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domingo, setembro 27, 2026

Reencontros felizes

 

Se grande parte dos dias podem ser bons apenas porque não são maus, outros há que são bons porque são mesmo muito bons. Felizmente não tenho de que me queixar, mas há situações que, mais do que serem-me agradáveis, são verdadeiros presentes da vida.

Toda a minha existência tem sido feliz, ou, pelo menos, boa, e cada vez mais penso que isso se deve, sobretudo, a ser descomplicada, a não querer saber do que me indispõe ou maça e a dar muito valor ao que me apraz. Raramente me aborreço com o que não tenho, raramente desejo o que sei que está fora do meu alcance. E digo raramente para não dizer nunca. Pelo contrário, contento-me com pouco. E também não quero saber do que dizem ou pensam de mim. E não é por arrogância, é mesmo porque nem me ocorre ligar a isso. Muitas vezes já aqui disse, e disse-o com sinceridade: acho-me muito básica, muito primária, quase ao nível dos animais que se dão por felizes com o que têm e que vão às estrelas quando recebem qualquer coisinha, em especial quando dada com afecto.

E este meu sábado foi mesmo muito bom. Não abano o rabo porque estou sentada a escever, mas, por dentro, estou toda sorrisos e agradecimentos mil. Reencontrei uma vez mais muitos amigos que vêm de um outro tempo, do tempo em que tínhamos todos o futuro inteiro pela frente. 

Imagem gerada pelo ChatGPT para ilustrar aquilo de que aqui falo

E bora lá com música:
In my life - The Beatles

O futuro agora é mais curto. Mas não interessa, tudo é bom enquanto dura. 

Senti a falta dos que não puderam ir e não pude deixar de sentir ainda mais dolorosamente a falta dos que entretanto partiram. Quando estive pela última vez com estes, os que entretanto partiram, não sabia que não haveria próxima vez, e eles, se calhar, também não. É muito triste que tenham sido levados. Parece que não faz sentido, que foi injusto, que eles não mereciam ser afastados da festa que pode e deve ser a vida.

Mas é o que é. E a vida continua. Por vezes faz sentido invocar alguns lugares comuns e este é um deles: a vida continua. E há que agarrá-la bem porque, como sabemos, é fugidia, tantas vezes traiçoeira.

Por isso, é com ambas as mãos que agradeço a vida que me habita, a vida que habita os meus, a vida daqueles a quem quero bem, a vida daqueles que me acompanharam quando eu era uma jubilosa menina e que agora, tantos anos depois, ainda partilham aqueles instantes de cumplicidade e empatia que parece que nos uniram para a vida.

Quando falo sobre estes felizes reencontros apetece-me sempre aqui falar, mais em particular, de alguns dos meus amigos. Num dos últimos assim fiz e, no dia seguinte, tinha uma mensagem de um deles. A filha tinha lido o que eu tinha escrito e percebeu que eu estava a referir-me ao almoço a que o pai também tinha ido. Ligou ao pai e ele logo descobriu o enigma. O blog é anónimo mas é escrito por uma pessoa com uma vida real e, por vezes, alguns apontamentos, sabe-se lá como, chegam a quem os consegue decifrar. E eu, mais do que surpreendida, fico feliz, quase como se fosse um milagre.

Desta vez tenho que reconhecer: contei à menina que me ofereceu a linda árvore que me foi dada como sendo da baunilha mas que, afinal, não dá baunilha mas, sim, umas delicadas florzinhas violetas que se alegram quando o sol lhes dá, que não apenas estou no instagram como tenho este blog. Por isso, para ela, o blog não é anónimo. 

Ao longo dos anos, aqui, ao recordar os meus tempos de menina e adolescente, várias vezes me referi a ela. Ela diz que, naquela altura, era tímida, apagada. As pessoas têm percepções de si próprias que muitas vezes não correspondem às percepções alheias. É o caso. Nunca a achei apagada. Pelo contrário, sempre a achei a mais bonita de todas e muito sincera, genuinamente boa pessoa, divertida, muito espontânea. Nós duas, em conjunto com uma outra, ríamo-nos imenso, achávamos graça a tudo, entre nós ríamo-nos dos traços pitorescos dos outros, imaginávamos situações divertidas. Não tínhamos segredos. Eu, pelo menos não tinha, partilhava dúvidas, amores, contava tudo o que sentia ou pensava, falava das minhas ideias, e sentia-me sempre acolhida por elas. Aos meus olhos ela não era nada apagada: era uma parte muito importante da minha vida.

Seguimos cursos distintos, eu saí logo de casa dos meus pais, só ia ao fim de semana, enquanto elas continuaram a viver em casa. Portanto, deixámos de nos ver. Não havia telemóveis, as comunicações eram complicadas para quem não frequentava os mesmos lugares. Arranjei novos amigos, casei, fui viver para outra cidade. A vida levou-nos por caminhos divergentes. 

Mas eu pensava muitas vezes nelas. Com uma ainda mantive algum contacto, ainda a visitei levando já a minha filha, ela também já com um filho. Com esta de que falo não. 

Por obra e graça de algumas almas generosas que fizeram o trabalho de formiguinhas, encontrando o contacto de uns e outros e fomentando a reunião, voltámos a encontrar-nos todos. Uma felicidade.

Com esta minha amiga -- a que se lembra de si própria como sendo uma menina tímida e apagada mas a quem recordo como luminosa e de uma inocência extraordinária, tocante mesmo --, voltei a sentir aquela compreensão que sempre senti. Parece que adivinho o que ela pensa, e solidarizo-me com tudo o que ela diz e pensa e sente. Mesmo quando ela, adolescente, se encantou por uma pessoa que a mim me parecia não reunir as características de príncipe encantado com que ela sonhava, eu compreendi. Eu olhava para ele e pensava que ele não seria o amor para a vida inteira com que ela sonhava, e tinha pena, mas, ao mesmo tempo, percebia o que nele a encantava: a subversão, a suprema irreverência, a ideia de liberdade. E, por isso, tenho ideia que não fui capaz de lhe dizer o que achava dele, dizer que não fosse por aí, pois pensava que, se calhar, apesar de não ser para a vida toda, enquanto durasse talvez a fizesse feliz, e essa felicidade não lhe deveria ser negada. E quando a felicidade, mesmo que incompleta ou breve, dá frutos, então, claro que vale a pena. Que se esqueçam as desilusões e que se louve a felicidade dos frutos que o romance fez nascer.

O tempo passou, as nossas vidas andaram para a frente. Percursos diferentes. Mas, dentro de mim, ainda sinto que, se ela precisar, estarei lá para ela. Sempre, incondicionalmente.

Também me apetece falar de uma outra, amiga um pouco mais tarde, mas muita amiga nos tempos de faculdade. Alegre, alegre, brincalhona, por vezes truculenta, tiradas divertidas, por vezes com uma deliciosa malícia. Cumplicidade também total. Acompanhou os meus animados tempos a nível amoroso, brincava com isso. Nunca tive segredos com ela. Sabia das minhas dúvidas, da minha queda cada vez mais fatal por um e pelo meu desligamento cada vez mais irreversível de outro. Assistiu a tudo. Ainda me lembro de estarmos as duas, eu à espera de um, e ela anunciar com sobressalto na voz: 'Olha! Ele vem aí!', como se estivesse a avisar-me que o outro tinha aparecido, e eu, em pânico, a pensar que a coisa ainda ia dar para o torto, os dois frente a frente. Depois ria-se do susto que me tinha pregado. Continua igual. Brincalhona, leve, leve, amiga da boa disposição.

E talvez amanhã fale de outras duas. Não hoje que o texto vai longo. 

Só lhes desejo bem, a todas. A todas e a todos, que nisto, como em nada na vida, não sou sexista. Que tenham saúde. Que a vida lhes corra o melhor possível. E que por muitos e bons anos continuemos a encontrar-nos, a gostarmos de estar uns com os outros.

E, de resto, talvez não seja preciso muito para sentirmos momentos de felicidade, talvez baste apenas reconhecer como felizes estes momentos em que nos sentimos bem.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, setembro 15, 2026

Muito ruído e alguma substância

 

É sempre assim. Penso que o meu corpo segue a racionalidade que procuro ter. Mas não segue. Sabendo que tinha que me levantar cedo, fui para a cama sem estar a dormir em pé, que é como gosto de me deitar. Pus o despertador. Vi que nem seis horas de sono. Mas menos mal se as dormisse. Claro que não dormi. Acordada até começar a perceber qiue o dia já dava mostras de querer levantar-se. Daí por um bocado, o despertador.

O meu marido ouviu-me na casa de banho e foi dizer-me que ia sair para o passeio matinal do dog e que só entraria depois dos homens terem entrado. Pouco depois, os homens. Carregaram coisas e coisas e começaram a trabalhar. Entretanto, o meu marido chegou e sitiou a fera.

Nos trabalhos, o costume: imprevistos, coisas técnicas, queriam falar com o meu marido. Não percebo metade, apenas que tem que ser.

No fim, à tarde, quando se vão embora vejo lá fora uma coisa horrível. O meu marido diz que com tinta se disfarça. Não creio. Deveria ter acompanhado e dito que não. Só que, nestas coisas, me afasto, não tenho paciência, cada um dá sua opinião e nenhuma me agrada e, a bem dizer, não percebo bem o que dizem. E eles também não estão interessados na minha opinião. Mesmo cá dentro, ao ver o resultado, penso: mas porque não ficou centrado? O meu marido diz que foi para aproveitar as furações e que assim também não está mal. Está. Podia ter ficado melhor. Ele diz: não vale a pena, não há nada a fazer.

Fico arreliada. Um dia inteiro de irem ao carro, depois irem buscar material, depois vão almoçar, depois desliga o quadro, depois liga o quadro, depois, 'minha senhora, podemos falar com o seu marido?' -- e, lá fora, o cão permanentemente a ladrar, um chinfrim do caraças, alto e bom som, ininterruptamente. A cabeça feita em água, uma vontade de que se despachem e se vão embora.

Mas, no meio, um telefonema bom, como se nos falássemos todos os dias quando passam anos ou meses sem nos falarmos. Mas, de cada vez, é como se estivessemos a retomar a conversa do dia anterior. Conversa boa, fluida, animada e franca como sempre foi. No fim, ao contar ao meu marido, ele diz: 'estás a falar como se fosses ela'. O sotaque dela cola-se-me, falo e quase parece que é ela que está a falar através de mim. E quase adivinho o que ela vai dizer. Contava-me o que uma outra lhe tinha dito e eu, ao ouvir, reagi com um comentário. E ela, 'foi isso mesmo que eu lhe disse'. E as nossas interjeições são iguais. Uma amizade que vem do século passado.

