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terça-feira, setembro 01, 2026

Slow living in heaven
-- E uma casa muito bonita em Melides --

 

Acordei tarde. Aqui é a regra. Não sei porquê mas aqui durmo muito mais, um sono dos ferrados, dos bons. Sempre assim foi. Não sei se há ainda mais oxigénio do que na outra casa. Mas não deve ser isso, porque ar puro também não falta lá. Mas há qualquer coisa aqui que me traz um sono maravilhoso. Se calhar é porque o meu marido anda pelo campo e, ao não estar em casa, não faz barulho, não me acorda.

Fomos almoçar àquela tasca de uma aldeia a alguns quilómetros daqui. Em boa hora a descobrimos. Come-se francamente bem, é tudo bem servido e os preços bastante razoáveis. Nada a ver com o disparate que se pratica lá pelas minhas outras bandas: preços, no mínimo, o dobro, quantidade se calhar metade. Aqui comemos lindamente e ainda sobrou pelo que trouxémos o resto em caixinhas. O pior é o barulho no início, quando a sala está repleta. A acústica é péssima, um barulho que me incomoda. Há sempre grupos, gente palradora, parece que falam todos ao mesmo tempo. Depois, quando começam a sair, fica bom. Por isso, geralmente vamos mais para tarde porque assim mais de metade do almoço já decorre em ambiente mais tranquilo.

Hoje, por cá, foi dia de rega das valentes. O meu marido queixa-se sempre da água que gasto, diz que choveu, que nem valia a pena regar, e que não era caso para uma rega tão prolongada, que é um desperdício. Mas água dada à terra nunca é água mal gasta. Levo muito tempo, sim, sou cuidadosa, imagino a água a descer, quero que a terra fica molhada até bem fundo. E há muitos pontos para regar aqui do lado da frente e de um dos lados da casa. Não rego atrás nem do outro lado e muito menos rego longe da casa. Mas o curioso é que parece que tudo já se habituou à míngua de água. Algumas plantas, como por exemplo os aloés, ficam com as pontas mais castanhas mas, ainda assim, aguentam-se como uns valentes. 

O meu marido, como sempre, anda de serra, serrote e podão e corta tudo o que pode. Mais uma vez o rapaz que queremos que cá venha dar uma ajuda não pôde vir. Tem outro trabalho e não sai cedo. E os dias estão mais pequenos. Não sabemos de mais ninguém. Há, claro, o senhor da aldeia lá de baixo que cá veio algumas vezes. Dizem dele, os outros: 'Tem um problema, bebe muito, mas quando ele vê que não está capaz, não trabalha. É sério.'. A verdade é que não vinha muitas vezes e, como fazia tudo manualmente, o rendimento era pouco, quase nenhum. Não valia a pena. Ele mesmo dizia: 'Não rende, fica tudo na mesma.' Sério, lá está. 

De qualquer forma, gostamos de nos ocupar. No entanto, fico sempre com a sensação que nunca nada está tão bem quanto poderia estar. Mas a genica já não é tão efervescente como era dantes, e já gosto de me pôr na espreguiçadeira a olhar o céu e as árvores, na mais pura indolência. Dantes não sabia o que isso era, agora sabe-me tão bem...

Estive também a dar xylophene numa cadeira que está na cozinha, de apoio (ou seja, não faz parte das cadeiras em volta da mesa). O meu marido disse que estava a tomar o pequeno almoço e a ouvir um barulho. Apurou o ouvido e percebeu que vinha da cadeira. Espreitou e viu que um dos pés já tem dois buraquinhos. Levou a cadeira para a rua. E estive a dar-lhe umas boas camadas daquilo e ver se os bichos morrem.

Muitas vezes pensamos que havemos de ir aqui ou acolá. Mas depois, não sei se por preguiça ou se até bastante racionalmente, abstemo-nos. Estamos aqui tão bem, gostamos tanto de aqui estar, quando trabalhávamos desejavamos tanto ter tempo para poder desfrutar calmamente deste lugar, que acabamos sempre por achar que não vale a pena andar a fazer quilómetros para trás e para a frente para estarmos em sítios onde não nos sentiremos tão bem como aqui. 

Ao fim do dia, vinha de fechar as janelas na parte antiga da casa, encantada com as florzinhas da buganvília que agora adornam o exterior da janela do quarto que era da minha filha e cheguei ao corredor que estava iluminado pelas cores douradas do pôr do sol e parei: tão acolhedor, tão doce. A luz é um elemento fundamental na vida desta casa. Pela sua configuração, pela forma como se oferece ao sol, a casa vai-se iluminando diferentemente ao longo do dia. Fui buscar o telemóvel e fiz várias fotografias. 

Esta aqui abaixo, certamente por nabice minha, não fixou os dourados brilhantes da luz do sol, parece que ficou tudo rosado. Mas não era assim, era amarelinho, dourado pelo sol. A ver se amanhã tento de novo.

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Agora, ao ligar o computador à noite, o youtube tinha uma casa para me presentear. Teria graça que o youtube sorteasse casas e me tivesse calhado esta que aqui vos mostro. Mas não, limita-se a mostrar, a fazer fosquices. 

É em Melides. 

Ao ver a casa pensei que é muito do género da casa de um amigo nosso: uma casa térrea, ampla, cheia de portas, com amplos terraços, com um belo jardim. Esta casa aqui abaixo dá para os campos de arroz. A dele dá para um campo de golf. Tudo verdinho à frente, quase a perder de vista. A casa dele também é muito especial, obra dele, e tem diversas esculturas e pinturas de grandes dimensões. Também tem peças de artesanato, mas não é uma casa tão 'bonitinha', organizada e arrumada como a que verão abaixo. Ele é apaixonado pela casa e percebo-o. A dona desta casa em Melides também parece bem encantada com a sua casa. Um oásis. Só tenho dúvidas é em relação aos mosquitos. A Comporta, do que conheço, pelo menos até há algum tempo, tinha um bocado esse problema, em especial, que me lembre, mais para o fim da tarde. Estas aqui em Melides, com os campos de arroz, não terão também esse problema? Se calhar não, senão não havia tanta gente a dar fortunas por um terreno ou por uma casa lá, não é?

Por dentro de uma encantadora casa de campo portuguesa, inspirada no estilo Cape Dutch

Combinando o estilo colonial holandês da sua infância com a arquitetura tradicional portuguesa local, a autêntica casa recém-construída de Penny Morrison em Melides é um refúgio relaxante e acolhedor, repleto de peças adquiridas nas suas viagens.

