Nunca entrei no Tinder nem em qualquer outra aplicação de encontros (ou melhor, de dates). Nem sei dizer o nome das demais apps pois desconheço. Como não ando à procura de parceiro é coisa que nem entra no meu radar. Mas, mesmo se andasse, tenho sérias dúvidas de que me arriscasse.
Imagina que encontrava alguém conhecido? Seria a modos que uma barraquinha das antigas, imagino. No meio da atrapalhação nem sei se teria cabeça para engendrar uma desculpa que não parecesse esfarrapada. "Ai, tu também por aqui? Na fotografia não deu para perceber que eras tu... E usaste outro nome... Mas eu estou aqui só porque estou a recolher informação para uma tese de mestrado. Não é para o que estás a pensar..." E ala moço que se faz tarde.
Mas, pior que isso, uma pessoa vai encontrar-se com alguém que não sabe se é maluco, se é malcheiroso, se é um chato dos antigos? É que nem imagino o horror que deve ser uma pessoa expor-se, apresentar-se num encontro e depois dar de caras com alguém de quem tem vontade de fugir no instante seguinte. Como é que descalça a bota? Assume que não suporta e raspa-se imediatamente? Ou finge que está a gostar e aguenta o mais que pode até que consegue inventar uma desculpa? Ou, pior, muito pior, o risco que é se o fulano aparenta normalidade e, quando uma pessoa já está com as defesas em baixo, dá uma abébia e o fulano acaba por se mostrar um tarado da pior espécie...
Não. Nem pensar.
Para mim, para escolher alguém ou seria na base do amor à primeira vista -- mas aí teria que ter a sorte de o encontrar... e onde é que andam os homens desirmanados...? Não faço ideia... -- ou teria que ser uma coisa em que pudesse seleccionar, eles em exposição. E por exposição estou a referir-me a uma coisa como um programa de televisão que há -- há ou havia, pois há muito tempo que não me aparece -- em que põem uns quantos homens nus, um em cada cabine, e a mulher vai eliminando sucessivamente os candidatos deixando para o fim o mais convincente.
Vendo o vídeo da Beatriz Gosta, percebo-a perfeitamente. Sou como ela: niquenta até à quinta casa. Não suporto maçadores, saloios armados em bons, azeiteiros, mal vestidos, demasiado bem vestidos, empedernidos, armados em engraçados, cheios de paranoias, armados em parvos, feios, aparadinhos demais, demasiado sonhadores, demasiado musculados, chonés de todo, mirradinhos e encarquilhados, cheios de teorias de cão de caça, parvalhões sem uma ideia na cabeça, narcisistas, mimados, frustrados, gordos que nem baleias e todos transpirados, a cheirarem a tabaco que tresandam, encharcados em perfumes rascas, etc. Etc. Etc. Mas ponham esmo muitos etcs nisso.
Agora onde param os que se aproveitam e que estão disponíveis, isso eu estou como ela, também não faço ideia onde andam.
E, assim sendo, porque ainda não estou numa de comentar debates ou de cansar a minha beleza com as trapalhadas de alguns dos biltres desta praça, aqui está a Beatriz Gosta com quem sempre me divirto. Quando houver um debate que me inspire, aqui estarei para dizer de minha justiça.
Não sei se existe o grupo das fãs dela mas, se houvesse, eu também não era de me inscrever. Mas, no silêncio da coisa, ali estaria eu a aplaudir, a dar uma força. É o que faço aqui. Sei que ela está no Feice aka Meta e no Insta mas, como eu não, tenho que me contentar com o que me aparece no Youtube. Mas, sempre que me é dado conhecer um novo vídeo, não me canso de aqui louvar o seu talento.
Já aqui o disse muitas vezes mas digo-o de novo: acho que a gaija é mesmo do melhor. Parece que houve por aí um figurão que desfez dela mas eu não quero saber disso e era bom que ela também não. Ela é inteira, muito genuína, uma lutadora e o seu humor tem o traço de uma guerreira.
