Mostrar mensagens com a etiqueta assédio sexual. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta assédio sexual. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 08, 2025

Filipe Silva, CEO da GALP, demitiu-se.
E eu só espero que os miseráveis que conseguiram a proeza de trazer um assunto tão íntimo para a praça pública se sintam roídos de arrependimento e de vergonha e se sintam alvo de desprezo por parte de quem saiba o que fizeram.

 

O que aconteceu a Filipe Silva parece-me do domínio do impensável. Estes tempos vão férteis em anormalidades. 

É o Musk a ingerir à cara podre na política europeia, é o Zuckerberg a prescindir nas suas plataformas da validação da veracidade das notícias que circulam, abrindo ainda mais as portas ao esgoto a céu aberto que são as calúnias que são despejadas nas redes sociais, é o Trump a querer comprar a Gronelândia e anexar o Canadá e a manifestar outras intenções obscenas... e é toda uma sucessão de parvoíces que há não muito tempo diríamos impossíveis.

Que Filipe Silva, vendo a sua vida devassada, se tenha sentido obrigado a demitir-se parece-me bem o sinal do que são estes tristes e perigosos tempos. Não o conheço nem faço a mínima ideia da natureza do envolvimento com a directora. Mas ou é coisa ligeira e ninguém deveria sequer perder 1 minuto a debruçar-se sobre isso ou é coisa séria (e, nesse caso, até pode ter sido uma situação emocionalmente complicada para ambos, algo do seu foro íntimo, pessoal e intransmissível) e deveria ser respeitado, algo que, a ser abordado, o deveria ter sido com bom senso e sensibilidade, sob total reserva.

Outra coisa, caso ambos ou algum deles seja casado será o impacto que isso terá no respectivo casamento. Mas sendo todos adultos e vacinados, lá se organizarão. E, sobretudo, ninguém, a não ser os próprios tem alguma coisa a ver com isso. Não é tema da empresa, muito menos do País.

O mais que, na GALP, alguém com tino poderia fazer, o Chairman por exemplo, seria falar com ele e indagar se o relacionamento interferia, de alguma forma, no desempenho profissional de ambos. Havendo garantias de que não, a coisa ficaria por aí. Eventualmente o que poderia ser feito, e lembro-me de uma situação assim numa das empresas em que trabalhei, em que, havendo envolvimento entre o presidente e a responsável por uma das áreas por si tutelada, houve um rearranjo de pelouros, tendo ela ficado a depender de outro administrador. Ambos, anos depois, viriam a casar-se. Mas isso nem vem ao caso. 

Agora expor Filipe Silva e a directora da forma como aconteceu é torpe, é vil, é imperdoável. E a Comunicação Social puxar o tema para as primeiras páginas e para notícias de abertura é outra miséria.

E só espero que quem enviou a denúncia à Comissão de Ética e, sobretudo, quem vazou isso para a Comunicação Social, fique com a consciência a roer-lhe a paz de espírito até ao fim dos seus dias. Quando a fofoca, a bisbilhotice, a coscuvilhice, a intrusão, a maldade, o voyeurismo e a falsa moralidade se torna em fanatismo vai mal a sociedade.

Quanto a Filipe Silva e quanto à directora desejo-lhes que consigam lidar com a situação com coragem, com calma. E que, da melhor maneira que consigam (ou juntos ou separados, conforme assim o entendam), sejam felizes. 

terça-feira, janeiro 07, 2025

Filipe Silva, CEO da Galp, tem um caso com uma directora.
E isso foi objecto de uma denúncia na Comissão de Ética da empresa e veio parar à Comunicação Social.
E eu acho isto um nojo, um acto de indecoroso voyeurismo, de coscuvilhice, de suprema estupidez.

 

Trabalhei em empresas durante décadas, trabalhei em contexto público e em contexto privado. Durante todo o meu longo percurso assisti a incontáveis 'casos'. Quase todos foram esporádicos, temporários, inócuos. Apenas um, justamente com a minha Secretária, divorciada, deu em rotura de casamento (dele) e foi porque ele contou à mulher, tentando convencê-la a aceitar a situação. Para surpresa dele, a mulher não aceitou. Creio que não se divorciou mas foi viver com a 'namorada'. E agora são todos amigos, uma família unida. Mas, que me lembre, foi o único caso sério.

O que sempre aconteceu e causava sérios embaraços aos envolvidos foram as cartas ou telefonemas anónimos para as legítimas e legítimos. Colegas despeitados ou maldosos, geralmente mais mulheres que homens, resolviam estragar o romance.

Sempre se entendeu que era tema que, na pior das hipóteses, poderia molestar o casamento legítimo. Não o desempenho profissional.

Um dia vou escrever as minhas memórias nesse capítulo. Dará, certamente, um livro suculento.

Quando penso nisso, um dos casos que logo me ocorre e que me faz sempre rir, tem a ver com um colega, grande amigo, divertido, alegre, hiperactivo, As mulheres caíam por ele. Conheci-lhe várias namoradas. Um dia pediu a um funcionário da Contabilidade para lhe fazer um apanhado para um relatório que de que precisava com urgência. O funcionário ficou a trabalhar até tarde. E ele ficou à espera. Mas, pelo meio, fora de horas, uma das admiradoras foi fazer-lhe uma visita ao gabinete. No calor do momento nem mais ele se lembrou do 'apanhado'. 

Estavam ali, no truca-truca, em cima da mesa, quando apareceu o funcionário com o 'apanhado'. 

No dia seguinte o meu colega, à primeira da manhã, receando o falatório, resolveu ser ele a ir expor o sucedido ao Presidente. 

Foi dia de festa. 

Quando, nessa manhã, fui ter o meu ponto de situação diário com o Presidente, saiu-se logo com esta: 'Então, já soube do coxo?'. Eu ainda não sabia. Contou-me, e contou que já tinha chamado o funcionário (que era coxo) e já lhe tinha pedido que não comentasse nada com ninguém. E ainda nos fartámos de rir. Ao longo do dia, qualquer um que entrasse no meu gabinete ou com quem eu me cruzasse, já vinha a rir e a comentar o 'achado' do 'coxo'. Uma galhofa pegada. E o meu colega, esse grande doido, dizia que tinha apanhado o susto da vida dele quando se viu naquela situação com o funcionário à porta, de boca aberta e papéis na mão, a olhar para eles, sem saber o que fazer.

Numa remodelação algum tempo depois, aquela mesa acabou por vir para o meu gabinete. Havia sempre quem se lembrasse: 'Ah, se esta mesa falasse...'.

Algum tempo depois, tive um outro colega que também deu mais que falar do que os outros. Era muito 'palhaço', muito bon vivant, muito bem disposto. Teve também várias namoradas. Conheci bem a mulher dele. Era apaixonada por ele, tal como ele o era por ela. Mas ceder à tentação era mais forte que ele. Uma das vezes, havia lá uma jovem que entrou para estagiar na minha área e que lá ficou. Era muito bonita e vestia-se de uma forma muito 'exibida'. Andava mais despida que vestida. E era pouco inteligente. Muito imprevidente, muito tonta. Para ela, ter um caso com um director era o máximo. Contava o que fazia, quando fazia, onde fazia. Um disparate. Nós aconselhávamos o nosso colega a ter cuidado pois era quase inevitável que aquilo fosse parar aos ouvidos da mulher. E ainda me lembro do Presidente, no meu gabinete, um dia em que eles chegaram a meio da tarde vindos sabe-se lá de onde, todos alegres e tontos como adolescentes, e o Presidente o chamar e dizer que não tinha nada a ver com isso mas que ela era tão tonta que ele deveria ter mais cuidado. Disse: 'A ter um caso, que seja com uma mulher inteligente, não com uma tão limitada'.

