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sexta-feira, dezembro 29, 2017

Quando uma mulher ama um homem





É um facto. Nisto da igualdade dos géneros convém não generalizar. Uma coisa é o direito à igualdade de oportunidades e outra, muito diferente, é fazer tábua rasa das diferenças evidentes entre homem e mulher. E nem estou a referir-me ao óbvio. Isso cada um sabe de si. As mulheres têm maminhas e os homens não? Bem. Não é sempre verdade. Há mulheres que não las têm e há homens que deviam usar under bra. Assim como pode haver homens que têm pirilau mas não o usam e mulheres que não o têm e munem-se de um. Portanto, adiante que nisto de minudências há excepções para todos os gostos e não pretendo aventurar-me por aí.

Refiro-me aqui apenas a coisas muito mais simples: à maneira de ser tipicamente feminina e à maneira de ser muito macho man.


Claro que também aqui poderia embrenhar-me pelas variantes e excepções: homens sensíveis e fofos e mulheres todas duronas e marialvas -- que pode não ser politicamente correcto falar assim deles e delas pero que los hay, los hay.
Exemplifico. Ontem estava atolada no meio do trânsito. Não mexia. E eu sossegadinha a ouvir música. Nisto, o carro da frente andou dois palmos e eu, em piloto automático, avancei o mesmo. E, nessa altura, ouvi ao meu lado uma barulheira de música aos berros e uma flausona, cara de rapper, cabelo curto platinado, toda machona, a gritar na minha direcção: 'Ó madama, és muita mázona. Atão não me queres deixar meter, ó madama? Já tou cheia de medo de ti!'. Eu atónita, tentando perceber a razão de tal desconchavo. Percebi que a dita vinha de lado e que estava a querer meter-se à minha frente. Tinha um carro pequeno, janela aberta e o braço de fora, a gesticular, e a boca escancarada a berrar sobre uma música igualmente escancarada. Ri-me e fiz-lhe sinal para se meter à vontade. Continuou: 'Tens a mania que és boa, ó madama!'. Quando o carro da frente andou mais meio metro, voltei a fazer-lhe sinal, convidando-a a enfiar-se à má fila à minha frente. Com cara de vingadora, não quis. Passado um bocado, ouvi-a a pôr o motor a fazer aceleradelas e a tentar fazer outra chicuelina a outro pacífico condutor. Aquela, notoriamente tinha a testosterona a fervilhar.
Mas eu estava era a referir-me à maneira que as mulheres (as mulheres em geral, dentro da média) têm de gostar dos homens. É uma maneira cheia de subtilezas. As mulheres gostam de ser adivinhadas, convencidas, surpreendidas. Não gostam de ter que ser explícitas. Quando uma mulher tem que ser explícita para o homem a perceber, aí desinteressa-se dele. É um totó, um destituído. No entanto, também não se aguenta um homem melga ou armado em engraçadinho, sempre a querer fazer surpresas bobinhas ou a dizer piadas secas.

Mais: o homem tem que ser uma boa ajuda em casa, claro que sim!, mas também não pode ser mais arrumadinho que a madrinha rezingona que não suporta um grão de pó no móvel ou que vai aos arames com uma toalha torta no toalheiro. E não deve ser um copinho de leite, que essas mariazinhas são de se fugir delas a sete pés, tal como não deve ser um copofónico que isso, credo, é de terror.  Deve, sim, saber apreciar um bom vinho, tal como deve saber pegar no copo e deve saber ser didáctico a propósito do tema mas só até ao ponto em que não pareça ser um deslumbrado ou um petulante a precisar de uma belinha.

E tem que gostar de ler mas não ser um maçador cheio de citações. Homem que só fala de livros ou que só sabe falar de música, tal como se só souber falar de futebol, é para esquecer. Pode suportar-se durante um hiato mas ponham hiato nisso. Logo, logo receberá ordem de marcha. Homens mono-interesses são uma seca de primeira. Interessezinhos diversificados, tudo bem temperado de erudição, humor e desconstrução, isso sim.

E quem diz isto, diz muito mais que isto.

