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sexta-feira, abril 17, 2026

Robert F. Kennedy Jr., apenas mais um maluco na Casa Branca

 

Não há um que se aproveite. Um grupo de engraxadores, vira-casacas, descerebrados, invertebrados, oportunistas, a lamber o rabo ao mais maluco de todos, o narcisista maligno que está demente.

Mas hoje vou falar do inacreditável Robert F. Kennedy Jr., conhecido como RFK Jr., que Trump colocou na Saúde. Na Saúde!

Por facilidade, pedi ao Gemini que me fizesse uma resenha do que tem sido a vida e a obra deste peculiar personagem. Aqui vai um excerto do que me facultou.

É uma das figuras mais polarizadoras da política americana contemporânea. Membro de uma das linhagens políticas mais prestigiadas do mundo — filho do antigo Procurador-Geral Bobby Kennedy e sobrinho do Presidente John F. Kennedy — a sua trajetória é marcada por um contraste profundo entre o ativismo ambiental de elite e uma vida pessoal repleta de episódios bizarros e teorias controversas.

RFK Jr. formou-se em Direito e destacou-se durante décadas como um advogado ambientalista de sucesso, lutando contra a poluição de grandes corporações no Rio Hudson. No entanto, o seu passado tem lados sombrios:

    • Consumo de Drogas: Durante cerca de 14 anos, Kennedy lutou contra a toxicodependência, particularmente o vício em heroína, que começou após a morte traumática do seu pai e do seu tio.
    • O Episódio da Sanita: Na sua biografia e em entrevistas, RFK Jr. admitiu comportamentos de risco extremo durante os anos 70 e 80. Ele confirmou que o seu vício era tão severo que chegava a consumir cocaína diretamente do tampo de sanitas em casas de banho públicas, ilustrando o quão fundo tinha chegado antes de recuperar a sobriedade em 1983.

A vida de RFK Jr. parece, por vezes, saída de um argumento surrealista. Alguns dos detalhes mais estranhos que ele próprio confirmou incluem:

    • O Verme no Cérebro: Em 2010, Kennedy sofreu de perdas de memória e "névoa mental". Os médicos inicialmente pensaram tratar-se de um tumor, mas ele revelou mais tarde que um médico concluiu que o problema era causado por um parasita (um verme) que entrou no seu cérebro, comeu uma parte dele e morreu lá dentro.
    • O Pénis do Guaxinim: Numa história que se tornou viral, RFK Jr. descreveu como, na juventude, recolhia animais mortos na estrada para os estudar. Numa ocasião específica, ele admitiu ter cortado o osso do pénis de um guaxinim morto para o guardar, um detalhe que ele conta como prova da sua curiosidade científica excêntrica, mas que muitos vêem como uma bizarrice perturbadora.
    • O Urso no Central Park: Recentemente, confessou também ter deixado a carcaça de um urso bebé (que encontrou morto na estrada) no Central Park, em Nova Iorque, encenando um acidente de bicicleta como se fosse uma partida.
A vida pessoal de Robert F. Kennedy Jr. é frequentemente descrita como um labirinto de tragédias e escândalos que rivalizam com as suas polémicas políticas. O seu historial matrimonial e a sua vida íntima têm sido alvo de grande escrutínio, especialmente devido à revelação de diários privados e relatos de comportamentos compulsivos.


O segundo casamento de RFK Jr., com Mary Richardson Kennedy, é o capítulo mais sombrio da sua vida pessoal. Casaram-se em 1994 e tiveram quatro filhos, mas a relação foi marcada por infidelidade e instabilidade.
    • O Divórcio e a Tragédia: Kennedy pediu o divórcio em 2010. Mary, que lutava contra a depressão e o alcoolismo, viu a sua saúde mental deteriorar-se severamente durante o processo litigioso. Em 2012, Mary suicidou-se por enforcamento no celeiro da sua propriedade em Bedford.
    • A "Batalha" Pós-Morte: Após o suicídio, gerou-se uma disputa legal amarga entre RFK Jr. e a família de Mary (os Richardson) sobre o local onde ela deveria ser enterrada, com a família dela a acusá-lo de ter contribuído para o seu desespero emocional.
Em 2013, o jornal New York Post teve acesso a um diário privado de RFK Jr. de 2001, que revelou detalhes íntimos sobre a sua vida paralela enquanto ainda era casado com Mary.
    • O Registo das Conquistas: No diário, Kennedy mantinha uma lista de mulheres com quem tinha tido encontros sexuais. Ele usava um sistema de códigos para classificar os encontros, atribuindo notas de 1 a 10 a cada mulher. Só num ano, o diário listava dezenas de mulheres.
    • Compulsão e Culpa: Nos escritos, ele referia-se à sua luxúria como o seu "defeito de caráter mais profundo" e descrevia a sua luta constante para resistir ao que chamava de "luxúria" ou "atividades sexuais", descrevendo-se quase como um dependente. Ele frequentemente escrevia sobre a culpa que sentia por trair a esposa e por não conseguir controlar os seus impulsos.
    • Casos Extraconjugais: Ao longo dos anos, o seu nome foi associado a várias figuras públicas e celebridades. Relatos sugerem que a sua compulsão sexual era conhecida nos círculos sociais de Nova Iorque, sendo descrita por conhecidos como uma faceta da sua "personalidade aditiva" (transferida das drogas para o sexo).
RFK Jr. tornou-se o rosto do movimento céptico em relação às vacinas a nível mundial. Através da sua organização, Children’s Health Defense, ele tem propagado diversas teorias sem base científica:

    • Autismo: Ele é um dos principais promotores da teoria (já amplamente refutada pela ciência moderna) de que as vacinas infantis causam autismo, devido à presença de timerosal (um conservante).
    • COVID-19: Durante a pandemia, afirmou que as vacinas de mRNA eram perigosas e comparou as medidas de confinamento ao regime nazi, o que lhe valeu críticas severas de membros da sua própria família.

Apesar de ter sido um democrata durante toda a vida, RFK Jr. suspendeu a sua candidatura independente à presidência em 2024 para apoiar Donald Trump. Em troca, Trump prometeu dar-lhe um papel influente na administração, especificamente na área da saúde.

O seu lema, "Make America Healthy Again" (MAHA), foca-se na crítica aos alimentos processados e aos químicos na agricultura. Contudo, a sua nomeação para cargos de saúde pública (como o CDC ou a FDA) causa pânico na comunidade científica, que teme que ele utilize o poder governamental para desmantelar programas de vacinação e minar a confiança nas instituições de saúde baseadas em evidências.

Resumo da Contradição: RFK Jr. é visto pelos seus seguidores como um herói que desafia a "Big Pharma" e a corrupção alimentar, enquanto os seus críticos o vêem como um propagador perigoso de desinformação cujas histórias pessoais bizarras são apenas a ponta do iceberg de um julgamento errático.

Mas nada como assistir à suculenta conversa entre Joanna Coles e Isabel Vincent. Um espanto tudo isto.

Segredos bizarros do capanga mais desvairado de Trump: Autor | Podcast do The Daily Beast

Isabel Vincent junta-se a Joanna Coles para analisar o seu novo livro sobre Robert F. Kennedy Jr., um retrato construído a partir dos seus próprios diários secretos, que foram obtidos pela sua falecida esposa, Mary Richardson Kennedy, durante o seu divórcio brutal.

O que emerge é um homem em conflito consigo próprio: movido pelo legado, consumido pela culpa e impulsionado por desejos — de poder, de mulheres, de redenção — que parece não conseguir controlar. 
Vincent traça o percurso desde um herdeiro Kennedy devastado pela dor até um ativista anti-vacinas e uma improvável força política, revelando os traumas familiares, a dependência e a ambição incessante que o moldaram.

Ao longo do caminho, analisam também o mito e os mecanismos da dinastia Kennedy e a inquietante questão no seu centro: como é que um homem que outrora escreveu sobre humildade, serviço e Deus se encontra agora a exercer influência sobre a saúde de milhões?

Para quem queira direitinho a algum ponto em particular, aqui está a indicação por tempos: 

00:00 - As Confissões Mais Negras de RFK Jr.
03:50 - Por Dentro dos Diários Secretos
07h40 - A Ética de Publicar a Sua Vida Privada
11:30 - Assombrado pelo Legado do Seu Pai
15h20 - Por Dentro do Caos da Família Kennedy
19:10 - Porque Se Candidatou à Presidência
23h00 - COVID, Vacinas e a Sua Ascensão Política
26h50 - Reação Negativa da Família e Lutas Públicas
30h40 - Vício, Casos Extraconjugais e Compulsão
34:30 - O Colapso do Seu Casamento
38h20 - A Morte de Mary Kennedy e as suas Consequências
42:10 - A Investigação Misteriosa
46:00 - Poder, Fama e Contradições Pessoais
49:50 - Pode Ele Escapar à Sua Própria História?
53h20 - Reflexões Finais Sobre o Futuro de RFK Jr.

