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segunda-feira, março 27, 2017

A formiga no carreiro e as redes neuronais
[Ou quando les beaux esprits se rencontrent]


Na sequência de alguns textos sobre os riscos da inteligência artificial (IA) num contexto desregulado e no seio de uma sociedade globalmente alheada destes temas (por exemplo, este post), dois Leitores contribuíram com o seu testemunho em comentários tão interessantes que, na altura, tomei a liberdade de puxar para o corpo principal do Um Jeito Manso (aqui e aqui).


Duas visões distintas: de um lado, o João L. que advoga o primado da inteligência da natureza e a certeza da impossibilidade de copiar ou ultrapassar a infinitude que habita o cérebro humano e, do outro, o Fernando Ribeiro, que nos traz a visão da engenharia que se abisma perante a capacidade quase imparável da tecnologia.


Porque a troca de argumentos continuou nos comentários e porque me parece impossível não dar o máximo relevo a esta troca de ideias, de novo puxo para um post autónomo a opinião de ambos. É um prazer quando les beaux esprits se rencontrent. 

Ilustro com fotografias feitas este sábado in heaven. 
[Não sei se a beleza, a fragilidade, a (im)perfeição da natureza pode algum dia ser suplantada por criações by IA.  Mas talvez isso, um dia, também deixe de ser relevante.]



João L. disse...

Também acho UJM: " os robots estão aí num mundo desregulado e o que não vai faltar é quem os use contra o interesse da humanidade". E o que acho mais preocupante é que os robots, ao contrário dos humanos (da maioria deles!!!), não têm dúvidas. Ou, para para dizer isto de outra maneira, de uma maneira que, em minha opinião, mostra o que separa a inteligência artificial de um cérebro: os robots não se baldam e em vez de ir trabalhar vão dar uma volta, ou às compras, ou andar de bicicleta com um sorriso nos lábios a pensar: "ai que prazer não cumprir um dever". Nós somos "imperfeitos", os robots não. 


Fernando Ribeiro disse...

Relativamente à valiosa contribuição do seu leitor João L, tenho algumas considerações a fazer, do ponto de vista de um simples curioso, que é o que eu sou.

Ao longo dos anos, tem-se chamado "inteligência artificial" ao que não é, de maneira nenhuma, verdadeira inteligência artificial, mas sim um simulacro ou, chamando os bois pelos nomes, uma fraude. Uma fraude! O facto de um computador ser capaz de ganhar uma partida de xadrez ao Kasparov não faz do computador uma entidade minimamente inteligente. Quando muito, poderemos chamar inteligentes às pessoas que conceberam o programa de xadrez que o computador executou. Também é verdade que nenhum cérebro (humano) consegue perceber o que o próprio cérebro (humano) faz, mas têm-se feito significativos avanços nesse sentido, com a ajuda, inclusive, das redes neuronais artificiais (computacionais).

O leitor João L tem razão quanto ao facto de o número de neurónios e de sinapses existente num cérebro humano ser verdadeiramente astronómico. É verdadeiramente ASTRONÓMICO, sim, senhor. Contudo, a inteligência artificial tem uma vantagem sobre a verdadeira inteligência (orgânica), e esta vantagem chama-se velocidade de processamento.

Um neurónio é uma célula de um tipo especial, que tem por finalidade transmitir e processar informação, desde as terminações nervosas existentes nos órgãos sensoriais até ao sistema nervoso central, dentro deste mesmo sistema nervoso central e deste até às terminações neuromusculares. Um neurónio é composto por três partes, a saber: corpo celular, axónio e dendrites. O corpo celular ou soma tem sobretudo por finalidade manter o neurónio vivo e saudável; é onde se encontra o núcleo da célula, isto é, do neurónio. O axónio é uma fibra muito comprida que tem em vista transmitir a informação de um extremo do neurónio para o outro, fazendo-a avançar no espaço; um feixe de axónios é o que constitui um nervo. As dendrites contêm as sinapses, que são os pontos em que um neurónio comunica com os neurónios vizinhos, passando para estes ou recebendo destes a informação a tratar; existem dendrites em volta do corpo celular de um neurónio e no extremo oposto do seu axónio.

