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terça-feira, setembro 29, 2026

Se há uma mão invisível que vem de lá e toca no meu coração ou na minha pele ou nas minhas vísceras então é porque é arte?
Pergunto.

 

Há temas que me são caros, talvez porque encerrem um enigma que não consigo deslindar. O tema da arte é um deles. O que é a arte? Como distinguir se uma obra é arte, se é artesanato, se é artifício, se é uma mera provocação?

Imagino que isto seja tema de estudo nos cursos de Arte ou de História da Arte. Poderia, agora, ir pesquisar sobre o que se diz sobre o tema, talvez até interrogar as inteligências artificiais, mas não quero. Prefiro que permaneça sem resposta.

No outro dia, ao conversar com uma amiga que ensina e pratica a matéria, ela dizia que também não tem resposta: qual a fronteira entre uma escultura e um objecto de decoração? Quando a dúvida lhe ocorre, ela sabe formular a pergunta mas não arrisca na resposta.

Desde muito cedo me interessei por arte. Enquanto estudava na faculdade, era rara a semana em que não me enfiava na Gulbenkian. Como entrei para a faculdade aos dezassete anos, posso dizer com segurança que parte de mim se formou nessa altura, no contacto directo com todas as formas de arte. 

Já contei várias vezes o efeito que uma grande exposição do Miró provocou em mim: espanto, dúvida, admiração, alegria, incompreensão. Isto também é arte?, perguntava-me eu. Na altura não consegui assimilar tudo. Ao longo dos anos, as imagens foram fazendo o seu caminho dentro de mim. Algumas palavras foram criando raízes. Fascínio. Liberdade. Como se consegue ser tão livre a ponto de encher telas com cores e símbolos e estrelas e pontinhos? Como se consegue ser tão livre a ponto de fazer peças com escadas, sapatos e peças de roupa? Como se consegue que aquelas cores e formas façam tanto sentido?

E aquela exposição de Rodin, que comoção. Não conseguia deixar de andar de volta daquelas figuras. E depois a obra que mais me marcou, quase a mais insignificante. Até hoje, uma imagem que ficou gravada em mim. Voltei ao puro encantamento ao revê-la, anos mais tarde, em Orsay. Celle qui fut la belle Heaulmière. Uma escultura relativamente pequena, uma mulher curvada, enrugada, os seios esvaziados, caídos, o ventre lembrando talvez distantes maternidades. Outrora bela. Aquela que em tempos foi bela. A inclemência com que se pode olhar para um corpo velho e apenas ver nele a sombra do que se foi.

Tive vontade de chorar pela beleza da mulher, ainda tão bela na sua nudez sugada pelo tempo. Arte, sem dúvida. Arte maior.

Tantos exemplos. Um dos casos que mais me toca, não apenas porque é dos pintores que produz em mim um impacto emocional mais forte, mas também porque me deparo com a total indiferença, senão mesmo repúdio por parte da maioria das pessoas com quem falo. Rothko. Não tenho como explicar. Leio que acontece muitas pessoas ficarem em frente de uma tela de Rothko e chorarem. Comigo aconteceu isso. Sempre me senti inexplicavelmente atraída pelas suas pinturas. Conhecia de livros, de vídeos, de documentários. Mas quando me vi em frente a uma, de uma dimensão maior que eu, fiquei quase hipnotisada, não conseguia dizer nada nem afastar-me dela. Parece que me apetecia entrar por ela adentro. E, estando ali, ao vivo, apercebi-me de nuances de cores, da transição esfumada entre as faixas de cor de que não tinha tido ainda total percepção, e isso provocou em mim um efeito ainda mais imersivo. Quem não vê ali nada, não consegue sequer perceber o que digo. Acham que aquilo não vale nada, dizem que o filho ou neto de cinco anos faz melhor. Já ouvi esse comentário mil vezes. Mesmo que se saiba que o valor de mercado é brutal, cada tela vale muitos milhões, ainda assim consideram que as excentricidades do mercado não transformam uns borrões sem graça nenhuma em arte. E eu não sei rebater. Sei apenas que, para mim, é arte, arte suprema, intemporal, quase imaterial. Não sei dizer se o que ali vejo é beleza. Creio que é mais que isso, é transcendência. Não sei o que é o espírito, não sei mesmo, mas creio poder dizer que as pinturas de Rothko alcançam o que em mim há de mais espiritual. 

Mas tudo isto é subjectivo.

Estava agora a escrever e a lembrar-me de um dia ir a conduzir e ouvir uma entrevista a um escultor de cujo nome não me recordo. Contava ele tinha uma vez estava a esculpir uma figura meio abstracta que, na ideia dele, simbolizaria a compaixão. Estava a trabalhar nisso com as suas ferramentas, a aperfeiçoar a peça. Então, entrou uma pessoa no espaço onde ele estava a trabalhar e, ao ver a figura que ele estava a esculpir, emocionou-se e benzeu-se, como se aquilo não fosse o bocado de pedra no qual ele estava a trabalhar mas um personagem religioso a quem já se devia respeito e devoção. Ele contava isso com alguma estranheza e, ao mesmo tempo, com indisfarçavel emoção, como se a peça naquele instante tivesse deixado de lhe pertencer, como se tivesse adquirido alma e voado. E eu, ao ouvi-lo, percebi como pode ser estranho tanta gente rezar e benzer-se e dirigir-se ao divino quando está em presença de peças esculpidas por uma pessoa. Acontece e alguma explicação há-de haver.

Nestas matérias em que a subjectividade impera, não há conclusões: há mistérios. E é na ignorância da sua explicação que poderemos maravilhar-nos, deixando-nos levar nas asas dos indecifráveis enigmas. Afinal a arte está em quem a sente -- talvez seja isso. Só isso.

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Não me canso de ver vídeos sobre Rothko mas aqui contenho-me e coloco um com apenas um minuto, um shot, coisa que se pode ver quase de penalti

Mark Rothko em 60 segundos


Desejo-vos uma boa terça-feira

segunda-feira, setembro 28, 2026

A atitude de Nuno Markl perante o AVC. E a atitude do meu pai também perante o seu AVC.

 

Em especial quando a coisa me toca de uma forma profunda e, ainda mais, quando já aqui a abordei tantas vezes e segundo diversas perspectivas, evito falar. Soará a déjà vu, poderá ser uma seca.

Estou com o computador no colo e já me ocorreu escrever sobre diversos outros temas, mas a verdade é que não comecei, e isto porque o que se sobrepõe é o AVC do Markl. 

AVC
Imagem gerada pelo ChatGPT

Por isso, rendo-me, não há volta a dar: é sobre isso que vou voltar a escrever. 

Quando eu tinha uns quarenta anos, numa manhã, no trabalho, soubémos que um colega tinha saído a voar para o hospital, que tinha acontecido alguma coisa à mulher. Ninguém sabia ao certo o que seria.

Só apareceu no dia seguinte e por pouco tempo. Muito transtornado. A mulher tinha tido um AVC gravíssimo. Ele ainda não estava nele. Julgava, como eu também julgava, que era coisa que acontecia a pessoas mais velhas. Ela, jovem, magra, dinâmica, seria a última pessoa a quem se pensaria que podia acontecer. Factores de risco: fumar muito e, disse ele, parece que também poderia ter a ver com a pílula. Mas, ao certo, ele pouco sabia dizer, estava em pãnico. Esteve em coma, ela. Temeu-se o pior. Quando estava a trabalhar, ele mal conseguia falar no assunto, custava-lhe a acreditar. Com filhas pequenas, foi um pesadelo que se abateu sobre a família. Sobreviveu. Perdeu a fala, perdeu o andar. Teve uma recuperação lenta, difícil.

Anos depois, quando ela já trabalhava normalmente, estive num almoço em que ela estava na minha mesa. Fez-me muita impressão. O marido já me tinha avisado: normal, normal, ela não está, as palavras por vezes vão e não vêm. Por isso, eu já estava preparada. Talvez o que me tenha feito mais impressão é que continuava a fumar. Parecia inconsciente do risco. Mas, a falar, também exigia de nós uma atenção grande. Por exemplo, disse-me: 'passas-me aí o relógio?'. Fiquei a olhar, espantada. No entanto, vi que tinha estendido a mão na direcção do cinzeiro. Dei-lho, e ela agradeceu, aparentemente sem se dar conta da troca da palavra. Depois, mais à frente, queria dizer botão e dizia 'aquilo que entra na casa'. Mas dizia isto no meio da conversa, normalmente, como se não percebesse que, quando estamos a conversar normalmente, usamos palavras e não charadas. A seguir a conversa derivou para o ensino e ela, animadamente, queria criticar a reforma que a ministra tinha introduzido. Contudo, seguir a sua conversa foi um desafio. Apesar de me parecer que ela agia como se estivesse fluente, a sua conversa soava quase incongruente, embora me parecesse que talvez fosse porque não usava as palavras certas. Isto, enquanto fumava cigarro atrás de conversa. Quando comentei com o meu colega o facto de ela fumar tanto depois do AVC tão grave, ele encolheu os ombros: 'Já desisti. não é fácil... Percebeu isso, não percebeu?'. Noutra vez ele comentou: 'À vista desarmada parece bem, ninguém diz aquilo por que ela passou, recuperou os movimentos, anda bem, tem força nos braços. Mas a cabeça....'

Cada caso é um caso, disso não há dúvida.

O livro "Valsa lenta" no qual José Cardoso Pires relata como foi com ele: outros sintomas, outra evolução (e outra aflição).

Com o meu pai, metade do corpo foi à vida: a perna, o braço, e o campo visual daquele lado ficaram inactivos. Os movimentos da perna e do braço acabou por recuperar. A boca ao lado, ao fim de um dia ou dois estava normal. A fisioterapia faz milagres. Nunca simpatizou nem com andarilho nem com bengalas, quase como se quisesse preservar o orgulho de conseguir andar pelos seus próprios meios. Andava sozinho, embora agarrando-se aos móveis, subia e descia a escada sozinho, apoiado no corrimão, andava sozinho no jardim. O meio campo visual é que se perdeu irreversivelmente. E a orientação geográfica de proximidade, de início, também. Para sair do quarto, abria a porta do roupeito e ficava desorientado, sem perecber como entrar, para ir para a sala não sabia se era para a esquerda ou para a direita, quando estava na sala às tantas dizia que queria ir para casa, quando afinal o que queria era deitar-se.

