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quinta-feira, março 30, 2023

A Mona Lisa...? Uma aldrabice.
[Do Rodin salva-se o Thinker mas é por causa dumas coisas do TikTok]

 

Dia longo e, graças a ainda não nos termos visto livres dos efeitos pós-covid, um bocado cansativo.

Para já a noite foi muito em branco. A minha mãe tinha encostado a porta do quarto e o dog, que tem que ter sempre o que guardar, começou por deitar-se, no corredor, à porta do quarto dela. E até aí tudo bem. O pior é que, a partir de certo ponto, deu-lhe para ganir. Aliás, mais parecia que estava a chorar. Uma coisa impressionante. Pensei que, com aquela choradeira, não estava a deixar a minha mãe dormir.

A chatice é que, de noite, quando tentamos impedi-lo de fazer o que quer, não reage lá muito bem. 

O meu marido dormia a sono solto e eu equacionava ir eu tentar tirá-lo dali ou acordar o meu marido. Não queria acordá-lo mas não sabia como é que conseguiria tirar o urso felpudo dali. É teimoso como uma mula e, fixado como estava em estar de sentinela ao quarto da minha mãe, era certo e sabido que seria debalde.

Então, vendo que o tempo passava e ele não se calava, acordei mesmo o meu marido. Vestiu-se e lá foi. Só que, como por milagre, o guardador de rebanhos calou-se. E o meu marido, passado um bocado, apareceu e disse que ele se tinha calado e que não o tinha visto. Pensou que tivesse ido para junto da janela do primeiro andar, onde gosta de dormir.

Só a partir dessa altura consegui dormir.

De manhã, quando lhe perguntei sobre o safado que tinha feito aquela linda choradeira à sua porta, a minha mãe disse que não ouviu, que dormiu profundamente. Mas que, já de madrugada, ouviu empurrar a porta à força. Assustou-se. E ainda mais se assustou quando sentiu alguém a saltar-lhe para cima da cama. Claro que percebeu logo que era ele. A excelência, tendo conseguido o que queria, aconchegou-se e dormiu. Só que aí foi ela que espertou, não conseguindo dormir mais.

De tarde, eu e o meu marido fomos com os dois meninos, um dos quais está quase a fazer anos, comprar-lhe o presente de anos.

Basicamente agora o presente principal que querem (os rapazes) é chuteiras ou ténis de modelos ou marcas que eles lá sabem. Portanto, para ser ao gosto deles e para os provarem, temos que ir com eles. Não dá para arriscar.

O mais velho, recém chegado do passeio de Paris (onde parece que fez das dele) foi connosco, como conselheiro.

Eu ou o meu marido escusamos de opinar pois eles têm ideias muito bem definidas. 

Gostamos também de oferecer sempre roupa pois precisam sempre. Como a minha filha me tinha dito que ele precisava de tshirts e de um casaco aberto à frente, enquanto eles dois desataram a escolher por eles, eu fui escolher tshirts. Quando as viram, tshirts normais, discretas, com uns desenhos engraçados, disseram que nem pensar, que 'sem ofensa, Tá, já não estás bem ao corrente do que se usa...'. O mais velho disse que 'basicamente, Tá, se ele usasse isso seria vítima de bullying'. Fiquei a olhar para as tshirts a tentar descortinar a razão de tão dramáticas consequências. O mais novo elucidou-me: 'Basicamente, Tá, eu seria alvo de chacota'. Fiquei na mesma. Mas, pronto, ok.

Quanto aos casacos com fecho, não quiseram saber dos requisitos da mãe. Sweatshirts com capuz e mais nada. Casacos com fecho já não estão com nada. E lá escolheram. O mais velho escolheu tudo. Para já que o irmão precisava de umas calças beige. Depois tshirts lisas ou só com algum dizer, simples. Sweatshirts lisas, claras, simples. E um boné como deve ser. O irmão vestia e pedia para eu chamar o irmão, para o irmão se pronunciar. E o irmão opinava. Com bom gosto e ultra despachado. Gostei de ver.

Mas a perdição na loja dos ténis foi a secção das tshirts dos clubes, perdição sobretudo do mais velho, e a das chuteiras, perdição de ambos. Depois de escolhidos os ténis, dirigiram-se para lá. Qualquer deles já as tem, boas, mas, com o pé a crescer-lhes a ritmo acelerado, estão sempre a precisar de novas. 

Imagino que a vossa literacia sobre chuteiras seja equivalente à minha. Mas deixem que vos conte que é todo um mundo novo. 

Há um ou dois anos eu acharia aquilo uma bimbalhice. Agora já sei que é mesmo assim. E eles adoram. Dizem que umas são as do Ronaldo, outras as do Messi, outras as de não sei quem. Parecem umas sapatinhas de plástico ultra coloridas, com uns espigõezinhos que parecem uns saltinhos fofinhos. Mas consta que os jogadores de futebol acham o máximo. Os meus netos põem-mas na mão para eu lhes sentir a leveza, quase não pesam, e parece que são resistentes e confortáveis. E carérrimas.

Se bem percebi, saíram de lá já a saber quais as que o menino dos anos vai 'cravar' ao pai.

Depois, já atrasados para o treino do mais novo (um grande guarda-redes que já joga a sério), íamos no carro quando o mais velho se saiu com uma, certamente no seguimento da conversa anterior sobre as suas aventuras em Paris, 'Agora a Mona Lisa...? Uma aldrabice.'. Apanhados de surpresa, reagimos, o meu marido referindo o sorriso enigmático da dita, eu rindo e referindo também a intemporalidade da obra. Ele continuou: 'Filas enormes, depois temos que ficar a dez metros e, afinal, aquilo é uma coisinha de nada, com dois centímetros, e não passa daquilo'. Protestámos. Corrigiu, dois centímetros não, mas não mais que isto - e mostrou com as mãos a fraca dimensão da coisa. Continuou: 'Quadros maiores, melhores', como se não percebesse a fama da Mona Lisa quando comparada com coisa melhor. E concluiu: 'O Louvre, uma seca'.

