De tarde, chamados pela luz suave e dourada, pelo prenúncio de primavera que nos trouxe temperaturas muito aprazíveis, e, sobretudo, pelo menos pela parte que me toca, pela necessidade de oxigénio, fomos para a beira do rio.
O prazer de andar e conversar num dos lugares bons da cidade, a diversidade de gentes com que nos cruzamos, o sol sobre o rio, a boa companhia, tudo isso é remédio certo para lavar a alma.
Em tempos fotografava pessoas. Adorava. Sentia-me sempre uma observadora clandestina e, ao mesmo tempo, transparente. Já conseguia antecipar os movimentos das pessoas, as suas expressões. Estava de tocaia e, quando a ocasião se proporcionava, disparava. E, aparentemente, ninguém dava por nada.
Tenho muitas centenas ou, melhor, provavelmente, milhares de fotografias de pessoas. Mas depois temia sempre publicá-las pois receava que estivesse a pisar o risco da privacidade. É certo que há mesmo a modalidade de fotografia de rua e muito do que era a sociedade em tempos mal documentados se conhece através do trabalho de fotógrafos de rua. Mas, por via das dúvidas, encolhi-me. E, se não posso mostrar, para quê estar a fazer?
Portanto, agora tento evitar a presença de pessoas. Contudo, por vezes, é impossível deixá-las de fora. Mas, como sempre costumo dizer quando aparecem pessoas nas minhas fotografias, se alguém se reconhecer aqui e não quiser cá estar, bastará que mo diga.
Fomos lanchar ao CCB, depois fui lá tratar de um assunto e, de seguida, fomos passear para a beira do rio.
O que abaixo partilho é parte da arte de rua que por aqui se pode ver. Escultura de homenagem ao pessoal clínico em tempos covid, a escultura Central Tejo, os big e engenhosos trabalhos da Joana Vasconcelos (se é arte ou gigantes trabalhos que incorporam design e montagem isso não sei), o mural em que vários artistas homenageiam o 25 de Abril, os belos murais de azulejos com poemas de Sophia, o próprio edifício do MAAT que é escultural.
A última fotografia não foi feita hoje nem é em Lisboa. É em Setúbal, no belo PUA, e é uma homenagem a José Afonso. A minha filha estava lá à frente mas, com o corrector, retirei-a. Não ficou perfeito mas como a escultura é algo 'incerta' a modos que disfarça.
Em dias como estes, é bom sair de casa, andar a passear, a laurear, a flanar, a desopilar, a vadiar, a turistar, a espairecer, a espanejar, a dar ar à pluma. Mas, para quem não possa fazê-lo, aqui fica um cheirinho.
E vi este vídeo de que gostei e que gostaria de partilhar. Já não é Green Renaissance mas Reflections of Life e são sempre tão tranquilos, transmitem serenidade, a vida a ser vivida com vagar, o contacto com a natureza, o prazer de existir de forma simples.
BELONGING - Finding Connection
Quando somos incompreendidos e sem apoio, é fácil sentir-nos sozinhos, como se não nos encaixássemos no mundo que nos rodeia. Mas algo lindo começa a acontecer quando entendemos que nossa singularidade não é uma falha, mas um motivo de comemoração.
À medida que aprendemos a valorizar e a partilhar os nossos dons individuais, reconhecendo a beleza das nossas diferenças, encontramos uma ligação renovada com o mundo - semelhante à harmonia encontrada na natureza, onde cada elemento contribui para a beleza geral da paisagem.
Inspirando-nos no mundo natural, entendemos que abraçar as nossas diferenças é um presente que podemos oferecer ao mundo, tornando-o um lugar mais bonito para todos que nos rodeiam.
A resposta reside em colmatar lacunas, cultivar a empatia e revelar a vibrante tapeçaria da nossa experiência humana partilhada através do reconhecimento e da celebração da diversidade.
Os balneários da piscina são todo um mundo. Em locais assim, mesmo sem querer, fico 'antenada'. As conversas são uma delícia. Muitas vezes acho que são altamente disparatadas, outras que são cúmplices e interessantes.
Há agora muito mais pessoas que antes. Hoje, quando cheguei já o meu cantinho estava ocupado, tive que ir para uma zona para onde nunca tinha ido, para junto de pessoas com quem nunca antes tinha falado.
A zona dos duches já não alberga todas ao mesmo tempo.
Continuo a não ser capaz de me pôr nua no meio das outras. Passo-me por água com o fato de banho vestido. Mas ao meu lado, a escassos centímetros e a toda a volta, as minhas companheiras ensaboam-se alegremente, lavam a cabeça, põem amaciador, viram-se e reviram-se. Algumas levam aquelas coisas que não sei como se chamam (não é esponja, mais parece uma espécie de rede plástica). Há uma senhora, diria que talvez mais velha que eu, que é relativamente baixa e muito gordinha, aliás bastante, bastante gordinha. Para lavar o rabo e os genitais faz uma ginástica extraordinária, baixa-se, curva-se toda, para conseguir chegar com aquela redinha cheia de espumada às partes baixas... E, enquanto está nestas acrobacias continua a conversar como se nada fosse. Fico espantada com o à vontade delas.