São tempos longínquos. Não se falava em #Metoo ou em assédio. Se calhar havia casos de assédio mas nunca soube de nenhum, nenhum dos múltiplos casos que testemunhei foram casos de abuso, de prepotência ou de actos não consentidos.

Na maior parte dos casos, os envolvidos tentavam que ninguém desse por isso e, se algum tinha função ascendente, mais depressa prejudicava a 'namorada' do que a beneficiava (tendo eu trabalhado em empresas em que eu era a excepção feminina em cargos de gestão quase exclusivamente ocupados por homens, a maioria dos casos eram entre 'chefes', 'doutores', 'engenheiros' e mulheres com cargos hierarquicamente abaixo).

Nas empresas em que nos últimos anos exerci cargos de administração, passaram por mim várias denúncias feitas através do canal próprio para isso e que chegavam à Comissão de Ética.

A maioria tinha a ver com denúncias anónimas, não fundamentadas, de eventual corrupção ou de decisões enviesadas, favorecendo empresas de forma pouco clara. Quando as denúncias eram tão vagas e tão absurdas que não tinham ponta por onde se lhe pegasse, eram arquivadas.

Houve um caso que deu em despedimento de uma sub-directora que foi acusada de fazer bullying a alguns funcionários. Nesse caso houve testemunhas, houve um caso bem fundamentado. Rua sem apelo nem agravo. 

Nunca apareceram denúncias de casos amorosos mas, a menos que fosse algum caso escabroso ou que se percebesse haver abuso de função dominante, se aparecessem seriam arquivadas.

O que está a acontecer ao CEO da GALP parece-me inacreditável. Ou há ali, da parte dele, qualquer protecção absurda à directora, promoção sendo ela incompetente, atribuição de avultado prémio de desempenho sendo ela um calhau, ou coisa assim (e nesse caso, será grave), ou, então, estamos na presença de uma coisa miserável. 

Parece-me absurdo, ridículo, impensável, que o homem tivesse que declarar à Comissão de Ética que tinha um caso com a directora. Está tudo maluco.

Já não basta as beatas que acham que estas coisas são caso para ir à igreja, confessar os pecados ao padre. Agora é também confessar à Comissão de Ética. 

Uma coisa que é do foro íntimo, mais do que privado, tem que ser participado à Comissão de Ética?! 

Até me custa a acreditar numa palhaçada destas.

E, para cúmulo da porcaria, alguém despejou isto na Comunicação Social. Um mundo de miseráveis armados em puritanos, em moralistas, um mundo de gente estúpida.

terça-feira, agosto 29, 2023

Rubiales: os seus genitais e o beijo a Hermoso (consentido ou sem sentido)
- Assédio ou não assédio, eis a questão -
.


Continuo entregue a tarefas comezinhas tais como fazer máquinas de roupa, estendê-la ao sol e ao vento, apanhar brinquedo aqui, coisa acolá. E também a tentar organizar minimamente os meus escritos e isto é, para mim, o pior. Gosto de criar e detesto 'manter' (catalogar, etc).

Dentro do possível, o dia foi, pois, tranquilo. Tenho sempre muito que fazer e quando é criar a partir do nada é um empolgamento; quando é inventariar e arrumar é uma missão que executo com algum sacrifício. De qualquer forma, sou geneticamente esforçada e, por isso, se meto na cabeça fazer uma coisa, eu faço, goste ou não goste. E, além disso, ocupa-me enquanto a minha mente não se ilumina para me guiar no caminho certo.

Com estas ocupações, não sei como, o meu dia esteve sempre preenchido. 

Felizmente dormi como uma santa. Dormia mais. Acordei porque fui acordada e também já não eram horas para voltar a cair no sono. A seguir ao almoço e depois de mais uma leva de roupa estendida, deu-me uma pancada de sono mas se caí no limbo da sonolência por uns dez minutos foi muito.

Ainda aqui não disse nada sobre o beijo do Rubiales na jogadora Jeni Hermoso e não disse pois tenho alguns mixed feelings

Ao ver o beijo, não me senti chocada. Pareceu-me não apenas haver euforia da parte dele como uma grande cumplicidade entre ambos. Que pessoas que se dão muito bem (como ela, depois, disse que davam), num explosivo momento de alegria exuberante e de consagração daquilo que muito desejavam, se beijem momentaneamente na boca não me choca. O vídeo completo mostra um apertado abraço, ele com os pés no ar, ela também exuberante, naturalmente bastante feliz da vida.

Coisa diferente seria se eu tivesse percebido surpresa ou desagrado da parte dela ou se, a seguir, em vez de tê-la ouvido desculpá-lo, tivesse ouvido que não tinha percebido, aceitado ou desculpado aquele beijo. Mas não. Não apenas me pareceu, num momento de grande euforia, o corolário de uma amizade e cumplicidade anterior como, no momento, não a vi minimamente incomodada ou surpreendida com o que se tinha passado.

Já me chocou, confesso, uma imagem que mostraram em que ele, no palco, está na maior explosão de alegria, aos saltos, aos gritos, de braços no ar e, às tantas,  tanta a adrenalina, agarra os próprios genitais. Parece coisa de excesso de testosterona, de pico orgástico -- mas, convenhamos, bastante despropositado em público. Aí diria que me parece inaceitável que uma pessoa com a responsabilidade dele tenha uma tão inusitada falta de maneiras. Mas este é um segundo tema e, que eu saiba, não é o que tem estado em causa.

Isto do assédio e do consentimento tem que se lhe diga e tem que ser avaliado por quem tenha os pés no chão, os neurónios a funcionar e um módico de bom senso.

Claro que se houver casos em que comprovadamente ele molestou, moral ou sexualmente, jogadoras ou outras mulheres, ou se fez depender o trabalho delas de cederem aos seus apetites ou caprichos, se foi inconveniente e desagradável causando-lhes incómodo ou pressão, aí as coisas, em minha opinião, mudam de figura.

Agora se foi só aquilo do beijo penso que antes de o crucificarem, queimarem vivo e apedrejarem, deveriam voltar a ouvir a jogadora. Se ela mantiver que são amigos, cúmplices de sonho e ambição, se têm grande confiança e à vontade e que não há nada a dizer sobre o beijo, então, o beijo não me parece caso para o que está a acontecer. 

Num caso destes não se põe a questão do consentimento pois não se proporciona parar e pedir: 'Posso dar um beijo?'. É um pico de euforia e ou bem que ambos têm cumplicidade para que isso aconteça ou não. 

Quanto à forma como publicamente agarrou os fogosos genitais parece-me, essa sim, muito incomodativa. Não sei se é caso para o sacrificarem publicamente ou se é caso de lesa-majestade mas acho que é, isso sim, caso para severa admoestação.

Quanto a ele, independentemente de tudo, ao ver o sururu que estava a ser criado, e ao ver-se a agarrar os genitais, o que penso que teria sido inteligente teria sido demitir-se. Simplesmente. Pedir desculpa se, com a sua exuberância emocional, tinha incomodado alguém e demitir-se. Tinha evitado muito exagero, muito moralismo, muita falta de bom senso. Tinha evitado ser esmagado, devorado, desonrosamente derretido  na praça pública.

PS - Volto a dizer: digo isto apenas pelo que vi pois não o conheço nem faço ideia de como se comporta social, profissional ou sexualmente.

quinta-feira, julho 27, 2023

Kevin Spacey, vítima inocente

 

Era o exemplo do abusador, do assediador, de predador sexual. A sua imagem ilustrou todos os movimentos de tipo #MeToo.

Perdeu o emprego, perdeu os patrocínios. Deixou de ser convidado para o que quer que fosse. Foi banido da sociedade. A sua honra foi desfeita. Tornou-se um proscrito, um ser infame.