Perguntei pelo Orsay. Disse que outra seca. Rebatemos. O mais novo veio em defesa do irmão: 'Tá tens que perceber, basicamente esses museus são uma seca para putos como nós'. Não me dei por vencida. Falei nos impressionistas, pinturas tão lindas. 

E falei no Rodin. 

Aí lembrou-se. 'Ah, Rodin, sim, o Thinker'. Tendo chegado de uma 'visita de estudo' a Paris, estranhei: 'O Thinker?'. O meu marido disse: 'Le Penseur'. Ele comentou que sabia mas preferia dizer em inglês, o Thinker, e era por causa dumas cenas do Tik Tok. Mas fiquei com a impressão que eram coisas de que ele, basicamente, não podia ou não queria ali falar.

Fomos a casa para deixar o mais velho e para o mais novo se trocar. Dali levámo-lo ao treino. E viemos para casa. De caminho apanhámos uma pizza. Ainda fomos fazer uma breve caminhada. Quando chegámos a casa já era de noite. E, adivinhem, basicamente perdidos de sono.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Boa disposição. Paz.

segunda-feira, maio 17, 2021

Não liguem ao que eu digo mas ao que eu, aqui, hoje, partilho convosco

 

Dia bom. Começámos por varrer as folhas do jardim. A árvore que eu tanto tenho querido preservar dizendo que é icónica, a adoração dos meninos que gostam de lhe andar em cima, dá-nos conta do juízo. As folhas caem, caem. Também nascem. Uma produção de que não se dá conta. Desesperamos: ou deixamos que o jardim fique submerso ou não temos descanso. Começa a formar-se na minha cabeça a ideia de que não pode ser.

No outro dia, o meu menino mais crescido dizia que se amarrava à árvore se me passasse pela cabeça cortá-la. E eu, só de ele dizer isso, fiquei logo com vontade de tudo desculpar à estouvada que tanto trabalho nos dá. Mas os sacos que se enchem com as suas folhas puxam noutro sentido.

O arbusto dos escovilhões está bem florido mas os filamentos encarnados vão caindo. Por baixo, o chão está coberto de uma camada que parece de veludo. Isso não varri, acho uma beleza.

Depois chegou o meu filho e a sua turminha para virem andar de bicicleta. Não estiveram muito tempo mas deu para os abraçar e para me encantar.

Depois, fizemos a nossa caminhada. Para o almoço fiz maruca cozida com batata, batata doce, cebola, cenoura, feijão verde e ovo.

A seguir, fomos buscar a minha mãe e fomos passear com ela. Mas estava um céu abafado e cinzento, o tempo ventoso, quase frio, não estava agradável para andar a cirandar na rua. Pelo menos, a minha mãe foi ver uma vila onde já não ia há muito tempo e que já mal reconheceu e um lugar bonito onde nunca tinha ido. 

Depois de a deixarmos em casa, fomos ao supermercado. E, depois das coisas arrumadas, fiz sopa. 

Estava a sentir-me um bocado cansada, a pensar que precisava de dormir nem que fosse por uns dez minutos. Mas não deu: tinha ainda muita coisa para fazer desde regar os vasos, arrumar roupa, tratar de uma papelada, etc.

E, por estúpido que possa parecer, ainda quero ir fazer umas coisas e já passa da uma da manhã. Portanto, o dia foi bom mas o meu marido tem razão quando se queixa: um gajo não consegue descansar. É mesmo.

Mas se o que tenho a dizer sobre o meu dia é mais do mesmo, não se poderá dizer o mesmo do que aqui abaixo partilho convosco. Momentos de beleza, de assombro, de reflexão, de pura genialidade. Espero que gostem.


The Making of
Rodin review – the sculptor in a ghostly new light

The Making of Rodin is a show almost entirely composed of plaster casts: fragile and small, delicate or solid, heavyweight, lifesize or gargantuan. It is thronged with figure groups, solo statues, trays of hands and feet in glass cases. Smooth, chipped, marked up in pencil for rearrangement or enlargement, provisional studies or final casts – they are all uniformly, overpoweringly white.



Ikebana -- Arte floral japonesa



Stuff everywhere! Bags, clothes, cars, iPads. We love our stuff. And over time, we’ve come to believe that this 'stuff' is what defines who we are. But our possessions will never fully satisfy the inmost desires of our soul. They never have. And they are not about to start. In fact, most of the time, it distract us from the very things that bring meaning to our lives.
Instead, our lives are defined by the choices we make.  It is these choices that define our character, our authentic self.  So choose wisely.  Do not miss out by placing importance on things instead of people.  Pursue beauty, hope, love and kindness. Pursue opportunity to improve this world for somebody else.  Let’s be simply beautiful. 


Jorja Smith – Home


Derek Paravicini e Adam Ockelford: In the key of genius
Born three and a half months prematurely, Derek Paravicini is blind and has severe autism. But with perfect pitch, innate talent and a lot of practice, he became an acclaimed concert pianist by the age of 10. Here, his longtime piano teacher, Adam Ockelford, explains his student's unique relationship to music, while Paravicini shows how he has ripped up the "Chopsticks" rule book. 

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Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Alegria. Afecto.

terça-feira, setembro 08, 2020

O Requiem e Las causas




Há quem se emocione com o Requiem de Mozart. Também me emociono mas não a ponto de chorar. Mas emociono-me, por vezes com lágrimas, ao ouvir ler Las Causas -- como se estivesse perante uma inesperada antevisão da perfeição da vida, como se estivesse perante a descrição do melhor destino que se pode desejar, 

Mas digo isto sabendo que não sei explicar. 

Porque chora alguém ao ouvir o Requiem de Mozart? 
Porque acorda na sua alma sofrimentos adivinhados, saudades fundas, dor cavada e incumprida? Porque se levanta da terra o sopro de espíritos antigos, porque convergem no seu peito lágrimas de sofridas despedidas, gritos de dor longamente calados? Porque todas as cordas da alma, em uníssono, choram a finitude do corpo, a finitude do amor? Porque depois da perfeição que se ouve apenas pode sobrevir o vazio e o vazio é o tenebroso abismo em que se afogam os desesperados? Ou porque, no fim, se percebe que poderia ter havido alguma coisa e, em vez disso, houve nada e mesmo esse nada acabou? Porque tudo é tão efémero, tão frágil, tão difícil de agarrar e tão fácil de perder?
Não sei. Se alguém sabe que o diga.