Depois, uma troca de mensagens com uma outra. Conta-me o que tem andado a fazer, um trabalho meritório. A minha prima disse-me dela: 'tem um feitiozinho... por causa dela muita gente deixou de trabalhar lá, fugiram para não ter que a aturar'. Não me admiro. Tem mesmo um feitiozinho, sempre teve. Muita gente não gosta dela. Mas eu gosto de conversar com ela, e, de longe, por vezes trocamos longas mensagens, conversas interessantes, fora dos temas correntes. É culta, informada, viajada. Não foi feita para ser consensual, parece que leva tudo muito a peito, que analisa as coisas sem que o coração interfira. Não sei, não sei bem dizer o qu elhe acho. Mas gosto de conversar com ela e ela diz que gosta de conversar comigo. As outras dizem-me: 'gabo-te a paciência'. Mas não preciso de paciência. Há pessoas que não nasceram para serem afectuosas, e isso não tem mal. É casada e tem filhos pelo que provavelmente há momentos em que consegue sentir e demonstrar afecto. De qualquer forma, ela age a pensar no bem dos outros. Apenas o faz de uma forma científica, talvez distante, não sei. Nunca soube interpretar.

E, no meio da confusão cá em casa, ainda tratei de muitas coisas. Ao fim do dia, depois de termos arrumado a casa e posto tudo no sítio, fomos passear para a praia. E soube-me maravilhosamente. Olhei o mar, olhei as pessoas, fotografei. Sempre o mesmo encantamento. Parece que me descansou a cabeça.

Esta segunda-feira, ao fim da tarde

Depois de jantar, sentei-me no sofá e tive que fazer um grande esforço para não adormecer.

Penso nos dias em que tinha que sair de casa antes das 6 para ir ter reuniões às 9 da manhã a trezentos quilómetros de distância. E metia almoço, muitas vezes visitas ou continuação de reuniões na parte da tarde e chegava a casa por volta das 9 ou mais da noite, perdida de cansaço para no dia seguinte a labuta continuar. E isto, nos últimos anos, depois de me deitar à uma e tal ou duas da manhã para estar a escrever no blog. E aguentava. Caraças. Aguentava. Não sei como, mas aguentava. 

Hoje, não sei se foi da agitação cá em casa, se do cão a ladrar que nem um perdido por imaginar que o seu rebanho estava à mercê de perigosos predadores e ele sem poder acudir, se por quê, estou assim a modos que ko. O meu marido disse que estava com vontade de cascar no Fanã, que só faz porcaria atrás de porcaria, agora isto de tanta criança sem lugar na escola, mas depois disse que estava com sono, mas que achava que eu devia escrever. E eu disse que escrevesse ele porque eu estava com sono para escrever o que quer que fosse. Não quis, disse que tinha que ir dormir. E eu estou na mesma, não consigo, também tenho que ir dormir.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Impermanências

 

Estava a ver o vídeo aqui abaixo e a pensar que  Karin Andersen, sobe quem é o vídeo, me faz imenso lembrar uma antiga colega minha. Muito este género. Nunca se destacou muito, creio que dela nunca a ninguém ocorreria dizer que era extraordinária. Apesar de ser alta, na altura era a mais alta de todas, quase não se dava por ela. Sei hoje que, na verdade, tinha um ou dois anos mais que eu, que quase todas as daquele buliçoso grupo. Sempre gostei imenso dela. Mas imenso. Muito boa pessoa, muito tranquila. Nunca foi de intrigas, longe, longe disso, não se metia em aventuras, creio que os rapazes não se derretiam por ela, tenho até ideia que não era daquelas que era convidada para a maioria das festas. Pelo menos, não me recordo de a ver por lá. Também nunca me recordo de a ver numa excitação para saber se este ou aquele também iriam. Se calhar porque ela, própria, não ia. Não era esse género. Eu era. Eu era tudo. Pelo menos assim me lembro de mim. Eu inventava o que fazer, tinha ideias, pregava partidas, apaixonava-me, apaixonavam-se por mim, pensava nas roupas, inventavas roupas, queria pintar os olhos, queria tudo, queria combinar ir ao cinema, ir passear, pentear o cabelo de outra maneira, sonhar acordada com tudo e mais alguma coisa. Tudo. Ela, do que me lembro, era o meu oposto. Não sei o que pensava ela de mim. Eu gostava tanto dela. Parecia uma parede fresca à qual eu poderia encostar-me e refrescar a minha sempre alta temperatura, parecia um jardim onde eu poderia ficar sem dizer nada, parecia ser uma permanente presença de amizade. 

Quando a reencontrei, vi-a igual. Tranquila. Quase distante. Vive num outro comprimento de onda. Faz a sua arte, viaja, frequenta espectáculos, cinema, espaços em que a natureza é virgem, em que não há temas de partidos políticos, em que não há espuma. Eu falo, pergunto, tenho vontade de saber. Ela escuta, tranquila.

Nessa longínqua altura em que pouco ou nenhum pronto-a-vestir havia, eu queria usar calças e procurava em todas as lojas, e encontrava, feias (face ao gosto de hoje) mas encontrava, eu queria usar biquini e quase não os havia e eu, e outra grande, grande amiga, procurávamos ansiosamente, e isso mobilizava-me, e depois comprámos, uma vitória, o meu pai passado com a minha ousadia, e eu feliz por conseguir o que queria. Do que me lembro este era o género de coisas para os quais ela não estava nem aí. E se ela assistia a esta minha maneira de ser, não faço ideia do que pensaria. Talvez também não estivesse nem aí e nem se apercebesse disso.

Qualquer coisa nela sempre me pareceu meio transcendente. 

Tenho ideia de que nunca a vi emotiva como aqui abaixo a Karin Andersen está. Mas com certeza terá os seus momentos. No entanto, quando penso nela parece que a imagino como também sempre acima dessas transitoriedades, parece que a imagino como parte da natureza.

É curioso. 

Hoje, quando a vejo, acho que é das mais modernas de nós todas. Veste-se de uma maneira sui generis, penteia-se, usa uns colares que são diferentes, que parece que fazem sentido nela. Zero aparatosa, zero chamativa. Pelo menos, deliberadamente. E, no entanto, vê-se a milhas que é alguém diferente. Pelo menos, eu acho.

Quando mostrei as fotografias, a minha filha apontou-a e disse: 'esta tem pinta'. É isso. Tem pinta. Não se parece, nisso, com a Karin, que é mais simples. Mas a Karin, sendo uma mulher simples, também atrai pela sua simplicidade, genuinidade, também, certamente, se distingue por não se enaixar em modas. E esse desencaixar é a forma como as pessoas assim, boas, generosas, francas, afáveis, se destacam. Quem quiser um porto seguro pode sempre ir ter com pessoas assim. Não censura, não julga, parece até quase nem querer saber. Mas está presente. Sabe esta presente.

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Às vezes gostava de lhes dizer que tenho este blog, mas depois penso em dias como hoje: se soubesse que ela iria ler, seria capaz de escrever com a liberdade de movimentos com que estou a escrever? Não sei. Talvez tivesse receio de embaraçá-la. Mas, por outro lado, também gostaria de retribuir em palavras toda a gentileza que sempre vi nela. Nela e em todas e todos sobre os quais gostaria de escrever. Tenho tão boas memórias. Sou tão grata.Não faria sentido que eles soubessem isso?

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Gostei imenso de ver o vídeo que aqui partilho, talvez um dos que alguma vez mais gostei, desta série da Reflections of Life. Não apenas a Karin me faz lembrar a A., como, sobretudo, me identifico com muito do que ela diz. Gosto das palavras que usa. Percebo a emoção dela, sinto o que ela sente, em particular quando fala da perda da mãe e da falta que ainda sente, e da presença que ainda sente -- e como pensa que talvez isso nunca passe.

Por que razão o extraordinário é sobrevalorizado

Ninguém percorre a vida completamente sozinho. Somos moldados por aqueles que caminham ao nosso lado, por aqueles que vieram antes de nós e até por aqueles cujas vidas se cruzam com as nossas apenas brevemente. De formas visíveis e invisíveis, acompanhamo-nos uns aos outros pela vida.

Estar presente para alguém não significa repará-lo ou mostrar-lhe o caminho a seguir. Muitas vezes, significa simplesmente dar-lhe espaço para ser quem é. Existe um profundo conforto em ser verdadeiramente conhecido e aceite, sem sentir que precisamos de esconder partes de nós próprios ou de nos tornarmos outra pessoa.

E esta ligação não termina necessariamente quando alguém morre. Aqueles que amamos permanecem nas nossas memórias, na forma como vemos o mundo e, por vezes, até no rosto que nos encara ao espelho. Transportamo-nos uns aos outros connosco e talvez seja por isso que, mesmo nos nossos momentos mais solitários, nenhum de nós está verdadeiramente sozinho.

Com Karin Andersen.

Filmado na região de Overberg, África do Sul.

[Poderão activas as legendas em português] 


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, agosto 31, 2026

Breves e soltinhas

 

1º acontecimento

Ontem aconteceu uma coisa que me alegrou bastante. Com sol não consigo andar sem óculos escuros. Não é só o facto de a luminosidade intensa me incomodar, como, sendo eu míope, os óculos são graduados. A minha miopia reduziu-se, é baixa, mas, ainda assim, fico mais confortável usando-os a eles e não uns não graduados. Uso-os há bastante tempo, gosto da armação. São simples, mas sinto que me assentam harmoniosamente. Tenho uns outros, mais fashion, de que também gosto, mas não são tão versáteis e, sobretudo, tenho receio do prejuízo se os perder. Nestas coisas sou muito controlada. Por isso, só os uso quando vou a algum lugar especial. Manias minhas.

Pois bem. Fui ao ginásio, cheguei lá e guardei-os na mochila. Saí de lá, como sempre coloquei-os. Depois do almoço fui sair e não os encontrei. Corri tudo. Nada. No entanto, quando chego a casa, de forma mecânica, descalço-me, pouso o telemóvel, as chaves e os óculos no mesmo sítio. Portanto, não conseguia perceber como poderiam os óculos ter-se evaporado. Mas nada. 

Tive que levar os óculos de reserva. Quando regressei a casa empreendi nova busca: virei e revirei tudo, mesmo os lugares mais improváveis. No dia seguinte continuei à procura, revirando o que já tinha revirado. Já estava a achar que me tinham voado da cara, quando vinha do ginásio.

