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domingo, fevereiro 22, 2026

Um humor inconveniente

 

Se, há coisa de seis anos, assisti aos Golden Globes 2020 provavelmente não percebi parte das piadas que Ricky Gervais disse. Sei que foi considerado inconveniente, sei que deixou muitos dos presentes incomodados. Disso lembro-me. E tenho ideia de que ele, antes desse dia, já tinha decidido que seria a sua última vez pelo que podia partir a louça toda. E de que se especulava se teria sido mesmo sua decisão ou se não voltou a ser convidado porque o seu nível de corrosão já estava a causar alergias. Mas, sinceramente, à luz do que agora sei, vejo que na altura, se assisti pela televisão às suas piadas, uma parte passou-me certamente ao lado. E, agora que revi as imagens que abaixo partilho, percebo que não foi apenas uma dessintonia entre o humor britânico e o americano: foi mesmo que as piadas foram, na verdade, valentes ferroadas.

Em 2020 eu nunca tinha ouvido falar em Epstein. 

Havia a bronca do Harvey Weinstein e de tudo o que se seguiu, #MeToo incluído, havia a barracada do Woody Allen se apaixonar pela filha adoptiva e a fúria do Ronan Farrow contra o padrasto por supostamente abusar da irmã, Dylan. Mas, em particular esta história, era daquelas coisas, parecia mais um melodrama desconchavado, custava-me a acreditar que o simpático Woody Allen fosse o pervertido que os enteados e a ex-mulher, Mia Farrow, pintavam. Não sei. Acho que naquele ano eu ainda acreditava que a maioria das pessoas eram boas pessoas e tudo o que me parecia excessivo ia para o compartimento das teorias da conspiração que eu renegava como o diabo renega a cruz.

Claro que gostava imenso de Ricky Gervais. Gosto do humor britânico. É um humor em que encaixo bem, parece que é um humor que nunca acho forçado, daquele humor básico ou boçal, infantilóide, feito para pessoas parvas. Pelo contrário, tem aquela dose de irreverência, quase inconveniência mas sem ser ordinário, revela sempre um apurado sentido de observação, é desconcertante, vem com aquele toque de inesperado que me faz cócegas boas, que me faz rir e ter vontade de mais. Mas, lá está, em 2020, se assisti, e se calhar assisti, é certo que parte do conteúdo me tenha passado ao lado.

Mas, agora que sei o pouco que sei (pouco, muito pouco), espanto-me com as flechadas que ele disparou, certeiras, e percebo o ar algo atónito ou, por vezes, desconfortável de algumas pessoas.

Ora vejam.

A piada sobre Epstein que deixou Hollywood sem palavras | Ricky Gervais nos Globos de Ouro de 2020

segunda-feira, maio 24, 2021

Dia grande no Um Jeito Manso:

presentes da Sta. UJM para os devotos da Serva-Mor, para a própria Serva (a célebre Agente também conhecida por Ministra dos Porquinhos), para os assim-assim e para todos.

Ámen

 

Diz o Víctor que sou dada a tendências ocultas e eu, como forma de recompensa por ele ter conseguido descobrir um segredo que trazia tão bem escondido há tanto tempo, acho que tenho que aqui atribuir-lhe um presente. Isto, claro, porque, devido ao confinamento, não posso organizar a cerimónia que estava planeada para festejar o grande momento. Não fora o corona e teríamos o Pavilhão de Portugal à pinha para a atribuição da medalha ao Leitor que primeiro descobrisse o tão bem guardado segredo.

Mas o corona ainda não deu as desejadas tréguas totais e, portanto, os festejos têm que ser aqui mesmo.

Assim, não é a gold medal que aqui tenho para lhe oferecer, fantástico e veloz Seco Gaspar, mas é um vídeo feito em sua homenagem por ser o mais rápido dos Leitores a descobrir o meu grande segredo: "a UJM tem tendências ocultas". 

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Para o Paulo B por quem tenho grande apreço, que tem um sangue na guelra que dá gosto e que vibra com a vontade de fazer justiça (nem que seja às mãos da Agente Mortágua) e que, ao mesmo tempo, tem um gosto invulgar e exigente pelas artes do espectáculo e pelo reino do absurdo e extraordinário, iria a medalha de prata. Como não há como, aqui deixo um apontamento de circo que espero que receba com um sorriso equivalente ao que tenho ao dedicar-lho. E espero que a vida e as suas agruras não lhe retirem a energia tão boa que a sua juventude põe em destaque. Este presente, que vai em vez da medalha, seria entregue com um abraço ao bravíssimo Paulo B. 


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O ilustríssimo P. Rufino, ultimamente, de cada vez que aqui vem e lê qualquer coisa de menos abonatório para a sua guru, a Agente Mortágua, não apenas fica tão enraivecido por eu o tirar do sério que fica totalmente descontrolado como todas as suas entranhas se reviram de tal maneira que não consegue evitar as náuseas. Para ele, iria a medalha do servo mais devoto da Serva-Mor mas, não podendo eu agraciá-lo com a devida pompa e circunstância, deixo-lhe um pequeno filme com a Maggie, outra bacana que padece do mesmo mal, o de não conseguir controlar as náuseas em público. 

Mas o vídeo tem um outro propósito: o de lhe dar esperança. Se a Maggie volta e meia dava estes tristes e embaraçosos espectáculos, a verdade é que conseguiu recuperar-se. Vejo-a agora transformada em David Walliams e em grande forma. É agora um homem simpático, cortês, bem disposto. Ponha os olhos nele, P.Rufino. Acredito que também conseguirá regenerar-se.


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Para o grande João a quem nada escapa, que tudo conhece e que denuncia tudo o que se passa aqui e além mar, desde as cabeças de cavalo até aos betolas com cabelinho à f...-se e caquinha na cabeça, e que obviamente merece todas as medalhas -- ouro, prata, bronze ou cortiça -- não tenho presente à altura. Na sua arca já residem todos os tesouros do mundo, nomeadamente as melhores músicas, as melhores vozes, as melhores interpretações, as melhores histórias. 

Por isso, o que aqui lhe ofereço mais não é do que uma tentativa de lhe dizer que muito sinceramente acho que, apesar de todas as divergências, importa a gente relativizar, divertir-se, improvisar, não levar muito a sério o que não passa de espuma. Somos efémeros. Apenas a arte é eterna.

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E para o VN que queria que eu contasse mais uma história envolvendo a Serva-Mor tenho a dizer que ainda não é desta. Este blog, como é sabido, é um blog de família e as histórias que envolvem a personagem seriam mais dadas à bolinha encarnada ao canto do ecrã do que a serem lidas pelos inocentes que frequentam esta casa. Portanto, só se um dia eu estiver tão a dormir que perca toda a censura interna... Só posso adiantar que acho que a Serva-Mor, para melhor compor a personagem, quando inquire os seus suspeitos deveria apresentar-se a preceito, quiçá com um hábito como o da pura Madre-Superiora que aqui almoça com o João de Deus.


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E ainda tenho aqui uma coisa para outra pessoa, alguém que é todos e nenhum, mil nomes, mil personalidades, alguém que paira por aí, que aparece e desaparece, que é assim e assado, poético e prosaico, quase normal umas vezes e muito malvado outras, erudito e ignorante, humano e desumano, absurdo e racional, consistente e inconsistente. Para ele, o chameleon man, aqui vai um vídeo com um dos seus alter-egos. Não é um presente, não é um bye, não é um smile, não é nada: é apenas uma forma de reconhecimento. Estamos cá. Há coisas que não se explicam e esta é uma delas.


