Mostrar mensagens com a etiqueta Amália Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amália Rodrigues. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 09, 2022

Paula
-- ser, recordar, brincar, desenhar, encenar, pintar

 



Não foi desde sempre que gostei da Paula Rêgo. Lembro-me de um dia me cruzar com uma prima, dada às artes, que ia a entrar para o CCB e eu a sair. Eu tinha vindo de um daqueles eventos em que se comia muito bem e, ao sair, ia apressada para não sei onde. Ela disse-me que ia ver a exposição da Paula Rêgo. Eu disse que não achava muito piada e ela ficou muito admirada, acharia que eu gostaria bastante. Mas eu que não, nem por isso. Tudo meio estranho, devo ter dito.

Fiquei a pensar naquilo. 

Quando a gente não está predisposta a encarar a diferença ou está sem disponibilidade para ver com olhos de ver o que não é vulgar, acontece isto. Achamos que as coisas não nos dizem nada e seguimos adiante. Mas não são as coisas que não dizem nada, a gente é que não pára para as ouvir.

Algum tempo depois, tive ocasião de ir ao lançamento de um livrinho maravilhoso com ilustrações dela sobre texto de Tabucchi. Foi no Palácio Fronteira e tudo ali era maravilhoso: a luz, o ambiente, os sorrisos, a afabilidade que circulava entre todos. O sorriso da Paula Rêgo e a forma como olhou para mim quando lhe disse o meu nome. Não me esqueço. A simpatia doce, inocente, a surpresa. Fez-me sentir ainda mais que o meu nome era inseparável de mim.

Por essa altura já eu tinha despertado para a beleza insólita dos seus desenhos, para a forma impactante como as suas figuras chegavam até nós, para os pormenores desconcertantes, para os franzidos das saias e para as sombras nas rugas dos tecidos, para a pele imperfeita das mulheres, para a rudeza e para a má sorte, para a carnalidade, para a perversidade de alguns personagens.

Aos poucos fui ficando incondicional. Cada pequeno detalhe, uns olhos muito abertos, um corpo abandonado, um movimento atrevido, a ruralidade assombrada, o abandono dos corpos à sua sorte, a força, a destreza, a ousadia das mulheres. O sangue, o olhar, as pernas grossas, o cabelo apanhado das mulheres e a sua manha, a malícia das crianças, a fragilidade de alguns homens.

Nessa altura já me era difícil compreender os que diziam não gostar da sua obra. Esquecida da minha anterior cegueira, não percebia a cegueira dos outros.

Agora continuo a não perceber. Mas já aceito. Há vários tipos de cegueira. A da ignorância, a do desdém, a da indisponibilidade para ver, a da superficialidade. Mas é a vida: uma mescla de tudo. E tudo é relativo e tudo é passageiro.

E, para além da obra, há a autora. As suas entrevistas, o documentário que o filho fez sobre ela, a  aproximação de Agustina* -- tudo foi construindo, em mim, a imagem de uma mulher admirável, meio louca, meio menina, meio diaba, meio de outro mundo, meio desbocada, meio dramática, meio divertida, meio sofrida, meio desabrida, muito vivida.


Mesmos os deuses não são eternos. Chegaria o dia em que Paula Rego partiria. Mas parte o invólucro que, como em todos nós, era perecível. Fica a sua vasta obra -- e isso é uma dádiva sua para connosco que nunca poderemos agradecer como deveríamos pois é uma dádiva demasiado grande -- e ficam as suas palavras nas entrevistas que podem ser lidas e vistas em vídeo. 

A sua obra, intemporal, imoral, amoral, moral, imensa, tem ainda uma característica especial: é intrinsecamente portuguesa. 


E, por isso, por sentir essa proximidade com estas mulheres que saíram da imaginação, da memória e das mãos de Paula Rêgo, a admiração que me desperta é ainda maior.


Maravilhosa e eterna Paula Rêgo. 





