E não tenho mais nada a dizer do que isto: poupem-me.
E, de caminho, deveriam ter-se também poupado já que o Paulo Macedo, se estou a ver bem a coisa, é uma furada.
Mas, face ao embrulho que arranjaram, a situação de desespero era tão grande que qualquer sonso ungido de má-fama já serve.
Vamos ver no que dá. Mas devo dizer que esta solução me desagrada. Nunca achei que Paulo Macedo fosse grande espingarda como gestor e, para além disso, não gosto dele como pessoa. Sonso demais para o meu gosto.
Não é só o láparo que gosta de dar tiros nos pés. Esta equipa das Finanças também tem dado alguns e o Costa, perante o caldinho armado -- ou melhor, completamente entornado -- perdeu um bocado a margem de manobra e o tempo necessário para arranjar alguém decente que não corressse o risco de ser abatido na primeira hora ou cozido em lume brando pelos PàFs; e deu nisto.
Não gosto e não tenho confiança em Paulo Macedo. A ver se, ao menos, o Costa anda de olho nele para não o deixar pôr o pé em ramo verde já que os maçaricos das Finanças são ingénuos demais para lidar com situações mais rebuscadas.
_________________
Esta notícia do Paulo Macedo na Caixa, apesar de recorrente, parece-me tão estúpida como a não-notícia, também recorrente, da não-candidatura de Santana Lopes à Câmara de Lisboa. A nulidade a inundar os interstícios da vida pública. Só falta mesmo aparecer a notícia bomba de que o Super-Juíz Alex e o inspector Rosy Karamba descobriram finalmente os indícios de que o Sócrates não é mesmo flor que se cheire já que, escutas de anos passadas a pente fino, revelaram que, volta e meia, o perigoso suspeito não lava os dentes antes de ir para a cama.
______
As imagens são provenientes do saudoso Kaos e ilustram quer algumas dangereuses liaisons daquele que parece transportar uma nuvem negra à sua volta, quer a sagrada liaison de Santana Lopes a quem saíu a taluda ao ser nomeado para a Santa Casa.
...............................................
E, para acabar com alguma coisa que valha a pena, uma notícia-notícia:
a confirmação de que afinal as mulheres têm asas.
É vê-las a desfilar ao som de Lady Gaga com Million Reasons no Victoria Secret Fashion Show
___
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito boa.
Como não sei se mais logo ainda consigo cá voltar, aproveito um pequeno intervalo para aqui vir estar um pouco convosco. Gostava de ser capaz de fazer balanços mas não sou ou, pelo menos, não sou capaz de os fazer bem feitos. Já basta ter que os fazer a nível profissional, que os faço à força, tendo que puxar pela cabeça, pensando no que aconteceu de mais relevante. Um sacrifício, isso. Para mim o mais importante é ter chegado aqui, hoje, e ter vontade de viver os dias que se seguem. E, sobretudo, saber que os que mais amo estão bem, felizes.
Contudo, se -- tirando aspectos mais reservados ou que envolvam outras pessoas -- tentar perceber o que mais me marcou, assim sem pensar muito, diria que me marcou um bocado esta constatação da fragilidade e, ao mesmo tempo, da resistência da vida. Pelos menos, por umas duas vezes, temi o pior em relação aos meus pais (e falo nisto agora porque já antes o falei). E, nessas duas vezes, felizmente, a turbulência foi ultrapassada. Mas ninguém é eterno. E tudo é muito relativo, o medo, a coragem, o orgulho, a alegria, a dor. Pode ser sempre em maior escala, pode desaparecer, pode ressurgir.