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Para a Serva-Mor, a intragável e temível Agente Mortágua, a inquisidora que passa a pente fino os freaks do regime, vai o prémio de honra, um que aqui chegou pela mão do Paulo B., sempre inteligente e oportuno, a quem agradeço a lembrança pois a verdade é que, no meio de tanta generosidade, estava a esquecer-me de presentear justamente a inspiradora de toda a esta série.

Ei-la aqui, em versão loura e glamour, a estragar a festa a um grupo de pândegos. Mas, como sempre, a estragar é como quem diz pois na sala ao lado ou no dia seguinte, a festa prosseguirá. Mas, ok, não estou para tretas, estou mesmo é para me divertir, para ser uma mãos largas e distribuir presentes à direita e à esquerda. 

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E para todos e para todas os que aqui me acompanham, para os que riem e para os que choram, os que rangem os dentes e os que batem o pé, os que têm fair play e os que atiram pratos à parede, para os que acham tudo muito grave e para os que se estão a marimbar, para todos, aqui vai o meu convite: bora lá furar o esquema e dançar?


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Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Alegria.

sábado, fevereiro 20, 2021

A espantosa chavala não tem nada 80 anos, Sr. Anónimo: ainda nem 60 tem....!

 

É, Caríssimo, a vida passa, o tempo vai esculpindo os corpos, as meninas ora inocentes tornam-se mulheres vividas. Aquelas que um dia foram chavalas para quem se olhava com espanto podem anos mais tarde ser avós que tudo fazem para acarinhar os netos.

Mariel Hemingway dizia ter 17 anos em Manhattan mas, de facto, tinha 16. A voz era a de inocente adolescente. Toda ela irradiava ingenuidade e graça. 

Pelo meio sofreu desgostos, perturbações diversas, distúrbios, carregou o peso de pertencer a uma família onde as pessoas se suicidam. Até a sua bela irmã Margaux se terá suicidado.

Mas agora que Mariel já fez 59 anos parece ter encontrado alguma paz e equilíbrio.  Consegue falar dos problemas que viveu e a que assistiu e, no entanto, guarda ainda parte da inocência que parece faz parte da sua maneira de ser. Penso que ainda não tem netos mas talvez um dia os tenha. E aí talvez a sua tranquilidade seja mais plena.




80 anos...?! Acha que os tempos de Manhattan eram os anos pós II da Guerra Mundial ou quê...?

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

Allen. Woody Allen.



Não sei onde foi que o vi pela primeira vez. Tenho ideia que o Manhattan vi no cinema pequeno por cima do Império. Como se chamava? Satélite? Estúdio? Podia ir procurar mas não interessa. O que interessa é que achei espantoso. Eu era uma jovem que se deslumbrava com o que parecia ser um mundo novo, com grandes imagens, com vozes que destilavam inocências, com histórias que juntavam amor, humor, ironia, melancolia.

Mas acho que antes tinha visto o Annie Hall e esse não me lembro onde foi. São Jorge? Apolo 70? Uma graça. Uma doçura sorridente, uma irreverência moderna, uma graça permanente. Tenho também ideia de ter gostado imenso do Zelig. Será que foi o Zelig que vi no Apolo 70? Ah, ainda hoje o chamo à liça de cada vez que vejo gente que muda de opinião, que se metamorfoseia para ficar igual aos que acham mais poderosos, os que se descaracterizam porque, na verdade, não têm carácter. Mas o Zelig acho que nem era pelo poder, era porque era mesmo assim, um camaleão humano. A graça que ele tinha. 

Adorava ver os filmes dele. Ficava a comentá-los, desatava a rir quando me lembrava de algumas cenas, era tema de conversa, repetíamos algumas coisas que ele dizia para se auto parodiar, eterno desajeitado, eterno inseguro. 

E, no entanto, como tantas vezes acontece com os homens feios mas inteligentes e com domínio da arte da ironia, sempre com sorte ao amor.

Ou o Alice. O charme discreto da burguesia no feminino, a rebeldia contida e bem perfumada, a insegurança como maneira de ser, a vontade de transgressão não assumida. Pelo menos assim a lembro. Aquela que viria a fazer-lhe a vida negra. Na realidade, não nos filmes. Ou, creio que antes de Alice, o September. As crises, os dramas, os risos, os segredos. Mia, a musa. 

Mesmo mais recentemente, já o escândalo tinha rebentado há tempo e os efeitos ainda se faziam sentir, outros filmes, já outras as musas. Por exemplo, gostei do Match Point ou, não há muito, do A Rainy Day in New York. Não quero saber que sejam levezinhos. Gosto de ir ao cinema e ver um flme que me deixe bem disposta. Gosto de sorrir ou rir. Ou de uma emoção mesmo que apenas ao de levezinho. Gosto de cidades bonitas, gosto de cores harmoniosas, gosto de subtilezas elegantes e suaves, sejam elas felizes ou nostálgicas. 

Uma vez, a passear em Oviedo, uma estátua de um homem meio desmanchado a andar na rua. Woody Allen. Gostei de ver, parecia que estava a ver alguém conhecido.

Sobre o que se passou, nunca percebi bem. A mente humana tem cavernas e o ciúme o despeito são uma tortura para os próprios e para os que deles são vítimas. Acredito na inocência de Woody Allen mas acredito porque sim. E imagino que deve ter sofrido bastante. Ele e a que era filha adoptiva da que foi sua mulher. Não deve ter sido fácil. Um rasgão difícil de sarar.

Conheço uma pessoa de quem, em tempos, se chegou a dizer que fazia parte de uma certa lista. Falava-se à boca pequena. De concreto, nunca nada. Mas circulava pelas redacções. Por vezes, as televisões mostravam peças em que as câmaras se detinham sobre ele. Homem que sempre tive por íntegro, homem de família. Estava muitas vezes com ele ao fim do dia, dali cada um seguia para sua casa. Contava-me muito da sua vida. Corriam vivos os rumores. Nunca lhe perguntei nada nem ele me disse nada. Até que um dia, um ou dois anos depois, emocionado, quase com lágrimas nos olhos, me disse: 'Não imagina, ninguém imagina. A vergonha que sentia, o medo que tinha que acreditassem no que se dizia, que desconfiassem de mim. Um tipo morre um pouco com uma mancha destas a pairar sobre a nossa reputação.' E a verdade é que, mesmo por entre quem o conhecia tão bem, surgia a dúvida insidiosa, matreira, rasteira, silenciosa. 

Não consigo malquerer ou malpensar a propósito de Woody Allen. Tem agora 85 anos e ao seu aspecto desconjuntado junta-se agora o aspecto etéreo que algumas pessoas de idade adquirem. Soon Yi tem 50 anos e, segundo dizem, é feliz ao lado de Woody.

Vi uma entrevista no Youtube que é uma graça, uma daquelas conversas a que se assiste de gosto. Contudo, não consigo aqui colocar o vídeo pois parece que foi interditado não sei bem porquê, direitos de autor de quem o publicou, qualquer coisa assim. Nem consigo que o link vá lá dar mas, just in case, deixo-o na mesma, pode ser que volte a estar disponível

Woody Allen em entrevista a Pedro Bial

Mas partilho uma outra entrevista.