Pois bem, ontem de tarde pensei: só posso ter feito um movimento não usual e, no acto, impensadamente, pousei-os sem dar por isso. E tendo pensado isto, como se fosse guiada, dirigi-me ao aparador da sala de jantar e levei a mão ao naperon, junto à taça que está a meio. Tal e qual, Teleguiada. E a mão foi pôr-se em cima dos óculos. Fiquei espantada e felicíssima. Ele há coisas, disso não há dúvidas.

Depois, recordei-me: tinha visto que uma bandeja com umas peças que, em vez de estarem no aparador, estavam numa mesinha de apoio. Tinha sido, no almoço de aniversário da minha filha, que, para colocar as bebidas, se tinha retirado parte do que estava no aparador. E, por algum motivo que não atinjo, corrigi o facto quando ainda estava com os óculos. Não consigo perceber pois, sempre, s-e-m-p-r-e, tito os óculos mal entro em casa, tal como pouco as chaves e o telemóvel. Mas não há dúvida: os óculos estavam ali. E encontrei-os, e isso é que interessa.

2º acontecimento

E hoje tive uma fantástica surpresa. Andava a ver como está frondoso o meu diospireiro. Apesar dos calores e de temporadas sem ser regado, está verdejante, farta folhagem. Já por diversas vezes pareceu estar ás portas da morte e o meu marido, como sempre, já o quis cortar não sei quantas vezes o quis cortar dizendo 'não está aqui a fazer nada'. Mas eu não sou fatalista, acredito em milagres. A forma como rejuvenesceu e se revitalizou é um fenómeno. Há uns meses deu uns belos dióspiros, que me consolaram. E estava eu a filmá-lo e ia contar que na última vez que aqui tínhamos estado, me cheirou a dióspiro e vi um no chão e um, todo madurinho, que de imediato comi. Já nessa última vez estavam a nascer fora de época. Mas não cheguei a contar isto porque dei com outro. Ainda verdinho e rijo, ainda pequeno. Ora, que eu saiba, já passou a época deles. E nisto começo a ver outro e mais outro e mais outro. O diospireiro está carregado de dióspiros. Nunca teve tantos. Mas reparem: jáé a terceira vez este ano que isto acontece. Juro, não sei que fenómeno é este.

Só me lembro de uma tia do meu marido, uma muito, muito queridíssima, por vezes lembro-me dela e custa-me a crer que já não exista. Tão alegre e querida que era. Uma vez estava cá e ela viu uma pereira pequena com umas quantas peras grandes. E eu disse: 'quando para cá viémos, estava tão raquítica, parecia que não ia vingar, e agora desatou a dar peras'. E ela riu e disse: 'as árvores percebem quando lhes querem bem'. Nunca mais me esqueci. Quando vejo a forma desabalada como tudo aqui cresce, neste terreno pedregoso, e como tudo fica carregado de fruta, penso nisso. Será que sentem que eu adoro tudo isto, que adoro a natureza, que me encanto com as árvores, com os frutos? Não sei, não tenho como saber. O que sei é o que constato.

A chatice é que ainda estes dióspiros, fruto que está entre os meus preferidos, estão pequenos e verdes. Impossíveis de comer. E quando regressarmos, já terão caído. Tenho que avaliar ainda  qual a melhor opção. Por mim, ficaria aqui a vê-los fazerem-se maduros, bons para virem passear dentro de mim.

3º acontecimento

Devo ainda actualizar a situação do meu cabelo. Os meus dilemas nunca duram muito. Aliás, encaminham-se rapidamente para a resolução mal falo deles. 

No dia seguinte, pensei que só um problema sem solução (se é que é um problema, diga-se). Ou seja, o magno problema do rabo de cavalo não tem que ser incompatível com um encurtanço considerável do tamanho do cabelo. Nada que não se resolva com engenharia. Engenharia capilar, mais propriamente. Então peguei na grande massa de cabelo e prendi-a em cima com uma mola das grandes. Depois puxei os cabelos de baixo, junto à nuca, para fora da mola, Tirei uma boa quantidade deles. Prendi-os, resguardadamente. Ao cabelo sobejante, apanhei num rabo de cavalo alto. Peguei nele e com a tesourona da cosutura, que é grande e corta bem, e pimbas, lá vai disto. Um pedação valente. Voltei a soltar tudo, o cortado e o resguardado. E voltei a fazer um rabo de cavalo. Funcionou, consegui, os cabelos de baixo chegaram até ao elástico lá em cima. O rabo de cabelo agora já está bem mais pequenino, nada que se pareça com o que estava, mas não está mal. Depois soltei o cabelo todo e vi como ficava. Bem. Acertei umas pontas para ficar igual dos dois lados. Como tenho muito cabelo, disfarça tudo. Claro que o meu marido ainda nem reparou. E quando lhe perguntar vai dizer que está igual. Só repararia se eu o rapasse à escovinha. Mas, pelo menos, já não vai achar que o cabelo está anos 80.

4º acontecimento

Não é um, são vários. Várias, melhor dizendo. 

As minhas azinheiras estão cada vez mais lindas. Lembro-me bem de quando eram umas moitinhas informes e eu persistia em podá-las para elas ganharem forma de árvore. Foram crescendo, nós ajeitando, e elas retribuindo o nosso cuidado. Estão gigantes, dão uma sombra maravilhosa. E eu deleito-me a olhar para elas. Sentada num banco de pedra, ao pôr do sol, tudo dourado, uma temperatura amena, uma aragem leve, pensei que poder estar aqui a ver e sentir tanta beleza e tanta paz é um privilégio que não tenho como agradecer.


5º acontecimento

Ontem à noite, lembrei-me de tentar descobrir nas redes sociais uns amigos com quem nos dávamos muito na nossa juventude e com quem acabámos por perder o contacto quando os filhos, adolescentes, já tinham, cada um, programas para seu lado. Ora eram namoros, ora eram provas desportivas, ora tinham teste, ora tinham uma festa -- sempre tanta coisa que era impossível encontrar um dia, ao fim de semana, em que todos estivéssemos disponíveis. Progressivamente a coisa foi-se espaçando até que se espaçou de vez.

Encontrei aquele que era o mais popular. Está igual. Ficámos contentes. O meu marido disse logo: 'Manda-lhe uma mensagem, manda-lhe o número, diz qu enos ligue'. Mas reparámos depois que não mexe naquilo há já uns anos, portanto já nem deve ir ver. Vi, lá, os filhos. A mais crescida, da idade do meu filho, já com filhos e um marido já com cabelos brancos; o puto, que era pequenino, já um homem, parecido com o pai, e a mais nova, a que nasceu quando a minha amiga se julgava na menopausa e já de cinco meses ainda andava preocupada por achar que não andava bem do estômago, já uma mulher. Deles, saltei para uma outra nossa amiga, uma bacana. Também muito parecida com o que era. Mais velha, claro, e loura, jamais a imaginaria loura, mas, apesar disso, parecida, o mesmo sorriso. E estávamos a olhar para ela no meio de um grupo em que não reconhecemos mais ninguém, e a dizer que o tempo passa mas que até a tinha poupado. E nisto, ao mesmo tempo, reparámos melhor no velho ao lado dela. Não saltei porque estava sentada. O meu marido apenas soltou um lamento: 'É pá...', desconsolado de todo. Eu nem queria acreditar. Era mesmo ele?!?!? Sim, vendo bem, era mesmo. O velho era o marido, nosso amigo. Mais gordo, mais velho, outro, irreconhecível. Só pensei: 'será que, aos olhos dos outros, nós dois também estamos assim...?'. 

Caraças. O tempo, às vezes, é uma coisa do caraças, mesmo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, março 19, 2026

Conversar, ouvir

 

Quando estou com alguma das minhas amigas mais antigas, mal nos vemos desatamos a conversar como se não tivesse havido tempo de permeio. Aquelas com quem mais gostava de estar em miúda continuam a ser aquelas de quem ainda mais gosto. Não são iguais a mim. Cada uma delas tem coisas que vão quase em sentido oposto ao que eu sigo. Mas, ainda assim, nas nossas diferenças, entendemo-nos. Gostamos de ouvir as opiniões umas das outras. Para quem não tem problemas de maior, conversar assim deve ser tão bom e tão válido como fazer terapia. Tudo o que alguma de nós diz não encontra espanto ou censura nas outras, encontra aceitação, vontade de compreender. Não há vergonha nem inibição.

Nunca fiz terapia, nunca senti necessidade. Pelo contrário, gosto é de ouvir as outras pessoas. Já contei muitas vezes este fenómeno: sem que me conheçam, as pessoas desatam a falar-me da sua vida. Sempre assim foi. Mesmo agora no ginásio isso acontece. Uma companheira, digamos assim, com quem lá me cruzo com alguma frequência, quando estamos as duas ao lado uma da outra, conta-me tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida. No fim, já despachado, o meu marido fica à minha espera no sofá, a ver televisão, pois a conversa costuma demorar. Nem sei o nome dela nem ela o meu, e no entanto sei como se chamam o marido e os ex-maridos, sei porque se separou dos ex, sei o que a encanta no actual, sei dos desaires da filha, sei de muita coisa. E a sensação que tenho é que mal abro a boca. O meu marido costuma dizer, ao ver como as pessoas se abeiram de mim e desatam a falar: 'se não desses conversa, a ver se a conversa durava tanto...' Mas a conversa que ele diz que dou não é nenhuma, limito-me a ouvir com atenção, eventualmente faço uma ou outra observação. 

Quando no fim do outono passado almoçámos passámos a tarde com uns amigos, alguns com quem já não estava há bastante tempo, para o fim, um que é muito conversador desatou a contar-me coisas. O meu marido sentou-se num banco, incapaz de acompanhar. Mas um outro que estava também sentado nesse banco, levantou-se e veio mostrar-me umas fotografias, de certa forma interrompendo a conversa do outro. E eram fotografias de uma mulher muito bonita, que ele mostrava embevecido. Eu não a conhecia. Disse-me depois que era a mulher, que tinha morrido há uns dois ou três anos, salvo erro e que eu nunca tinha conhecido. Vi que continuava apaixonado por ela. Ora ele estava lá, naquele dia, com a namorada, namorada essa que, quando me tinha apanhado sozinha, também me tinha estado a contar toda a sua vida e como, agora, com este namorado, continuava a morar cada um em sua casa, tanto mais quanto, em casa dele, havia fotografias da mulher por todo o lado. Então, quando ele estava a mostrar-me as fotografias da mulher, linda, eu estava a modos que meio desconcertada por ver como, se calhar, ele ainda não estava preparado para estar a viver um namoro quando ainda se derretia todo a mostrar fotografias da mulher. Claro que não disse nada, não apenas porque o meu outro amigo, que este tinha interrompido, estava à espera que ele acabasse para retomar a conversa, como o meu marido não parava de me fazer sinais para nos irmos embora.

