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quarta-feira, março 01, 2017

So typical...
[5º de 8 Postais ilustrados de Lisboa, a bela]


Não sou daquelas pessoas que acham que a sua rua deve ficar guardada só para quem lá mora ou que se agastam quando o seu restaurante de estimação foi descoberto por gente de outras paragens.

Tinha eu dezasseis anos e já não suportava viver numa terra em que meio mundo parecia conhecer a outra metade ou em que havia, em muitos, a preocupação do que as coisas pudessem parecer aos olhos dos outros. Não descansei enquanto não me deixaram vir viver para Lisboa. 
Uma prima minha sentiu o mesmo que eu mas, vá la saber-se porquê, quis ir para Coimbra. Parece que sentiu o apelo nostálgico de uma cidade universitária e tanto gosou que por lá ficou. Um outro primo a mesma coisa: durante anos andou itinerante por aí, volta e meia saía do país. Durante uns anos namorou uma holandesa e por lá passava umas temporadas. Depois, na Alemanha, conheceu uma rapariga, com cerca de vinte anos a menos que ele, filha de emigrantes portuguesas. Pensámos que seria mais uma. Afinal casou com ela, fixou-se na sua cidade natal e já tem três filhos. Uma outra sempre foi mais certinha. Mas todos os anos, pelo menos uma vez por ano, aí vai ela, numa grande viagem fora do país.
Mas, dizia eu, gosto de cidades grandes em que se misturem gentes desconhecidas, raças diferentes, nacionalidades múltiplas. Gosto de ir a passar na rua e ouvir todas as línguas e ver gente com hábitos distintos. Gosto de me sentir uma turista. 

E é assim que, sentindo-me sempre como se não fosse de cá, vejo elementos que são tão típicos desta Lisboa de que tanto gosto e fico encantada, como se os reconhecesse de os saber de longe. So typical..., quase poderia dizer. Mas não digo, apenas fotografo.

Depois de mudar de agulha (ou 'fazer a agulha'), o condutor do eléctrico apressa-se a voltar lá para dentro

Amália em calçada portuguesa, em Alfama, por Vhils



No coração da Lisboa antiga: fados e guitarradas em Alfama


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Gisela João - Vieste do Fim do Mundo


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E queiram, por favor, continuar a descer caso queiram ver mais três postais de Lisboa. 

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sábado, junho 13, 2015

"Aceito esta distinção em nome da geração mais qualificada de sempre que se vê forçada a emigrar por falta de oportunidades. A geração desprezada. A geração das famílias fragmentadas. A geração do talento desperdiçado, cuja educação, suportada pelo país, se vê agora investida noutros cantos do mundo." - palavras de Alexandre Farto, o grande Vhils, Cavaleiro da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada




Alexandre Farto, artista muito apreciado aqui no Um Jeito Manso, foi condecorado no 10 de Junho. Vhils é agora Cavaleiro da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. 


E Vhils começou a honrar a condecoração desde o primeiro minuto, mostrando ser um verdadeiro Cavaleiro. Assim, publicou no Facebook o texto que abaixo transcrevo.

Ilustro com algumas das suas belas obras e faço acompanhar com um vídeo com um grande som (Gregory Porter - "Be Good (Lion's Song)") e que, todo ele, acho que faz uma bela companhia às palavras de Alexandre Farto.







Nota publicada por Vhils na sua página de Facebook - 10 de junho de 2015



Hoje, dia 10 de Junho de 2015, fui agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago da Espada, a mais antiga ordem honorífica de Portugal, usada para distinguir o mérito literário, científico e artístico de cidadãos portugueses.

Perante a responsabilidade que representa a aceitação de tal reconhecimento, enquanto português e enquanto artista, foi inevitável questionar-me sobre a legitimidade e o fundamento desta distinção. Após a surpresa inicial e após um longo debate interno, decidi, com humildade, aceitá-la. Faço-o por respeito à sua longa história assim como pelo orgulho que sinto em passar a fazer, modestamente, parte da História do meu país. Faço-o como um gesto patriótico para com o país que estimo e que fez de mim a pessoa que sou hoje.