__________________________________________

Mas As Meninas não são crianças. Estão sempre alerta, sabem coisas proibidas, em volta delas as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo. As Meninas são profundamente perigosas. Não devem andar pela cozinha nem pelos lugares desertos da casa. Sabe Deus que coisas podem fazer…

[Palavras de Agustina em as Meninas] 

____________________________________ 

Desejo-vos um dia bom

Saudade. Agradecimento. Saúde. Paz.

segunda-feira, março 02, 2020

Santa Comba Dão -- a surpresa das surpresas






Os tanques de lavar a roupa com a água do rio

Ontem falei. Imaginava uma terra de casas escuras, sem flores, sem ponta de graça, tudo gente mumificada em casas quase abandonadas e lúgubres. A minha filha ajudou-me a definir o que eu imaginava: uma terra austera. Mas era pior que austera, o que eu imaginava.
Quando penso que não sou preconceituosa, sou confrontada com o meu absurdo preconceito. Sou preconceituosa, sim, e da pior espécie, da espécie que ignora que o é.
Até hoje nunca tinha sentido qualquer vontade de visitar Santa Comba. Mas nem eu nem o meu marido. Era como se, sem ser necessário verbalizá-lo, achássemos que o espírito do velho das botas -- o supremo beato da voz de cana rachada, o sinistro parceiro da D. Maria, criadora de galinhas em S. Bento, santo patrono da PIDE e apascentador de visõezinhas cinzentas e pequeninas, grande fomentador do permanente atraso de vida, do crónico sentimento de culpa e do medo da liberdade, fascistazeco de trazer por casa -- vivesse ainda por entre casas sombrias e para sempre tocadas pelo venenosa baba do dito.

Passámos, pois, sempre ao largo.

Mas ontem, estando a passar perto, sugeri: vamos lá espreitar.


E em boa hora o fizemos. Que surpresa. Uma preciosidade, uma beleza, uma pérola florida, chilreante de água. 

Por aqui tem chovido que deus a dá. Por isso, ontem, descuidadamente sem chapéu de chuva, a meio do passeio a pé, tivemos que correr para o carro. Mas o que vimos, fez-me sentir pena.

Porque é que nunca eu tinha ouvido dizer que esta terra é tão bonita? Mas bonita, bonita mesmo. Será que, tal como eu, há mais gente presa a preconceitos, sem vontade de ir conhecer? Ou será que quem lá vive ou conhece o segredo da sua graça, se envergonha de mostrar orgulho? É que parece uma heresia daquelas de que qualquer pagão ou santo se deveria arrepender. Morar aqui deve ser um privilégio. O som da água, dos passarinhos, a tranquilidade do lugar só pode ser uma benção. Quanto ao espírito ruim do velho das botas pois que se dane ou descanse em paz, tanto faz. Já era. Saltemos a pés juntos em cima da lembrança dele, sempre que tal se nos ocorra, para que nenhum outro vírus da mesma estirpe volte a atentar o nosso juízo. E abençoemos a beleza desta terra que não tem culpa nenhuma de quem lá nasceu.


De resto, parece que não foi bem em Santa Comba Dão mas no Vimieiro, outro lugar abençoado de que daqui a nada já falo, que o sinistro rato de sacristia nasceu. Mas tanto dá. Era o que faltava que um rato merdoso pudesse destruir a beleza do lugar que o viu nasceu. Não pode.

Portanto, viva Santa Comba Dão.


A terminar e num àparte. Quando estava a andar e a fotografar, reparei como dois prédios estavam tão inacreditavelmente juntos. Quase que de um, estendendo o braço, se poderia tocar no outro. Apontei e fotografei. O meu marido disse 'a senhora não deve ter achado graça nenhuma a que a tivesses fotografado'. Fiquei espantada. Míope como sou não tinha visto senhora nenhuma mas fiquei arreliada comigo mesmo. Coitada da senhora, estava na sua vida e passa uma qualquer na rua e fotografa-a. Contudo, à noite, ao ver a fotografia, verifiquei que a senhora sorriu para mim. Tivesse eu reparado nisso e tê-la-ia cumprimentado. Coloco aqui a fotografia ou, melhor, a ampliação da parte da fotografia em que se vê a senhora (como a ideia foi fotografar os dois prédios encostadas, a senhora, na fotografia original, é quase um pormenor no infinito) como forma de retribuir o seu simpático sorriso. Muito obrigada.