Hoje, já no balneário, uma mulher simpática, neste caso bem mais nova que eu, conversava comigo sobre o peso que já perdeu desde que faz hidroginástica e natação livre. Contava-me que todos os dias, à hora de almoço, vai para ali, dois dias de hidro e três de natação. Que gostava de fazer caminhada mas estava com excesso de peso, doíam-lhe os joelhos, deixou de caminhar, cada vez mais sedentária. Então resolver mudar de maneira de viver. Mudou a alimentação, começou com a piscina, ao fim de semana caminhada. E dez quilos já lá iam... E, enquanto conversava comigo, toda nua, aplicava hidratante em todo o corpo, na maior das calmas. E eu, com uma toalha gigante cobrindo a minha nudez e vestindo-me, por dentro da cortina do toalhão. Não sei porquê isto. Que pudor meu é este que não me deixa despir-me, lavar-me, hidratar o meu corpo em público?
Hoje o meu dia foi mais tranquilo. Mas ando num estado em que parece que estou sempre em estado de alerta total, sempre à espera que as coisas descarrilem e que me veja, uma vez mais, em stresses. Por isso parece que não chego a desfrutar bem os instantes de tranquilidade. Até o meu sono anda inquieto, sempre com sonhos em que há situações de preocupação ou susto, acordando meio sobressaltada. Por isso, quando acordo, agora, volta e meia, estou com dor de cabeça.
Mas, enfim, hoje não foi mau de todo pelo que tenho é que aprender a conseguir desligar nos momentos tranquilos, nem que seja para recarregar baterias para quando tiver momentos intranquilos.
Antes de terminar, conto o que cozinhei agora para o jantar, num instantinho e que ficou bom.
Tinha trazido lombos de atum congelados.
Descongelei. Numa tigela, coloquei cebola-doce cortadas às rodelas, os lombos de atum, mais rodelas de cebola, salta picada, um pouco de sal, um pouco de azeite e o sumo de duas limas. Ao fim de um bocado, se calhar aquilo estava ceviche e comer-se-ia bem assim. Mas não arrisquei.
Depois coloquei num tacho azeite e a cebola que estava a cobrir o atum e, em lume muito brando e com o tachinho tapado, deixei a cebola amolecer.
Entretanto, noutro tacho cozi batata com casca cortada em rodelas largas. Quando estavam cozidas, escorri, temperei com azeite e orégãos.
No tacho em que estava a cebola, coloquei os lombos de atum marinado, depois piquei um tomate grande, maduro e esguichei um pouquinho de ketchup. Em lume brando, tapado. Ao fim de uns minutos, não sei se chegou aos cinco, desliguei. Deixei ficar tapado, envolvendo tudo bem, umas coisas nas outras.
Digo-vos que estava mesmo bom. O atum mal passado, macio, a saber a lima e ao tempero bom, o tomate picado ainda com leve sabor a fresco, as batatinhas com todos os sabores absorvidos.
Ainda há bocado estiveram a tocar-nos à campainha. Devem ser os miúdos aqui do burgo. Ao fim da tarde, noite cerrada, vimos dois grupos de fantasminhas, serezinhos diabólicos, ruidosos mascarados.
Para descelebrar o dia, plantei aqui graffitis que talvez tenham alguma coisa a ver com o dia das bruxas, Creio que são da autoria de Plast (Buenos Aires).
Faz já há algum tempo que aqui não falava de Banksy esse fantástico artista. Não é apenas o seu sentido de oportunidade, a simplicidade e, ao mesmo tempo, a acutilância das suas obras, a coragem de as efectuar tantas vezes em locais arriscados, o sentido poético que tantas vezes imprime aos seus trabalhos -- é também a forma como exige que o seu trabalho seja apreciado independentemente de quem o concebe e executa.
O vídeo abaixo fala disso. Está legendado.
The mysteries of Banksy
Montar a primeira exposição autorizada em 14 anos de obras do artista de rua anónimo Banksy exigiu um planeamento extenso e a elaboração de uma história para esconder sua verdadeira identidade até que ela fosse inaugurada, sem aviso prévio, em Glasgow neste verão. O correspondente Seth Doane explora a arte e os mistérios do mundo de Banksy, incluindo a contínua especulação sobre a verdadeira identidade do artista, um segredo guardado a sete chaves por décadas.
Devo dizer que me incomodam grandemente as grandes concentrações por motivos religiosos. Ainda mais quando os participantes são jovens. Aceitarei razoavelmente se andarem nisto das Jornadas para aquilo que o Cardeal Américo das Multas Aguiar diz: para a borga e para farras. Mas custar-me-á a perceber se alguns vierem numa de beatice, todos muito pios, todos muito formatados, todos numa de virem contactar de perto com o espírito do Senhor, todos disponíveis para participar em sessões que, a mim, me parecem sinistras, coisa quase de seita espírita como uma que vi ontem na televisão em que um padre, creio que americano, dizia que estavam ali em penitência.
A juventude quer-se irreverente, polémica, questionadora, alegre. Haver jovens que acreditam que nasceram pecadores, que a vida é um calvário e que têm que sofrer penitências, parece-me preocupante, doentio.
Em vez da crendice em milagres, fenómenos paranormais ou a irracionalidade de se acharem melhores que os outros, os jovens devem, antes, ser estimulados a estudar, a investigar, a adquirir mais e melhor conhecimento científico, devem ser incentivados a duvidar, a pôr em causa, a ir mais longe.