A informação entre neurónios faz-se, como já disse, através das sinapses, que quase sempre comunicam entre si pela libertação de compostos químicos, chamados mediadores. Esta comunicação não é elétrica, mas sim química. Nos axónios, a informação consiste em impulsos do campo elétrico que se vão propagando de um extremo ao outro dos mesmos; esta propagação do campo elétrico obriga a uma polarização elétrica das paredes do axónio e obriga a uma subsequente despolarização, depois de um impulso passar; enquanto uma despolarização não se completar, um axónio fica incapaz de transmitir nova informação.

Dadas as limitações apontadas, a velocidade de transmissão e de processamento de informação num sistema nervoso como o humano (incluindo dentro do próprio cérebro) é lentíssima. Ela é inferior a 1 m/s (360 km/h), quando os axónios não estão envolvidos por uma bainha de mielina, e da ordem de 2 m/s (720 km/h), quando os axónios estão envolvidos por mielina.

Os computadores são dispositivos eletrónicos em que a velocidade de propagação da informação é muito próxima da velocidade da luz, cerca de 300.000 km/s. É claro que a velocidade de processamento de um computador não é esta, nem pouco mais ou menos. Mas qualquer processador moderno é regulado por um "relógio" que vibra a muito mais do que mil milhões de vezes por segundo, ou seja 1 GHz (1 gigahertz). Qualquer smartphone, por mais barato que seja, tem um "relógio" de 1,2 GHz ou mesmo de 1,4 GHz. Quer tudo isto dizer que o mais banal e mais barato smartphone do mercado tem uma velocidade de processamento que é muitas ordens de grandeza superior à do cérebro do seu proprietário!

Bom, vamos abreviar, que isto está a ficar um relambório que nunca mais acaba e eu tenho mais que fazer. Dada a sua enorme vantagem em termos de velocidade (e ainda não usamos a fotónica em vez da eletrónica, mas pouco falta) uma rede neuronal artificial poderá não precisar de ter um número tão grande de "neurónios" e de "sinapses" como um cérebro humano, para poder ter uma capacidade de processamento equivalente, bastando usar uma e outra vez os mesmos "neurónios" e as mesmas "sinapses" (mas com "pesos" diferentes de cada vez, claro). Tudo dependerá do uso que se lhes der, isto é, do software. É claro que existe ainda um longuíssimo caminho a percorrer e muitíssimos anos a decorrer até que se consiga (espero que não) uma inteligência artificial que se possa comparar à inteligência real. Seja como for, têm sido feitos avanços muito significativos nesse sentido. Há alguns anos fiquei assustadíssimo quando alguém disse que tinha construído uma rede neuronal tão inteligente como um caracol. Sinceramente, não acredito que a tenha construído, mas se continuarmos assim, ela vai ser construída com certeza. E a seguir à inteligência do caracol, virá o quê?


João L. disse...

(com as devidas desculpas a UJM pelo abuso)

Caro Fernando Ribeiro, já vi que tenho aqui companheiro para umas belas discussões mas, sem querer abusar da hospitalidade da UJM, deixo-lhe esta provocação: a complexidade num ninho de (lentas) formigas é bem maior que numa corrida de (rápidos) carros de fórmula 1. São as interacções e a regulação que alavancam (para usar uma palavra da moda) a complexidade.


Fernando Ribeiro disse...

Caro João L., não me deixa provocação nenhuma, porque estou totalmente de acordo. São precisamente as interações e a regulação existentes nas redes neuronais computacionais que lhes dão o seu poder, incluindo o poder de aprenderem, a partir, está claro, de um certo "conhecimento" inicial que lhes é dado. Os exemplos fornecidos dos carros que já circulam sozinhos (experimentalmente, por enquanto) em algumas cidades dos Estados Unidos, ou do reconhecimento de padrões em imagens que a Google e o Facebook estão a desenvolver com resultados que já são extraordinários, são uma demonstração do que pode vir aí. A velocidade dos circuitos eletrónicos (e dos circuitos fotónicos num futuro próximo) pode permitir ultrapassar as limitações que tais redes não podem deixar de ter, através da reafetação dos seus recursos uma e outra vez, para uma e outra tarefa, a uma velocidade alucinante. Note-se que estamos a falar de redes neuronais, que já têm milhares e milhares de núcleos e um número incomparavelmente maior de interligações, mas que mesmo assim são infinitamente menos poderosas do que o cérebro. Já não são para aqui chamados os computadores que têm uma arquitetura tradicional, dita de von Neumann, com um processador central, bancos de memória e periféricos à volta. O computador que estou a usar neste momento já é pré-histórico.