E acertar com a medicação foi difícil. Por vezes alucinava, dizia que havia uma fenda na parede, queria que a minha mãe chamasse um pedreiro para arranjar a parede. Outras vezes, dizia que tinha deixado ficar as chaves num sítio em que poderia vir alguém e pegar nelas. A minha mãe dizia que as chaves estavam no lugar delas e que não entrava ninguém dentro de casa que as levasse, e que não havia fenda nenhuma. Então, exaltava-se, gritava, achava que a minha mãe não ligava ao que ele dizia, achava que a minha mãe negava a evidência de uma corrente de ar que passava pela fenda. A minha mãe chegou a dizer que já não o aguentava mais naquele estado, e que eu fosse lá a casa resolver o assunto. Quando lá cheguei, vi que ele estava num estado de pressão assustador, parecia ir rebentar a qualquer momento, enervado, stressado, a tender para o agressivo. Consegui levá-lo ao hospital. Alteraram-lhe a medicação e ficou bem. Outras vezes estava num estado de prostração que nos deixava a temer o pior. A minha mãe ia falar com o neurologista que alterava a medicação e ficava melhor.

Passava temporadas muito bem. Autónomo a nível das refeições e da higiene, sentava-se e levantava-se sozinho, conversava normalmente. A perna e o braço que ao princípio não mexiam, voltaram a funcionar. Chegou a ir passar o natal a nossa casa, chegou a ir passar o dia à nossa casa no campo, andou por lá a passear (com a minha mãe ou eu a dar-lhe a mão), chegou a ir ao casamento do meu filho (quando foi o da minha filha ainda estava bem). Só declinou de forma muito evidente quando partiu o colo do fémur na sequência de uma queda e foi operado. A partir daí tudo se complicou de vez.

Quando vejo o Nuno Markl no seu passo ainda hesitante, quando o vejo com o braço inerte, inevitavelmente penso no meu pai.

Mas vejo como ele encara as limitações com sentido de humor e, aparentemente, sem pudor e sem receios. E constato como isso é positivo.

O meu pai não. Sentiu o que lhe aconteceu com tristeza, desânimo. E não gostava que o vissem assim. E não gostava de sair de casa não apenas porque parece que se sentia humilhado por outrora ser tão autónomo e em tão boa forma física e, naquela altura, já tão frágil, a carecer da mão de alguém. Sobretudo, apavorava-o a perspectiva de ter vontade de ir à casa de banho e, com a sua lentidão e dificuldades, não chegar a tempo. E isso, para ele, seria a humilhação maior, temia ser objecto de comiseração ou chacota.

A forma como o Markl brinca com a situação, apesar de ainda ter os movimentos da perna um bocado presos e de ter um braço ainda incapacitado, a forma como se arrisca a ir para um palco ou para um estúdio de televisão, talvez demonstrre que parte da forma como o corpo reage a uma rasteira destas tem muito a ver como o modo como a cabeça reage.

Enquanto teve energia e cabeça para isso, o meu pai empenhava-se fortemente na fisioterapia e nos exercícios. A sua tenacidade enchia-me de orgulho e os seus progressos espantavam-me. Mas tudo o que fazia, fazia sempre com tristeza, sempre como se a vida o tivesse privado do prazer de ter liberdade de movimentos e total autonomia durante os últimos anos da sua vida, como se percebesse que não poderia voltar a ir fazer caminhadas para a praia, não poderia voltar a ir passar férias no verão para o Algarve e na primavera para a Curia ou para um desses sítios de que tanto gostavam. não poderia voltar a conduzir, não poderia fazer as suas marcenarias, não poderia voltar a ir ao mercado comprar peixe fresco, não poderia voltar a fazer as suas belas caldeiradas para a família. Essa consciência das suas limitações faziam com que se sentisse diminuído e, no seu íntimo, ele sentia-o como uma condenação a uma morte antecipada. E talvez isso fosse um acelerador para o seu declínio, enquanto o optimismo e o sentido de humor do Markl talvez sejam um reforço vitamínico, um autêntico catalisador para uma recuperação mais feliz.

Mas não sei. Não há AVCs iguais. Não há pessoas iguais. Esta é uma realidade complexa (e temível).

Bom mesmo é prevenir o mais possível pois passar por uma destas não é bom para ninguém. E bom mesmo seria que houvesse instituições públicas que apoiem na recuperação de pessoas a quem isto acontece. Pessoas sem condições para estarem internadas meses numa clínica privada ou para pagarem fisoterapia privada três vezes por semana ao domicílio durante meses como fazem? Entregam-se à fatalidade de ficarem acamados até morrerem? Isso, sim, deveria ser objecto de reflexão para os nossos políticos. Toda a gente tem direito à dignidade e à recuperação na sequência de um acidente. E escrever isto não deveria soar a lirismo.

domingo, setembro 27, 2026

Reencontros felizes

 

Se grande parte dos dias podem ser bons apenas porque não são maus, outros há que são bons porque são mesmo muito bons. Felizmente não tenho de que me queixar, mas há situações que, mais do que serem-me agradáveis, são verdadeiros presentes da vida.

Toda a minha existência tem sido feliz, ou, pelo menos, boa, e cada vez mais penso que isso se deve, sobretudo, a ser descomplicada, a não querer saber do que me indispõe ou maça e a dar muito valor ao que me apraz. Raramente me aborreço com o que não tenho, raramente desejo o que sei que está fora do meu alcance. E digo raramente para não dizer nunca. Pelo contrário, contento-me com pouco. E também não quero saber do que dizem ou pensam de mim. E não é por arrogância, é mesmo porque nem me ocorre ligar a isso. Muitas vezes já aqui disse, e disse-o com sinceridade: acho-me muito básica, muito primária, quase ao nível dos animais que se dão por felizes com o que têm e que vão às estrelas quando recebem qualquer coisinha, em especial quando dada com afecto.

E este meu sábado foi mesmo muito bom. Não abano o rabo porque estou sentada a escever, mas, por dentro, estou toda sorrisos e agradecimentos mil. Reencontrei uma vez mais muitos amigos que vêm de um outro tempo, do tempo em que tínhamos todos o futuro inteiro pela frente. 

Imagem gerada pelo ChatGPT para ilustrar aquilo de que aqui falo

E bora lá com música:
In my life - The Beatles

O futuro agora é mais curto. Mas não interessa, tudo é bom enquanto dura. 

Senti a falta dos que não puderam ir e não pude deixar de sentir ainda mais dolorosamente a falta dos que entretanto partiram. Quando estive pela última vez com estes, os que entretanto partiram, não sabia que não haveria próxima vez, e eles, se calhar, também não. É muito triste que tenham sido levados. Parece que não faz sentido, que foi injusto, que eles não mereciam ser afastados da festa que pode e deve ser a vida.

Mas é o que é. E a vida continua. Por vezes faz sentido invocar alguns lugares comuns e este é um deles: a vida continua. E há que agarrá-la bem porque, como sabemos, é fugidia, tantas vezes traiçoeira.

Por isso, é com ambas as mãos que agradeço a vida que me habita, a vida que habita os meus, a vida daqueles a quem quero bem, a vida daqueles que me acompanharam quando eu era uma jubilosa menina e que agora, tantos anos depois, ainda partilham aqueles instantes de cumplicidade e empatia que parece que nos uniram para a vida.

Quando falo sobre estes felizes reencontros apetece-me sempre aqui falar, mais em particular, de alguns dos meus amigos. Num dos últimos assim fiz e, no dia seguinte, tinha uma mensagem de um deles. A filha tinha lido o que eu tinha escrito e percebeu que eu estava a referir-me ao almoço a que o pai também tinha ido. Ligou ao pai e ele logo descobriu o enigma. O blog é anónimo mas é escrito por uma pessoa com uma vida real e, por vezes, alguns apontamentos, sabe-se lá como, chegam a quem os consegue decifrar. E eu, mais do que surpreendida, fico feliz, quase como se fosse um milagre.

Desta vez tenho que reconhecer: contei à menina que me ofereceu a linda árvore que me foi dada como sendo da baunilha mas que, afinal, não dá baunilha mas, sim, umas delicadas florzinhas violetas que se alegram quando o sol lhes dá, que não apenas estou no instagram como tenho este blog. Por isso, para ela, o blog não é anónimo. 

Ao longo dos anos, aqui, ao recordar os meus tempos de menina e adolescente, várias vezes me referi a ela. Ela diz que, naquela altura, era tímida, apagada. As pessoas têm percepções de si próprias que muitas vezes não correspondem às percepções alheias. É o caso. Nunca a achei apagada. Pelo contrário, sempre a achei a mais bonita de todas e muito sincera, genuinamente boa pessoa, divertida, muito espontânea. Nós duas, em conjunto com uma outra, ríamo-nos imenso, achávamos graça a tudo, entre nós ríamo-nos dos traços pitorescos dos outros, imaginávamos situações divertidas. Não tínhamos segredos. Eu, pelo menos não tinha, partilhava dúvidas, amores, contava tudo o que sentia ou pensava, falava das minhas ideias, e sentia-me sempre acolhida por elas. Aos meus olhos ela não era nada apagada: era uma parte muito importante da minha vida.

Seguimos cursos distintos, eu saí logo de casa dos meus pais, só ia ao fim de semana, enquanto elas continuaram a viver em casa. Portanto, deixámos de nos ver. Não havia telemóveis, as comunicações eram complicadas para quem não frequentava os mesmos lugares. Arranjei novos amigos, casei, fui viver para outra cidade. A vida levou-nos por caminhos divergentes. 

Mas eu pensava muitas vezes nelas. Com uma ainda mantive algum contacto, ainda a visitei levando já a minha filha, ela também já com um filho. Com esta de que falo não. 

Por obra e graça de algumas almas generosas que fizeram o trabalho de formiguinhas, encontrando o contacto de uns e outros e fomentando a reunião, voltámos a encontrar-nos todos. Uma felicidade.

Com esta minha amiga -- a que se lembra de si própria como sendo uma menina tímida e apagada mas a quem recordo como luminosa e de uma inocência extraordinária, tocante mesmo --, voltei a sentir aquela compreensão que sempre senti. Parece que adivinho o que ela pensa, e solidarizo-me com tudo o que ela diz e pensa e sente. Mesmo quando ela, adolescente, se encantou por uma pessoa que a mim me parecia não reunir as características de príncipe encantado com que ela sonhava, eu compreendi. Eu olhava para ele e pensava que ele não seria o amor para a vida inteira com que ela sonhava, e tinha pena, mas, ao mesmo tempo, percebia o que nele a encantava: a subversão, a suprema irreverência, a ideia de liberdade. E, por isso, tenho ideia que não fui capaz de lhe dizer o que achava dele, dizer que não fosse por aí, pois pensava que, se calhar, apesar de não ser para a vida toda, enquanto durasse talvez a fizesse feliz, e essa felicidade não lhe deveria ser negada. E quando a felicidade, mesmo que incompleta ou breve, dá frutos, então, claro que vale a pena. Que se esqueçam as desilusões e que se louve a felicidade dos frutos que o romance fez nascer.