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Desejo-vos uma bela sexta-feira 

terça-feira, abril 14, 2026

Um medicamento extraordinário contra o cancro que é tão caro que ou o SNS se afunda ou milhares de pessoas ficam sem tratamento...? É isto....?

 

Desde que comecei a votar que o meu sentido é o mesmo. Identifico-me com as sociais democracias, em especial com as do norte da Europa, estáveis, tranquilas, assentes no bem de toda a população, no desenvolvimento, na felicidade.

Nunca me identifiquei com o comunismo nem nunca me identifiquei com as chamadas doutrinas sociais da igreja, conservadoras e reaccionárias, muito menos com os movimentos de direita e, mais recentemente, com os populismos.

Nunca diabolizei a iniciativa privada nem nunca defendi que, mesmo em alguns serviços que entendo que devem ser disponibilizados gratuitamente à população, a gestão tem forçosamente que ser desempenhada pela Administração Pública.

Trabalhei para empresas do Estado, nacionalizadas, trabalhei para empresas estatais mas geridas como se fossem privadas e trabalhei para empresas privadas. Conheço bem as regras de umas e outras. Como sou avessa a generalizações não vou catalogar umas e outras quanto à qualidade da gestão. 

Tenho para mim que a saúde, a educação, a segurança pública, por exemplo devem ser públicas, de acesso universal. Mas, no caso da Saúde, em que se movimentam muitos milhões e em que a componente da gestão é fulcral, não tenho dúvidas em dizer que os problemas são de gestão, que quem gere a maioria das unidades não faz ideia do que está a fazer e que a incompetência começa na ministra. Não digo que a gestão da Saúde deve ser privada mas afirmo, sem margem para dúvida, que deve ser gerida com a mentalidade de um gestor profissional. Ao contrário do que muito ignorante pensa, a gestão privada não visa apenas o lucro. O lucro em si tem perna curta. Tem que haver qualidade, apreço por parte de todos os que se movimentam dentro e em redor (o que, em linguagem de gestão, se designa por stakeholders). Se houver apreço por parte de todos, cria-se a fidelização, desenvolve-se a motivação, estimula-se a criatividade que é o motor para se encontrarem boas soluções. O lucro será a consequência de tudo o resto, perifericamente, funcionar bem.

Sei bem o que eu faria e sei que, se eu pudesse pôr em práticas as medidas que vejo como críticas e prioritárias, em três ou quatro anos, o SNS estaria disponível a muito mais gente, em muito mais valências, com índices de qualidade muito acima dos actuais, com filas de espera mínimas, com tempos de atendimento decentes, e com um gasto geral no mínimo inferior em 10 a 20% ao actual. Se fosse o caso, isto é, se eu fosse convidada para isso e aceitasse -- o que obviamente duplamente não acontecerá -- eu própria definiria estes objectivos e eu própria definiria que, se não os atingisse, seria liminarmente despedida.

E é que não se exige muito, apenas experiência e alguma competência em gestão e vontade de fazer a coisa certa. Estou certa que, tal como eu, se o mesmo desígnio fosse proposto a qualquer outro profissional experiente e competente e tivesse a cobertura de um pacto de regime que permitisse actuar a sério, se revolucionaria verdadeiramente a forma como hoje se trabalha. E quando falo em revolucionar, garanto que revolução seria a palavra certa. Poderes e poderzinhos, compras descentralizadas, negociações descentralizadas, corporativismos de toda a espécie, centralizações absurdas sem qualquer benefício -- tudo isso acabaria. E acabaria num abrir e fechar de olhos. Nestas coisas não sou adepta de ir devagarinho, sou mais na base do one time shot. Como sei o que faço não haveria risco de me atirar para fora de pé pois sei que sei nadar.

Dito isto, e continuando no domínio da Saúde, falo agora de uma notícia que verdadeiramente me perturbou e que me fez questionar se não deveríamos, enquanto sociedade, repensar algumas abordagens, deixarmos de ser tão passivos ou tão individualistas como somos.

A notícia diz o seguinte: "Merck transformou medicamento contra o cancro num êxito de vendas, mas é tão caro que poucos o podem pagar"

Pensei: o capitalismo no seu máximo expoente. Mesmo quando está em causa a vida de tantas pessoas, prevalece o endeusamento do lucro de algumas empresas. Eu bem sei que o valor das patentes financia a investigação e etc e tal. Mas quando se trata de produtos vitais à sobrevivência ou à qualidade e dignidade da vida humana, há que equacionar prioridades e abordagens. Que sentido faz, vender uma embalagem por milhares de euros quando há tantas pessoas que beneficiariam brutalmente desse medicamento? E como pode o SNS providenciar esse tratamento quando o valor é insustentável?

Fui informar-me: enquanto em Portugal os preços altos são mantidos por longos períodos devido à proteção de patente na UE, na China, o Estado exerce um controlo mais direto sobre o preço final e incentiva a produção de alternativas locais mais baratas (ou superiores) para substituir o medicamento de marca, limitando a margem de lucro dos originais.

E nos países nórdicos? Informei-me. Ao contrário de Portugal, que negoceia individualmente através do Infarmed, os países nórdicos uniram forças para aumentar o seu poder de mercado. Dinamarca, Noruega e Islândia realizam concursos públicos conjuntos para medicamentos hospitalares, forçando as farmacêuticas a oferecer descontos maiores para garantir o mercado de três países de uma só vez.

Claro que me parece que a abordagem chinesa é a que melhor defende os interesses da população e não tenho dúvidas que é o caminho certo. Mas a China tem uma dimensão que permite uma força que não está ao alcance de todos. Além disso estão formatados (e bem) para o pensamento estratégico e para a persistência. Estamos, infelizmente, um bocado longe disso. (Não vou aqui falar da liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc. -- isso são outras vertentes que não são objecto do que aqui estou a escrever)

A Europa deveria agir desta forma, ser como a China, juntar os países nas grandes negociações. Se o fez para as vacinas Covid, deveria fazê-lo para todos os medicamentos inovadores e de grande interesse público. Esse é o caminho. Mas, enquanto isso ainda não é possível, Portugal deveria juntar-se pelo menos com Espanha e, desejavelmente, com mais uns quantos países e enveredar por esta via. Não apenas se poupariam largos milhões ao erário público como se traria maior esperança de vida a milhares de pessoas.

E quem diz isto, diz agir desta mesma forma a muitos outros níveis. 

Não podemos é continuar a pensar pequeninamente, a desbaratar milhões e milhões e a não conseguir entregar os cuidados e os serviços de que a população necessita. 

Não sou contra o capitalismo (quando é regulado e decente), sou é contra a falta de visão, a falta de ambição e de energia, a falta de definição de prioridades.


segunda-feira, abril 06, 2026

Somos o acontecimento mais raro do universo e somos, ao mesmo tempo, o universo a observar-se a si próprio

 

Não vou falar de política, Isabel. Nem vou falar dos dementes que, com as mãos sujas de sangue, tentando iludir os ignorantes, invocam o nome de Deus para justificar os crimes que cometem. Não vou falar deste mundo que, em parte, parece estar esquecido das conquistas da humanidade, ameaçando a paz e a sustentabilidade do planeta e de tantas vidas, humanas e não só.

Hoje vou apenas falar da bênção de existirmos, nós, ocorrências improváveis.


Vivemos num universo de dimensões quase incompreensíveis. As estimativas actuais apontam para cerca de 2 biliões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas. No total, isso significa algo entre 10²² e 10²⁴ estrelas no universo observável. Uma dimensão que vai para além de qualquer entendimento humano.

Foi neste cenário vastíssimo que tudo começou, há cerca de 13,8 mil milhões de anos, com o Big Bang.

Mas há um facto ainda mais surpreendente: somos feitos de matéria estelar. Os elementos químicos que compõem o nosso corpo — carbono, oxigénio, ferro — foram forjados no interior de estrelas e espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram em explosões como supernovas. Como disse o astrofísico Neil deGrasse Tyson, baseado na ideia inicial de Carl Sagan, somos poeira de estrelas que ganhou consciência.

Agora, consideremos a (im)probabilidade de estarmos aqui. Cada um de nós resulta de uma cadeia contínua de eventos:

  • Milhares de milhões de anos de evolução da vida na Terra
  • A sobrevivência através de extinções em massa
  • A formação da Terra a partir da matéria que orbitava o Sol, a uma distância adequada para a existência de água líquida
  • E, mais recentemente, a sucessão contínua de gerações que tornou possível a nossa existência

Centrando-me especificamente no nível humano, a improbabilidade cresce rapidamente. Cada pessoa nasce de uma combinação genética única entre dois progenitores. Recuando gerações, o número de possíveis combinações de ancestrais cresce exponencialmente, ultrapassando largamente o número de estrelas da Via Láctea.