Deveriam ser-lhe dadas mais oportunidades de aparecer pois a sua espontaneidade e o seu sentido de humor são uma lufada de ar fresco. É desempoeirada, destemperada, uma intrépida quebra-tabus.
Neste vídeo, que deve ter aparecido no 5 para a Meia Noite, Beatriz Gosta faz uma reportagem na Exponoivos e, como sempre, parte a louça. E, para acabar em beleza, veste-se de noiva e sai de cena ao colo do entrevistado.
Pode ser que um dia ainda se case assim, de branco, véu e grinalda, com a sua Luizinha como menina das alianças. E eu desejo que, se isso acontecer, faça a devida reportagem pois deveria ser um misto de humor e amor, de ternura e loucura.
Longa vida à Beatriz Gosta. E à Marta Bateira também.
Sou fã desta rapariga. Beatriz Gosta. Grande mulher, ela. Acho-a do melhor que por aí há a fazer humor. Já não acha graça ao Ricardo Araújo Pereira. Gostava dos Gato Fedorento. Depois tornaram-se autónomos, cada um para seu lado, começaram a querer facturar em cima de qualquer patacoada e perderam a graça.
Beatriz Gosta tem sentido de humor, é irreverente, descomplexada e é rápida no gatilho. Em directo, sem guião, ela atira-se para os cornos do touro. Sem saber o que vai sair do outro lado, ela arrisca. E sai-lhe sempre bem.
Os Globos de Ouro já foram a semana passada e esta reportagem da Beatriz já passou no 5 para a Meia Noite. Tema requentado, reconheço. Mas eu praticamente não vejo televisão. Por isso, só dou pelas coisas quando me aparecem por outras vias.
Lamento se ando assim, com um jet lag de todo o tamanho. O mundo roda e eu só dou por isso uns dias depois.
Agora, em tempo real, para além do trabalho, só as brincadeiras da minha coisa mais peluda e fofa e o voo das rolas. Aproximam-se cada vez mais, elas. Eu, sentada numa cadeira branca no relvado, o cachorro a brincar à minha volta e, por cima ou ao lado, pares de rolas brincando. O cachorro põe-se em pé, as duas patinhas peludas apoiadas em mim que estou sentada na espreguiçadeira, e mordisca, puxa, brinca, os olhinhos sempre a rir. Zango-me mas ele pensa que faz parte da brincadeira, se o afasto ele rebola, todo derretido, e volta ao mesmo. As rolas esvoaçam por ali. Não as perturbamos.
Hoje, ao fim da tarde, quando estávamos nisto, ouviu-se uma voz masculina vinda de um quintal vizinho. E, então, eis que a fera se levanta, se sacode para recuperar a compostura e se senta, virado na direcção do som, empertigado, tentando avaliar a gravidade da situação. Elogiei: menino bonito, assim é que é. Quando o meu marido chegou informei: temos cão de guarda.
Pego-o ao colo, quero aninhá-lo em mim, quero senti-lo já mais pesadinho. Mas ele, menino já a querer dar-se ares de crescido, já não quer colo, esgueira-se para ir para o chão.
À noite deixamo-lo vir um pouco até aqui a esta sala. Faz a mesma coisa. Poe-se de pé, as patinhas apoiadas no sofá. Hoje parecia-me que vinha fazer-me um chamego, a cabeça peludinha encostada à minha perna. Qual quê? Queria era mordiscá-la. Zanguei-me. O meu marido diz que a zangar-me assim não faço nada dele, que tenho que engrossar a voz. Tentei e ele recuou. Mas a caminho de recuar, ferrou o sofá, danado de vontade de o devorar. Temo o pior. Se me distraio por um minuto fico sem sofá.