O meu pai tinha uma vida saudável, era um homem enérgico, com uma vida activa, o mais independente possível e agora está dependente, à mercê do efeito dos medicamentos que ora o deixam prostrado, sonolento, ora nervoso, inquieto, e, de vez em quando, tranquilo, normal. A minha mãe, que, desde então, tem sido o pilar daquela casa, com uma resistência, energia e alegria incríveis, afinal tinha, sem que o suspeitasse, um conjunto de células a desenvolverem-se desordenadamente, temendo nós que viesse por aí o pior, para ela, para o meu pai. E, quase milagrosamente, ultrapassou tudo sem grande dificuldade e está bem.
Portanto, se a vida é frágil, é também inacreditavelmente forte. Nem sempre isso acontece mas, tantas vezes, me tenho admirado com a forma como o corpo humano parece dar a volta por cima. E a nível emocional a mesma coisa: frágil pode ser, por vezes, a mente mas, logo a seguir, como ela é capaz de se reorganizar, reerguer e seguir em frente... E isto, para mim, este mistério da vida, foi este ano muito marcante para mim e acho que sempre o será enquanto eu viver.
Por esta altura recebo visitas, telefonemas. Contam-me o que aconteceu com este, com aquele. Vão desaparecendo uns, vão nascendo outros. Um tem um filho problemático, problemas graves, outro vai ser avô, outro o filho arranjou emprego, outro o sobrinho foi para a ásia. Por vezes sinto que parece que estou, sossegada, no centro de uma roda que gira em minha volta.
No outro dia recebi um mail que começava assim Minha muito Estimada Amiga. Era um velho amigo, um Senhor, uma das pessoas extraordinárias que tenho conhecido ao longo da minha vida, agora já com uns belos setenta anos, reformado, alto e formoso na sua bela barba branca. Contava-me que tinha arrumado as pantufas, que o remanso não é para ele, e dizia que ia contar-me um segredo (descobrir o véu, dizia ele); um projecto que muito o andava a entusiasmar. Tinha tido uma ideia, a ideia foi ganhando asas, foi propor um projecto baseado nessa ideia ao Instituto Politécnico mais próximo do casarão de família onde agora passa grande parte do tempo, o Instituto gostou da ideia, vai basear nela uma cadeira-projecto no próximo ano lectivo, daí talvez partir para uma instalação piloto. Todo ele fervilhava na escrita. Já trocámos mais mails depois disto pois fiquei surpreendida com a inovação e oportunidade da ideia e com a criatividade e energia daquele homem. E eu fico comovida com a estima que pessoas que tanto admiro sentem por mim. Quando penso em momentos marcantes num ano que finda, ocorrem-me coisas assim.
Ocorrem-me também momentos que me aborreceram, coisas da fraca política nacional, consequência da falta de qualidade de tanta gente que ocupa cargos em que podem influir negativamente na vida das pessoa. Ocorre-me também, com agastura, a manipulação da opinião pública, a cada vez mais medíocre informação, a tendência para encharcarem as televisões de comentadores sem qualidade, sem relevância, sem cultura, que intoxicam a cabeça de quem os ouve.
E ocorre-me, de forma muito presente, o drama das guerras que o ocidente fomentou (e fomenta) e que têm feito germinar o pesadelo do terrorismo e provocado o êxodo brutal das populações atingidas. A infelicidade e a coragem dos que fogem da morte toca-me: ver aquela gente a atravessar o mar, em pequenas embarcações, com crianças, a chegarem com frio, fome, sede ou dando à costa como inúteis despojos, ou os que andam de noite pelas estradas, saltando vedações ou vivendo em campos de refugiados, é uma dor para a qual não conheço antídoto.
Outra coisa que me preocupa é o estado de apatia e indigência anímica ou cultural ou nem sei o quê a que se chegou nos mais importantes organismos de condução da Europa. Pode acontecer de tudo que aqueles enfatuados burocratas, aquela babilónia de interesses contraditórios que nenhuma liderança conduz, não se mexe. Reuniões, cimeiras, encenações de apertos de mão, de gestão de agendas, de fotografias da praxe, tudo isso existe com fartura - visão estratégica, firmeza, humanismo, isso está quieto, isso perde-se no meio daqueles corredores e salões onde tudo se passa e nada acontece.