Por exemplo. Só se for perfeito sem parecer perfeito, ou elegante sem ser uma maria dondoca, e empático sem ser uma amélia lamechas é que a mulher poderá dar-lhe a hipótese de ser escolhido.

E etc, etc, etc.

E ponham mesmo muitos etcs nisso que a lista de to dos e not to dos é extensa. Eu é não pretendo ser exaustiva.

Mas uma coisa tem que ficar clara: quem escolhe é a mulher mesmo que possa parecer que não. E deve ser como e quando ela quiser (mesmo que faça de conta que não quer ou que tanto lhe dá). E o homem deve ter plena consciência disso embora deva disfarçar, tentando conquistá-la como se acreditasse que tem um poder que obviamente não tem.

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E isto tudo para introduzir um poema que me agrada:

When a woman loves a man de David Lehman


Capisce?

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Ok, ok, ok.

Eu sei que muitos leitores (homens, sobretudo) não acham graça nenhuma a poesia. Acharão que poesia é coisa para almas sensíveis e eles, qual quê, são empedernidos, mas empedernidos encartados, de papel passado, com um calhau no meio do peito - um calhau palpitante, é certo, mas isso é só porque tem que bombar o sangue -- e nada de palavrinhas nheco-nheco, só palavras que sirvam para andar à traulitada. 

Por isso, esta agora é para eles: um vídeo que devem ouvir com atenção. Ok?

Poema para pessoas compreensivelmente demasiado ocupadas para lerem poesia

de Stephen Dunn


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Enjoy

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segunda-feira, agosto 14, 2017

Mark Zuckerberg (o Conquistador puritano), o Facebook e os mamilos e... a fúria da mamã...


Kate Moss, aos 43 anos, para a W Magazine


É sabido por quem por aqui me acompanha. Não tenho conta no Facebook nem tenciono vir a ter. Não há ali nada que me atraia. Pelo contrário, os potentes motores comerciais que movem a máquina do Facebook são de uma perversidade que acho assustadora. Gratuito para o utilizador normal, o Facebook é, na realidade, uma base de dados de interesse galáctico e desregulado e uma plataforma comercial que usa informação colhida nas preferências e comportamentos das pessoas para divulgar produtos e serviços, para induzir tendências, para manipular preferências.

Jean-François de Troy (1679 – 1752) -  Le bain de Diane

Por detrás do que parece um simples mural no qual as pessoas vêm fotografias alheias ou sabem de peripécias dos amigos ou exibem o seu prato de salada bio ou o seu sorriso de boca aberta enquanto dizem cheeese ou ba-ta-ta, há algoritmos a fazerem o seu trabalhinho para que a pessoa veja em primeiro lugar o que o Facebook decidiu ou para que a disposição do que é mostrado induza a reacção desejada.

Para além disso, há o valor incomensurável da infinita base de dados que é alimentada a todo o instante com toda a espécie de dados pessoais. O que pode ser feito a partir da comercialização desta base de dados já começou a ser visto aquando das mais recentes campanhas eleitorais e que conduziram aos efeitos que quem contratou os serviços da empresa de marketing político pretendia: a vitória dos clientes -- num caso a vitória do Brexit, no outro a vitória de Donald Trump.

Lucas Cranach o Velho (1472 - 1553) -- A Justiça

Mark Zuckerberg tem apenas 33 anos e, embora o seu ordenado seja de apenas 1 dólar anual, é já o ilustre detentor de uma fortuna que o torna a 5ª pessoa mais rica do mundo. Comprando as empresas que se mexem à sua volta, destruindo a concorrência e aventurando-se por caminhos que fazem tremer os que já lá estão, o jovem Zuck parece não conhecer limites.


Ao mesmo tempo que as suas empresas acumulam riqueza como se não houvesse amanhã, ele e a mulher resolveram criar uma fundação, a Chan Zuckerberg Initiative, dona de 99% das acções do Facebook, cujo objectivo é  "to advance human potential and promote equality in areas such as health, education, scientific research and energy". Na prática, uma poderosa empresa filantrópica, tão poderosa que assusta.