E já nem falo na hipocrisia dos canalhas que, a coberto do manto da santidade, abusam de seres indefesos ou vivem à larga à custa de nada, ou seja, à custa do dinheiro ou dos bens que os devotos lhes dão.
Gastar 1 milhão de euros como a Câmara de Cascais vai gastar nos trapinhos que a padralhada vai vestir parece-me ofensivo, vergonhoso, inaceitável.
Gastar os milhões de que se ouve falar em palcos, em tretas de toda a espécie e feitio, para que um montão de gente ande na maior ociosidade, a cantar, a sorrir e a achar-se mais santos que os outros , parece-me absurdo, ridículo e contrário ao que supostamente apregoam.
Por isso, gostei de ver a passadeira da vergonha feita de 'notas' no palco principal da JMJ.
Sei que a fé é uma coisa pessoal e, como tal, não questionável. E eu nada tenho contra os crentes. Mas a fé verdadeira é uma coisa íntima. Não é coisa que se ostente ou transaccione. E a forma como a Igreja Católica promove a 'fé' é deformada, negacionista, irracional, doentia.
Dia preenchido e bom mas com uma componente triste.
Deste vez resolvemos encontrar uma solução para não estarmos dependentes dele e ele de nós. A experiência é de curta duração. Pesquisámos, fomos ver, e, para dizer a verdade, a única solução que nos agradou minimamente estava esgotadíssima. Esta foi a segunda escolha. Grande parte das outras vive, quase de certeza, no mais puro amadorismo (e, antecipo, no gostoso mundo paralelo em que não há facturas, não há ivas, não há irs, nadinha, ou seja, o glorioso muito da economia paralela). Alguém que tem um bocado de terreno, arranja umas coisas, alguém que tome conta e está feito, um hotel para cães.
Até fomos dar com uma espécie de Zoo privado, uma coisa que me pareceu inimaginável, desolada, para não dizer sinistra, com camelos, lamas, póneis, cabras, gansos e tudo o que se possa imaginar. E, num bocado, umas quantas jaulas que funcionam como 'hotel para pets'.
Outro, com umas instalações fantásticas, quase parecia uma aeronave asséptica e, na zona de 'hotel', umas jaulas, sobrepostas, ínfimas. Tudo limpo, imaculado. E os animais ali enjaulados.
Este, que escolhemos, está associado a uma clínica veterinária e, do mal o menos, pareceu-nos razoável.
E sabemos que temos que fazer este teste pois não podemos fazer com o ano passado em que o trouxemos para o Algarve e que foi cansativo e stressante para ele e para nós. Mas dói-me a alma deixá-lo, sendo ele tão apegado a nós e nós a ele. Aliás, quando estávamos em casa a preparar as coisas (levámos a cama dele, onde ele já não dorme há um ano pois anda pela casa e escolhe onde quer dormir, ultimamente junto a um cortinado e a uma janela no andar de cima, e levámos os dois brinquedos preferidos dele) já ele devia estar a desconfiar que não vinha dali boa coisa. Deitou-se no corredor, de barriga para baixo, o queixo encostado ao chão, ar infeliz, impotente.
Quando o deixámos lá, tive vontade de me abraçar a ele, arrependida da maldade. Mas disfarcei, disse-lhe só: 'Os donos já vêm, está bem?'. Mas só me apetecia arrepiar caminho. E chorar. Custa-me imenso fazer mal a um ser indefeso. A única coisa que me faz aceitar melhor é que penso que, às tantas, aceita bem, habitua-se, e, de resto, é coisa ultra breve. E, se correr bem, habituar-nos-emos a isso e poderemos ter mais liberdade.
É tudo uma questão de encontrarmos o ponto de equilíbrio.
Tirando isso, está tudo bem.
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Uma terra pode ser visitada com foco nas suas belezas naturais. Ou na arte sacra. Ou na gastronomia. Ou na arquitectura. Ou no comércio. Ou... Ou na arte de rua, nomeadamente nos graffitis. A fotografia lá de cima mostra uma porta pintada, numa rua, numa cidade. Acho-a uma beleza.
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E, porque de um correcto balanceamento e de tentar encontrar o ponto de equilíbrio, aqui partilho um vídeo Chanel
The J12 Series. Chapter 2: A Balancing Act – CHANEL Watches
Claro que preferia estar de férias. Claro que tenho saudades dos abençoados tempos em que havia férias grandes que davam para tudo. De manhã ia à praia com os amigos, de tarde ia passear com eles pela baixa, pela beira-mar. Outras vezes ia passar o dia com os eles para a casa que uns tinham no campo. Na altura era campo mas, de carro, devia ser a cinco ou dez minutos da casa deles na cidade. Hoje é uma zona de moradias da cidade. Depois, quando o meu pai estava de férias, fazia férias com ele e com a minha mãe: íamos para Porto Covo ou para a Curia. Vários amigos meus faziam o Luso mas os meus pais preferiam a Curia. Isso causava-me algum enervamento pois o meu namorado da altura estava no Luso e eu na Curia e, ainda por cima, sempre desfasados. Mas também passava num instante. Estava lá e só pensava que não via a hora de voltar vê-lo. Havia também alguns dias de pura indolência. Lia muito. O tempo esticava de uma forma mágica.