Claro que me anima a perspectiva de que um ciclo se está a encerrar e um novo a surgir. A austeridade desbragada que açoitou as populações para que uns quantos pudessem sobreviver incólumes talvez tenha os seus dias contados, especialmente enquanto linha ideológica dominante. Por cá e talvez um pouco pelos países europeus que mais sofrerem na pele as agruras dessa estupidez travestida de moral e de pensamento económico, começa a ensaiar-se uma nova forma de estar e eu espero que vingue e prove ser uma boa alternativa.
Espero também que, como consequência, os países como Portugal possam voltar a ser a casa dos que cá nasceram e que, fruto do desprezo com que foram rejeitados, se viram na contingência de ter que sair. Viver noutro país e experimentar novas culturas é bom e profícuo mas que isso seja uma escolha e não uma fatalidade.
Neste ano que hoje acaba li livros muito bons, ouvi música muito boa, vi exposições, filmes, bailados, fotografias, esculturas e paisagens que me encantaram mas não tenho ideia que tivesse sido diferente dos outros anos. A arte é intemporal e a natureza também. Reinventam-se a cada dia e nós reinventamo-nos com o seu contacto.
Escrevi muito aqui, as palavras escorrem-me de entre os dedos, os textos ficam sempre longos demais. Mas escrevo com prazer e gosto de saber que aí desse lado estão vocês, os que gostam de ler o que escrevo. Mesmo quando me dirigem palavras mais ásperas, gosto na mesma, dá-me vontade de responder, de provocar, divirto-me com isso. Sou talvez excessiva na forma como me expresso, no entusiasmo com que digo. Concordo que há aqui abundância. Se, ao vivo, não sou barulhenta ou espalhafatosa, aqui talvez passe essa ideia tal a profusão de palavras, de textos, de imagens, de tudo. Mas não tenho tempo para me domar enquanto escrevo nem, depois de escrever, para burilar a escrita, fica tal e qual sai. Provavelmente isto seja eu em estado bruto. Apesar disso, tomara que continuem a gostar da minha companhia.
Finalmente, não queria acabar este post sem falar sobre o indizível. Em momentos de mistério, intangíveis e belos na sua inexplicação, reside grande parte da beleza da vida. São acasos, são instantes em que o fôlego se esvai, são emoções intraduzíveis em palavras, breves sopros de felicidade, como se o mundo todo convergisse para trazer até nós a alegria de um instante. Deles não sei dizer mais que isto. Mas sei que há que estar atento e disponível para que nos possamos surpreender e deleitar com o imaterial milagre que, de vez em quando, pousa à nossa frente, pronto para ser tomado nas mãos, guardado no coração.
Se em 2016 eu continuar a ter razão para pensar assim já acharei que continuo a ser abençoada.
Se alguém que aqui me lê pensar o mesmo, já me darei por feliz.
E se houver um pouco mais de paz, se houver um pouco mais de tolerância e generosidade, se houver um pouco mais de humanismo, um pouco mais de sinceridade e de dádiva, acharei que estamos no bom caminho.
E se vocês, meus Caros Leitores, tiverem saúde, sorte, alegria, afecto, motivação para ir em frente e para sair por aí procurando a beleza e o que há de novo, e sentirem que são úteis e que fazem parte da vida de alguém que vos ama, então terão certamente um excelente 2016.
Ao despedir-me de 2015, é isso que, do fundo do coração, vos desejo.
....
Acabei de receber por mail, juntamente com os votos de um bom ano novo, uma música assim apresentada:
Sugestão musical para abrir o ano em beleza. Uma música que chegou no Outono de 2015. O kora de Ballaké Sissoko e o violino de Vincent Segal.
Com todo o gosto, a partilho convosco
...
As fotografias são de Alexander Yakovlev. Lá em cima Bob Marley canta Somewhere over the Rainbow. Aqui acima Ballake Sissoko & Vincent Segal interpretam Niandou.