Apareciam os que lhe apontavam o dedo por ele se ter aproveitado da sua posição para os assediar. Lembro-me da ofendida mãe de um rapaz. Kevin Spacey era um porco imundo, segundo todos quantos lhe apontarem o dedo e lhe mostraram que o único caminho era sair de cena.

Sempre se declarou inocente.

Mas ninguém ouve os que caem em desgraça: ele era culpado, ele tinha que pagar por todos os crimes. Vários crimes, nos Estados Unidos e no Reino Unido.

E, no entanto, eis que agora veio o veredicto. Tal como nos Estados Unidos já tinha sido declarado inocente também agora, no Reino Unido, o foi.

A notícia sai pequena, sem destaque.

Ninguém quer saber da inocência dos inocentes.

sábado, abril 15, 2023

Ah... este admirável mundo novo.
Reverter o processo de envelhecimento, termos sistemas computorizados a lerem por nós e a sintetizarem a informação colhida em milhões de documentos, termos veículos sem condutor que nos transportam, etc, etc, etc...

 

Ao fim da manhã fui ao supermercado. 

Escolhi o meu pão, um baguette rústica, um pão de centeio com nozes. 

Quando estava a colocar as embalagens no carrinho um homem que ia dizer que era meio velho mas que talvez não fosse muito mais velho que eu. Contudo, se não era velho, parecia. O pão está em cacifos de vidro e há uma pinça para os retirar através de uma abertura. 

Pois o estupor do velho meteu a mão (sem luva) pela abertura e pôs-se a apalpar os pães, um a um, acabando por tirar o que lhe pareceu melhor. Várias pessoas assistiram incrédulas àquilo, fazendo esgares umas para as outras. Mas eu não me contive. 'O que é que o senhor está a fazer? A apalpar o pão?'. Pois o estúpido virou-se para mim: 'Que mal é que tem?' Perguntei-lhe se não sabia. Desafiadoramente disse-me que não. Expliquei-lhe que as outras pessoas não têm que levar pão já apalpado por ele.  E ele: 'E que mal tem isso?'. E eu: 'Não sabe? Acha higiénico?'. O velho furioso: 'Apalpei sim, senhor. E não vejo mal nenhum nisso'.

Pensei que todos os Boaventuras desta vida devem dizer o mesmo.

Olhei em volta a ver se via alguém da Segurança para me queixar mas não vi. E toda a gente que ali estava a assistir, visivelmente incomodada, ficou calada. É o costume. Nas redes sociais toda a gente manda bocas. Ao vivo, de frente para os parvos, a malta prefere ficar calada.

Resumindo: fiquei furiosa.

A seguir, na caixa, estava na ponta a enfiar no carrinho as coisas que o rapaz da caixa ia passando. Nem levantava a cabeça, ia jogando a mão e enfiando no saco que estava no carrinho. Às tantas pareceu-me que já tinha guardado o saco das maçãs mas pensei que estava equivocada. Depois laranjas. Pensei o mesmo mas, como era tanta coisa e tudo tão rápido, julguei que o meu cérebro estava a brincar comigo. A seguir veio um saco de salada mas como tinha comprado dois pensei que se calhar aquele era o segundo. Mas quando apareceu um saco de agriões, uma embalagem de legumes para a sopa, um detergente multiusos amarelo aí percebi que alguma coisa não estava certa. Dei o alerta: 'Estão a passar coisas que não são minhas' e já lá estavam mais umas poucas já passadas pela caixa. O rapaz parou. Apontou para o que estava antes da caixa. Disse-lhe que não, não eram coisas minhas. O rapaz disse que não havia separador, que as coisas do cliente seguinte tinham sido postas encostadas às minhas.. 

Aí o homem que estava atrás de mim acordou e ficou em transe, como se eu estivesse a arrumar coisas que não eram minhas. Furioso: 'O que é isso? Isso é meu!'. Respondi: 'Bem sei. O senhor não pôs o separador'. E ele, furioso por eu estar a pôr em causa a sua eficiência: 'Ora essa, não pus? Pus, sim senhora. Então não está ali?' E apontou o separador a seguir às suas coisas. Eu disse: 'Sim. Mas não pôs entre as minhas coisas e as suas'. E ele, verdadeiramente furioso: 'Então não está ali?' E voltou a apontar para o separador no fim das suas coisas. E ameaçador: 'E faz favor de não ficar com as minhas coisas'. O rapaz da caixa atrapalhado, tendo que chamar o supervisor, e explicando: 'Um cliente não colocou o separador, registei as coisas como se fossem da cliente da frente'. E o cliente: 'É mentira, pus, está à vista de toda a gente'.

Quando, no parque, estava a contar ao meu marido que um velho atrás de mim tinha armado uma confusão, vi-o a vir com o carrinho dele. E disse: 'Olha, lá vem ele'. E o meu marido disse: 'E achas que é velho? Se calhar não tem uma idade muito diferente da nossa'.

Fiquei a pensar. 

Fiquei também a pensar que o velho do pão deve ter chegado a casa a dizer que uma dondoca se tinha metido com ele por ele estar a apalpar o pão e que o velho da caixa deve ter contado à mulher que uma dondoca qualquer quis ficar com as compras dele e depois ainda se desculpou por ele não ter posto o separador quando toda a gente viu que tinha posto, sim senhor.

Tudo relativo. E tudo muito doido.

Tirando isso.

Esteve frio de tarde. Tive que voltar a usar uma capa de lã. 

Agora estou aqui a escrever isto, o cão dorme aqui, deitado ao lado da porta de vidro. Deve estar cansado, tanto que correu de um lado para o outro. Cão de guarda a sério.

A robínia aqui à porta está florida com os seus delicados cachos de florzinhas brancas. Se não fosse tão tarde, ia agora lá fora fotografá-las porque à noite ficam lindas.

Ao jantar, como sobremesa, comi nêsperas que colhi pouco antes. Tínhamos uma nespereira que já cá existia, pelo menos trinta anos. Agora já existem mais quatro e estão todas carregadas. A natureza é mãe.

Depois de jantar estivemos a ver mais um episódio de Sommerdahl, uma série fantástica que passa às 10 na RTP2, uma das poucas coisas que se conseguem ver na televisão e, cá em casa, quase a única que agrada simultaneamente aos dois.

Posso ainda contar que, de tarde, estive a escrever. O meu marido perguntou o que é que eu estava a escrever. Disse-lhe que um conto, para um livro de contos. O meu marido perguntou: 'Vê lá se não é nada que vá envergonhar o teu filho'. Estava a gozar porque lhe contei que, quando contei ao nosso filho que tinha escrito um livro e que ia concorrer a um prémio, ele me perguntou se era alguma coisa da qual ele se envergonhasse. Nesse caso, disse-lhe que não, era inócuo. Mas neste caso, dos contos, tive que responder ao meu marido que temo bem que ele vá envergonhar-se, sim (isto admitindo que o livro um dia será publicado, claro). O meu marido encolheu os ombros. 

_____________________________

Vivo uma vida simples e os avanços tecnológicos incomodam-se não pelos seus inquestionáveis benefícios mas pelos riscos que comportam, em especial quando não há regulação, não há consciência colectiva dos reais perigos, não há tempo para pensar e avaliar bem no que estamos a meter-nos. 

A tecnologia é cada vez mais acessível, mais ubíqua, mais aberta. E a tecnologia anda por uma estrada e a ética anda por outra, paralela. E, para os distraídos, relembro que as paralelas nunca se encontram.

Os dois vídeos abaixo mostram temas distintos. Mas são faces de um futuro, nuns casos um futuro mais próximo, noutros um futuro um pouco incerto. 