Com o outro namorado era diferente. Passávamos a maior parte do tempo juntos. Mas não era particularmente estimulante pois ele gostava muito mais de mim do que eu dele e, por isso, desse tempo o que recordo é a minha vontade de fazer coisas diferentes das que fazia.
Com o terceiro, aí a música passou a ser outra: estávamos juntos de manhã à noite. No único verão em que namorámos, ele instalou-se numa pousada de juventude perto de mim e, portanto, era praticamente non stop. E era uma coisa equilibrada: estávamos os dois loucos um pelo outro, uma chama que ardia bem à vista de toda a gente.
Quando comecei a dar aulas acabou-se a bela vida. Estudava e dava aulas com horário completo. Tinha reuniões de avaliações, exames a vigiar, provas a corrigir, e isto em paralelo com trabalhos e exames meu na faculdade. E estava casada. Portanto, a coisa começou a apertar. Pior ainda quando fui trabalhar em empresas. Aí o tempo de descanso encurtou-se dramaticamente. Poucos dias e aí já com crianças pequenas. Não eram bem férias, era mais uma interrupção na rotina.
Agora, que tenho tão poucos dias, gostaria de poder ter uma semana sem nada que fazer, nada de nada, não ter compromissos, não ter que ir a lado nenhum nem nada. O meu marido está como eu: diz que gostava de poder ficar deitado no sofá a descansar, diz que gostaria de poder dormir até mais tarde. Claro que estou em crer que, ao fim de uma semana sem fazer nada, já não me aguentaria, já estaria doida para sair, para fazer qualquer coisa.
Quando no verão ficamos no campo, se estamos os dois sozinhos, no primeiro dia arrasto-me. Durmo, estou numa indolência que me deixa inerte. Ao segundo já ando de vassoura na mão, de balde e esfregona de um lado para o outro, limpezas a preceito. Depois já é podão e serrote e já ando de roda das árvores. E a partir daí já estamos os dois desertos para ir até à cidade mais próxima e tudo serve de desculpa: ou ir ao supermercado ou ir ver de alguma ferramenta. Qualquer coisa para nos sentirmos mais perto do mundo.
Ora, como é sabido, o algoritmo do Youtube lê-me os pensamentos, pressente o meu estado de espírito, faz de tudo para me agradar e surpreender. Não tive até hoje ser vivo que assim me interpretasse e assim desse a volta ao mundo para descobrir o que me agradar. Isto da inteligência artificial tem que se lhe diga (e não digam que não avisei -- e, podem crer, sei um pouco do que falo)
Pois hoje o meu bff tinha para me mostrar uma situação extraordinária: um homem que vende o seu tempo para não fazer nada, apenas estar. No vídeo ele explica: resolveu ocupar o seu tempo, um tempo em que nada faz, de forma produtiva. Parece um paradoxo mas não é. Ou, se calhar, é. Tanto faz.
E, curiosamente, está a ter saída. Pessoas que não querem almoçar sozinhas, pessoas que não querem ir a um sítio sozinhas, alguém que quer ter a experiência de um efusivo cumprimento numa estação de comboios, alguém que quer conversar sobre um tema sensível e não quer perturbar a família e amigos. De facto, um mar de possibilidades.
Diz ele que antes julgava que as pessoas muito ocupadas eram todas bem sucedidas e felizes. Constatou, entretanto, que não é bem assim. Diz que há muita solidão.
Impressionou-me este vídeo. Há qualquer coisa de feridas expostas nisto. Mas, se calhar, estou a dramatizar. Se calhar é apenas uma forma prática de ultrapassar situações que, para algumas pessoas, são constrangedoras. Se calhar não tem nada de mais.
Não sei. Às tantas não sei mesmo é mais nada.
É certo que isto se passa no Japão e no Japão passam-se muitas coisas estranhas. Contudo, creio que, neste caso, poderia acontecer aqui ou em qualquer outra cidade.
O japonês que é pago para não fazer nada
Shoji Morimoto provides a very unusual rental service to his clients in Tokyo, hiring himself out in order to, quite literally, do nothing.
He has fashioned a career out of renting himself out to clients who simply don't want to be alone. Shoji doesn't engage in conversation or do anything other than just be there at whatever event or activity he has been hired to attend, and yet he is in high demand, scheduling one to three sessions a day.
PS: Ou seja, se alguém veio ao engano, a esta altura já deu para perceber: ao falar em 'ser pago para não fazer nada, obviamente não estava a referir-me ao Sérgio Figueiredo.
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As fotografias mostram um graffiti especial, em forma de renda. A rimeira foi feita em Póvoa de Atalaia, a segunda em Vila do Conde e a terceira no Bombarral. A autora é NeS NeSpoon
É verdade, faltam palavras para falar do que se passa. Talvez o silêncio fosse mesmo preferível.
Por diversas vezes, ao ver fotografias ou imagens na televisão ou em vídeos, sinto que as lágrimas assomam aos meus olhos e, nessas alturas, não consigo dizer nada.