Até já, no Vimieiro.

domingo, março 10, 2019

Escuta-me





No outro dia, para guardar a lenha mais recente, resultante dos infindáveis desrames, o meu marido andou a limpar a mais antiga e, para despachá-la mais rapidamente e para aquecer a sala, encheu a salamandra. Acontece que aquilo desatou num fogaréu dos diabos, fez quase imediatamente um calorão insuportável, num ápice aqueceu esta sala e todas as divisões da casa e, tanto o calor, uma prateleira vergou e derramou a pilha de livros que tinha em cima, aqueceu-me estupidamente o estojo da máquina fotográfica que estava a mais de um metro e, de repente, percebemos que, se não interrompessemos rapidamente aquilo, todas as coisas da sala e, se calhar, também nós próprios derretíamos.


Então, o meu marido abriu a porta da salamandra e a porta da sala e, com uma daquelas pinças de lareira, tirou, um a um, todos os troncos que estavam a arder e pô-los lá fora. Depois, foi buscar a mangueira e apagou-os. Assunto resolvido. A casa manteve-se quente até ao dia seguinte, até nos irmos embora.

Hoje voltou a acender a salamandra mas com uma quantidade normal de lenha. Estávamos aqui sossegados, no sofá, eu a escolher umas lãs e a estudar a progessão do bordado, ele a ver televisão, quando começámos a sentir o cheiro da madeira mais intenso do que o costume, depois os olhos a quererem arder. E, de repente, olhámos em volta e reparámos que a sala estava a encher-se de fumo. E, ao mesmo tempo, vimos o que estava a acontecer. O tubo que leva os fumos da salamandra e que atravessa o tecto até à chaminé tinha-se desencaixado e o fumo saía livremente para a sala. Num salto, em simultâneo, abrimos porta da sala e ele, de imediato, voltou a tirar os troncos e a pô-los na rua. 


Presumo que, com o calor excessivo da semana passada, o tubo deve ter dilatado demais e, ao arrefecer, rachou e, ao rachar, desencaixou e deu no que deu. 

O que acontece é que, durante o tempo em que durou até que dessemos por isso, não foi apenas a sala que se encheu de fumo: foi toda a casa. De repente, por todo o lado, uma nuvem densa, o ar irrespirável. Portanto, tivemos que estar com portas e janelas todas abertas, o frio da noite a entrar para a casa, tivemos que ir para o lado de fora abanar as portas para ajudar a sair o fumo. No meio disto, uma coisa boa: a noite límpida, estrelada, um céu planetário, luminoso, lindo.

Até fui buscar a máquina e disparei-a contra a noite. Quando olhei as fotografias, não estavam as estrelas, estavam, sim, os ramos nus das árvores. Mas, uma vez mais, a preguiça impede-me de me levantar para as importar para aqui.


Agora ainda cheira imenso a fumo e temo ficar com as roupas e os livros e tudo o mais a cheirar a fumo mas, pelo menos, já não se sente, não se me choram os olhos, já não há névoa dentro de casa.

De tarde, depois de termos vindo de casa dos meus pais, estivemos, de novo a cortar ramos de árvores. Um dia ainda as árvores ficam descaracterizadas, apenas um penacho no alto da cabeça. Antes gostava de ter um bosque denso. Agora, com a consciência do risco dos incêndios, transformámos a nossa floresta num conjunto de seres disciplinados, aperaltados. Custa-me um bocado. Mas contra factos não há argumentos e eu adapto-me à força das circunstâncias. Tem que ser, pois que seja. Heaven pode ser lindo e, ao mesmo tempo, um lugar seguro, onde não cheguem as chamas dos infernos.