Já nem falo no ChatGPT, uma coisa fabulosa e diabólica (já proibida em algumas instâncias, mas que, mesmo proibida, há-de reencarnar noutros produtos). Mas falo em veículos sem condutores ou, ainda mais preocupante, em mecanismos para reverter o processo de envelhecimento. 

Os vídeos não estão ainda traduzidos mas aqui os deixo. A quem possa interessar.

Putting an autonomous vehicle to the test in downtown London

I recently had the opportunity to ride in a car made by the British company Wayve, which has a fairly novel approach to self-driving vehicles. While a lot of AVs can only navigate on streets that have been loaded into their system, the Wayve vehicle operates more like a person


Exclusive Conversation With Geneticist & Harvard Professor David Sinclair

David Sinclair is a man who claims his ‘biological age’ is 10 years less than his actual age of 53. The Harvard Geneticist is a leader in longevity science. Watch him in a riveting conversation with Kalli Purie, Vice Chairperson, India Today Group at the #IndiaTodayConclave. The two discuss the formula to look younger, how healthy sugar is for you, whether fruits are a good substitute for sugar, the newly-researched stress-busting food, the benefits of red wine and the magic of metformin.

____________________________________________________________________

As imagens, uma vez mais, não têm nada de nadica a ver com nada. Mostram a arte de Marianne Evennou, uma decoradora que faz maravilhas com pouco, inclusivamente decorando com arte e engenho pequenos espaços. Apeteceu-me partilhar convosco, só isso.

___________________________________________________

Um bom sábado
Saúde. Pés na terra. Paz.

quarta-feira, fevereiro 15, 2023

Mais de 100 padres suspeitos de abusos sexuais estão no ativo... ?
Não corresponde a uma percentagem um bocadinho grande demais...?

 

Sabe-se que, por cada pessoa que se enche de coragem e resolve enfrentar as suas memórias, a sua vergonha e as suas feridas mais profundas, muitas outras permanecem em silêncio. 

Por isso, não apenas os casos de abuso não devem cerca de cinco mil mas seguramente dezenas de milhares. Também por isso, os padres no activo envolvidos em crimes de abuso sexual se calhar são mais de cem, sim, mas muito mais de cem.

Ora qual é a organização em que tantos profissionais são abusadores sexuais, grande parte dos quais pedófilos? 

Não conheço outra que não a Igreja. Qualquer coisa vai mal, muito, muito, muito mal numa organização em que tantos dos seus profissionais são assim. Pior: como é possível a Igreja conviver bem com o facto de que tantos supostos emissores da palavra de Deus sejam criminosos, psicopatas, gente doente e/ou impiedosa, gente que molesta crianças?

Ver uma fiada de bispos a ouvirem, em estado de estupor catatónico, a leitura de depoimentos de vítimas ou da irmã de um vítima é um imagem quase diabólica. Não sentirão uma vergonha sem limite? Não sentirão um vontade enorme de lavar a honra da sua instituição de uma forma drástica, inequívoca?

Ouço falar em perdão. Não basta.

Não basta a Igreja pedir perdão nem basta que os suspeitos sejam julgados e os acusados condenados. Não. Não. Não. Mil vezes não. 

Tem que haver medidas prudenciais que afastem das crianças ou de gente indefesa todos os que possam de alguma forma vir a assediar, violar ou causar seja que sofrimento for. Tem que se impedir todas as situações em que possam ocorrer mais abusos. Não sei se é necessário instalar câmaras de vigilância nos confessionários, nas sacristias, nos recantos, se é o quê. Não sei. 

[Aliás, ainda faz algum sentido haver confessionários? Que coisa mais medieval e absurda.]

O que sei é que a concentração de pedófilos e abusadores na Igreja é preocupante e as situações em que isso pode acontecer parecem ser propícias à prática de tais actos, prática que, segundo se ouve, tal a obsessão pelo 'pecado', é geralmente acompanhada de pedido de silêncio para esconder o pecado (o pecado da vítima, leia-se, pois a hipocrisia é tanta e tão nojenta que as vítimas ainda ficavam a pensar que foram elas as culpadas).

Quando penso que padres praticam monstruosidades que causam profundo e perene sofrimento às vítimas e a seguir, saem dali, e vão dizer missa, falar de pecado e pregar coisas supostamente boas, fico agoniada pois, na realidade, falam de deus com uma boca falsa e nojenta. 

Custa-me ainda mais quando parte das vítimas são crianças institucionalizadas, sem família que as defenda, ou crianças cujas famílias acreditam que, deixando-as ao pé dos padres, estão a deixá-las bem guardadas. Coitadas das crianças. Estes padres não são apenas criminosos e psicopatas, são também uns miseráveis, gente desprezível, uns nojentos hipócritas.

A Igreja, se, depois de todas estas denúncias, ainda lhe sobeja alguma respeitabilidade, deveria pedir ao Ministério Público que investigue todos os padres e bispos e diáconos e o diabo a quatro, que lhes vejam os computadores, que se ouçam testemunhos. Preventivamente. Se não há meios para isso que o façam por amostragem. Poderia não ser o Ministério Público mas uma Comissão interna que actuasse numa lógica de Auditoria interna. Mas já vimos como a Igreja tem pactuado, encoberto, desculpabilizado os criminosos. Creio que está claro que não se pode confiar muito na Igreja.

Prudencialmente também, não deveriam ser admitidos como padres (ou diáconos) pessoas cuja sanidade mental ou psicológica ou inclinações sexuais denunciem inaptidão para a função. Psicopatas, pedófilos, abusadores, por exemplo, deveriam ser crivados à entrada. 

E que não se pense que estou a generalizar. Não estou. Claro que não são todos os padres ou demais agentes da Igreja que são assim. Mal fora. Claro que não são. Mas, até por uma questão de transparência, seria bom que se separasse o trigo do joio. Deveria ser do interesse da Igreja que se erradicasse de forma radical todos os criminosos que, sob a capa da sua ligação à Igreja, praticam actos abjectos, imperdoáveis.

Seria também relevante que a Igreja, se quiser mesmo lavar a cara, lavar as mãos e lavar a alma, colocasse ao dispor da sociedade os meios necessários para isso: desfaça-se de luxos e financie investigações isentas e sérias. E se, no fim, houver tantos condenados que não caibam nas actuais prisões, pois coloquem instalações suas ao dispor, transformem mosteiros em prisões e vendam imóveis ou o que quiserem para ajudar a suportar as despesas. 

A Igreja, que se tem mostrado conivente com os abusos sexuais, que se tem mostrado elitista, esbanjadora, reaccionária, que tem fechado a porta a tantos dos que gostavam de ser acolhidos, se quer voltar a ser olhada com confiança tem que saber mostrar que está do lado do bem. Mostrar por actos e não apenas por palavras. 


quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

________________________________

Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




___________________________________________________

E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

__________________________________________________

Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

sábado, setembro 19, 2020

Não foi comigo e, no entanto, também me sinto enojada, enjoada

 

Ela sentiu a língua dele enfiada até à garganta, as mãos dele a percorrerem-lhe o corpo, o rabo, os seios, todo ele agarrado, um polvo alapado do qual não conseguia desprender-se. O asco que sentiu ainda hoje transparece do seu semblante. E eu ouço-a e imagino o nojo, o incómodo, a sujidade a alastrar, a vontade de esquecer. E, agora, a vontade de denunciar, a vontade de envergonhar a besta imunda. 