Um país não é uma circunstância. É por este motivo que a aceitação desta distinção não visa dar voz nem força a nenhum contexto ou posição política. Vejo-o antes como uma oportunidade para a aceitar em nome daquilo em que acredito, para expressar o amor que tenho por Portugal, assim como o desamor que tenho pela forma como as prioridades daquilo que deveria ser um país empreendedor, avançado, justo e socialmente equitativo têm sido continuamente confundidas com os interesses daqueles que querem que tudo fique na mesma.

Aceito esta distinção em nome da geração mais qualificada de sempre que se vê forçada a emigrar por falta de oportunidades. A geração desprezada. A geração das famílias fragmentadas. A geração do talento desperdiçado, cuja educação, suportada pelo país, se vê agora investida noutros cantos do mundo.

Aceito esta distinção em nome de um país inclusivo e acolhedor. Um país solidário. Um país heterogéneo, composto por pessoas com raízes e origens em outros cantos do mundo. Um país que acredita e promove a participação cívica e política dos seus cidadãos.





Aceito esta distinção para dar voz a um país onde a educação e a formação cultural são valorizadas. Um país onde cada jovem é visto como um bem e uma oportunidade digna de investimento e não como um problema. Um país que acredita na arte e no seu enorme poder como educador social.

Aceito esta distinção como reconhecimento do meu trabalho e aquele da minha equipa, como prova de que vale a pena resistir contra a condescendência e o tipo de mentalidade que nos tenta convencer que somos pequenos.

Aceito-a, ironicamente, numa altura em que a nova lei que estabelece o regime aplicável aos grafitos e outras formas de alteração de superfícies no espaço público, introduz o conceito de “picotagem”, dando-lhe especial relevo no contexto desta regulamentação. Uma lei que não foi alvo de discussão pública e que não soube envolver os vários actores que visa contemplar.

Por fim, aceito esta distinção porque acredito que este país que descrevo já existe na vontade das pessoas e que um dia, através do nosso esforço, será materializado.





Um profundo e sentido obrigado a todas as pessoas que têm apoiado o desenvolvimento do meu trabalho ao longo dos anos.

Com plena consciência de que muitos outros artistas deveriam ter sido distinguidos antes de mim, gostaria de estender esta honra a todos aqueles que nunca irão ser oficialmente reconhecidos, principalmente aos artistas de rua, do graffiti, e todas as crews de Lisboa. Estendo-a ao meio onde iniciei o meu percurso e que me apontou um caminho, o meio que fez de mim a pessoa que sou hoje e ao qual devo muito.

A todas as periferias deste país, a todos aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades, a todos aqueles que são menosprezados, à primeira crew de Lisboa, ao Seixal, à Arrentela, à luta do Bairro de Santa Filomena, à Quinta do Mocho, ao Bairro Verde, à comunidade indígena de Araçaí, ao Morro da Providência, à Ladeira dos Tabajaras. Esta honra é também vossa.






Parabéns, Vhils, grande Cavaleiro.

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Criatividade no meio urbano: Alexandre Farto AKA Vhils at TEDxAveiro





Graffiti Street Art - Vhils




Arte na rua.
Arte na cidade.
Arte.

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terça-feira, março 24, 2015

Quando a arte está na rua. Odeith, EIME, Bordalo II e Vhils, entre os melhores do mundo. E Banksy, o grande.


No post abaixo já falei de um senhor capaz de resolver a problema do défice de natalidade num ápice. Bem se poderia pôr o senhor Tchicuteno, angolano, a fazer por cá umas sessões de coaching para os garanhões portugueses verem o que é um povoador em acção Com ele ou usando a sua técnica, nas aldeias onde não nasce uma criança há séculos, até as velhas e as pedras desatavam a ter filhos!

Bem, mas isso é a seguir - e o sultão até explica qual a alimentação que o ajuda na tarefa. Aqui, agora, a conversa é outra.
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Na Covilhã, trabalho de Artur Bordalo (aka Bordalo II)


Sou apreciadora de graffiti ou, mais em geral, de street art e ando pelas ruas a ver desenhos, ditos, pinturas. E fotografo. A minha frustração é quando vou de carro e não dá para parar e fotografar, acho um desperdício ter visto e não ter podido registar.