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E, uma vez mais, agradeço ao João e ao Fernando o seu precioso contributo para uma reflexão que acho indispensável e urgente.

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Nem de propósito o artigo de destaque da Vanity Fair de hoje:

ELON MUSK’S BILLION-DOLLAR CRUSADE TO STOP THE A.I. APOCALYPSE


Elon Musk is famous for his futuristic gambles, but Silicon Valley’s latest rush to embrace artificial intelligence scares him. And he thinks you should be frightened too. Inside his efforts to influence the rapidly advancing field and its proponents, and to save humanity from machine-learning overlords




domingo, março 12, 2017

O que é que deve, verdadeiramente, causar-nos calafrios?



Do Leitor Fernando Ribeiro com quem sempre aprendo e, por sinal, autor de um blog que acompanho sempre com agrado e surpresa, A Matéria do Tempo, a propósito do meu post de ontem sobre a tecnologia quântica posta ao serviço da inteligência artificial num contexto permissivo e completamente desregulado, escreveu um comentário que é de tal forma interessante que eu, receando que possa passar despercebido, tomo a liberdade de o puxar para um post autónomo.

A vossa atenção, por favor:


Uma pergunta que faz calafrios: o que seria da humanidade se Hitler tivesse acesso às tecnologias do tempo presente? Uma pergunta que faz MUITO MAIS calafrios: sendo certo que Donald Trump não passa de um pateta alegre nas mãos de indivíduos muito mais perigosos do que ele, o que será da humanidade com o acesso que estes indivíduos têm às tecnologias do tempo presente?

Minha cara amiga, não se preocupe (muito) com a Internet das Coisas. Para já, pelo menos, ninguém vai querer um microondas com ligação à Internet, embora a IoT vá muitíssimo mais longe do que apenas permitir que os fornos de microondas ou os frigoríficos tenham acesso à Internet.

Não se preocupe (muito), igualmente, com a computação quântica. Os fenómenos quânticos ultrapassam a nossa compreensão, é verdade que sim, mas desde que se inventou a Eletrónica, há mais de cem anos, não se tem feito outra coisa que não seja explorar as possibilidades que a Física Quântica nos oferece.

PREOCUPE-SE (isso sim!) com a Inteligência Artificial, sobretudo com as possibilidades oferecidas pelas chamadas redes neuronais. 


As redes neuronais são redes de processadores ("neurónios") que estão ligados entre si através de conexões ponderadas ("sinapses") e que procuram imitar o funcionamento de um cérebro. Os processadores das redes neuronais são muito simples; por si sós não representam qualquer perigo, mas eles podem ser muitíssimos. As sinapses ligando dois processadores também são simples; não passam de ligações, às quais são atribuídos "pesos" com um valor situado entre 0 e 1, que representam a "força" da ligação entre dois processadores. O verdadeiro perigo está NO CONJUNTO disto tudo. 

Uma rede neuronal pode APRENDER SOZINHA! Por razões que ainda não são completamente conhecidas, as redes neuronais conseguem, POR SI PRÓPRIAS, adaptar-se a novas situações e resolver novos problemas. Os carros autónomos, que a Tesla, a Uber e outras empresas estão a desenvolver, são um exemplo acabado desta capacidade de aprendizagem das redes neuronais. 

AINDA MAIS ASSUSTADOR do que tudo isto é o facto de cientistas e engenheiros terem desistido de compreender o que se passa dentro de uma rede neuronal! Eles têm-se preocupando apenas com os dados que são apresentados à rede e com os resultados que ela produz, sem quererem saber o que é que se passa lá dentro. Pode parecer inacreditável, mas é verdade, pelo menos até agora! Finalmente, apareceram pessoas preocupadas em perceber o que é que se passa dentro das redes neuronais. 