Seguramente, não serão as mesmas razões que me levam a emocionar-me com Las causas. Enquanto no Requiem o rio avança, belíssimo e nobre, para se perder lancinantemente no mar, talvez até no céu, em Las causas os braços do rio caminham, desconhecendo-se, caminham cegos, inocentes, para inesperadamente confluirem e se tornarem um rio único, belo, forte e destemido. É a celebração do acaso e das diferenças que se ajustam entre si, é a emoção do caos feito ordem, é a harmonia que surge quando menos se espera, é o encontro virtuoso que justifica o acto de viver.



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E a todos desejo um dia feliz, com muita vontade de celebrar a vida

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Precisamos de um S. Valentim para amar melhor?
[Reflexões de uma camponesa numa noite dita de Namorados]




Fomos almoçar a um restaurante numa pequena aldeia aqui perto. Chegámos bem já depois das duas. Os trabalhos no campo têm disto. Há uma sequência que deve ser cumprida. E banho antes de almoçar e fechar a casa e mais a viagem... e deu nisto. Nestas terras almoça-se cedo. Fomos os últimos a chegar, já o restaurante estava quase vazio e, naturalmente, também fomos os últimos a sair, passava das três da tarde. O dono da casa e os empregados estudavam a disposição das mesas e a mulher do cozinheiro compunha umas jarras na entrada. E tantos os cuidados que perguntei: 'Vai haver festa ao jantar, não?'. Com ar de quem estava a ceder a uma imposição com a qual não se identificava lá muito, respondeu-me ela, enquanto encolhia os ombros e arqueava as sobrancelhas: 'Vamos fazer a Noite dos Namorados... Vamos ter música ao vivo. Estamos a decorar para dar um arzinho assim mais... romântico'. Parecia tímida ao assumir a cedência aos ditames comerciais.

Nem nos tínhamos lembrado. Dia dos Namorados.

Depois do restaurante e antes de virmos para casa, fomos a um mini-mercado. Passámos pela florista. Uma lojinha pequenina com uns quantos vasinhos à porta. O meu marido leu o nome: Belinha Florista. Olhei. Reparei que, por dentro da pequena montra, tinham uns fios suspensos com uns quantos coraçãozinhos encarnados. A Belinha não se tinha esquecido do Dia dos Namorados. Pelo aspecto dos homens que costumo ver por ali, conversando no passeio junto ao café ou à loja que vende máquinas agrícolas, diria que a registadora da Belinha não notará grande incremento mas, que sei eu?, quem vê caras não vê corações.

Tirando isso, não dei conta de outras comemorações.

Já acertámos com o senhor da máquina a limpeza daquela nesga de terreno lá ao fundo, a seguir à serventia. Em tempos havia lá colmeias. Presumo que o senhor que nos pediu para lá as ter já não se dedique a isso. Nem sei se ainda vive. Naquela altura, quase há vinte anos, já não era nada novo. O senhor da máquina vem no sábado quase de madrugada. Por aqui a alvorada é sempre cedo. E quero acompanhar, não vá alinhar pelo meu marido e também ser do clube do 'vai tudo abaixo'.

Entretanto, dando continuidade à nossa labuta, já se cortaram mais um monte de ramos dos cedros que estão relativamente perto da casa para que a copa fique bem mais alta que os beirais. Já se cortou em troncos para a lareira tudo o que se conseguiu. Já se desbastou mais tojo, é uma praga o tojo. Já se fizeram grandes fogueiras, uma de manhã e outra de tarde. 

A quantidade de ramos e mato que já queimámos é brutal e, no entanto, olha-se e parece um bosque em estado virgem. Tínhamos que estar cá um ou dois meses de seguida, dedicados a isto. E tínhamos que estar fisicamente habituados a tanto esforço. Ao quarto dia estamos exaustos. 

Ao fim do dia, começou a cair uma humidade que era quase uma chuvinha tímida. Anoitecia, as árvores já eram apenas vultos, e vinha da terra um perfume bom, orgânico. A fogueira ainda estava viva e deixava no ar o cheiro bom do cedro a arder. O prazer de estar ali é difícil de descrever. E é curioso como os nossos olhos se habituam à luz a esvanecer-se. Ou porque os passos já conhecem os caminhos ou porque os olhos aprendem a desvendar os vultos que se escondem na escuridão, a verdade é que regressámos às escuras sem qualquer problema.

Quando chegámos ao pé da casa, o meu marido lembrou-se que tinha deixado a escada encostada a um dos cedros que está do lado de lá do estúdio. Fui buscar uma lanterna para o ajudar a encontrá-la e fiquei a apontar enquanto ele ia até lá. De repente, um barulho, um sobressalto, várias asas a baterem em uníssono, com força. Assustámo-nos. Mas os pássaros, de certeza, que se assustaram ainda mais tal o alarido do bater de asas.

Agora que cheguei à etapa lúdica da jornada computacional (ou seja, depois de responder a mails de trabalho e de autorizações e outras cenas), dei com uma selecção de músicas românticas.

Lá está, Dia de S. Valentim que se preze pede banda sonora.

Conheço umas, não conheço outras.

Se eu tivesse que escolher a 'nossa' música haveria de me ver grega. Se lhe perguntasse a ele, diria que me deixasse de perguntas sem sentido. Talvez a muito custo lhe arrancasse alguma coisa. E eu lembro-me de uma ou duas mas não que sejam especialmente românticas, apenas as associo a momentos que, de alguma forma ficaram gravados na minha memória de uma forma muito intensa.

Mas, sim, Leonard Cohen seria um dos que teria numa selecção que fizesse. Contudo, talvez não com a dele que é considerada uma das mais românticas de todos os tempos, a So long, Marianne, mas com outra. Talvez I'm your man. O meu amor é sempre mais erotizado do que puramente romântico. Outra que eu quereria incluir seria Nina Simone. Contudo, não tinha presente a canção que vejo na selecção do The Guardian. Mas ouvi-a e gostei. Claro que gostei. Gosto sempre de Nina Simone.