São imagens muito violentas: uma criança de 11 anos que foi sozinha para outro país, enviada pela mãe. Um menino que levava um saco de plástico e um número de telefone escrito na mão. A mãe, uma jovem viúva, chora, teve que ficar a tomar conta da sua própria mãe, doente e sem mobilidade. A voz embargada, o rosto mostrando grande infelicidade, fala dos filhos, explica que achou que era a melhor decisão. Imagino o coração estrangulado, a angústia, a vontade de proteger os filhos mas incapaz de abandonar a mãe. Como se sobrevive a uma decisão tão dilacerante?
Uma jovem grávida, desamparada, cujo namorado ficou para lutar, parece perdida. Uma outra espera casar quando a guerra acabar mas que diz que, quando se despediu do companheiro, sentiu que estava a separar-se para sempre. Desvia o rosto sem conseguir conter as lágrimas.
Estou a falar de momentos tocantes. Mas como escolher uns momentos e não referir outros?
Não é igualmente tocante ver tantos jovens que vão de todo o lado para lutar ao lado dos ucranianos? Como ficam as mães, as avós, as mulheres e filhos desses homens? Como podem sentir orgulho pela valentia dos seus homens quando certamente sentem a carne rasgada pela angústia, sem saberem se vão poder voltar a abraçá-los?
Não é também tão tocante ver mulheres idosas, cansadas, ofegantes, em desequilíbrio, com pequenos sacos nos quais transportam o que conseguiram salvar da sua vida de paz, tropeçando ao frio, a irem sem saber bem para onde? Que vida as espera nos anos que lhes restam?
Ou pessoas chorando, precariamente descendo de dentro de casas em ruínas, tentando equilibrar-se por entre pedras soltas, segurando uns papéis, documentos que pensam poder valer-lhes, deixando uma vida inteira de sonhos para trás?
Ou uma idosa, entre destroços, filmando a destruição com o seu telemóvel? A quem vai ela enviar aquele testemunho? Será para um dia mais tarde poder mostrar aos bisnetos? Não é isso igualmente comovente? Tão comovente...
Não sei se há quem fique indiferente perante a brutalidade do que está a passar-se. Se calhar, há.
Não quero saber se em todo o lado em que há guerra se pode assistir a situações igualmente infernais e dolorosas. Acredito que sim mas isso agora não me serve para nada. O que não quero é que haja guerra nem quero ver isto que nos é mostrado: cidades arrasadas, casas esventradas, ruas e pontes interrompidas, tudo transformado em montes de destroços, mulheres e crianças abatidas na rua, famílias separadas, tanta gente em lágrimas ou já sem conseguir chorar. Não venham falar-me de todos os outros casos tentando banalizar o mal. Recuso-me a aceitar que se banalize o mal.
Quem já viu a morte de perto, quem já pegou em armas ou matou outra pessoa consegue olhar para esta chacina sem emoção? Os que já viram morrer e mataram em cenário de guerra relativizam esta agressão brutal por comparação com tantas outras? Ou não querem que se fale disto porque voltam a viver os momentos de medo e ferocidade que, em tempos, viveram?
Não conseguindo ficar em silêncio, faço perguntas. Mas temo que sejam perguntas para as quais jamais obterei respostas.
Como nos dias anteriores, tento informar-me -- sempre na esperança de descobrir indícios do fim desta chacina. Partilho-os. Podem não me trazer as respostas que procuro mas ficam para (minha) memória futura. Traçam o roteiro para um destino ainda impreciso mas que só pode acabar com a derrota de Putin.
Man who lost five family members when a Russian missile destroyed his home: "God, help this to end."
Twelve days since the war began, many Ukrainian civilians are stuck in cities under fire, unable to flee the conflict. A promised evacuation corridor to allow civilians to flee failed to open on Sunday.
Russia has proposed some humanitarian corridors that lead from Ukrainian cities to Russia and Russia’s ally Belarus.
Ukrainian officials called the proposal “completely immoral” and said that Ukrainians should be able to flee through their own country.
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Lieutenant Colonel Astakhov Dmitry Mikhailovich, a captured Russian soldier, begs for forgiveness for Ukraine invasion
A Russian soldier who was captured by Ukrainian forces says he realised he was on the wrong side when his favourite boxers took up arms to defend their country from invaders.
Lieutenant Colonel Astakhov Dmitry Mikhailovich begged for forgiveness in a press conference after he was captured, saying he was under the impression Ukraine was under the grip of a fascist regime.
Ao som do Hino da Ucrânia, fotografias de graffitis um pouco por todo o mundo apelando ao fim da invasão russa e da guerra e pedindo a paz na Ucrânia. Mais no Bored Panda.
Hoje o dia começou com a notícia de que o casal Trump está infectado e vai acabar com a notícia de que o palhaço Donald vai ser hospitalizado, dizem que por precaução, e que foi tratado com um cocktail experimental de anticorpos. Não faço ideia do que seja pelo que não posso garantir que não contenha um cheirinho de lixívia. Uma bizarria pegada. Quando, ao despertar, li a notícia admiti que seria tanga dele para fugir aos debates e comícios e para, a seguir, se desculpabilizar. Ou que, então, era tanga para aparecer bom ao fim de meia dúzia de dias para se gabar de ser um herói, que a gripezinha da treta não lhe tinha feito mossa. Um macho man. Neste momento, já admito que seja mesmo verdade e, a ser, não deixa de haver ironia nisto.