"Vim passar o fim de semana e fiquei completamente apaixonada por Melides", diz Penny ao recordar como mergulhou no projeto de construção na costa portuguesa após uma recomendação de Carolina Irving.


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Desejo-vos uma feliz terça-feira

segunda-feira, agosto 31, 2026

Breves e soltinhas

 

1º acontecimento

Ontem aconteceu uma coisa que me alegrou bastante. Com sol não consigo andar sem óculos escuros. Não é só o facto de a luminosidade intensa me incomodar, como, sendo eu míope, os óculos são graduados. A minha miopia reduziu-se, é baixa, mas, ainda assim, fico mais confortável usando-os a eles e não uns não graduados. Uso-os há bastante tempo, gosto da armação. São simples, mas sinto que me assentam harmoniosamente. Tenho uns outros, mais fashion, de que também gosto, mas não são tão versáteis e, sobretudo, tenho receio do prejuízo se os perder. Nestas coisas sou muito controlada. Por isso, só os uso quando vou a algum lugar especial. Manias minhas.

Pois bem. Fui ao ginásio, cheguei lá e guardei-os na mochila. Saí de lá, como sempre coloquei-os. Depois do almoço fui sair e não os encontrei. Corri tudo. Nada. No entanto, quando chego a casa, de forma mecânica, descalço-me, pouso o telemóvel, as chaves e os óculos no mesmo sítio. Portanto, não conseguia perceber como poderiam os óculos ter-se evaporado. Mas nada. 

Tive que levar os óculos de reserva. Quando regressei a casa empreendi nova busca: virei e revirei tudo, mesmo os lugares mais improváveis. No dia seguinte continuei à procura, revirando o que já tinha revirado. Já estava a achar que me tinham voado da cara, quando vinha do ginásio.

Pois bem, ontem de tarde pensei: só posso ter feito um movimento não usual e, no acto, impensadamente, pousei-os sem dar por isso. E tendo pensado isto, como se fosse guiada, dirigi-me ao aparador da sala de jantar e levei a mão ao naperon, junto à taça que está a meio. Tal e qual, Teleguiada. E a mão foi pôr-se em cima dos óculos. Fiquei espantada e felicíssima. Ele há coisas, disso não há dúvidas.

Depois, recordei-me: tinha visto que uma bandeja com umas peças que, em vez de estarem no aparador, estavam numa mesinha de apoio. Tinha sido, no almoço de aniversário da minha filha, que, para colocar as bebidas, se tinha retirado parte do que estava no aparador. E, por algum motivo que não atinjo, corrigi o facto quando ainda estava com os óculos. Não consigo perceber pois, sempre, s-e-m-p-r-e, tito os óculos mal entro em casa, tal como pouco as chaves e o telemóvel. Mas não há dúvida: os óculos estavam ali. E encontrei-os, e isso é que interessa.

2º acontecimento

E hoje tive uma fantástica surpresa. Andava a ver como está frondoso o meu diospireiro. Apesar dos calores e de temporadas sem ser regado, está verdejante, farta folhagem. Já por diversas vezes pareceu estar ás portas da morte e o meu marido, como sempre, já o quis cortar não sei quantas vezes o quis cortar dizendo 'não está aqui a fazer nada'. Mas eu não sou fatalista, acredito em milagres. A forma como rejuvenesceu e se revitalizou é um fenómeno. Há uns meses deu uns belos dióspiros, que me consolaram. E estava eu a filmá-lo e ia contar que na última vez que aqui tínhamos estado, me cheirou a dióspiro e vi um no chão e um, todo madurinho, que de imediato comi. Já nessa última vez estavam a nascer fora de época. Mas não cheguei a contar isto porque dei com outro. Ainda verdinho e rijo, ainda pequeno. Ora, que eu saiba, já passou a época deles. E nisto começo a ver outro e mais outro e mais outro. O diospireiro está carregado de dióspiros. Nunca teve tantos. Mas reparem: jáé a terceira vez este ano que isto acontece. Juro, não sei que fenómeno é este.

Só me lembro de uma tia do meu marido, uma muito, muito queridíssima, por vezes lembro-me dela e custa-me a crer que já não exista. Tão alegre e querida que era. Uma vez estava cá e ela viu uma pereira pequena com umas quantas peras grandes. E eu disse: 'quando para cá viémos, estava tão raquítica, parecia que não ia vingar, e agora desatou a dar peras'. E ela riu e disse: 'as árvores percebem quando lhes querem bem'. Nunca mais me esqueci. Quando vejo a forma desabalada como tudo aqui cresce, neste terreno pedregoso, e como tudo fica carregado de fruta, penso nisso. Será que sentem que eu adoro tudo isto, que adoro a natureza, que me encanto com as árvores, com os frutos? Não sei, não tenho como saber. O que sei é o que constato.

A chatice é que ainda estes dióspiros, fruto que está entre os meus preferidos, estão pequenos e verdes. Impossíveis de comer. E quando regressarmos, já terão caído. Tenho que avaliar ainda  qual a melhor opção. Por mim, ficaria aqui a vê-los fazerem-se maduros, bons para virem passear dentro de mim.

3º acontecimento

Devo ainda actualizar a situação do meu cabelo. Os meus dilemas nunca duram muito. Aliás, encaminham-se rapidamente para a resolução mal falo deles. 

No dia seguinte, pensei que só um problema sem solução (se é que é um problema, diga-se). Ou seja, o magno problema do rabo de cavalo não tem que ser incompatível com um encurtanço considerável do tamanho do cabelo. Nada que não se resolva com engenharia. Engenharia capilar, mais propriamente. Então peguei na grande massa de cabelo e prendi-a em cima com uma mola das grandes. Depois puxei os cabelos de baixo, junto à nuca, para fora da mola, Tirei uma boa quantidade deles. Prendi-os, resguardadamente. Ao cabelo sobejante, apanhei num rabo de cavalo alto. Peguei nele e com a tesourona da cosutura, que é grande e corta bem, e pimbas, lá vai disto. Um pedação valente. Voltei a soltar tudo, o cortado e o resguardado. E voltei a fazer um rabo de cavalo. Funcionou, consegui, os cabelos de baixo chegaram até ao elástico lá em cima. O rabo de cabelo agora já está bem mais pequenino, nada que se pareça com o que estava, mas não está mal. Depois soltei o cabelo todo e vi como ficava. Bem. Acertei umas pontas para ficar igual dos dois lados. Como tenho muito cabelo, disfarça tudo. Claro que o meu marido ainda nem reparou. E quando lhe perguntar vai dizer que está igual. Só repararia se eu o rapasse à escovinha. Mas, pelo menos, já não vai achar que o cabelo está anos 80.