Quando chegámos ao carro, queixou-se do que se queixa sempre, que me deixo ficar a ouvir as pessoas, que não percebo que, se não as interromper, as pessoas não se calam. E eu, de certa forma, até concordo: as pessoas começam a falar comigo e não param de falar, e, por isso, custa-me desligar-lhes o botão. Pergunta porque é que não faço como ele. Respondo que não faço porque não sou capaz. Ele desliga. Ora como posso fazer isso com as pessoas a confidenciarem-me sobre as suas vidas?

Disse lá em cima que nunca fiz terapia, e é verdade. Mas, quando a minha mãe estava internada, nos Cuidados Paliativos, as médicas disseram à psicóloga que achavam que eu precisava de apoio e, então, ela procurou-me. Falei com ela, não me recordo se duas ou três vezes e foi muito útil, gostei bastante, ajudou-me. E, naquela altura em que eu estava meio perdida, desorientada, quase sem saber interpretar o que estava a acontecer e a querer que tratassem a minha mãe em vez de tentarem convencer-me que já não havia nada a fazer, foi bom ter alguém a fazer-me perguntas, a ouvir-me, a ajudar-me a interpretar. Lembro-me que desatava a chorar e que ela me dizia que era natural que eu estivesse assim, e continuava a falar como se, de facto, a minha reacção fosse normal, dizia que era normal eu estar até quase revoltada por a minha mãe ter escondido tudo e estar, até ao fim, a fazer de conta que não sabia o que tinha, deixando-me sem saber como agir.

Estávamos sentadas ao mesmo nível, ela num sofá, eu num outro, perto uma da outra. 

Não sei se funcionaria se eu estivesse deitada num sofá e ela sentada, num nível mais elevado. Não sei. Não sei se uma pessoa deitada, se abandona, se se expõe mais facilmente. Não sei.

Aqui à noite, sem televisão ligada, vou vendo o que o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. E tenho gostado de ver as conversas de algumas pessoas interessantes, deitadas no sofá, com a anfitriã, sentada num outro plano. Com uma câmara apontada ao rosto, sabendo que a conversa está a ser gravada, não sei se conseguiria desinibir-me e conversar sobre tudo. E, mesmo pondo-me no papel de quem ouve o que outra pessoa fala sobre a sua vida, não creio que me sentisse confortável estando o outro ali deitado no sofá. Mas, se calhar, funciona. Pelo menos, aqui, como abaixo poderão constatar, funciona.

Neste caso a conversa é com Helena Bonham Carter, que admiro bastante, é uma excelente diseur e uma excelente actriz. E quem conduz a conversa é Bella Freud, filha do pintor Lucian Freud e bisneta de Sigmund Freud. E divertem-se imenso, a conversa é gostosa. E falam com vagar, o que é muito bom. Conversar requer tempo, disponibilidade.

Helena Bonham Carter fala sobre traseiros proeminentes, androginia e a Princesa Margarida | Fashion Neurosis

Helena Bonham Carter é uma atriz inglesa. Conhecida pelas suas interpretações de mulheres interessantes e singulares, alcançou a fama ao interpretar Lucy Honeychurch em Um Quarto com Vista, em 1985, e a personagem-título em Lady Jane, em 1986. Em 1999, Bonham Carter rompeu com a imagem de "rosa inglesa" ao interpretar a mulher fatal Marla Singer em Fight Club. Interpretou a malévola bruxa Bellatrix Lestrange na franquia Harry Potter e, mais recentemente, a Princesa Margarida em The Crown, papel pelo qual foi nomeada para vários prémios. Helena vai protagonizar uma nova adaptação de Os Sete Relógios, de Agatha Christie, para a Netflix em janeiro de 2026.

Helena Bonham Carter tem dois filhos com o realizador Tim Burton. Conheceram-se em 2001 no set de O Planeta dos Macacos, e o casal colaborou em sete filmes, incluindo A Noiva Cadáver e Alice no País das Maravilhas, até à separação em 2014.

Conhecida pelo seu amor por calças abalonadas, saias compridas e estilo vitoriano, Bonham Carter lançou a sua linha de moda, The Pantaloonies, em 2006. Protagonizou campanhas para Marc Jacobs e Prada, e citou Vivienne Westwood e Maria Antonieta como as suas inspirações de estilo.

Bonham Carter recebeu um prémio BAFTA, um Critics' Choice Movie Award, um Emmy Internacional e três prémios do Screen Actors Guild, além de ter sido nomeada para dois Óscares, nove Globos de Ouro e cinco Primetime Emmy Awards. Foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) na lista de Honras de Ano Novo de 2012 pelos serviços prestados ao teatro.

Neste episódio de Fashion Neurosis, Bella Freud e Helena Bonham Carter discutem sobre roupas andróginas, rabos proeminentes e a palavra "vagina" como o novo elogio.

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Boas conversas

Dias felizes

quinta-feira, outubro 16, 2025

Fazer graça com qualquer coisa

 

Tenho um amigo que está sempre a enviar-nos piadas, vídeos engraçados, anedotas de toda a espécie. Toda a gente o acha o maior dos pândegos. Ao vivo, sempre que a ocasião se proporciona, sai-se com uma. Na maior parte das vezes, rio-me não da piada em si mas do despropósito, da inconveniência, da inoportunidade. Vejo que ele fica contente quando nos vê a rir e não acredito que se aperceba de que é que nos estamos a rir. Mas estou a falar no plural e devia falar só em mim pois eu sei porque é que rio mas não sei porque o fazem os outros. Se calhar, riem-se da piada em si.

Acresce que aquela sua falta de sentido de oportunidade vale para tudo, para o humor ou para o drama. Há tempos, num jantar, a mesa cheia, eu de um lado da mesa e ele lá ao fundo, chama-me para me perguntar se me lembro de fulano de tal. Digo-lhe que sim, claro. Então, inopinadamente começa a falar-me dele, do seu feitio que foi ficando cada vez mais difícil, que volta e meia tinha coisas que deixavam os outros de cara à banda, tal o excesso, coisa à beira da histeria. Numa dessas vezes, ao ver-se no meio daquelas reacções furibundas, ocorreu perguntar-lhe se já alguém o tinha mandado fazer um tac à cabeça. O outro, muito espantado com o despropósito da pergunta, até esfriou o assomo em que estava. E ele, ali mesmo, lho prescreveu. Pois, imagina tu, contou-me ele lá da ponta da mesa -- uns estupefactos com a conversa, outros nem se apercebendo e continuando na deles -- que tinha mesmo um tumor. Eu de boca aberta, nem sei se pelo diagnóstico se pelo despropósito daquilo. Indiferente à minha reacção e à dos que estavam a prestar atenção, continuou descrevendo a localização do tumor, inoperável, estás a ver, ali não dá para mexer, e o que aquilo era, oh pá, um tamanho..., continuou ele. Eu sem saber se era suposto manifestar o meu desgosto pela pouca sorte da localização do tumor do outro nosso amigo, se o meu espanto por aquilo estar a vir à conversa, ali, naquele momento, a meio de um jantar, sem vir a propósito de nada. Mas ele continuou com a minúcia de quem ficou também transtornado com a pouca sorte do amigo: e espalhado, espalhado. E continuou com pormenores mais precisos. E acrescentou: nem sei porque me lembrei de lhe perguntar aquilo do tac, mas lembrei-me, estás a ver? Quase parecia arrependido de ter tido aquela ideia que, até a ele, lhe parecia quase peregrina. Só consegui abrir a boca para dizer: pois, coitado, eu sabia que ele tinha morrido mas não sabia desses pormenores... E fiquei aflita sem saber como continuar. Não ia continuar no mesmo registo, mantendo aquela interrupção dramática no meio de um jantar que decorria leve, divertido, todos bem dispostos. Mas, ao mesmo tempo, depois daquele drama, ia chutar para canto e desviar para um tema levezinho e sorridente? Fiquei naquele impasse até que alguém resolveu a coisa por mim, puxando um tema que não tinha nada a ver e fazendo de conta que aquela conversa não tinha tido lugar. Ele próprio pareceu agradecido por ter sido desviado do tema escuro em que nos tinha mergulhado. Mas, pouco tempo depois, já estava outra vez a dizer piadolas, algumas mais próprias de um adolescente com as hormonas aos saltos do que um homem feito e com a descendência espalhada pelo mundo.

Isto tem a ver com a maneira de ser de cada um. 

A convidada do Bial, Tata Werneck, que já conhecia vagamente de uma novela e a quem tinha achado piada, parece ser dessas pessoas que tanto entra num registo pesado, cheia de medos, carregando traumas e fobias, como, logo de seguida, passa para um registo divertido. Talvez não seja inoportuna ou inconveniente como o meu amigo mas também ainda é jovem, não se sabe como será quando tiver a idade do meu amigo e tiver passado aquilo por que ele já passou.

E o que eu vejo é que o Bial se ri a bom rir com o que ela diz. E eu gostei de ver e ouvir.

Pedro Bial entrevista Tata Werneck | Conversa com Bial

No Conversa com Bial, Pedro Bial recebe a atriz, apresentadora e humorista Tata Werneck para uma entrevista divertida, emocionante e cheia de boas histórias. Tata fala sobre carreira, maternidade, vida pessoal e os desafios de equilibrar humor e emoção em sua trajetória


Desejo-vos um dia feliz

domingo, outubro 12, 2025

Friends & Co.

 

Como naqueles filmes, assim eu na vida real. Ao fim de muitos anos, aos poucos vamo-nos reencontrando. Algumas vezes todos, outras vezes em grupos mais reduzidos. Hoje foi assim: envoltos em sol, como se o tempo não tivesse passado, um grupo de amigos encontra-se. 

Em volta da mesa, conversamos como se sempre tivéssemos mantido o contacto assíduo. As expressões são as mesmas, os risos os mesmos. Os truculentos continuam truculentos, as serenas continuam serenas, as rebeldes e fora da caixa continuam assim só que, como dizem, agora sem filtro. E vai risada. E a nossa artista continua artista, mas agora com obra feita, cotada. E, aliás, de uma maneira ou de outra, todos temos obra feita nem que com obra feita estejamos a referir-nos, sobretudo, à família que constituímos.