Tento arranjar sucedâneo para tudo o que ele quer roer mas a fera quando fisga uma, não vai em conversa. Deveria pô-lo a fazer coaching a um colega que é o oposto, totalmente destituído de personalidade. A esse totó podemos levá-lo a mudar de convicções dez vezes por minuto. Esta fera cabeluda que tenho aqui em casa não é nada disso: quer é repuxar-me a chinelinha que uso aqui em casa e por mais que o tente convencer com uma havaiana desirmanada de um menino ou um ténis velho que a minha filha lhe trouxe, ele faz de conta que sim mas logo volta à minha. Pelo meio mordisca-me os dedos dos pés e os tornozelos. Um desatino. Tenho que aprender a levitar, é o que é. O meu marido diz-me que faça como ele: use calças e ténis. Mas como? Gosto de andar à fresca, ora essa.
Pelo meio, tive reuniões e conversas complicadas: accionistas, protocolos, pactos, bancos, planos e cenários. Tudo envolto em sigilo. Não sei bem se o meu reservatório de conversas complicadas e de segredos é infinito. Por vezes penso que já o excedi, que mereço tréguas. Mas depois vem aquele karma do caraças, o peso da responsabilidade, o pensar que há tanta gente a depender das decisões de quem não tem o direito de se mostrar cansado ou farto. Portanto, bola para a frente.
Ao fim do dia, quando fui para o jardim com a fera, ainda pensei levar um livro. Mas começava a escurecer e, de resto, ele não dá tréguas. Pensei que deveria deixá-lo à solta e ir lá para cima, sentar-me no cadeirão à beira da janela, e pôr-me a ler. Mas como ficar descansada longe dele no jardim se ele tenta comer tudo, seja o que for, que encontra?
A minha mãe repreende-me: Ó mulher, mas tu também não tens emenda, mal sais de uma, metes-te noutra. Que necessidade tinhas tu de arranjar já um cão?
Pois é, reconheço. Mas, ao mesmo tempo, é tão bom ter um amiguinho maluco.
Passamos a vida a referir-nos a ele como 'ela' e, volta e meia, tratamo-lo pelo nome da nossa boxer. Com tanta confusão de género, a minha filha já disse que o pobre ainda vai sofrer uma crise de identidade. E também já dissemos que o pobre cão ainda vai sair bicha, tanto o tratamos por menina.
Bom, adiante que se faz tarde.
A verdade é que sinto falta de ir para o campo. O campo em Outubro-rubro é daquelas maravilhas de que ninguém deve privar-se. Mas como a pequena excelência ainda não vacinada e com aquilo lá impossível de vedar completamente e onde bicheza de toda a espécie é o que não falta (cães, gatos, javalis, coelhos, cobras, etc), é um risco que, agora, não podemos correr. Espero que dentro de semanas, sim, possamos ir. Sinto mesmo falta.
Também sinto saudade de ir ao restaurante nepalês onde íamos tantas vezes. Que saudades. Só de pensar, salivo mentalmente.
Pequenos prazeres. Cada vez mais sou sensível aos pequenos prazeres.
Também íamos beber uns drinks e umas tostas muito boas numa esplanada na praia. Ao cair do dia, o sol deitando-se sobre as águas e nós ali. Em tempos também fumávamos. Lembro-me que gostava de ali estar, a olhar o mar, a beber uma bebida bem frequinha, a fumar. Tenho saudades também disso embora sem a parte do tabaco. Essa parte agora parece-me pré-histórica, absurda, coisa de mau gosto, poluição exterior e interior. Mas do resto tenho saudades. Tenho que voltar.
E não vejo a hora de levar a fera cabeluda, formatada para conduzir rebanhos nos montes, à beira do mar. Se for como a nossa cãzinha de boa memória, há-de correr de alegria. Prazer para ela e para nós, vendo-a feliz assim. Rebolava-se na rebentação, sacudia a água, feliz da vida, corria, corria, corria, depois vinha na nossa direcção, louca de contentamento. Não sei como vai ser com este cabeludo mas gostava que viesse a ser também um amante de praia, um companheiro.
E, pronto, calo-me já.