E mais esta, também gostosa.


E tenham, por favor, uma happy friday.

terça-feira, abril 14, 2020

Tudo por causa daquilo das 'emoções positivas'


Voltou a chover e a estar frio e isso maça-me. Não basta não ter tempo para me pôr ao sol de papo para o ar como, cúmulo dos cúmulos, nem sol há para eu poder ter raiva por não aproveitá-lo.

E tenho a dizer que, como não tive que fazer o almoço, almoçámos rapidamente. Quando vinha de lavar os dentes, passei pelo quarto e vi o meu marido estendido em cima da cama, de pernas e braços abertos. Conferi: 'Estás vivo?'. Respondeu: 'Se me deixares, estou a fazer meditação'. Achei boa ideia. Peguei numa mantinha e fui deitar-me no sofá a ver se também meditava. Por causa das coisas, pus o despertador para daí por vinte minutos. Quando o despertador tocou já ele estava a trabalhar. Disse-lhe: 'Acho que não cheguei a meditar'. Ele confirmou. 'Adormeceste instantaneamente'. Não tive como negar mas, se foi, não foi por muito tempo.

No resto do tempo já não surgiu oportunidade de dormir ou meditar. Mas falei com um filósofo o que também produziu em mim um efeito curioso. Como estava zen não exerci o contraditório.

Numa outra reunião, tentei falar o menos possível para ver se não atraía. Penso que consegui. Mas fiquei a roer-me pois um zelig escapou incólume quando deveria ter sido punido. Mas o efeito da meditação ainda perdurava pelo que relevei.

Depois disso, por entre os pingos da chuva ao cair do dia, fui dar uma circulada. Ao regressar a la maison li uma coisa que despertou la pasionaria que há em mim; e, vai daí, não foi tarde nem cedo, enviei um mail daqueles que não fica pedra sobre pedra. Depois, rosnando o ¡No Pasarán! que palpitava dentro de mim, peguei nesse mail e dei conhecimento dele a mais cinco pessoas e, não contente com isso, enviei um mail ao primeiro a informar que tinha dado conhecimento do mail que lhe tinha enviado a ele a cinco que não são de se assoar. ¡No Pasarán!, não senhor. Isso é que era bom.

A seguir, satisfeita por já ter feito a má acção do dia, fomos jantar. Arroz de bochechas. Belo.

E, estando a jornada concluída, vim informar-me sobre os sucedidos do dia. Do lido, apenas um vídeo prendeu a minha atenção. No Guardian, uma senhora explicava a importância das emoções positivas para reforçar o sistema imunitário e para fazer face à neura do confinamento. Sendo eu toda adepta da boa onda, coisa que me é natural e, logo, involuntária, a verdade é que encanito com tudo o que me pareça conversa de xaxa, do tudo em cima e conversa do pensamento positivo e enlatado. Portanto, ouvi a senhora à espera de pensar que melhor faria ela se fosse dar banho ao cão. Ao cão ou à Margarida Rebelo Pinto, que também é toda moderna e positiva. Ou ao Valtinho que eu nisso estou como o Diogo que parece que também não vai à bola com aquela pia alma que destila positividade e ternurinha pelas leitoras mas que a mim só me dá ânsias. No entanto, achei que, na volta, a senhora tem é razão e a gente andar na boa e fartar-se de rir também mal não faz. E vai daí, segui o conselho dela, e pus-me a ver cenas bem dispostas. 

Com vossa licença -- e que  me desculpem os tristes, melancólicos e ensimesmados militantes -- aqui estão algumas das macacadas que já me fizeram rir. Riam também, está bem?

















E este foi o vídeo responsável por isto tudo:


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E uma terça-feira bem disposta para si que aí está desse lado.

domingo, outubro 27, 2019

O romantismo dos dias chuvosos *





Lembro-me de quando comecei a namorar o meu marido. Já andava com ele mas era coisa não direi à socapa mas, enfim, como dizer?, meio clandestina. Nem isso. Talvez, apenas, não publicamente assumida. Mas, naquele dia, tinha uma notícia para lhe dar. Ele tinha-me trazido um daqueles tubinhos com água de sabão em que a tampa tinha uma haste com uma argola, para fazer bolhinhas. Tinha comprado a um vendedor ambulante junto ao metro. E eu fiquei toda contente e experimentei mas a notícia era outra e falava mais alto. Ia pôr uma carta no correio. E assim fiz. Depois disse-lhe: era a carta a pôr fim ao namoro. Durante o fim de semana tinha feito por isso mas o meu namorado não tinha aceitado, pediu tempo, pediu que eu percebesse que o que eu sentia pelo outro era um entusiasmo passageiro, assegurou-me que amor de verdade era o que havia entre nós. De tal forma foi que percebi que tinha que ser um corte abrupto, a seco, sem apelo, sem lágrimas.


E assim foi. Era inverno e o dia estava muito húmido, uma névoa densa envolvia Lisboa. Aquele por quem me tinha apaixonado percebeu a relevância do gesto e, embora andasse há que tempo a pedir que eu o fizesse, naquele momento estava sério, como se tivesse acabado de assistir a um acto cruel. E sabia como me custava fazê-lo, sabia o afecto que eu sentia pelo outro, como me custava fazê-lo sofrer. E eu estava também um pouco angustiada pois tinha preferido que o corte tivesse sido concretizado cara a cara e não por carta. Além disso, sabia o quão doloroso este meu gesto a a quase brutalidade das palavras daquela carta ia ser para aquele outro que tão intensamente me amava.

E, portanto, envolta numa névoa fria e lacrimejante, eu ia dizendo que precisava de espaço, de um interregno, queria fazer uma pausa antes de voltar a envolver-me a sério. Ele ouvia-me em silêncio, não sei se compreendendo, se lamentando que, ao fim de tanto tempo à espera que eu quebrasse aquele vínculo, afinal, agora que o tinha feito, estivesse a pedir mais tempo.


A verdade é que, comigo, por vezes, o tempo acelera loucamente; e o tempo que eu estava a dizer que precisava esgotou-se como um breve sopro. Acabei agora de ver a distância que percorremos. Trezentos metros. Ao fim de trezentos metros, e vendo-o eu tão silencioso, coloquei-lhe uma mão no rosto, virei-o para mim e, logo ali, selei com um demorado beijo o namoro que, na prática, estava a começar. 

Ainda tentei ir para a aula que tinha a seguir. Fui até lá e ele comigo. Mas não nos largávamos. Entretanto, já chovia. Mas nem dávamos pela chuva. Decidimos ir passear para o Parque Eduardo VII. Abraçados e felizes, nem nos importávamos por estarmos a ficar molhados. Lembro-me que, nos intervalos, ainda tentava fazer fazer bolhinhas de sabão mas, ou porque a humidade exterior fosse tanta ou porque não me concentrasse, tenho ideia que as bolhinhas de ar não floresciam.