Do ponto de vista genético, a improbabilidade é ainda mais extrema:

  • O corpo humano tem cerca de 30 a 70 biliões de células
  • Cada célula contém cerca de 3 mil milhões de pares de bases de ADN
  • A combinação específica que resulta em cada um de nós é essencialmente irrepetível

Algumas estimativas populares sugerem que a probabilidade de um indivíduo específico existir pode ser algo como 1 em 10²⁶⁸⁵⁰⁰⁰ — um número tão vasto que ultrapassa o total de átomos no universo observável (cerca de 10⁸⁰). Embora este valor seja ilustrativo e não exacto, ele transmite bem a ideia defendida por Neil deGrasse Tyson: a nossa existência é extraordinariamente improvável.

E ainda assim, aconteceu.

Num universo com um número imenso (possivelmente infinito) de eventos e combinações, até acontecimentos com probabilidades quase nulas podem ocorrer. Não porque sejam prováveis — mas porque há tempo e tentativas suficientes para que aconteçam.

Nós somos um desses acontecimentos.

Somos o resultado de estrelas que viveram e morreram, de átomos que viajaram pelo cosmos, de uma cadeia contínua de vida que nunca foi interrompida durante milhares de milhões de anos. Tudo isto teve de alinhar-se com uma precisão extraordinária para que estivéssemos aqui, neste momento.

Por isso, do ponto de vista científico, há uma ideia difícil de ignorar: temos uma sorte imensa em existir.

Num universo onde a nossa existência é tão improvável, o facto de estarmos conscientes, de podermos pensar, sentir e observar o mundo, torna-se algo profundamente raro.

E talvez por isso não devamos desperdiçar essa oportunidade.

Durante um intervalo extremamente breve — uma fração mínima na escala do cosmos — temos a possibilidade de experimentar a vida tal como a conhecemos: ver, aprender, amar, questionar e compreender, ainda que parcialmente, o universo que nos deu origem.

Tal como Sagan o interpretou e eu acho a ideia belíssima, somos o universo a observar-se a si próprio.

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Para mais informação e considerações sobre o tema recomendo os vídeos em que Neil deGrasse Tyson fala sobre o assunto. Este aqui abaixo é apenas um deles.

Um dos factos mais espantosos  -   Neil deGrasse Tyson

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As fotografias foram feitas in heaven
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Desejo-vos uma boa semana

quinta-feira, janeiro 29, 2026

Temos é que nos ir aguentando até que todas as muitas inovações médicas estejam disponíveis para todos

 

Num ano e numa altura em que as estatísticas em Portugal nos trazem números nada tranquilizadores quanto ao aumento da mortalidade, talvez seja difícil antever quando é que os benefícios das fantásticas inovações técnicas se traduzem em melhores tratamentos.

De facto, se o governo da Saúde continuar enredado em partidarites dificilmente o que investigadores e técnicos desenvolvem chegarão até ao grande público. E faço notar que, em medicina, o que acaba em 'ite' remete para inflamação e, como se sabe, as inflamações estão na base de grande parte das doenças, incluindo as fatais. Nomeadamente, se os hospitais públicos continuarem a ser geridos por agentes partidários e não por gestores competentes, tudo continuará ensarilhado, tudo continuará a ser um sorvedouro de dinheiro, dinheiro mal gasto -- e a disponibilidade para o estudo, para a aplicação de inovações continuará relegado para segundo plano.

Há, claro, as instituições privadas. Mas essas apenas estão ao alcance de quem tem bons seguros de saúde. Ora, sabendo-se que é na terceira idade que as células começam a dar de si e que as doenças começam a aparecer, as Seguradoras ou não fazem seguros de saúde para quem tem mais de 65 anos ou tornam-nos proibitivos. Os funcionários públicos terão a ADSE, mesmo após a reforma. Mas quem não estava abrangido pela ADSE ou paga e paga bem ou batatas. 

Seja como for, há que reconhecer que a medicina tem avançado incrivelmente. Muitas doenças que há uns anos eram sentença de morte ou de declínio inexorável agora são tratáveis ou curáveis, havendo hoje incontáveis sobreviventes. Há uns anos seriam memórias. Hoje estão para as curvas.

Lembro-me de quando a minha mãe, há uns anos, teve cancro no cólon. Fizeram-lhe três insignificantes buraquinhos na barriga e salvo erro ao segundo dia saiu do hospital pelo seu próprio pé, bem disposta, a andar normalmente, sem qualquer desconforto, como se nada se tivesse passado. E, no entanto, um bom pedaço de intestino e tecidos adjacentes tinha-lhe sido retirado. E ficou boa. É certo que isto se passou num hospital privado mas se calhar o mesmo se teria passado num hospital público.

São os equipamentos de diagnóstico que são mais avançados, são os equipamentos de intervenção, tratamento e os medicamentos que são mais eficazes.

Mas a inteligência artificial está a dar um empurrão fantástico e isso é um lado bom que deve ser bem aproveitado. E há cada vez mais investigação cruzada, juntando médicos, biólogos, físicos, engenheiros. E tudo isto é muito promissor.

O que agora é preciso é transformar isso em soluções adoptadas pelos serviços públicos e levadas à prática o mais rapidamente possível. 

O vídeo abaixo da BBC é muito interessante, e está legendado. Fala quem sabe.

As novas inovações médicas que podem mudar tudo

 - The Engineers, BBC World Service

Três engenheiros de renome discutem os mais recentes avanços na engenharia do corpo humano.

A engenharia inovou como nunca, chegando ao interior do corpo. Em neurociência, os implantes cerebrais podem proporcionar uma comunicação "psíquica" a pessoas com síndrome de encarceramento. Na área médica, uma nova tecnologia visa administrar quimioterapia e outros medicamentos diretamente às partes do corpo que deles necessitam, através de bolhas na corrente sanguínea. E estão a ser desenvolvidos dispositivos eletrónicos ingeríveis para combater doenças, enviando mensagens que direcionam os anticorpos diretamente do intestino para o cérebro.

A BBC e a Comissão Real para a Exposição de 1851 uniram-se para apresentar um evento especial: Os Engenheiros: Explorando o Humano.

Três engenheiros biomédicos, na vanguarda das suas profissões em todo o mundo, juntam-se à apresentadora Caroline Steel para discutir os seus trabalhos pioneiros e responder a perguntas do público na Royal Geographical Society, em Londres.

Convidados:

Tom Oxley (Austrália) – Neurologista e inovador em implantes cerebrais. Professor Associado da Faculdade de Medicina de Melbourne. CEO da Synchron.

Eleanor Stride, OBE (Grã-Bretanha) – Engenheira Biomédica e inovadora em tecnologia de bolhas. Professor de Biomateriais na Universidade de Oxford

Khalil Ramadi (Emirados Árabes Unidos) – Nanorrobótico, inovador em eletroceuticos ingeríveis, Diretor do Laboratório Ramadi de Neuroengenharia Avançada e Medicina Translacional em Abu Dhabi. Professor Assistente de Bioengenharia na Universidade de Nova Iorque.

Para quem não queira ver tudo mas queira ter conhecimento de algum tópico, aqui fica o horário das intervenções

00:00 Introdução

02:20 Primeira experiência de um doente com síndrome de encarceramento

03:53 Utilização de bolhas para administrar medicamentos dentro do corpo

05:21 Eletrónicos ingeríveis

06:13 Implantação de um "stentrode" no cérebro

07:54 Influenciar o cérebro através do sistema digestivo

09:27 Introduzir oxigénio nas bolhas na corrente sanguínea

11:21 Testes em humanos para uma interface de computador implantada no cérebro

12:19 Direcionando as bolhas para diferentes partes do corpo

13:13 O que acontece aos dispositivos eletrónicos ingeríveis no organismo

14:15 Testes em humanos com a tecnologia de bolhas

15:09 Diferentes condições que estas tecnologias poderiam tratar

18:06 Questões éticas

21:44 As três tecnologias poderiam funcionar em conjunto?

23:32 Poderiam ser utilizados implantes neurais para jogos de realidade virtual?

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Desejo-vos dias felizes

quarta-feira, novembro 12, 2025

Ver ao longe, planear, executar

 

Penso que ninguém suspeitará que tenho simpatias pelo regime comunista chinês. Não tenho, de todo. Aquelas reuniões unanimistas do partido, aquelas demonstrações sincronizadas de nacionalismo, aquele controlo das liberdades, aquele dirigismo impositivo em que parece que não há quem ouse pisar o risco -- tudo aquilo me causa uma repulsa que não tem solução.

Contudo, há um lado extraordinário na forma estratégica, planeada e focada como a China avança. Estará nos seus genes, estará na sua matriz cultural, estará cravado na sua pele tantos os anos de ditadura. Talvez. Mas temos que reconhecer que o desenvolvimento daquele imenso país é extraordinário. E falo em desenvolvimento económico, em desenvolvimento científico, tecnológico, social. O que era a China há umas décadas e o que é hoje... Só um centralismo poderoso e muito estável o conseguiria. Mas poderia havê-lo e terem ido numa outra direcção. E a verdade é que têm ido no sentido do progresso. E isso é inquestionável. Em quase todos os sectores da economia é a China que vai na frente. E mesmo a nível ambiental, onde há tempos, não estavam nem aí, agora se veem avanços assinaláveis. 