Há novos personagens, claro: o marido de uma, a mulher de outro, a namorada de um outro. E todos conversam e riem. Recordamos episódios, muitas vezes esquecidos ou nem apercebidos por alguns. 

Contam coisas de mim ao meu marido. 'Não nos ligava nenhuma', confessam os rapazes. (Não lhe contam que não ligava a eles mas havia um e depois outro a quem ligava). E falam-lhe dos meus feitos académicos e, nesse capítulo, como sempre, não consigo dizer nada. É como se dissessem: 'Tinha o nariz grande.'. Que poderia dizer? Nada. A ser verdade, não teria feito nada por isso. Tento mudar o rumo da conversa. 

Falamos das eleições. Há interpretações distintas, visões diferenciadas sobre o trabalho realizado. Há quem invoque situações pessoais, há quem se insurja porque tem que se pensar na cidade e não na sua situação pessoal. Os ânimos ficam acalorados. A política, ainda por cima em véspera de eleições, ainda incendeia. Uns desentendem-se e a mulher de um dos assanhados põe água na fervura: 'Isto é só uma tertúlia', ou seja, não um combate de box. Mas o sangue na guelra dos intervenientes mantém-se vivo. Passado um bocado, os dois amigos atiram-se num mergulho e põem-se a nadar, amigos somo sempre.

Fazemos um brinde, dois brindes. Desejamos todos que nos mantenhamos assim, de boa saúde, amigos, com vontade de partilhar o dia, a companhia uns dos outros.

Nunca tinha estado naquele lugar. Dir-se-ia um lugar quase no fim do nada. E, no entanto, uma maravilha. Muito verde, muito amplo, muito iluminado. E com peças de arte, umas adquiridas, outras feitas, que acrescentam beleza àquele espaço.

Chegámos a casa já noite. Fomos passear o cão que, coitado, tinha ficado em casa sozinho. Mas ficou no jardim e isso mantém-no sempre atento e ocupado, sempre em guarda do território.

Por isso não vimos notícias nem sabemos de novidades. Ou seja, nem eu nem o meu marido temos alguma coisa a dizer. Acresce que a noite passada praticamente não dormi, tossi, tossi, tossi, toda a santa noite até às sete e tal da manhã, uma daquelas tosses que resultam de uma comichão na garganta que não passa. Depois ainda dormi um pouco mas, claro, pouco demais. Agora estou melhor mas carregada de sono. Só que, entretanto, peguei ao meu marido, agora está ele. Pôs avamys no nariz e tomou paracetamol e foi enfiar-se na cama. Não arriscou na ceterizina pois viu como eu fiquei (passaram-me os espirros e o pingo mas no dia seguinte fiquei completamente KO).

Concluindo: o dia foi muito bom, adorei, mas se, enquanto lá estive, estive razoável, agora, aqui chegada, estou capaz é de ir para a cama.

Mas, antes de ir, uma nota: ao ligar o computador e espreitar as notícias, vi que morreu a Diane Keaton e isso deixou-me em choque. 

Diane Keaton, by Pablo Lobato

Há pessoas assim, que, saberemos lá dizer exactamente porquê, nos tocam de uma maneira especial, parece que queremos tê-las a partilhar o nosso tempo, enquanto o nosso tempo existir. 

Mais uma estrelinha que foi brilhar para mais longe.

Contudo, a vida continua, a vida sempre continua. E que seja boa para os que cá estão.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

E não se esqueçam de votar pois votar é mais do que um dever, é uma obrigação, é mesmo, ok?

domingo, outubro 05, 2025

A alegria dos reencontros felizes

 

A mim, que gosto tanto de probabilidades, acontecem-me muitas improbabilidades. 

Na última vez que estivemos juntos, contei-o aqui e, como sempre, falei em abstracto, sem referir nomes ou locais. Pretendo que o que escrevo valha por si, fale de emoções ou de impressões que sejam independentes de referências concretas. Escrevo, digamos, para mim; ou, então, para quem, através das minhas palavras, se reveja no que por aqui vou desfiando. Para mim é uma espécie de pro memoria: muitas vezes, quando quero localizar, no tempo, algum episódio da minha vida ou rever o que, em determinada altura pensei, venho aqui pesquisar.

Pois, como já aqui o contei, para meu espanto, no dia seguinte tinha uma mensagem de uma das pessoas presentes. De facto, eu tinha-me, também, referido a ele, embora, pensava eu, pelo que tinha escrito jamais alguém conseguisse identificar-me ou identificá-lo a ele. E, no entanto, imagine-se, tinha sido denunciada... Para minha total estupefacção, a filha desse meu amigo tinha reconhecido o pai nas minhas palavras... e logo também percebeu que esta que aqui vos escreve e que ela seguia há algum tempo era amiga do pai... e logo ele percebeu que essa pessoa não podia ser outra que não eu. Fiquei com um sorriso de orelha a orelha e ainda hoje sorrio com isso. Há coisas extraordinárias. 

Ainda no outro dia, aqui em casa, recordámos isto. E as perguntas voltaram: 'Mas como é que perceberam que eras tu? Como é que ela reconheceu, no que escreveste, o pai dela?'. E a minha explicação foi: 'Pois, é espantoso. É inteligente como o pai, só pode.'. E agora acrescento: 'E, pelos vistos, improbabilidades também são a sua praia...'

Hoje, com ele, falámos nisso e, claro, sorrimos os dois. Vivendo fora do País, foi esta jovem, que eu não sabia que por aqui me aturava, que, juntando dois pontos, rapidamente traçou a recta que, num ápice, chegou até mim!

Disse-me ele que viria aqui espreitar para ver se eu relatava o nosso encontro de hoje. Não deixei transparecer mas confesso agora que me deixou sem jeito. Parece que, assim, perco um bocado a espontaneidade de escrever em abstracto, para mim e mais ninguém, para o ar, para o anónimo mundo que me cerca.

Mas, então, até porque, de facto, iria mesmo escrever, aqui vai. 

Quando chego a casa destes nossos encontros venho sempre feliz, feliz, feliz. Quando penso em todos, parece que estão sempre todos a sorrir. 

O tempo passou. Ao princípio quase não nos reconhecíamos. O tempo esculpiu algumas transformações, por vezes parece que até as nossas feições mudaram. Mas, agora que nos reabituámos, acho que, afinal, estamos quase na mesma: boa onda, boas pessoas, bons amigos, só que com uma diferença - parece que estamos todos mais felizes. Já não temos nada a provar, agora somos nós no que temos de mais genuíno, nós e a amizade que afinal não esmoreceu, nós e o carinho de, ao fim de tanto tempo, ainda gostarmos de estar juntos.

É muito bom reencontrarmo-nos. E até os que estavam doentes ou 'empanados' na última vez agora, felizmente, estão bem, recuperados. Na mesa em que eu estava, quando começámos, fizemos um brinde. Desejámo-nos saúde, alegria. E eu acrescentei: 'E que, para a próxima, estejamos cá todos'. No mesmo instante em que o disse, pensei: 'Olha que estupidez... isto soa a fatalismo'. Mas todos desejaram que sim, que para a próxima cá estejamos todos. 

É que fiquei muito triste, muito mesmo, quando a G., que parecia tão bem e que tinha sempre aquele sorriso doce, morreu. Pareceu-me uma daquelas rasteiras que não são admissíveis. Uma das nossas a ir-se assim, tão cedo, tão a despropósito... Depois foram umas doenças que tocaram alguns e o teu acidente, e, com tudo isso, fiquei como que assustada. 

Lembro-me que, na altura, depois de ter lido o que eu tinha escrito no grupo, um dos amigos escreveu-me uma mensagem privada em que dizia que temos que nos preparar, que nas nossas idades, temos que nos mentalizar que, de vez em quando, chegarão notícias assim. Racionalmente compreendo, claro que compreendo. Mas, com a inocência da adolescente que eu era naquela nossa altura, apetece-me bater o pé, dizer que não quero, não aceito partidas antecipadas, maleitas, sustos e tristezas. Quero é que continuemos a sorrir uns para os outros, mostrando-nos confiantes, bem dispostos, felizes.

Estive a ver as fotografias que, entretanto, já foram partilhadas, não apenas deste sábado mas também as da viagem a Madrid. Como é possível que tenha passado tanto tempo? Passa rápido o tempo... Caraças.

Os jovens saberão que devem aproveitar bem os seus dias, não os desperdiçar com intrigas, futilidades, desencantos desnecessários? 

A vida é boa, cada pequeno momento deve ser acarinhado como único, irrepetível. E se querem fazer alguma coisa, arriscar, passear, o que for, pois que façam, não fiquem à espera pois a vontade ou a oportunidade de o fazer pode esmorecer ou desaparecer e, depois, fica a mágoa do que não se fez. É que é tudo tão rápido...

Mas, lamechices ou filosofices à parte, adorei o dia, o reencontro. Vim feliz. Estou feliz. Estou a escrever e estou a sorrir. E cheia de vontade que venha o próximo. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, setembro 10, 2025

Ro Ro, ou a graça das mulheres-meninas

 

Confesso a minha ignorância: nunca tinha ouvido falar em Angela Ro Ro. Mas devota do Bial como sou, se ele a leva às suas gostosas conversas, eu estou lá. Portanto, pus-me a ouvir.

E, à medida que a ouvia, risonha, provocadora e engraçada como uma adolescente, mostrando continuar sequiosa de vida e diversão, pronta para os amores, ia-me lembrando de uma amiga que é assim. Muito, muito assim (apenas com a diferença de que Angela Ro Ro é gay e a minha amiga é hetero).

Tal como vejo, pela entrevista, que Angela Ro Ro tinha a fama de ser uma malandreca, também a minha amiga, quando entrou a sério na adolescência, virou uma bela safadinha. Tinha fama de alta namoradeira ou mais que isso, fazia coisas que, por vezes, me deixavam um bocado perplexa, sobretudo por achar que ela caía com demasiada facilidade nos braços errados. Mas ela não me ouvia. Não ouvia ninguém. Parecia tomada por uma urgência de experimentar tudo, de quebrar todos os tabus.