4º acontecimento

Não é um, são vários. Várias, melhor dizendo. 

As minhas azinheiras estão cada vez mais lindas. Lembro-me bem de quando eram umas moitinhas informes e eu persistia em podá-las para elas ganharem forma de árvore. Foram crescendo, nós ajeitando, e elas retribuindo o nosso cuidado. Estão gigantes, dão uma sombra maravilhosa. E eu deleito-me a olhar para elas. Sentada num banco de pedra, ao pôr do sol, tudo dourado, uma temperatura amena, uma aragem leve, pensei que poder estar aqui a ver e sentir tanta beleza e tanta paz é um privilégio que não tenho como agradecer.


5º acontecimento

Ontem à noite, lembrei-me de tentar descobrir nas redes sociais uns amigos com quem nos dávamos muito na nossa juventude e com quem acabámos por perder o contacto quando os filhos, adolescentes, já tinham, cada um, programas para seu lado. Ora eram namoros, ora eram provas desportivas, ora tinham teste, ora tinham uma festa -- sempre tanta coisa que era impossível encontrar um dia, ao fim de semana, em que todos estivéssemos disponíveis. Progressivamente a coisa foi-se espaçando até que se espaçou de vez.

Encontrei aquele que era o mais popular. Está igual. Ficámos contentes. O meu marido disse logo: 'Manda-lhe uma mensagem, manda-lhe o número, diz qu enos ligue'. Mas reparámos depois que não mexe naquilo há já uns anos, portanto já nem deve ir ver. Vi, lá, os filhos. A mais crescida, da idade do meu filho, já com filhos e um marido já com cabelos brancos; o puto, que era pequenino, já um homem, parecido com o pai, e a mais nova, a que nasceu quando a minha amiga se julgava na menopausa e já de cinco meses ainda andava preocupada por achar que não andava bem do estômago, já uma mulher. Deles, saltei para uma outra nossa amiga, uma bacana. Também muito parecida com o que era. Mais velha, claro, e loura, jamais a imaginaria loura, mas, apesar disso, parecida, o mesmo sorriso. E estávamos a olhar para ela no meio de um grupo em que não reconhecemos mais ninguém, e a dizer que o tempo passa mas que até a tinha poupado. E nisto, ao mesmo tempo, reparámos melhor no velho ao lado dela. Não saltei porque estava sentada. O meu marido apenas soltou um lamento: 'É pá...', desconsolado de todo. Eu nem queria acreditar. Era mesmo ele?!?!? Sim, vendo bem, era mesmo. O velho era o marido, nosso amigo. Mais gordo, mais velho, outro, irreconhecível. Só pensei: 'será que, aos olhos dos outros, nós dois também estamos assim...?'. 

Caraças. O tempo, às vezes, é uma coisa do caraças, mesmo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, agosto 06, 2026

Cenas da vida conjugal in heaven

 

Olho para a azinheira grande e penso: 'aquele ramo grande ali podia ser cortado, a árvore já se diversificou de uma maneira tal que aquela grande pernada já é dispensável '. Mas depois penso que aquele ramo é, em si, quase uma árvore, não podemos ser nós a ocupar-nos do assunto, não temos uma serra para coisas daquela envergadura. 

Depois, estou a varrer uma zona e penso que os ramos baixos da romãzeira e os do cedro também deveriam ser cortados senão junta-se toda a espécie de folhagem lá por baixo. Vou chamar o meu marido que refila, diz que está ocupado com outras coisas e eu sempre a pedir-lhe para interromper e vir fazer outras. Mas vem. 

Depois reparo que o tamarix tem muitos ramos secos por baixo. Peço para ele cortar também. Diz que não é só cortar, é depois levar lá para baixo, para o infinito monte que se vai formando. Refila. 

Continuo a varrer. Encho não sei quantos carrinhos de mão que depois levo para um canteiro, lá mais abaixo, e onde está caruma e folhagem ajudará a manter a terra mais húmida por baixo. Quem duvidar que espreite o meu Instagram, está lá uma ínfima amostra do muiiiito que carreguei.

Depois peço ao meu marido que tente arrancar a hera selvagem que invadiu o canteiro onde estão os alfazemas, agora já quase expulsos do recanto que lhes era devido. Peço também que tenha cuidado porque ao fundo há uma ivone e ele que não a assassine como assassinou a outra que estava num outro canteiro. Fica furioso, primeiro porque mais uma vez estou a arranjar-lhe trabalho e, segundo, porque diz que lá venho eu, outra vez, com a porcaria da ivone. Não lhe perdoo.  Responde que ela não estava ali a fazer nada. Digo que não se pode pôr fim à vida de uma ivone só porque, na maior subjetividade, se declara que não faz falta. Essa agora. E nós fazemos? 

Portanto, indisposto com a confrontação, deixou grande parte da hera selvagem. Eu acho que tem que se puxar à mão, mas ele diz que eu acho mal. 

Já o luso-fusco vinha tombando quando fui aos figos. Mas, antes de abastecer os saquitos que levava, comi mais de uma dúzia. Ainda pensei que talvez tenham proteína e fibra, que talvez seja uma dieta até interessante. Mas resolvi ser honesta: deve ser só açúcar e aquela barrigada deles deve ser o equivalente a estar a chutar açúcar directamente para a veia e para o perímetro abdominal.

Foi já de noite que vim ocupar-me dos orégãos. Já enchi alguns frascos. Desta vez, até de kombucha usei, acho-lhes piada.

Ainda há mais para esfarelar mas tenho que os deixar secar mais uns dias, pois alguns ainda não se desprendem.

Agora estou a escrever e doem-me um pouco os ombros. Penso que é da força que faço para transportar e, sobretudo, virar e despejar os carrinhos. Ou de apanhar pás e pás e pás e pás e pás de folhagem e terra. 

Ainda peguei num livro mas, ao fim de um bocado, fechei e pensei: 'Caraças, já não há editores que se aproveitem? Só publicam redações infantis?'. Feito com apoio de uma bolsa da DGLAB, ainda por cima. Está tudo doido.

E é isto. Aqui estou no telemóvel, coitada de mim. Quando leio que ainda há quem escreva coisas em papel fico espantada. Eu já só sei escrever no computador. Os dedos sabem o sítio das teclas, andam sozinhos. Aqui é um desatino, esta gaita altera grande parte das palavras que escrevo.  Por exemplo, de cada vez que escrevo 'esta' ele vai e põe-lhe um acento, fica 'está'. E como isto muito mais. Deve ser fácil descobrir onde desactivar está inteligência, mas tenho preguiça. 