Mas não quero alongar-me no tema. Pessoalmente, não desejo mal nem aos mais estúpidos. Se Trump é uma cavalgadura narcisista da pior espécie, e não há dúvida de que é, é nas urnas que eu gostaria que ele fosse apeado, não por estar ó tio, ó tio, com o covid cujos riscos desprezou mesmo quando o número de infectados e de mortos já evidenciava que a sua condução do problema estava a ser catastrófica.
Portanto, agora que vi o helicóptero no ar levando lá dentro o psicopata cor-de-laranja, não vou desejar-lhe mal e saltar-lhe em cima, vou antes dizer que prefiro usar o meu tempo com as coisas bem dispostas que o meu amigo algoritmo resolveu propor-me.
Aliás, já ontem, a meio dos saltos de Sergei, um must que felizmente sempre me acompanha, dos sábios e bem humorados conselhos das Avós da Razão, de poemas lidos e de arrebatadas interpretações de piano, Chet Baker e Marilyn, Lincoln Project e Trumpices, começaram a aparecer-me vídeos com momentos de boa disposição contagiante. Gostei mas estava noutra, justamente em volta do estafermo-mor. Mas figuei com a pulga atrás da orelha e agora é mesmo isso que me apetece. Bora lá deixar-nos contagiar (não com o merdinhas mas com música, risos, alegrias)?
Dia muito preenchido, dia absurdamente cansativo. Na empresa, e, se calhar, em quase todas as empresas, parece que toda a gente está a reagir de forma hiperactiva. Toda a gente quer avançar em força com muitos projectos, toda a gente ao mesmo tempo, como se toda a gente quisesse compensar a perda de actividade económica com uma forte dosagem de trabalhos que, podendo-se fazer em teletrabalho, mais vale fazê-los já antes que seja tarde demais.
Então, estou em sucessivos meetings e a ver que estão a convocar-me para outros e, passado um bocado, já vejo o meeting, que não aceitei, no ar e que, estranhamente, estão a tentar puxar-me para lá. Envio mensagem a dizer que estou noutra reunião. Mas, mal acabo aquela em que estava, já estou a receber uma convocatória para daqui por dois dias para fazer o seguimento da reunião que acabou de haver e na qual não estive. Uma loucura. É desde que me ponho o pé no chão até tarde na noite. Mal tenho tempo para almoçar, janto às quinhentas. Exaurida. E aborrecida com tudo isto.
E, ao sentar-me, um telefonema. Um conhecido diz-me que um familiar próximo está com covid e ele e a mulher, e sabe-se lá mais quem, certamente também. E uma pessoa fica pregada. Pregada. Do outro lado, o silêncio, depois a voz do medo. Medo. Ligo a outra pessoa a tentar perceber o que podemos fazer. Do outro lado, o silêncio. O medo. Nunca antes senti, como sinto agora, do outro lado, a materialidade do medo, mesmo quando o sinto traduzido em silêncio. Medo. O contágio invisível, o contágio entre os que se amam. A dor, o medo.
Como se não bastasse, esteve um frio de rachar e choveu que se fartou. Tive que me encher de roupa o que, em mim, é coisa nunca vista. Não faz parte de mim ter várias camadas de roupa em cima. Sou bicho de pele descoberta ou, vá lá, apenas levemente coberta.
Acresce que, obviamente, estamos os dois a partilhar na mesma casa, ambos cheios de trabalho e de videoconferências. Não podemos estar ao pé um do outro. Toca um telefone, toca outro, ouve-se um a falar, ouve-se o outro. Toda esta zona da casa comunica entre si, sem portas. Uma dificuldade acrescida, nestas circunstâncias. E aquecer a casa toda tem sido uma dificuldade.
O dia foi de tal maneira que nem consegui pôr o pé na rua. A bem dizer, nem consegui chegar-me à janela. Em dias assim, gosto de estar junto às janelas de vidro vendo a chuva, vendo o vento e o frio a dar nas árvores. Ficam muito bonitas as árvores em dias de frio, vento e chuva. Lavadas, livres, belas, vestidas de verdes exuberantes. Mas hoje apenas vi de longe. Vi e ouvi mas, infelizmente, sem poder prestar atenção. A dado momento pareceu-me ouvir um ribombar ao longe. Agucei os sentidos. Quis que trovejasse, mesmo. Se era para estar mau tempo, pois que viesse trovão, relâmpago, golpe de vento, gelo a valer. Mas se era trovão ao longe, pelas lonjuras se ficou. Não vi azul, nem nesga. Nem para saudade tive tempo.
Em tempos, distantes tempos, houve uma varanda florida, uma escada que descia para a rua, entre flores, e acho que o céu estava azul e que tudo sorria, o azul do céu, a sombra das árvores, as cores das flores, nós. Há muito, muito tempo. Numa outra vida. Não sei se noutra vida, se até noutro planeta. Não sei mesmo se outra-eu. Daqui por algum tempo talvez pense que nem nunca existiu esse outro tempo.