O tempo passou, as nossas vidas andaram para a frente. Percursos diferentes. Mas, dentro de mim, ainda sinto que, se ela precisar, estarei lá para ela. Sempre, incondicionalmente.

Também me apetece falar de uma outra, amiga um pouco mais tarde, mas muita amiga nos tempos de faculdade. Alegre, alegre, brincalhona, por vezes truculenta, tiradas divertidas, por vezes com uma deliciosa malícia. Cumplicidade também total. Acompanhou os meus animados tempos a nível amoroso, brincava com isso. Nunca tive segredos com ela. Sabia das minhas dúvidas, da minha queda cada vez mais fatal por um e pelo meu desligamento cada vez mais irreversível de outro. Assistiu a tudo. Ainda me lembro de estarmos as duas, eu à espera de um, e ela anunciar com sobressalto na voz: 'Olha! Ele vem aí!', como se estivesse a avisar-me que o outro tinha aparecido, e eu, em pânico, a pensar que a coisa ainda ia dar para o torto, os dois frente a frente. Depois ria-se do susto que me tinha pregado. Continua igual. Brincalhona, leve, leve, amiga da boa disposição.

E talvez amanhã fale de outras duas. Não hoje que o texto vai longo. 

Só lhes desejo bem, a todas. A todas e a todos, que nisto, como em nada na vida, não sou sexista. Que tenham saúde. Que a vida lhes corra o melhor possível. E que por muitos e bons anos continuemos a encontrar-nos, a gostarmos de estar uns com os outros.

E, de resto, talvez não seja preciso muito para sentirmos momentos de felicidade, talvez baste apenas reconhecer como felizes estes momentos em que nos sentimos bem.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, setembro 20, 2026

Os sonhos são um patchwork? Um fragmento daqui, outro fragmento dali? Uma recordação, uma preocupação, uma mão cheia de saudades?

 

A noite passada dormi toda a noite, mas,, de vez em quando acordava com o mesmo sonho, que era mais pesadelo do que sonho. Eu tinha ido para um daqueles encontros da empresa que implicavam dormir lá. Mas tinha tido reuniões até à última hora e, portanto, não tinha conseguido ir no autocarro que tinha sido fretada para o efeito. Mas a minha mala tinha seguido. Quando cheguei já o encontro tinha começado e já alguém tinha levado a minha mala para o meu quarto. 

De notar que uma situação destas aconteceu uma vez. Eu sou muito cumpridora e pontual e, se tenho um compromisso, não aceito outros para o mesmo dia e hora, mas naquela vez, na realidade, tinha surgido um imprevisto a que eu não podia virar costas. Esse mesmo compromisso fez com que, de vez em quando, tivesse que me levantar para vir atender uma chamada cá fora. E assim também no meu sonho.

Mal jantei. E, depois de jantar, ao contrário das outras pessoas que ficavam por ali a conversar ou iam fazer uma caminhada, eu continuava agarrada ao telefone, a acompanhar a resolução de um problema complicado.

Era tarde quando cheguei ao quarto. Tomei banho e deitei-me. Na vida real.

No sonho, de manhã acordava e, ao peparar-me para pôr a roupa fora da mala, não reconhecia a minha mala. Na verdade, não era uma mala, eram duas. Abria as malas e via roupa que não acabava. Era tudo meu mas, em vez da muda de roupa que eu sempre levava, havia ali roupa para mais de uma semana, e calças que já me estavam justas demais, camisas chiques de mais, apetrechos que jamais usaria num encontro de empresa. Fiquei pois desorientada com tudo aquilo. Comecei a vestir roupa, a tentar encontrar alguma coisa que me servisse e fosse adequada, mas nada me convencia. O tempo a passar e eu sem atinar. Entretanto, chegaram umas colegas que estranhavam eu não ter aparecido para tomar o pequeno almoço e me vinham alertar que tínhamos que fazer o check out e desandar rapidamente pois o encontro recomeçava às nove numa terra ainda longe. E isto de as reuniões começarem às nove a vários quilómetros do local onde dormíamos e em hora de ponta era o pão nosso de cada dia, coisa que me causava sempre muito stress.

Mas depois olhavam para mim e, com ar incomodado, perguntavam-me: 'Mas não tomas banho nem nada?'. e eu sentia que elas achavam estranho eu levantar-me e vestir-me sem me lavar, e dizia-lhes que gostava de tomar mas não tinha tempo mas que, de qualquer maneira, tinha tomado antes de me deitar e que só queria descobrir uma roupa que me ficasse bem. Elas estavam muito admiradas: 'Mas porque é que a tua mãe encheu duas malas de roupa?'. E eu ainda mais admirada fiquei: 'A minha mãe?'. Mas, ao dizer isso, reparei que as duas malas não eram minhas, eram da minha mãe. E elas diziam que como eu estava ocupada a resolver um problemão, tinham achado melhor pedir à minha mãe que fizesse a mala por mim. 

Eu estava admiradíssima, assustada, pois pensava que a minha mãe tinha morrido e afinal ainda estava viva. E tentava situar-me, em que ano estava, que confusão horrível era aquela na minha cabeça. E elas foram-se embora para não perderem a camioneta e eu ali estava, a cama já cheia de roupa, eu sem conseguir encontrar umas calças que me servissem, uma saia razoável, uma blusa que não fosse desajustadamente chique, o tempo a passar e eu, perplexa com o que estava a passar-se, pensava: 'Mas, que confusão é esta?, que coisa mais horrível, não a tenho ido visitar, não lhe tenho telefonado, pensava que tinha morrido, e, afinal, está viva...?'

E acordava. E custava-me a perceber que estava a sonhar. Pensava que estamos em 2026, que a minha mãe morreu no início de 2024, portanto, era um sonho. Mas foi difícil. E foi até de manhã.

Isto de escolher a roupa se calhar tem a ver com um almoço, também um encontro, dentro de dias e, na realidade, na minha cabeça já estou a equacionar o que levo vestido e, de facto, uma coisa é escolher sabendo que já me ficou bem e outra é pensar que tenho que provar para ver se ainda me fica bem.

Mas foi um sonho que me deixou muito incomodada.

Claro que de dia estive feliz da vida, bem acompanhada e bem disposta, e nem mais me lembrei do sonho.

Mas agora, ao ver neste vídeo o momento em que ela diz que não consegue esquecer a mãe, voltei a pensar na estranha impressão que o sonho me deixou. Caraças. 

De resto, não sou como ela: não tenho arrependimentos, pelo menos arrependimentos significativos, não lamento nada, acho que não deixei para trás nada que fosse importante, a minha mente não se ocupa com relacionamentos que se quebraram, não gostaria de voltar atrás para reparar alguma coisa.

Mas as pessoas são diferentes. Leigh Meinert. é diferente. E é muito sincera. E gostei de ouvi-la.

[Dá para escolher a legendagem em potuguês]

O Peso do Arrependimento: Encontrar a Paz na Complexidade da Vida

Muitas vezes sentimos que a vida se deveria resolver sozinha. As relações quebradas deveriam ser reparadas, as antigas feridas curadas e os arrependimentos transformados em lições que compreendemos. Mas algumas coisas simplesmente não se resolvem. Alguns relacionamentos permanecem rompidos. Algumas questões nunca são respondidas. E carregar esse fardo pode ser muito pesado.

Talvez a paz não esteja em reparar o que está inacabado. Talvez ela comece quando deixamos de esperar que tudo se resolva na perfeição. Algumas coisas permanecerão desarrumadas. E isto não é um fracasso, é simplesmente parte de ser humano. O que podemos fazer é acolher estas coisas com mais delicadeza e sermos um pouco mais gentis connosco próprios em relação ao que não podemos reparar.

Apesar de tudo, ainda há amor para dar e vida para viver. Podemos não ser capazes de reparar tudo do passado, mas podemos escolher a forma como nos apresentamos hoje. E está tudo bem se algumas partes das nossas vidas permanecerem desarrumadas. Uma vida com significado pode ainda florescer ao redor delas.

Com Leigh Meinert.


Desejo-vos um feliz dia de domingo

quinta-feira, setembro 03, 2026

Impermanências

 

Estava a ver o vídeo aqui abaixo e a pensar que  Karin Andersen, sobe quem é o vídeo, me faz imenso lembrar uma antiga colega minha. Muito este género. Nunca se destacou muito, creio que dela nunca a ninguém ocorreria dizer que era extraordinária. Apesar de ser alta, na altura era a mais alta de todas, quase não se dava por ela. Sei hoje que, na verdade, tinha um ou dois anos mais que eu, que quase todas as daquele buliçoso grupo. Sempre gostei imenso dela. Mas imenso. Muito boa pessoa, muito tranquila. Nunca foi de intrigas, longe, longe disso, não se metia em aventuras, creio que os rapazes não se derretiam por ela, tenho até ideia que não era daquelas que era convidada para a maioria das festas. Pelo menos, não me recordo de a ver por lá. Também nunca me recordo de a ver numa excitação para saber se este ou aquele também iriam. Se calhar porque ela, própria, não ia. Não era esse género. Eu era. Eu era tudo. Pelo menos assim me lembro de mim. Eu inventava o que fazer, tinha ideias, pregava partidas, apaixonava-me, apaixonavam-se por mim, pensava nas roupas, inventavas roupas, queria pintar os olhos, queria tudo, queria combinar ir ao cinema, ir passear, pentear o cabelo de outra maneira, sonhar acordada com tudo e mais alguma coisa. Tudo. Ela, do que me lembro, era o meu oposto. Não sei o que pensava ela de mim. Eu gostava tanto dela. Parecia uma parede fresca à qual eu poderia encostar-me e refrescar a minha sempre alta temperatura, parecia um jardim onde eu poderia ficar sem dizer nada, parecia ser uma permanente presença de amizade. 

Quando a reencontrei, vi-a igual. Tranquila. Quase distante. Vive num outro comprimento de onda. Faz a sua arte, viaja, frequenta espectáculos, cinema, espaços em que a natureza é virgem, em que não há temas de partidos políticos, em que não há espuma. Eu falo, pergunto, tenho vontade de saber. Ela escuta, tranquila.