Bem. Fico-me por aqui.

Fiquem bem, ok? Divirtam-se.

quarta-feira, agosto 05, 2026

Tenho provas de que Trump está a afundar-se no fracasso

 

Continuo sem o meu computador habitual. Já recebi o orçamento -- upa, upa, é caso até para pensar duas e três e quatro vezes --, mas acabei por respirar fundo, dar o ok e pagar, e agora é esperar que fique pronto.

Mas, portanto, continuo limitada. Estou a escrever no telemóvel e isso, para mim, é completamente dissuasor.

Hoje, enquanto varria e andava com um ancinho a raspar os musgos velhos e a terra, andava a pensar em mil assuntos para deles aqui dar conta. Depois lembrava-me do meu severo handicap e, mentalmente, retrocedia.

De tarde tive que escrever um mail que tinha que invocar outros mails enviados antes (há serviços públicos que são um buraco negro, kafkianos, levam o mais resistente ao desespero, dão vontade de desistir, consubstanciam um total desprezo por nós, cidadãos, contribuintes, utentes). O que eu penei para o fazer... No telemóvel seria uma dor de cabeça e no computador deficiente que agora me serve de bóia de salvação e que só funciona, e mal, com um teclado virtual (que se sobrepõe ao texto a menos que o ponha minúsculo) foi um sufoco. O meu marido, quando me vê indisposta com estas provações, decreta: "compra um computador e acaba com isso!". Não compro. Outra vez configurar tudo, passar coisas de um lado para o outro, habituar-me a novas manhas. Não quero.

Espero que sejam mais uns dias. Só mais uns dias.

Por isso, até lá mantenho a minha verve refreada. Por exemplo, apetecer--me-ia comentar as últimas parvoíces do Trump e o mal que ele espalha à sua volta. Está maluco, em decomposição, mas a verdade é que a sua ordinarice, incompetência, falta de vergonha e pulsão para aldrabice compulsiva e descarada continuam a servir de exemplo a estupores e mentecaptos em todo o mundo.

A conversa abaixo entre David Rothkopf e Joanna Coles é, como sempre, muito elucidativa e interessante. Aconselho.

I Have The Proof that Trump is Drowning in Failure | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para analisar mais uma semana extraordinária no mundo de Trump, desde as crescentes dúvidas sobre a gestão do presidente em relação ao Irão e o aprofundamento da crise de política externa até às alegações de corrupção, disfunção política e o impressionante colapso da confiança pública reflectido em novas sondagens. Abordam a combativa aparição de RFK Jr. na CNN, as consequências em torno do congressista Max Miller, o mistério da longa ausência de Mitch McConnell, as últimas reviravoltas na batalha pela confirmação de Todd Blanche e as crescentes fissuras dentro do movimento MAGA, com Tucker Carlson, Laura Loomer e JD Vance em conflito. Além disso, examinam o mais recente espetáculo do Truth Social de Trump, o seu autoproclamado triunfo no golfe e porque é que os apresentadores argumentam que o caos em torno da sua administração só se está a intensificar à medida que se aproximam as eleições intercalares.


Um bom dia!

terça-feira, junho 02, 2026

Cenas da vida de um casal

 

Estive ocupada cá com a minha vidinha, coisas que meto na cabeça fazer e que me ocupam bastante, sabe-se lá se com resultados algum dia atingíveis. Mas sou discípula daqueles que diziam que só são vencidos os que desistem de lutar. 

Como continuo a ser a mesma -- quando meto na cabeça que tenho uma coisa para fazer, não descanso enquanto não a faço --, trabalho no assunto horas a fio sem me cansar, sem me desviar. O meu marido pasma com o meu regime, com a minha capacidade de me manter focada durante tanto tempo, apesar de não ter qualquer perspectiva de vir a ser bem sucedida. Nunca trabalhou no mesmo sítio que eu pelo que não sabe que, no que se refere a trabalho, é assim que sou. Isto agora não se pode dizer que seja um trabalho propriamente dito mas, pelo menos, é um projecto. Pode ser um projecto mais lírico do que pragmático. Mas é um projecto e lutarei para que se concretize.

Com isto, a televisão passa-me praticamente ao lado. Mesmo as notícias me parecem um carrossel que anda em volta sem sair do mesmo lugar. Espreito as novidades do dia, e está feito, fico informada q.b. Os jornais da noite alongam-se, alongam-se, metem reportagens e trapalhadas pelo meio, esticam a duração até mais não. Espreito o que se segue a isso, e ou é o Joker com o Palmeirim sempre com piadas secas, coisa que me deprime, e, portanto, evito, ou são novelas da treta na SIC para as quais não tenho qualquer pachorra, ou a xaropada indigente dos intermináveis big brothers e afins na TVI, o que faz com que, há anos, nunca paremos neste canal, ou são debates sobre tudo o que mexe, gente saída sabe-se lá de debaixo que pedra e para cujo peditório não me peçam para dar. Na Dois às vezes há coisas interessantes mas é preciso estar concentrado pois muitas vezes falam línguas que não domino e, portanto, requerem que esteja só a ver televisão para ler as legendas. Ora gosto é de estar com um olho no burro e outro no cigano e, portanto, se não posso, abdico. O meu marido, por ele, vê ténis, o Roland Garros, ou futebol. Eu desando e vou para a minha vida.

Ele, como todo o dia anda ocupado com desbastes, limpezas de terreno, corte de rebentos ladrões, etc., chega à noite e dá-lhe o sono. Portanto, ao fim de um bocado, a televisão fica a falar para o boneco. 

Claro que nessas suas actividades diárias o que não falta são disparates. Gosta do que faz mas não consegue ser cuidadoso, atento. Por exemplo, a última. Num canteiro, havia um arbusto grande, de nome Ivone, que era preciso aparar. Em volta desse arbusto estava a enlear-se uma coisa que não sei como se chama, uma espécie de hera selvagem, que cresce doidamente e que pica. Então, eu tinha-lhe dito que era preciso arrancar essa hera e desbastar um bocado o arbusto. Ouvi-o andar não sei se com a serra eléctrica, se com a roçadora ou o aparador. Não fui ver senão não faço outra coisa senão andar atrás dele. Confiei. 