Agora temos um mar de ramos cortados e não os vamos poder queimar enquanto não nos inscrevermos no site das queimas. Tentámos mas a aplicação ainda não está afinada, identificou o local como se estivessemos no portugal insular. Sugeri que ligássemos para os bombeiros mas o meu marido não lhe apeteceu. Espero que consigamos resolver isto a tempo. 

Enquanto escrevo, estou a ver a Proposta Indecente. Apesar de já o ter visto há séculos, estou, na mesma, a achar-lhe piada. Ainda por cima, é uma história de amor e eu gosto de histórias de amor.

Tenho tantos assuntos atrasados para falar. Por exemplo, gostava de vos falar de um tema que está na base de um filme sobre o qual vi a entrevista com a actriz principal. É um tema meio misterioso, coisa muito fruto dos tempos actuais, coisa pela qual já me fizeram passar. Mas a verdade é que muito hard work no campo, algumas contrariedades no dia a dia da cidade, tudo muito longe umas coisas das outras, muito trânsito, muita agitação -- tudo junto faz com que, aqui chegada, não tenha grande vontade de navegar em águas profundas. Por isso, sobrevoo de mansinho, saltito por entre folhagens, palavras breves, aflorações, não mais que isso. Os temas da actualidade vão passando, pouco rasto deixam e eu mal lhes toco, apenas espreito e é quando é. Hoje, à vinda, pensei: um dia deixo-me disto, um dia, em vez disto, escrevo só para mim, escondo a escrita, escrevo sobre desactualidades, sobre suposições, ficções, pensamentos à toa, sobre coisas cá minhas, só minhas.


E assim é que, sendo duas da manhã e nada tendo de concreto para vos falar, vou apenas partilhar um vídeo que me pareceu bonito e que aborda um tema que me interessa: o da tolerância inclusiva. Segregar alguém ou, pior ainda, parodiá-la, menosprezá-la ou, de qualquer outra forma, fazê-la sofrer não apenas me parece indesculpável como, na medida das minhas possibilidades, faço tudo para o evitar.
Apenas tenho dificuldade em ser assim com os estúpidos, os cagões, os burros armados em doutores. Com esses, se puder, sou tudo menos inclusiva. Provavelmente, quando atravessar a célebre parede de luz branca e me crescerem asinhas etéreas nas costas, a entrada no céu ser-me-á barrada como paga por todos os pecados que cometi, nomeadamente por cada um dos estúpidos relativamente a quem fiz de tudo para guardar distância. Mas não faz mal, mais vale ficar in hell, de shortinho e alcinha (por causa do calor), do que ficar sentada em cima de uma nuvem a receber medalhas por ser boazinha para gente que não vale uma casca de caracol furada.

Mas da gente boa que é posta de lado apenas por ser diferente, da gente que sofre por não se sentir integrada, dessa eu quero estar perto, quero escutá-la mesmo quando a sua voz não se faz ouvir. 

Listen to me



---------------------------------------------------------

As imagens mostram arte japonesa e Camões aparece-nos através da voz de Amália

------------------------------------------------------

A todos desejo um belo dia de domingo

----

segunda-feira, novembro 27, 2017

Bordalo II, uma fadista e um Sto. António, uma musa pouco estimada, gaivotas e árvores, casas e barcos.
Lisboa, a bela, num dia de Outono






Caminhar. Descobrir. Rever como se nunca tivesse visto. Espreitar pela lente. O prazer da primeira vez.

Alfama, vielas, becos, escadinhas, arcos, varandas e varandinhas, vasos, piropos, roupa estendida -- e muitas casas reabilitadas.

Grandes armazéns e velhos prédios estão agora a ser restaurados, com bons materiais e bom gosto. Um hotel privado. Janelas de pedra, cortinas, gatos. Recantos que vêm de outros tempos.


Foi, pois, dia de passeio pela cidade. Eu turista, visitante de primeira viagem, sempre encantada, sempre à descoberta. Lisboa, a bela, tão visitada, tão cosmopolita e, no entanto, tão acolhedora, gente de todas as nacionalidades, raças, idades. Uns vestidos de invernia, outros de verão. Casacos, agasalhos. Calções, cavas.