Ah, sim, é verdade. Só mais uma coisa. O meu menino mais velho acha que o nome que demos à fera é um nome maricas, de menina. Preferia que fosse Tobias. O meu menino mais novo ao princípio queria que fosse Manny. Ontem disse que, afinal, queria que fosse Kukas. A minha filha, por seu lado, inglesou o nome. Portanto, a questão da identidade do jovem continua em todas as vertentes, até no nome. Mas eu mantenho-me na minha. Ele é o cão que eu inventei. E tenho dito.
E é isto que aqui vêem. O meu tema agora não passa disto: eu e o meu little baby dog.
Vou pregar para outra freguesia para não vos maçar mais.
Como é sabido simpatizo imenso com a Marta Bateira, aka Beatriz Gosta. Acho que tem graça, é genuína, tem a língua afiada e o raciocínio rápido. E farta-se de rir o que é coisa boa de ver numa pessoa.
Depois da série da Beatriz Gosta embaraçada em que descrevia a transformação que ia observando no seu corpo à medida que a sua bebé ia medrando no seu ventre eis que começa a série Beatriz Gosta (des)embaraçada, começando com a descrição do parto.
Gosto de ouvir falar de nascimentos e gosto de ver imagens de partos. Tenho pena que os partos dos meus filhos não tenham sido filmados. Gostava mesmo. Foram momentos gloriosos mas eu, lá em cima, torcendo-me de dores, não consegui ver o surgimento deles. Isso, sim, deve ter sido maravilhoso. Um milagre.
Sem querer anestesias -- e com eles, grandes, subidos, sem descerem -- toda eu me sentia dilacerada. Dores, dores. Transpirava. A cama encharcada com a transpiração. Depois com as águas. Dores, dores. Das duas vezes, um dia inteiro de dores. Depois tirados a ferros. A sangue frio. Tinha pavor que, mais tarde, viesse a descobrir-se que as anestesias prejudicavam a saúde e o desenvolvimento das crianças. E achava que se os bichos, na natureza, têm partos naturais, sem anestesias ou ajudas, também eu haveria de tê-los. E tive-os.
E é como a Marta descreve: depois de horas a temer não resistir à violência das dores eis que, mal as crianças saem, todo o sofrimento se evapora e, como que por artes mágicas, ela -- tal como eu e provavelmente qualquer outra mãe -- fica apenas envolta em felicidade, em tranquilidade.
Estou agora curiosa com o que ela vai dizer do puerpério. Para mim também foi o pior. Ela não levou pontos. Eu, sim. Com aquelas tenazes a entrarem dentro de mim para puxarem as crianças, o médico, para evitar rasgões, cortou. Apesar de tudo, piece of cake quando comparado com o resto. Mas o puerpério com o incómodo vaginal, os pontos a picarem, tudo um bocado dorido, e, pior, com o leite a subir -- que a mim até me deu febre -- isso foi muito mau. Os peitos ficavam túrgidos, depois encaroçados, doíam até mais não. E depois os mamilos feridos. Qualquer deles puxava-os ao mamar, mas puxava-os com toda a força. Com o peito encaroçado, o leite se calhar não saía bem. Eles puxavam e eu torcia-me de dores, o peito doía demais, os mamilos sangravam.
Da primeira vez, fui à pediatra ao fim de poucos dias, antes da altura convencionada, porque já não me aguentava mais e receava que lhe fizesse mal o sangue que certamente ia junto com o leite. E as crianças têm cólicas, gritam, e lembro-me de se torcerem com dores das cólicas enquanto mamavam, ainda maltratando mais o peito. Na primeira vez, tinha vinte e três anos acabados de fazer: tudo era novo, tudo doía, tudo me preocupava com receio de não fazer bem. De lembrar que não havia internet para a gente poder informar-se em tempo real.