Transcrevo do The Guardian:

Amy Dorris alleges she was sexually assaulted by Donald Trump in 1997, when she was 24. Speaking publicly about the alleged incident for the first time, the former model claims Trump grabbed her as she came out of the bathroom of his VIP box at the US Open tennis event, forced his tongue down her throat and held her in a grip from which she could not escape. Trump's lawyers said he denied in the strongest possible terms having ever harassed, abused or behaved improperly toward Dorris

domingo, janeiro 26, 2020

E, por falar em escândalos, um que deve ser visto:
Bombshell


Numa outra vida trabalhei num edifício muito grande, o maior onde trabalhei até hoje (e se tenho trabalhado em grandes edifícios). Esse edifício tinha vários elevadores e um deles era exclusivo para a administração. O andar onde trabalhava a administração tinha uma belíssima vista sobre a cidade e era um lugar a todos os títulos reservado. Tive várias reuniões lá. Saía-se do elevador e entrava-se num lugar quase misterioso. Não era possível saber quem lá estava. Os motéis devem ser assim. Estava dividido em compartimentos. Melhor dizendo: em apartamentos. Cada um tinha a antecâmara da secretária. Depois entrava-se numa sala de reuniões ampla, toda em madeira, muito bem decorada, com belas obras de arte. Essa sala tinha uma casa de banho privativa. Dali havia um corredor e, ao fundo, o gabinete do administrador, creio que também com casa de banho completa, onde se podia inclusivamente tomar banho. Não sei se havia mais divisões em cada apartamento. Trabalhavam nesse piso creio que uns cinco administradores e respectivas secretárias mas presumo que raramente se vissem a menos que se visitassem. Do outro lado do hall dos elevadores era o salão nobre, onde decorriam os conselhos de administração.

Quando eu conheci essas instalações, não conheci já os anteriores administradores. O que sei é que se falava que, por vezes, alguns desses senhores recebiam visitas e nessas alturas ninguém se podia aproximar sequer da secretária. Diziam isso e riam-se. Falava-se em grandes farras. Diziam que, nessas alturas, o espaço ficava interdito. Também ouvi dizer que o barbeiro ia lá para cortar o cabelo a alguns dos senhores mas isso era às claras.

Soube que, anos mais tarde, um dos senhores, numa outra vida, já um homem com uma idade algo avançada, teve um caso com uma secretária, na altura mais nova que qualquer dos filhos. Contudo, consta que o que começou por ser mais uma das suas investidas se transformou num grande amor, amor que terá tido um desfecho triste e digno.

Já aqui o tenho dito: em toda a minha vida profissional, conheci casos e mais casos. Muitos. Durante uns anos era porta sim, porta sim. Quase todos os meus colegas tinham um caso, uns mais à socapa, outros completamente às claras. Também já o contei: quando um colega nosso, o mais talentoso e brilhante, morreu prematuramente, a capela estava cheia, a rua cheia. A mulher estava, naturalmente, inconsolável. Todas as suas ex-namoradas também. Estavam lá todas. Todas, excepto a mulher, sabiam umas das outras mas desculpavam-no, achavam sempre que a culpa era das 'outras'. Faziam cenas de ciúmes se ele não lhes dava a atenção que requeriam. Em contrapartida, para ele tudo aquilo era uma festa. Lembro-me dele sempre na maior alegria. Mesmo quando foi apanhado por um colaborador que tinha ficado a acabar um trabalho, já fora de horas, em pleno acto, em cima da mesa de reuniões, ficou na maior descontração. Não se falava de outra coisa e ele divertido, como se aquilo fosse com outro.

Eram eles que estavam disponíveis para os romances e eram elas que os assediavam ainda mais do que eles a elas. A minha secretária teve um caso com o meu melhor amigo e o que ela se atirava a ele era de antologia. Nunca assisti nem nunca tive conhecimento de casos de assédio sexual pois tudo a que assisti foi consentido de parte a parte. Mas o que posso dizer a propósito disso é que tenho tido sorte por trabalhar em empresas decentes (apesar de forrodobó que por vezes acontecia nos bastidores).

Contudo, que existem casos de assédio existem e acredito que nos meios em que a concorrência é mais feroz e em que há uma certa predisposição para considerar que os atributos físicos se sobrepõem aos restantes ainda mais os haverá.

Ao ver o filme que vi hoje, várias vezes me encolhi, incomodada, desconfortável, a pensar que, se fosse comigo, chamaria ao velho babaca estafermo, troglodita, tarado, estúpido, que fosse dar banho ao cão -- e sairia porta fora, dizendo alto e bom som que internassem o homem porque estava doente. Mas isto sou eu a falar.

Sei lá se, querendo muito o lugar e temendo consequências e, ao mesmo tempo, tolhida pelo nojo e pelo medo, não saíria dali em lágrimas, pegando na trouxa e saindo da empresa em silêncio, com medo que ainda pensassem que eu é que tinha incentivado o anormal.

Amanhã talvez consiga pegar no computador mais cedo e explicar porque é este fim de semana não tenho tempo para responder a mails nem para escrever os testamentos do costume. Mas venho aqui recomendar que, se puderem, vão ver o filme. Fomos vê-lo esta tarde e gostámos bastante.

Muito bom, muito actual, muito bem feito, muito bem interpretado. E um trabalho de caracterização extraordinário.
Bombshell is a 2019 American biographical drama film directed by Jay Roach and written by Charles Randolph. The film stars Charlize Theron, Nicole Kidman, and Margot Robbie, and is based upon the accounts of several women at Fox News who set out to expose CEO Roger Ailes for sexual harassment.
O Escândalo 



Abaixo, algumas imagens reais que se vêem, reproduzidas, no filme


E imagens reais sobre o que se passou


E a todos desejo um belo dia de domingo

quarta-feira, outubro 17, 2018

Me too...?
[Sedução, assédio e outras cenas]




Quando se trabalha uma vida inteira em empresas grandes, vê-se de tudo. De tudo. Mas agora menos. Agora o pessoal está todo muito comportado, muito normalizado, não há gente a dizer inconveniências, quase não se vê pulada de cerca, tropelia de bradar aos céus, desafio real. Mas épocas houve em que sim e eu vivi-as. Directores e secretárias, doutores e engenheiros e jovens estagiárias. Tantos, tantos casos. Vi de perto. Acompanhei, aconselhei, partilhei confidências. Anos e anos de vida entre homens e mulheres, chefes e chefiados. 

E nunca, nunca, nunca soube de qualquer caso de assédio de chefe sobre chefiada, de homem sobre mulher. Sedução, sim, muitas vezes. Flirts, sim, muitas vezes. Casos, sim, muitos.

Não juro que não tenha havido: digo apenas a verdade, que nunca deles soube.

Nem sempre a sedução era recíproca e aí a coisa morria ali. Nem sempre a sedução escondia amor e, aí, os casos não duravam muito. Por vezes, a sedução transportava a semente do amor e, aí, depois de dúvidas e sofrimento, o casinho transformava-se em caso sério.

O meu melhor amigo teve um caso com a minha secretária e agora vive com ela. Não se divorciou da mulher e agora passam as festas em alegre comunhão pois nunca deixou de gostar dela e apenas se separou porque a mulher pôs os pés à parede: escolhe com quem queres viver, cm as duas ao mesmo tempo é que não.

Outro colega, teve um caso e depois casou-se com a secretária, uns trinta anos mais nova, uma vampe de voz grossa que morria de ciúmes dele. Depois morreu ele ela transformou-se numa improvável e aparatosa viúva.

Mil casos. Outro foi visto a sair do gabinete, atrás da secretária e ainda a fechar o fecho das calças. 


Outra, uma elegância de fazer parar o trânsito, que entrou para estagiar comigo e depois entrou para o quadro, teve casos com vários, levando-os para a casa onde já vivia com o namorado e, quando se casou, convidou-os a todos, a eles e às respectivas mulheres.

Elas derretiam-se. Ter um caso com um director era uma emoção. Atiravam-se a eles à descarada. Eu pasmava com o descaramento. E eles gostavam, claro. 