Mas não gosto de ver riscos à toa, letras trapalhonas, sobrepostas, uma poluição visual, coisas que dão ar sujo e abandalhado às cidades. Mas gosto dos apontamentos de poesia, humor, irreverência e arte em geral que pontuam as ruas das cidades. Por todo o lado deveria haver muros para os artistas de rua poderem oferecer às cidades (e vilas e aldeias) a sua arte.

As esculturas flutuantes, 3D, de Odeith
Acho que a arte, toda ela, é estimulante, motivadora, traz felicidade, e a arte de rua é, por excelência, uma das formas de arte mais democráticas e inspiradoras. Ela pode ser um grito de revolta, um alerta, um murro no estômago, uma provocação, uma experiência, um voo, um sonho, uma viagem, um delírio. Seja o que for. Mas é sempre uma interrupção na monotonia, na acomodação. 

Já aqui falei várias vezes de Banksy que admiro muito. Mas hoje quero mostrar também alguns dos nossos artistas. 




Murais de Odeith, EIME, Bordalo II e Vhils estão entre os melhores do mundo



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E, permitam. um vídeo com obras de Banksy. 



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E desçam, por favor, até ao grande Tchicuteno, o homem que gere 43 mulhere na maior limpeza. E que já deu ao mundo (à data da reportagem) nada mais, nada menos do que 152 filhos. É obra.

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sábado, junho 28, 2014

A beleza da destruição


Uma cidade são as suas casas, as suas ruas e recantos, o que daí se vê, as pessoas que percorrem os seus dias, a luz que ilumina os rostos e as paredes, as árvores que projectam sombra nos bancos nos jardins.

Uma grande cidade tem várias centros e cada uma das suas centralidades tem uma vida própria e há restos dessa vida que vão ficando e o tempo vai erodindo as memórias, e as janelas vão ficando fechadas, os papéis velhos como as pessoas dentro das casas, e o vento levanta as folhas, os papéis e as recordações.

Há também os vazios urbanos, as terras de ninguém, o que os homens deixaram esquecido ou que um dia e outro de ausência transformaram em abandono.

Muros velhos, casas tristes, ou gente que se vende ou que vende ilusões nos desvãos, nos escuros detrás de portões que mal fecham, carros abandonados, trapos, crianças andrajosas.

Ou paredes anónimas que ninguém sabe a que pertencem, por onde as pessoas passam sem ver. As pessoas nas cidades andam sempre apressadas, vão de um lado para outro e não se lembram de olhar para as paredes por onde passam.

E há um jovem muito jovem que vê rostos gastos e tristes onde mais ninguém os vê. De paredes velhas nascem rostos que vêm do passado, que vêm com olhos abertos de espanto e saudade para olharem quem os não vê. Ou rostos de jovens que carregam desesperanças num olhar muito antigo que desafia quem passa apressado.

explosive street art
Esse jovem, que vê rostos escondidos dentro das paredes, destrói ainda mais as paredes mas, dessa destruição, nasce a vida em toda a sua explosiva beleza. Olha-se e não se acredita. Se virmos uma lágrima escorrendo por um desses rostos ou ouvirmos um riso seco não nos espantaremos porque aquelas pessoas que surgiram de dentro de paredes velhas estão mais vivas do que muitas das que passam apressadas a caminho de coisa nenhuma. 

Alexandre Farto ainda nem 30 anos tem e, no entanto, das suas mãos nasce gente que carrega o peso de muitas e pesadas vidas, gente que, pelas suas mãos, renasce e ganha a imortalidade.







Dissecção é a primeira exposição individual de Alexandre Farto – de nome artístico Vhils – numa instituição artística portuguesa e a maior realizada pelo artista até à data. Patente no Museu da Eletricidade entre 5 de julho e 5 de outubro, a exposição irá apresentar um corpo de trabalho inteiramente novo concebido especificamente para o espaço, exterior e interior, do museu.









Transcrevo o texto que acompanha o vídeo da intervenção de Alexandro Farto (aka Vhils) na conferência TED x Aveiro.