E têm atirado lanças um puco por todo o lado, e sempre de forma coerente, articulado, sustentado.

E não vale a pena colocarmos o nosso arzinho superior, focando-nos só no lado negativo das coisas. Claro que há um lado negativo. Aliás, muitos. Só que, se estivermos sempre a pensar que somos os maiores, só conseguimos aquilo que se vê, sempre a ficar para trás.

Os vídeos que aqui partilho são apenas exemplos numa área muito concreto. E, sobre o mesmo assunto, mostro dois vídeos para que se veja que não há unanimidade nas opiniões. Contudo, o que se vê, perante os escolhos que vão surgindo ou perante os possíveis riscos, novas soluções vão sendo estudadas e levadas à prática.

Compare-se a ambição destes projectos com a chachada que é a gestão da coisa pública em Portugal em que o governo nem consegue arranjar uma solução para as mulheres não parirem nas ambulâncias ou nos passeios, em que se compram helicópteros para a emergência médica que não conseguem pousar nos hospitais, em que se chega a esta altura do ano com 100.000 alunos ainda com pelo menos um professor em falta.

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Como a China está a transformar o seu maior deserto em novas fontes de vida

Outrora conhecido como o "Mar da Morte", o Deserto de Taklimakan é agora o centro de um dos projetos de restauro de terras mais ambiciosos do mundo.

Estendendo-se por 337.000 quilómetros quadrados na Região Autónoma Uigur de Xinjiang, na China, o Taklimakan é o segundo maior deserto de areia movediça do planeta. Durante décadas, as suas dunas expandiram-se implacavelmente, engolindo estradas, aldeias e terras agrícolas.

Mas hoje, essa história está a mudar.

Neste vídeo, levamos-te até à beira do deserto para veres como a China está a reagir – não apenas detendo as areias, mas transformando-as em novas fontes de vida e rendimento.

Como a China está a transformar o Mar da Morte numa floresta verde!

O Deserto de Taklamakan — conhecido como o “Mar da Morte” — é uma das paisagens mais inóspitas da Terra. No entanto, num esforço ambiental inovador, a China cercou-o com um enorme cinturão verde de 3.046 quilómetros, parte da maior floresta artificial do mundo. Este projecto, que dura há décadas, visa travar a desertificação, proteger milhões de pessoas e garantir infra-estruturas vitais em Xinjiang.

Neste documentário, exploramos o funcionamento da Grande Muralha Verde da China: desde arbustos resistentes à seca e florestas de choupos gigantescas, a sistemas de irrigação movidos a energia solar e barreiras de engenharia que contêm as dunas movediças. Examinaremos também os desafios — escassez de água, taxas de sobrevivência das plantas e equilíbrio ecológico — que poderão determinar o futuro desta audaciosa experiência.

Será esta a vitória definitiva contra o deserto, ou apenas um oásis temporário num mar de areia?

A Grande Muralha Solar da China: Transformar o deserto numa potência verde

Através do vasto Deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, norte da China, uma "Grande Muralha Solar" de 400 quilómetros, composta por painéis fotovoltaicos, está a transformar esta terra árida num símbolo do compromisso da China com o desenvolvimento das energias renováveis. Além de produzir energia limpa, protege o Rio Amarelo da areia do deserto, salvaguardando as comunidades locais e possibilitando uma agricultura verde e sustentável.
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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, agosto 12, 2025

A consciência anda por aí, ao deus dará, e o nosso corpo humano é que a capta e sintoniza?
Pergunto

 

Não é tema para o querido mês de Agosto e, muito menos, para se falar sem profundidade e sem conhecimentos. Mas, justamente porque o mês de Agosto é condescendente para com os azougados, aqui estou a partilhar um vídeo que vai lá, vai. 

Aquela coisa de eu ter gostado de ser psiquiatra e depois ter desistido porque primeiro teria que ser médica tout court e, portanto, ter que ter aulas de anatomia e ver mortos, e isso é que nem pensar, e depois ter gostado de ser psicóloga e depois ter desistido porque o curso, na altura, parece que não era tido como um curso mesmo a sério (mas, afinal, parece que até era, eu é que parece que estava mal informada), deixou marcas. Depois, apaixonei-me pela física da matéria, pela física das partículas elementares, pela mecânica quântica e aí é que percebi que gostava mesmo era do que não compreendia, do que estava muito para lá do demonstrável, do que toda a gente sabia. Passei a compreender que, dentro de mim, há uma parte, a que se dá a conhecer, a que conversa e quase parece normal, aquela que se põe a ouvir e, por isso, toda a gente lhe conta coisas, e uma outra parte, desconhecida até de mim, que lida mentalmente com mundos indefinidos e em que não existe uma língua passível de ser usada pois não há palavras existentes para realidades inexistentes.

E se parece uma conversa de doidos não é impressão vossa, é mesmo porque ninguém de bom senso confessa tal condição, uma coisa assim esconde-se de todos e da luz do dia. Muito menos se solta no espaço para que fique por aí a vogar em torno do maravilhoso ponto azul que flutua no imenso espaço sideral.

Mas isto para dizer que não percebo em que parte do cérebro se constrói a individualidade dos pensamentos e a forma de lidar com as emoções. E não sei se é no cérebro ou nos intestinos. Ou numa qualquer outra parte. Não sei. nem sei se essa individualidade, o código que faz com que os meus pensamentos sejam só meus e não os de outra pessoa, está dentro de mim, se está inscrito no meu DNA, ou se, misteriosamente, flutua também por aí e o meu cérebro é que capta esse sinal. 

Também não sei porque tenho, com alguma frequência, uma certa telepatia com a minha filha, tal como tinha com a minha mãe, ou como tenho com outras pessoas e coisas, ou como tinha com o meu amigo que estudava essas coisas e que inspirou um personagem do meu livro 'Um segredo tão azul' (por sinal, o meu livro até hoje mais encomendado), o tal livro meio maldito em que, não me perguntem como ou a que propósito, inventei que ele tinha morrido e me deixou a sofrer por ele, para descobrir, dias depois de o ter escrito, com espanto e susto, que ele tinha mesmo morrido de verdade. Coisas que não se explicam, para as quais ainda não se conhecem razões comprovadamente válidas. Há quem lhes chame coincidências. Eu tendo a chamar coisas do caraças.

E não, não sou adepta de esoterismos, de palermices envoltas em conversa fiada: nada disso. Sou da ciência. Mas sou atraída pelo que não conheço, sinto uma atracção, como íman, pelo que tenta aproximar-se do indefinível.

Para contextualizar de forma mais objectiva o tema, atrelei-me ao chatgpt. Transcrevo (com as devidas reservas pois, se fosse uma hora mais decente, iria validar; assim, a partir daqui é transcrição directa):

"Há cientistas e filósofos que defendem hipóteses em que a consciência não é apenas um produto do cérebro individual, mas algo que pode ter uma dimensão externa ou universal.

Isso não é consenso, mas existem correntes sérias (e algumas mais especulativas) que exploram essa possibilidade.

Aqui estão alguns exemplos das linhas de pensamento e quem as defende:

1. Panpsiquismo

O que diz: A consciência é uma propriedade fundamental da realidade, presente em todos os sistemas físicos, em diferentes graus.

Defensores:

  • David Chalmers (filósofo da mente) — conhecido pelo “problema difícil” da consciência.
  • Philip Goff (filósofo, autor de Galileo's Error).

o Ideia central: A consciência não “surge” apenas de cérebros; ela está distribuída na própria estrutura do universo.

2. Teoria do Campo de Consciência

O que diz: A consciência pode existir como um campo fundamental, parecido com o campo eletromagnético, que o cérebro “sintoniza” ou modula.

Defensores:

  • Johnjoe McFadden (biólogo teórico, autor da “teoria do campo eletromagnético da consciência”).
  • Michael Persinger (neurocientista, propôs o “campo de informação” ligado à atividade geomagnética).

      • Ideia central: A mente é como um rádio que capta e transmite um campo mental já existente.

3. Hipótese do “Cérebro como Receptor”

O que diz: O cérebro não cria a consciência, mas funciona como um receptor/transmissor de uma mente universal.

Defensores:

  • Henri Bergson (filósofo, início do séc. XX) e William James (pai da psicologia moderna).
  • Alguns físicos como Roger Penrose (trabalha com Stuart Hameroff na teoria Orchestrated Objective Reduction — Orch OR).

      • Ideia central: A consciência pode existir independentemente da matéria, e o cérebro é apenas o “interface” local.

4. Modelos de Consciência Distribuída / Não-Local

O que diz: A mente pode estar interligada num “campo informacional” que transcende o indivíduo.

Defensores:

  • Dean Radin (Instituto de Ciências Noéticas).
  • Rupert Sheldrake (hipótese dos “campos mórficos”).