Bem. E mais não me ocorre, por ora. Se calhar é porque, enquanto escrevo estou com um olho no burro e outro no cigano, encantada com as jóias alimentares que o José Avillez está a descrever. O seu menu de degustação, no Belcanto, tem fama e diz quem já lá foi que é manjar dos deuses. Mas 165 euros por pessoa é obra. Será que ele também lá festejou o Dia dos Namorados?

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Mas, sendo eu romântica pura ou não, apetece-me fechar este post com uma carta de amor.

“My dearest one" -- Benedict Cumberbatch lê uma carta escrita por Chris Barker (em 1945) para  Bessie Moore


(Porque gosto muito de receber cartas, poemas ou bilhetinhos de amor)

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Fotografia da Magnum e, a do banco, de Steve McCurry.
Pinturas de Picasso e Chagall.
Escultura (The Kiss) de Rodin

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PS: E já vos contei que aqui a net é a pedal...? Escrevo várias palavras e fico a vê-las a apareceeeeeer... devagariiiiinho.... Ou clico numa coisa e o ecrã fica em suspenso, a rodinha a rodar, a rodar, a rodar... e, muitas vezes, pede-me que faça o reload da página. Ou faço um post com imagens e vídeos e o que me aprece são espaços em branco, não consegue carregar imagens ou vídeos. Um desatino. Por isso, por muito que me apteceça escrever mais, acabo por desistir. Ah, os malefícios de se estar longe da civilização...

PS2: E volto aqui para comentar uma cena: aqui não temos cabo, é mesmo a TDT ou lá como se chama. Portanto, enquanto me entretinha a dar uma volta por alguns blogs, fui tenntando descobrir coisa que se visse. Fui dar à TVI e às Não sei Quantas Sombras de Grey. Só vi a última parte. Está bom de ver que não li o livro e em boa hora não tinha visto o filme. Uma sensaboria sem pitada de glamour ou sensualidade. Uma estopada metida a besta. Não dá para perceber o sucesso. Li, em tempos, que o sucesso provinha de donas de casa ou mulheres casadas ou coisa do género. Presumo que das que são pobres de espírito ou carentes até à última casa, daquele tipo de trepar pelas paredes ou matar cachorro a grito. 

quinta-feira, agosto 25, 2016

"Italianos com 18 anos recebem 500 euros para cultura"
- Isto, sim, é uma medida estruturante que eleva o nível intelectual de um país para um outro patamar







Se há medidas que eu acho que moldam o desenvolvimento de um país, que o tornam mais competitivo, mais rico, mais forte e coeso são as que se relacionam com o ensino, o fomento da capacidade de estudar, de investigar e de ousar inovar, e a defesa intransigente da cultura e de uma visão abrangente e inteligente de tudo o que são valores ou recursos culturais.

Não vejo estas medidas como um custo mas como um investimento. E um investimento de alto e rápido retorno.

Agora -- já aqui aboletada no meu sofá mágico, fresquinho como uma suave barca, apanhando de feição a aragem da noite -- ao folhear os onlines, deparei como uma notícia no DN que instantaneamente me fez ficar rodeada de estrelas. Estrelas virtuais, claro, mas igualmente luminosas e felizes.

Transcrevo, fazendo votos para que Portugal adopte esta ou outra medida semelhante:




Era uma promessa eleitoral de Renzi que, soube-se hoje, começa a tomar forma. 


Foi aprovado o "abono da cultura", isto é, 500 euros que podem ser usados pelos jovens italianos (ou com visto de residência) em atividades e produtos culturais.


Não se trata de um cheque passado em mão a todos os jovens nascidos em 1998, mas de uma aplicação que se descarrega nos telefones móveis, chamada 18app. Uma vez registados, os jovens começa a ter acesso a este plafond. 


O sistema entra em funcionamento no próximo dia 15 de setembro, coincidindo com o regresso às aulas, e é válido até 31 de dezembro de 2017.


Com este fundo de maneio, os jovens poderão aceder a museus, parques arqueológicos, teatros, cinemas, concertos, exposições, mas também livros, segundo o ministério dos Bens Culturais italiano, promotor da iniciativa e, ao mesmo tempo, responsável pela escolha das propostas culturais que farão parte deste pacote.

Dados divulgados pelo ministério da Cultura italiano, a iniciativa deverá abranger 574 593 jovens e corresponde a um investimento de 290 milhões de euros que sairão dos cofres do governo.

O investimento "envia uma mensagem clara: o de uma comunidade que dá as boas-vindas à idade adulta recordando o importante que é o consumo da cultura para o enriquecimento pessoal e para fortalecer o tecido social do país", disse o subsecretário do Conselho de Ministros, Tommaso Nannicini.

No próximo ano, o governo de Matteo Renzi pretende alargar a proposta a todos os professores.


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Ao som do Va pensiero da ópera Nabucco de Verdi (1842), aqui interpretado por Pavarotti e Zucchero, para exemplificar de forma rápida a forma como a cultura abre as mentes para a diversidade e para a aceitação de diferentes visões sobre a mesma realidade, apeteceu-me mostrar o mesmo S. João Baptista respectivamente por:
  • Leonardo da Vinci 1513
  • Caravaggio, 1602
  • Giovanni Francesco Guercino (Barbieri), ~1645
E porque a defesa da cultura nacional não deve ser encarada de forma chauvinista, o mesmo S. João Baptista mas agora segundo um francês
  • Rodin, 1878–1880
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Por isso, alô, alô Tim Tim no Tibete!
Siga o bom exemplo de Renzi e ponha os nossos jovens a apaixonarem-se pela nossa cultura, va bene?

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma saudável, sortuda e alegre quinta-feira.

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terça-feira, janeiro 26, 2016

A arte é uma batata? Ou é a batata que é arte...?
Um milhão de euros...?!?!? Oh my dog...


No post abaixo já falei de não irmos ter Primeira-Dama e, até, mostrei a minha compreensão: Rita Amaral Cabral deve ter mais que fazer que aturar os salamaleques que a função exigiria, deve querer manter a sua profissão e, às tantas, acima de tudo, deve estar melhor assim: o Marcelo na casa dele, a armar aqueles furdunços lá dele, sms, mails, telefonemas, um frisson a duas mãos (não se dizia para aí que escrevia, em simultâneo, com as duas mãos?) e ela, sossegada, na sua própria casa.