Mas, à posteriori, vim a verificar que, afinal, era muita parra e pouca uva. Muitas aventuras, muitos empolgamentos, e, depois, muitas decepções, muitos desgostos. Conta que foi várias vezes traída. No fundo acreditava demais em quem, se via à légua, que não merecia qualquer crédito. Mas ela não via o mesmo que os outros. Olhares racionais e objectivos não eram com ela, toda emoção, toda inocência.

Talvez por isso ou talvez porque a vida, por vezes, prega partidas a quem não o merece, amores verdadeiros, grandes, intensos, duradouros, que não a fizessem sofrer, não os teve.  

Mas não ficou ressentida nem desanimada. De facto, ainda agora continua a ser tal como se descobriu quando, adolescente, resolveu abraçar a vida sem reservas: alegre, brincalhona, sedutora, irreverente, com uma tremenda vontade de amar e de ser amada, a mesma adorável adolescente. E... continua a dar com os burrinhos na água pois continua a atirar-se, sem reservas, para os braços de quem não tem condições de retribuir a paixão. No entanto, continua, sorridentemente a acreditar que o melhor ainda está para vir, a correr atrás da sorte, do amor, da paixão. E eu, do mais fundo do meu coração, desejo que um dia encontre alguém que a ame como ela, desde sempre, desejou ser amada.

A voz INESQUECÍVEL de Angela Ro Ro | Conversa com Bial | GNT

No #ConversaComBial , uma homenagem especial à icônica Angela Ro Ro, cantora e compositora que marcou a MPB com sua voz potente e canções inesquecíveis.

Com uma carreira iniciada nos anos 70, Angela deixou clássicos como Amor, Meu Grande Amor e Compasso, tornando-se referência de autenticidade e emoção na música brasileira.



quarta-feira, maio 14, 2025

Sobre este dia 13 de Maio

 

Depois de um dia de galdeirice, apetecer-me-ia reportar essa actividade. Mas, noblesse oblige, face à indisposição do Ventura, não me parece que haja clima para grandes bordejos. 

Direi apenas que o almoço foi composto de petiscos em versão comida de autor e que, de cada vez que vinha o prato, eu pensava: 'já foste'. Coisinhas pequeninas cuidadosamente dispostas, circundadas por nano-caules ou nano-folhinhas, tudo em versão lilliput. Muito bem confeccionado, tudo saboroso e bonito. 

Curiosamente, saí de lá bem, confortada, e, mais curiosamente ainda, cheguei à hora de jantar sem fome.

Enquanto lá estávamos -- numa mesa junto ao vidro que dá para a rua --, fui à casa de banho. Contou-me o meu marido quando voltei que, nesse ínterim, tinha passado uma conceituada jornalista, conhecida pela sua pretensa sabedoria e pela sua conhecida animosidade, diria até mau feitio, contra alguns ódios de estimação. O meu marido estava um pouco desconfortável com o que viu, disse que a senhora, a andar, quase parece meio trôpega (embora não tenha idade para isso), que tem uma figura um pouco embaraçosa, nada a ver com a pose algo superior com que se apresenta ao balcão do comentário televisivo. Cada um é como é e ninguém tem nada a ver com isso nem tem que alvitrar palpites sobre o tema. Mas, na verdade, já não é a primeira nem a segunda nem a terceira vez que, vendo ao vivo os temíveis jornalistas ou comentadores televisivos, penso: 'coitados... na verdade não metem medo a ninguém...'. É a televisão que é a arma temível, não as (por vezes) fracas figuras que por lá peroram.

Não há muito, íamos no passeio atrás de um que tem a mania que pode demolir políticos, em especial se forem mais à esquerda. Escreve e fala sempre assanhadamente como se tivesse na manga segredos e podres capazes de atirar os seus alvos para a sargeta. Ia ao telefone, a trocar informações com alguma fonte. E eu, que tenho um ladozinho um bocado infantil, ao vê-lo com ar de totó, só pensava: agora era tão fácil passar-lhe uma rasteira... e lá ia o temível jornalista com os cornos ao chão. Mas, claro, a minha mente policia-me e impede-me de concretizar essas inocentes diabruras. Aliás, acérrima polícia de costumes que também é, até me impede de verbalizar expressões mais vernaculares. Fica tudo dentro da minha cabeça.

Posso também acrescentar que, de regresso a casa, passámos pelo supermercado. Havia choquinhos na bancada do peixe e não resisti a trazê-los para os cozer com tinta. O meu marido perguntou se não ficariam bons assados no forno. Não me pareceu, eram miúdos demais. 

Lavo-os bem. Por acaso estavam carregados de areia, lavei e lavei e lavei. Não arranjo, cozo-os com todas as suas vísceras e tentáculos. Cozo-os só em água, não muita. Nem sal ponho pois eles mesmos se encarregam de salgar a água. A água fica negra, claro. Quando estão macios, junto batata doce cor de laranja e roxa, com casca, cortadas às fatias grossas. Ficam tingidas e saborosas. Depois é que arranjo e tempero.

Só que, depois de ter colocado as batatas, ligou a minha filha, ligou o meu filho, e as chamadas foram mais longas. Quando vim ter com o meu marido à sala, deu-me o cheiro. Sempre acabou por ter chocos assados. 

Felizmente, no tacho, coloco-os sempre com a prancha calcária para baixo. Por isso, o que foi à vida foi a membrana fina. Essa desapareceu, derretida no fundo do tacho. Depois as placas dos chocos ficaram castanhas, de queimadas que ficaram. Daí para cima ficou tudo bom, mas quase desfeito. Claro que o pior foi lavar o tacho. Tudo queimado, tudo negro, um cheiro a choco assado que nem vos digo nada. Caraças.

Mas estavam bons, embora quase tudo transformado em puré.

Também vi, depois, nas mensagens de um grupo de amigos, que um esteve doente e que ainda estará com um problema resultante da cirurgia, supostamente um mal menor. E fiquei como sempre fico quando sei de algum problema com os meus amigos, em especial os de longa data: parece que a modos que tolhida, talvez assustada. Tendo a pensar que eu e os que conheço de há séculos somos eternos, eternamente jovens, eternamente alegres, eternamente saudáveis. Quando constato que, de vez em quando, alguém adoece, fico triste, preocupada, com vontade de fazer ou dizer qualquer coisa para que se sintam animados, esperançosos, com optimismo, motivados para ultrapassar as dificuldades. Mas muitas vezes não digo nada com receio de que, ao transmitir uma mensagem de ânimo, deixe transparecer a minha preocupação. Mal comparado, foi o que aconteceu quando a minha mãe estava no hospital, muito mal, e, estando eu a querer animá-la, vejo aparecer um padre no quarto. Fiquei em pânico, com medo que ela percebesse que a morte estava a rondar. Lembro-me que enxotei o padre o mais educadamente que consegui mas numa aflição, receando que ele quisesse dar-lhe a extrema unção. E, de facto, no pouco que ele conseguiu dizer, houve lá umas palavras que me deixaram em transe, furiosa. Salvo erro, dirigindo-se a não sei que entidade, deus ou nossa senhora, não faço ideia, disse: 'recebe esta nossa irmã...'. Não sei se a minha mãe se apercebeu de alguma coisa mas eu fiquei traumatizada com isso. Mas, verdade seja dita, nem sei o que é que dá mais conforto a quem se sente menos bem, com incómodo físico, com receio do que por aí possa vir -- se é que tentem animá-los, tentem transmitir esperança e força, ou se é que lhes digam que se compreende o susto e o medo. Não sei. E acho que deveria saber pois posso agir desaquadamente numa altura em que alguém, estando mais vulnerável, precisaria do apoio devido.

Depois vi as imagens do André Ventura e também fiquei um bocado impressionada. Ainda por cima é bem mais novo do que eu julgava. Politicamente não posso estar mais distante dele. Tudo me separa do populismo. Mas se, a nível político, gostava que ele se estampasse nas eleições, a nível pessoal, não quero o seu mal. Se ele tem pais, imagino o medo que sentiram ao ver o filho agarrado ao peito e ao pescoço e a desfalecer. E depois o Chega é ele. Se ele se retirar de cena, nem que seja por uns dias, não há Chega para ninguém. E a ele, que de burro não tem nada, isso também deve preocupar. No seu íntimo, o seu sonho deve ser arranjar maneira de ainda chegar à liderança do PSD, um partido minimamente respeitável e não aquele aglomerado de gente desqualificada que é o Chega.

Mas, enfim, espero que melhore. 

E agora vou espreitar o instagram (@veramulanver) antes de me ir deitar. Aquilo é, verdadeiramente, um infinito caudal de cenas, uma janela de onde se vê o mundo (ou parte dele), uma imparável torrente de imagens e palavras efémeras. 

A minha filha no outro dia disse-me que deixar corações ou mensagens nas outras pessoas é importante para alcançar algum engagement -- e espero não estar a distorcer o que ela disse pois há ali uma lógica e uma semântica que ainda não domino bem. Acontece que, salvo raríssimas excepções, nunca me lembro de tal coisa. Aliás, sempre achei essa coisa dos likes uma puerilidade, uma fixação. As pessoas estarem a contar likes ou seguidores parece-me uma coisa tonta, um sinal de carência afectiva -- nem sei. Mas, na verdade, contra factos não há argumentos e tonta devo ser eu por estar tão fora destes tempos em que as redes sociais quase parece que tendem a substituir-se ao mundo real. 

Para já, tenho 251 seguidores, e, tal como ficava estupefacta por tantas pessoas descobrirem o meu blog, agora também fico admirada quando pessoas que não faço ideia quem sejam se tornam minhas seguidoras. Sinto-me agradecida. Comecei a ter conta de instagram em Fevereiro e não faço ideia se 251 seguidores é um número que não envergonha ou se é tão pouco que até dá pena. Mas, seja como for, é o meu ritmo. Não quero nem sei nem me apetece andar à pesca de seguidores. 

Também acontece que, acho eu, tudo o que ponho no Instagram vai também para o Facebook. Mas eu nunca vou ao Facebook, esqueço-me, parece que não me entendo com aquilo, parece-me antiquado, não sei. Mas, volta e meia, reparo que tenho mails a dizer que tenho notificações. Vou ver e são pessoas a quererem ser minhas amigas no Facebook. Mas, como aquilo é público, acho que não tenho que fazer nada. Se querem ser minhas amigas ou seguidoras, pois muito bem, que sejam. O pior é se eu tenho que as puxar ou dar algum ok e estou a deixá-las penduradas. Tenho que me informar. Não quero parecer desagradável ou que pensem que estou armada em coquette.

E é isto.