Havia um, uma força da natureza, teve casos com não se sabe quantas. Diziam: 'até com a timorense'. Era uma mulher muito baixa, muito gorda, muito feia. Afiançavam que sim, que até com ela. Quando morreu, prematuramente, a igreja estava repleta. Todas elas lá estavam. Junto à urna a mulher chorava inconsolavelmente. 

Ainda recentemente, uma jovem, muito bonita e muito casada, quando tinha reuniões com o chefe, um homem pouco mais velho e igualmente muito casado,  aparecia vestida de forma acentuadamente provocante. As colegas faziam reparo ao que ela descontraidamente dizia: 'Então, tenho que fazer pela vida'. 

Outra, vistosa a ponto de ser tratada por 'avião', quando tem reuniões com alguém que ela acha influente, aparece vestida como se fosse uma Bond Girl. Presumo que os homens nem saibam como desviar os olhos. Até eu, se a tenho por perto nesses dias, sem querer, dou por mim a reparar naquele avultado despropósito. 

Que há homens sabujos que tentam aproveitar-se de mulheres indefesas não duvido. Mas há mulheres que igualmente tentam aproveitar-se. Há homens que se insinuam tal com há mulheres que se insinuam. 

Lembro-me de uma colega que tive no início da minha vida profissional. Não era nem muito bonita nem especialmente simpática. Mas era desbragada, desinibida e divertida, por vezes até em excesso. Atirava-se de forma ostensiva ao chefe, um totó, tímido, menino da mamã apesar de ter quarentas e tais. Quanto mais o via atrapalhado mas ela se atirava. Uma vez, de manhã, apareceu com ar apreensivo, que não sabia como devia agir porque, agora que o tinha conseguido levar para a cama, achava que ficava esquisito ele ser chefe dela. E, de facto, a partir daí, discutia com ele, embirrava com o desgraçado. Ao fim de algum tempo, depois de muito atentar o juízo ao pobre coitado, foi-se embora, resolveu ir viajar.

E comigo?

Tenho trabalhado, ao longo de anos, no meio de homens. E posso aqui jurar a pés juntos que nunca nenhum tentou assediar-me. Zero. É que nem consigo imaginar que algum tentasse pisar o risco. Há linhas encarnadas que não podem ser pisadas -- e há que deixar bem claro onde é que elas estão. Piadas, brejeirices, graças, isso sim. Coisas para rir. Inocentes, bem humoradas. Nada mais que isso.

Sempre tive grandes amigos, homens, sempre os ouvi conversar com grande à vontade. Nunca lhes vi tiques de assediadores. Nem comigo nem com outras pessoas. E não tenho vivido em ghetos nem as empresas onde trabalhei eram melhores que outras.

Por isso, se me reportar à minha experiência pessoal e ao que testemunhei, o que posso dizer é que nem todos os homens são demónios nem todas as mulheres santas. Nem há ninguém completamente demónio ou completamente santo. Há de tudo, penso que em iguais proporções. 

O movimento #MeToo a mim pouco me diz. Tenho para mim que por cada influente-assediador há também alguém que tentou aproveitar-se da situação, muitas vezes tentando obter vantagem, outras vezes apenas porque o poder é afrodisíaco e dá vontade de provar.

Mas, a haver mesmo assédio -- algum tarado ou tarada, algum doente, insistente, incomodativo/a, mal educado/a, badalhoco/a, alguém que não perceba que não vai ser retribuído e insista nas investidas -- então, sim, há que denunciar. Sem medo. Ou dar um par de estalos.


PS: Não estou a falar de violadores. Violação é violação e, a ser mesmo violação (ie, relação sexual não consentida), é crime e, aí, o caso é sério, não sujeito a funfuns ou gaitinhas.

........................................

E, aos que chegaram agora: aceitem o convite e desçam até ao post seguinte caso queiram espreitar a minha casa.

terça-feira, outubro 16, 2018

Manuela Moura Guedes, uma procuradora que está a tornar a SIC uma bandalheira.
Do caraças também a zaragata entre a Raquel Varela e a Isabel Moreira nos Prós e Contras em torno do #MeToo.
E até lá vi um artista a insinuar que quando quero dar um beijinho a um dos meus pimentinhas estou a assediá-lo e a abrir a porta a futuras violências domésticas.
Foge. A televisão está a tornar-se um verdadeiro manicómio.


Isto, depois dos flamingos, é dose. Mas acho que tem que ser. Eu não queria. Mas sinto que é uma questão de dever. É que estava eu escrevendo sobre aqueles passarinhos cor-de-rosa armados em bailarinas de can-can de perninha de canivete e, na televisão, um pesadelo.

Já antes, ao jantar, querendo paz e sossego, sem querer, fomos dar com uma procuradora a fingir, uma jararaca armada em populista, pré-candidata a qualquer coisa. E atenção ao sinónimo de jararaca porque isto não foi metáfora, não, foi mesmo alerta. Já avisei antes: quando se traz um ovo de serpente para o ninho e se aceita chocá-lo é só esperar a hora em que o bicho vai partir a casca e desatar a sair por aí espalhando veneno, mordendo incautos, fazendo vítimas.

Foi uma luta, incluindo comigo mesma. Queria perceber a dimensão da porcaria que estava a ser aquele espaço de comentário mas, por outro, fui incapaz de suportar tão nauseabundo espectáculo. Não se consegue ver uma coisa assim: é mau demais. Não são apenas os trejeitos, a desbragada desbocagem, os olhares de doninha matreira: é o linguajar, o querer ter a fala do povo, é o avacalhamento da análise política. Se daqui por algum tempo se apresentar a votos, vai ter votos. Haverá sempre gente ignorante que vai achar que ela é frontal, que não tem medo, que vai pôr os safados na linha. E, sabido é, gente ignorante não sabe votar, só sabe é dar tiro no pé. A base eleitoral dos populistas é a gente que eles vão 'fornicar' em primeiro lugar. Cordeiros inocentes.

Vejo o ar apatetado do Rodrigo Guedes de Carvalho e tenho pena. Aposto o que quiserem em como deve interrogar-se mil vezes se tem mesmo que aturar aquilo. Estar ali a fazer o triste número de compère com aquela mulherzinha mal informada e, do que se percebe, mal formada é coisa que uma pessoa decente como o Rodrigo não deveria ser obrigada a fazer. Se alguém da concorrência quer ir buscá-lo é agora a altura certa. Estar ali, no jornal da noite, a dar palco a uma pessoa como a Moura Guedes suja qualquer carreira pelo que acredito que ele esteja mais do que disponível para se mudar para ambientes menos poluídos.

A SIC acha que contratando gentinha como a que tem vindo a contratar -- gente que diz mal gratuitamente de tudo, mesmo das coisas boas, gente que manipula, distorce, 'abandalha' a conversa por tudo e por nada -- vai ganhar audiências, mas daqui aviso: engana-se. Para bandalheiras já há outros canais e, mal por mal, quem gosta mesmo de bocas javardolas, prefere atascar-se na lama a sério. É que, parecendo que não, ter ali o Rodrigo Guedes de Carvalho de ar acabrunhado ainda nos faz perceber que aquilo ainda não bateu completamente no fundo e ainda nos dá alguma esperança que ele, em directo, um dia ainda se levante, atire com os papéis ao chão (os papéis ou o iPad) e diga alto e bom som: 'Bardamerda para o populismo'.

Não consegui ver toda a intervenção da dita procuradora. Não aguentámos. Aquilo é mesmo abaixo da linha de água, aquilo é mesmo uma vergonha.

E, tendo feito zapping à Bocas Moura Guedes, eis que, passado um bocado, chego à sala e dou com um duelo de titãzitas: Raquel Varela e Isabel Moreira em animada zaragata por causa do #MeToo. 

