quarta-feira, março 18, 2026

Sobre bengalas, audioguias, clubes de leitura

 


No outro dia identifiquei-me completamente com o José Ricardo Costa do Ponteiros Parados. Não que isso não aconteça com uma certa frequência. Mas, naquele dia em particular, gostei mesmo do que li, senti-me acompanhada.

Não há muito, alguns amigos organizaram-se para uma visita guiada a um museu. Senti-me bem dividida pois, por um lado, gosto imenso de estar com eles, mas, por outro, não consigo ver um museu com guia. Andar ao ritmo dos outros, ouvir explicações, assistir à indecente dissecação de uma obra que se quer una, inexplicável, indescritível, parece-me a mais absoluta contradição dos termos. Nem sequer consigo visitar uma exposição com audiofones, pura e simplesmente não consigo, imagine-se, então, com um guia humano, integrada num grupo. Impensável.

Não fui. Com muita pena pois gostaria de ter estado com os meus amigos, mas foi mais forte que eu. Não conseguiria estar parada, no meio deles, a ouvir o que a guia estaria a dizer. 

Quando muito poderia ouvir os autores, os pintores. Por exemplo, gostava muito de ouvir a Paula Rego. 


A forma desprendida como dizia que já não se lembrava porque tinha pintado o quadro ou ao improvisar o que é que ali estavam a fazer aquelas figuras, ou, numa outra vez, quando lhe perguntaram porque é que estava um tomate ali e ela respondeu que, ao pintar, tinha achado que havia ali um vazio e, então, para encher, tinha pintado um tomate. Ouvir falar assim acho delicioso, fica presa. E gostava de ouvir as suas histórias, as suas recordações, a forma quase inocente como falava dos homens maus, ou o que a motivava ou como preparava o cenário para, depois, o pintar. Mas tudo contado naquela sua forma desconstruída, desligada das opiniões alheias. Disso eu gosto.

Agora um guia a interpretar, a dissertar sobre a gramática da pintura, isso para mim seria insuportável. Ou andar de sala em sala e, em vez de estar com a alma virgem, andar conduzido por um audioguia, a ver as coisas pelos olhos de outros ou a dividir o texto poético da pintura em orações e a encontrar-lhe o sujeito, predicado e complemento directo (que já nada deve chamar-se assim...), isso, para mim, seria uma tortura.

Para mim, ver pintura (ou escultura) é um acto íntimo, não quero gente ao meu lado, quero parar, deixar-me absorver, deixar que a pintura me envolva, deixar-me emocionar, sem palavras. Ou, então, seguir adiante, indiferente.


Nota: 'Gerei' as duas imagens acima com recurso a IA, descrevendo o que queria (o estilo, as cores, as texturas, etc) -- obviamente inspirando-me em Rothko, um dos meus musts, aquele género de coisa que não se explica.

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E, a propósito, vou falar de uma coisa que receio choque algumas pessoas: os clubes de leitura. 

Já faz cerca de um ano que frequento o Instagram e, volta e meia, aparecem-me referências a encontros de clubes de leitura. E lá vejo as fotografias e a alegria que têm em estar juntas. Falo no feminino porque só vejo mulheres. Uma irmandade, todas cheias de ideias, de opiniões, de entusiasmos.

IA também, mas desta vez pedi-lhe um clube de leitura actual só que à luz do Vermeer

Já quando trabalhava, uma colega com quem eu me dava muito bem, gostava muito de ler, era muito dada a actividades de voluntariado que envolviam livros e dinamizava um clube de leitura. Sabendo-me também leitora regular, de vez em quando desafiava-me. Mas nunca foi bem sucedida. Uma outra, com quem eu me dava também muito bem, uma com um certo pendor alternativo que eu muito apreciava, era também muito disso e frequentava muito os encontros, em livrarias também meio alternativas, em que falavam de livros. Dizia-me: 'Há de experimentar. Um dia venha comigo, vai ver que vai gostar.' Nunca fui. E, com esses convites, constatava que eu nunca me dava verdadeiramente a conhecer pois, se me conhecessem de verdade, saberiam que é o género de coisa a que sinto aversão, aversão incondicional. Tudo naquilo me causaria desconforto, desde o tema, à conversa, passando pelo facto de ser um clube do bolinha ao contrário.

É certamente um défice meu, pode até ser um défice cognitivo (ou psicológico, tanto se me dá): não consigo dissertar sobre um livro. Consigo resumir vagamente, consigo dizer também vagamente porque gosto ou não gosto. Não mais que isso. Não me interessa esvaziar a alma dos personagens, não quero saber das hipotéticas intenções do autor, muito menos tenho qualquer interesse em conhecer a opinião detalhada das outras pessoas sobre o livro. 

E depois, geralmente, os livros que escolhem como alvo de autópsia são geralmente livros sobre os quais eu não dou um chavo, são livros mais ou menos mainstream, não quero saber daquilo para nada, nem daqueles livros nem daquelas conversas. E, note-se, nunca fui a nenhum desses encontros. Digo isto só de imaginar. Se lá fosse, então, viria certamente a espumar, cansada da cabeça de tanto me esforçar para parecer educadamente interessada, desidratada e com a tensão arterial nos mínimos. Não sei porquê mas quando estou com pessoas que falam muito, em especial quando falam sobre coisas que não me interessa, fico assim, arrasada.

Um livro, tal como uma pintura, uma escultura, uma música, o que for, são para ser apreciados de forma individual, intransmissível, recatada. 

Neste caso, pedi à Inteligência Artificial que me gerasse uma imagem inspirada na arquitectura de Luis Barragán: um templo sóbrio, com aquelas cores típicas dele e com aquelas maravilhosas entradas de luz, e em que uma mulher estivesse, sozinha, a ler um livro

Não sou dada a rezas nem a nada disso mas, neste caso, acho que uma obra de arte deve ser venerada em silêncio, tomada para nós -- isto quando nos toca, evidentemente. Se não nos diz nada, bye bye, adeusinho,  por aqui me desbaldo. Não temos que dar justificações.

Mas, enfim, isto sou eu. Cada um é como é, já lá dizia o outro. 

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Desejo-vos um dia feliz

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