Mas, depois, ao fim de umas semanas, tudo se resolvia também: eles mamavam melhor, davam mais vazão ao leite produzido, o peito desencaroçava, os mamilos ganhavam resistência. Não sei se haverá mamilos mais resistentes que outros. Os meus são muito claros, de pele muito fina. Talvez, por isso, sejam mais sensíveis. Tenho sempre a impressão que quem os tem castanhos escuros e muito grandes deve padecer menos. Mas não sei, nunca tirei isso a limpo.
Mas, enfim, tudo passa e eu mal os incómodos passavam, logo os esquecia como se tudo fosse bom. Quando estava grávida do meu filho nem pensava sequer no incómodo que ia ser nem me ocorria que poderia ser tão doloroso quanto o da minha filha. E, tivessem as circunstâncias da minha vida sido outras, por exemplo se tivesse família por perto que me pudesse ajudar, teria tido certamente mais filhos. Trabalhava muito, na altura ainda andava de transportes públicas, Lisboa toda para atravessar, tudo longe e difícil, mal conseguia organizar-me para ir buscar um e outro, para chegar a horas, para não lhes faltar com o tempo, a atenção e dedicação que sempre foram a minha primeira e absoluta prioridade. No mínimo, gostava de ter tido três mas, na realidade, gostava mesmo era de ter tido uns cinco ou seis. Sempre me imaginei a ter uma catrefada de filhos, muitas crianças à minha volta. Se calhar, de cada vez que nascessem, iria ter o mesmo problema, o de não descerem facilmente, se calhar teriam que ser todos tirados a ferros e eu, de certeza, que ia sofrer horrores -- mas iria aguentar firme, logo me esquecendo das dores mal os tivesse em cima de mim, cheios de placenta, sangue e vontade de viver.
E estava a ouvir a Marta e a pensar nisto. Ela fala do que lhe custou mas toda ela irradia. Ela ri enquanto descreve o parto, ela ri enquanto fala das dores. Mas ri, feliz da vida. Já cá tem a sua Maria Luiza e isso é que importa.
Que sejam muito felizes, que a vida de ambas seja repleta de sorte e amor. E que a Marta, aka Beatriz, continue a divertir-nos com os seus relatos cheios de realismo e bom humor.
Um regresso muito aguardado: Beatriz Gosta já não está Embaraçada. Agora, reflete sobre esse festival gore chamado "parto". Se têm estômagos sensíveis e comeram bitoque malpassado, boa sorte.
Gosto muito desta mulher. É genuinamente divertida. Os vídeos da série Beatriz Gosta, embaraçada, onde vai mostrando a evolução do seu corpo, onde vai contando como está a reagir à gravidez, são épicos. As coisas que ela diz... Desta vez está numa sessão fotográfica onde mostra a barriga, os seios, onde mimetiza sessões de celebridades. O que ela ri...
Gosto imenso de Marta Bateira, aka Beatriz Gosta. Penso que gostaria imenso dela ao vivo, como pessoa, não apenas como personagem ou como comediante. Gosto. Simpatizo. É daquelas pessoas que acho inteligente, rápida no gatilho, boa pessoa, querida e, claro, com um fantástico sentido de humor.
Já várias vezes aqui esteve e espero que muitas mais venha a estar. Esta é uma casa em que será sempre bem acolhida. Quando no outro dia soube que estava grávida senti logo ternura por ela. Vai ser uma mãe fantástica, amorosa. Desejo-lhe as maiores felicidades.
Os vídeos abaixo mostram-na a contar como lá chegou e como se desforrou do confinamento.
Boa sorte para a Beatriz e para o rebento (e para o pai do rebento também, claro)
_______________________
E não esperem que me pronuncie sobre as futilidades do BE e sobre as incongruências do PSD a propósito do OE2021. Não merecemos. Ninguém merece. Ainda por cima numa altura destas.