Nesse inverno choveu muito. Grande parte das minhas memórias desses meses abençoados está envolta em neblinas, chuvas, frios e muitos beijos. Tínhamos que andar sempre abraçados para nos protegermos. Passeávamos muito. Lembro-me de um passeio em Sintra, as árvores a pingar, envoltas em nuvens, nós a subir a pé a estrada para a serra. Tudo me parecia muito romântico. Havia, na minha cidade natal, um café recente, aberto por um italiano, que tinha um cappuccino muito bom. As chávenas grandes e bonitas vinham quentinhas e eu envolvia-as com as minhas mãos e aquele cheirinho a café, a chocolate a natas parecia-me provir de néctar de deuses. Tinha também uns gelados artesanais, na altura os únicos na cidade, que eu adorava. E, então, sentávamo-nos numa mesa num recanto de onde se via a rua e ali estávamos, conversando, dando-nos as mãos, enamorados, enquanto víamos a chuva a cair lá fora. Isto ao fim de semana quando ia a casa dos meus pais. Durante a semana, todos os dias ficávamos juntos até tarde e, já com a noite avançada, ele ia levar-me a casa. Chovia na rua, íamos abraçados debaixo do chapéu de chuva e invejávamos as pessoas que estavam dentro das casas iluminadas cujo conforto adivinhávamos.


Ainda agora, eu que sou dada à luz, ao calor, a andar com pouca roupa, anseio pelos frios e pelas chuvas, sinto saudades do som da chuva, gosto de estar no sofá agasalhada no meu canto, gosto de sentir que a natureza se regenera, se limpa, sinto que apela ao romance, aos longos e apertados abraços, aos olhares que mergulham na alma, ao amor.

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E hoje, que não choveu nem esteve frio, depois de termos ido a casa dos meus pais e de termos passeado pelas ruas por onde andávamos quando namorados, resolvemos ir ao cinema.


Um dia de chuva em Nova Iorque. É um filme suave, agradável, inteligente, bom para se ver e sair de lá a sorrir, e, podendo, a andar de mão dada, a dar beijinhos. Tem uma música bonita, tem um ambiente romântico, tem aquela ironia nonchalante tão típica de Woody Allen. A minha filha perguntou-me: mas não é um filme para adolescentes? E eu acho que sim, também para adolescentes. Mas, quis ela saber, alguma coisa de especial? E eu não acho que tenha alguma coisa de especial no sentido de excêntrico, do nunca visto, do insólito. Não, tudo muito normal, cool, muito agradável, sem dramas, com bons sorrisos à mistura.

Antes, na apresentação do que está em exibição ou por chegar, vi monstros, mortos-vivos, armas, gente que aterroriza, gente sem olhos, gente que escorre sangue, seres que destroem cidades e atemorizam o mundo. O filme Um dia de chuva em Nova Iorque não é nada disso, é um filme com pessoas normais a viverem uma situação normal numa cidade normal. E quem quiser que ponha aspas nos normais que quiser pois, na verdade, o que é normal para uns não é normal para outros. Mas, quero eu dizer, há uma dimensão humana no filme e isso, em tempos de crescente desumanidade, é bom.


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E, nesta onda da névoa, da chuva, da tranquilidade, permitam que partilhe convosco um daqueles vídeos que gosto imenso de ver. Espero que também gostem. 



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As pinturas lá em cima são da autoria de Osnat Tzadok e a mim parecem-me paisagens urbanas envoltas em chuva. A música é Kiss the Rain de Yiruma. E, no título, asterisquei o 'romantismo dos dias chuvosos' pois sei bem que nem todos os dias chuvosos são românticos: há os dias de juízo aquando de chuvas excessivas, há as dores do corpo para quem não tem como proteger-se, há os dias chuvosos associados a tristes memórias. Mas, em abstracto e, sob o filtro da benevolência, a chuva é boa para abraçar os afectos, lá isso é.

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sábado, fevereiro 03, 2018

O novo macarthismo




Eu -- mulher livre que não admitiria que um qualquer parvalhão pousasse em si o peso da uma lascívia abusadora e indesejada e que não se sente bem em alinhar-se acefalamente com carneiros de qualquer espécie, nem amorais nem moralistas -- olho de lado para o coro de mulheres que vem, alegremente, liquidando a reputação de homens atrás de homens na praça pública.

Se defendo o direito ao contraditório e à defesa do bom nome, não consigo fazer coro com quem lança ofensivas na praça pública, queimando de imediado o homem a quem apontaram a arma da denúncia.

Só para que se possa ver mais do que um lado da questão, transcrevo o que acabei de ler na Bula da autoria de Edson Aran. As fotografias são de minha escolha e mostram personagens ou momentos de filmes de Woody Allen. A música que escolhi também foi minha opção e talvez apenas porque sim, o que é um motivo tão bom como outro qualquer.
Note-se: não estou, com isto, a dizer que estou a tomar partido por A ou por B, estou simplesmente a dizer que não tenho condições ou conhecimento exacto dos factos e das circunstâncias para crucificar ou defender uns ou outros.

Em dezembro de 2017, a revista americana The Hollywood Reporter publicou um textão da crítica de cinema Miriam Bale no qual ela conta, orgulhosa, que nunca mais verá um filme de Woody Allen na vida. Esse tipo de atitude jamais daria certo em outra área do jornalismo. “Sou torcedor do Corinthians e não assisto mais jogo do Palmeiras, valeu, chefia?!” Demissão, né?

No entanto, no mundo festivo do jornalismo cultural, o mimimi infantiloide da moça foi legitimado pela “The Hollywood Reporter” e diversas outras revistas e jornais que reproduziram o chorume sem qualquer ponderação.

No dia 4 de janeiro foi a vez do Washington Post publicar um ensaio rasteiro de um tal Richard Morgan (who?), que revira arquivos do diretor (projetos não filmados, anotações etc) para formular a tese de que toda obra de Allen gira em torno da “mulher objetificada pelo homem”. A Ilustrada republicou o texto.


“Zelig” não é isso. “A Rosa Púrpura do Cairo” não é isso. “Crimes e Pecados”, “Memórias”, “Celebridades”, “Annie Hall”. Nada disso é isso. Mas certamente Morgan, como Miriam Bale, não se deu ao trabalho de ir ao cinema antes de batucar no teclado.

Woody Allen e Mia Farrow ficaram juntos por 12 anos. O fim do relacionamento foi dramático. Allen se comportou como um dos seus personagens inconsequentes e trocou Mia por Soon Yi-Previn, filha adotiva da atriz com o ex-marido dela, André Previn. Foi só o começo da baixaria.

Moses Farrow, filho adotivo de Allen e Mia, ficou do lado do pai. Ronan Farrow, filho legítimo do casal, ficou do lado da mãe. Ronan, jornalista do “The New York Times”, tornou pública a denúncia de Dylan Farrow, outra filha adotiva do casal, que afirma ter sido molestada por Allen quando tinha 7 anos. O diretor argumenta que Dylan foi manipulada por Mia e Ronan para inventar a história. O filho Moses concorda com ele. Mia Farrow, por sua vez, também sugeriu que Ronan não é filho de Woody Allen, mas sim de Frank Sinatra, com quem ela foi casada nos anos 1960 e sempre manteve relação próxima.

Alguns dos mais brilhantes filmes de Woody Allen e Mia Farrow foram resultado da parceria entre eles. É uma pena que a relação dos dois tenha virado uma novela vagabunda e esteja de novo na mídia, catapultada pelas recentes denúncias de assédio sexual em Hollywood. É preciso lembrar, no entanto, que o “Caso Woody Allen” é completamente diferente da historia de Harvey Weinstein, por exemplo. O produtor usava o poder para constranger atrizes a fazer sexo com ele. Isso é criminoso. Já Allen, até onde se sabe, nunca fez nada parecido. O repúdio a ele nasce das alegações de Mia Farrow por conta da separação.