      • Ideia central: Há uma rede ou campo informacional que conecta todos os seres vivos, e a consciência individual acessa esse campo.

🔹 Importante:

Grande parte destas ideias é controversa e está fora do consenso científico dominante, que ainda vê a consciência como produto emergente da atividade neural. Mas o interesse está a crescer, especialmente porque a ciência não tem, até hoje, uma explicação completa para como a atividade física do cérebro gera a experiência subjetiva (o “problema difícil”)".

[ChatGPT dixit] 

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E agora o vídeo que me arrisco a partilhar

 Why we might live in a conscious universe | Rupert Sheldrake

Most scientists think that consciousness is created by the brain. After all, most assume consciousness vanishes if the brain is destroyed. But what if this consensus view is radically mistaken? Join distinguished Cambridge scientist Rupert Sheldrake as he argues that the mind extends beyond the brain and explores the radical implications of this account.

Rupert Sheldrake is a preeminent biologist and author best known for his hypothesis of morphic resonance. His books include Science and Spiritual Practices, Ways to Go Beyond And Why They Work and The Science Delusion. Furthermore, he was ranked in the top 100 thought leaders for 2013 by the Duttweiler Institute, Switzerland's leading think tank, and has been recognised as one of the 'most spiritually influential living people' by Watkins' Mind Body Spirit Magazine.


Desejo-vos um belo dia

sexta-feira, julho 18, 2025

Conversa em torno do abismo do não-ser

 

Fisicamente, Eduardo Giannetti é praticamente igual a um colega meu. Divertidíssimo, diziam-no pouco amigo de trabalhar mas, embora não o achasse um excepcional proactivo, dele nunca tive razões de queixa. Tinha como hobbies a fotografia e o cinema, participava em concursos e, em dias de evento, já sabíamos que podíamos contar com ele para registar o momento. E, ao pé dele, era forçoso que estivéssemos sempre todos muito bem dispostos. 

Não conheci a sua primeira mulher, por quem era apaixonadíssimo, sua comparsa nas fotografias e filmagens. Não tendo filhos, a disponibilidade de ambos para passeios e aventuras era permanente.

Até que um dia ela adoeceu. Para ele, foi um sofrimento terrível. Acompanhou-a incansavelmente.

Quando ela morreu, teve um grande desgosto. 

Fui ao velório. Como já contei, tenho pavor de mortos, é uma fobia que vem de quando era pequena. Nem entro na capela se a urna estiver aberta. 

Mas tendo feito centenas de quilómetros para lhe dar um abraço e estar com ele, seria estúpido não entrar. Só que a urna estava aberta. Portanto, não entrei mesmo. Saiu ele. E foi chamar a mãe para me apresentar, muito simpáticos. E começaram a contar-me os últimos dias dela, tudo envolto em ternura e tristeza. E, então, diz-me ele assim: 'Não quer ir ali vê-la? Está tão bonita. Está muito serena. E o cabelo... tão bonito...'. Quase me senti desfalecer. Pedi desculpa, disse que não conseguia, que me fazia muita impressão. Mas vi que ele ficou com pena que eu não fosse ver a defunta. 

Pouco tempo depois fui ter uma reunião com ele. Estava outro. Rejuvenescido, risonho, outra vez muito brincalhão. Tinham-me dito: 'Não me pergunte como é possível, mas é: o nosso colega já anda de namoro, todo in love.'. Fiquei estupefacta. Perguntei se era alguém conhecido. Não, nada. É que, se fosse colega, ainda me pareceria possível que, tão pouco tempo depois, já ele estivesse de namoro. Agora, em tão pouco tempo, desencantar uma desconhecida... Mas, então, fui ter ao gabinete dele. Em cima da secretária, numa moldura, uma fotografia de uma senhora toda desportiva, toda sorridente. Perguntei: 'Já soube da novidade e, pelo que ouvi dizer e pelo que aqui vejo, a coisa vai de vento em popa, já aqui tem a fotografia da namorada...'. Ele riu: 'Pois, não a quis ver lá na capela, não a conheceu... Esta não é a namorada, esta é a falecida...'. Fiquei sem saber o que dizer.

Mas isto só vem ao caso pois, ao ver o convidado do Bial, parecia mesmo estar a ver aquele meu colega bacano. Todo ele: o rosto, o cabelo, o corpo, os óculos, a forma como se veste. Iguais. Como é possível?

Mas vejam a entrevista, é outra daquelas conversas que nos deixam a pensar. Interessantes perspectivas.

É possível se tornar IMORTAL? Com Eduardo Giannetti | Conversa Com Bial | GNT

O economista e professor Eduardo Giannetti - e também autor do livro "Imortalidades" - vai ao #ConversaComBial para falar dos tipos de imortalidades sobre as quais escreveu. Aborda a pequenez dos seres humanos diante do desconhecido e como a crença na vida após a morte vai muito além da ciência, das tecnologias e da religião. 


Uma sexta-feira feliz

sábado, junho 28, 2025

Uma terra muito rara

 

Celebro os acasos, celebro a boa sorte das inexplicáveis coincidências, celebro a felicidade do que acontece apenas porque sim. 

A terra, este pontinho azul que voga no infinito, nascido por milagre, que, por milagre, se mantém a flutuar em harmonia, sem se despenhar, sem explodir, sem se desintegrar, continua a ser o nosso chão, o nosso céu, o nosso sustento e amparo. Sem sabermos como nem porquê nem para quê temos o dia e a noite, temos as estações do ano, temos o quem e o frio, o seco e o molhado, o sólido, o líquido, o vaporoso e o tule e o insondável, o feio e o belo, o dizível e o indizível. E digo que não sabemos mas talvez alguém saiba, talvez os físicos, certamente os matemáticos, muito provavelmente os mais loucos poetas tenham as fórmulas, as demonstrações científicas e as outras, as feitas de palavras que cantam, que voam, que se escondem. 

De todas as poeiras invisíveis que se escondem por entre as ondas também invisíveis que transportam palavras e imagens agradeço às que habitam o meu corpo e as árvores e as flores que me rodeiam.

Tudo parece impossível de mais para ser verdade. E, no entanto, damos tudo por adquirido. Não agradecemos a perfeição, a harmonia, a beleza, a raridade.

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The Rare Earth Hypothesis: What Is It? | Aliens: The Big Think | BBC Earth Science


A hipótese das Terras Raras sugere que há algo de especial na Terra – mas o que é?


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De 'Aliens: The Big Think' (2016)

A caça aos alienígenas começou! Após uma distinta carreira em cosmologia, o Professor Martin Rees, astrónomo real, assumiu a procura de extraterrestres. Procurar alienígenas já não é ficção científica - é uma questão que está a envolver algumas das mentes mais brilhantes da ciência. À medida que o nosso conhecimento do universo aumenta, aproximamo-nos das respostas. Muitos cientistas acreditam agora que vivemos numa galáxia com mil milhões de planetas semelhantes à Terra, muitos dos quais podem estar repletos de vida. Mas que tipo de vida? Evoluiu alguma coisa para seres com os quais podemos comunicar? Este filme entra na mente dos cientistas que consideram uma das perguntas mais emocionantes e profundas que podemos fazer - estamos sozinhos no universo? O Professor Rees acredita que podemos ter a nossa ideia de como é um alienígena completamente errada. Se ele estiver certo, não são extraterrestres orgânicos que devemos procurar, são máquinas.

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Dias felizes

terça-feira, abril 29, 2025

Um mundo a diferentes velocidades. Por um lado a Inteligência Artificial a dar passos de gigante e, por outro, de repente, falta a 'luz' e o País pára

 

Comento muitas vezes que o mundo evolui displicentemente assente em pés de barro. Por exemplo, em todo o lado temos que dar o nosso endereço de correio electrónico, que passa a ser praticamente o único meio de contacto, e, no entanto, temos as nossas contas em empresas com as quais temos uma relação muito frágil. O gmail, usado pela maioria das pessoas, só para dar um exemplo, é gratuito pelo que dificilmente haverá margem para exigir o que quer que seja. O que é que as pessoas sabem sobre os locais em que o seu correio está alojado ou o que fazer sem ficarem sem acesso a ele? Mas o correio electrónico apenas está disponível se houver comunicação de dados. Não havendo, não há correio.

Ou, na maioria, temos acesso às nossas contas bancárias através do homebanking que assenta em comunicações que são também vulneráveis. Veja-se o que aconteceu esta segunda-feira com o apagão, em que muitas pessoas ficaram incomunicáveis. O dinheiro físico praticamente já só é disponibilizado via Multibanco mas, como se viu, o sistema ficou inoperacional e, em grande parte do comércio, sem terminais de pagamento, apenas faziam compras a dinheiro.

E não vou aventurar-me a falar de sistemas de chamada como o Uber ou outros serviços que ficam indisponíveis quando as comunicações falham ou quando falha a alimentação elétrica. 

