Mostrar mensagens com a etiqueta Alexej von Jawlensky. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexej von Jawlensky. Mostrar todas as mensagens

sábado, julho 31, 2021

Touch me.
Em silêncio, se faz favor.

 



A improvável indiferença pelo conhecimento de si. É o que eu sinto sobre mim e o que aprecio nos outros. 

Há pouco passei na rtp2. Não me toques. Touch me not. Mulheres falando de si, um homem que quis ser mulher, uma mulher dizendo que não saberia o que dizer do seu corpo, homens dizendo coisas que talvez façam sentido, mulheres confidenciando sobre medo, raiva. Ouvem-se com atenção. Há silêncios, hesitações. Adina Pintilie quer saber, presta atenção à intimidade descrita. Parece haver ansiedade entre os participantes. Outras vezes, indiferença. Não alegria.


Nada disso me interessa muito pois a racionalização sobre si-mesmo é matéria que me parece frívola. Bem sei que há quem a ache profunda e bem sei que em certas circunstâncias é fundamental para que algumas pessoas possam ultrapassar alguns demónios ocultos. Que seja. Não julgo. Apenas não me identifico. 

Não sei se é essencial uma pessoa conhecer-se. Acho que a pretensão do conhecimento de si é uma pretensão estulta. Ninguém poderá alguma vez conhecer-se. Nem que todas as suas células fossem desdobradas e mapeadas e estudadas à lupa, nem assim alguém ficaria com o conhecimento de si. Não somos células, somos bem mais que isso. Não somos memórias, somos muito para além disso. Mesmo que descodificássemos as nossas emoções ficaríamos na mesma: somos muito mais do que isso. Somos a mais pura abstração. E, para melhor nos identificarmos com abstrações, deveremos olhá-las de longe, sem as querer perceber ou interpretar. A interpretação de uma abstração não é apenas um exercício desnecessário: é, sobretuto, absurdo. Deveremos manter-nos desconhecidos, misteriosos, relativizar-nos, olhar-nos de longe, ignorarmo-nos.

Digo isto sem certezas, só com intuições. Há quem ache que o passado deve ser desenterrado, escalpelizado, interpretado. Mas eu tenho dúvidas. Não é preferível pensar, antes, no futuro? Não é preferível apostar antes na tolerância, na generosidade, na capacidade de ver o outro lado, na ousadia?

Não sei.

Se uma mulher não sabe sobre o seu corpo, em vez de tentar perceber as causas desse desconhecimento, não seria preferível incentivá-la a ousar, a arriscar, a perder o medo ou a vergonha e, sobretudo, a deixar de pensar tanto no assunto? 

As palavras são importantes mas devem ser como véus que se vão deixando cair. Quando, pelo contrário, as palavras são usadas como véus que se vão colocando sobre as emoções, sobre os sentimentos, então é como se fossem escolhos que se vão colocando no caminho.

Que interessa ter a pretensão de conhecer o corpo? Conhecer como? O corpo muda ao longo do tempo. Conhecer o que faz bem ao corpo? Como? A cada dia que passa vamos descobrindo novos benefícios de cuja existência antes nem suspeitávamos. 

Entrar no mar, mergulhar. Nadar. Apanhar sol na pele nua. Sentir umas mãos sobre o nosso corpo. Ouvir um poema. Beber um sumo fresco num quente fim de tarde. Ouvir contar histórias cheias de mistério. Entrar numa montanha. 

Tudo melhor do que falar sobre o próprio corpo, sobre si.

Na rtp 2 vejo agora um encontro de excessos. Corpos nus como que exorcizando fantasmas. Também não me interessam. Há alheamento, alienação nisso. Ou exploração e condescendência face à diferença. Não me identifico. Prefiro os momentos simples, animais que se procuram. O corpo prefere o silêncio. Quanto muito, um poema dito, quase num murmúrio, ao ouvido. Ou, quase em silêncio, rente à pele. As palavras, quando são demais ou quando acontecem em momentos inoportunos, são mera poluição.

Mas, lá está, posso estar enganada. Se calhar não percebi nada.

No fim, a mulher, nua, dança. Os pesados seios dançam também. A mulher ri, os seios também. Disso eu gostei.

_________________________________

As pinturas são, respectivamente,:

  • Red nude, Marino Mazzacurati, ~1936 circa
  • Lily and the Sparrows, Philip Evergood, 1939
  • Portrait of Madame Tallien, Jean-Bernard Duvivier,1806
  • Portrait of the Dancer Aleksandr Sakharov, Alexej von Jawlensky, 1909
  • Saint Sebastian, Bronzino, ~1533
  • Sleeping Woman, Alexej von Jawlensky, 1910
na companhia de Hildegard von Bingen que compôs De virginibus

________________________________________





__________________________________

Desejo-vos um sábado feliz

terça-feira, outubro 01, 2019

O que fazer para voltar a adormecer quando se acorda a meio da noite?




Este ano, as minhas férias foram muito boas e descansadas (noc-noc-noc, já bati três vezes na madeira para que assim permaneçam, apesar de já terem acabado). 
Ao contrário das férias de há dois anos em que passámos o tempo todo a caminho de hospitais, um hospital a cinquenta quilómetros do outro, dois internados mal, mal ao mesmo tempo, e ora piorava um, ora piorava outro, até que um teve alta e o outro piorou e depois o que teve alta piorou e voltou ao hospital para, poucos dias depois, piorar definitivamente e se ir e o outro ir para casa com alta mas cada vez mais debilitado. E, como se fosse pouco, logo depois, creio que no dia em que o que morreu (mais concretamente, a que morreu) se enterrou, soubemos que um primo do primo, rapaz mais novo que nós e saudável como um pêro do campo, tinha ido desta para melhor sem que nada o fizesse prever, deixando-nos atarantados, sem conseguirmos perceber, sem querermos acreditar.
No outro dia, por mail, falei numa amiga que morreu no início deste ano e que me deixou abalada, até porque foi a primeira que se foi. Dizia eu que, até aqui, era geralmente avós, tios, sogros, gente mais velha, os que estavam na linha da frente. Mas, afinal, não foi a primeira, não. O primeiro foi este que, incompreensivelmente, se foi no verão de há dois anos. Ainda hoje nos parece mentira.