A atriz Mira Sorvino escreveu carta lamentando ter trabalhado com o diretor em “Poderosa Afrodite”, que deu a ela o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante. Greta Gerwig (“Para Roma com amor”) fez o mesmo e Rebecca Hall (“Vicky Cristina Barcelona”, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme) seguiu o exemplo. Muitas outras foram atrás.

Em 26 de janeiro, o musical “Tiros na Broadway” foi cancelado em Nova York. Em 28 de janeiro, o New York Times fez artigo declarando que a carreira de Woody Allen está acabada. A Ilustrada reproduziu o texto. Já não se trata mais de denúncia, isso já ficou para trás. O que existe agora é uma campanha organizada para que o diretor nunca mais consiga filmar.

A crítica de cinema Miriam Bale, assim o ensaísta Richard Morgan, têm todo o direito de se comportarem como noveleiros e torcer pelo personagem favorito deles na trama. O que não podem, penso, é destruir a obra do diretor e serem aplaudidos por uma mídia que deveria ser mais responsável.

Mas a verdade é o que “The Hollywood Reporter” nunca foi responsável. A publicação praticamente iniciou o “macarthismo” em 1946, quando listou 11 comunistas que deveriam ser expulsos de Hollywood. Entre os denunciados estava o celebrado roteirista Dalton Trumbo. Foi essa lista que incentivou o senador republicano Joseph McCarthy a iniciar uma “cruzada” para banir os socialistas da indústria do cinema.

O movimento feminista #MeToo, que começou com os mais nobres objetivos, evoluiu rapidamente para algo muito semelhante ao macarthismo. E não sou eu quem está dizendo isso. Alec Baldwin e Liam Neeson já falaram a mesma coisa. Catherine Deneuve e Brigite Bardot também.

Multidões de linchadores nunca estão com a razão. Jamais. Em hipótese alguma. Isso é básico numa sociedade civilizada. Mas a mídia, que deveria interditar a barbárie, é a primeira a fazer festinha pra ela. E depois ninguém sabe porque revistas e jornais agonizam.

Eu, de minha parte, vou continuar vendo tudo o que Woody Allen dirigir e escrever. Um dos maiores cineastas da história tem muito mais a me dizer que a revista “The Hollywood Reporter”.

Na verdade, ele tem muito mais a dizer do que a maioria do jornalismo cultural produzido no mundo (o mundo inclui o Brasil).


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Um bom fim-de-semana a todos!

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo de Morais debatem na TVI 24. Qualquer coisa que Paulo Morais diga e aí está o Marcelo a dizer que concorda. Daqui a nada o Paulo de Morais diz que o Marcelo parece um artista de teatro a fazer de candidato mas sem jeiteira nenhuma e o Marcelo diz que concorda plenamente


Zelig fica gordo quando está ao pé dos gordos
Tirando este número de dizer que sim a tudo e repetir, pateticamente, que já disse o mesmo que os outros disseram e que elogiou os adversários quando eles se pronunciaram e que defendeu o mesmo que os outros defenderam, e outras balelas quase infantis, Marcelo tem uma fixação (e não é de agora): só esteve dois ou três anos à frente do PSD e fala como se tivesse estado durante uma dúzia de anos, tivesse estado à frente de algum governo e tivesse feito reformas de estadão no País. Que nada... Nem ninguém se lembra do que ele fez ou deixou de fazer nessa altura. Parece aquelas mulheres de idade que foram uma vez cortejadas num baile quando eram novas e passam a vida a falar disso como se tivessem tido uma empolgante vida de cortesã, permanentemente cobiçada pela gula masculina e invejada pelas amigas.

Zelig fica preto quando está ao pé dos pretos

Já para não falar que, nesse seu período áureo se envolveu com o Paulo Portas e que, não percebendo que esse era outro que tal, continuou na intrigalhada, acabando com a careca destapada em público pelo pérfido ex-amigo, o país inteiro a saber que é um mentiroso encartado.  E, por via disso, saíu pela porta baixa, de rabo entre as pernas e com uma vichyssoise colada à cara para o resto da vida.

Para além dessa sua deriva que correu mal, meteu-se também a concorrer à Câmara de Lisboa e teve o mesmo inglório destino: depois de fazer de tudo para dar nas vistas, acabou objecto de toda a espécie de zombaria e, claro está, perdeu as eleições. Tirando isso não me lembro de mais nada que ele tenha feito de espectacular, tirando isto de andar anos a vender refrescos ao domingo à noite, nomeadamente agora por fim com uma submissa Judite pela frente, dando-lhe as deixas para ele fazer o seu número dominical.

Claro que é professor e, aí, admito que seja um bom professor: não tem contraditório, pode ar asas ao seu lado histriónico e ao seu gosto pelo palco já que está bem é no registo de stand up, stand alone, one man show.

Zelig fica chinês quando está ao pé
de algum chinês
Por isso, andar agora a dar a entender que fez, que desfez, que aprovou, que defendeu, que foi graças a ele que o sol se pôs e que, as pessoas podem não se lembrar, mas até alguns galos continuaram a cantar ao romper da aurora é uma coisa delirante.

Confesso que não tenho visto quase debates nenhuns. Não sei os horários, o meu marido não tem paciência para aturar malucos e eu, para dizer a verdade, não me parece que seja caso para andar aqui à luta com ele para lhe arrancar o comando das mãos.

Mas hoje vi este e fiquei com pena do Marcelo. A continuar assim ou se tem estado assim em todos, ainda acaba a perder as eleições. Parecia o Zelig: papagueou despudoradamente tudo o que o outro disse.

Parece que não tem personalidade nem vontade própria. É tal a vontade de agradar que parece ter perdido a noção do ridículo. Coitado.


Zelig porta-se como um médico e usa jargão médico quando está ao pé de médicos
Marcelo, o Zelig dos tempos modernos, e a miragem de Belém
- (vamos lá a ver se não é mais uma cena de tipo interruptus)
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Zelig, um dos grandes filmes de Woody Allen


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

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domingo, setembro 27, 2015

O homem irracional - ou como pode ser perturbante não se conseguir identificar com exactidão o ponto em que se atravessa a fronteira entre o bem e o mal


Estava in the mood para ver um filme romântico, até podia ser uma coisa na base da comédia soft-depressive. 


Fui, pois, ver o Homem Irracional. Um Woody Allen que se preze terá sempre alguma pancada a polvilhar o charme discreto da burguesia, bons ambientes, decorações agradáveis, um romancezinho bem gramaticado.


Mas este filme não foi bem isso. Nadinha. Sim, tem romance, sim tem bons ambientes, tem academia, boas casas (e casas com livros), gente com aquele desequilíbrio que tem os seus laivos de sedução - mas depois tem aquele elemento de casualidade (e aqui a palavra casualidade derrapa perigosamente para o sentido da palavra quase homónima em língua inglesa) que, aos poucos, vai introduzindo ansiedade no argumento.