Mas, enfim, sobre esse tema tão empolgante, falo no post abaixo.

Aqui, agora, o tema é arte. Há bocado estive a ver o que o autor de um artigo considerava serem As 10 obras de arte mais importantes de todos os tempos.


VÊNUS DE MILO (século II a.C., autor desconhecido)
FONTE (1917), de Duchamp
MONALISA (1503-06), de Leonardo da Vinci


Já tive a sorte de ver parte delas ao vivo. Não sei se concordo com a escolha de J.C. Guimarães, o autor do artigo, uma vez que, de imediato, poderia lembrar-me de outras tantas que me impressionaram tanto ou mais que algumas daquelas. Mas a verdade é que não ousaria pôr-me a fazer uma escolha. Nem saberia escolher 'as mais importantes', nem tão pouco 'aquelas de que mais gosto'.

Se me perguntassem quais os 10 livros da minha vida ou quais as 10 músicas haveria de ser igual batalhação: sei lá. Acho que me ia esquecer dos mais importantes. Não sou de fazer listas nem rankings. Se gosto, não quero deixar num lugar baixo do pódio ou deixar de fora aquilo que merece a minha estima. Gosta-se apesar das diferenças e há lugar para tudo aquilo de que se gosta. É como com pessoas: não é por gostar dos meus filhos que vou deixar de gostar dos meus amigos, não é por gostar do meu marido que vou deixar de gostar dos meus pais. E as crianças: vão chegando e a gente gosta sempre delas como se fossem únicas. O nosso coração é elástico.

Por exemplo, se gosto desta bela e enorme pintura (que ainda há uns dois anos vi no Rijksmuseum),

A RONDA NOTURNA (1642), de Rembrandt

ou deste clássico de Picasso,

SENHORAS DE AVIGNON (1907), de Picasso

a verdade é que logo penso em Caravaggio, em Chagall, em Matisse, em Gauguin, em Van Gogh, em de Chirico, em Rothko, em tantos, tantos - e isto se pensar em pintura.

Canção de Amor -- Chagall

Mas logo me ocorrem as esculturas, Rodin, por exemplo.

La Cathédrale ou Les Mains jointes -- Auguste Rodin
Mas tantos, tantos.

No entanto, e podem chamar-se conservadora ou conceptualmente míope, já tenho problemas em perceber que a provocação de Duchamp com o urinol, chamando-lhe fonte e classificando-o de obra de arte, possa ombrear com as inquestionáveis Vénus ou Mona Lisa. Nunca percebi. Nunca vou perceber. Poderá aquilo ser uma obra de arte?! Como...?! O tanas é que é. Caraças para tanta parvoíce.

E vem isto agora a propósito de uma notícia surpreendente: a fotografia de uma batata foi vendida por um milhão de euros. Li e não queria acreditar.


Fotografia foi tirada em 2010  |  KEVIN ABOSCH
Transcrevo:

 Fotógrafo de celebridades vende imagem de batata por um milhão de euros

Kevin Abosch, um fotógrafo irlandês de 46 anos, celebrizou-se pelos retratos de celebridades, entre as quais se contam Johnny Depp, Yoko Ono, Bob Geldof ou Dustin Hoffman. Os seus clientes de luxo chegam a pagar-lhe 250 mil euros por uma fotografia, mas até hoje nenhum dos seus retratos foi tão rentável quanto a fotografia de uma batata orgânica que tinha colocado nas paredes de sua casa.
Conforme confirmou o próprio Abosch ao The Sunday Times este fim de semana, a imagem do tubérculo, tirada em 2010, foi vendida a um empresário europeu que não quis ser identificado e que o fotógrafo recebera em casa.

Que a fotografia tem a sua graça, é um facto. Mas... 1 milhão de euros?!?! 

É esta loucura que me choca, que me deixa doida. Estou a ver na televisão os refugiados, barcos perdidos no mar, gente cheia de frio e fome. E depois há um maluco que gasta um milhão de euros na fotografia de uma batata. Não dá para entender. Qualquer coisa não vai bem no reino da dinamarca para que estas coisas sejam noticiadas como se fossem normais. O caraças é que são.

...

Mas, enfim, isto é capaz de ser o sono que me está a retirar presciência. Talvez o comprador não seja um simples amante de arte mas um investidor, talvez tenha a visão de longo alcance que me escapa: talvez agora alguns saloios, entre os quais me incluo, não estejam bem a ver o filme mas, daqui por algum tempo, a batata vai é valer mil milhões de euros -- com um bocado de sorte ainda passa a valer tanto como toda a dívida pública portuguesa.

Só visto, é o que eu vos digo. Duvidavam de que a lógica fosse uma batata...? Pois então revejam lá isso.
...

Mas olhem, This too shall pass

OK Go


...

E queiram, agora, seguir para o comentador Marcelo que virou Presidente (sem Primeira-Dama e sem ir dormir ao Palácio).
É já aqui abaixo.

...

terça-feira, março 03, 2015

O que é a arte? O que é a beleza? - que questões difíceis me coloca, Rosa Pinto. A verdade é que não lhe sei dizer, posso apenas falar de algumas coisas de que gosto.


Eu não sei o que é arte nem sei o que é belo. Sei apenas o que me toca e, então, eu não sei explicar porquê. O que a mim me parece belo muitas vezes não o é aos olhos de outras pessoas. Não sei o que é mas sei o que não pode ser: não pode ser perfeito. Não gosto do excesso de perfeição. A perfeição absoluta atinge-se com muito esforço, com depuração, com a perda da espontaneidade, e esse esforço, essa depuração, a mim parece-me quase um ornamento e eu não gosto muito de ornamentos. 

Quando eu fazia tapetes de Arraiolos, aquelas complicadas réplicas de tapetes do século XVII que aqui tenho em casa, eu bordava com todo o preceito. Os mais exigentes, ao verem os tapetes, viravam-nos logo porque pelo avesso é que se vê se é um verdadeiro Arraiolos e nunca encontraram defeito nos meus, eram perfeitos. Milhares de pontos e nem um ponto em falso. E, no entanto, não há um único tapete em que eu não tenha deliberadamente trocado um ponto. Tinha que ter um pequeno toque de imperfeição senão não seria meu.