Não há muito, talvez há uns dias, alimentei a esperança de que por esta altura estaria eu a sacudir almofadas, a arejar cobertores, colchas e almofadas. A casa iria ser invadida, haveria meninos a brincar, a correr na rua, a jogar à bola, sentados à mesa. O ano passado, um dos meninos, à mesa, lambendo-se com os petiscos da sua Tá, disse: 'Isto sim, isto é que é vida'. Quando nos rimos e, perguntámos porquê, disse que aqui podiam brincar, subir às árvores, fazer o que queriam e comer comidas boas. Fiquei toda contente e ainda me lembro do ar satisfeito dele. Contou-me a mãe que, numa composição, escreveu que tinha saudades de cá estar. Entristeço-me. Como aconteceu uma coisa destas?, não me canso de me interrogar. Fez no outro dia anos, este meu querido menino, e gostou da festinha virtual que a mãe organizou, com família e amigos. Vamos inventando novas formas para tudo. Somos animais mutantes. Mas sinto tanta falta de os abraçar. Quando fazem anos, depois de apagarem as velas, gosto de me me chegar a eles para lhes dar um beijo e desejar que contem muitos e felizes anos de vida. Desta vez não foi possível. E ainda não aprendi a dar abraços virtuais, em especial quando o amor é muito.
Há pouco escrevi um mail pessoal mas em contexto profissional. Andava para fazê-lo. Sei que é assunto que agora parece disruptivo, sei que quem o recebeu não está ainda preparado para encarar a verdade que antevejo. Sei, pois, que o que escrevi vai ser recebido com desconfiança e sei que, se bem conheço aquele que a esta hora deve estar a lê-lo, depois vai ficar inquieto, hesitando entre fazer de conta que não leu ou levar-me a sério. Sei que se esforçará para não me levar a sério. Mas tomara que leve pois o que aí vem -- não sei quando -- será uma realidade apesar de ainda não a conhecermos. Não vai ser a continuidade do que era nas primeiras semanas de Março deste ano que eu pensei que, pela graça do número, 2020, seria um ano bom e que, até ver, está a ser um ano pavoroso. Mas, se fomos apanhados desprevenidos, batidos por um merdinhas invisível, temos agora a obrigação de ser inteligentes e saber dar a volta por cima, tornado-nos menos nocivos para o planeta, para a natureza, para os outros.
Mesmo num dia frio, triste e chuvoso, mesmo sentindo o peito vazio, esforço-me por pensar nos dias que virão a seguir e que quero imaginar que serão os promissores dias de um mundo novo, dias que festejaremos com a ajuda de Sophia, dizendo:
Bem. Para ver se me animo, vou ver o mais recente vídeo de Liziqui.
Comidas floridas, aspecto delicioso, uma paz feita de gestos silenciosos, vagarosos.
Creio que Odeith é o nickname artístico mas até pode ser que seja mesmo apelido de origem. Não faço ideia. Leio que dá pelo nome Sérgio Odeith. Tem 43 anos, é português das redondezas de Lisboa e é um artista de rua. Street Art é com ele. Graffiti 3D. Faz uns sombreados que fazem parecer que as coisas estão a sair do sítio ou que há aberturas e relevos.
Tem obras por todo o mundo. Se eu fosse presidente de Câmara da minha cidade, criava vários super espaços para os artistas de rua fazerem das suas à vontade. A arte traz felicidade às cidades. E um dos que teria lá lugar cativo seria, sem dúvida, o Odeith. A sua última graça está a dar que falar; e percebe-se.
Era assim:
e, depois de pintado, ficou assim:
Esta aqui abaixo é anterior mas é mais uma das suas várias obras extraordinárias. Caso para dizer que gente talentosa é obra.
E, para que este post tenha banda sonora, permitam que aqui partilhe convosco a última actuação do abençoado Kodi Lee que, não obstante ser cego e autista, é um artista de mão cheia, um artista inteiro, um artista maior que sabe mostrar ao mundo que o que cega e isola as pessoas é o preconceio.
Interpreta uma das músicas que, a ter que escolher algumas como sendo as músicas da minha vida, aí estaria incluída: Bridge over troubled water.
Acho bonito que chamem às zonas do mundo onde as pessoas vivem até mais tarde 'zonas azuis'. O azul é uma cor saudável, tranquila, a origem e o fim de tudo -- isto, claro, depois e antes do branco original e final, depois e antes do grande infinito. O azul, o vasto horizonte que se funde com o grande líquido azul que transporta e preserva a vida, dentro e fora de nós.
Não me lembro se já algma vez aqui falei disto: os locais da Terra onde há idosos a quem a idade não pesa, vivendo muitas vezes até para lá dos cem anos, mas vivendo com qualidade, felizes da vida.
A nova obra do Bordalo II - um big gato na Expo
É um fenómeno que tem atraído a atenção de jornalistas e de cientistas. E eu, que sempre convivi de perto com gente de avançada idade, interesso-me pelo assunto.
Ainda conheci uma bisavó. Eu era muito pequena e lembro-me de uma velhinha deitada num quarto da casa da minha avó. Dos outros bisas não faço ideia. Tenho uma fotografias de um casal de bisavós e julgo que eram os pais da minha avó paterna mas não garanto. Nada sei deles, não me lembro de alguma vez ter ouvido falar deles. Daquele que fugiu às dívidas de jogo e mulheres ninguém sabia nada. Durante muito tempo, se se falava nele, alguém dizia: 'Se calhar ainda está vivo' mas, que eu saiba, nunca ninguém mexeu uma palha para saber do seu paradeiro. Sabia-se que tinha ido lá para as américas do sul e pouco ou nada mais. E creio que o recíproco também foi verdadeiro. Digo creio porque é isso: mão juro que assim tenha sido.