Claro que não vou falar na história mas, para mim, mais perturbador talvez que tudo tenha sido a ideia que me passou pela cabeça quando saí de lá. Comecei por calá-la. Mas depois verbalizei-a, mas verbalizei-a com má consciência - até porque me estava a referir a uma pessoa muito conhecida e muito na ordem do dia cá no burgo. Quem me ouviu, acenou que sim.
E quase parecia que sim, que há casos em que parece plausível que a alguém ocorra fazer uma coisa assim com um pretexto moral. 
Temas em que é difícil pensar, estes.

O personagem principal, desempenhado por Joaquin Phoenix (uma vez mais uma interpretação low profile mas, como sempre, também a pisar o limiar da inquietação), é um professor de filosofia e, portanto, há referências filosóficas ao longo de todo o filme. Hannah Arendt, claro, vem à baila. Mas nem é bem a banalidade do mal: é mais a indefinição moral do mal que pode levar a que, por um bom motivo, se enverede pelos movediços caminhos do mal. 

O bem e o mal, o crime e o castigo, o amor e o dever, a felicidade e a angústia - tudo isto anda de mãos dadas e a questão está em saber discernir onde se encontra a linha ténue (e móvel) que separa os opostos.

Perturbante.




Mais informação aqui.

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sábado, setembro 20, 2014

Magia ao Luar. A mente intuitiva e a mente racional.


Um Woody Allen em versão soft, alguma falta de densidade mas, para uma noite suave que quase parece de outono, uma comediazinha romântica não sabe mal.

Desta vez, em minha opinião, brilha com todas as letras a Tia Vanessa, Eileen Atkins, divertida, um humor delicioso, diálogos de uma inteligência irónica, induzida.

O argumento do filme faz reverter a importância da racionalidade, do raciocínio lógico, a favor da emoção, da intuição, da magia. Essa é a moral da história. 



Magia ao Luar, de Woody Allen com Emma Stone e Colin Firth






E, curiosamente, vem bem a propósito de um vídeo que Leitor que partilha comigo o interesse pelas coisas do cérebro me enviou.


A mente intuitiva é uma dádiva sagrada, e a mente racional é um fiel servo. Criámos uma sociedade que venera o servo e que esqueceu a dádiva.



The Divided Brain


Renowned psychiatrist and writer Iain McGilchrist explains how our 'divided brain' has profoundly altered human behaviour, culture and society. 





Já contei aqui que, depois de, em pequena, querer ser cabeleireira, a minha escolha para profissão a seguir recaíu em Psiquiatria. Não sabia de Neurologia, nunca ninguém me falou nisso, mas também não ia adiantar. A mente sempre foi, para mim, o primeiro e o último dos mistérios. Mas, quando soube que primeiro tinha que fazer Medicina (com Anatomia e corpos frios, abandonados, esventrados, e essa desgraça toda pelo meio), desisti. Depois, ainda pensei em Psicologia mas não era a mesma coisa e, na altura, o curso não tinha grande reconhecimento, o curriculum pareceu-me pouco consentâneo com o que me motivava. Desisti. Mas a curiosidade e o gosto mantiveram-se. Sempre se hão-de manter. Queria poder ver ao espelho o meu cérebro tal como vejo o meu rosto. Se rio, choro, se me zango ou me preocupo, se me vir ao espelho, vejo-o na minha expressão. Mas sei que, ao mesmo tempo, dentro da minha cabeça, muitas ligações se estabelecem e isso eu não vejo nem sei de que se trata, não faço ideia do que lá se passa mas sei que os pontos que se activam ou se comunicam não dependem da minha vontade.

A mulher de um colega meu teve há uns anos um AVC. Teria na altura uns quarenta anos. Perdeu a fala e o andar. Depois recuperou, mas apenas mais ou menos pois não dizia coisa com coisa, era como se falasse uma língua inexistente. A família olhava-a com estranheza enquanto ela dizia palavras incompreensíveis com a naturalidade de quem diz coisas normais. Aos poucos foi aprendendo mas ainda tem lapsos, só que aprendeu a dar a volta, faz a descrição das coisas, ou, de vez em quando, troca disparatadamente as palavras. Mas quem não saiba achará apenas que por vezes parece deslocadamente rebuscada ou que é despistada, daquelas que se trocam todas. Apesar de totalmente desaconselhado, continua a fumar e, querendo o cinzeiro, pede 'passas-me o relógio, por favor?'. Claro que faço de conta que nem dou por nada, passo o cinzeiro com naturalidade. Diz que coxeia ligeiramente mas ninguém dá por nada, também disfarça. O cérebro aprendeu a obter o pretendido através de outros caminhos.

Mas o tema do filme e do vídeo nem é sobre isso, só estou a falar nisto porque é tema cativante para mim. Somos aquilo que o cérebro nos faz ser mas o cérebro não é fundamentalista nem ortodoxo, sabe adaptar-se. 

Quanto à magia e à intuição, claro que me são conceitos caros, toda eu alinho por esse diapasão. Antes de ser racional (e sou), sou intuitiva. Já contei: casei com um homem por quem senti um violento amor à primeira vista. Não sei se deverei dizer amor ou se era atracção, mas também não sei se era atracção global ou se era apenas atracção física. Não faço ideia. O que sei é que faria (e fiz) qualquer coisa para me acercar dele, para fazer com que ele me viesse parar às mãos. Tive sorte, não tive que me esforçar: a coisa foi recíproca, embora do lado dele a coisa fosse mais simples. Quando lhe perguntei porque me olhava daquela maneira quando se cruzava comigo, contou-me que o seu pensamento era mais focado, queria digerir-me, digamos assim (tenho que ter cuidado com o que digo porque os meus filhos lêem o que escrevo). Tal como ele não me conhecia, também eu não fazia ideia de quem era e, no entanto, logo confessei àquele com quem namorava na altura: conheci o homem da minha vida. Claro que esse tal meu namorado ficou siderado, gelado. Mas eu sabia que era tão verdade que não poderia escondê-lo. Não sabia quem esse tal era, como era, nada, nada, nada. E, no entanto, senti no coração, no corpo e na alma que toda eu queria aquele homem, então ainda tão jovem quanto eu. Contei à minha mãe que ficou enervada: mas quem é? Via que a filha estava disposta a trocar um namoro sério, com quase três anos e já envolvendo as famílias, por alguém que lhe era totalmente desconhecido. Eu não sabia nada, apenas intuía que era um tal que estava de caso com uma minha colega e de quem ela falava como se falasse do Brad Pitt. Mas isso não me interessava nada, era-me indiferente, só sabia que não ia descansar enquanto não ficasse com ele para mim. Por ele e com ele fiz o que nunca tinha feito antes com os dois outros namorados, por ele senti a magia do amor irracional, total.

Coisas do cérebro, magias, cenas involuntárias - que há-de uma pessoa fazer?


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sábado, setembro 28, 2013

Uma mulher cuja vida dava muitos livros, muitos filmes, onde sexo e pornografia política se misturariam - numa autarquia perto de si.


Tenho que ter cuidado com o que escrevo. Estou aqui na minha sala, praticamente às escuras, e ponho-me a escrever como se estivesse a divagar sozinha ou como se estivesse a confidenciar apenas junto de si, meu caro/a Leitor(a) que me está a ler. E, depois, por vezes, esqueço-me que não sei quem me está a ler.

Claro que tenho cuidados: se falo de pessoas reais, não apenas não divulgo o nome, como tento não dar pormenores que permitam identificá-las.