E hoje ficámos a perceber que, estando a energia a ser importada, quando falou em Espanha, ficámos nós todos 'às escuras'. Ainda não se sabe exactamente o que se terá passado mas as causas, para este efeito, são irrelevantes: o que é relevante é que tanta inteligência artificial, tantos avanços tecnológicos, tanta tecnologia gratuita ao dispor de todos... e afinal, uma borboleta bate as asas com mais força num qualquer outro país e, de súbito, tudo cai por terra. 

Ninguém sabia o que estava a passar-se, começaram a surgir explicações para todos os gostos, não se sabia se íamos ficar às cegas e isolados por horas ou por dias, a malta correu para os supermercados sem saber o que fazer, não conseguíamos comunicar-nos uns com os outros, não se conseguia abastecer os veículos, o primeiro-ministro fechou-se em S. Bento sem falar à população e, de repente, parece que tínhamos voltado à pré-história tecnológica.

Ocorria-me que as casas deveriam ter pequenos geradores e reservas de combustível, painéis solares, qualquer coisa para garantir um mínimo de autonomia. Estamos completamente dependentes de tecnologia e ao mesmo tempo completamente vulneráveis.

Pela parte que me toca, fiquei sem conseguir contactar filhos e netos até à noite (e a minha filha esteve sem saber do mais velho durante horas). Em vão tentei contactá-los por todas as vias e só por volta das nove da noite comecei a ter notícias. Preocupava-me pois pensava que, mesmo se fosse ver se a minha filha precisava de alguma coisa (pois o fogão e forno são eléctricos e, portanto, não tinha mesmo como cozinhar), não tinha como chegar até ela pois a campainha do prédio não funcionaria e, mesmo que eu soubesse o código da porta, também não funcionaria. E preocupava-me pois, mesmo que os miúdos fossem a pé para casa, sem terem a chave da porta de baixo e sem campainha e sem telefones, como entrariam? 

Mas, enfim, estão todos bem, em casa, sem problema, e já com energia em casa.

Concluindo: é isto, um progresso que, vendo bem, tem pés de barro.

Há uma reflexão a fazer sobre o que se passou. E espero bem que não seja como sempre acontece: mal tudo fica tranquilo mais ninguém quer saber de coisa nenhuma.

domingo, fevereiro 09, 2025

Já se conhece a fonte da juventude...?

 

É um tema complexo. Não se trata apenas de beleza, de cosmética, de vaidade pessoal. É um tema que envolve a vida mas, ao mesmo tempo, a qualidade de vida. E, ao mesmo tempo, a preparação da sociedade para enquadrar uma vida mais duradoura. Uma população proporcionalmente mais idosa, mais tempo sem trabalhar (e a Segurança Social a ter que aguentar) ou, se se trabalhar até mais tarde, encontrar trabalho para os mais novos, mais recursos, mais serviços de apoio a todos os níveis.

É um tema complexo.

Mas é um dos grandes desafios que a ciência enfrenta e que, deveria, em simultâneo, ser um desafio para todas as vertentes de gestão da sociedade.

De qualquer forma, mesmo que não falemos em prolongar a vida em mais 10 ou 20 anos, é agradável a perspectiva de que consigamos ter, tanto quanto possível, uma vida longa e feliz.

Uma alimentação equilibrada e saudável, exercício físico e, surpresa, surpresa, os dentes bem lavados!, parece um cocktail muito promissor. E, depois, haverá os comprimidos que parece estarem bem encaminhados. E depois haverá todo um mundo novo.

Face à forma descabelada e caótica como o mundo tem evoluído, não sei se esse mundo novo será feliz. Mas acredito que, retirando os episódios tristes que sempre acontecerão, talvez se consiga tirar um bom partido do que a ciência nos vai ensinando.

Have we already found the fountain of youth? 
- The Global Story, BBC World Service

Scientists are optimistic that existing drugs that could one day slow or reverse our ageing. 

For centuries, people have pursued the dream of eternal youth. It might seem like the stuff of myth or science fiction, but researchers have been making fascinating progress in understanding what happens in our bodies as we age. There’s optimism that we might soon be able to use drugs to slow down or even reverse how we age, extending the number of years we live healthy, productive lives. What’s more, some of us might be taking these drugs already. 

On today’s episode, Lucy Hockings speaks to Dr Andrew Steele, author of Ageless: The New Science of Getting Older Without Getting Old to find out whether we might drink from the fountain of youth in our lifetime.


domingo, janeiro 05, 2025

Como escolhemos 'aquele' ou 'aquela' que nos vai dar volta ao miolo? Como é que, no meio de mil opções, escolhemos quem vai ser o nosso crush? Qual o algoritmo que o nosso cérebro usa?

 

É uma questão de química? Ou é mais uma questão física? Uma questão psicológica? É aquele je ne sais quoi?

As borboletas no estômago são desencadeadas por quê?

É aquilo das almas gémeas? (Um aparte: por mim, posso acreditar em tudo menos nessa fantochada das almas gémeas... Quem é que quer ter uma paixão por uma alma gémea? Não percebo. Não é que seja por até soar a incestuoso, é mesmo por ser uma seca)

O vídeo abaixo explica tudo bem explicado. E, afinal, como é mais que sabido, é mesmo uma cosa mentale... 

How Your Brain Picks Your Crush!

Ever wondered why you’re irresistibly drawn to certain people? In this video, we uncover the fascinating science of attraction and reveal how your brain secretly picks your crush! From the chemicals that fuel those butterflies to the subconscious patterns that guide your preferences, this deep dive will leave you amazed at what’s really happening in your mind.

We’ll explore the roles of dopamine, oxytocin, and serotonin, the psychology of familiarity and the “X factor,” and even how evolutionary biology influences your love life. Plus, find out why it’s not just about looks but also personality, emotions, and unique connections.


quinta-feira, dezembro 05, 2024

Está a chegar o tempo dos pós-humanos?


A ciência deve, forçosamente, ser um dos mais importantes pilares do desenvolvimento. Um outro deve ser a ética. Outro o humanismo. E há mais mas agora não virão tanto ao caso.

Nas empresas, em especial em empresas em que há áreas de investigação e desenvolvimento, recorre-se cada vez mais à figura dos 'gémeos digitais'. No fundo, são réplicas dos processos reais com tudo o que há de interacção entre eles. Deste modo, quando se pretende testar qualquer inovação, seja de que tipo for, em vez de arriscar danos se o teste for feito em ambiente real, usa-se o gémeo digital.

Não é fácil nem económico ter 'gémeos digitais' que sejam réplicas perfeitas, fidedignas. Claro que os meios actuais ajudam: por exemplo, já não é preciso ter Data Centers ultra dispendiosos, pode recorrer-se ao alojamento e gestão na 'nuvem'. Mas, ainda assim, não é fácil. E tem que haver pessoas, muito, muito entendidas, que saibam validar se o gémeo digital é fiável e se os resultados obtidos são de confiança ou se o 'gémeo digital' está coxo e não permite extrapolar algumas conclusões.

Mas uma coisa é ter réplicas do funcionamento de fábricas ou de empresas em geral. Outra, muito diferente, é ter réplicas do funcionamento do corpo humano. Não é só o que isso permite de bom... é também o que permite fazer se as intenções não forem as melhores.

E falo nisto como poderia falar em pegar numa célula qualquer e daí conseguir obter um óvulo e um espermatozóide, conseguindo, pois, 'conceber' um ser humano.

As possibilidades são infinitas. Muitas incríveis, maravilhosas. Outras aterradoras.

E não falo de promessas, de expectativas. Falo de possibilidades reais, cientificamente disponíveis.

Convido-vos a ver o vídeo abaixo. É possível colocar legendas em português.

How Tech Is Breaking the Rules of Biology | Posthuman with Emily Chang

From birth to death, tech is stretching the boundaries of biology. In this episode of Posthuman, we explore the discoveries that could transform reproduction, healthcare and how we die.

Technology that once seemed like science fiction is rapidly becoming reality, transforming the very essence of our existence. In this four-part series, Emily Chang unravels the future of being human in an age of unprecedented innovation.


quinta-feira, outubro 31, 2024

Será que é desta...?

 

A solução para retardar o envelhecimento estará mesmo a caminho...?

Creio que sim, que está mesmo a caminho. E só gostava era que chegassem a tempo de eu poder usufruir de alguns dos desenvolvimentos que vierem a mostrar-se efectivos, sem efeitos secundários, económicos, para uso geral. Admito que a cosmética venha a beber aí conhecimentos. 

Pelo que parece, o que está a descobrir-se abre caminho não apenas ao retardar do envelhecimento da pele mas também dos órgãos, nomeadamente o coração.

Notícias fantásticas. 

Daqui por não muito tempo a esperança de vida aumentará e creio que, por essa via, a qualidade de vida será incrementada (e as pessoas parecerão mais jovens até mais tarde). Assim a sociedade saiba adaptar-se (o que pode ser um desafio e tanto...). 