Nessa longínqua altura em que pouco ou nenhum pronto-a-vestir havia, eu queria usar calças e procurava em todas as lojas, e encontrava, feias (face ao gosto de hoje) mas encontrava, eu queria usar biquini e quase não os havia e eu, e outra grande, grande amiga, procurávamos ansiosamente, e isso mobilizava-me, e depois comprámos, uma vitória, o meu pai passado com a minha ousadia, e eu feliz por conseguir o que queria. Do que me lembro este era o género de coisas para os quais ela não estava nem aí. E se ela assistia a esta minha maneira de ser, não faço ideia do que pensaria. Talvez também não estivesse nem aí e nem se apercebesse disso.

Qualquer coisa nela sempre me pareceu meio transcendente. 

Tenho ideia de que nunca a vi emotiva como aqui abaixo a Karin Andersen está. Mas com certeza terá os seus momentos. No entanto, quando penso nela parece que a imagino como também sempre acima dessas transitoriedades, parece que a imagino como parte da natureza.

É curioso. 

Hoje, quando a vejo, acho que é das mais modernas de nós todas. Veste-se de uma maneira sui generis, penteia-se, usa uns colares que são diferentes, que parece que fazem sentido nela. Zero aparatosa, zero chamativa. Pelo menos, deliberadamente. E, no entanto, vê-se a milhas que é alguém diferente. Pelo menos, eu acho.

Quando mostrei as fotografias, a minha filha apontou-a e disse: 'esta tem pinta'. É isso. Tem pinta. Não se parece, nisso, com a Karin, que é mais simples. Mas a Karin, sendo uma mulher simples, também atrai pela sua simplicidade, genuinidade, também, certamente, se distingue por não se enaixar em modas. E esse desencaixar é a forma como as pessoas assim, boas, generosas, francas, afáveis, se destacam. Quem quiser um porto seguro pode sempre ir ter com pessoas assim. Não censura, não julga, parece até quase nem querer saber. Mas está presente. Sabe esta presente.

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Às vezes gostava de lhes dizer que tenho este blog, mas depois penso em dias como hoje: se soubesse que ela iria ler, seria capaz de escrever com a liberdade de movimentos com que estou a escrever? Não sei. Talvez tivesse receio de embaraçá-la. Mas, por outro lado, também gostaria de retribuir em palavras toda a gentileza que sempre vi nela. Nela e em todas e todos sobre os quais gostaria de escrever. Tenho tão boas memórias. Sou tão grata.Não faria sentido que eles soubessem isso?

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Gostei imenso de ver o vídeo que aqui partilho, talvez um dos que alguma vez mais gostei, desta série da Reflections of Life. Não apenas a Karin me faz lembrar a A., como, sobretudo, me identifico com muito do que ela diz. Gosto das palavras que usa. Percebo a emoção dela, sinto o que ela sente, em particular quando fala da perda da mãe e da falta que ainda sente, e da presença que ainda sente -- e como pensa que talvez isso nunca passe.

Por que razão o extraordinário é sobrevalorizado

Ninguém percorre a vida completamente sozinho. Somos moldados por aqueles que caminham ao nosso lado, por aqueles que vieram antes de nós e até por aqueles cujas vidas se cruzam com as nossas apenas brevemente. De formas visíveis e invisíveis, acompanhamo-nos uns aos outros pela vida.

Estar presente para alguém não significa repará-lo ou mostrar-lhe o caminho a seguir. Muitas vezes, significa simplesmente dar-lhe espaço para ser quem é. Existe um profundo conforto em ser verdadeiramente conhecido e aceite, sem sentir que precisamos de esconder partes de nós próprios ou de nos tornarmos outra pessoa.

E esta ligação não termina necessariamente quando alguém morre. Aqueles que amamos permanecem nas nossas memórias, na forma como vemos o mundo e, por vezes, até no rosto que nos encara ao espelho. Transportamo-nos uns aos outros connosco e talvez seja por isso que, mesmo nos nossos momentos mais solitários, nenhum de nós está verdadeiramente sozinho.

Com Karin Andersen.

Filmado na região de Overberg, África do Sul.

[Poderão activas as legendas em português] 


Desejo-vos um dia feliz

domingo, agosto 23, 2026

Breves

 

Num meio que nada tem de rural, apesar de todas as casas terem jardim, é com prazer que, quando acordo de madrugada, ouço um galo a cantar.

Esta noite, ao passear por aqui, passei junto a uma casa muito bonita, com uma arquitectura invulgar. Tinha a porta aberta e as luzes de dentro todas acesas. Vi muitos vultos no jardim, uns entravam e outros saíam de casa, sempre conversando, recortados contra a luz que vinha de dentro. Falavam em francês. Parecia um filme.

Muitas vezes não publico os comentários porque são ofensivos, sobretudo para algumas pessoas que não eu (imigrantes, homossexuais, etc). Outras vezes não publico porque são demasiado estúpidos. Outras porque são incompreensíveis, certamente escritos por pessoas que não estão bem. Mas acontece que por vezes fazem o pleno e juntam-lhe ainda erros ortográficos. Por exemplo, tenho aqui um que não vou publicar e que, entre outras pérolas, fala da 'chumgaria'. Assim mesmo, com m. Se nem escrever sabem como podem avançar para o patamar seguinte que é o de expor ideias? 

Há uma coisa que me anda a parecer muito curiosa. Dizia-se, ou melhor, admitia-se, que o Luís Neves era o ás da judite. Não havia criminoso que lhe escapasse. Pois bem: desde que saiu, é raro o dia em que não é apanhada uma rede, seja do que for, de bandidagem ligada à droga, às burlas, às fraudes, a tudo. Não há aqueles nomes criativos para as operações, pelo menos que se saiba, mas parece que tudo o que andava encalhado no tempo do Neves, agora está a resolver-se a toda a brida. Seria interessante que alguém comparasse a estatística de apreensões (droga, armes, bandidos, whatever) antes, no tempo do Neves na Judite, e depois, desde que deixou por circular por lá. 

Harvard vende cursos ministrados por clones de IA dos seus professoes. Quando uma coisa inexistente já se dá ao luxo de ensinar um humano, só posso dizer que vou ali e já venho. Pior: quando um humano aceita pagar 700 euros por um curso ministrado por uma coisa, só espero que seja um parvo daqueles que estão sempre prontos a darem com o burrinho nas couves, e não uma moda que está a vir para ficar. Mundinho mais tinhoso, este. E tudo estará bem, se o avatar não alucinar ou não estiver desinformado ou com algum bug. Mas pode estar e estará a ensinar a grelagem das batatas em vez de física quantica. Mas, mesmo que esteja a dizer coisas acertadas, um professor não é mais do que uma mera máquina debitadeira? Pensava que era. Eu, pelo menos, durante a minha curta experiência, tentava ser muit mais que isso. Estamos a caminhar para a autofagia, é isso?

Li também que um enviado de Trump usa vodka e piadas brejeiras para conduzir a diplomacia dos Estados Unidos. Não me admira. Quando se desce ao nível rastejante, tudo faz sentido, os vermes de todo o mundo sentem-se econhecidos. De qualquer forma, o estilo não é inédito e há sempre quem aprecie o género e caia na esparrela. Tive uns colegas, gente muito vip, gente muito ilustrada, viajantes de muitas mil milhas à volta do mundo, empresários autodenominados de 'mão cheia', que, tendo a ilusão de fazer negócios com altos empresários chineses, se deixaram enredar em situações em que uma chinesa insinuante se atirava ao mais pateta deles, por sinal também considerado um ás, segundo ele batido em tudo o que é arte e manha -- e as noites acabavam com ela enfiada no quarto de hotel dele, com ele embriagado e, sem saber porquê ou sem se dar conta disso, completamente maluco. Ou ela lhe dava alguma bebida que mexia com a estabilidade mental dele ou, então, o álcool desatinava-o mais do que a conta. Os outros colegas, não sei se completamente sóbrios ou se apenas um pouco mais conscientes que ele, relatavam, off the record, à boca mais do que pequena, episódios estarrecedores. Tendo ele aparecido de uma dessas viagens com um brutal hematoma, ferido mesmo, na testa, veio depois a saber-se por portas e travessas que, não se sabe como, numa dessas noites selvagens, com a dita chinesa lá metida no quarto, ele subiu para a cómoda e de lá pretendeu atirar-se em mergulho para a cama, tendo, obviamente, aterrado no chão. O que ela sacou dele nunca se conseguiu saber, nem ele, que não conseguia reconstituir nada do que se tinha passado. Claro que, ao fim de algum tempo, os chineses perdiam o interesse nas parcerias. Dizia eu e outras más línguas que já tinham obtido o que queriam. Por essas alturas, recebemos uma visita do SIS que nos veio avisar para os riscos de algumas situações e descreveu várias, algumas tiradas a papel químico do que sabíamos que se tinha passado com os chineses mas também com árabes. Algumas pessoas em funções de responsabilidade são um perigo.

E, por hoje, fico-me por aqui. Se um dia me ponho para aqui a desbocar-me vai ser o bom e o bonito. O que me vale é que não há nenhum chinês por aqui, que me ponha a falar do que não quero. Na-na-ni-na-não. Da minha boca não vai sair nada de mais, não.

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Desejo-vos um bom dia de domingo

sexta-feira, agosto 14, 2026

Notícias do cãovalescente

 

Estou menos preocupada mas estou cansada. O bichinho ontem só adormeceu depois das duas e tal da manhã. Na prática, deixou-se cair -- e ali ficou. Tenho que confessar que até fui fazer aquilo que, à socapa, pela calada da noite, fazia com os meus filhos e que ainda faço com os meus netos: fui confirmar que estava a respirar. 

Já contei várias vezes: na minha vida profissional e mesmo na vida normal há quem me ache destituída de medos. Na verdade sou muito de me atirar, sem medo. Quando quero uma coisa, vou, e acredito que acabarei por conseguir. Até por vezes me arreliava, intimamente, por ser tão destemida. À minha volta ficavam passados, achavam que eu não avaliava os riscos, que parece que não via as confusões em que me ia meter, os obstáculos que iria enfrentar. Mas eu avaliava, simplesmente tinha confiança em que eu e os que eu arrastava nas minhas empreitadas haveríamos de conseguir. E conseguíamos. E mesmo a outros níveis: não tenho medo de ir ao dentista, quase adormeço, nos exames médicos mais longos também quase adormeço de tão descontraída que estou, fui fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo sem consultar segunda opinião e sem medir consequências e, na véspera, estive aqui até às tantas a escrever como se nada se fosse passar. Sou assim. Mas quando a coisa tem a ver com filhos ou netos sou a mais maricas de que há memória. Chicken mais chicken não pode haver. Também me preocupo com o meu marido, claro que sim, mas não é aquela coisa absolutamente visceral que é com a descendência. Com os meus pais também havia aflição, por vezes bem grande, mas acho que era uma aflição misturada com ansiedade, com um temor de outra ordem --  não exactamente a mesma coisa que medo. 