Na assistência, uma criatura do sexo masculino de longa e lisa cabeleira, óculos redondinhos e ar a atirar para o alucinado saíu-se com uma de que a violência começa logo com a família a fazer com que as crianças sejam vergadas a ponto de darem beijinhos às avós. Se estivesse ao pé dele dava-lhe logo um puxão de cabelos. Criatura mais doida. Ou teve uma avó com bigode à escovinha e verruga cabeluda cujos beijos o deixaram traumatizado até hoje ou foi assediado por alguma velha que lhe fazia lembrar a avó. Só pode. 

No balcão, uma senhora loura, vestida de branco e uma rosa encarnada e espumante ao peito, mostrou-se logo insurgida. Béu, béu, não sei quê. Não sei quem era nem ao que ia mas, pelo ar e pelo tom de voz, palpita-me que seja do movimento Pró-Vida. Se bem que não sei o que é que o Pró-Vida tem a ver com o MeToo. Na volta são movimentos rivais e aquilo ali era mas era um campeonato.

No meio disto a Isabel Moreira, irritada com a Varela, já mal escondia a raivinha estrepitosa que subia dentro dela. E a Raquel Varela, com aquela pose superior, mal disfarçando que dentro dela existe uma feroz fräulein, uma dominatrix de bota de tacão e chicote na mão, levantava o queixo e lançava farpas venenosas às virgens ofendidas encabeçadas pela Moreira.

Não sei quem ganhou porque fugi dali a sete pés. 

No meio daquela luta de galinhas -- rapaz de longa melena incluído -- não faço ideia quem ganhou nem sei bem qual a causa que aquelas ali defendiam. Penso que a Raquel é mais da linha ajoelhou tem que rezar e a Moreira é mais na base do querido foi tão bom até aqui mas agora já chega, faz favor de sair

Também estava lá um senhor com alguma idade e uns papos nos olhos que percebi que devia ser psiquiatra e que, do que vi, atirou algumas ao lado. Mas, lá está, no meio daquela confusão, não sei se a ideia não era mesmo atirar bolas para o pinhal. Só sei que, às tantas, um jovem, não sei se cientista, mostrou umas folhas, uma por cada assediador: um cientista rodeado de mulheres que me pareceu que tinham pouca roupa e um glaciar ou nem sei bem o quê que até mudou de nome para evitar conotações assediantes. Parece que o padrinho que lhe tinha dado o nome tinha tentado meter o bedelho onde não devia. 

Uma maluqueira pegada.

Também reparei na Fátima Campos Ferreira: estava atónita e sem conseguir ter mão naquele cri-cri todo que para ali ia. Dá para perceber. Eu ainda tinha um comando para fazer zapping mas ela, coitada, teve que gramar aquele descabelamento até ao fim. 

______________________________________________________________


Salvou-me a noite o Zé de Abreu. Anda a dar um belo abre-olhos à tonta da Regina Duarte -- que deve estar toldada das ideias para apoiar o palhaço Bolsonaro -- e não se deixa papar pela safada da Carola e pelo inútil do Remy. 

E disse.

------------------------------------------------------------------------------------------

E queiram deslizar e ir de visita até a um exército de flamands roses. Uns verdadeiros galãs que sabem ter graça na forma como se exibem. 

-------------

sexta-feira, outubro 05, 2018

CR7 - O início da descida aos infernos?


Nisto do Cristiano Ronaldo com Kathryn Mayorga há várias coisas que me incomodam, muitas, e nem vou aqui pôr-me a enumerá-las. Li os artigos do Der Spiegel e fiquei com uma ideia diferente da que tinha ao ouvir as notícias resumidas das televisões e as gordas dos jornais. Tenho agora a ideia de que pode vir por aí uma descida aos infernos para o melhor do mundo, o nosso CR7. 

O ter sido retirado da homepage de um reputado site, as preocupações manifestadas pela Nike e pela organização Save the Children são talvez o mote do que está para vir. 

O mundo do mediatismo (em especial, do mediatismo como fora de negócio) é perverso, pouco contemporizador, pouco paciente, muito ingrato. Facilmente se predispõem a pagar milhões e, com a mesma facilidade, de um dia para o outro, se determinam a retirá-los. Os contratos acautelam situações como as que Cristiano Ronaldo está a viver. Com sérias acusações de violação e pagamento pelo silêncio após a alegada vítima ter apresentado queixa na justiça, CR7 não apenas vê a sua imagem afectada por pesados danos reputacionais como a sua carreira profissional enfrenta sérios riscos. CR7 pode, muito rapidamente, deixar de ser um activo apetecível para se tornar um activo tóxico. A sua não integração na lista dos seleccionados para os próximos jogos da Selecção é a parte mais visível do que pode estar para vir. Se acontecer o pedido de extradição, Cristiano Ronaldo pode, até, não poder viajar para não correr o risco de ser preso e levado a um tribunal onde o crime de violação pode implicar, até, a pena de prisão perpétua. Ora a vida de um jogador de uma equipa como a Juventus é feita de viagens.

Mas não é só o risco de perder contratos publicitários milionaríssimos ou de ver a sua carreira futobolística sofrer um sério revés. Há riscos maiores. Não deve ter sido apenas Kathryn Mayorga que participou em farras com o jovem que se sentia dono do mundo, namorando com jovens modelos internacionais, frequentando o jetset, divertindo-se em bares, discotecas, iates, hotéis e deixando à solta o seu 1% em que não era um bom rapaz (vide artigo linkado). Imaginemos que pisou a linha vermelha mais vezes. Imaginemos que, se isso aconteceu, aparecem mais queixosas. Haver uma queixa ainda pode haver e quem (não tendo lido o artigo e admirando-o incondicionalmente, ponha as mãos no fogo por ele) ache que Kathryn é uma oportunista à procura de fama e de dinheiro fácil. Mas começar-se-á a vacilar se começarem a aparecer mais queixas. Aí a coisa pode tornar-se deveras mais complicada.

E nem vou imaginar o que as mulheres que deram à luz os três primeiros filhos de Ronaldo -- mulheres de quem nunca se ouviu nada -- podem lembrar-se de fazer. Nós não sabemos quem elas são mas acredito que elas saibam quem é o pai dos filhos e acompanhem o crescimento das crianças pelas revistas. Portanto, nunca se sabe o que lhes pode passar pela cabeça.

Tudo estará bem blindado, com clausulados à prova de bala. Cristiano Ronaldo paga bem a bons advogados que fazem bons contratos, tão bons que até acautelam tudo, até aos mais ínfimos pormenores, incluindo a forma como pagam o silêncio das alegadas vítimas para que as Autoridades Fiscais não desconfiem da entrada de grandes maquias de dinheiro e não resolvam ir atrás. Mas também o Lobo Xavier garantia que a justiça espanhola não tinha maneira de o apanhar na questão da fuga aos impostos e foi o que se viu. O CR 7 pagou e pagou bem e vamos ver o que ainda vem por aí.

Portanto, enquanto as revistas do coração e as redes sociais andavam entretidas com tricas domésticas que não passavam do azedume e o distanciamento entre a noivinha Georgina e a sogrona Dolores -- uma em Itália, poses de diva, e outra nos Açores, longe dos netos que ajudou a criar -- o que, na verdade, estava a acontecer era bem pior que isso.

Entretanto, apesar dos meus mixed feelings em relação a tudo isto 
(porque tenho a firme convicção de que quem viola uma mulher não tem perdão e quem usa o seu poder económico para silenciar as vítimas também não -- mas, por outro lado, não sei se as acusações são mesmo verdadeiras pois um multimionaríssimo CR7 é alvo fácil para gente oportunista e, parecendo Kathryn sincera e o parecendo o caso bem sustentado, a verdade é que não a conheço de lado nenhum e quem tem que ajuizar é a Justiça e não eu) 
vou ficar a fazer figas para que a minha intuição esteja completamente errada. 