Aliás, as investigações em curso nas mais diversas áreas parecem abrir portas a um mundo novo. Sempre assim foi, mas agora, com as investigações em rede, com a partilha de informação disponível em qualquer lugar, a qualquer hora, com as sinergias que se criam, os avanços são mais rápidos, podem ser facilmente potenciados e, talvez por isso, parecem mais significativos.

E, no entanto, vejo estas boas notícias ao mesmo tempo que leio que morreu André Freire, pessoa que ouvia sempre com atenção. Segundo a notícia, foi operado a um ombro, supostamente uma operação pacífica, arranjou uma infecção na sequência da cirurgia e, num ápice, morreu. Fez-me muita impressão. Com tantos avanços científicos, tanta sofisticação e depois acontece uma coisa destas. Li que ainda na segunda-feira tinha estado a lançar um livro, certamente muito longe de pensar que estava a viver um dos seus últimos dias de vida. Por vezes a vida é ingrata, traiçoeira. E isso pode ser assustador.

Li ainda que André Freire foi operado na Luz mas que, face ao quadro, foi transferido para o São Francisco Xavier. 

Quando a coisa dá para o torto a valer, ainda bem que há o SNS. Infelizmente, neste caso, pelo triste desfecho, já não terá sido possível reverter o quadro. 

Lamento muito.

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New skin research could help slow signs of ageing | BBC News

Researchers have made a scientific discovery that could be used to slow the signs of ageing. 

The Human Cell Atlas project has discovered how the human body creates skin from a stem cell, and even reproduced small amounts of skin in a lab. 

As well as combatting ageing, the findings could also be used to produce artificial skin for transplantation and prevent scarring.

sábado, setembro 07, 2024

Quando as coisas podem ser muito boas e muito más

 

Quantas vezes já aqui falei dos tremendos benefícios da Inteligência Artificial e dos tremendos riscos se não houver um apertado, sérios e muito rigoroso controlo na sua utilização? Muitas, muitas.

Sou assídua utilizadora do ChatGPT, uma das mais extraordinárias ferramentas de uso comum, ou de outros tipos de IA. Na Saúde a IA deve vir a proporcionar incríveis avanços. Mas em todos os ramos do saber se sentirá um incremento exponencial na precisão e na rapidez dos processos de decisão.

Mas os riscos, senhores, os riscos...

Se já estamos a ver os riscos de termos ferramentas de uso tão geral, tão ubíquo, tão intenso (como o X, ex-Twitter, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp) nas mãos de gente estranha, auto-centrada, mais amiga de regimes autocráticos do que de regimes democráticos, gente que não respeita a legislação dos países em que opera, gente não por acaso apoiante de Trump, não será difícil antever os riscos de potentes motores de Inteligência Artificial nas mãos de quem se está nas tintas para regulações ou constituições 'locais'.

E uso a expressão 'locais' pois é assim que as grandes empresas tecnológicas que operam em vários países, em vários continentes se referem à legislação desses países. Respeitar as diferentes 'localizações' é daquelas maçadas a que se obrigam se contratualmente a isso estiverem vinculadas. Não o estando, é para o lado em que se deitam melhor.

No Brasil, exigiu-se que houvesse no Brasil alguém que respondesse pelo X. Não há como não há em quase todo o lado. E do Facebook há em Portugal? Ou do Instagram? Ou de tudo isso...? Um dia que se queira reclamar, bate-se a que porta?

A questão é que o Elon Musk se está nas tintas. Proibir  X no Brasil...? Está bem, está? Tecnicamente como é que isso se garante? 

Esta gente é fora-de-lei, é gente que pensa de outra maneira. Não querem saber de danos colaterais, não querem saber de problemas éticos, de questões constitucionais. É gente que está noutra. Um perigo.

A Inteligência Artificial pode ser um precioso auxílio para o desenvolvimento, para a democracia. E para a humanidade. Mas também pode ser totalmente destrutiva.

O vídeo abaixo é muito interessante. 

Yuval Harari fala sobre lançamento de Nexus e inteligência artificial! | 

Conversa com Bial

Yuval Harari, escritor israelense e autor do best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade, se desdobrou no consumo da informação e na comunicação desde a idade da pedra até a inteligência artificial em seu novo livro Nexus: Uma breve história das redes de informação. No #ConversaComBial, o autor debateu sobre os prós e contras da evolução da comunicação atual 


Dias felizes

sexta-feira, setembro 06, 2024

Quando a ciência pula e avança:
ou é o medicamento para o peso em excesso que afinal retarda o envelhecimento e reduz a mortalidade ou é o simples corante alimentar que torna a pele transparente permitindo ver o que se passa dentro dos corpos...
(Quem sabe se não estamos à beira de um salto quântico no prolongamento da vida (saudável)...?

 

Tratamentos assim e assado, testes, experimentações, cenas promissoras que afinal se revelam limitadas no âmbito ou na implementação mas que, de uma forma ou de outra, contribuem para os avanços que têm permitido que a esperança de vida se vá prolongando e que, quando é chegada a hora, muitas vezes a 'passagem' se faça com menos sofrimento. Dito assim, pode parecer pouco. Parecem pequenos passos, um pouco mais do mesmo. 

Engano: isso não é pouco, a vida é assim mesmo. Na maior parte das vezes, um dia pouco difere da véspera. Há recuos, há compassos de espera e há baby steps. 

Estamos onde estamos porque, apesar de tudo, muito de relevante tem acontecido.

Mas. depois, há coisas inesperadas que fazem com que, de onde menos se espera, surja a esperança de descontinuidades virtuosas. Ao longo da história da medicina, há momentos fulcrais que fazem toda a diferença. Aí os avanços não são simples incrementos, são verdadeiros achados que mudam o rumo da história, ou pelo menos, abrem brechas através das quais os cientistas conseguem abrir espaço a uma esperança cheia de luz.

Dois exemplos.

No outro dia era a notícia de que:

"Medicamentos para emagrecer ‘retardam o processo de envelhecimento’, sugerem cientistas. 

A semaglutida – contida no Ozempic e no Wegovy – tem “benefícios de longo alcance”, com taxas de mortalidade mais baixas por todas as causas.

Os medicamentos para a perda de peso estão prestes a revolucionar os cuidados de saúde, ao abrandar o processo de envelhecimento e ao permitir que as pessoas vivam mais tempo e com melhor saúde. Esta é a mensagem dramática dos principais cientistas após a apresentação de estudos na semana passada na Conferência da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Londres.

(...)

[Ler artigo completo no Guardian]

Imagino que várias novas frentes de investigação se abram a partir daqui. E fico esperançosa nos seus bons resultados.

Hoje uma outra notícia me parece empolgante. Neste caso ainda não foi testada nos humanos mas forçosamente se avançará por aí e, creio, muito rapidamente.

Corante alimentar comum torna a pele e os músculos temporariamente transparentes

Investigadores dizem que procedimento ainda não testado em pessoas pode eventualmente ser usado para ajudar a localizar lesões ou tumores.

Os investigadores examinaram os cérebros e os corpos de animais vivos depois de descobrirem que um corante alimentar comum pode tornar a pele, os músculos e os tecidos conjuntivos temporariamente transparentes.

A aplicação do corante na barriga de um rato tornou o fígado, os intestinos e a bexiga claramente visíveis através da pele abdominal, enquanto a aplicação no couro cabeludo do roedor permitiu aos cientistas ver os vasos sanguíneos no cérebro do animal.

A pele tratada recuperou a sua cor normal quando o corante foi removido, de acordo com investigadores da Universidade de Stanford, que acreditam que o procedimento abre uma série de aplicações em humanos, desde a localização de lesões e veias para tirar sangue até à monitorização de distúrbios digestivos e à detecção de tumores.

(...)

[Também aqui, artigo completo no Guardian] 

 Groundbreaking Process Makes Skin Invisible

Researchers at Stanford University have developed a way to make skin and other tissues transparent using a simple food dye, a reversible technique with potential for revolutionizing internal medicine. In this clip, thin slices of chicken breast become transparent on exposure to the dye yellow #5.

Using a common food dye, researchers made mouse skin transparent

What if you could apply a substance on the skin, much like a moisturizing cream, and make it transparent, without harming the tissue? In a study published in Science, Stanford Engineering researchers were able to see, with the naked eye, organs within an animal’s body, by simply applying a common food dye. The process is completely reversible and appears to leave no lasting effects on animal subjects. 

The researchers believe this novel technique is the first harmless, non-invasive approach to achieving visibility of an animal’s living internal organs. Looking forward, this technology could make veins more visible, easing the process of venipuncture. Moreover, this innovation could potentially replace some X-rays and CT scans, assist in the early detection of skin cancer, and make laser-based tattoo removal more straightforward.
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Dias felizes

terça-feira, agosto 27, 2024

Caro Leitor, não se assuste. Não fuja. Isto não tem que meter medo.
Vou falar, mas muito ao de leve, em Ser mortal

 

Sempre tive pavor da morte. Nunca consegui ver, ao vivo (passe o disparate da expressão neste contexto), nenhum morto.