Jean Auguste Dominique Ingres (1780 - 1867)  - La Source

As movimentações do jovem Mark são seguidas com preocupação por quem sabe detectar sinais de potencial alarme. Leia-se, por exemplo, na Vanity Fair, o artigo Is Mark Zuckerberg Killing Silicon Valley?:

The exact nature of Mark Zuckerberg’s ambitions are a bit hard to pin down. At 33 years old, Zuckerberg has already built the world’s largest and most powerful social-media network; devoured the advertising and media markets; is threatening to put Hollywood out of business; amassed a $73 billion fortune and pledged to give most of it away in what could become the world’s most ambitious philanthropic enterprise. In two years, he’ll be old enough to run for president, a prospect that is being taken somewhat seriously in Silicon Valley, where various sources have told Vanity Fair he wants to be “emperor.”

Only Zuckerberg knows if those two impulses—to dominate the world and to save it—are in conflict. In the meantime, however, the Facebook founder and C.E.O. is not hesitating to ruthlessly expand his business empire in pursuit of whatever master plan he has in mind. (...)

Giorgione (1478 - 1510) -- A Vénus adormecida

No meio disto, parece até ridículo o puritanismo do Facebook. Quem por lá navega já deve ter sido informado das regras mas, ainda assim, transcrevo o seguinte excerto:

Nudez 
(...) Eliminamos fotografias de pessoas que mostram os genitais ou que se foquem em nádegas completamente expostas. Também restringimos algumas imagens de seios femininos se estas incluírem o mamilo. No entanto, permitimos fotos de mulheres a amamentar ou a mostrar seios com cicatrizes pós-mastectomia. Também permitimos fotografias de pinturas, esculturas ou outro tipo de arte que retrate nudez. As restrições na apresentação de nudez e de atividades sexuais também se podem aplicar a conteúdo criado digitalmente, a não ser que o conteúdo publicado se destine a fins educativos, humorísticos ou satíricos. São proibidas imagens explícitas de relações sexuais. Também podem ser eliminadas descrições de atos sexuais detalhados nitidamente.
Tiziano (1490 - 1576)  - Vénus com o Organista e com o Amor


No outro dia, o MCS (de No Vazio da Onda) dava conta que a sua conta no Facebook tinha sido temporariamente bloqueada por lá ter colocado uma fotografia do falecido Serge Gainsbourg (1928-1991) num dia de farra -- e tudo porque a fotografia mostra que, nesse dia, algumas foliãs estavam de mamocas ao léu.


Provavelmente essa fotografia ainda não almejou alcançar a categoria de 'arte'.

Mas o que é arte? Quem decide o que é arte ou não-arte? Não há pinturas de um classicismo irrepreensível e nas quais almas moralistas vêem pura pornografia?

Gustave Courbet (1819 - 1877) -- A Origem do Mundo

As imagens que aqui partilho -- com excepção da primeira que é, ela própria, um clássico entre as fotografias de Kate Moss -- as restantes são pinturas a que nenhum idiota ousaria negar a exibição. Contudo, algumas ou algumas deste tipo não podem ser expostas em galerias ou museus americanos por haver quem considere que ofendem a moral e os bons costumes.

O blogger, ferramenta da Google, que eu saiba, ainda não restringe a partilha de imagens com mamilos, nádegas ou que exprimam actos de amor (tanto mais que as disponibiliza no Google Arts & Culture).


No entanto, tendo recebido por mail um vídeo engraçado ('Embaraçoso...' ou 'Não chateiem a mamã') no qual a protagonista, no fim, aparece em nu frontal, quis inseri-lo aqui via youtube e o que aparece já é a versão coberta. Aqui o deixo na mesma.

Tudo é subjectivo, claro, mas o puritanismo e o moralismos nunca foram bons conselheiros e, em nome deles, grandes patifarias têm sido cometidas ao longo dos tempos. O que seria normal seria que as mentes fossem evoluindo mas, como se vê, a regressão é que parece estar a fazer o seu caminho.


Que mal fazia ver-se o corpo da mamã?

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E, em pós-post, aqui fica como recomendação, a resposta a um comentário meu n'A Matéria do Tempo. Com o Fernando aprendemos sempre.