E, no entanto, como a escrever sou como a falar, pão, pão, queijo, queijo, nada na manga, nada de dissimulações, acontece que, apesar dos cuidados, sou tão realista que depois me vejo confrontada com situações imprevistas.

Uma vez escrevi sobre um ex-político, ex-ministro, e, embora tivesse tido o cuidado de não o referir explicitamente, não fui especialmente abonatória nas palavras. Pois bem, uns dias depois recebi um mail dele que me deixou sem palavras. Dizia-me ele que já muita gente o tinha tratado mal, que se tinha habituado a tudo, mas que, de tudo a que já se tinha visto sujeito, nunca se tinha sentido tão magoado quanto com as minhas palavras naquele dia. Era um mail longo e muito sentido. Nesse dia senti-me muito mal. Fui ao dito texto e alterei algumas palavras. O texto ficou lá, o sentido ficou íntegro, mas limei arestas, eliminei as expressões mais cortantes. E escrevi-lhe a explicar a razão da minha desconfiança em relação a ele, a razão do desconforto que me tinha levado a escrever aquilo, razões que, a serem verdadeiras, seriam motivo mais do que suficientes para eu pensar aquilo que tinha escrito, mas, de qualquer modo, a pedir desculpa se estava a ser injusta, acrescentando que apenas ele saberia se eu estava ou não a ser injusta.

Mas aquele mail de uma pessoa que se reconheceu nas minhas palavras e se sentiu magoada no mais profundo da sua alma, o tom amargurado das suas palavras, ficou e ficará para sempre a corroer a minha consciência: estaria eu a ser injusta? estarei ainda, ao não escrever uma coisa de sentido contrário ao que escrevi naquele dia? Não sei.

Outra vez contei aqui um conjunto de peripécias sobre uma pessoa com quem trabalhei, que tive a oportunidade e o privilégio de conhecer de perto, de quem fui muito amiga. Claro que tentei não ser explícita. Pois bem, no dia seguinte tinha um mail de uma Leitora a perguntar-me se não era fulano de tal, que o tinha conhecido muito bem e que tudo o que eu tinha dito batia certo. Confirmei, claro. Mas fiquei a pensar que tenho mesmo que ter cuidado.

Isto já para não falar da minha filha que volta e meia me liga a dizer 'ó mãe, então ontem estiveste a falar de fulana de tal...?' e quando eu pergunto se dava para se perceber, ela responde, irónica: 'nããããoooo...' como quem diz que estava claro como água.

Por isso, a partir de agora, vou tentar falar de um caso verídico mas cuja identidade não quero divulgar - até porque não é certamente caso único. Figura aqui a título de exemplo. Entendam como uma abstração, uma personagem ficcionada.

*
 Blue Moon (interpretada por Ella Fitzgerald)




Vem isto a propósito do filme que vi esta noite. Blue Jasmine. Quem viu o filme perceberá a razão da escolha da música Blue Moon, que agora talvez estejam a ouvir. Um belo filme, uma extraordinária interpretação de uma actriz que considero das melhores, das mais versáteis da actualidade, Cate Blanchett. Podia também referir a roupa dela, tão elegante, tão Chanel, mas isso seria fútil face à textura do filme cujas várias camadas o tornam tão interessante. Recomendo-o: é mais um belo filme de Woody Allen - o humor e a ironia no meio da tragédia pessoal, as situações desconcertantes mas tão realistas, a fragilidade e as contradições do ser humano.





A propósito de Jasmine - a mulher que constrói a sua vida em cima de expectativas, de ilusões, que constrói uma personagem para si própria, mas tudo tão frágil, tudo tão inconsistente - me lembrei de uma mulher com quem convivi durante muitos anos, talvez uns uns vinte anos. 

Gostaria de vos contar a vida desta mulher, tão cheia de peripécias, de dramas, de rábulas, de loucuras, de fantasias. É uma longa história que eu facilmente repartiria em fascículos, cada um mais inverosímil que o anterior. Mas não posso contar como gostaria pois alguém poderia reconhecê-la ao ler estas minhas palavras e longe de mim arranjar-lhe problemas. A vida é complexa demais para que alguém se arrogue o direito de julgar os outros só a partir de um punhado de palavras. Que ninguém use as minhas palavras como pedras.


Dir-vos-ei apenas que, quando a conheci, era uma jovem desinibida, muito vistosa. Vestia-se de uma forma provocante, vestidos muito justos, muito decotados, muito curtos.

Dava nas vistas, mas mesmo muito. Era viciada em toilettes e, embora estivesse com ela quase todos os dias, tenho a ideia de que não a vi repetir uma.


Acho que o ordenado deveria ser gasto integralmente em roupa, sapatos, carteiras, colares, pulseiras.

A cor do cabelo variava entre o louro, o ruivo, o castanho, o negro. Usou-o também de vários tamanhos e chegou a pôr extensões para ficar com ele bastante comprido. 

Nos primeiros tempos, vendo-a assim, admitia que fosse uma jovem caçadora. Os homens rodeavam-na cobiçosos e ela não se fazia rogada.

Por isso, um dia, numa festa, o meu queixo caíu quando a vi com marido e filha. Mais surpreendida fiquei quando conheci o marido. Uns anos mais velho que ela, ar de homem bem instalado na vida, por pouco quase passava por pai dela. Mas ela andava de roda dela toda dengosa, como se estivesse apaixonada pelo marido. E tinham um grande carrão. Soube depois a profissão dele, que ganhava muito dinheiro. E via-se.




Aos poucos fui conhecendo melhor: ela queixava-se amargamente dos ciúmes dele, que lhe telefonava amiúde, sempre a controlá-la, sempre a fazer cenas de ciúmes. Contava-me isto e eu ouvia-a perplexa porque, se eu fosse marido dela, também ficaria apreensivo. A forma, toda ela, da cabeça aos pés, como se arranjava, era do mais provocante que se pode imaginar. E depois, aos poucos, fui sabendo dos numerosos casos que ela tinha. Uma coisa inenarrável. Conheci alguns homens que estiveram na iminência de se separar das mulheres na esperança que ela aceitasse viver com eles. Ela alimentava a esperança, deixava-os de cabeça perdida, mas mesmo de cabeça virada do avesso, e depois acabava por ir adiando, adiando, até eles desesperarem. Por vezes era por eles, doidos da vida, ressentidos, magoados, que se sabiam as histórias. De vez em quando, via-a de ponto em fino, muito mais do que o habitual, sapatos de agulha, altíssimos, mais ainda do que o habitual, toda ela perfumadíssima, maquilhada como se fosse atravessar a red carpet, um aparato. Nesses dias, dizia que ia fazer um exame médico, que tinha uma consulta, coisa assim. E eu via-a a entrar para um carrão aparatoso que não era um dos do marido: havia programa especial.

Ao longo de todos estes anos, ela conversava comigo, omitindo em absoluto esse seu lado, fazendo de conta que era uma virtuosa mulher de família, vítima da incompreensão do marido. Não falava como se mentisse. Falava como se aquela outra que tinha casos com dúzias de homens, mas apenas os de condição social elevada, fosse outra, não ela. Contava-me angustiada que achava que o marido a traía e chorava, furiosa com o marido, como se não o perdoasse se as suas dúvidas viessem algum dia a concretizar-se. Eu ouvia todas estas confidências perplexa.