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Dias felizes

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Coisas da vida

 

O domingo foi tranquilo. Estive muito ocupada mas isso não tornou o dia menos tranquilo. 

O tempo esteve afável e, depois de almoço, pus-me em trajes menores ao sol. O buganvília fornece a cortina que garante a minha privacidade face aos vizinhos da casa ao lado. 

Tenho dois familiares internados e, dada a idade que têm, claro que fico bastante preocupada. 

Há cerca de um ano estava eu numa angústia, aterrorizada sempre que o telefone tocava, aterrorizada sempre que entrava no quarto, aterrorizada sempre que não sabia o que dizer à minha mãe sem deixar perceber que sabia que ela podia morrer de um momento para o outro.

Nessa altura, quando estava em casa, via todos os vídeos que encontrava, colocava mil questões ao chatgpt, percorria toda a literatura que encontrava para tentar perceber o comportamento da doença e se havia alguma coisa que se pudesse fazer ou para perceber quais seriam os sinais de que ela estava mesmo a morrer. O meu marido queria impedir-me, achava que eu estava a martirizar-me desnecessariamente. Mas tenho uma necessidade insaciável de querer compreender tudo ao pormenor. A minha filha também me criticava, dizia que era assunto para médicos, não para leigos, e que estava a deprimir-me para nada. Creio que o meu filho talvez me compreendesse pois é um bocado como eu mas acho que o meu marido não chegou a comentar com ele que eu andava, obsessivamente, a tentar saber tudo o que se passava dentro do corpo da minha mãe. Depois, poucos dias depois, morreu. 

Se calhar deveria ser capaz de dizer que, felizmente, poucos dias depois morreu. Mas ainda não consigo associar o conceito de felicidade à antecipação da morte.

Contudo, o meu lado racional começa a interiorizar que, nestas situações, querer que a morte chegue mais tarde é apenas querer que aqueles que amamos sofram cada vez mais. Por isso, tento ter sempre presente o que uma amiga, médica, amiga também da minha mãe, me disse já por mais de uma vez: 'Ainda bem que foi rápido, ainda bem. Não percebes que foi melhor assim?'. Pois, se calhar devia mesmo perceber.

Foi em Janeiro.

Também me lembro de que, quando morreu a minha avó materna, o meu tio, tentando consolar-me, disse: 'É assim, no inverno cai a folha', como se fosse uma coisa natural, chegando-se ao inverno da vida, partir.

Não fixei o mês das mortes de mais ninguém, a não ser a do meu pai que morreu no início de Maio. Dos meus outros avós, tios, sogra, etc, não me lembro. Mas sei que o meu sogro também morreu por estas alturas. Se fizesse uma pesquisa aqui talvez descobrisse o dia da partida de alguns. Mas não quero, não me apetece.

E espero que estes meus familiares que agora estão doentes recuperem. Um parece que está a melhorar, outro nem tanto. A minha prima usa termos médicos e eu depois vou ver no google ou no chatgpt o que é mesmo aquilo. Quando as pessoas chegam a estas idades avançadas, a vida começa a ser um equilíbrio. Felizmente viveram bem até agora pelo que isso já ninguém lhes tira. Não é?

Seja como for, começo finalmente a encarar estas coisas como naturais.

Em contrapartida, ainda fico muito impressionada, mesmo um pouco angustiada, quando alguns dos meus amigos, da minha idade, têm coisas chatas. Dois deles tiveram-nas muito recentemente. Um ainda está em tratamento. Isso faz-me impressão. Um dia estão na boa, toda a gente, incluindo eles, julgam-se na boa, curtem a vida com gosto e alegria, e, afinal, no dia seguinte, descobrem que não estão. Desses dois, um era (e é) médico do outro. A vida é, por vezes, traiçoeira. E breve.

O meu marido não gosta que eu fale disto. Acha que é uma conversa da treta. Mas não sou pessimista, fatalista, nada disso. Acho que é o contrário. Se encararmos a nossa condição humana, precária, frágil, efémera, de forma racional, saberemos dar valor ao que temos, enquanto temos. 

Penso que se tivermos consciência de que coisas assim acontecem a toda a gente, melhor saberemos aproveitar a vida, dar-lhe valor, darmos graças por estarmos bem.

E é isto. Não tenho conseguido responder a mails, comentários ou ver televisão porque, quando me meto em alguma, é de cabeça e pouco ou nenhum tempo sobra para o resto. Hei de voltar à superfície.

Entretanto, desejo-vos uma boa semana.

segunda-feira, dezembro 09, 2024

Revisitar o passado

 

No outro dia, aqui nesta vossa humilde chafarica, verifiquei um número anómalo de visitantes a reler um post já antigo. Fiquei muito admirada. Quando vi o título, percebi. 

Éramos felizes e não o sabíamos...? Voltaremos a sê-lo e ainda não o sabemos...?

Muita gente foi aos motores de busca escrever "éramos felizes e não o sabíamos", expressão que, como sabem, foi usada pelo desbocado Marcelo a propósito dos 8 anos em que trabalhou com António Costa. (Anda a ver se se limpa... mas não se limpa porque não somos desmemoriados nem mentecaptos). Mas, então, os algoritmos mandaram essas pessoas aqui para o Um Jeito Manso.

Nesse post, escrito no fim de Março, eu questionava-me sobre o que estava para vir. A crise Covid era recente, ainda se sabia muito pouco, estávamos todos confinados. Por sorte, temos possibilidade de nos refugiarmos num dos lugares do mundo em que nos sentimos melhor. Estávamos, pois, no campo. Mas trabalhávamos desde manhã muito cedo até às tantas da noite, passávamos os dias inteiros ao telefone ou em frente ao computador e os problemas choviam-nos em cima, em catadupa. Mal tínhamos tempo para almoçar e via-me aflita para conseguir preparar as refeições.

Acresce que nessa altura a minha mãe ainda resistia e dispensar a fisioterapeuta que ia lá a casa e não queria correr o risco de melindrar a senhora que lá ia ajudar com o meu pai pelo que não lhe dizia para se descalçar ou para usar máscara. Achava que era tudo um bocado exagero ou que só acontecia aos outros. Isto enquanto eu acompanhava a aflição de um colega com o pai com uma dor nas costas, depois sem respirar e, por fim, em meia dúzia de dias, a morrer de covid. Contava à minha mãe e ela achava que eram pessoas sem cuidado. Tive que dizer que ia eu telefonar à fisioterapeuta e à outra senhora para ela se encher de coragem e passar a seguir as indicações da DGS. 

Os noticiários abriam e fechavam com os números crescentes de casos e de mortes.

Por isso, naquele post eu relembrava os tempos tranquilos pré Covid e interrogava-me sobre o que estaria para vir.

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Entretanto, ontem, de novo, um número grande de visitantes a lerem um outro post antigo, este de 2019.

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância

E, também aqui, reli com prazer. Lembrava os tempos em que um grupo de directores, praticamente todos da mesma idade, todos muito irreverentes e bem dispostos, todos amigos uns dos outros, curtiam à grande. Curtíamos no sentido de nos divertirmos à séria. Também trabalhávamos (e, sempre tive essa ideia, trabalhávamos articuladamente e bem) mas era um prazer, uma alegria. 

Ao escrever, relembrei alguns episódios que me fazem sempre sorrir. Ainda ontem o meu marido relembrou um episódio, dos mais picantes e salgados a que assisti, e assisti no meu gabinete (que era um ponto de encontro), que me faz rir à grande sempre que dele me lembro. Como o meu marido conhecia bem os dois envolvidos, na altura contei-lhe. E também achou o máximo. Passou para os nossos anais da truculência, da malícia, da malandrice. (Não faz parte do que contei no post referido).

Depois mudei para uma empresa em que eram todos muito betos, na realidade, supé-betos, daqueles que não se acham betos porque acham que os betos são uma classe inferior, nouveau riches, pois eles, pelo contrári,o são sobretudo old money. Mas que, na verdade, são betada da maior, até à medula. Tudo boa gente, educadíssimos, simpatiquíssimos... mas incapazes de uma brejeirice, de um palavrão. Senti-me desterrada. Era só trabalho, trabalho, trabalho... e, caraças, uma seca...

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Convido-vos, pois, a clicar nos links acima. Por vezes, sabe bem revisitar o passado.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Esperança. Alegria

quarta-feira, novembro 27, 2024

Outras terras, outros sons: na Casa Branca

 

Não sei exactamente de que se trata mas, ao ver a imagem da casa no vídeo que aqui partilho, percebi que era em Portugal. E confirma-se. 

Pus a andar e gostei de ver e ouvir, embora não perceba bem o que se passa ali. Mas, para gostar, também não é preciso compreender - a emoção e o pensamento nem sempre têm que andar a par e passo. É um encontro de pessoas que têm interesses comuns, isso certamente. Não sei porquê ali, naquele lugar, mas isso também não interessa. Enquanto escrevo, estou a ouvir pela segunda vez e agrada-me. 

E qualquer coisa no ambiente que ali se percebe me fez lembrar uma amiga de longa data. A sua profissão é no domínio da razão e do conhecimento, é médica, mas sempre foi um pouco alternativa. E aqui apetece-me dizer 'alternativa no bom sentido' mas também não sei o que isso seja. Mas, só para se perceber, aos dias de hoje, não tem telemóvel. Passa bem sem isso. Não lhe apetece ser incomodada. Quando precisa de contactar alguém, usa o telefone fixo. Quando alguém a quer contactar e ela não está em casa, é o diabo. Quem tem o número do marido, liga-lhe. Quem não tem, terá que ir ligando até que ela regresse a casa. Mensagens, grupos de whatsapp, coisas dessas, é tudo o que ela não precisa, não gosta, não quer, não sente curiosidade. 

Interessa-se por mil coisas mas sobretudo coisas ligadas à terra, à natureza. Sabe muitas coisas que eu não sei. No outro dia, por exemplo, falava-me da planta de onde vem a alpista. Eu não fazia ideia, claro. Também viaja muito e diz que visita museus, galerias, coisa assim, mas aquilo que prefere é andar na rua, ver as pessoas. Por exemplo, já foi algumas vezes à Índia e tenciona voltar. Gosta de andar pelas aldeias, gosta de ver como as crianças se arranjam para ir à escola, por muito modestas que sejam, gosta das cores, dos cheiros, dos sons. 

Agora que deixou de trabalhar, diz que gosta muito de estar no jardim a ler ou a observar. Conhece todos os pássaros, os seus cantos, os seus hábitos. Eu não conheço nada do que ela sabe.