O mais crescido estava a tomar banho mas dizia que a água estava fria, não queria lavar o corpo todo. Achando que era desculpa, fui lá e chuveirei-o e ensaboei-o todo mas, às tantas, achei que a água estava mesmo fria demais. Então fui ver o que se passava, enquanto a minha filha, apressadamente, acabava o banho e o punha no quarto ao lado para ele se secar e vestir, indo de seguida para a casa de banho para despachar um banho apressado ao mais novo.
Nisto, estando eu na cozinha, reparo que ela já tinha feito umas espetadinhas de tomate cherry com mozzarela fresca e de lá, alto, perguntei-lhe: 'Olha lá! Lavaste bem os tomatinhos?'
Responde-me o mais crescido, do quarto: 'Claro!'
E ela, toda censora, da casa de banho: 'Oh mãe... por favor!'
Escuso de dizer que desatei a rir de tal forma que não conseguia falar, queria dizer que me referia aos tomatinhos cherry mas qual quê...?
___
À noite, na passagem de ano, quando nos aperaltámos para ir para a rua, tudo de gorros, casacões, vestidos como se fossemos para o pólo norte, resolvemos que o momento deveria ficar registado. No meio da confusão que é sempre tirar uma fotografia de grupo, eu que estava encostada às costas do sofá que está a meio da sala em frente à lareira, abraçada a um e a puxar por outro que se queria escapulir, nem dei por que o sofá estava a deslizar e por pouco não fui parar ao meio do chão com as crianças por cima. O meu marido registou o momento, eu numa diagonal acentuada, perigosa, encasacada e de chapéu, com as crianças meio caídas em cima, cheias de casacos e cachecóis, e, como de costume, perdida de riso.
A minha filha disse: 'O pai, em vez de ir agarrar a mãe, deixa-se estar tranquilamente a registar o momento...' o que foi um facto mas a verdade é que, se o não tivesse feito, eu agora não podia continuar a rir a ver as fotografias daquele momento de confusão.
Gostava de vos poder mostrar a macacada que ali esteve armada mas, paciência, fica para outro dia.
___
De resto, o almoço de Ano Novo correu bem, mas as crianças, talvez ainda na ressaca da agitação da véspera, às tantas, irrequietas, já só queriam era levantar-se da mesa para irem brincar, e o bebé está constipado e estava meio rabugento, sem querer banquetear-se (e logo ele que, usualmente, come como um pequeno alarve). Mas foi bom na mesma, um belo almoço em família.
A seguir, deslocámo-nos todos para a zona da sala onde o sol bate generosamente e o calorzinho é bom.
Estiveram a brincar, o mais crescido a querer jogar xadrez com o tio mas os outros não paravam sossegados, só a derrubarem as peças - até que eles desistiram. Depois os três rapazes estiveram a brincar com as suas coisas e a bonequinha mais linda entreteve-se a fazer desenhos e a escrever, coisa que gosta muito de fazer.
A seguir, antes que o sol batesse em retirada, fomos para a rua e todos brincaram, correram, saltaram, treparam a uma árvore enorme, jogaram às escondidas. Ao bebé parece que lhe passou a má disposição e voltou à sua forma habitual: brincou, fez cenas, fez-se ao boneco.
O pândego do costume. Um solzinho ameno, um céu limpo, todos felizes, em harmonia.
Há bocado recebi uma mensagem de uma das minhas primas, uma que vive em Coimbra e que, tendo uma menina pré-adolescente, mudou de companheiro, arranjou um outro que já tinha três filhos e que vivem com ele(s) e, para a festa ser a preceito, aos quarenta e tal, engravidou e tem agora uma nova menina que é praticamente da idade deste nosso bebé. Para além disso, têm três gatos e agora também um cão. Ou seja, um permanente arraial. Vivem numa moradia que tem um jardim que, assume ela, é uma autêntica selva, mas que isso não é coisa que lhes tire o sono já que, pura e simplesmente, não têm tempo para cuidar dele.