E com o meu cão-bichinho há uma coisa que também não é fácil: quando o vejo aflito. é a sensação de preocupação misturada com responsabilidade e, também, aflição. Ele não sabe explicar-se, eu tenho que adivinhar, e, se interpreto mal e tomo a decisão errada, ele não pode defender-se. Claro que nisto há uma responsabilidade partilhada com o meu marido. 

Dito desta maneira parece que com os demais não há essa responsabilidade partilhada. Talvez haja mas de maneira diferente. Ele confia, ele desliga. Eu não. Quando os meus filhos eram adolescentes e saíam à noite, ele adormecia na boa. Eu não. No caso da minha filha, por vezes ele levantava-se às três ou quatro para ir buscá-la. Mas, antes disso, dormia. Eu não. Mesmo com o meu filho, já adulto, enquanto vivia lá em casa, eu não dormia, via as horas a passarem, numa inquietação, num sobressalto. Tinha que me conter porque se o meu marido se apercebia disto dizia que eu era maluca (e virava-se para o outro lado, a dormir). No entanto, muitas vezes em certos aspectos, era pior que eu. Eu sabia que eles não queriam que eu ligasse e, por isso, continha-me. O meu marido se acordava e via que era mais tarde e que eu estava numa inquietação, queria que eu ligasse. Eu não queria e ele inistia tanto que eu acabava por ligar. O pior era se eles não atendiam. Aí a coisa virava pânico. E, então, voltava a ligar. Quantas vezes eles depois se aborreciam por verem que eu já tinha ligado carradas de vezes... Enfim. Lembro-me do meu filho me dizer que eu tinha que aprender a controlar-me. Aí o meu marido fazia-se de santinho, todo sonso, como se não fosse ele também a picar-me para eu lhes ligar.

Pois bem. O meu cãobeludinho fofo ontem, tarde e más horas, depois de longas horas de calvário, a andar de um lado para o outro todo o santo dia, sem se deitar e, muito menos dormir, acabou por capotar. 

Pus o despertador para ligar para a clínica logo na abertura. A veterinária do outro dia não tinha chegado e ainda bem. Marquei para uma outra que, felizmente, estava de tarde e que é muito mais soft, mais open mind, menos quero-posso-e-mando. De seguida liguei para a jovem que vinha buscá-lo para ele ser tratado. Relembro: continuamos sem carro. 

A oficina ainda não conseguiu pegar nele. Escassez de mão-de-obra por todo o lado. E ainda há gente estúpida que não percebe que mais mão de obra houvesse e mais a economia cresceria.

Felizmente o meu filho conseguiu abrir alas nos seus compromissos da tarde para vir cá buscar-nos, levar-nos lá e depois trazer-nos. E, pelo meio, abusei como já tinha feito com a minha filha: pedi se, enquanto estávamos lá dentro, podia ir ao supermercado. A minha filha está habituada a fazer compras, ir com uma lista de compras não é transcendente. Mas ele não, lá em casa dele só encomendas online. Por isso, vi o sobressalto que se lhe estampou no rosto quando eu lhe pedi isso. Talvez não ponha o pé num supermercado há anos. Mas, pronto, lá foi... De resto, em qualquer dos casos, a minha ideia original era pedir que parassem por uns minutos que eu ia. Mas, no caso dela, ofereceu-se para ir durante a consulta. No caso dele, disse que tinha que ir abastecer de combustível e, portanto, aproveitei essa brecha que ele abriu.

Esta veterinária da tarde esteve a ver no sistema e, quando o observou, até achou que não estava tão mal como esperaria vendo o descritivo que a colega tinha escrito. O bichinho hoje estava mais tranquilo pois resolvemos seguir o conselho da primeira: que antes de ele lá ir, três horas antes, lhe dessemos um ansiolítico. E demos. Por isso, estava menos reactivo, menos apavorado. Quando a vet desinfectou as múltiplas feridas ganiu, saltou, tentou fugir e, se apanhasse alguém, ter-se-ia vingado, mas nada que se parecesse com o pesadelo de quando a outra médica o torturou no primeiro dia. Ou porque estava mais calmo, ou porque esta o desinfectou de forma mais gentil ou porque as feridas já estão melhor, a verdade é que a coisa foi controlada. A veterinária deu-lhe uma injecção de anti-inflamatório pois a inflamação nitidamente estava a incomodá-lo bastante. E usou um produto mais neutro na limpeza das feridas.

Explicou-me que o exsudado, em especial, o purulento, cria uma crosta que, se não for retirada, os tecidos debaixo ficam necrosados e a pele pode não regenerar. Mas que não tem que ser esfregado ou esfolado. E o líquido a usar não vai ser o betadine ou o outro de que não sei o nome mas que também lhe deve arder para caraças mas sim um que lhe vai dar uma sensação de frescura sem ardor.

Vamos ver. Espero que tudo, a partir de agora, corra melhor. 

No entanto, chegou a casa e pôs-se outra vez às voltas pela casa, de vez em quando parado a olhar fixamente para nós. Agora veio pôr-se aqui encostado a nós, de pé, para lhe fazermos festas. Estávamos a ver que ia ser a mesma coisa. Mas não. Por volta talvez da meia noite e tal, perto da uma, creio, eu disse-lhe: 'vá, agora vai beber aguïnha e vai fazer ó-ó'. Se estivesse aqui o meu filho repreender-me-ia: 'não é um bebé... falas com ele como se fosse...'. Mas sai-me assim, que hei de fazer?. Eu disse-lhe aquilo e ele ficou um bom bocado parado a olhar para mim. Depois saiu da sala, ouvimo-lo a beber água e já não voltou, está a dormir. Felizmente. Também já vai no terceiro dia de antibiótico, há de ir melhorando. 

Entretanto, vai abrir um novo espaço veterinário não muito longe daqui e estou tentada a mudar. Estas agora onde vamos são experientes, a clínica está bem equipada, etc. Mas a veterinária chefe, a dona, é linha dura, para ela os animais não são gente. E para mim são. Como no outro dia citei: cão como nós. E acrescentei: e nós somos gente como ele. 

Tenho que agradecer os comentários tão simpáticos que me deixaram e os mails identicamente queridos, com conselhos e dicas. Não respondo individualmente porque estou muito exausta, a modos que esgotada. Muita contrariedade em simultâneo. E o facto de ter andado, há alguns dias, a dormir muito menos do que necessito, retira-me, ainda mais, a energia.

Esta coisa de estarmos sem carro é uma delas: faz-me sentir dependente e isso deixa-me doente. Amanhã o meu marido vai fazer um ponto de situação com a oficina e provavelmente vamos activar o carro de substituição. Mas não sabemos por quanto tempo. Receamos fortemente que ele, o crazy dog --que, quando vai no carro, quer atirar-se aos motoristas, em especial aos de uber ou glovo, e, como não consegue, se desforra mordendo o estofado das portas ou dos bancos --  dê cabo do carro de substituição e nos vejamos metidos em sarilhos. Irei atrás agarrada a ele. Poder-se-ia pensar que, por ter o colar isabelino, não consegue fazer estrago. Mas a verdade é que ele consegue tudo, já aprendeu os ângulos em que consegue chegar onde quer. Felizmente, até ver, não consegue chegar ao próprio corpo e isso é a principal prioridade neste momento porque, se apanha a cauda, nem imagino o estrago que fará.

Mas, portanto, muito obrigada, do fundo do coração, pelas vossas mensagens amigas. Perceber que aí desse lado estão pessoas com um coração grande dá-me muito conforto.

E vou esperar que nos próximos dias as coisas se vão endireitando. O meu optimismo deve ser a última coisa a morrer. Se calhar, quando estiver com os pés para a cova, ainda vou estar a dizer que o mundo é maravilhoso, as flores um encantamento, e que, vão ver, vai tudo correr bem. 

Tenham um dia muito bom, ok?

segunda-feira, agosto 03, 2026

Luís Neves -- o passivo* dos desenrascados

 

Como é sabido por quem por aqui me acompanha, trabalhei mais de mil anos em contexto empresarial, seja o de empresa pública seja, maioritariamente, privada. Trabalhei com gente que nunca mais acaba e, agora, de ginjeira, consigo caracterizar toda a gente que me passa à frente. 

Trabalhei com dois que, a meu ver, são cópias chapadas do Luís Neves. Em empresas diferentes e em anos desencontrados, eles não se conhecem. Mas eu conheci-os bem demais. Ambos altos dirigentes nas respectivas empresas.

Não vou entrar em pormenores mas , caso eles tenham cometido irregularidades, fizeram-nas certamente "por bem". E, de resto, já prescreveram, já foi tudo há muito tempo. 

O primeiro era responsável por uma grande área que, por sinal, tinha vários pontos de risco. Sob sua coordenação, directa ou indirecta, trabalhavam muitas centenas de pessoas. A Administração da qual ele dependia, gostava genericamente dele. Consideravam que não seria um estudioso nem um inovador, nem sequer metódico e, muito menos, especialmente rigoroso. Atrasava-se nos relatórios, sabia-se que, aqui e ali, alguns procedimentos eram aligeirados, e não era extraordinariamente brilhante quando tinha que apresentar planeamentos detalhados ou justificações mais complexas. Mas resolvia todos os problemas. Nunca levava problemas para a Administração. Resolvia tudo e a Administração, na maior parte das vezes, nem sabia que tinha havido qualquer problema. E haver uma pessoa assim é um descanso. Um desenrascado. Por vezes sabia-se que tinha lá estado uma equipa da ACT e chegavam rumores de algumas situações estranhas mas ele dizia que estava tudo ultrapassado, que nem valia a pena entrar em pormenores. Sabia-se que tinha boas relações com os inspectores, que os convidava para almoçar. Era cordial, descontraído, simpático.

Outras vezes, a posteriori, ouvia-se falar em eventuais acidentes de trabalho, outras vezes ambientais. Mas ele assegurava que não, coisas de nada que os intriguistas do costume gostavam de empolar. A Administração lembrava-o que os procedimentos eram para cumprir religiosamente, que a transparência era imprescindível. E ele dizia que sim, claro.

Os seus indicadores eram sempre de excelência. Os colegas torciam o nariz, desconfiavam que ele atirava os problemas para debaixo do tapete, recorria a expedientes, encobria problemas. Mas eram suposições.