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Se não fosse por coisas, nomeadamente por ser avessa a selfies, despedia-me com um auto-retrato meu. Assim, despeço-me com o mais parecido que arranjei. Só me falta o gato.

Mulher reclinada e nua com gato -- Pablo Picasso (1881 - 1973)

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E uma boa semana a todos quantos por aqui passam, a começar já por esta segunfa-feira.
Be happy.

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terça-feira, novembro 22, 2016

Não recua nem cede
não aceita o interdito

ela fala daquilo
que não pode ser dito




Pensar em ti enlouquece-me. Talvez o teu olhar, talvez as tuas mãos. Mesmo que os não veja, mesmo que os não sinta. O teu olhar desnuda-me mesmo que não esteja pousado em mim. As tuas mãos, mesmo que ausentes, percorrem o meu corpo. As tuas palavras. O presságio que elas transportam.

Que coisa é esta que me tolda a razão, que eu não sei?

Quero-te, quero os teus olhos mergulhados nos meus, quero as tuas mãos deslizando sobre a minha pele. Quero-te tanto, tanto.

Onde estás agora que não te tenho aqui para me abraçares? Porque não atravessas o mundo inteiro para vires repousar o teu cansaço no meu regaço? Não saberás que te espero, que te espero ansiosamente? Vem.

Apenas a memória da música me traz o teu nome. Ou talvez a lua que agora já é só metade, já só meia luz, meia esperança.

Ouves o meu lamento? Ao menos ouves como chamo por ti?

- És o emissário 
dos astros
ou só o reflexo?

O corpo em contraluz
ou a imperfeição do excesso?

Tens asas
ou és o brilho
das estrelas no seu reverso?


Chamo as aias, os pequenos deuses, os anjos famintos - que segurem o espelho, que deixem que eu veja se aquele que o meu coração secretamente ama vai achar que as minhas carnes são à medida das suas mãos. Serão?

Peço-lhes que cubram a minha pele de óleos perfumados, e toda me entrego ao deleite das mãos que me cegam -- que mil mãos preencham cada recanto do meu corpo do mais perfumado óleo, que toda eu fique macia e tentadora, que a luz desenhe em mim a sombra do meu corpo que ondula.

Depois vejo o meu rosto no espelho.

Olhando-me, achará ele que sou a sua mulher? Quererá segurar o meu rosto entre as suas mãos, olhar os meus olhos e beijar a minha boca?

Olho-me no espelho que o anjo tentador segura. Depois fecho os olhos. Quero ver-me com os olhos daquele por quem o meu coração chama, não com os meus.

Mas não consigo.

Olho a ausência
da minha
imagem no espelho

no seu abismo perverso

O nada absoluto
onde a luz é o excesso.


Ah, a minha nudez. Quererá ele saber-me assim? Nua, sem defesas?

Cubro-me de mantos de veludo, que não me tome ele, o meu amor querido, por impúdica, eu que tanto gosto que me seduzam, que me conquistem, que sofram, que mostrem o sangue escorrendo do coração sedento, que esfreguem sal nas feridas, que caminhem sobre pedras.
Cubro-me, amor, cubro-me para que lutes por me descobrir. Para que me dispas, me descubras devagar ou me adivinhes com sofreguidão, para que faças de mim um segredo desvendado.
E entranço o cabelo e adorno-o com pérolas, ponho brincos, pulseiras, tudo para que percebas como te quero, amor, para que percebas como te desejo, tanto, tanto, amor, para que me olhes com olhos de guerreiro, doido por conquistar a sua secreta amante. Eu e tu unidos pelo mais íntimo prazer de dar prazer -- assim me quero, assim te quero. Amor. Amor meu.
Em surdina, as aias e os maliciosos pequenos anjos vozes segredam censuras no fundo do quarto:

Recato?