Desejava-me ela e passo a transcrever: 'Um óptimo 2015 cheio de saúde, optimismo, tranquilidade e muita paciência para superar as coisas menos boas.' Gostei de ler isto até porque ela perdeu os pais no espaço de pouco tempo (os meus queridos tios de quem já aqui falei cheia de tristeza e saudade) e, apesar de tantas contrariedades, vai levando a sua vida sempre com uma alegria e tranquilidade surpreendentes. Há uma harmonia dentro dela que explica a capacidade que tem de se manter sempre optimista.
Mas, voltando aos meus fofos pimentinhas a brincarem ao sol.
Uma senhora que estava perto de nós a ler um livro ao sol, acabou por se afastar e ir tentar ler o livro para mais longe. Fiquei a pensar que o que para mim era a felicidade de nos ver a todos, unidos, vendo as crianças a crescerem juntas, bem dispostas, brincalhonas, para aquela senhora não passava, com certeza de uma maçada, a maçada da situação de uma família ruidosa ali por perto, a impedi-la de se concentrar na sua leitura. Assim é a vida. Interesses e motivações contrárias tendo que partilhar o mesmo espaço. Ou nem isso, talvez apenas circunstâncias díspares que acabam por levar as pessoas para mundos diferentes.
Quando regressámos a casa, já as crianças começavam a dar mostras de algum sono e já estava a escurecer. Parte do grupo foi à sua vida e outra parte veio para cá. Lanche, filme, pequena sesta, o bom aconchego familiar. Passava das 8 da noite quando a casa ficou silenciosa.
Da parte que me toca, não poderia querer um melhor começo de ano.
Nunca me senti atraída por réveillons em hotéis ou restaurante ou coisas do género. Até não há muito tempo, o nosso grupo de família alargada rodava entre si a casa onde se fazia a passagem de ano. Era um grupo enorme e muito divertido. Mas depois, há algum tempo (e naquela altura em que se diz que os homens já deviam 'ter idade para ter juízo' mas parece que viram adolescentes, com paixões arrebatadas) aconteceram divórcios que introduziram alguma perturbação, até porque o membro que mais animava a festa foi um dos que se separou e já não dava para manter a ex juntamente com a que veio a seguir. E aconteceu, também por essa altura, os filhos adolescentes começarem a ir um para aqui, outro para ali, e era difícil conjugar os programas dos pais que não queriam afastar-se muito dos filhos. A coisa foi-se circunscrevendo mas uma coisa tem sido uma constante: estar junto dos meus filhos no dia de Ano Novo. A família cresceu e já não são apenas eles e, portanto, a animação é agora ainda maior e, confesso, mais feliz.
Contudo, dizendo isto, penso nos que não têm família ou amigos ou os que os têm num número mais restrito. E fico até um pouco sem jeito, com receio que, por contraste, se sintam mais sós. Mas, como tão bem aqui se lê, saibam que não são os únicos. Há tantas pessoas nessas circunstâncias, que não faz sentido que alguém se sinta particularmente desolado por isso (e isto já para não falar nos que estão sozinhos por pura opção ou nos que, estando ou não sozinhos, não são dados a folguedos - e estou a lembrar-me de um amigo meu que sempre fez questão de passar o ano a dormir porque acha uma palhaçada os festins para celebrar uma coisa que, segundo ele, não tem nada que celebrar).
E se descrevo a minha vivência é não apenas porque gosto, fica um pouco da minha vida aqui registada, mas também porque, justamente, alguns dos Leitores ou Leitoras com menos família e que, nestas ocasiões, pouca vontade têm de festejar, me dizem que gostam de ler e ver o que são estes meus dias em família pois é quase como se já sentissem que eu sou a família que não têm. E eu, muito sinceramente, não lhes quero faltar.