E falo referindo-me aos outros que não a mim porque nunca me vi nessa situação. Aliás, já vi sim. Mas foi noutras vidas, noutros contextos. Assim, ir na rua e aparecer-me uma Beatriz Gosta ou outra vedeta de microfone em punho, isso nunca me aconteceu. Contudo, se bem me conheço, desviar-me-ia ou pediria escusa. Mas isso é o que imagino porque o que vejo é que a malta se disinibe, conta tudo, toda a malícia que se esconde debaixo de uma pele habitualmente bem comportada sai à cena. Não sei se, na vida normal, as pessoas já são assim, destravadas, brejeiras, emocionalmente soltas. Mas, na perspectiva de aparecerem na televisão, são capazes de surpreender o maior gabiru. E dá ideia que, mesmo os que não são emocionalmente selvagens, perante o microfone não se incomodam nada de mostrar que são apertadinhos, como se perdessem a timidez sobre a sua timidez.
Este vídeo é bem prova disto e não sei se é um curioso apontamento sociológico, se é um caso psicológico. Mas é uma coisa digna de ser ista. E, claro, é mais uma prova do talento da Beatriz Gosta.
No outro dia, um colega tinha um livro de Mindfulness em cima da secretária. Fiquei beige, como diz a Beatriz Gosta.
Beige. 'Mindfulness? What? O que é isto...?! Conte-me tudo!, mostrei eu a minha perplexidade.
Ele, todo fresco e fofo, tipo nem aí, limpou-se logo: 'Foi ali o nosso colega que me ofereceu' e apontou.
Ainda mais pasma fiquei: 'Jura? Mas quê? Ele acha que você tem que se encontrar...?'
E ele: 'Sei lá, você sabe bem que ele não é bom da cabeça.'
Não engoli. 'Mas ele já tentou a coisa, deu-se bem e recomenda? É isso?'
E ele: 'Acha...!? Se o efeito é o que se lhe vê, melhor nem começar a ler'
Não facilitei: 'Mi engana qui eu gosto. Então eu não tou a ver que tão aí uns quantos post-its? Já leu e achou tão impactante que marcou... e agora não assume... Lindo'.
Ele não desarmou: 'Foi ele. A sério. Assinalou passagens e diz que eu tenho mesmo que ler.'
E eu 'Ui. E já leu alguma?'.
'Eu não, mas leia, leia, e depois conte-me'.
E eu: 'Ná, não sou de fiar, sabe bem disso. Se eu ler, reprocesso e conto-lhe uma história toda ao contrário'.
E assim continuámos, ele sem se descoser e eu sem me aventurar, ou seja, ele a fazer de conta que mindfulness era coisa do maluco ali do lado e não dele e eu a duvidar daquela conversa toda e a querer perceber o racional da coisa. Mas bicha que é bicha sabe fechar-se em copas. Resutado: não pesquei nada, fiquei na mesma.
Dias depois foi uma amiga, mulher com idade já para ter juízo, que me disse que fez o percurso todo, oito semanas, mindfulness de a a z. E contou como lhe tinha feito bem e como já tinha recomendado a amigos e colegas. Tentei perceber o percurso da cabeça dela e, quanto mais ela falava, mais eu me apiedava. Mas disfarcei: as pessoas tendem a confundir cepticismo com arrogância. Mostrei-me, pois, interessada até porque, de facto, queria mesmo saber de que se trata: filosofia, teologia, terapia, mezinha, remédio para olho gordo, coisada em três actos, espécie de protecção de santo? Mas não consegui perceber.
Já contei: no outro dia, apanhei uma jovem atilada que me falou de como a meditação lhe faz bem. Tentei outra vez a minha sorte: mas é o quê? não pensar em nada? apenas estar atenta à respiração? actua como? desliga os neurónios quase todos e a pessoa fica como se tivesse dormido?
E pensei logo naquilo de me ter deixado dormir na primeira vez que tentei e de ter quase desmaiado na segunda. A mim estas coisas fazem-me, mas é, ficar esvaída. Tipo purga.
Na volta, isto é bom para quem vive stressado e não para pessoas que têm é falta de dormir mais, como eu.