E eu à procura de graffitis, de recantos, de gentes. Espreito as paredes, detenho-me, fotografo.


Na 24 de Julho, um fantástico novo trabalho do Bordalo II. Restos, lixos. O prédio abandonado ganha uma nova vida.

E os largos com árvores tingidas de Outono. Lindas, lindas. Fosse eu capaz de transformar emoções em palavras e haveria agora de estar aqui imaginando romances vividos em casas com vista para o arvoredo. Fosse eu dotada de capacidade de síntese e de musicar ideias e haveria de estar aqui a escrever poemas que soubessem transportar os cheiros da cidade, as cores e os sons e as saudades de todos quantos por aqui, ao longo dos tempos, se sentaram nas esplanadas e escreveram postais aos amados que ficaram noutras paragens.


O novo espaço do Campo das Cebolas quase pronto, uma engenhosa e bela solução que eleva o piso, cria uma nova zona de lazer ampla e luminosa com vista para o casario e para o rio. Um dos espaços mais inesperados da capital, que, certamente, irá trazer ainda mais pessoas para dentro da cidade e para bem próximo do Tejo.


Esta Lisboa que eu amo cada vez mais estimada, mais inteligentemente aproveitada. O novo e o velho, o luminoso e o escuro, o amplo e o esconso. Os azulejos gastos e os novos, os candeeirinhos, as escadinhas.

Há uma arquitectura muito própria que acompanha a orografia da cidade e há uma clarividência extraordinária de quem sabe inventar espaços novos que convivem com os antigos.


E os desenhos, os cartazes, o humor, a graça, o grito, o queixume, a rebeldia, a melancolia. O jeito lisboeta de ser onde a truculência se mescla com a nostalgia, o humor com a poesia, a exuberância da cor com a lágrima sentida.




E, depois, almoço no cantonês, caminhada à beira rio, o frescor do ventinho trazendo a maresia da baixa mar, as gaivotas, as muitas gentes, as muitas línguas.




E, de novo na avenida ribeirinha, o novo terminal de cruzeiros. Ao lado, um paquete enorme por onde entravam os viajantes. As árvores ainda são novas, os acabamentos ainda faltam mas já se percebe ali um outro espaço de modernidade. Não deu para andar por lá a cirandar, apenas o vimos do lado de cá. Um dia destes aproximar-me-ei pois ficámos em dúvida sobre se parte do edifício está ou não sobre a água.


E o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas, lugar sempre tão tranquilo apesar da quantidade de gente que por ali anda. O símbolo da abertura portuguesa ao mundo. 


Quando voltámos a casa já a tarde se estava a pôr, já Lisboa anoitecia. Uma suave e serena tarde de Outono.

Era bom que chovesse mas não chove. Se chovesse não teria podido andar a palmilhar o ruedo e as avenidas da cidade, fotografando como se nunca tivesse visto a cidade que diariamente percorro. Mas era tão bom que viesse a chuva.

.................................................................................................................

Álvaro de Campos e Alberto Caeiro 

Lisboa e o Tejo




..................................................................

terça-feira, outubro 10, 2017

Até que a morte os separe


Vivendo com o mesmo homem há cinquenta mil anos, continuo sem conhecer a receita para uma coisa assim. Acho que é como aqueles bolos que saem bons sem a gente perceber bem porquê. Acasos. E, uma vez tendo acontecido o acaso e se parece ser coisa para resultar, pois então dar-se a gente por agradecida e fazer tudo para que o momento inicial de descoberta e paixão se mantenha.

O que eu posso dizer de certeza absoluta é que deve haver atracção física. Sem isso é para esquecer. Mas também companheirismo, tolerância, respeito, convicção de que qualquer outra alternativa seria pior. E deve ser uma coisa na base da boa onda, vontade de estar junto porque estar junto é estar-se bem. 

Mais ou menos isto. Poderia, é claro, juntar mais mil razões mas não vale a pena pois é variável. O que eu gosto, espero eu que não haja muitas mais a gostar. 