Às pessoas de feições muito perfeitas eu acho monótonas. Às pessoas muito bem comportadas eu acho umas chatas.

Da mesma forma, aquilo que eu acho belo ou que me toca como sendo arte tem que conter assimetria, desconcerto, desequilíbrio, tem que haver algures o chamamento para o abismo.




Emocionei-me uma vez perante uma grande tela de Caravaggio e talvez o que mais me tenha impressionado tenha sido a sujidade das mãos, das unhas. Ou o ar de deboche e de noites mal dormidas dos rapazes que ele pintava.




Ou o excesso de injustificação que existe nas telas de Rothko. A vontade de me misturar nas cores sem motivo, de me perder no azul, de me incendiar com os encarnados cheios de luz. Ou os encarnados densos, sombrios, contendo a perdição da noite mais profunda. Ou o nada banhado de cor, a oração mais sentida.







Ou cavalos azuis. Gosto de cavalos azuis cruzando os espaços que habito, sonho que atravessam a noite transportando sonhos, ouço-os passar sedosos, silenciosos, apenas a sua corrida deixando um rasto de corpos suados no ar. De manhã encontro-os em repouso, passeando tranquilos entre caminhos onde o alecrim floresce.




Ou corpos nus que dançam em roda, e a música une o sangue que neles corre e o coração une-se para que a dança em roda se feche como um anel o desejo que os percorre. E junto-me a eles e festejo os perfumes suaves e o som dos pássaros e o prazer que o meu corpo sente quando dança ou quando vê outros corpos livres, elevando-se em desequilíbrio até onde os deuses permitem.







Na escultura também procuro o imprevisto, a imperfeição dos corpos. Ou a ausência de explicação, o desenho da luz, as sombras, os corpos abandonados, os corpos sem forma, ou a erosão do tempo.

Na música eu gosto do que me transporta nem sei para onde, para o desconhecido, porque o que me atrai é o que não conheço. Ou melodias que me embalem. Ou que me tirem para dançar, ou que me levem até às portas de jardins cheios de perigo.

E na escrita eu gosto que as palavras tenham vida própria e criem histórias impossíveis, teias imprevisíveis onde os corpos não escondam a carne, onde os olhos não escondam as lágrimas, onde os corpos não escondam o riso e o voo, onde os sexos não tenham pudor nem limites. E gosto de cartas e de diários e gosto de sentir que está ali a essência de quem os escreveu, sem véus, sem rodeios. Ou subtilezas que mal se percebam. Ou confissões pagãs, ou segredos sagrados ou a semente da loucura.

E gosto da leveza da poesia. Ou do peso esmagador da poesia. Ou da música da poesia. Ou do sangue quente da poesia. Ou do brilho ardente que se esvai do coração dos apaixonados e se transforma em poesia. Ou das cinzas e sombras que se ocultam na poesia. Ou da terra fértil e húmida que cheira a poesia.




E nas flores eu gosto que elas nasçam e vivam por si, selvagens, livres, delicadas, efémeras. Perfeitas e imperfeitas como o amor, como as palavras não ditas, como o desassossego que se adivinha.




E nas árvores eu gosto de tudo. Do tronco que fica mais largo como o corpo de uma mulher que amadurece, da pele que se solta como memórias perdidas, de como se enlaça em flores e alegrias, dos cheiros que se misturam como seivas, espermas, salivas, beijos.




E na fotografia eu gosto do que não é óbvio, do que se adivinha por detrás do olhar de quem fotografou e gosto de sentir a aragem que fazia flutuar a flor ou o silêncio que envolvia uma orquídea na escuridão, ou um rasgo numa parede ou na pele de um homem.

E...

E podia continuar e estaria de gosto. Ainda não falei de arquitectura, por exemplo. Ainda não falei da representação. Mas a noite já envolve as minhas palavras e eu tenho que me ficar por aqui.




Vou sonhar que sou uma mulher feliz, mergulhada em espantos azuis e vou ouvir o canto dos pássaros e a música do vento nas ramagens e vou esperar que passem os cavalos azuis para eu me misturar com eles e partir à descoberta dos mistérios da noite.

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.

[Herberto Helder]

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Permitam que vos convide a visitar o meu Ginjal e Lisboa. Hoje tentei redimir-me da minha ausência por lá: 

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Por aqui tenho tanto sono que já nem consigo colocar legendas nas imagens. As minhas desculpas.

E permitam ainda que vos convide também a descer até ao post seguinte onde dedico uma música ao láparo: A mula da cooperativa. Ai és tão linda.
....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

sexta-feira, julho 04, 2014

O Um Jeito Manso faz quatro anos e já foi visitado mais de 650.000 vezes. À surpresa por ter chegado até aqui, junta-se-me o sentido agradecimento por todos quantos me têm acompanhado e que, com a sua presença, tantas vezes silenciosa, me motivam a continuar. Do fundo do coração, o meu muito obrigada.



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E eis-me chegada ao quarto aniversário do Um Jeito Manso. O tempo passa. 



Repito-me: nunca, quando comecei numa noite quente de um sábado de verão, in heaven, sem saber ao que ia, poderia alguma vez imaginar que gostasse tanto de aqui estar.

Tantas vezes já aqui o referi. Não conhecia este mundo, nada sabia das técnicas associadas a isto, ia experimentando, por instinto, e, de resto, também não conhecia ninguém na blogosfera, ninguém para me ensinar, ninguém para me recomendar. 

Logo nessa noite, para ver como era isto de publicar posts, escrevi três, muito pequenos, para ver como se inseriam fotografias, para ver como se escrevia, se alinhava o texto, etc.



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No terceiro post escrevi um poema de Nuno Júdice que tinha acabado de escrever, com pincel e tinta, num canteiro alto que antes tinha pintado com cores a la Rothko.

Não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra.

E rematava com umas palavras que diziam aquilo que enforma a minha atitude perante a vida: Sejamos optimistas, 'sejamos realistas - exijamos o impossível', levantemo-nos. Hoje.

E assim vim andando.