O ALEXANDRE FARTO mais conhecido no seu meio - o da street art - como VHILS falou no TEDxAveiro sobre a sua grande paixão, arte urbana e tudo que está por trás dela: "Criatividade no meio urbano".


A ideia base da sua atividade e da sua arte é a de que uma cidade deve viver da oferta cultural e de criar uma relação com as pessoas para além de melhores condições de vida.

É isso que tem tentado demonstrar nas várias cidades do mundo por onde tem passado a intervir em ruas, casas, pavilhões, etc.

Para si a arte de rua é uma forma de intervenção, uma ferramenta de construção de liberdades, uma maneira de chamar a atenção para problemas e um ponto de partida para se encontrarem soluções.

Nasceu em Lisboa em 1987. Terminou os seus estudos em 2008 na University of the Arts em Londres.

Como artista urbano, mais recentemente, sendo as suas obras, o fruto do seu ideário e o mundo que o envolve. Este artista de Lisboa, a partir das suas raízes do graffiti/street art tem vindo a explorar novos caminhos dentro da ilustração, animação e design gráfico, misturando o estilo vectorial com o desenho à mão livre, aliado a formas contrastadas e sujas, que nos remetem para momentos épicos.

Em 2011, desenvolveu uma técnica usando explosivos, grafite, restos de cartazes e até retratos feitos com metal enferrujado para criar retratos e frases.

Existem trabalhos seus espalhados por vários locais do mundo como as cidades portuguesas de Lisboa e Porto, além de capitais como Londres, Moscovo, Bogotá, e cidades como Medellín, Cali (na Colômbia), Nova York, Los Angeles, Grottaglie (sul da Itália).


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Para conhecerem a história da confusão com o macaquinho desçam, por favor, até ao post já a seguir.


segunda-feira, maio 26, 2014

Resultados das Eleições Europeias 2014 - a minha análise (a quente) face aos votos apurados em Portugal


Às horas a que escrevo, os dados ainda não são definitivos pelo que, dentro de pouco, estarão desactualizados. Contudo, creio que não variarão significativamente.


Lamentate, por favor




Não me vou pronunciar sobre os discursos dos líderes partidários pois foram vazios de conteúdo. Todos, sem excepção, disseram banalidades, palavreado para contentar as próprias clientelas, inutilidades. Não aprenderam nada com o que se tem vindo a passar nos tempos recentes. Nem vão aprender. É gente que vive muito feliz no seu casulo, provavelmente nem percebendo que vivem num casulo.

Vou, portanto, olhar para os números - que, podendo parecer que vivo num mundo de palavras, a verdade é que o meu raciocínio assenta muito nos números.

O que vejo eu dos números?

Mas, antes, uma ressalva: duvido que o número de eleitores esteja certo e esse é o denominador dos cálculos que vou efectuar (e que são cálculos do mais simples que há). Estão contabilizados 9.674.986 e não vejo como. Presumo que seja inferior. Há também o elevado número de pessoas que emigraram e que certamente não actualizaram o seu domicílio. Mas dou de barato pois as conclusões poderiam não ser tão espampanantes com um número de eleitores inferior mas não andarão extraordinariamente longe do que vou dizer nem alterariam muito as respectivas proporções.


A abstenção foi 66,1% e isto é o mais dramático de tudo o que se possa dizer. Há mais de metade dos eleitores que não querem saber, que não se revêem nos actuais partidos, que não sentem que o seu voto seja relevante.


De entre os que votaram, 4,4% votaram em branco e 3,1% votaram nulo (ou 1,5% e 1%, respectivamente, no total dos eleitores). São pessoas que querem saber do que se passa, que se dão ao trabalho de ir votar mas que querem mandar os actuais partidos, ou seja, o actual regime político, às malvas.

Se eu somar o número de pessoas que se abstiveram às que votaram branco ou nulo, chego a uma percentagem de 68,6%. Gente que não se sente representada no actual quadro partidário.

Sobram 31,3% de pessoas que conseguem escolher um partido para as representarem.