No outro dia o meu marido comentou, em voz off, com o meu filho o que se está a passar. Pois o menino do meio, doido por futebol, ouviu e percebeu qualquer coisa e, acto contínuo, com ar aflito, pergunto: 'O Cristiano Ronaldo vai ser preso?'. E estava mesmo assustado. Desconversámos mas tanto insistiu que lá lhe disse que o CR7 tinha feito um disparate há uns anos e que uma pessoa tinha ficado zangada com ele. Ele ouviu, apreensivo. O meu filho disse: 'Vai ficar a pensar nisto'. E eu fiquei a pensar em todas as crianças para quem o CR7 é um ídolo e desejei que tudo isto fosse mentira.

________________________________________________

E hoje fico-me por aqui. Cheguei a casa tardíssimo, perto da meia-noite, e a verdade é que estou aqui só a cair para o lado, já completamente a dormir.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Os uritrottoirs que estão a fazer estalar a polémica em Paris.
E Avital e Nimrod, o gay e a queer que não se entenderam com as suas comunicações exuberantes e exageradas


Pois muito bem, sim senhores. Agora que já jantei um caldinho de se lhe tirar o chapéu e que já relatei a minha ida à praia, relato esse devidamente ornamentado com os cromos possíveis, passo para as notícias que se destacam na actualidade estivalense. Claro está que vou fazer descer o oblívio sobre temas mais sérios ou pungentes. Por exemplo, recuso-me a falar sobre a queda da ponte de Génova. Não apenas não percebo patavina de engenharia civil como presumo que possa lá ter passado não há muito tempo e, sobretudo, é das cidades que mais me impressionou quando a conheci.

Estamos a meio de Agosto, estou a precisar de férias e a minha vida agitou-se numa altura em que seria suposto navegar em águas paradas. Portanto, cansada, encalorada e levemente saturada, a minha capacidade para abarcar temas mais complexos anda na vizinhança da linha de água.

Deve, pois, ser por isso que, de entre tudo o que se passa pelo mundo, Portugal incluído, só duas notícias chamaram a minha atenção.

1ª - Uritrottoirs


Primeiro, a cena que inventaram para ver se as ruas de Paris deixam de ser um mictório a céu aberto. Talvez a moda pegue e venha a ser adoptada também por cá. Se até há algum tempo era raro ver-se algum homem a urinar em público e apenas víamos homens que, aflitos, procuravam um canto -- admitindo nós (eu, pelo menos, admitia) que fosse alguém com algum problema na próstata -- agora, volta e meia, vejo um qualquer descarado, na maior descontracção, a urinar num lugar que não lembra ao diabo, indiferente a quem passa. 

Mas volto à cidade luz. Não sei se por haver poucas casas de banho públicas ou porque grande parte de quem anda em Paris é gente a passeio e, portanto, que passa parte do dia na rua, a verdade é que Paris enfrenta o problema da falta de higiene, de falta de decoro, de falta de civismo. Pois bem. A ideia é daquelas em que, notoriamente, se não os vences, junta-te a eles. Inventaram urinóis no meio da rua. Têm um desenho moderno, têm flores em cima e, no interior, têm palha que, pelos vistos, absorve o pivete. A palha ensopada é misturada na terra que, assim enriquecida, fica adubada. Só ecologia. Mas também tecnologia: os urinóis estão sensorizados de modo a que, quando estão cheios, é enviado um alerta para que venham esvaziá-los.

Aparentemente uma ideia razoável. No entanto, a polémica estalou e, vendo bem, com montes de razão. Em primeiro lugar: só os homens é que são mijões? Então e solução para as mulheres? Em segundo: e quem garante que isto não é chamariz para exibicionistas?

Defendem-se os autores da ideia: o problema que sempre existiu era com homens, não é costume verem-se mulheres, acocoradas pelos cantos, a fazerem xixi. Sabido é que as mulheres são mais reservadas, preferem aliviar a consciência, a bexiga e tudo o mais com alguma privacidade. Dizem ainda que pode não ser uma ideia à prova de defeito mas que mais vale assim do que paredes e passeios sujos e mal cheirosos.

E eu, sobre isto, o que tenho a dizer é que me parece um despropósito. Ao menos que tivesse umas palas de lado porque ninguém tem que dar de caras com uma cena destas, um mijão em pleno acto. Mas, se isto ajuda os homens que não conseguem conter-se, então, olhem, paciência, que seja.

2ª Avital Ronell e Nimrod Reitman numa versão estapafúrdia do #MeToo


Aqui a coisa é toda ela amalucada ou, pelo menos, assim me parece. Transcrevo excertos do DN.

Avital Ronell é uma conhecida professora universitária, filósofa e feminista. Ensina Literatura Alemã Comparada e foi numa pós-graduação que teve como aluno Nimrod Reitman, o estudante que a acusou de assédio sexual. A Universidade de Nova Iorque (UNI) investigou e, ao fim de 11 meses, concluiu que ele tinha razão e suspendeu a docente.

Reitman, que tem agora 34 anos e é professor visitante em Harvard, diz que Ronell o assediou durante três anos, facto que o levou a apresentar queixa dois anos depois de se doutorar. Acrescenta que a docente o beijou e tocou repetidamente, dormiu na cama dele, exigiu que ele se deitasse na cama dela, mandou-lhe mensagens, e-mails e que lhe ligava insistentemente recusando-se a trabalhar com ele se as suas atenções não fossem retribuídas.

Ronell, de 66 anos, nega qualquer tipo de assédio. "As nossas comunicações, que Reitman agora diz terem sido assédio sexual, foram entre dois adultos, um homem gay e uma mulher queer, que partilham a origem israelita, assim como a inclinação para comunicações exuberantes e exageradas decorrentes de experiências e sensibilidades académicas comuns", respondeu ao NYT. Sublinha que as comunicações "foram correspondidas e incentivadas por ele ao longo de três anos". Etc, etc, etc (...)

Ou aqui, no Expresso:

É a hora do nosso beijo do meio-dia. 
A minha imagem durante a meditação: estamos no sofá, a tua cabeça no meu colo, a acariciar a tua testa, brincando suavemente como teu cabelo, acalmando-te, dor de cabeça acaba. Sim?". Se esta mensagem fosse enviada por um professor universitário a uma sua estudante 30 anos mais nova, muita gente não hesitaria em dizer que era um comportamento impróprio. Para mais se o professor tratasse a aluna com termos equivalentes aos que uma distinta professora na NYU, em Nova Iorque, dirigiu a um seu estudante: "Bebé fofinho", "meu adorado", "anjo bebé amor", um arriscado "gostava de te poder raptar" e um atrevido "cock-er spaniel" (um trocadilho que mistura uma alusão ao pénis, 'cock', com uma raça de cão"). (...)

A polémica desencadeada pelas feministas em defesa da bizarra Avistal não se fez esperar, com Nemrod a perguntar se o assédio só é para levar a sério se for ao contrário.

E eu, face a isto, o que me ocorre é que este caso deve dar um filme e dos cómicos. Só de imaginar as cenas em que a a Avital perseguiu o Nimrod, o beijou, se enfiou na cama dele e exigiu que ele se enfiasse na cama dela, tudo no maior forrobodó, tudo em exuberante... já me dá vontade de rir. Deve ter sido de gritos. E o facto de ela se vir justificar, dizendo que o que se passou foi o normal entre um gay e uma queer, parece-me ainda mais delicioso. Podia ter-lhes dado para pior, é o que eu tenho a dizer. E isto para não ficar calada.