Sobre este assunto, chamo a sua atenção para o seguinte artigo da prestigiada revista Science: Brainlike computers are a black box. Scientists are finally peering inside. 


Na figura inicial, está representada uma rede neuronal muito simples, em que os pontos representam os "neurónios" e as linhas que os unem representam as "sinapses".


Quero ainda chamar a sua atenção para um outro artigo, este de outra revista científica de grande prestígio, a Nature, e que também nos dá muito que pensar: How Facebook, fake news and friends are warping your memory



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Aconselho vivamente os artigos cujos links o Fernando Ribeiro indicou.

[A escolha das imagens que aqui usei é da minha responsabilidade]

E agradeço ao Fernando Ribeiro a partilha das suas preocupações e a forma didáctica com que sempre nos leva a ver mais longe e/ou noutras direcções.

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quinta-feira, agosto 11, 2016

O homem branco naquela fotografia


O leitor Fernando Ribeiro, sempre atento e oportuno, enviou-me o link para um texto que me comoveu. Há pessoas que pagam caro a dignidade que põem na expressão das suas opções. Peter Norman, o atleta branco da fotografia do black power a que ontem me referi, foi uma dessas pessoas.

O excerto que abaixo transcrevo faz parte do texto O homem branco naquela fotografia da autoria de Riccardo Gazzaniga e traduzido por Almerinda Bento para esquerda.net.


(...) Anos mais tarde, nas Olimpíadas de Verão de 1972, em Munique, na Alemanha, Norman não fez parte da equipa de velocistas australianos, apesar de se ter qualificado treze vezes para os 200 metros e cinco vezes para os 100 metros.

Norman deixou o atletismo de competição depois deste desapontamento, continuando a correr ao nível amador.

Na sua Austrália branqueada, resistindo à mudança, ele foi tratado como um estranho, a sua família foi proscrita e incapaz de arranjar trabalho. Trabalhou uns tempos como professor de ginástica, continuando a lutar contra as desigualdades como sindicalista e trabalhando ocasionalmente num talho. Devido a um ferimento, Norman contraiu gangrena que levou a problemas de depressão e alcoolismo.

Como John Carlos disse “Se nós fomos espancados, Peter enfrentou um país inteiro e sofreu sozinho.” Durante anos, Norman só teve uma oportunidade de se salvar: foi convidado a condenar o gesto dos seus colegas atletas John Carlos e Tommie Smith em troca de um perdão do sistema que o ostracizou.

Um perdão que lhe teria permitido arranjar um emprego estável no Comité Olímpico Australiano e fazer parte da organização dos Jogos Olímpicos de Sydney 2000. Norman nunca cedeu e nunca condenou a escolha dos dois americanos.

Ele foi o maior velocista australiano da história e o detentor do recorde dos 200 metros, contudo nem sequer foi convidado para as Olimpíadas de Sydney. Foi o Comité Olímpico americano, quando soube da notícia, que lhe pediu que se juntasse ao seu grupo e o convidou para a festa de aniversário do campeão olímpico Michael Johnson para quem, Peter Norman era um exemplo e um herói.

Norman morreu repentinamente de ataque cardíaco em 2006 sem que o seu país alguma vez lhe tivesse pedido desculpa pela maneira como o tratara. No seu funeral, Tommie Smith e John Carlos, amigos de Norman desde aquele momento em 1968, e que o tinham como herói carregaram o seu caixão.

(...)
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E queiram, por favor, descer para verem o primeiro salto de costas da história do atletismo


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sábado, maio 28, 2016

Pode um blog ajudar a superar o sofrimento e o medo?
O testemunho de um Leitor do Um Jeito Manso fala por si