Fiz mal. Quando vi, fiquei para morrer. Tive que respirar fundo cinquenta vezes. Noutras alturas, quando eu estava na flor da idade, dispararia em direcção a ele, capaz de engoli-lo vivo. Agora, com a sabedoria que a idade madura me está a trazer, prudentemente afasto-me dele. E espero que a fúria me passe. Só quando o vi, tentando mostrar toda a calma do mundo, lhe disse: 'Há algum motivo para teres dado cabo da Ivone?'. Ficou espantado. Ao fim destes anos todos, ainda não aprendeu que a defunta se chamava Ivone. Expliquei, com a calma possível: 'Cortaste, deste cabo, acabaste com a Ivone. O arbusto verde com nuances douradas. Não sobrou nada.'. E apontei para o espaço vazio. Com aquele ar de sonso que tão bem conheço, respondeu: 'Não disseste que era para arrancar?. Mais uma vez tive que fazer cinquenta respirações, e das profundas. 'Arrancar a erva daninha, a hera, não a legítima. Obviamente não era para assassinares a Ivone'. De novo, tentou a abordagem do costume, desvalorizar: 'Volta a nascer'. 

O pior é que não: não volta a nascer, deu cabo dela. 

Mas depois fico a pensar: o mal está feito. Por muito que eu estrebuche ou estabeleça tácticas de vingança, a Ivone não vai ressuscitar. Poderia pensar: 'Enganos destes não podem passar impunes, senão vai continuar a fazê-los'. Mas sei que, de uma maneira ou de outra, vai. Não distingue espécies, gosta é de cortar a eito. Portanto, tenho é que pôr o coração ao alto.

Enfim. É o que é.

Ao fim da tarde, o tempo tinha mudado, estava vento, a tender para o frio. Fui dar uma volta mas tive que voltar a casa para buscar um agasalho. No caminho, atravessou-se à minha frente, a correr, um pequeno bicho, peludo e quase preto. Dorso arqueado. Fiquei parada, de espanto. Não há coelhos ou esquilos pretos. Então o que foi aquilo? Ainda me enfiei pelo meio das pedras e das ervas a ver se via alguma coisa, mas os bichos são espertos e dissimulados. Por isso, não vi nada. Saí foi toda arranhada nas pernas.

Para o jantar, o meu marido comeu lombinho de porco estufado, acompanhado por legumes, mas eu ando cada vez mais a tender para a simplificação em tudo, até nos jantares. Como tinha um resto de iogurte grego, magro, juntei-lhe um bocado de kéfir, um bocado de queijo cottage, um bocado de uma mistura de sementes, umas cinco amêndoas, cinco ameixas secas, quatro ou cinco morangos e meia banana. Misturei. Soube-me lindamente. E fiquei bem.

E agora fico-me por aqui, a noite já vai avançada.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

segunda-feira, junho 01, 2026

Mato cortado, calças cosidas, calças vintage
-- Sobre o que fizeram ao Juiz Ivo Rosa terei que deixar para outro dia --

 

O chamado mato está já praticamente todo cortado e, felizmente, desfeito. Num terreno contíguo, andaram a cortar e o que eram arbustos e ervas verdes são agora montes de folhagem seca, verdadeiro combustível. Há muita pedagogia a fazer pois o que se faz para cumprir a lei é aumentar o risco de incêndios. Também nós já recebemos um aviso e uma coima porque não cortámos alecrim e rosmaninho, verdes, porque a GNR, de longe, vendo a partir da estrada, não viu a terra nua mas sim campo verde e entendeu que não tínhamos cortado o mato. É um problema. Mais do que imposições absurdas deveria haver campanhas informativas, vídeos exemplificativos. 

E temos visto que, nesta preocupação de cortar o mato, muita gente faz avançar tractores ou roçadoras e ficam os campos cheios de mato seco, muito pior do que se estivesse fresco, na terra.

Mas, enfim, cortámos tojo e silvas e, claro, compreendo que não lhes é fácil andar a distinguir pé a pé de flor, e, portanto, em grandes zonas, cortaram tudo o que estava sob as árvores. Mas as máquinas são fantásticas pois, no fim, a terra está fofa, atapetada, tudo desfeito, não fica qualquer vestígio do que foi cortado.

O que ainda não conseguimos resolver, mas temos esperança de que o será durante este mês é a remoção da lenha, mas isso pensamos que cá virá um homem que vende lenha. E o pior são as pilhas de ramagens, sobretudo de cedros, mas também de pinheiros e de aroeiras, que estão um pouco por todo o terreno. Queremos arrastá-las para o espaço a que chamamos campo de futebol para que, quando o tempo estiver de feição e o site das queimas e queimadas o aprovar, possamos queimar. E essa componente está mais complicada pois não é trabalho para os que têm máquinas, é trabalho, segundo eles dizem, para 'ajudantes'. E não os há. Por aqui ainda não há imigrantes. E não se encontram pessoas da terra disponíveis: ou estão velhos ou, se estão novos, têm outros trabalhos. Tentámos nós os dois transportar uma parte, e conseguimos. Uma pequeníssima parte. O que há requer muita mão de obra, muita força, pois é muito; e muitos ramos são enormes e muito pesados.

E ainda há canteiros e muros que se partiram e cuja remoção apenas será possível com bobcat -- e vamos lá ver se é mesmo possível -- mas um senhor que o tem só está disponível daqui por algum tempo. Há muitas limitações. O Governo prolongou até ao fim do mês mas vamos ver o que se consegue. Sem gente, é complicado.

Portanto, ainda há muito trabalhinho pela frente. Mas muito está feito, e o que falta, de uma maneira ou de outra, haverá de se encaminhar.

Tirando isso, estive a coser uns jeans do meu marido. Não sei como, se calhar é das jardinagens, dá cabo dos jeans. Abriram nos joelhos. Ficaram só para trabalhos no campo, mas, ainda assim, aquilo incomoda-o. Com jeitinho, lá consegui cerzir, disfarçar, os rasgões.

No outro dia fomos, uma vez mais, comprar outros. Como sempre, mal põe o pé no centro do comercial já fica farto e a dizer que é para despachar. Hélas. Onde entrámos ou os modelos eram baggy ou slim. Ora ele queria regular. Básicos. Já com vontade de desandar, viu uns que diziam 'vintage'. Disse: 'Vintage, é isto mesmo'. Além do mais também eram 'regular'. Escolheu o número, pegou neles, 'vamos, vou pagar'. Sem provar, sem nada. 

Passados uns dias, quando foi vesti-los, teve uma surpresa: estavam cheios de rasgões. Por isso lhes chamaram 'vintage'. Mais rasgões do que os usados.

