tão querido...
[E o Natal sem amor é o quê...? Nada, né...?]




O meu marido já começou a alertar-me: já não falta muito, é preciso pensar qual o repasto, é preciso começar a pensar em comprar o que for preciso para não termos que andar no supermercado à última hora. Tem razão, claro. Mas, oh senhores, o que me custa engrenar no espírito antes de o espírito descer em mim... É certo que já tenho arvorezinhas e luzinhas, é certo que já comprei presentes (mas ainda não todos, credo...)... mas agora estar a pensar em bacalhau, batatas, couves, galos capões e sei lá que mais é que ainda não. Parece-me tudo ainda muito prematuro. 

No caminho para casa a minha mãe lastimou-se: quis comprar calças de ganga para os meninos e não encontrou o número, queria um casaquinho para uma das meninas e não encontrou, queria uma camisola quentinha e original e não encontrou. Conta-me as lojas onde foi, conta-me como já estava perdida de calor. E eu, cansada, de noite, no carro, concordei quando ela disse que isto é um disparate e que já começa a faltar-lhe a paciência para estas incursões consumistas que lhe estão a sair tão infrutíferas. Mas começo a pensar que, com almoços de natal, reuniões e compromissos, estou a ficar sem tempo para o que falta e, na verdade, sem grande disponibilidade física e mental para puxar pela cabeça para resolver quais os presentes em falta. 


Quando, à noite, me junto ao meu marido para irmos fazer a nossa breve caminhada, ele tem que puxar por mim para que eu não pare para ver um presépio amoroso e pequenino na loja dos indianos, as luzinhas a piscarem na loja chinesa. Diz-me aquilo que eu estou farta de saber: não precisamos de mais bugigangas. Não precisamos mesmo. Mas parece que o meu espírito vagabundo prefere prestar atenção a coisas simples e inocentes deste tipo (em que, para além disso, basta entrar, escolher e pagar) do que andar em centros comerciais a abarrotar, onde não há falta de estacionamento, onde as lojas estão cheias, com filas gigantes nas caixas, onde o tempo passa sem que a gente consiga despachar-se.

A época é natalícia mas tanto o trabalho e tão curtos os prazos para tudo que, no trabalho, o pessoal anda stressado, impaciente, embirrante. Eu ando zen. Quando vejo toda a gente ao rubro, a tranquilidade invade-me. Nem por fora, nem por dentro. Não me enervo. Posso ser um bocado rude se vejo que há coisas que devem ser endireitadas e que, com meiguices, a coisa não vai lá, posso ser particularmente exigente quando acho que o profissionalismo e o rigor devem ser reforçados -- mas estou calma. Não apenas o meu corpo é assim, sereno, quando se vê no meio de turbilhões, como a minha mente acredita piamente que não vale a pena a gente deixar-se ir abaixo. Mesmo que, do outro lado, haja gente exaltada que grite, chateie, até invente ou seja intelectualmente desonesta, eu mantenho-me na maior. Dizem-me que as minha reacções são surpreendentes. E até a mim me surpreendem. Mas é assim. E acho que ainda bem.


O que sei é que, durante o dia, no intervalo, nos breves instantes em que consigo dar um salto à copa ou à casa de banho ou encher um copo (de água) no corredor, ouço com toda a atenção e empatia uma queixar-se da mãe que é uma peste, outra a insurgir-se contra a sogra que é uma vadia, outro a falar do filho que não atina, outra que, por mais que coma, não consegue engordar, outro a falar de dívidas que contraíu e que lhe dão conta da qualidade de vida. Genuinamente, gosto de ouvir as pessoas. Gosto que as pessoas tenham isto de me contar as suas vidas e gostaria de acreditar que a minha atenção, as minhas palavras ou o meu sorriso as confortam. Genuinamente acho que o afecto é um dos mais potentes motores da nossa existência.

E isto é o que me ocorreu dizer agora. E, nem de propósito (ou a despropósito, sei lá...), apareceu-me este vídeo tão lindo. É muito recente, já deste mês. É um anúncio mas não interessa. É uma ternura. Vejam, está bem? 

What would Christmas be without love?



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As pinturas são de Marianne Stokes, Marc Chagall e Jean Fouquet.

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Até já. Acho que ainda cá volto pois quero partilhar uma coisa convosco.