Dúvida
a apunhalar-lhe
o coração estilhaçado

Cimitarra e desacato


Pois que seja desacato, que seja, pois que me caiam as vestes e os mantos, que o meu corpo não se fez mesmo para silentes esperas e tímidas ocultações. Pois que me veja ele desnudada, livre, disponível, pois que rasgue as nuvens e suba dos mares ou desça dos montes, que rompa as portadas e me veja assim, toda eu desejo, desafio, desaforo. Pois que veja como o meu corpo se alonga para que melhor perceba que é por ele que o meu corpo espera e que não conheço medos, frios, ou tropeços. O meu peito arde e o meu ventre ainda mais e nele se esconde a rosa mais perversa. Não sei se é carmim e cheira a sangue e mel ou se é azul e inventada, a minha rosa secreta, nem sei se nas horas mais escuras da noite sou tigre, leoa, cavalo azul ou concha, novelo, ninho de amor. Nem sei se, nas horas mais negras da noite, digo palavras de paixão ou se o meu silêncio tem asas e as minhas pernas abraços. Não sei. Isso terá ele, o meu amor, que desvendar, beijo a beijo, palavra a palavra.
Isso terás tu, amor meu, que descobrir. 
Tantos riscos já corri, tantos, tantos, que já perdi todos os receios.
Voei à tua volta
tantas as luas

Dancei na via láctea
do desejo

Procurei em ti
as rosas rubras

Ignorei presságios
expiações

ameaças, abismos 
e anseios


O pequeno anjo ri, menino inocente e malicioso, e que me ria eu com ele, pede. Sorrio mas por breves instantes. E logo mergulho o meu rosto impaciente na lava negra que aguarda o fogo de dois corpos que tanto se querem.
Não lutes mais, peço-te. Nem tentes esquecer-me, nem tentes negar a tua paixão.  
Não tentes, não tentes. Amor, amor meu. Não tentes. Peço-te.
Anda, amor meu, vem acolher-te no meu corpo que tão ternamente te aguarda.
Não ouves como te chamo? Não ouves? Não...?


- Vem outra vez!

Chamo-te num grito
quando a saudade desata

e o corpo se precipita
até à fenda da farpa

onde apenas sei
do espírito
esse tudo e esse nada

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Poemas de Anunciações de Maria Teresa Horta


Hope I don't fall in love with you, interpretado por Tom Waits

Vénus ao Espelho por Tintoretto, Rubens, Ticiano, Mestre da Escola Fontainebleau e Velázquez

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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sexta-feira, agosto 12, 2016

O que é arte? O que é pornografia?
- ou o absurdo moralismo americano
[Medo.... Juro. Tenho medo dos moralistas, dos puritanos. Medo.]


Às vezes até me custa a acreditar no que ouço. Dá para conceber que as grandes estações de televisão americanas exerçam censura sobre a exibição de obras de arte? O puritanismo é tão radical e tão estapafúrdio que não lhes basta impedirem a visão de seios ao vivo (e de genitais nem vale a pena falar): não, até tapam ou desfocam partes de obras de arte. Mas não me refiro a obras ultra-realistas. Não. Refiro-me a Picasso ou a Modigliani. Imagine-se onde isto já chegou.

E parece que já ninguém se indigna.

Pode uma das maiores potências mundiais, senão a maior, portar-se como um bando de beatas assanhadas?

Assusta-me isto, palavra que assusta. Quem tem tal espírito censor, é capaz de quê?

Podem os putos ir armados para as universidades, podem passar a toda a hora séries e filmes com assassínios, torturas, perseguições, sangue a jorrar por todos os poros. Isso para aqueles dementes parece ser normal. Mas a visão do corpo humano é interdita. É pecado. Provavelmente acham que ver os seios de uma mulher numa pintura provoca comportamentos desviantes. Mas se fosse uma virgem vestida até ao pescoço e de pistola na mão se calhar já era aceitável.

Que civilização é esta, caraças?

No vídeo abaixo, Stephen Colbert parodia a situação. E ao parodiar, denuncia-a. Vá lá. Menos mal: pelo menos, isso ainda é permitido.

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Ao menos por cá ainda nos é permitido admirar a arte integral, sem desfocamentos ou tapamentos. Pode gostar-se ou não -- estamos no domínio do subjectivo --, podemos até achar que não é arte. Mas, pelo menos, ainda podemos ver.

Ora bem. Antes que a lei da cega cesura chegue à blogosfera, deixa-me já aqui deixar algumas obras. 