Mas surpreendo-me sempre com o que ela diz. Só para verem, estava a falar-me dos estorninhos, dos pardais, das rolas. Às tantas, falava creio que do melro. Mas não sei se era do melro ou do tordo. E estava naquilo quando me diz: 'Quando andam de roda das oliveiras, gostam de comer o que sobra das azeitonas. Esses são os mais saborosos.'

Fiquei de boca aberta, claro. 

Quando eu era pequena e o meu pai ia aos pássaros com os amigos, armando armadilhas que deixavam, de noite, regressando a casa após as recolherem de madrugada, nós comíamos passarinhos fritos e eu achava-os uma delícia, era um petisco que eu apreciava imenso. Mas desde há mil anos que não consigo pensar em molestar os inocentes passarinhos, muito menos comê-los. E, no entanto, a minha amiga, toda natureza, toda peace and love, ali estava a falar-me do sabor dos passarinhos quando se alimentam de azeitonas maduras. Ainda pensei que não tinha ouvido bem: 'Mas quê? Comes?!'. E ela, sem perceber o meu espanto, 'Claro'. 

A vida é assim mesmo, surpresas, surpresas, surpresas.

Amanhã, se me lembrar, conto uma outra, de uma outra amiga. Uma 'surpresa' que me deixa a rir de cada vez que me lembro.

Mas agora passo a palavra a Mary Keith, que também parece ser bem cool, bem boa onda -- para além de ter um cv bastante interessante.

Other Lands Other Sounds

A setting of the choral processional song used in "Vias", the final performance of the Curiosa "Other Lands Other Sounds" residency at Casa Branca, Portugal summer 2024. 

Music and words by Mary Keith and Kelsie Moore, with thanks to Kate Smith for arrangement ideas, images by Mary Keith, Beatriz Martinez, Ani Keyahova and Ana Torres, with thanks.


terça-feira, agosto 06, 2024

Memória de belos e gostosos slows nas festas de garagem de um amigo.
[E, a despropósito, uma arte diferente]

 

Enquanto as televisões se enchem de entendidos a delinear estratégias para resolver a putativa guerra Irão - Israel, eu distraio-me tentando descobrir outras coisas que me interessem. A esta hora já não me dá para ler livros, só para escrever ou para cirandar pelos vídeos ou pelas gordas dos onlines.

Há bocado, ao ver uma mensagem, num grupo de amigos, de um deles, o que tinha a melhor casa e que generosamente a disponibilizava para as famosas festas em sua casa, pensei como curiosamente continua a mesma pessoa, low profile, reservadíssimo, mas, ao mesmo tempo, surpreendente com a sua cultura, em especial, cultura musical mas, também, uma visão humanista e invulgar sobre o mundo.

Ele sempre foi muito alto. Desde miúdo que é igual. Baixava-se um bocado, parece que se encurvava um bocado para não ficar muito mais alto que os outros. Tinha óculos que parece que lhe punham os olhos maiores e que lhe davam um ar ainda mais tímido. Nas aulas nunca se destacou. Também nunca se portou mal. Nunca se meteu em sarilhos. Quase nos esquecíamos dele de tão boa pessoa que ele era.

As festas eram na garagem que ficava vazia para nós. Ao fundo havia mesas onde a trupe da luz e do som instalava aparelhagem sonora e luzes que piscavam. Estávamos por nossa conta. Havia um belo jardim mas ninguém queria saber do jardim para nada. Queríamos era estar na garagem, de preferência à meia luz.

Muitos slows ali dancei, muito mel ali se destilou. Namorei que me fartei naquelas festas.

À hora do lanche, abria-se a porta que fazia a ligação da garagem à casa e avançávamos. 

A casa era fantástica, grande, muito bem decorada. A escada, interior, era invulgarmente larga e no patamar intermédio, entre os dois lances, junto a uma grande janela, havia um piano. 

Aí, havia sempre alguém que ia tocar, no piano, as músicas mais conhecidas da altura. Nos últimos anos, apareceu um 'artista' e aí as pianadas eram mais a sério. Muito bom.

Na sala de jantar havia uma mesa enorme cheia de comida. Coisas boas com fartura.

Tento lembrar-me da mãe mas a ideia que tenho é vaga, mistura-se com a imagem da mãe de um outro que tinha mais ou menos a mesma maneira de ser e que tinha pais que já não me pareciam novos, o pai era o Notário da cidade e a mãe era uma senhora que se arranjava muito bem, distinta, sempre muito bem vestida e penteada. Lembro-me, sim, que a mãe deste da garagem (o outro também fazia belas festas mas não tínhamos instalações tão independentes) era discreta, simpática, mal se dava por ela (a do outro também).

Curiosamente casou com a irmã do meu namorado da altura. Ele era um maluco de primeira. A irmã era o contrário mas não se espantava, não se escandalizava nem se indignava com as doideiras do irmão. Era como se aceitasse que era normal que, volta e meia, a família tivesse  chatices com o irmão. Casou com o colega do irmão, o colega melhor comportado. Deve ser um casal tranquilo. Pelo menos assim parece. Na altura, ela parecia uma rapariga crescida quando nós éramos uns catraios. Agora parecemos todos da mesma idade.

Sei que se interessam por arte e não me admirava nada que, se eu lhes mostrasse este vídeo, também achassem piada.

Tanya Marcuse: Artist

“I try to kind of have both of those things visible at once…in a single piece there’s some kind of sense of the duality and unity between growth and decay.”

When you venture into nature, you probably find yourself thinking about how naturally beautiful the environment looks. Artists strive to capture that beauty, and Tanya Marcuse does this by foraging and recreating natural scenes in her photography. 


Dias felizes!

sexta-feira, maio 10, 2024

Savant

 

Ao aparecer-me um dos vídeos que partilho abaixo lembrei-me daquele meu extraordinário colega a quem estou em dívida quanto a um telefonema. É das pessoas mais desconcertantes que já conheci.

Começa-se a falar com ele e, de início, não se percebe que há ali qualquer coisa de especial. Ou melhor, perceber até se percebe, não se percebe é o quê. Aliás, eu própria comecei por dizer que achava que havia ali qualquer coisa que não batia certo. Não sabia definir o quê mas intuía que qualquer peça, naquela cabeça, parecia estar um bocado fora do sítio. 

Mas, por acaso, no bom sentido.

Muito inteligente, de uma inteligência rápida e bastante holística. Mas, mais do que a nível profissional, era nas conversas sobre outros temas que se percebia que estávamos em presença de uma pessoa incomum.

Sobre história, sabia tudo. Mas, quando digo tudo, quero dizer tudo, mesmo tudo. Com nomes, com datas, com locais. Sobre qualquer assunto, o conhecimento dele era infinito e relacional. 

Mas a nível de literatura, no que lhe interessava, também nunca conheci ninguém, assim. Ele sabe os títulos, as editoras, as datas das edições e, mais que isso, ele sabia partes inteiras de cor. Não sei, porque nunca ousei testar, se não saberia os livros inteiros de cor. Dos livros não portugueses que lhe agradam, ele conhece as várias traduções, compara-as, tem preferências.

Em poesia, do que gosta, sabe não sei quantos poemas de cor e, por exemplo, no caso de Borges, não apenas os sabe em português como os sabe no original.

A nível político, falar com ele é quase diabólico pois lembra-se de cada peripécia que envolva um e outro, acordos, derrapagens, passos em falso, notícias que saíram, resultados das eleições, ano a ano. Nem sei. Tudo.

Contudo, a nível profissional, sendo um trabalhador incansável, não é, contudo, apreciado. O problema é que se torna compulsivo. É capaz de refazer dezenas de vezes um relatório ou uma apresentação pois descobre sempre qualquer coisa a melhorar. É frequente, no meio disso, perder-se nas versões e já não saber a quantas anda. Acontecia, em reuniões, em vez de ter enviado a apresentação de véspera como era habitual, só a enviar de madrugada, por vezes de manhã muito cedo, evidenciando que tinha estado toda a noite de volta daquilo e, no fim, por vezes acontecia enganar-se e enviar a versão errada.

Os subordinados impacientavam-se com ele. Uma arranjou uma depressão e saiu da empresa em total estado de desespero. Já não conseguia aguentá-lo pois ele exigia-lhe a perfeição mas uma perfeição tão exagerada que chegava a ser irracional.

Sendo pessoa com saberes enciclopédicos, era, no entanto, incapaz de fixar os nomes de algumas pessoas com quem lidava mais de perto e que, por algum motivo, ele achava que eram pessoas sem valor acrescentado. Causava embaraço ver como ignorava o nome de pessoas com quem trabalhava todos os dias desde há que tempos. Mas não era só o nome, eram as próprias funções. Não conseguia fixar o que faziam nem como se chamavam e, por ele, podiam sair da empresa que nem daria pela diferença. As pessoas só não se sentiam lixo pois conheciam as suas  particularidades, alguém cuja 'normalidade' era muito discutível.

Acontecia também, quando contrariado, ter fúrias, atitudes despropositadamente agressivas que deixavam toda a gente perplexa. Sendo uma pessoa educadíssima, gentilíssima, de repente, por  coisas de nada, ficava possesso, inconveniente, gritava e, no meio de reacções explosivas, na prática mandava as pessoas embora. 'Saia da minha frente!', 'Vá para casa e não volte a aparecer!'. 

Depois caía nele, aceitava bem as críticas, e acabava arrependido e a pedir desculpa. Mas eu percebia que era qualquer coisa que fugia ao controlo dele.

Do que lhe conheci, não tinha vida afectiva apesar de ser uma simpatia. Mas tudo nele era tão excessivo, tão obsessivo e tão desconcertante que dificilmente arranjaria alguém que conseguisse viver uma vida partilhada com ele.

Depois de muito termos especulado entre nós que raio de pancada ele teria, acabámos por acordar que, muito provavelmente, será um savant. 

Tive divergências profissionais com ele resultantes da sua forma obsessiva e compulsiva de lidar com as situações. Mas sempre as superei pois os seus lados positivos superavam os negativos. Pessoalmente sempre me dei muito bem com ele, éramos amigos, sempre houve do meu lado muita empatia pois conseguia perceber como, sendo ele como era, vivia as situações.

E o que posso dizer é que pessoas assim são fascinantes... e um desafio para os outros.

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Autistic savant Daniel Tammet on ‘the language of numbers’ - BBC Newsnight

Am I capable of being loved? - Daniel Tammet 

Diferenças entre o Autista e Savant | ANA BEATRIZ