Ainda há dias aqui o contei. Eu ia ser operada aos joelhos no dia seguinte logo de manhã e, no entanto, na véspera aqui estive escrevendo, na boa, como se nenhuma preocupação pairasse sobre mim. No dia seguinte não escrevi pois estava ainda meio zombie, internada. Mas logo de seguida retomei o meu ritmo normal. Escrevia na cama ou no sofá, com as pernas para cima, gelo nos joelhos, os joelhos inchados, mal podendo andar. Não era nada de grave, mas o incómodo era significativo. Outra vez, uma massa num seio que causou estranheza ao médico e me obrigou a uma biopsia. Um susto dos diabos (para além da dor que aquilo provoca). E eu aqui a escrever como se o meu mundo fosse um mundo de fadas. Felizmente, não era nada de mal. Já depois disso, relativamente recente, um outro susto. Numa outra mamografia, uma nova bola suspeita dentro de um seio, tudo sempre lá para dentro, não se sentindo do exterior. Repetição de exame duas semanas depois, aquela nuvem negra a pairar. E eu aqui na maior, chalaças, tareias no láparo e o costume. Felizmente, de novo nada de mais. Provavelmente uma valente cotovelada involuntária de um dos pimentinhas que terá provocado um hematoma. Desapareceu.

Pelo meio, preocupações familiares e não foram pequenas. Por exemplo, tentei até ao limite tratar da ida de um tio meu para Cuba porque quis acreditar que lá o curariam e afinal morreu quando ainda alimentávamos alguma esperança. Depois foi a minha tia. Ia visitá-la ao hospital, acompanhava-a por telefone, tínhamos grandes conversas. Por fim já se cansava muito, já antevia o fim e eu a tentar que ela nem pensasse nisso. Também se foi. E as preocupações com os meus pais. E tudo. E sempre eu aqui no blog.


Não que isto me cure ou alivie ou distraia -- ou se calhar, faz tudo isso e em dose dupla ou tripla -- mas é o momento em que, por hábito ou prazer, me dou ao desfrute de fazer o que quero, o que gosto, o que me apetece. Sem motivo ou agenda. Enquanto aqui estou a escrever, existo eu, que escrevo porque gosto, e existem vocês, que não conheço, mas a quem me agrada chegar. E a verdade é que, enquanto aqui estou, não há doenças minhas ou alheias, não há preocupações, tudo se varre, há apenas o prazer de aqui estar.


Para mim ter o blog só faz sentido se for para falar do que gosto ou para denunciar aquilo que considero embuste ou malvadez e, nesses casos, tento ser o mais directa possível, para que se perceba bem contra quem me revolto. O que faço tem que ter sempre uma perspectiva positiva: ou para lutar por aquilo em que acredito ou para louvar aquilo que me agrada. Não me dá para vir para aqui destilar amarguras, ser destrutiva, lançar suspeições, alimentar angústias, carpir.

Ficaria feliz se soubesse que contagio quem me lê com a minha vontade de lutar, com a minha procura pela beleza ou pela generosidade, ou com a leveza com que encaro as adversidades. Isso seria um motivo suplementar para justificar a minha escrita aqui no Um Jeito Manso.


E se estou a escrever tudo isto, repetindo conversas recentes e, até, recorrentes, é porque li um comentário que me tocou e que acho que deve ser lido e relido. Refiro-me ao comentário do Fernando Ribeiro que é interessante e, mais que isso, inspirador.

Não sei que efeito concreto tem o espírito positivo na luta contra as doenças, em especial na luta contra o cancro. Acredito que terá um efeito altamente benéfico. Acredito que, tendo um propósito para continuar a a viver, a viver normalmente, o corpo enfrentará com maior resistência a luta que se trava dentro de si.

Autor de um dos blogs que acompanho com prazer, A Matéria do Tempo, daqueles blogs onde sempre se aprende e onde é notória a honestidade intelectual, a curiosidade militante e o gosto apurado de quem o escreve, Fernando Ribeiro fala de como manter o seu blog o ajudou a superou os momentos difíceis pelos quais passou e sobre os quais, felizmente, levou a melhor.

Porque sei que já outros Leitores meus passaram pela mesma rude prova -- e a todos presto a minha homenagem por serem tão corajosos -- e porque penso que exemplos assim podem ser inspiradores para quem esteja doente e precise de uma palavra de estímulo, tomo a liberdade de aqui transcrever, na íntegra, o seu comentário.


Em fevereiro do ano passado, foi-me diagnosticado uma neoplasia na bexiga, depois de eu ter começado a urinar sangue. Fui operado de urgência para estancar a hemorragia e extrair o tumor. Em abril voltei a ser operado, porque a própria bexiga tinha sido invadida pelo cancro. Tiraram-me a bexiga e fizeram-me uma bexiga artificial, com um pedaço de intestino delgado.