Do fotógrafo Robert Mapplethorpe, cujo arte tanto admiro:






O sonho de Picasso, uma das minhas obras de eleição:


A obra censurada de Modigliani (a tal mulher nua de que Colbert fala, arrematada num leilão por 170 milhões de dólares):


Ou, se recuarmos a 1751, a François Boucher:


Ou ainda mais, a 1555, à Venus e ao Cupido de Ticiano:


Para se poder ver num canal por cabo nos EUA, tudo isto seria lancetado? 

Bem, talvez escapassem as flores. aquelas lá de cima de Mapplethorpe. 

Porque as de Georgia O'Keeffe já seriam, concerteza, amputadas ou desfiguradas.


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O mundo parece que está a andar para trás. 

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Pelo sim, pelo não, não vá estar mesmo e daqui a nada desatar a acelerar a caminho do vórtice final, vamos mas é fazer um brinde: À nossa! Saúde! E viva a Arte!

Se estiverem de acordo, brindemos com vinho italiano da região de Friuli.


Um filme de Iris Brosch.

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E que é feito do vinho...?
As meninas, com tanto folguedo, esqueceram-se de nos trazer o vinho, não foi...?
Ora bolas.

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sábado, junho 16, 2012

Vénus ao espelho - e algumas palavras soltas sobre a beleza, o amor, a sedução, a sensualidade no feminino


Música, por favor

Melody Gardot - Love me like a river does

*


Olho-me ao espelho com atenção. Esta sou eu. Olho-me nos olhos. Tento captar o meu olhar mas não consigo, o meu olhar parece não querer deter-se nos olhos que me olham. Quase sinto em mim alguma timidez.



Vénus ao espelho - Ticiano Vecellio (1473/1490 - 1576)


O espelho devolve-me a imagem de uma mulher bonita, de uma beleza franca. Penso: sou desejável. Mas, depois, um súbito pudor faz-me cobrir os seios. Olho de novo. Subo um pouco a mão que descobre um dos seios. São pequenos, macios. Olho o espelho e quase sorrio. O meu cabelo já está entretecido, pronto para me apresentar ao meu amor. 

A nudez branca parece-me impúdica, assim ao espelho. Cubro-me, ao de leve, com a capa macia, o veludo é tão macio e a orla bordada, tão bonita. Coloco as pulseiras. São fundamentais, quando me despir não parecerei tão nua.

Nesta cama, sobre esta capa macia, gozarei mais logo com o meu amor. Quero ver-me como ele me verá.



Vénus ao espelho - Peter Paul Rubens (1577 - 1640)


Nasci talvez de uma concha, sou feita talvez de espuma, não sei. Os meus cabelos são louros, longos, leves, perfumados, e eu deixo-os cair sobre os ombros. O meu corpo é farto, rijo, feito para ser acariciado, carnes macias que devem estar entre mãos. Desperto amor em quem me vê. O meu rosto tem as cores de quem tem saúde e o meu olhar olha-me, quase a desafiar-me. Mulher fêmea, sem dúvida. Mulher de carnes férteis, seara fértil, macia. 

Cubro-me com este fino cendal, branco, macio. Ignoro o olhar de quem me quer vestir, agora sou apenas eu aqui, eu e eu. Quero ver-me, quero ver o que os olhos do meu amor vão ver. Quero ver-me para perceber como será o meu olhar quando o olhar do meu amor estiver preso ao meu.



Vénus ao espelho - Diego Velásquez (1599 - 1660)


Deito-me agora sobre a chaise longue que, antes cobri com sedas naturais, marfim, antracite, deito-me e eu sou agora uma outra maja desnuda. Pensativa, olho-me no espelho. Esta sou eu. A minha anca eleva-se, e eu sei que sou desejável, farta, macia, uma mulher livre dentro de um corpo livre. Afasto de mim os véus, as capas, as vestes. Esta sou eu, nua, descoberta, eu. Olho-me tranquila. A mulher no espelho olha para mim. Entendemo-nos. Sem censuras, sem pudores, ela, a mulher nua no espelho e eu que olho a mulher que os homens desejam. 