E ia de férias com o marido para os melhores locais, o marido tinha muito dinheiro, e parecia um casal feliz, não fora ela queixar-se das desconfianças em relação ao marido e não foram os ciúmes, que ela dizia doentios, do marido.

Entretanto, nas muitas incursões da sua vida dupla que a levaram a ir até para Espanha para sofisticados locais de férias com um dos casos que teve (dizendo ao marido que ia em trabalho), fazia por vezes acompanhar-se por uma outra (outra que tal mas de cabecinha mais fraca) que tinha um caso com um amigo do outro. Dois casais. Soube-se depois que estes dois casais saíam amiúde, faziam programas em conjunto.

Mas um dia, por uma zanga entre elas por causa de um dos homens, a outra denunciou-a ao marido.

Lembro-me bem: nesses dias ela chorava, injustiçada, que a outra que ela tinha por tão grande amiga e a quem tanto tinha ajudado, por inveja, má fé, tinha inventado intrigas horríveis e que estava a pôr em causa o casamento. Quis fazer queixa da amiga, que não admitia injúrias, calúnias, que a outra estava a atentar contra o seu bom nome, e chorava, sentida, preocupada com o que se adivinhava que iria ser o desfecho daquela história




Durante os meses em que durou a separação até ao divórcio foi o bom e o bonito. Dizia que estava com uma depressão, supostamente terá mesmo cometido actos desesperados, dizia que a outra tinha destruído a vida dela, chorava, chorava, furiosa. Sabendo o que sabia, parecia-me que a preocupação maior deveria ser a de ir perder a boa vida que tinha, dado os elevados rendimentos do marido, mas, a verdade é que ela parecia sincera quando chorava, como se amasse mesmo o marido.

Por vezes aparecia sem se maquilhar, olhos inchados, abalada, infeliz, numa prostração que dava pena, parecia outra.

Divorciaram-se.

A partir daí os casos multiplicaram-se, como sempre tudo homens com dinheiro. Por mais do que uma vez me pareceu que aceitava de bom grado vultuosos presentes e soube, a posteriori, que aceitava que lhe emprestassem consideráveis quantias de dinheiro, supostamente para fazer face a despesas com a filha. Mas eu via-a, então como sempre, vestida de ponto em fino, carteiras e sapatos de marca, perfumes caros, e sabia-a frequentadora de grandes restaurantes, a ir a espectáculos, a ir passar fins de semana aqui e ali.


O tempo passou mas foi generoso com ela. Continuou provocante, toda ela sempre pronta para seduzir.

A filha fez-se adolescente e ela contava-me as crises com a filha, as pegas, as discussões. Toda ela uma mãe atenciosa, preocupada, sempre furiosa com o ex-marido porque não dava o apoio devido à filha. Falava-me também das preocupações com os pais, a envelhecerem, os problemas da idade que trazem surdez, alguma confusão, o medo que tinha por eles, que o pai ainda conduzisse, a mãe que quase não saía de casa. Não tenho dúvida de que estava a ser sincera. Nas nossas múltiplas e longas conversas nem ao de leve, alguma vez, ela foi outra que não uma mulher a quem o marido abandonou porque andava metido com outras, desgraçando a vida tão boa que tinham, uma mulher agora sozinha com uma filha adolescente e pais velhos.

Entretanto, sabia-se dos telefonemas ameaçadores que recebia das mulheres dos homens com quem andava, telefonemas de bancos por causa de empréstimos que contraía e se atrasava a pagar (como já não tinha o nível de vida assegurado pelo marido, começou a recorrer a empréstimos). Mas isso eu sabia por quem acompanhava esse seu lado ou por telefonemas que se ouviam. A mim nunca tocou nisso, nem sequer, alguma vez, mostrou medos por algo que se passasse nesse seu outro lado. E eu sempre respeitei essa sua postura, sempre a ouvi como se acreditasse naquela fantasia toda.


Acontece que, a certa altura, começou a dizer que tinha um grande amigo (por acaso, o que a ia buscar num bruto carrão) que se ia candidatar a uma junta de freguesia e que ela, se calhar, se ia meter na política, que ele a tinha convidado para a lista dele.

Fiquei, eu e toda a gente que a conhecia, de boca aberta.

No meio da sua vida tão cheia de cenas nunca, nunca, nunca se lhe tinham visto quaisquer interesses pela política. Mas a ideia parecia mesmo ir concretizar-se. Pediu para negociar a saída da empresa onde trabalhava, recebeu uma indemnização e despediu-se.

Eis senão quando confidenciou a alguém que estava furiosa com esse amigo porque afinal o lugar que ele tinha para lhe oferecer na lista não era elegível. Ainda mais admirados ficámos. Mas, com a vida que levava, estava a pensar mesmo ir para uma Junta de Freguesia....?




Mas a fúria não durou nem uma semana. Toda orgulhosa, contava que tinha sido convidada pela principal lista adversária mas agora já para a Câmara. Arregalámos os olhos. Dizia que contava ser eleita e que o chefe de cartaz, pessoa muito conhecida (podem crer), lhe tinha garantido um lugar, mais certo ia ser vereadora.

A loucura.

Em menos de uma semana tinha passado da pretensão de ingressar uma lista para uma Junta de Freguesia para um lugar elegível na lista oposta e para uma grande Câmara Municipal.




Pensámos todos: furiosa com o amigo, vingou-se e já anda metida com o rival político do outro.

Se andou ou não, o certo é que na noite das eleições todos a vimos na televisão a cantar e aos saltos no palco, na sequência da vitória da sua lista. Por um triz não ficou vereadora mas o novo amigo arranjou-lhe um lugar fantástico que não lembraria ao diabo.

Por essa altura perdi-lhe o rasto. Aquela tinha-me parecido demais. Uma coisa era andar de cama em cama com tudo o que era homem com dinheiro (acho que sempre alimentando a esperança que algum deles fizesse dela a sua mulher, pois não conheci até hoje mulher mais deslumbrada pela vida fácil. E, no fundo, não sei se não andava sempre à espera de descobrir um grande amor - mas fazendo sempre tudo errado, sempre más escolhas, escolhas impossíveis, sempre metida em sarilhos), mas outra, bem diferente, era levar essa insanidade para a política, para cargos onde é suposto estar-se para servir os outros.

Passaram, pelos vistos, já quatro anos.

Ontem estava eu a telefonar, de pé, à janela. O piso onde estou é alto, os vidros são duplos: não se ouve nada. Mas reparei que, lá em baixo, uns carros andavam às voltas com bandeiras, que no passeio ia um cortejo distribuindo panfletos. No meio do cortejo ia ela, toda sorridente e produzida como sempre.




Não me admirei mas voltei a sentir uma incómoda estranheza, como que uma náusea.

A política hoje, em Portugal, é a ausência de política, é uma mescla de interesses das mais variadas espécies.

Claro que há certamente ainda pequenos nichos de nobreza de intenções e de carácter. Mas devem ser raros.

Seja como for, vamos votar - na melhor solução possível, mesmo que vamos como eu: um pouco contrariada por não ver extraordinária qualidade em todos os que fazem parte das listas em que votarei. Mas, enfim, do mal o menos.

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Trailer de Blue Jasmine, o último filme de Woody Allen com a luminosa Cate Blanchett



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As fotografias são todas de Cate Blanchett no mais recente filme de Woody Allen, Blue Jasmine.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belíssimo fim de semana!