Começar do zero, a tactear. Uma, duas, três visitas, depois quatro, cinco, seis. Dez pessoas?! Tantas... Quem serão? Um caminho de passos pequenos, pequenas descobertas, pequenas surpresas.

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Não me ocorreu na altura dar-me a conhecer, não fazia sentido, era apenas uma experiência. Depois, quando começou a ser um prazer, também não fazia sentido identificar-me. As palavras que eu escrevia e as minhas escolhas (imagens, músicas) deveriam continuar a valer por si. Além do mais, o anonimato é-me confortável. Não quero que as minhas opiniões sejam relacionadas com o sítio onde trabalho tanto mais que exerço uma função de alguma responsabilidade, ou criem qualquer tipo de embaraço entre colegas ou perturbem de alguma forma a forma isenta como me posiciono profissionalmente. Poderia usar um pseudónimo mas um pseudónimo ou coisa nenhuma é a mesma coisa. Além disso, os Leitores começaram a tratar-me por UJM ou Jeitinho e isso é uma forma tão boa como qualquer outra de ser tratada.

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Não encontro registo do número de visitas que tinha tido quando decorreu 1 ano que por aqui andava mas devem ter sido poucas.

Mas já encontro de quando se concluíram os 2 anos: 137.000 visitas e já, nessa altura, eu tinha mostrado o meu espanto. Os números começavam a surpreender-me.


Quando há um ano atrás, cheguei ao 3º aniversário, estava eu admiradíssima. Num ano as visitas mais do que tinham duplicado: já eram, então, 300.000. O número crescente de visitas era para mim um mistério. De onde vinham tantas pessoas para ler o que eu aqui escrevia? 


Pelas estatísticas consigo saber que vêm sobretudo de Portugal (60%), depois do Brasil (14%) e a seguir, bem mais abaixo, dos Estados Unidos, Alemanha, e depois já mais abaixo, com menos de dez mil cada país, outros países, alguns francamente surpreendentes como é o caso, por exemplo, da Polónia ou da Ucrânia. Aparece-me nas estatísticas com muita frequência o google translator pelo que presumo que estejam a traduzir os textos que escrevo…. E, do que tenho verificado, esta distribuição das visitas por países e o crescimento que tenho verificado é francamente consistente.

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Hoje chego aos 4 anos de Um Jeito Manso e, para minha perplexidade, já passei as 650.000 visitas. 


Como foi tal possível? Ainda não consigo perceber.

Se olhasse para este crescimento do ponto de vista matemático teria que concluir que estou em presença de uma progressão geométrica, cujo valor duplica de ano para ano. Mas acho que não devo ver isto nesta perspectiva até porque pode faltar-me a inspiração, pode faltar-me a motivação ou posso começar a desiludir os Leitores.

Não acredito que este ritmo de crescimento se mantenha pois, sendo o blogue unipessoal e anónimo, ele depende apenas do seu conteúdo e de mim que o faço e eu sou falível, forçosamente falível.



Vamos ouvindo, por favor






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Quando vejo o bebé a portar-se mal e lhe pergunto o que é que está a fazer, ele responde-me com ar descarado: coijas. Assim estou aqui: faço coisas. O que me apetece em cada dia. Sento-me aqui e, a maior parte das vezes, não sei sobre o que vou falar. É o que me ocorre.

Não tenho uma agenda, não tento forjar uma imagem, não tento fazer-me passar pelo que não sou. Mostro-me como sou, sem disfarces, mais nua do que se estivesse aqui com fotografia e número de BI. Estando aqui anónima, livre, um ponto incógnito no meio de milhões de outros pontos que cruzam os ares neste mundo feito de seres, perfis, contas, likes, onde se cruzam desabafos, gritos de alma, suspiros, pedidos de ajuda com vaidades, ficções, ou maldades, azedumes, vinganças. A minha voz perde-se no meio de milhões de outras vozes e eu não tento falar mais alto, ter mais razão, criticar os outros que, tal como eu, deixam sair a sua voz na imensidão do universo. Tento apenas, porque assim sou quando estou cara a cara com quem quer que seja a falar do que falo aqui, defender as minhas ideias, os meus ideais, e falar de justiça, de beleza, divulgar aquilo que, de alguma forma, me toca e deixar uma palavra de esperança. Acredito que, quando queremos, alcançamos (pelo menos a maior parte das vezes).

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E assim, sendo eu em cada palavra que escrevo, aqui tenho vindo a acompanhar o tempo que passa.

Mas nunca acreditei que todos os dias fosse capaz de escrever coisas, escolher coisas, desencantar coisas e tenho a noção de que isto é capaz de ser uma realidade finita. Talvez chegue o dia em que não terei nada para dizer, nenhum fotógrafo ou pintor ou músico para descobrir, nenhum novo poema que me encante. Aí pararei.

Acontece também uma coisa: eu sempre fui de ler muito e de pintar e de fazer tapetes de arraiolos e de descobrir novas coisas (grafologia, por exemplo) e ainda sou. Tenho muita vontade de voltar a ter mais tempo para ler, de ter tempo para aprender a fazer vídeos por exemplo e o que me vier à cabeça. E isto de aqui, à noite, no meu turno da noite que começa invariavelmente depois das dez da noite senão depois das onze, me sentar e aqui estar até adormecer, é muito absorvente, não dá para acomodar outros vícios.


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E, portanto, sei lá se consigo esperar muitos anos, até me reformar, ou se atalharei caminho um dia destes?

Não sei.

O que sei é que hoje ainda cá estou, amanhã talvez também. Daqui por um ano, logo veremos.
E também logo veremos se, por essa altura, já terei ultrapassado o 1.000.000 de visitas.
O que sei é que este grande afluxo de visitas - que presumo que cheguem uns pela mão de outros, ou aterrando aqui através de pesquisas nos motores de busca - me tem trazido um número crescente de contactos.