___
Há pouco, ao ligarmos a televisão, apareceu-nos um senhor com ar de estar mais para lá do que para cá a dizer coisas, sentado ao lado de uma mesa onde uma moldura tinha ali pegado de estaca. O meu marido fez um zapping a todo o vapor que era o que lhe faltava entrar o ano a aturar aquela múmia quase paralítica.
Passado um bocado, noutro zapping, estava outro mal encarado a falar, um de farta cabeleira grisalha de quem eu, até há algum tempo atrás, achava que tinha um certo charme mas a quem agora acho que não passa de um fala barato com ar de quem nunca dorme o suficiente. Falava sobre a conversa do primeiro (digo eu; mas, às tantas, ainda estava era a falar sobre os submarinos que parece que foram abordados no discurso do chefe) e o meu marido praguejou e rapidamente mandou-o também às urtigas. Por isso, não sei de nada desses assuntos que dizem respeito a senhores requentados. Este ano de 2015 tem que ser bom e, para começar, já estamos a ser mais selectivos: nada de ervas daninhas, lesmas, papagaios, láparos, múmias.
____
E que entre a música:
Imagine - Playing for Change
---
E ando com uma vontade de dançar, rir e estar na boa que só visto.
Nazareth pelo Grupo Corpo Companhia de Dança
(Coreografia de Rodrigo Pederneiras. Música de José Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth)
Uma alegria!
____
Permitam que me repita: tem que ser um grande ano, este 2015.
Já cá tivemos em casa o réveillon, jantar à luz das velas, petiscos, animação, já fomos para a rua ouvir e ver de perto o concerto e os meninos andaram a desejar Feliz Ano Novo a toda a gente com quem se cruzavam, já vimos o fogo de artifício (de que aqui vos mostro algumas das fotografias que fiz apesar de não terem ficado famosas), e, de volta a casa, brindámos ao ano novo e comemos as uvas e as passas e batemos tampas de panelas às janelas e segurámos moedas e até nos pusemos em cima de cadeiras.
Estou a falar no plural mas, bem entendido, houve quem não alinhasse nessa palhaçada e se mantivesse de pés em terra, sobriamente com o copo na mão. Mas eu não quero saber. Se me dizem que dá sorte e se não me parece coisa demasiado parva, eu faço. Este ano ouvi dizer que é bom começar o ano ao pé coxinho em cima da perna direita. Isso já me parece demais e claro que não o fiz. Agora o resto parece-me plausível e não estupidamente ridículo (enfim, só um bocadinho... mas desde que não me fotografem a fazer figuras, tudo bem).
E agora, duas e tal da manhã, todos os rituais cumpridos e depois do bailarico - porque também houve dança! - e com o pessoal que acampa cá em casa já devidamente adormecido ou em vias disso, venho aqui para vos desejar a vós um belo ano.
Só pode ser melhor do que o malfadado 2014, e tem todas as condições para o ser - assim não vacilemos na hora de tomarmos decisões.
Claro que há coisas que não dependem da nossa vontade como é o caso da saúde ou poucas sortes do caraças como aquele trambolhão que dei no outro dia e do qual ainda não estou completamente refeita mas, enfim, para isso é que eu desejo sorte. Sorte para que a saúde não nos falte a todos, sorte para que não soframos acidentes, percalços, maçadas.
E, quanto ao resto, haja alegria, crença, esperança, energia e determinação que haveremos de nos safar. (Andei às voltas com a palavra safar que me parece prosaica demais mas não me ocorre outra - deve ser do avançado da hora pois não pode deixar de haver um sinónimo decente para esta palavra)
Gostava de ser capaz de dizer coisas mais profundas ou de ser capaz de me lembrar de algum livro de onde tirar palavras inspiradas que fizessem mais sentido neste momento mas a verdade é que estou com muito sono (para variar...) e daqui a nada já sei como é, começa o pessoal a levantar-se e a cirandar pela casa e, para além do mais, tenho o almoço de Ano Novo para fazer e este pessoal é gente de muito alimento, não posso vacilar nem atrasar-me.