Até que mudou de funções. E aí foi o ver se te avias. O pobre coitado que para lá foi encontrou um passivo desgraçado. Situações até embaraçosas, problemas para resolver que não acabavam, os anteriores colaboradores todos a demarcarem-se do antigo chefe, tudo a vir acima.

Infelizmente, por essa altura aconteceu um problema de grandes dimensões, coisa séria, que o transcendeu. Ele foi acusado por inerência de funções mas, directamente, toda a gente acreditou que foi mais um grave acidente do que uma gravíssima negligência. Mas ele foi-se muito abaixo, adoeceu, teve uma depressão, e passou a ser uma pálida sombra do que tinha sido.

O segundo, num outro tempo, numa outra empresa, era igualmente um alto dirigente. Muito do género do primeiro. Considerado um ás, um solver, ainda se estava a começar a ouvir falar de um problema e já ele estava em campo, a resolvê-lo. Afável, simpático, bom trato. Toda a gente gostava dele. Talvez fosse das pessoas mais conceituadas da empresa. Os clientes adoravam-no, os fornecedores estavam sempre a querer falar com ele, as instituições com as quais a empresa se relacionava tinham nele o rosto operacional da empresa, os sindicatos entendiam-se muito bem com ele.

Nunca enviava relatórios e várias áreas penavam para ele dar alguns inputs de que precisavam, por exemplo, para ter orçamentos ou para se fechar as contas. Nunca tinha tempo, andava sempre em reuniões, andava no terreno, dizia que não tinha tempo para papéis.

O pior foi quando se começaram a fazer auditorias. O passivo era gigantesco. Verbas inusitadamente altas por facturar por acordos que fazia com clientes sem informar ninguém, gente que reclamava aumentos e promoções que ele tinha garantido e, como não podia ser ele a dá-los, arranjava maneira de compensar as pessoas com falsas horas extraordinárias ou falsos subsídios. Acordos com fornecedores que fazia à revelia da área de Compras, segundo ele para resolver emergências (das quais as Compras nunca tinham ouvido falar). Recurso a trabalho temporário ou a prestação de serviços sem autorização. Ou, mesmo, querer corromper quadros bem colocados em algumas organizações, segundo ele porque eram pessoas influentes que poderiam ajudar em concursos, e de que, in extremis, foi impedido, deixando-o incomodado por achar que quem o impedia era gente burocrática, sem visão.

Foi afastado de funções de responsabilidade, claro, pois a empresa não queria correr riscos de danos reputacionais. Mas muita gente na empresa pôs-se do lado dele, desculpando as múltiplas e graves irregularidades e louvando o seu espírito desenrascado 

Agora quem quiser que diga se identifica ou não esta maneira de ser com a de Luís Neves.

Nas empresas em que trabalhei, no mínimo seria encostado. No governo do Montenegro, encaixa bem.


* Passivo no sentido contabilístico do termo

sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

sexta-feira, julho 17, 2026

Incompetência e irresponsabilidade a um nível impensável

 

Onde eu trabalhava, praticava-se a gestão activa de porfólio. Para quem não está por dentro desta gíria pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho. Mas não estou, era assim que dizíamos. Isto significava que era normal adquirir ou vender empresas, outras vezes formar empresas, outras vezes ainda organizá-las debaixo de diferentes holdings e sub-holdings.

Em termos de gestão isto é um desafio pois havendo áreas corporativas centralizadas ou empresas  de serviços que os prestam a outras, e havendo processos normalizados e, em grande parte, automatizados, de cada vez que havia destas jiga-jogas todos os processos eram virados do avesso, novos processos eram implementados, pessoas eram postas a fazer trabalhos diferentes daqueles a que estavam habituadas -- e tudo tinha que se passar sem que a operação fosse beliscada, sem que os clientes e fornecedores fossem afectados. 

Outas vezes era preciso mudar sistemas, automatizar de forma transversal processos novos (processos de toda a espécie, desde a gestão de topo até ao dito shop floor). Acontecia haver revoluções que afectavam, ao mesmo tempo, milhares de pessoas, geralmente ao longo do país, geralmente ao mesmo tempo em várias empresas, por vezes ao mesmo tempo em Portugal e fora de Portugal. 

Nada poderia falhar. A última coisa que se queria era ter falhas que originassem prejuízos ou danos reputacionais. O que se pretendia era que a transição fosse tão tranquila que quase não se desse por ela, que parecesse fácil.

Tudo isto era planeado ao milímetro, era executado com monitorização apertada, havia não apenas a equipa de projecto como um steering committee que envolvia não apenas a equipa de projecto mas também a equipa de gestão e a administração. Não havia uma ponta solta. Toda a estrutura tinha que estar envolvida, coesa, solidária. Não podia haver gente desconhecdora, desalinhada, contrariada. Nem pensar. Garantir que toda a gente remava para o mesmo lado, ao mesmo ritmo, era responsabilidade da equipa de gestão do projecto. E do projecto constavam várias vertentes incluindo a formação e a gestão da mudança, os testes intensivos aos vários níveis, funcionais e técnicos, o acompanhamento in loco e remoto a quem estava no terreno. Antes de se arrancar com a nova realidade já tudo estava oleado, compreendido, agarrado. Ainda assim havia sempre um plano de contingência. Nem pensar em atirarmo-nos para a piscina com uns a não saberem nadar, outros a não saberem que estilo ou para que lado era para nadar e sem haver bóias e equipas de salvamento a postos. A gestão de risco avançava sempe a par e passo da gestão do projecto.

E trabalhei por várias vezes com equipas alemãs, por exemplo quando empresas alemãs nos compravam ou nos vendiam empresas. Aí o planeamento era levado ao detalhe mais minucioso que se possa imaginar. Aí eu, que sou rigorosa e exigente, chegava a ficar pelos cabelos com as cautelas deles. Para cada pequena etapa definia-se a margem admissível de falha e o respectivo plano de contingência. Não havia uma vírgula ou um papel que fosse deixado ao acaso. Antes de se ir para o terreno, tudo estava ensaiado e acautelado ao mais ínfimo pormenor. Quando trabalhávamos com alemães já sabíamos que era assim.

Outros casos: aconteceu-me várias vezes alguns colegas dizerem-me que se estava em fase avançada de negociação e que uma determinada empresa, cujo funcionamento eu não conhecia, devia começar a trabalhar, de forma integrada dentro do Grupo, dentro de um mês. Face a isso eu não tinha qualquer pejo em dizer que era impossível, que havia vários levantamentos a fazer, muito trabalho de migração, de documentação, de formação, de testes de integração e de funcionamento e que, portanto, na melhor das hipóteses isso poderia acontecer no prazo de x meses (o x variando em função da complexidade da empresa adquirida). E isso era aceite. Nestas coisas, prevalecia sempre o bom senso, a vontade de que tudo corresse bem, a prudência e o sentido de responsabilidade. Não havia lugar ao voluntarismo nem ao amadorismo.

Sempre que se resolvia avançar com modernizações transversais, e foram muitas as vezes em que isso aconteceu, uma coisa era sempre clara: modernizar não é fazer informaticamente a mesma coisa que se fazia de forma tradicional. Modernizar é repensar um processo, é optimizar.

O que está a acontecer com isto dos exames é a antítese de tudo isto. Não há estratégia, não há método, não há gestão, não há noção, não há sentido de responsabilidade. O que estão a fazer não apenas não está a funcionar bem como é uma coisa arcaica, uma ineficiência, uma aberração, um atraso de vida. Um aborto.

Tenho ouvido o ministro, o primeiro-ministro e alguns comentadores a defenderem que mudar é correr riscos e que é normal que as coisas corram mal em processos de transformação. Não é. NÃO É. O normal é que tudo corra on time, on budget, on scope. Ou seja, sem desvios orçamentais, a tempo e horas e a corresponder ao requerido. Isto é o normal. O normal é correr bem. Correr bem é o objectivo do qual os bons profissionais não se desviam.

E digo outra coisa: depois do que fui sabendo a propósito deste caos dos exames, tenho antecipado todos os problemas que têm havido. E não porque seja mais esperta do que quem não o antevê. Simplesmente tenho experiência, conheço os passos que têm que ser dados antes de se passar à fase seguinte. E esta gente, pelo que tenho visto, não pesca boi. Uma indigência como nunca vi.

Por exemplo, tenho ouvido toda a gente a dar por garantido que, a partir do momento em que acabem as avaliações, acto contínuo as notas serão disponiblizadas. Não quero antecipar ou parecer que estou a querer que corra mal, até porque não conheço o que se fez em cada fase do projecto. Pode acontecer que o sub-processo que medeia o fim das classificações na nova plataforma e aparecerem as notas, integradas por aluno e separadas por disciplinas e por escolas no sistema do Júri Nacional de Exames, tenha sido testado e re-testado e estar a funcionar direitinho, incluindo todos os mecanismos de controlo (por exemplo, confirmar que os x items de cada prova foram classsificados, confirmar que todos os items que foram separados por avaliador, são bem agregados e bem totalizados por aluno, confirmar que não faltam alunos em cada disciplina e em cada escola, etc -- por forma a garantir que a informação que vai nos ficheiros gerados pela nova plataforma e que será carregada no portal do JNE está integra e correcta. Se tudo isso foi bem testado e se foram também realizados testes de carga por forma a garantir que esses ficheiros chegam direitinhos e a tempo e horas às escolas, sem sobrecargas e time outs, e que a integração com as notas escolares é um processo rápido, então, perfeito, óptimo.

Só que o que tenho visto até aqui é um amadorismo sem paralelo, uma sucessão de calinadas e de improvissos como nunca vi em décadas de vida profissional. Nunca. Se isso é geral, então as notas serem calculadas, ponderadamente, agregadas por aluno e por escola, e saírem da nova plataforma até chegarem e serem lidas como deve ser pelo sistema do JNE, pode muito bem vir a ser outro problema.

Contudo, espero bem que não. Já o disse várias vezes: tenho dois netos à espera de notas, um deles no 12º ano, a aguardar poder candidatar-se à universidade. Por isso, desejo muito sinceramente que as notas deles saiam, sejam credíveis, estejam correctas, e que, atempadamente, as escolas as publiquem  e emitam as fichas que são necessárias às candidaturas.

Mas só quando isso acontecer eu descanso porque agora a confiança que tenho na integridade deste processo é bola. Zero.