Sabe como foi que eu superei psicologicamente a difícil situação? Continuando a publicar o meu blog, como se não estivesse a acontecer-me nada, como se eu continuasse são como um pero. Cheguei ao ponto de publicar o blog deitado na cama do hospital, com três tubos a sairem-me da barriga, além de uma algália num certo sítio e um tubo de soro metido no braço. Abençoada internet e abençoado blog! As minhas navegações na internet e a minha preocupação com a publicação do blog distraíram-me o espírito e mantiveram-me com vontade de continuar a viver, pois acompanhava a vida que continuava lá fora e dialogava com ela.

Estou bem, tanto quanto é possível dizer que estou bem. Faço uma vida ativa e normal, pois o cancro não voltou a dar sinais de "vida". Disse-me o cirurgião: «Pode considerar-se curado. Ainda tem muitos anos de vida pela frente». E cá estou. Espero que não tenha notado nada de fora do normal no meu blog durante este ano que passou.


[Fernando Ribeiro, 27.maio.2016]



Caro Fernando Ribeiro, confirmo: não notei nada. 
E fico admirada com a descrição que aqui nos faz e que revela a sua coragem. E fico feliz por saber que superou tão difícil prova.
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As fotografias foram feitas in heaven. 
Gustavo Dudamel conduz a Orquestra Juvenil de Simón Bolívar num alegre mambo.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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terça-feira, abril 28, 2015

Diz-se que um homem não chora


No post abaixo relatei o meu dia, um dia simples. E porque calhou, enquanto escrevia, ver na televisão o médico que me acompanhou enquanto estive grávida e que fez os dois partos, recordei esses dias tão importantes na minha vida. Foram dias tão iguais que recordar um é quase como recordar o outro, com a excepção de que, no segundo, tive junto a mim, mal saí da sala de partos, a minha filha ainda pequenina que nem três anos tinha, a ver o irmão e a dizer com ar desconsolado, 'o bebé é tão encarnado...'

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Em comentário ao meu post sobre onde estava eu no 25 de Abril de 74, o Leitor Fernando Ribeiro - dono e senhor de A Matéria do Tempo, um dos blogues que considero dos mais interessantes neste vasto mundo da blogosfera, um blogue onde sempre aprendo e onde a selecção dos temas revela um ecléctico e refinado bom gosto - recordou o seu 25 de Abril e os tempos que se sucederam. Comovi-me ao ler as suas palavras.

E porque penso que são poucos os testemunhos daqueles que passaram pela experiência da guerra colonial, permito-me puxar as suas palavras para primeiro plano (esperando que ele não me leve a mal). Junto-lhe ainda o comentário subsequente do Leitor Vítor Manuel.


  
Canção com lágrimas




No 25 de abril eu tinha metido férias da minha comissão militar em Angola, onde estava colocado na fronteira norte. Eu estava cá em Portugal (na Metrópole, como então se dizia), para rever a família, e regressei a Angola em 4 de maio.

Como alferes miliciano que era, eu comandava um pelotão. Metade dos meus soldados eram angolanos, todos negros menos um que era mestiço claríssimo. A partir do 25 de abril, os meus subordinados angolanos passaram a esperar um futuro que antes não tinham podido esperar, porque lhes estivera vedado pelo colonialismo.

Eles esperaram poder aceder a empregos que até então tinham sido tacitamente reservados a brancos, como os de motoristas de táxi ou empregados bancários. Esperaram poder ganhar tanto e ter as mesmas possibilidades de promoção e de aumento de salário que um branco que fizesse o mesmo trabalho que eles. Esperaram poder entrar nos estabelecimentos comerciais que quisessem, sem receio de serem atendidos com maus modos e enxotados por serem negros, e sem terem que pagar mais do que pagaria um branco pelos mesmos artigos. Esperaram ter condições que lhes permitissem viver numa casa que merecesse o nome de casa, e não numa construção precária de adobe ou de blocos de cimento ou numa cubata. Esperaram que os seus filhos viessem a ter os estudos que eles próprios não puderam ter, apesar da sua enorme vontade de aprender. Enfim, eles viram abrir-se diante de si a perspetiva de uma vida muito mais livre, próspera e feliz do que a que tinham tido até então. Esperaram vir a ter, enfim, uma vida sem humilhações e sem pobreza.