Mas sou como a minha avó que a cada médico que ia queixava-se de tudo, mesmo que fosse de outra especialidade e mesmo que já estivesse a tratar-se. Tinha esperança que cada novo médico a quem falava das suas cenas lhe dissesse que não era nada daquilo, que tinha era que tomar outra coisa e que, com um médico subitamente por ela descoberto como milagreiro, teria a vida eterna garantida.
Eu também: a cada um que me diga que já fez mindfulness, ioga ou meditação, eu quero saber o que é, para que serve, não vá estar ali a solução para manter a eterna juventude e para a minha perene felicidade. Mas preciso de saber exactamente o que é, como funciona.
Conhecer o inner self? Dispenso. Tenho mais que fazer.
Dormir de olhos acordados? Se for isso, estou nessa.
Relaxar a mente e o corpo, namely a pele do rosto? Tira as rugas? É para já.
Mas ainda não descobri. Só me falam em coisas etéreas -- pensamento guiado, coisas assim -- nada que eu perceba em concreto.
Até que hoje assisti a um guru em acção. E fiquei varada.
A sério...!? É isto...?!
Courtesy of Netflix
Os professores de ioga vão numa destas? Aparece-lhes um maluco encartado destes, uma macacada sem ponta por onde se lhe pegue, um narcisista tarado, um abusador, e entregam-se ao que ele quer?
Vêem-se aquelas centenas de pessoas a monte, uma carneirada, um calor dos diabos, todos a fazerem as coisas que aquele alarve ali as manda fazer, todos a acatarem. Acefalamente, submissamente.
Courtesy of Netflix
São estes os professores que depois vão espalhar a mensagem da mindfulness como se de uma religião se tratasse?
A sério. Se é, vou ali e já volto.
Bikram Choudhury: ioguim, guru, predador (e podre de rico)
Ou, para se perceber melhor, um vídeo sobre a criatura mas na Dickipedia, a comprehensive wiki of dicks
E se quem está a ler isto acha que estou sob o efeito de cogumelos colhidos in heaven, pois que leia o artigo publicado no Guardian:
In recent years, there’s been a growing discourse on intense fitness classes – Crossfit, SoulCycle – as the new secular religion. But if there was one branch that pushed the envelope from religion to near-fanatic cultishness, it’s Bikram yoga, the 90-minute routine of 26 postures performed in a room heated to 120 degrees founded by Bikram Choudhury. Clad in his signature tiny black Speedo and tight ponytail, Choudhury lorded over an empire built on sweat, devotion and $10k a pop teacher trainings – and, as explained in a new Netflix documentary, sexual harassment, rape and maniacal control. (...)
Já no outro dia, em contraponto com a falta de graça e de respeito de Ricardo Araújo Pereira, falei na divertida Beatriz Gosta. Fiquei agora a saber que o seu verdadeiro nome é Marta Bateira, tem 36 anos, é designer de moda de formação, rapper e youtuber. Seja o que for, o que sei é que a personagem Beatriz Gosta tem mesmo uma graça muito irreverente e eu, que tenho fraquinho por gente doida, reconheço nela uma ganda maluca. E simpatizo.
Hoje tive um dia um bocado de cão, daqueles dias em que balanço entre também falar alto, se o tom da conversa se eleva sem que o teor seja elevado, ou dizer bye bye, por aqui me desbaldoque para este peditório já dei foi demais. E esta sexta-feira vai começar muito cedo e eu odeio reuniões logo à primeiríssima da manhã e, ainda por cima, o tema não é dos mais apelativos e, portanto, estou aqui também no balanço entre ir já dormir, que é o que devia, ou estar para aqui nisto, a queimar tempo.
E tinha aqui um poema lido por várias pessoas e tudo especial demais mas, desconcentrada como estou, achei que nem devia arriscar pôr o pé em ramo verde. Fica para outro dia.