Depois, um outro aspecto. O sistema oficial que vigora é que os alunos têm o direito a pedir uma cópia do seu exame. Como até aqui as provas estavam em papel na escola, isso era banal. Era ir buscar e fotocopiar. Agora não é assim pois, fisicamente, estão no armazém da bagunça em Mem Martins. Mas foram digitalizadas. Só que estão anonimizadas. Ou seja, para localizar a cópia digital de cada prova para a fazer chegar a cada aluno, ela tem que ser desanonimizada. Ora só a escola as pode desanonimizar, fazendo corresponder a identidade do aluno ao código da prova digitalizada. E depois tem que se juntar o endereço de mail dos encarregados. Supostamente no sistema do JNE já existe esse endereço. Só que as cópias digitalizadas estão na nova plataforma e a integração com o sistema do JNE pelos vistos não existe, pelo menos em tudo o que devia. Gerar mails a partir de uma lista de endereços e localizar anexos para indexar aos mails ou gerar links não é nada de especial. O que não faltam são aplicações para o fazer que nem ginjas. Mas tem que ser testado, especialmente quando está em causa enviar 130.000 mails e quando, pelos vistos, se as notícias estão correctas, à última hora os códigos e os endereços de mail vão ser carregados à mão. Mas se esse processo também foi testado, perfeito, talvez corra bem. Só que parece que isto foi uma bola que saiu do saco à última hora e ontem as escolas ainda não sabiam onde iam registar esses endereços. Por isso, nem sei o que pensar.

Ou seja, pode acontecer que as únicas barracadas e burrices grosseiras só tenham surgido no sub-processo do split das provas em items e envio dos itemas para avaliar e que tudo o resto esteja a funcionar às mil maravilhas. Pode ser e seria bom para os alunos e famílias.

Mas, se a inexistência de gestão de projecto, de experiência, de prudência, de know how foi generalizada, pode acontecer que, entre o fim da avaliação e a disponibilização das notas e das fichas pelas escolas, venham a surgir novas surpresas.

Ouvi a incoerente, tendenciosa e preguiçosa Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal a justificar este caos dizendo que isto é mesmo assim. Talvez seja na casa dela ou nos ministérios do Montenegro. Não é decidididamente assim em todos os lados em que há gente responsável e competente è frente de lugares de responsabilidade.

Mas, enfim, vou acender uma velinha. Pode ser que os meus netos amanhã já conheçam as notas dos exames e as médias com que acabaram respectivamente o 9º e o 12º anos. É o que eu desejo.

sexta-feira, julho 10, 2026

Ver estrelas... ou obrigadinha mas não...

 

Dantes tinha um hábito que, nos últimos anos, fruto das circunstâncias, se perdeu. Consistia no seguinte: sempre que estava de férias, marcava massagem no hotel. Quase que recordava os hotéis pela qualidade das massagens. 

Por exemplo, não me lembro nada de como era um certo hotel na Costa Vicentina mas jamais me esquecerei da épica massagem dada por um massagista homem, indostânico, que vimos a chegar numa motoreta, e que, quando cheguei à salinha, me mandou despir com ele presente, eu sem saber se haveria de fugir, se aguentar firmemente. Aguentei. Despi-me de costas para ele, temendo virar-me não fosse ele estar a olhar par amim. Um filme. Mas estava com um lençol ao alto, cobrindo-se a ele próprio até que depôs o lençol em cima de mim. Não me esqueço da minha inquietação. As massagens, até então, sempre tinham sido dadas por mulheres, tudo segundo um protocolo de reserva e privacidade que nada tinha a ver com este massagista. Pensei que era chato desistir pois podia estar a descriminar o homem só por ser homem, só por vir de uma outra cultura. E não me arrependi, foi uma bela massagem, decente, eficiente. Mas não repetiria pois, do que me recordo, acho que não consegui estar devidamente descontraída.

Pôr o corpo nas mãos de alguém é sempre, de certa forma, um tiro no escuro. Uma de que me lembro bem foi com uma jovem. Segundo me disse depois, era a primeira semana que fazia massagens. A massagem era para ter durado cinquenta minutos e levou quase duas horas. O vagar com que se aplicava, o vagar com que punha o óleo, tudo muito lentamente, quase milímetro a milímetro de pele. Eu estava na boa mas só pensava que, ao ritmo a que ela estava, nunca mais de lá eu saía. Finalmente, uma vez que a massagem incluía massagem na cabeça, fez a linda proeza de também me pôr óleo na cabeça. Escusado será dizer que saí de lá com o cabelo todo oleoso, a precisar de ser urgentemente lavado. Mas não me queixei, provavelmente até a elogiei. Não quis assustá-la ou desmotivá-la. Quando cheguei ao quarto, o meu marido já estava apreensivo pois eu nunca mais aparecia e não lhe parecia possível que eu estivesse aquele tempo todo a levar uma massagem.

Mas, peripécias à parte, lembro-me com saudade de quando escolhia as massagens, se eram de pedras quentes, se eram de relax, se eram de vitalidade, se eram sei lá do quê -- e só ver a descrição de cada uma já era parte do prazer de as levar.

Agora onde temos ficado nos últimos tempos, o hotel é bom mas é um hotel de charme, mais pequeno, sem algumas dessas mordomias que eu gostava de desfrutar. Portanto, massagens em férias não tem havido. 

No entanto, apesar de experimentar diferentes tipos de massagens: azeite, chocolate, pedras, etc, sou conservadora: só as levo em lugares 'normais', asseados, em que há garantias mínimas de que serei atendida por uma mulher, boa profissional. Por muito afamadas que possam ser algumas outras massagens, jamais eu ousaria tentá-las. Há aquilo de se dizer 'nunca digas nunca' mas, neste caso, tenho a certeza que o mais longe que a minha temeridade me permite é o que já permitiu e não voltará a permitir: a massagem dada por aquele homem, segundo protocolos atípicos. Não correu mal, foi uma boa massagem. Mas podia ter sido desconfortável. E isso eu não quero. 

Têm fama as massagens dadas por indianos na cabeça de homens. Vejo e imagino que seja até hipnótico, se calhar agradável. Mas eu não meteria a minha indefesa cabeça nas mãos de um tipo daqueles. Vejo o que eles fazem: massageiam, sim, mas também esfreguem, batem, rebatem, viram, reviram. E, quando mete barba, só falta arrancarem a cabeça, tantas as tropelias que lhe fazem. E depois sabe-se lá que óleos são aqueles, que águas são aquelas, que intenções são aquelas. Por muito bem que possa saber, eu não deporia a minha vulnerável cabecinha nas mãos de uma enérgica criatura como esta que aqui abaixo vemos.

A massagem indiana cósmica na cabeça faz-me ver estrelas


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quarta-feira, julho 08, 2026

Nos Estados Unidos, o rei vai nu, de fralda e de medalha de pechisbeque ao pescoço.
Por cá, o que tenho a dizer é que o Luís deu azar à Selecção e que os seus ministros dão azar aos assuntos em que mexem

 

Tenho falado nesta big barracada dos exames e pensava que apenas afectava o meu neto do 12º. Afinal afecta também o do 9º. Julgava que não, que esse tinha escapado a esta malapata das avaliações. 

Só visto. 

Há mil anos, numa outra vida, eu vigiava exames e no dia ou nos dias seguintes recebia uma molhada de exames para corrigir. Levava para casa, via tudo no prazo, lançava as notas. Não me lembrro de alguma vez ter havido qualquer crise, qualquer drama. Tudo decorria com previsibilidade.

Mas é natural que se introduzam mudanças, se digitalizem processos.

Numa outra vida, não a da docência mas a das empresas, não têm conta as brutais transformações que se operaram nos processos. Sendo um grande grupo com muitas empresas, geograficamente dispersas e não apenas em Portugal, de cada vez que se avançava para uma grande transformação, o planeamento, o acompanhamento, os testes, eram vistos ao milímetro. Não havia hipótese de falhar alguma coisa pois já tudo tinha sido exaustivamente ensaiado e validado por todos os utilizadores chave. E, ainda assim, havia planos de contingência. Em processos vitais, se no dia do arranque do novo processo houvesse algum problema e não se conseguisse sanar ao fim do tempo máximo convencionado (1 hora, por exemplo, ou meio dia, em casos menos críticos), o plano B entrava em acção.

Isto a que assisto neste processo deixa-me doida. A única coisa que me ocorre é que é gente muito incompetente, muito impreparada, incapaz de assumir funções deste nível de responsabilidades.

Percorram-se os ministros um a um e acho que os que não são flagrantes candidatos a irem borda fora são os que andam na moita, sonsos, calados, sem fazer nenhum a ver se a gente não dá por eles.

Mas, claro, tudo responsabilidade do habilidoso-mor, o Luís, que os escolheu e que, tendo-se comprovado os eros, não os corrige. 

Acresce que andou de rabo alçado a caminho do futebol, com conversas pirosas, motivacionais, e já se viu no que deu. Tivesse ele estado calado e quieto e talvez agora não ficasse tão colado à derrota da rapaziada da selecção. Podem vir dizer que a culpa é do treinador ou do Ronaldo que já deu o que tinha a dar ou do que quiserem, e certamente têm razão. Mas quem se colou, à cara podre, a eles foi o Luís. Por isso, o Luís é um dos derrotados -- e que o discurso de que deveríamos todos ser como o Ronaldo lhe faça bom proveito. E se ninguém ainda lhe disse, digo eu: tão importante como ter boa forma física ou um talento enorme para o futebol é saber perder, é sair dignamente, seja do campo, quando é substituído, seja da actividade, quando as mais valias já não são aquilo que deveriam ser.

E termino referindo o palhaço-mor, o abestalhado demente Donald, que parece que entrou em acelerada derrapagem mental. Voltou à carga com a Gronelândia, quer largar a Nato, quer lançar a confusão total, para consolo de Putin. E a cambada Maga mais os cobardes e, em alguns casos, burros chapados dos republicanos, no Congresso e no Senado, não são capazes de lhe tirar o tapete. A única, mas mesmo a única, coisa que atenua a minha estupefacção e irritação perante a alarvidade de tudo o que vem daquele estupor é pensar que talvez sirva de vacina. Mas mesmo nisso não estou muito optimista. Cada vez mais me convenço que uma parte significativa da população (provavelmente em torno dos 25%) é mesmo constituída por uma mescla variável de gente burra, estúpida, ignorante, passiva-agressiva, psicopata, invejosa, ressabiada, parva -- gente que se revê em líderes como Trump.

E fico-me por aqui. Não me apetece perder mais tempo com gente desta.