Porém, quando no fim nos separámos, as nossas vidas — a minha por um lado e as deles por outro — tomaram caminhos terrivelmente distintos. Enquanto eu pude recomeçar a minha vida e acabar o meu curso de Engenharia num Portugal em paz, os meus antigos subordinados angolanos mergulharam numa guerra incomparavelmente mais terrível do que a guerra de guerrilhas que eles e eu tínhamos enfrentado juntos: a guerra civil que estalou em Angola em 1975 e que só terminou definitivamente em 2002.

Muitos dos meus antigos subordinados angolanos eram oriundos do Huambo (antiga Nova Lisboa), do Kuito (antiga Silva Porto), de Malanje e de outras terras onde a guerra civil atingiu o seu paroxismo. Estes meus antigos companheiros apanharam em cheio um dilúvio de fogo e de metralha que durou anos e anos a fio. Mais tarde ou mais cedo devem ter sido obrigados a abandonar tudo o que tinham e a procurar refúgio no mato ou então a tomar o caminho de Luanda, Benguela, Lubango ou outro sítio onde se pudessem sentir mais seguros. Devem ter enfrentado a fome, as doenças, as minas e sabe-se lá o que mais. Quantos deles terão conseguido sobreviver a tudo isto? Tremo só de pensar. Naquela guerra houve tantos mortos! Tantos corpos despedaçados! Tantas famílias destroçadas! Todos os sonhos e todas as esperanças que, a seguir ao 25 de Abril, estes meus antigos camaradas de armas tinham alimentado, foram varridos por uma arrasadora torrente de guerra e de morte.

De todos eles, só sei o destino de dois. O mestiço claro veio para Portugal em 1984, para junto da família paterna, e vive agora em Évora. Um outro antigo soldado meu, que era negro e por quem quase dei a minha vida num incidente que não importa aqui relatar, alistou-se nas FAPLA (o braço armado do MPLA) e acabou por morrer perto do Huambo em 1982. Ele era um herói.

Diz-se que um homem não chora, mas neste momento estou com os olhos cheios de lágrimas, de saudades imensas de todos eles.


Fernando Ribeiro
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Como me emocionou o comentário do Leitor Fernando Ribeiro!

Palavras sentidas, reveladoras de um Nobre Espírito e Carácter. Sei do que fala!

Sempre defendi aquela Boa Gente e foram angolanos, negros, alguns dos melhores Homens que comandei.

Para o Fernando Ribeiro, meu ex-Camarada, mais novo, a minha Continência e Forte Abraço com a enorme saudade daquela tão bela Angola.

Vitor
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A música lá em cima é "Canção com Lágrimas" de Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre. 


Transcrevo o texto que acompanha o vídeo: Esta primeira versão, cantada por Adriano, está magistralmente interpretada, tanto pelo cantor como pelo acompanhante, o Rui Pato, que concebeu um acompanhamento perfeitamente enquadrado nas características da peça. A gravação é dos finais de 1969, tendo sido editada em 1970. 

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Permitam que vos convide a descer até ao post seguinte, um post muito pessoal.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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domingo, janeiro 05, 2014

Ainda o inconseguimento de Assunção Esteves (Ah! Estebes) em entrevista à R. Renascença. A palavra aos Leitores de Um Jeito Manso: "Inconseguir? Em Angola dizem desconseguir"


Bem. Depois de no post abaixo ter lançado um recalibrado alerta amigo ao influente analista Henrique Monteiro - e mais não digo - aqui, agora, parto para outro assunto, para uma conversa gostosa.


O meu post sobre a recalibragem do corte das pensões anunciado por Marques Guedes e também sobre o inconseguimento da Assunção Esteves recebeu um número avultado de comentários, alguns muito sui generis. No entanto, no meio deles, alguns se destacaram e merecem atenção. Não estou a referir-me apenas ao comentário divertido de alguém que se intitulou Ah! Estebes (Assunçãozinha de Balpaços) e a outros mas, agora em particular, ao comentário do Leitor Fernando Ribeiro que escreveu um texto que acho que merece o devido destaque e, por isso, este post autónomo.