Por isso, meus Caros Amigos, desculpando-me por não ter tempo de responder individualmente aos mails e comentários, alguns com simpatiquíssimos presentes, e, por isso, agradecendo assim, de forma colectiva, fico-me por aqui, retribuindo os votos de bom ano.
Feliz Ano Novo! Tudo de bom para vocês, Caros Leitores de Um Jeito Manso, neste 2015 que promete ser um belo ano!
E alegrai-vos, alegrai-vos!
"Exsultate, jubilate" de Mozart interpretado por Julia Lezhneva
....
E, acabadinha de receber da Margarida - e da autoria de uma outra Margarida, a Margarida Ferra, via Expresso - e ainda quentinha de afecto, poesia com asas : Escreve sempre que precisares. Escreve sempre que precisares de me dizer que há gelo nas tuas mãos
...
Que as palavras nunca nos faltem nem a coragem de as usar.
No post abaixo falei ao de leve naquilo sobre o qual não queria debruçar-me: o BES. A televisão estava a transmitir as gravações do Conselho Superior do GES e, sem querer, dei por mim a ouvir parte da conversa entre aquelas vozes nuas, geladas de angústia. E, mais do que atentar na aflição que transparecia, senti vergonha por estar a ouvir conversas que deveriam ter permanecido reservadas. Quem pegou nas gravações e as ofereceu ou vendeu portou-se como um traidor e isso eu acho uma imperdoável baixeza moral, lama que parece alastrar sobre a frágil sociedade portuguesa.
Mas, enfim, disso falo no post seguinte.
Aqui, agora, a conversa é outra.
Vamos com música, se estiverem de acordo.
E que prossigam os momentos de beleza porque, apesar da compaixão que me merecem os que sofrem e aqueles que vêem sofrem pelos que amam, o ano não pode resumir-se aos que sucumbiram às garras da má sorte, aos que se viram destroçados ou aprisionados, aos que pereceram numa maca de um hospital sobrelotado como cães abandonados numa qualquer escura vereda, ou às estatísticas dos que morreram na estrada, ou aos que, em geral morreram em 2014 (por muita falta que todos os que partiram façam aos que ficaram), nem às falências, às guerras, conflitos, catástrofes naturais, forces majeures, acts of god.
No outro dia ouvi o director do DN, o respeitável André Macedo, a dizer que nesta altura do ano não há notícias pelo que as más notícias são boas notícias para os meios de comunicação social. E, de facto, por esta altura parece que, para consolo dos jornalistas, uma qualquer força centrípeta afasta da superfície da terra aviões e navios que desaparecem ou se incendeiam, ou tsunamis, tremores de terra, vagas de frio, cheias que tudo arrastam, coisas que devoram vidas sem dó nem piedade.
Mas se disso se ocupam ad nauseam os noticiários, não preciso de trazer esses temas para aqui. Não eu.
É que há o que não é notícia.
O que é belo não é notícia. As palavras cuidadosamente cerzidas na intimidade da noite ou ditadas por insones deuses, os acordes experimentados no silêncio dos sonhos, os gestos transformados em cor, os sorrisos e os movimentos fixados em imagens como se o tempo parasse para eternizar o momento, a liberdade dos corpos enquanto anjos de longas e esguias asas, as luminosas descobertas alcançadas depois de horas de intermináveis insucessos, as vozes que atravessam os imensos espaços com a intemporal poesia - nada disso é notícia ou, se o é, dirige-se a minorias. E, no entanto, nisso deveria estar a tónica, nisso e não no fracasso, nos aparentes e efémeros sucessos, na malvadez emergente, na doença sem dono, na morte, no fim da linha.