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Desejo-vos um bom dia

quarta-feira, junho 17, 2026

Ser-se viúva

 

Toda a vida ouvi a minha avó materna dizer que era viúva. De cada vez que conhecia alguém, dizia que era viúva e há quantos anos o era. Durante muitos anos vestiu-se de preto. Para o meu casamento, quase impus que não se vestisse de preto. Fez-me a vontade. Detestava que ela parecesse achar normal resumir a sua condição à de viúva. Enamorou-se ainda menina, engravidou menina, casou menina. Toda a gente dizia, e ela sempre o afirmou, que tinha uma paixão enorme pelo meu avô. Ela não dizia assim, dizia que sempre tinha gostado muito dele, só dele, de mais ninguém senão dele. Quando ele morreu, num terrível acidente, ela deveria ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ia morrendo de desgosto. E fez luto a sério, saudade profunda, durante muitos anos. Creio que só quando começaram a nascer-lhe os bisnetos é que recomeçou a viver uma vida normal. Não que tenha sido isso que a fez reacordar, não faço ideia se foi ou não, mas a ideia que tenho é que foi por essa altura.

Lembro-me também de uma amiga que era apaixonadíssima pelo marido. Andavam sempre juntos e não havia conversa em que ela não falasse dele. Não trabalhavam longe um do outro, e todos os dias ele levava-a e apanhava-a no trabalho. Ela não conduzia e, para irem para casa, que não era perto, ou apanhavam vários transportes ou iam de carro. E, portanto, iam de carro. Ele é que geria a casa, os pagamentos, o lado prático das coisas. Tinham uma casa de verão na costa vicentina que tinham reformado e redecorado. Com uma família ligada às artes, tinham obras de arte, artesanato de qualidade. Ele era muito cuidadoso, tratava da manutenção da casa e de todas as coisas. Escrevi que era casa de verão mas, claro, era de verão, de inverno, de fim de semana e de quando para lá fossem. Até que um dia, sem aviso prévio, ele teve um ataque cardíaco fulminante. E não foi só ele que morreu, foi, de facto, parte dela também. Aoa olhos de todos, era visível que era como se ela não tivesse existência própria, sem ele. E não eram só os aspectos práticos (embora tivessem um peso significativo pois, na verdade, de grande parte da vida do dia a dia ela não fizesse nem ideia do que era preciso fazer). E havia também a parte do carro: ela nunca tinha andado de transportes. Tinha carta mas não conduzia. Mas depois havia o ir para a casa da costa vicentina que já não lhe parecia fazer sentido, sozzinha. Ou ir a restaurantes, cinemas, passeios, exposições que antes tanto frequentava. Definhou. Ao fim de pouco tempo deixou de trabalhar, não era capaz de manter sozinha a casa e o trabalho. 

Perder um marido para a morte é pior do que perder para outra mulher.

Aqui onde vivo cruzávamo-nos quase todos os dias com um casal um pouco mais velho que nós. Iam dar um passeio e depois iam para a esplanada, juntar-se a outros casais. E tratavam do jardim. E viamo-los a chegar de carro, vinham das compras. Um casal normalíssimo. Um dia o senhor começou a andar mais lentamente, e passaram a andar de braço dado. Via-se que a senhora, de certa forma, o amparava. Nas últimas vezes, ele já ia mesmo devagar, parecia faltar-lhe algum equilíbrio ou energia. A senhora cumprimentava-nos com a alegria do costume mas ele parecia que já estava um pouco ausente. Ou talvez estivesse apenas concentrado na marcha e não reparasse em nós. O certo é que, desde há algum tempo, nunca mais os vimos. De vez em quando, vemos um homem novo a entrar lá em casa. O meu marido diz que acha que é o filho ou o genro. Não sabemos o que aconteceu, mas a senhora estava bem. Contudo, se calhar não quis ficar a viver sozinha numa casa grande de mais para uma só pessoa. Estou a escrever dela aqui e não sei se, de facto, está viúva. Mas estamos convencidos que, de uma forma ou de outra, o senhor se ausentou. E a senhora, tão alegre e que tratava do jardim e passeava e que se via que gostava a conviver com os amigos na esplanada, também desapareceu.

Siri Ustevedt é uma escritora conhecida, tem uma identidade própria, é uma mulher interessante. Contudo, muitas vezes era vista apenas como a 'mulher de Paul Auster'. No livro, ela conta como se apaixonou por ele e como viveram uma vida de enamoramento por quarenta e três anos. Uma vida inteira. Tiveram uma filha em comum e, ultimamente, um neto. Ele tinha um filho de um casamento anterior, no caso da também escritora Lydia Davis, e esse filho sempre foi problemático. E teve um fim muito trágico, demasiado trágico. Siri e Paul atravessaram esse drama juntos. Ou seja, unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Sendo ambos escritores, pisaram muitas vezes os mesmos palcos, as mesmas feiras e festas e palcos de palestras. Reviam os textos um do outro. Completavam-se. Claro que por vezes aconteceu acharem que ela usava ideias dele, quando era ao contrário. Mas reagiam solidariamente e Paul sempre se referiu a a ela como a intelectual da família. Eram felizes, na mesma medida em que os casais felizes são felizes, com altos e baixos, e muita ternura e compreensão. Até que Paul Auster adoeceu. E morreu. E Siri ficou viúva. E é sobre a sua vida em comum e sobre a perda, e sobre como tem sobrevivido a essa perda que Siri fala no livro Fantasmas. Paul Auster dizia que gostava de regressar como fantasma para ver se Siri estava bem. E ela, de vez em quando, sente o cheiro da cigarrilha de Paul. E gosta. Não é um livro melodramático, longe disso. É um livro muito factual, muito sincero, muito íntimo. Paul Auster, diz ela, morreu bem, soube morrer bem, com dignidade, ajudou a família a aceitar a sua morte. 

Depois de um período em que parecia vogar pela casa sem coordenadas, Siri voltou a ter vida própria. Esteve em Portugal agora, por exemplo. O seu livro é, também, um testemunho dos caminhos que uma viúva percorre até voltar a ser uma mulher inteira.

O livro pode parecer um bocado caótico pois a memória vai e vem em fragmentos. Mas isso é o normal. A vida não segue propriamente um guião.

Li-o de seguida, sem outros livros pelo meio, sem andar a arrastá-lo.

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Aqui Siri descreve o que também descreve no livro, uma sensação que lhe aconteceu logo após a morte do marido:

SIRI HUSTVEDT: 'Nunca me quis livrar daquele homem'

Uma conversa bonita e sincera sobre viver e amar a mesma pessoa durante 43 anos e a dor de a perder. (Para além do sexismo, da misoginia, de ter o seu trabalho creditado ao marido, o habitual!)


Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, junho 12, 2026

E se os psiquiatras e psicólogos precisarem ainda de mais tratamento que os seus pacientes...?

 

Já falei muitas vezes que, na minha adolescência, uma das minhas pimeiras escolhas como vocação profissional seria psiquiatria ou, retirando-me daí com receio de enfrentar cadáveres nas aulas de Anatomia em Medicina, psicologia. Desviei-me e tudo bem, realizei-me profissionalmente num mundo completamente diferente. Mas o bichinho ficou.

Contudo, permanece em mim a dúvida sobre a qualidade da terapia quando do outro lado está um psiquiatra ou um psicólogo também com problemas ou limitações.

Também já o contei: uma amiga nossa, psiquiatra e, pelos vistos, tão competente que chegou a directora de serviço num dos principais hospitais do país, era completamente doida. Mas doida varrida. Deixámos de nos dar pois divorciou-se e ficámos amigos do marido. Não apenas o divórcio foi traumatizante para eles, como, face a tudo o que se passou, sentimo-nos mais solidários em relação a ele. E, de resto, mesmo quando tudo estava bem (se é que alguma vez esteve tudo bem, tão doisa ela era), o meu marido não conseguia suportá-la, raspava-se de perto dela sempre que podia. E sempre nos interrogámos: como é que uma maluca assim podia tratar pessoas com doenças do foro mental? Provavelmente, ao trabalhar, transformava-se. Também já o contei: uma vez, um amigo, por razões que não eram de saúde e que agora não vêm aqui ao caso, precisava de consultar uma psiquiatra. Falei-lhe nesta mas avisei-o: não é boa da cabeça, não ponho as mãos no fogo por ela, é maluca mesmo. Pois não é que veio de lá encantado...? Achou-a o máximo, giríssima (e era), com uma voz super sensual, interessantíssima, inteligente, super profissionalona. Nem percebeu a razão dos meus alertas. Fiquei sem saber o que dizer.

Conheço uma outra, não psiquiatra mas psicóloga, psicanalista, conceituada terapeuta. Pois... Nada a ver com a maluqueira da primeira mas diria que também com uma certa pancada. Ainda no outro dia, umas duas outras que também a conhecem bem, se riam com as coisas dela, as desculpas esfarrapadas que arranja, os recuos de última hora que ninguém percebe. Tem coisas que me deixam um bocado de boca aberta, a pensar que, se calhar, algum acompanhamento psicológico não lhe fazia mal nenhum. 

E eu penso: se eu precisasse, recorreria a alguma delas...? E não tenho dúvidas: nem pensar. Acho que viria de lá pior do que para lá tinha entrado. No entanto, pode acontecer -- e certamente acontece -- há um qualquer fenómeno que faz com que, quando estão a trabalhar, dispam todas as suas doideiras pessoais e, no acto de terem de cuidar de outras pessoas, se portem de forma sensata e útil.

Mas o que protege uma pessoa vulnerável se lhe aparecer pela frente não um bom psiquiatra ou psicólogo mas um maluco? Ainda ontem vi uma notícia de que um psiquiatra se envolveu com uma paciente e, quando ela quis romper com ele, para se vingar, determinou que ela precisava de ser internada compulsivamente. Vejam bem... 

Lembrei-me destes aspectos ao ver o vídeo abaixo. Imagine-se a responsabilidade: um jovem meio perdido, desinteressado, desligado da vida concreta do dia a dia, com os riscos que isso comporta, riscos até existenciais... e imagine-se se dá com um psicólogo que não bate bem ou que não consegue agarrar os problemas do paciente de forma a restituir-lhe o entusiasmo e a motivação que tão imprescindíveis são a uma vida digna de ser vivida... Há um certo risco nisto, não há?

Contudo, neste caso, parece que o jovem paciente encontrou o terapeuta certo.

O caso do jovem que não sabia como estar no mundo | Do Outro Lado

O psicólogo Pedro Aires Fernandes acompanhou um paciente de 23 anos muito desligado e desinteressado da vida. O caso inquietou-o e levou-o a interrogar-se como terapeuta, como homem e como pai.

Desejo-vos um belo dia