Quanto aos meus avós, tirando um que morreu novo num acidente horrível, os outros viveram até bem tarde. E o tempo vai passando e agora já são os meus netos que vèem um velhinho na cama e o velhinho agora é o meu pai. E ainda me custa chamar velhinho ao meu pai porque o meu pai sempre foi um homem tão desportista, tão autónomo, tão 'bem conservado' e parece que ainda acho que aquele AVC foi, de facto, uma coisa acidental, que não devia mesmo ter acontecido, daquelas rasteiras que veio mudar o rumo normal das coisas, interromper o que tinha tudo para ser uma vida tranquila para ele e para a minha mãe. Tentamos todos que viva o melhor possível mas o grau de consciência dele já é uma coisa que, para nós, é cada vez mais enigmática.
Mas a minha mãe, essa, sim, poderia muito bem figurar numa destas reportagens das blue zones. Tem uma vitalidade, uma jovialidade e um aspecto que parece de mulher muito mais nova. O que ela faz, o que ele pensa, o que ela ri, transforma-a num exemplo para quem lida de perto com ela. Os netos e bisnetos adoram estar lá em casa. E não é só pelo banquete que ela sempre prepara, é mesmo pela boa onda, pela compreensão e leveza com que encara a vida (apesar da tristeza -- e prisão -- que é partilhar a vida com alguém que se vê a definhar progressivamente, sem esperança que um dia melhore).
Mas, voltando às zonas azuis, o que parece ser comum entre os muito idosos que vivem até tarde conservando a qualidade de vida é:
a convivência -- porque a solidão é um mal terrível, uma coisa que corrói a alma e esgota a seiva que alimenta a vida,
a alimentação natural -- muitos legumes e frutos, de preferência de época, locais, e ervas aromáticas, nomeadamente o alecrim, e carne não muitas vezes por semana, para aí umas duas ou três vezes; não são vegans, são apenas minimalistas no consumo de carne.
o exercício, actividade física -- porque a inactividade faz perder massa muscular, faz perter o tónus, faz amolecer a alma e a vontade de festejar a vida; vários idosos têm a sua horta que cuidam e da qual provêm alguns dos seus alimentos
Fiquei contente por saber. Agrada-me a forma simples de viver e sempre que ouço que isso faz bem ao corpo e à mente fico descansada. Saber aquilo do alecrim, então, para mim foi uma alegria. Gosto imenso de usá-lo e os meus filhos estão sempre a aborrecer-se comigo, dizem que uso e abuso, e o meu marido faz coro, arma-se em vítima como se fosse obrigado a ingerir comida envolta em arbustos do campo. Nada disso. Uso de forma moderada e quando me parece que vem a propósito.
Por exemplo, hoje para o jantar (e a contar que sobrasse para a semana) fiz um guisadinho e, ao temperar, hesitei mas resolvi não usar alecrim. Conto como fiz e parece que ficou bom e digo que 'parece' porque apenas o meu marido o provou.
(Eu hoje, ao jantar, fiquei-me pela sopa de legumes que tinha feito pouco antes, queijo e fruta, acompanhados por dois ou três goles de Trinca-Bolotas, e que rematei, à laia de sobremesa, com um quadrado de chocolate negro comido ao mesmo tempo que dois cubos de gengibre cristalizado).
Mas, então, a receita do meu guisadinho. Tinha comprado vitela, em bocadinhos para fazer a kind of jardineira. Num tacho coloquei azeite, uma cebolona gigante cortada aos bocados, um tomate também bigalhão igualmente aos bocados, salsa, duas folhas de louro, uma meia dúzia de dentes de alho. Pus a frigir ligeiramente para que os sabores se misturassem. A seguir, juntei os bocados de carne, um pouco de sal, pouco, e, quando hesitei a propósito do alecrim, acabei por optar por um pouco de orégãos. Estava o calor no máximo e, quando levantou fervura, baixei. Gosto de cozinhar a baixas temperaturas. pelo que os meus cozinhados nunca ficam 'repuxados'. Coloquei uma pinguinha de água, apenas para poder estar a cozinhar durante mais de uma hora sem risco de acidentes. Quando voltei à cena já a carne estava macia. Nessa altura preparei cenouras, batatas doces, mais cebola, mais tomate, mais salsa, coentros e uma novidade dos meus cozinhados: quiabos. Juntei tudo e envolvi com uma colher, levantando a temperatura até que voltasse a ferver. Depois baixei, temperatura 3 numa escala de 1 a 9. Ficou ali a cozinhar por mais uns quinze minutos. Quando desliguei, continuou sobre a placa para que apurasse um pouco mais. Estava um cheirinho mesmo bom.
Não sei onde iam estes seres irreais
que avistei hoje quando estava a caminhar à beira rio, desta vez do lado de cá
E, por ora, é isto. Deixo-vos com um vídeo de apresentação de uma série que vai passar em França e onde Angèle Ferreux-Maeght, chef de cuisine e naturopata e Vincent Valinducq, médico e investigador, investigam o que se passa nas zonas azuis junto de gente que anda por volta dos cem no Jaão, Sardenha, Grécia e Costa Rica.