Para acompanhamento visual, escolho fotografias de mulheres africanas feitas por Uwe Ommer e que podem ser vistas no livro Black Ladies, um livro muito bonito.

Como acompanhamento musical, escolho uma música de que tomei conhecimento no seu blogue, A Matéria do Tempo, a que, aqui na minha galeria lateral, dei o nome de Cultura Vintage.



                                                          Pilima Yange, cantada em umbundo por Bela Chicola

*

Passo então a transcrever.

Fernando Ribeiro disse...

Inconseguir? Em Angola dizem desconseguir. É um sinónimo bastante comum, mesmo, de "não conseguir". Não há como os angolanos para inventar palavras.


 Um Jeito Manso disse...

(...) não sabia que os angolanos davam essas voltas às palavras. A ideia mais próxima disto que tenho são as palavras inventadas de Mia Couto, palavras que nos fazem sorrir de ternura.




Fernando Ribeiro disse...

Apesar da sua cor, o Mia Couto é profundamente africano, incluindo na forma como inventa palavras. Ele tem as suas raízes familiares aqui na região do Porto, vem cá muitas vezes visitar a família e até já me cruzei com ele numa rua aqui do Porto. Mas a sua africanidade, em geral, e moçambicanidade, em particular, estão acima de qualquer suspeita. Nunca ninguém poderá dizer que o Mia Couto é um escritor português. É 100% moçambicano.


Parece-me que há duas razões essenciais para a facilidade como os africanos (pelo menos os de raíz bantu, como é o caso da grande maioria dos angolanos e dos moçambicanos) inventam palavras.

Uma delas consiste num conhecimento deficiente do português, por não ser a sua língua materna. Se eles não sabem uma palavra em português, inventam uma e seguem em frente. A outra razão consiste na própria natureza das línguas bantu, que são bastante plásticas e facilmente adaptáveis às circunstâncias, mesmo às mais modernas e tecnológicas.

As línguas bantu são extraordinariamente lógicas, baseadas em jogos de prefixos e de sufixos, que se acrescentam a conceitos e ideias expressos em vocábulos básicos chamados radicais.

Por exemplo, a própria palavra bantu, que significa "seres humanos". Esta palavra tem dois elementos: o radical ntu, que exprime a ideia de humano, e o prefixo ba, que indica o plural. O singular de bantu é muntu, sendo mu o prefixo singular que corresponde a ba.

Mas se eu, por exemplo, quiser dizer "humanidade", não tenho problema nenhum em aplicar o prefixo u, que é o prefixo que se usa para as palavras abstratas.

Não errarei muito, portanto, se empregar a palavra umuntu para significar "humanidade", "condição humana", etc.

As línguas bantu são fascinantes, porque além de terem uma lógica irrepreensível, praticamente não têm exceções às suas regras.

São línguas onde não há que enganar e são relativamente fáceis de aprender, embora não sejam tão fáceis como algumas pessoas poderão pensar.

No fundo, basta conhecer as regras gramaticais (que são claras) e os radicais das palavras (que de claro não têm nada).

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Fascinante. Perceber a lógica, o funcionamento, a plasticidade de uma língua é conhecer um povo.

Ler um texto como o que Fernando Ribeiro escreveu sobre a invenção de novas palavras por parte dos africanos é um prazer. Muito obrigada.

NB: Volto aqui para informar que, em comentário a este post, há um esclarecimento adicional. Não deve ser perdido, digo-vos eu.

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Já agora. Muito gostaria de vos ver lá pelo meu Ginjal e Lisboa onde hoje recebo a visita das palavras de Adélia Prado com a sua Com Licença Poética e, por causa das suas palavras, faço uma declaração de interesses. Coisa de mulheres (onde os homens também são muito bem vindos, claro)

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E, por agora, fico-me por aqui. Se estiverem interessados em conhecer qual o meu conselho ao analista Henrique Monteiro, desçam por favor até ao post seguinte. Se não quiserem desperdiçar o encanto das palavras que acabaram de ler, então não se afundem nas recalibrações monteiristas e deixem-se ficar por aqui.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.