Tantas vezes aqui tenho vontade de me atirar aos chacais que invadem as ruas, às hienas que riem rodeadas de carniça, aos papagaios que repetem mentiras e ampliam perfídias. Muitas vezes cedo e nisso me desgasto como se das minhas denúncias e revoltas pudesse resultar alguma clarificação. Mas, quando me detenho, acho inútil. Pior: acho que faço mal. Melhor fora que desprezasse os que vivem do lado nefasto da vida e me entregasse ao louvor do que é belo e bom.
E me deixasse estar a escrever. Ou a transcrever as palavras lisas como elegantes linhas. Assim, por exemplo:
Escrevo como se corresse num jardim, ou num deserto iluminado de areias ____
____ escrevo para que o romance não morra. Escrevo, para que continue, mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma, mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele, mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos, mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear
Sento-me num tronco nos limites da clareira, fechando os meus olhos fitos no seu centro, deixando que tudo corra, mesmo na sua imobilidade. E dou-me conta de que corre uma aragem pelas árvores da clareira, tal como um murmúrio, que me suscita a palavra murmuragem. A murmuragem das copas das árvores, como digo a murmuragem que sou.
o encontro inesperado do diverso
é assistir ao belo a comunicar com o silêncio;
a fraccionar a imagem nas suas diversas formas;
ajudá-las a levantar o véu para que se mostrem mutuamente
na beleza própria
era uma noite no meio da lavoura e da tarde amorosa como um punho fechado amena como um estudo de noite. era uma correnteza de aves fundas a constituir família.
a palavra era branca como só o branco
e o molde dos insectos era branco como ela
o sangue no tear era branco como ela
o pão escuro o homem pela sombra
era branco como ela.
ela e ele brancos como só a palavra.
E tanta a beleza quando os corpos se entregam ao voo e ao aconchego do corpo do outro.
___
E tanta a beleza quando as palavras nos chegam dirigidas a nós e nós, de coração, as entregamos àqueles que tão generosamente nos visitam.
____
- A música no início era Anna Prohaska interpretando 'Der Vollmond strahlt auf Bergeshöhn' (de 'Rosamunde', Franz Schubert), com Eric Schneider no piano
- As fotografias retratam a beleza quase irreal de plantações de arroz e foram obtidas aqui.
- O primeiro conjunto de poemas/palavras em itálico pertence a Maria Gabriela Llansol e foram extraídos do belo livro 'O encontro inesperado do diverso' com Ilda David e Duarte Belo
- O segundo conjunto de poemas (2) pertence a 'Marsupial', um livro de Catarina Nunes de Almeida
- A pintura é de Caravaggio (1602): ASagrada Família com S. João Baptista
- O bailado mostra Polina Semionova e Vladimir Malakhov em CARAVAGGIO numa coreografia de Mauro Bigonzetti ao som de Prayer Of The Heart de John Tavener numa interpretação de Bjork.
- Os poemas ditos pelo talentoso Benedict Cumberbatch, senhor de uma voz maravilhosa, são Words for You:
1. The Seven Ages Of Man (também conhecido por The World's A Stage) da peça As You Like It de William Shakespeare
2. Jabberwocky de Lewis Carroll
3. Divine Comedy de Dante Alighieri
4. Ode To A Nightingale de John Keats
5. Kubla Khan de Samuel Taylor Coleridge
_____
Permitam que relembre: sobre as gravações dos membros da família Espírito Santo e sobre a decadência moral mais do que financeira que rodeia tudo isto, falo no post já a seguir a este.
_____
E o que vos desejo, meus queridos Leitores, é o mesmo que desejo para mim e para os meus: que 2015 nos deixe crescer, nos deixe ter esperança, nos dê razões para nos sentirmos felizes e que nos deixe espaço para apreciarmos toda a beleza que nos rodeia.
E, claro está, também saúde, sorte e desafogo financeiro.
E afecto seja lá de que forma for e venha ele de onde vier.