(O total não dá os 100% que devia dar por causa de arredondamentos às décimas - e porque não estou para estar com grandes preciosismos face à margem de erro implícita)

Vejamos agora como votaram estas pessoas. Não vou calcular a percentagem face aos que votaram mas face ao total de eleitores porque a leitura feita pelos órgãos de comunicação social encobre os números da brutal abstenção. Ora, as pessoas que se abstêm são pessoas que pensam, que sofrem, que sonham, que têm direito a ser ouvidas (mesmo que decidam não votar). Então, o que se vê é que:

  • 10,7% votaram no PS
  •  9,4% votaram no PSD+CDS
  •  4,3% votaram na CDU
  •  2,4% votaram no MPT
  •  1,5% votaram no BE
  •  3,0% votaram nos outros pequenos partidos



Ou seja, no total de eleitores:

  • apenas 9,4% apoiam as políticas do actual governo.

  • 22% escolhem outros partidos. 

Se somarmos a estes 22% os brancos e nulos, teremos que 24,5% não se revêem de todo no PSD e no CDS.

  • Se a estes (25,5%) somarmos as pessoas que se abstêm (66,1%), teremos que 90,6% dos eleitores não querem dar o seu voto à coligação que governa Portugal.



Números são números.

Que 90,6% de eleitores não votam no PSD e CDS (ou porque não querem saber ou porque acham que há melhor) é uma verdade que deveria ser encarada de frente e daí tirar ilações.

Podem dar voltas e reviravoltas, apontar o dedo à fraca expressão da vitória do PS, inventar desculpas, o que quiserem - mas a verdade é esta: 90,6% dos eleitores não votou neles.


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Façamos agora uma análise a aspectos que, face aos anteriores, são quase irrelevantes. Mas ainda assim, falo deles:




- Um partido que não é nada, o MPT, que é um homem bem falante e pouco mais, que mal fez campanha, que é exterior ao sistema (e é ele como poderia ser um actor de telenovela ou um comentador televisivo, ou seja, alguém conhecido do grande público), de repente aparece e coloca-se em 4º lugar na grelha dos partidos, com mais de metade dos votos de um PCP (que existe há anos e anos, com gente que trabalha que se farta, que têm um projecto e uma escola). E teve quase com o dobro dos votos do BE. 
O que significa isto? Significa que há muita gente que se agarra a qualquer resto de esperança, gente que não acredita no PS, nem no PCP, nem no BE, que quer qualquer coisa que venha de fora deste regime anquilosado, Há, pois, muita gente que acredita que alguém fora dos aparelhos partidários, com uma presença forte, está melhor posicionado para alimentar alguma esperança, talvez porque acreditem que Marinho Pinto saberá falar grosso e defender os interesses dos eleitores. E isso, para essas pessoas - e são muitas - é o que interessa: uma voz forte, uma figura paternal que as defenda contra todas as injustiças.


- O PS bem pode juntar uma sala cheia de gente com ar de quem comeu e não gostou mas que, ainda assim, bate palminhas, bem pode clamar vitória, bem pode dizer que mata e que esfola. Balelas. Vitória? Sim, mas pífia, muito pífia. Poucos mais votos teve que os ignorantes e incompetentes que têm desgraçado o País, pouco mais de 120.000 votos, uma ninharia, uma vergonha. 
O que significa isto? Sejamos objectivos: significa que a actual liderança do PS cheira a mofo, é frouxa, não oferece confiança. A actual liderança teve 3 anos para desmascarar o embuste que tem sido a prática do PSD e do CDS e não foi capaz de o fazer, tal como não foi capaz de convencer o eleitorado de que é alternativa. Ou seja: esta liderança do PS não serve. Tenho pena de o dizer mas é o que os números dizem. Seguro ganhou estas eleições? As regras eleitorais assim o dizem. Mas a mim não me parece que os resultados possam ter o doce travo da vitória. Acho que alguém, no PS, deveria explicar a António José Seguro que está mais do que na hora de se ir embora.