Poderia dizer que os homens que me amaram, amaram sempre demais. Mas não digo. Eu é que sempre fiz com que me amassem demais. Eu a mulher amante, amada.



After Velásquez in my Apartment - Helmut Newton (1920 - 2004)


A cama em que agora me deito é outra, pele acolchoada e negra, armação metálica, linhas direitas, quase austera mas larga, confortável. O leito está no meio de uma sala vazia e as janelas estão abertas ao exterior. Por estas janelas abertas entra a luz do dia. Talvez quem, dos outros prédios, se chegue à janela, me consiga ver. Não faz mal. 

Olho-me ao espelho. Esta sou eu. Sensual. Não disfarço. Para quê disfarçar?, esta sou eu. Os meus lábios quase se abrem num breve sorriso. Este é o esboço de sorriso que deixa doidos aqueles que gostam de ser seduzidos. Este é o assomo de malícia que se disfarça de inocência para melhor iludir, para melhor seduzir.

Penso no que Leanor, formosa e segura, disse. Num tempo de cansaço e de tecnologias, num tempo em que todos sabem tudo de todos, mas num tempo em que as pessoas mal se vêem, mal se tocam, vital a linguagem do corpo, a linguagem da sensualidade que brota dos corpos cingidos na relva, à luz e ao calor do sol: transfiguração do medo, na esperança deste tempo.

Assim é. Cingidos umas vezes na relva, outras cingidos numa cama que, aqui no meio desta sala vazia, será um altar, o altar do amor, do desejo, dos prazeres do amor, transfiguremos o medo na esperança destes tempos.

Daqui a pouco vou cobrir-me, vou cobrir-me para que o meu amor me descubra, quero ocultar-me para o ofuscar, como Natália me ensinou num Outubro, quero enleá-lo para melhor o deslumbrar. Jogos de sedução, jogos de amor, premissas de um desejo que se quer demorado, com um final longo como se diz dos vinhos encorpados, sábios.

Junto a mim, outra mulher segura o espelho e poderia, alguém que a visse, inventar histórias. Mas não me importo. Que seja o meu inocente filho, a minha criada de vestir, uma amiga, uma deusa, um ser imaginário que me impele ao sexo e ao amor, tanto faz. Alguém tinha que segurar no espelho. Agora estou apenas a preparar-me, a conhecer-me, a reconhecer-me, enquanto espero. Daqui a pouco, por esta porta entrará o meu amor e eles sairão. Ficarei só eu e ele. Agora estou à sua espera e eu estou calma, descansada, liberta, uma mulher livre que nasceu para viver o amor.

*

Notas 

* Designei as pinturas como 'Vénus ao espelho' mas encontrei também referências com os nomes 'Vénus e o espelho' ou 'Vénus e Cupido' ou outras. 

* A frase 'os homens que me amaram, amaram sempre demais' pertence a um poema de Alice Vieira.

* A Leanor a que me refiro no texto é a Leitora 'Leanor, formosa e segura' que escreve de uma forma que me agrada imenso e que, no outro dia, num comentário no meu Ginjal e Lisboa escreveu aquela frase, tendo-me autorizar a usá-la aqui. A ela os meus muito sinceros agradecimentos.

* A Natália a que me refiro é, obviamente Natália Correia no seu poema 'De amor nada mais me resta que um Outubro'.

* Aos puristas de tudo o que mexe e que apenas conseguem fazer leituras literais, faço um alerta que me pareceria escusado mas que, just in case, aqui fica: o que acima escrevi é ficção e não um registo autobiográfico (não costumo ter ninguém a segurar-me no espelho), ou alguma recensão, apontamento histórico ou o que quer que seja que pretenda ter rigor de qualquer espécie. No entanto, as legendas apresentam o nome correcto dos autores das pinturas e da fotografia e as datas correctas em que viveram (pelo menos assim o espero) - ... e aqui, com vossa licença, para que confirmem que, de facto, me estou a rir, vou ter que incluir um smile (um smile no feminino, é claro). 



Tenham, meus Caros leitores, um belo sábado. Sorriam à vida para que a vida vos sorria a vós.