Mas, a propósito do meu trabalho de costura, houve um facto a relevar. No outro dia, no Lidl, vi uma caixa de costura muito composta que resolvi comprar: linhas de todas as cores, uma fita métrica, uma tesoura, um conjunto de agulhas e, junto às agulhas, uma pecinha metálica cuja função desconhecia. Admiti que tivesse a ver com as agulhas mas não estava a ver em que medida. Fotografei, coloquei no chatgpt e foi uma descoberta e tanto. 

A dita pecinha, na ponta, tem um filamento, em forma quase de losando que a minha falta de vista não me tinha permitido distinguir. Enfia-se aquele filamento no buraco da agulha, e é muito fácil, e depois a linha nesse dito losango, depois puxa-se e já está. Aquela luta para enfiar a linha no buraco da agulha está ultrapassada.

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Tirando isso quero aqui deixar uma anotação: tenho andado a adiar falar da pulhice que fizeram ao Juiz Ivo Rosa pois tenho que encontrar o registo certo. É um tema que me traz tão revoltada, tão agoniada, tão enojada que só me apetece dizer que gostava de estar na frente de alguns dos pulhas responsáveis por isso para lhes atirar com um copo de água à cara. Mas não faz sentido eu escrever aqui isso. Também me incomoda que o Seguro não fale sobre o assunto, mas fale em público, que peça responsabilidades, que obrigue uns quantos a saírem com um pontapé no rabo, que exija que se criem condições para que canalhices destas não voltem a acontecer. Mas, como disse, tenho que conseguir esfriar a cabeça para conseguir falar do assunto com a gravitas que ele merece.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da civilização

 

Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento. 

Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'. 

Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.

Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.

Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.

Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...

Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.

O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.

Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida. 

Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.

Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.

Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.

E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.

Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.

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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.

Humanos Inacreditáveis ​​​​| 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K

Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.


Neste vídeo de viagem em estilo documentário, exploramos 10 comunidades extraordinárias:
  • Tribo Korowai (Indonésia)
  • Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
  • Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
  • Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
  • Povo Aymara (Bolívia)
  • Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
  • Povo Dogon (Mali)
  • Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
  • Tribo Kogi (Colômbia)
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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 04, 2026

Quanto custa despedirmo-nos de árvores?

 

Esta tarde estiveram cá uns rapazes ágeis, cheios de força e determinação. Quase conseguiram levar a cabo a tarefa de derrubar todos cedros grandes que estavam tombados. 

Antes, um deles já tinha vindo sozinho, durante dias, e já tinha cortado um deles que estava totalmente caído, a obstruir um dos caminhos, e também uns três ou quatro pinheiros muito altos e secos, um cedro que inexplicavelmente também secou (e que ainda não tinha atingido um porte gigante), um outro que estava bem vivo mas muito tombado, apenas sustentado por outras árvores, pernadas grandes de pinheiros e de aroeiras que se tinham partido. Mas a tarefa de hoje era a pior: cedros enormes, muitos metros de altura, possantes, uma ramagem compacta de alto a baixo -- e inclinados pelo vento, quase a cair.  Tudo fruto da depressão Kristin.

E, entre os dois, conseguiram dar conta de quatro. A complexidade maior, para além da envergadura e do risco de lhes cair em cima, é que estavam entre muretes e em volta de uns muros/bancos forrados a azulejos que importava preservar.

Conseguiram. Mas ainda há muito trabalho pois, para cada um, o grande torrão composto por terra, raízes e parte do tronco, ainda está intacto, um volume compacto, pesado --- e entre muros. Ou seja, um tractor não consegue lá chegar. 

E, para além disso, agora há troncos por todo o lado, ramagens e mais ramagens. 



No fim, teremos que pedir a alguém para cá vir levantar tudo isto. Das ramagens talvez façamos uma queimada. Já estamos registados no portal das queimas e queimadas e solicitamos aprovação. Talvez a família se junte, os meninos gostam de ver a grande fogueira que, em dias assim, se forma. O resto será lenha que alguém um dia consumirá. Nós já não temos onde acondicionar mais. O meu marido já transportou muitos troncos cortados para o telheiro da lenha.

Falta ainda o cedro mais complicado, talvez o mais alto, o maior de todos, que está entre painéis de azulejos. Nem quero pensar. Vê-se da nossa casa, faz parte da paisagem directa, não precisamos de ir passear para lá para o vermos. 

Isso será feito de seguida. Não quero ver.

Destes que já foram abatidos, enquanto os rapazes lá andaram, mantive-me em casa. Ouvia as serras a cortarem em contínuo. Só fui quando se foram embora. 

Uma desolação inexplicável. Onde antes havia uns vultos gigantes, frondosos, cheirosos, há agora o vazio e restos de troncos espalhados por todo o lado. 

Tento abstrair-me, não dramatizar, pensar que acontece. Aconteceu connosco e com tantas pessoas e muito mais grave que nós. Tivemos sorte. Bem sei. 

Mas também sei que antes de ir trabalhar, muito cedo, ia aos viveiros, escolhia as arvorezinhas, depois plantava-as, depois regava-as todas as semanas, fazia uma protecção em volta para o vento não os perturbar, para os coelhos não os comerem. Até que vingassem, tratei deles com cuidado e amor. Anos. Depois senti-me orgulhosa quando os vi, adolescentemente a deitarem corpo, espigados, a crescerem todos os dias. Finalmente, senti orgulho por serem tão fortes, tão belos, a darem aquela sombra com que tanto sonhei, a exalarem a frescura que tanto me reconforta. 

E agora tivemos que os abater.

É a vida, é a natureza. 

E foi também a nossa ingenuidade e impreparação. Sempre adorei cedros e nunca me passou pela cabeça que os cedros não fossem o tipo de árvore mais adequado a um lugar como este. Só depois disto soube que os cedros não enraízam em profundidade, em especial se o terreno é pedregoso. Quando pequenos, de facto deitam raízes para baixo mas, com a idade, quando atingem alturas grandes, estendem as raízes na horizontal. E com o vento a fazer o efeito de vela e as terras molhadas, empapadas, não houve pressão subterrânea para os aguentar. 

Fica a aprendizagem. E fica a memória da sua beleza quando estavam majestosos. 