Há pouco tempo uma amiga contava que, quando a mãe tinha morrido, tinha resolvido que ela iria (ora aqui está outro verbo desajustado neste contexto pois nenhum morto 'vai', quando muito 'levam-no') vestida com uma camisa de dormir branquinha com rendinhas. Depois resolveu mandar fazer uma bandelete com florzinhas para a mãe levar no cabelo. Diz que o pai, quando viu a mãe, disse que ela estava mesmo bonita assim. Perguntei se ela tinha conseguido ver a mãe, Disse que sim, claro. Corajosa.

Também nunca gostei de conversas sobre a morte. 'Ai que mórbido', sempre disse quando o tema deslizava para esse buraco (desculpem o mau gosto da expressão). Fugia a sete pés de conversas sobre doenças terminais, sofrimentos atrozes, estados de quase morte. Parece que tinha medo de ter medo, tinha medo de ficar a pensar no assunto e ficar aterrorizada.

Por isso, morreram-me pai e mãe sem que nunca nenhum de nós tivesse falado em vontades relacionadas com o seu fim. Quer dizer, o meu pai pedia muitas vezes para o deixarmos morrer. Mas ficávamos chocadas, não queríamos que ele dissesse isso, parecia quase coisa de mau gosto (olha que coisa mais estúpida de eu agora dizer). Mas quando ele, coitado, infeliz até à última das suas células, queria que o deixássemos desistir, eu era parva até dizer chega, dizia para ele não dizer isso, dizia que ele estava confortável na sua cama, não tinha dores. Burra, mil vezes burra. Como se estar numa cama (embora sem dores) fosse motivo suficiente para se querer viver.

Mas eu não estava preparada nem fui formatada nem aconselhada nem nada para lidar com uma situação assim. Apegamo-nos à vida daqueles que amamos e não os queremos deixar desistir. Nem paramos para pensar que, com isso, estamos apenas a querer que sofram mais.

Nunca me passou pela cabeça ter uma conversa assim: 'A sua vida vai disto para pior. Por isso, vamos falar francamente. Como gostaria de viver daqui até morrer?'. Nunca. Nunca. Nem teria coragem. Parece que estaria a assumir que admitia que ele fosse morrer. E, assumindo, poderia parecer que estava a desistir. 

Fui muito cobarde. Fingi até ao fim que ele teria razões para estar bem, que não deveria querer desistir. Se calhar, por isso, por me saber frágil, nem ele, nos seus momentos mais lúcidos e deprimidos, foi capaz de me dizer para deixar de ser parva, para cair na real, para assumir de vez que ele era mortal e que merecia poder ter uma palavra sobre como queria viver os seus últimos tempos.

Sobre a minha mãe, ainda foi mais traumático. Estando obviamente moribunda, nunca consegui deixar transparecer que sabia que ela estava por dias, nunca fui capaz de ajudá-la a enfrentar a sua mortalidade. Ela não queria morrer. As enfermeiras diziam que ela chorava e pedia para não a deixarem morrer. Eu ficava transida de medo que ela me pedisse isso a mim pois não saberia o que dizer, seria um sofrimento insuportável para mim pois, deixando que ela percebesse o meu sofrimento, provavelmente fá-la-ia sofrer ainda mais.

Quando a psicóloga da ala dos Cuidados Paliativos me chamou para falarmos, nunca cheguei a perguntar como, perante uma pessoa moribunda, devemos comportar-nos. Eu gostava de ter tido coragem de dizer: 'Vai morrer em breve, mãe. Toda a gente morre. Não é uma fatalidade morrer. Estamos a fazer de tudo para que sofra o menos possível. Não tenha medo, mãe. Não vai custar. Pode ir em paz que eu cá me arranjarei, não se preocupe comigo.' Claro que não tive coragem. Nem de longe nem de perto. O meu comportamento foi o mais oposto disto. Dizia: 'Está com melhor aspecto hoje. Não chore. Já esteve pior, está a melhorar. Tenha esperança'. 

Saía de lá arrasada. Não apenas me era doloroso até ao limite por vê-la assim como vinha atordoada por intuir que a minha cobarde atitude não seria a mais indicada. Ficaria ela mais tranquila se soubesse que eu iria aceitar bem a sua morte? Não sei, não faço ideia.

Já lá vão sete meses que a minha mãe morreu e quatro anos o meu pai. E continuo a achar que a forma como lidei com a sua finitude e com os momentos que precederam a sua morte foi pouco racional, muito dolorosa e que, para eles, não sei se foi a mais adequada ou se queriam também ter agido de outra forma e não o fizeram para me poupar ou porque não venceram os seus próprios medos.

Penso hoje, e penso cada vez mais, que a forma como toda a vida fugi do tema da morte e como fui poupada a isso, não faz sentido. Eu deveria ter estado melhor preparada.

No mês em que a minha esteve internada, às portas da morte, eu vi dezenas de vídeos em que médicos, enfermeiros ou doentes falavam da pré-morte. A minha família achava que eu, ao querer saber mais e mais e mais, estava a auto deprimir-me, corria o risco de ficar passada. Mas não. Estava apenas a querer adquirir algum conhecimento sobre algo para mim totalmente desconhecido. Mas não me serviu de nada. Continuei assustada, sem saber se devia assumir perante a minha mãe que sabia o que se passava ou se devia manter aquela atitude palerma de parecer optimista.

Uma outra coisa em que tenho pensado muito é na fobia e na aversão que a minha mãe tinha a medicamentos. Temia os efeitos secundários, achava que lhe faziam pior do que a doença em si. Por não tomá-los esteve duas vezes internada, o que, curiosamente, ela aceitava bem. Era como se ganhasse uma vida adicional. Pelo contrário ficava deprimida, assustada, aterrada, infeliz quando era convencida a tomar os medicamentos (e não sei se os tomava pois arranjava maneira de nunca ninguém ver). Mas não deveria eu ter respeitado a sua vontade e aceitado pacificamente que a minha mãe não queria tomar medicamentos? Só fico na dúvida pois ela não queria tomá-los porque preferisse morrer. Não. Ela queria viver. Queria era viver sem tomar medicamentos. E isso, em meu entender (e dos médicos), não era possível. Só que nunca houve a coragem de ter uma conversa franca em que num dos pratos da balança estivesse uma decisão consciente de encurtar a vida, embora vivendo a seu gosto, sem medicamentos, e no outro prato a decisão de tomar medicamentos e viver aterrada com os efeitos secundários.

São questões complexas. Ter conversas deste tipo exige preparação, coragem.

De uma maneira ou de outra todos teremos um dia que passar por situações assim ou com pessoas que nos são queridas ou mesmo connosco. Um dia, esperemos que longínquo, seremos nós a estar nas últimas. E, pelo menos pela parte que me toca, gostaria de ter a coragem de falar abertamente nisso com os meus, gostava de poder ajudá-los a enfrentar a situação da melhor forma melhor possível. 

Por exemplo, custa-me pensar que um dia, estando eu ainda lúcida e com vontade de viver, alguém possa decidir por mim que já não posso viver em minha casa, que tenho que ir para um depósito em que os velhos e os incapacitados passam os dias em cadeiras de rodas, a dormir de boca aberta, sem um único propósito de vida. Ou que, perante um cenário complicado, alguém me force a estar acamada, de fraldas, entubada, sem voz activa para coisa alguma.

Ou seja, é um tema que é bom que seja falado, discutido, que deixemos cair os tabus, que sejamos capazes de enfrentar os nossos medos, que conversemos, que troquemos experiências e opiniões.

Finalmente acabei o 'Ser Mortal' de Atul Gawande, médico. É um livro que gostei muito de ler. Fala da sua experiência pessoal e do que tem pensado e estudado sobre o assunto. O livro tem uns anos e os vídeos que aqui partilho também. Contudo parece-me que a realidade é ainda a mesma do que tudo ali se diz.

Dr. Atul Gawande on what we should .be asking in end-of-life care

Dr. Atul Gawande helped transform the conversation about aging and death in his book, "Being Mortal: Medicine and What Matters in the End." The book spent 85 weeks on the New York Times Best Sellers list and is now available in paperback. Dr. Gawande, a surgeon at Brigham and Women's Hospital in Boston, joins "CBS This Morning" to discuss the importance of focusing on how someone wants to live at the end of their life -- not just how to keep them alive.


When Should Dying Patients Stop Treatment? | Being Mortal |

Why is it so hard for doctors to speak openly with their terminally ill patients about death as the end nears? Dr. Atul Gawande, Boston surgeon and author of the best selling book "Being Mortal" had a remarkably candid and intimate conversation with the widower of a deceased patient and apologizes for offering false hope in the end. 

It's the story of Sara Monopoli who was diagnosed with Stage 4 lung cancer during the 9th month of her pregnancy at the age of 34.

Desejo-vos um dia bom
uma vida longa e feliz