Olho quem passa à minha frente e tento perceber os casos em que, sem sombra de dúvida, os laços são mesmo para valer. E é tão claro....

Juntos, abraçados contra a morte.
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte



É a forma como andam, a afinidade até na forma como se vestem, é a forma como conversam. É, certamente, as palavras que usam para se beijarem.

Dois corpos que caminham para a fusão.


Mesmo quando cada um olha para seu lado, logo, logo os olhares vão convergir, logo os corpos se vão encostar, e logo, logo vão estar a rir, companheiros, cúmplices.


É o amor de longa duração, talvez o mais perene de todos os afectos, o que vence barreiras, ultrapassa all ages, supera diferenças e contradições, aproxima mesmo quando estão longe, guarda memória de paixões para com elas polvilhar a doçura do amor sereno.



Claro que, nisto, é preciso haver predisposição para amar. A cada momento, tem que haver essa vontade. É que a gente até pode gostar e ter tudo para dar certo mas, se existe em nós a compulsão para a destruição e/ou a impaciência para aturar o outro, nunca nada vai funcionar. Tem mesmo que se estar in the mood for love.



E depois é viver como se fosse o primeiro dia. Ou o último. E apreciar o sol a brilhar na água, os veleiros lá longe, o calorzinho bom na pele, os risos partilhados, os segredos guardados.


E amar a vida, a gloriosa e ingrata e maravilhosa e ilusória e alegre e triste e esperançosa vida.
E fazê-lo a dois.

........................

segunda-feira, agosto 03, 2015

Medo











 acredita em mim: é só um rumor.

não sei escrever o vento,
nem sei como se nasce outra vez.
nunca soube como se tece
no piano a face vazia do tempo.

por favor, não perguntes:
pois eu não sei como germina um poema,
nem quantos dias cabem no teu rosto.
E como se conjuga a cidade com o adeus?

Perguntas, mas eu não sei o que é a morte.






.....

As fotografias foram feitas da zona da Rua da Escola Politécnica para baixo, vendo-se ao fundo a Basílica da Estrela.

A música, lindíssima, é um dueto: Júlio Resende no piano com Amália Rodrigues, na interpretação de 'Medo'

O poema é o XXIX de Espera Vigilante de Ricardo Gil Soeiro.

..

sexta-feira, março 08, 2013

"O Camões é o malandro maior da literatura portuguesa. (...) A barca é fálica e a água é a coisa feminina", palavras de Helder Macedo na entrevista de Ana Sousa Dias na Revista Ler de Março de 2013. E ainda Camões segundo Júlio Pomar e José Rodrigues e 'Raquel e Lia' segundo Theodor Rehbenitz. E 'Erros Meus' por Amália. E, como extra, porque hoje é Dia da Mulher, as mulheres segundo os mesmos Helder Macedo e Júlio Pomar.




Luís Vaz de Camões segundo José de Guimarães


(...) A maneira como ele descreve a vida de Lisboa, com uma crítica social acérrima, e não apenas quando fala da vida boémia dos prostíbulos que ele frequentava activamente, chamando aliás às prostitutas, porque estavam à janela, as 'ninfas de água doce'.

E muita da poesia lírica, mesmo nos sonetos mas sobretudo nas redondilhas, há poemas que, se descodificamos, são profundamente obscenos.

Há um exemplo extraordinário que parece a coisa mais inocente do mundo. Orgulho-me de ter sido a primeira pessoa que entendeu o significado da redondilha: o mote é 'Quem disser que a barca pende, dir-lhe-ei, mana, que mente. E as voltas - 'esta barca é de carreira, tem seus aparelhos novos, boa de leme e veleira'.

MOTE

Quem disser que a barca pende,
dir-lhe-ei, mana, que mente.

VOLTA

Se vos quereis embarcar
e para isso estais no cais,
entrai logo; que tardais?
Olhai que está preiamar!
E se outrem, por vos fretar,
vos disser que esta que pende,
dir-lhe-ei, mana, que mente.