Já aqui vos contei que fui contactada para participar num programa de grande audiência da televisão (e que recusei, claro) e também já o referi muitas vezes a pena que tenho por não ter tempo para responder a todos os comentários, tão interessantes, que mereciam ser discutidos, que mereciam, pelo menos, uma palavra de agradecimento. O mal é meu que, assim que me ponho a escrever, perco a noção dos limites e uso o pouco tempo que tenho em cada coisa que faço. Não doseio porque me entrego toda em todas as palavras que escrevo e, por isso, opto frequentemente pela solução mais radical: não responder. Mas fica sempre um remorso terrível a roer-me. Também recebo muitos mails e não consigo, por vezes, responder a todos, ficando-me sempre com a incómoda sensação de estar a ser mal educada, mal agradecida.

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O que acontece é que, pura e simplesmente, não tenho tempo.

Também não consigo ler livros originais que me enviam, pedindo a minha opinião. Não apenas o tempo me escasseia como não me sinto habilitada a pronunciar-me sobre algo tão importante na vida de uma pessoa como é a escrita de um livro.

No entanto, tenho que vos confessar que tenho conhecido pessoas interessantíssimas através do blogue ou, em particular, através dos mails que me chegam por via do blogue.

Tivesse eu mais tempo e estou certa de que seriam amizades que haveriam de se estreitar pessoalmente.

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Ainda há pouco estive a responder ao mail de uma leitora que por aqui conheci e por quem sinto aquela atenção vigilante e amiga que se sente por quem nos é muito próximo, quase como se nos conhecêssemos desde a infância. Diz-me ela que por aqui me acompanha como se eu fosse da sua família e que quase consegue ouvir os pimentinhas quando falo deles. Fico sensibilizada.

A gente escreve e vê as estatísticas a subirem mas não sabe se quem lê, gosta do que lê.

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E, vendo que as minhas palavras podem ser uma companhia, podem ser a família que por vezes, na realidade não existe, comovo-me.

Fico com vontade de todos os dias conseguir dizer uma palavra de proximidade, quase como se as minhas palavras pudessem ser um braço infinito que conseguisse chegar até a casa de cada um que me lê com estima, para que a minha mão pudesse fazer uma festa a quem não tem quem as faça na realidade.

Ou que as minhas palavras conseguissem transportar a alegria necessária para que todos nos juntássemos numa roda, em dança, alegres como crianças.

Ou que transportassem o misterioso sonho de veludo que habita fronteiras clandestinas, ou quartos frescos onde a sombra é cúmplice, ou os jardins atraentes como perigosos abismos onde se passeiam faunos, mulheres nuas ou cavalos azuis.



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0 - A primeira imagem, Blue Flower, é uma pintura de Georgia O’Keeffe, pintora americana muitas vezes aqui presente e abre este texto para deixar muito claro que este é um blogue de uma mulher, uma mulher que gosta muito de ser mulher.


1 - A imagem seguinte, também em azul, é de Mark Rothko, pintor que misteriosamente me atrai sem que eu consiga explicar porque tenho vontade de mergulhar nas suas cores quando elas eram luminosas ou vontade de rezar ou ler poesia quando as cores começaram a indiciar o negrume no qual viria a mergulhar.


2 - A segunda é de Balthus e é a imagem que encimou o Um Jeito Manso nos seus primeiros dias. É uma das suas meninas levemente más, maliciosas, perigosas com quem, por vezes, às escondidas me identifico.


3 - A terceira, a mulher que pensa ao pé de livros é uma pintura de Menez. Assim gostaria eu de ter tempo para estar: em silêncio, sem limites, sem pressa.


4 - A fotografia seguinte é de Man Ray, e mostra Kiki de Montparnasse de olhos fechados com uma máscara atenta. Quase assim sou eu: sossegada enquanto a UJM escreve e dá a cara pelo que lhe apetece.

  •  O vídeo traz-nos Caroline Nunes, uma inesperada adolescente brasileira, num jardim de uma cidade de Minas Gerais, Poços de Caldas dizendo o magnífico Tabacaria de Fernando Pessoa aka Álvaro de Campos.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(...)


5 - A fotografia seguinte é uma das belas fotografias de flores e não só de Robert Mapplethorpe que está comigo desde o início do Um jeito Manso


6 - A mulher que sonha sonhos inconfessáveis é Marie Thérèse de Pablo Picasso, que copiei para azulejos e que tenho na minha sala in heaven.


7 - A seguir está Celle qui fut la Belle Heaulmière, uma pequena escultura de Rodin, uma das que, até hoje, mais me tocou.


8 - A seguir tenho uma aguarela de Guilherme Parente: as suas cores vivas e felizes sempre me transmitiram a inocência da infância e a elas regresso quando sinto vontade de me purificar. 


9 - A seguir, a mulher que passa ao de leve mas deixando um rasto de sedução é Kate Moss fotografada por Annie Leibovitz, duas presenças que aqui muito me têm acompanhado.


10 - A seguir está La danse de Henri Matisse, que igualmente fiz reproduzir num painel de azulejos e me acompanha in heaven. A alegria sem pecado e a partilha total aqui bem presentes.


11 - Seguem-se os Cavalos Azuis de Franz Marc, cujos passos subtis e ardente resfolegar ouço quando, à noite, o luar invade as minhas noites in heaven.

  • Para terminar, uma mulher que também aqui me tem acompanhado com frequência: Sylvie Guillem, a graciosa, elástica e vibrante mulher das longas pernas e personalidade vincada. Dança o Bolero de Ravel, música que é um bom acompanhamento para actividades não declaradas.

E mais não digo.


Dancemos, provoquemos, batamos o pé, voemos



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Por agora, por aqui me fico. O meu dia foi longo e eu estou com sono, coisa que, de resto, é um clássico por aqui, certo? Não consigo rever o que escrevi. Estou a pé há quase há 18 ou 19 horas, nem sei, e não consigo energia para rever este lençol. Ponho-me a escrever e a escolher imagens e o tempo vai passando e, quando chego ao fim, até tenho vergonha do tamanho do castigo que vos inflijo e das lindas  horas a que me vou deitar.

E portanto, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira e por aqui vos espero amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã e depois e depois e depois... durante muito tempo: será sinal de que estamos vivos, bem dispostos, eu sem ainda ter ido entregar-me de corpo e alma a uma outra qualquer actividade e vocês com paciência para me continuarem a aturar.


Obrigada uma vez mais, mil vezes obrigada! E sejam felizes, está bem?