Portanto, cansada, moída e já a antecipar o caldinho de daqui por umas horas, vou desculpar-me perante quem ontem aqui comentou por não dar responder e agradecer e vou despedir-me com mais um vídeo de Beatriz Gosta, um vídeo cheio de momentos francamente divertidos.
Não sei se é por viver a ter que resolver assuntos maçadores, entre gente que, de modo geral, se leva muito a sério betinhos bem comportadinhos, ou se é coisa mesmo minha, coisa de ADN, a verdade é que acho que a gente que faz a diferença é a que sabe cruzar os espaços com flashadas de irreverência e ousadia.
Aqui temos a fantástica Beatriz Gosta a pintar a macaca com a Rita Pereira, a Pipoca mais Doce, o Cláudio Ramos, a Leonor Poeira, o Cifrão, a Fátima Lopes e outras pessoas e, sobretudo, o José Alberto Carvalho. Vejam, por favor, até ao fim porque a atrapalhação dele, a timidez e a surpresa dele são hilariantes.
E queiram continuar a descer porque há coisas boas para ver
Em tempos que já lá vão, por alturas dos Gato Fedorento, eu achava piada ao Ricardo Araújo Pereira.
Depois perdi-o de vista e apanhava-o, de vez em quando, na rádio, tenho ideia que era às sextas-feiras na TSF por volta das sete, quando regressava a casa, ele no Governo Sombra. Até que vi que aquilo era sempre mais do mesmo, parvoíce em cima de parvoíce. Salvava-se o Mexia mas, ainda assim, era muito relativo pois no meio de muita parvoíce até o mais atilado se afoga.
Quando passou a dar na televisão a horas razoáveis ainda tentei ver. Impossível. O João Miguel Tavares atentava contra a minha sensibilidade: sempre no registo do popularucho bacoco, tentando graçolas e trocadilhos mas sempre básicos e parvos demais e, pior, obsessivamente agarrado ao Sócrates. Uma fixação doentia que, digo eu, mereceria uma ida ao psiquiatra. Pelo contrário Marcelo aprecia o estilo e guindou-o a comissário do Dia de Portugal, arruinando a reputação do Dia de Portugal. Mas, enfim, adiante que esse não é o tema de hoje. Voltando ao Governo Sombra: outro que também me causava brotoeja era o Ricardo Araújo Pereira numa acelerada deriva no sentido da alarvidade primária, do disparate, do populismo mais rasteiro. Portanto, também não consegui acompanhar.
Agora está creio que na TVI e, sem querer, apanhei-o de raspão um domingo destes. Uma vergonha. Não apenas o achei cobarde, coisa que se vem acentuando, gostando de achincalhar pessoas detidas e fragilizadas, como não consegui suportar a falta do mais elementar bom gosto. A boçalidade dos que gostam de saltar a pés juntos sobre os que estão caídos por terra sempre me incomodou muito.
Naquela contabilidade que há dias por aí vi e que confirmava o óbvio, que a gente de direita avençada pelas televisões supera a de esquerda, não sei onde encaixaram o RAP. Mas se não o puseram na direita espero que o tenham posto na secção dos tóxicos, dos que fazem mal à higiene mental, dos que não sabem o que é a elegância. Ou seja, dos que não sabem estar.
Em contrapartida, acho um piadão à Beatriz Gosta. A moça tem pinta. Tem graça. É espontânea. É irreverente. É truculenta. É divertida. É inteligente. É do povo, do povão. Desbocada.
Dir-me-ão: o registo é outro. Claro que é outro -- e ainda bem.
E, do que até hoje lhe vi, não ofende, nem as suas 'vítimas' nem a inteligência de quem assiste. Por acaso, do que tenho visto, aqueles contra quem ela investe até são os primeiros a desatar a rir.
Alguns exemplos das suas gostosas intervenções no 5 para a Meia-Noite.
-------------------------
E já cá volto que, já que o JMT me fez pensar no Sócrates, tenho uma coisinha a dizer.