Mas nada disto vem ao caso. O que vem é que, este ano, tive umas férias 'grandes' tranquilas e, portanto, descansei. Vim com o corpo descansado. E não sei se acumulei descanso a mais ou se foi o organismo que não se adaptou ao ritmo do dia-a-dia ou se é que aterrei num período carregado, carregado de trabalho, ou se, de repente, se conjugaram vários projectos disruptivos e que exigem bastante de mim -- o que sei é que, nos primeiros dias da rentrée, tive uma espertina desgraçada. E, mesmo tendo, ao fim de alguns dias, quase normalizado, ainda me acontece, de vez em quando, ir para a cama perdida de sono mas, uma vez deitada, espertar e ficar às voltas ou, outras vezes, acordar a meio da noite e está bem, está, voltar a dormir é o voltas, ou, mais chato ainda, acordar mais cedo do que devia e, claro, ver que já não vai dar tempo e, toda chateada, já não conseguir adormecer. E sonho. Sonhos nos quais acordo e que me deixam a pensar neles. Sonhos bizarros. Eu não preciso de dormir muitas horas durante a semana -- até porque tento repor ao fim de semana -- mas preciso que sejam horas seguidas, de penalti e de género apagão. E esta moda nova, de agora andar com dificuldade em dormir descansadamente durante as (poucas) horas que estou na cama, anda a maçar-me. Nunca me tinha acontecido.

Foi, pois, com curiosidade que li no Madame le Figaro: Ce que vous devriez faire pour vous rendormir après un réveil en pleine nuit.

E porque pode ser útil a alguma das pessoas que, por aqui, me acompanha, vou partilhar algumas dicas.

1. Não ver as horas. Ver as horas faz com que calculemos as horas que faltam até nos levantarmos e isso aumenta o stress. Nem ter à vista despertadores, visores de telemóvel, etc. Aliás, dizem que uma hora antes de se ir para a cama já não deveria haver telemóveis ou computadores ligados a despertar a nossa atenção.

2. Ao longo dos exercícios respiratórios que se seguem, manter sempre a língua encostada ao céu da boca, tocando na parte interior dos incisivos. Respirar segundo o ritmo 4-7-8. Contar até 4 enquanto inspira pelo nariz, contar até 7 enquanto retém a respiração, contar até 8 enquanto expira pela boca. Ao fim de pouco tempo, o corpo deverá sentir já algum torpor.

3. Se o sono não chega, encaminhe-o para tal. Pense que o corpo está pesado, enterrado no colchão. A cabeça, as costas, as coxas. Pense no corpo, sinta-o pesado. Provavelmente, entretanto, adormece.

4. Coloque-se na posição que lhe for mais confortável. Se lhe der jeito, balance levemente, quase como se estivesse no útero materno. Balancé, balancé, balancé. Devagarinho. Deixe-se acalmar. Tranquilize-se.

5. Se nada disto funciona, levante-se, beba um copo de água ou uma infusão leve (sem cafeína), leia um bom livro. Não mais do que vinte minutos. Não se esqueça: não veja as horas, não espreite o telemóvel. Volte para a cama e durma. Durma um sono descansado. Durma nos braços de alguém: de um amado, de um anjo da guarda, de um sonho.


E agora, em vez de aqui estar nisto, já deveria era estar em modo de devagarinho, longe do ecrã do computador. Mas ainda aqui estou a pensar no bonito enredo que amanhã tenho para desenrolar e na cabeça fria que tenho que ter para levar a tarde por diante. E tento não pensar que ainda devia ir analisar o longo ficheiro que me enviaram ao fim da tarde. Para me animar, penso que aquilo tem um sumário executivo. Mas isso não me consola. E também tento não pensar no mail carregado de anexos que me enviaram de novo, lembrando-me que já devia ter respondido. E sei que devia ir olhar para isso agora mas o meu coração balança. Balança entre o ir dormir já ou deixar-me ficar aqui a ouvir a telenovela brasileira enquanto, contrariada, me sacrifico. Preguiça. Preguiça. Tanto que me apetecia agora desatar a escrever histórias vagabundas e aqui estou presa ao que acho que devia ir fazer e contrariada porque não me apetece fazer. Sou uma mulher dividida, não tenho como escondê-lo.

---------------------------------------------

Anda, Sergei, voa,


--------------------------------------------------

Pinturas de Marie Fox (a primeira e a terceira), Pino Daeni (a segunda), Władysław Ślewiński (a quarta) e Alexej von Jawlensky (a última) -- tudo com mulheres a dormir -- ao som das folhas de Outono pela voz de Angelina Jordan, a menina cuja voz anda sempre carregada de blues. Prezo muito o valor das pessoas de valor mesmo quando são menores. No fim, o belo Sergei Polunin voa como se o mundo fosse durar para sempre e eu olho para ele com vontade de que a parte bela do 'sempre' caiba toda dentro dos meus efémeros instantes.

------------------------------------------

E uma boa terça-feira. Be happy.