De qualquer forma, não acabo sem responder à pergunta que formulei no título: Quanto custa despedirmo-nos de árvores?'. Custa muito.

segunda-feira, abril 13, 2026

Um domingo com árvores abatidas, com a feliz vitória da democracia e da liberdade europeia na Hungria, com o impasse na estúpida guerra que Trump desencadeou contra o Irão e com Israel a continuar a mostrar que é quem manda nos Estados Unidos

 


O domingo amanheceu muito cedo, cedo demais, e logo depois já se ouvia o barulho em contínuo da serra elétrica. Começaram a ser cortadas as árvores que tombaram ou que estão em vias disso na sequência da tumultuosa Kristin. Aliás, hoje ventava de tal forma que, sempre que passava sob as agitadas copas, me interrogava sobre a minha segurança e a de quem por ali andava a serrar os tão amados troncos. Mesmo os cedros e pinheiros que secaram, provavelmente por terem estado tanto tempo com as raízes encharcadas, também já começaram a ser abatidos. Onde havia árvores grandes e frondosas há agora espaço vazio e, ao olhar para esse espaço sem nada, sinto tristeza..

E ainda faltam as árvores maiores, os cedros gigantes, os que estavam dispostos em lugares estratégicos e que maiores dificuldades vão colocar ao seu abate e remoção. Temos mais uns fins de semana destes pela frente.

Tento colocar o coração ao alto. Os paisagistas que cá estiveram foram consensuais: nesta terra pedregosa mais vale contentar-nos com árvores autóctones do que alimentar o sonho de ter belas árvores que, aqui, serão sempre vulneráveis. Os cedros gigantes enraízam superficialmente, sobretudo em terrenos pedregosos. Por isso, quando estão muito grandes, se o vendo os faz flectir, por pouco que seja, o seu centro de gravidade não é sustentado por um enraizamento profundo. E tombam, levantando por completo as raízes. Com os pinheiros não é a mesma coisa, creio que, por um lado, é o mal que lhes dá. Ou a vulnerabilidade face ao excesso de água. Não sei. Não caíram, simplesmente secaram. Mas isso aconteceu sobretudo com os bravos. Os pinheiros mansos estão bem e os outros, de que não consigo lembrar-me do nome, também.

E as azinheiras e as aroeiras e as figueiras bem estão. Portanto, festejo o que está bem e tento aceitar com naturalidade que o ciclo de vida das outras chegou ao fim.

E, como esteve muito frio, estive mais tempo dentro de casa. E até fiz um chá e tudo. Só não acendemos a lareira porque, afinal, psicologicamente já nos estávamos a sintonizar com uma primavera quente. Este retrocesso climático não deverá levar-nos ao saudosismo da lareira.

Além disso, a madeira dos cedros e dos pinheiros não é boa para as lareiras, tem resina de mais.

Enfim, adiante.

Sobre o que por aí se vai passando um ou dois apontamentos:

Hungria

A derrota de Orbán é uma boa notícia para a União Europeia, para a Ucrânia, para a democracia. Ouvir uma multidão, em festa, a aplaudir Péter Magyar e a gritar a uma só voz Europa, Europa, é qualquer coisa de emocionante. A Europa é o berço, o refúgio, o chão e o tecto de quem, por estas nossas bandas, defende a democracia, o humanismo, o desenvolvimento, a liberdade, o Estado de Direito, a paz, a ética, a verdade. Que a Europa, livre e democrática, nos acolha, nos abrace, nos defenda, nos ampare.

Ao mesmo tempo, a derrota de Orbán é uma derrota para Putin, para Trump e para o oportunista e vira-casacos J. D. Vance, é uma derrota para Ventura e para todos os populistas de extrema direita que têm vindo a pulular na Europa à garupa do que julgavam ser a tendência vencedora Trump/Órban.

A caguada quase galáctica armada pelo idiota do Trump

 (nb: caguada com u para não ser um nome feio)

Ele não quer que se lhe chame guerra pois, para ser guerra, tinha que ter sido aprovada pelo Congresso. Como vai muito para além de uma operação especial ou de uma pequena excursão, como ele se lhe refere, prefiro chamar o que é, uma caguada em três actos.

O burro meteu-se nesta alhada, a reboque do outro que o tem na mão, e agora não tem como sair. Ele bem quer pirar-se de qualquer maneira, deixar tudo ensarilhado, e, como se fossemos todos tão burros e malucos como ele, dizer que ganhou. Só que o outro, o que o tem na mão, diz que espera lá aí: não sais, não senhor. E, para provar que não sai, não senhor, continua a bombardear tudo e mais alguma coisa, sobretudo o sacrificado Líbano, mesmo enquanto duram umas pretensas negociações com o Irão.

Para essas negociações, enquanto para representar o Irão, foi um grupo de homens feitos, com formação e experiência, para representar os Estados Unidos foi a tropinha fandanga do costume, a saber: o sinistro genro, o tipo de imobiliário e o totó do J.D. Vance. Enquanto para negociações similares em circunstâncias muito menos limites, outros levam meses ou anos, mas, vá lá, dada a urgência, no mínimo semanas, aqui julgavam que iam conseguir chegar a acordo em 21 horas. Como não conseguiram, vieram-se embora. E o paspalhão-mor, o doente Trump, ameaçou bloquear o bloqueado Estreito de Ormuz que, antes da monumental caguada, estava aberto. Uma tragicomédia que vai paa lá de ópera-bufa, mais parece um teatreco desconchavado engendrado por malucos internados num hospício para dementes encartados.

Qualquer dia nem é uma questão de ninguém conseguir pagar o combustível, é mesmo que não há. Escassez pura e dura.

Não se sabe qual a saída para isto. Airosa não há, mas mesmo que pouco airosa, não se vislumbra.

No meio disto, a esfíngica Melania veio fazer aquela conferência solene que, até hoje, ninguém conseguiu descodificar. Dizem que  uma ex-amiga dela, dos tempos de Epstein, ex-mulher de um grande amigo e apoiante de Trump, ameaçou pôr a boca no trombone e fazer revelações que vão mostrar o que é a verdadeira escumalha, e que, para se antecipar e mostrar que a escumalha não é ela mas, sim, o pato cor de laranja, Melania se antecipou. Mas há também quem diga que foi a Melania que já não pode com o marido e resolveu apertá-lo onde a ele lhe dói mais. Mas também há quem diga que foi Israel, que tem o casal na mão, que a obrigou a ela a ir pregar um susto ao marido para ele perceber que Israel é que manda e que, se ele quiser agora mijar fora do penico, ai ai, que eles pegam no material incriminatório que têm e o põem na prisão em três tempos. Who hnows...?