Esta barca é de carreira,
tem seus aparelhos novos;
não há como ela outra em Povos,
boa de leme e veleira.
Mas, se por ser a primeira,
aos disser alguém que pende,
dir-lhe-ei, mana, que mente.


Quando descodificamos, a barca é fálica e a água é a coisa feminina. É um poema de alta propaganda da sua virilidade. Traduzindo isto em linguagem corrente, é obsceno em extremo e, assim, é lindo.

Num poema feito por ele, é uma obscenidade radiosa e nada negativa. Traduzido em linguagem de rua, aí os pudicos e as pudicas ofendiam-se muito. Assim, dizem 'cena misteriosa à beira de um rio'. 



São aqueles exegetas tradicionais do Camões, aqueles que podem não entender que possa ser irónico que depois de servir sete anos ele fica com uma e depois quer também a outra.



Raquel e Lia, Theodor Rehbenitz


O soneto tem uma ironia muito camoniana (... ele fica com as duas...). O Camões é o malandro maior da literatura portuguesa.


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!




Camões, Júlio Pomar


A escrita da poesia é, em linguagem, o que aspira a ser mais parecido com música, no sentido em que é capaz de dar simultaneidade de significações. Em ópera, especialmente, nós conseguimos ter, através da música e das vozes das personagens, sentimentos contraditórios a serem expressos pelas mesmas notas que estamos a ouvir. Só em música isso se consegue cabalmente.

Há poetas extraordinários, como o Camões que mencionámos há bocado, que consegue dizer coisas desse género. Quando o Camões escreve aquele achado incrível, por exemplo: 'Errei todo o discurso de meus anos', isto explode para todos os lados, porque é o decurso, é a fala, é o discurso poético, errar é deambular e cometer erro, quer dizer, com esta meia dúzia de palavras vai-se por aí, por aí. São raros os poetas que conseguem isso.

Se há um propósito em poesia, é precisamente a possibilidade de dar a nossa complexidade de uma forma tão condensada quanto possível.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente 
Em minha perdição se conjuraram; 
Os erros e a Fortuna sobejaram, 
Que para mim bastava Amor somente. 

Tudo passei; mas tenho tão presente 
A grande dor das cousas que passaram, 
Que já as frequências suas me ensinaram 
A desejos deixar de ser contente. 

Errei todo o discurso de meus anos; 
Dei causa a que a Fortuna castigasse 
As minhas mal fundadas esperanças. 

De Amor não vi senão breves enganos. 
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse 
Este meu duro Génio de vinganças!



Camões, Júlio Pomar

...   ...   ...








...

Os textos em itálico são excertos, por ordem diferente, da entrevista de Helder Macedo, o gentleman marginal, a Ana Sousa Dias na Revista Ler, Nº 122, de Março de 2013.

...



Mulher de Júlio Pomar


Não tem que ver com Camões mas com o facto de ser Dia da Mulher (e eu não sou dada a 'dias de' e, se fosse, preferia o 'Dia do Homem' para as mulheres poderem dizer mal deles à vontade. Estou a brincar. Se houvesse seria para dizer bem, são uns queridos, uns fofos. Adiante que, com o adiantado da hora, a censura interna começa a escassear): transcrevo um pequeno excerto da mesma entrevista. Diz Helder Macedo:

Tenho um fascínio pelo feminino. O que aliás não entendo que não possa haver. Todos nós somos filhos de mulher. As mulheres ensinaram-me tudo. Essa intimidade com o feminino é a base da minha personalidade de homem, de macho.


Ora bem. Assim mesmo é que é.



Salomé por Júlio Pomar

...


Se me permitem, muito gostaria de vos ter hoje no meu Ginjal em dia de bolinha vermelha no canto do écran. Vasco Graça Moura levou-me pela mão ao atelier de José Rodrigues e eu deitei-me numa cama feita de palavras. A música é uma maravilhosa interpretação de Schumann a cargo de Martha Argerich e Mischa Maisky.

...

E nada mais. Apenas desejar-vos uma bela sexta feira com poesia, música, beleza e muita malandrice.