- A CDU teve um resultado razoável no contexto atrás referido e isso deve ser saudado. São coerentes e isso não é pouco. Cerca de 4,3% da população entregou o voto ao PCP. Mas 4,3% são 4,3%. Trabalham, trabalham, lutam, lutam (e são espertos na luta, tiveram a esperteza de arregimentar imensa gente nova que dá um ar rejuvenescido a um partido que sabemos ser, de facto, empedernido), mas, de facto, depois de 3 anos de ataques imorais aos direitos dos trabalhadores, de ataques inaceitáveis à dignidade dos desempregados, dos pobres e dos reformados, quando até seria normal que conseguissem capitalizar a revolta e aparecessem com um resultado extraordinário, descolam modestamente, uma coisa, de facto, sem grande expressão.
O que significa isto? Que o PCP também ainda não percebeu que as pessoas têm memória e que, por muitos jovens que injectem nas suas fileiras, os eleitores não deixam de pensar que são sectários, que não representam um modelo que se possa replicar ou no qual as pessoas desejem algum dia viver. O comunismo, em termos de ideal, pode ainda fazer algum sentido, mas tem que ser outro, adaptado aos tempos do capitalismo financeiro, sem rosto. Já não é o capitalismo do patrão que se conhece mas um capitalismo perverso, invisível, sem rosto, sem moral. Face a esta realidade, o PC não pode aparecer com laivos de antanho.


- O BE teve um resultado triste tal como triste foi o resultado do Livre ou como foram tristes os resultados dos outros partidos nos quais as pessoas desperdiçaram votos. Se o BE conseguisse conjugar-se com o Livre e com alguns dos outros talvez conseguisse alguma expressão. Mas, assim, é uma tristeza, votos que não têm expressão, o mesmo que nada. 

O que significa isto? Que são partidos de franjas e que daí não conseguem sair. Olham para o próprio umbigo, entretêm-se a defender as suas causas, cultivando diferenças em vez de procuraram pontos de contacto, em vez de cruzarem e abarcarem diferentes pontos de vista, em vez de se abrirem à diferença, em vez de cativarem mais eleitores. Não se consegue trabalhar para os outros quando o próprio ego é o motor daquilo que se faz.

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Conclusão? As pessoas, em geral, não se revêem nos actuais partidos, na actual forma de fazer política. Não vale a pena dizer o contrário. O regime tem que se recriar, reinventar. Ou desaparecerá.



Enquanto os partidos estiverem entregues a gente medíocre que se rodeia de outros medíocres, ou a gente agarrada ao passado sem perceber que o mundo é outro, ou a oportunistas, sabujos, lambe-botas, e outros que tais, a situação não deixará de se degradar. 

A continuar-se assim, a abstenção irá subindo ou as pessoas irão desperdiçando o seu voto, riscando-o, entregando-o em branco, entregando ao primeiro que apareça a falar grosso.

E depois não nos admiremos que apareçam extremas-direitas, nazis, ultras.

Há uns anos seria impensável que algum governo tivesse a ousadia de roubar pensões, cortar ordenados, aumentar impostos para além do razoável, quase deixar morrer à míngua os desempregados, atacar os professores, o sistema de ensino, desprezar o conhecimento, arrasar a sociedade afrontando-a sem respeito ou consideração. O ponto de abulia, de desânimo, de desinteresse a que chegámos permite que isso aconteça sem que uma revolta a sério se faça ouvir.

A continuarmos assim, o caminho vai ficando cada vez mais aberto para todos os roubos, todos os ataques soezes, todos os atentados à liberdade e dignidade dos cidadãos.


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A música lá em cima é de Arvo Pärt: Lamentate

As imagens mostram obras (extraordinárias!!!!) de Alexandre Farto, também conhecido por Vhils


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Para verem as minhas primeiras impressões, ao ter tido conhecimento das sondagens de abertura dos telejornais das 20, é descerem, por favor, até ao post já a seguir.

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Isto saíu-me um bocado longo e provavelmente foi, para vós, uma seca das antigas. Se assim foi, as minhas desculpas. Apeteceu-me alinhavar estes meus pensamentos e só agora, ao intercalar as imagens é que vi a extensão da coisa.

Este domingo andei passeando por esta Lisboa tão bela e cheia de vida e fiz umas fotografias que ainda pensei que teria tempo para vos mostrar. Mas, com isto, já são quase 2 da manhã e a amanhã é dia de trabalho. Por isso, por agora, fico-me por aqui.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta semana.