Um dia, presumo que não longínquo, teremos documentários, dramas e comédias sobre este período rocambolesco da história do mundo. E, muito provavelmente, em todos teremos o venal e idiota Trump retratado como estando simultaneamente nas mãos da Rússia, da China, de Israel e de Melania. Todos com material mais que suficiente para o chantagearem e o levarem a fazer todas as borradas a que vamos assistindo. Claro que tudo devidamente condimentado com o seu narcisismo e a sua demência. Ou seja, um filme.

Seja como for, por crime grosso de envolvimento com menores ou por desencadear uma guerra não autorizada, ou por estar a dar cabo da vida dos americanos ou por muitos outros motivos, parece que reina a agitação entre os republicanos. Preveem que não tarda se vão ver livres dele e já anda cada um para seu lado a ver se se organiza face ao tão esperado day after. Uns andam a arranjar maneira de o tirar rapidamente da Casa Branca, outros aguardam que a solução chegue por outra via: como vaticina um médico americano, esperam que um dia destes ele se engasgue de vez com um hamburguer ou, então, cometa um erro tão grave, tão grave, que tenham que interná-lo à força.

Eu, por mim, só mais modesta, gostava mesmo é que o mundo voltasse a ser como o era nos tempos em que a Rússia ainda não tinha invadido a Ucrânia, que Israel ainda não tinha destruído Gaza e agora o Líbano, em que Trump não tinha tido a sua 2ª e inexplicável vitória. Será que é pedir muito?

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Amanda Ungaro ameaça expor as ligações ocultas de Melania Trump nos arquivos de Epstein

A modelo brasileira Amanda Ungaro ganhou destaque nos media internacionais depois de alegadamente ter ameaçado "expor" informações relacionadas com Melania Trump, na sequência da negação pública da modelo de qualquer ligação a Jeffrey Epstein.

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Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, abril 06, 2026

Somos o acontecimento mais raro do universo e somos, ao mesmo tempo, o universo a observar-se a si próprio

 

Não vou falar de política, Isabel. Nem vou falar dos dementes que, com as mãos sujas de sangue, tentando iludir os ignorantes, invocam o nome de Deus para justificar os crimes que cometem. Não vou falar deste mundo que, em parte, parece estar esquecido das conquistas da humanidade, ameaçando a paz e a sustentabilidade do planeta e de tantas vidas, humanas e não só.

Hoje vou apenas falar da bênção de existirmos, nós, ocorrências improváveis.


Vivemos num universo de dimensões quase incompreensíveis. As estimativas actuais apontam para cerca de 2 biliões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas. No total, isso significa algo entre 10²² e 10²⁴ estrelas no universo observável. Uma dimensão que vai para além de qualquer entendimento humano.

Foi neste cenário vastíssimo que tudo começou, há cerca de 13,8 mil milhões de anos, com o Big Bang.

Mas há um facto ainda mais surpreendente: somos feitos de matéria estelar. Os elementos químicos que compõem o nosso corpo — carbono, oxigénio, ferro — foram forjados no interior de estrelas e espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram em explosões como supernovas. Como disse o astrofísico Neil deGrasse Tyson, baseado na ideia inicial de Carl Sagan, somos poeira de estrelas que ganhou consciência.

Agora, consideremos a (im)probabilidade de estarmos aqui. Cada um de nós resulta de uma cadeia contínua de eventos:

  • Milhares de milhões de anos de evolução da vida na Terra
  • A sobrevivência através de extinções em massa
  • A formação da Terra a partir da matéria que orbitava o Sol, a uma distância adequada para a existência de água líquida
  • E, mais recentemente, a sucessão contínua de gerações que tornou possível a nossa existência

Centrando-me especificamente no nível humano, a improbabilidade cresce rapidamente. Cada pessoa nasce de uma combinação genética única entre dois progenitores. Recuando gerações, o número de possíveis combinações de ancestrais cresce exponencialmente, ultrapassando largamente o número de estrelas da Via Láctea.

Do ponto de vista genético, a improbabilidade é ainda mais extrema:

  • O corpo humano tem cerca de 30 a 70 biliões de células
  • Cada célula contém cerca de 3 mil milhões de pares de bases de ADN
  • A combinação específica que resulta em cada um de nós é essencialmente irrepetível

Algumas estimativas populares sugerem que a probabilidade de um indivíduo específico existir pode ser algo como 1 em 10²⁶⁸⁵⁰⁰⁰ — um número tão vasto que ultrapassa o total de átomos no universo observável (cerca de 10⁸⁰). Embora este valor seja ilustrativo e não exacto, ele transmite bem a ideia defendida por Neil deGrasse Tyson: a nossa existência é extraordinariamente improvável.

E ainda assim, aconteceu.

Num universo com um número imenso (possivelmente infinito) de eventos e combinações, até acontecimentos com probabilidades quase nulas podem ocorrer. Não porque sejam prováveis — mas porque há tempo e tentativas suficientes para que aconteçam.

Nós somos um desses acontecimentos.

Somos o resultado de estrelas que viveram e morreram, de átomos que viajaram pelo cosmos, de uma cadeia contínua de vida que nunca foi interrompida durante milhares de milhões de anos. Tudo isto teve de alinhar-se com uma precisão extraordinária para que estivéssemos aqui, neste momento.

Por isso, do ponto de vista científico, há uma ideia difícil de ignorar: temos uma sorte imensa em existir.

Num universo onde a nossa existência é tão improvável, o facto de estarmos conscientes, de podermos pensar, sentir e observar o mundo, torna-se algo profundamente raro.

E talvez por isso não devamos desperdiçar essa oportunidade.

Durante um intervalo extremamente breve — uma fração mínima na escala do cosmos — temos a possibilidade de experimentar a vida tal como a conhecemos: ver, aprender, amar, questionar e compreender, ainda que parcialmente, o universo que nos deu origem.

Tal como Sagan o interpretou e eu acho a ideia belíssima, somos o universo a observar-se a si próprio.

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Para mais informação e considerações sobre o tema recomendo os vídeos em que Neil deGrasse Tyson fala sobre o assunto. Este aqui abaixo é apenas um deles.

Um dos factos mais espantosos  -   Neil deGrasse Tyson

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As fotografias foram feitas in heaven
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Desejo-vos uma boa semana

domingo, abril 05, 2026

Renascimento

 

Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.

Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.

E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã. 

Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.

Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom. 

Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.

Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.

A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.

Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.

Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei. 

Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.

Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer. 

Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.

E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha. 

Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma. 

E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender. 

De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.

E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.

E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...

O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han). 

Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.

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Desejo-vos um belo domingo

Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra

Que a vida nos sorria a todos

terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz