Tínhamos um pessegueiro perto de casa que se enchia de pêssegos pequenos que, mal medravam, logo caíam. O chão sempre cheio de fruta imprestável. Depois apanhou uma doença, as folhas encarquilhadas, todo ele a pedir um fim. Fizemos essa caridade. Serrado pela base.
Anos depois, aparecem rebentos de pessegueiro por todo o lado. Vamos cortando porque despontam no canteiro do alfazema, no canteiro das rosas. A um dos rebentos deixei ficar. Está ao pé das sardinheiras, não estorva muito. É ainda um pé esguio, quase nem se dá por ele, Pois ontem, para minha surpresa, tinha vários pêssegos. Os meninos apanharam-nos e levaram-nos. Penso que sobram uns dois ou três.
Subsiste o verde apesar do calor. Mal se vê o céu. A névoa persiste. Já não cheira a fumo mas o cinzento que oculta o azul deve ser feito de cinzas.
No entanto, não sei como, sobre as árvores e sobre os arbustos vejo a luz como se o sol conseguisse fazer brilhar a folhagem apesar desse véu.
Como habitualmente, estivemos a desbastar árvores e a limpar algum mato. Como não se pode usar máquinas, que poderiam fazer soltar alguma faísca, é tudo esforço braçal. Pelo meio, vou-me encantando com a perfeição das pequenas flores, com a simetria dourada que se oculta por entre a folhagem seca.
Fotografo, e é uma forma de descansar. A natureza tem uma força impressionante. E uma variedade infinita. Por todo o lado descubro maravilhas. Hoje, por várias vezes, senti bichos a mexerem-se à minha passagem, um rumor, um deslizar por entre as folhas secas. Não sei se são cobras, lagartixas, outros animais. Não sei como sobrevivem sem água, sem uma frescura, um orvalho.
Fotografo tudo e, por onde passo, vou descobrindo como o tempo vai embelezando as coisas. Uma rocha acariciada pelos ventos, pelo sol, pela chuva, um tronco morto, uma raíz arrancada à terra, a madeira ganhando novas texturas e cores. Sendo que a beleza provoca um sentimento de satisfação em quem a contempla, imaginem como me sinto sempre tão encantada vendo beleza em tudo isto.
Agora estou a descansar. Tenho aqui comigo 'Amar, verbo intransitivo -- Idílio' de Mário de Andrade. Vou ler e, imagino eu, adormecer. Apesar do calor, o tempo hoje talvez não esteja tão quente. Convida ao sereno descanso. Está um silêncio suave. As cigarras não se fazem ouvir. Apenas de vez em quando, uma leve aragem que faz cantar a caruma. Há pouco, um sino ao longe pontuou este tão doce silêncio que os pinheiros perfumam.
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Ficha técnica do bailado lá em cima:
Compañía Nacional de Danza Multiplicidad. Formas de Silencio Y Vacío
Nacho Duato.
J.S. Bach - Anner Bylsma-Suite No. 1 in G Major, BWV 1007/I. Prélude
Os meus olhos vêem hoje de maneira de diferente o mundo. Ciente de que há muitas vidas escondidas debaixo de cada uma que se vê, olho com mais atenção as coisas, as pessoas.
Uma árvore é um mundo que eu percorro com curiosidade, certa de que jamais vou poder saber toda a sua vida. Nunca saberei dos pássaros que ela abriga nem o que lá se passa entre eles. Muito menos saberei de bichos silenciosos que procuram a sua protecção, os seus sucos, a sua sombra, o seu abraço. Nem dela mesma saberei. O tronco modifica-se, a folhagem renova-se, a aragem fá-la dançar. E, por vezes, dança timidamente, apenas ao de leve, graciosa; mas, se o vento é um bad boy, logo ela, como todas as crazy girls, se deixa ir nos seus braços, se deixa vergar, tonta, frágil.
Antes, se via uma árvore quebrada, tinha um desgosto como se partisse um ser amado. Hoje isso não sucedeu. Aos poucos, vou-me habituando a que a natureza é assim mesmo, vão-se umas, logo nascerão outras. E de uma árvore que se deixou tombar pela paixão, nos braços do vento, se fará lenha que nos aquecerá, e isso também é bom. Outras vezes, os troncos cortados são peças bonitas e ficam por lá, belas na mesma.
Um esguio eucalipto estava caído, o tronco ainda preso por uma língua de madeira, as folhas já sem vida. Quase ia tombando sobre um cipreste; mas os ciprestes são árvores de sorte, predestinadas à eternidade, e não sofreu.
Gosto muito de eucaliptos, são perfumados, deixam um perfume fresco à sua volta e a sua folhagem esguia e colorida ondula ao vento como uma maré.
Adivinho que do tronco quebrado da árvore que tombou rebentará nova folhagem, a árvore renascerá. Imagino que dentro de uns anos ondulará também ao vendo, perfumando o ar.
A natureza é maravilhosa e eu vou aprendendo a compreendê-la, e cada vez a respeito mais, a amo de coração de aberto.
E a primavera está a chegar, as flores despontam, frágeis e coloridas. São efémeras. Devem ser olhadas com desvelo pois um dia destes, quando for à procura delas, talvez já lá não estejam. Assim deve ser todo o amor de verdade: intenso por não saber quanto dura, inteiro por não saber quando se quebra.
O tojo está também todo florido. As flores parecem pontos de luz, de um amarelo vibrante. Pintei, há tempos, um canteiro alto com umas cores indefinidas, azuis, violetas, rosas, que o tempo, esse mestre de todas as artes, tem vindo a esbater; e agora gosto de o fotografar em fundo, os verdes da vegetação vão mudando, as flores não nascendo e morrendo e as cores do meu canteiro vão assimilando o tempo que por ele vai fuindo.
Há um muro pequeno que também está cada vez mais bonito. Não sei de onde vêm os pigmentos que lhe vão trazendo desenhos floridos, às cores. Dantes eram sobretudo manchinhas brancas, líquenes que ali faziam casa. Depois foram aparecendo os amarelos dourados. Agora são maiores, da cor do sol, manchas de luz viva. Uma vez vi uma borboleta amarela ali pousada e achei que a borboleta talvez tenha pensado que eram irmãs suas que ali estavam. Acredito que as borboletas pensam, que têm pensamentos coloridos, sem se aperceberem da brevidade das suas vidas caprichosas.
A rocha grande que parece um bicho está cada vez mais branca e lisa. O sol bate-lhe, a chuva lava-a, o vento deixa-a mais polida, a pele macia. À sua volta nascem arbustos, flores, cheira sempre a urze, a rosmaninho, a cedro. À sua maneira, a rocha também se vai modificando. Existe desde sempre, não tem idade, creio que viverá para além de tudo. Por isso, esconde a sua perenidade com o silêncio, tem a nobreza dos seres superiores.
Nunca quis domar a natureza, nem quando construí pequenos muros para a delimitar. Mas hoje sei mesmo que ela é mais forte do que a minha vontade, ela vive de forma pujante, inteligente, e eu já aprendi a respeitar a sua suprema liberdade. Olho-a com admiração, com comoção.
O dia esteve incerto, frio; e eu passeio, aproveitando o sol. Depois, recolho-me. O meu marido está lá fora, serra o tronco do eucalipto e, por isso, desta vez sou eu que acendo a salamandra. Uso pinhas que acabei de apanhar, troncos de pernadas de outras árvores que ele tinha trazido para dentro. Vejo as chamas, sinto o calor bom, enrosco-me. E leio. Agustina, ainda -- devagar, voltando atrás, degustando, sorrindo.
Depois, já noite, no carro, leio em voz alta. Enigmas, sinais, subtilezas, sorrisos, cintilâncias, brevidades - e a viagem é ainda mais agradável.
Corredor sem limite - Vieira da Silva, 1948
Na gratidão buscamos forças para desarmar os caluniadores. Disse-me um cruel amigo: 'Proteger um artista é subsidiar um monstro.'. Disse isto porque não tinha a glória da gratidão com ele, porque andava por caminhos da cólera. O homem de glória tudo vence com a gratidão, que tudo ama. Às vezes eu vi em Vieira da Silva essa glória. Estava sentada na cadeira de verga, encostada como uma ave que se protege da tempestade, e o seu olhar era insondável. Ninguém no mundo podia interpretá-lo, e, no entanto, eu ousei isso porque pensei: 'só posso conhecê-la, se me conhecer.' Veio até mim uma carta do Verão 70, em que Maria Helena dizia: 'eu gostava de conhecer o meu universo, ou mundo através de si... Eu não me vejo, só vejo o que me rodeia, quase já não existo. É melhor assim, não existir. Vou ficando cada vez mais junto ao quadro até desaparecer nele de vez'. É a crucificação que toda a obra exige.
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Multiplicidade -- Formas de silêncio e vazio --
Nacho Duato
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E, agora, queiram, por favor (e se para aí estiverem virados, claro), descer até ao post seguinte para conhecer as pessoas que votam em Donald Trump. O vídeo mostra-as bem. Nada que enganar.
Pintura de Nikias Skapinakis - actualmente no Museu Berardo, CCB
Música, por favor
Maio Maduro Maio - José Afonso
Celebra-se esta terça feira o dia de uma das espécies mais ameaçadas dos últimos tempos: o trabalhador.
Esta espécie é vista pelos actuais governantes, na sua maioria uns académicos de pacotilha, como boa para abater.
Relembro: quando alguém começa a trabalhar, celebra um contrato no qual se estabelecem direitos, deveres, garantias, compromissos.
Ora os contratos servem para regulamentar o cumprimento recíproco do que mutuamente foi acordado ou, então, para estabelecer a forma ordeira de os romper.
O que este governo tem vindo sistematicamente a fazer com os que, directa ou indirectamente, estão sob sua alçada, é romper unilateralmente esses contratos - e fá-lo de forma arbitrária e amoral.
Dou um exemplo (e, nem estou a falar de mim pois, repito-me, trabalho numa empresa privada). Um funcionário público ou, mesmo, um trabalhador de uma empresa detida por uma empresa pública - mesmo sendo uma empresa que está no mercado em situação de concorrência tal e qual como uma empresa privada, uma empresa lucrativa em que os trabalhadores não têm quaisquer regalias ou direitos que os funcionários público – pode ter tido um corte de ordenado de 10%. Em cima disso foi-lhe retirado os subsídios de Natal e férias. Só aí já vai um corte unilateral de 23%. Poderá dizer-se que, se levou um corte de 10%, é porque tinha um ordenado muito alto. Falso. Isto aconteceu com quadros médios, mediamente remunerados, pessoas que tinham compromissos assumidos na assumpção dos rendimentos contratados.
Some-se a este atentado, o aumento de IRS mais o aumento de IVA - cortes comuns para todos os que ainda conseguem manter-se vivos. Some-se o aumento da electricidade, do gás, dos transportes, de tudo.
Percebe-se, assim, o saque que está em curso a toda a gente mas, em especial a uma ex-classe média que está a ser desapossada da forma mais indecente que há memória, e, em geral, a quem vive de rendimentos de trabalho ou de pensões de reforma e, ainda mais, aos que directa ou indirectamente têm como patrão essa figura que deixou de ser ‘de bem’ que é o Estado.
De notar ainda que, reportando-me agora aos pensionistas, uma pensão de reforma não é uma benesse. Uma pensão de reforma é a devolução da verba actualizada relativa a descontos efectuados especificamente para esse fim ao longo da vida activa. Encarar essa verba como algo de que se pode dispor, retirando parte dela, é ilegítimo e imoral.
Um trabalhador qualificado – e agora refiro-me a todos, isto é, ligados a entidades estatais, para-estatais, empresas privadas, etc - pode hoje descontar do seu ordenado quase metade do que ganha para IRS o que, somado à verba descontada para a Segurança Social, perfaz bem mais do que metade do que ganha. Um atentado.
Ora todas as verbas retiradas desta forma às pessoas são verbas que não circulam directamente na economia. E retiradas todas estas verbas para impostos e deduções, não sobra dinheiro para aplicar em poupanças e o consumo restringe-se ao mínimo. Não havendo dinheiro para aplicar em poupanças, os sistemas financeiros vêem a sua liquidez reduzida; e, reduzindo o consumo, começa tudo a reduzir ou a fechar - e esta é a melhor forma de destruir a economia.
Finalmente, um pouco por todo o lado (com excepção de Passos Coelho e seus apaniguados que ainda não conseguiram perceber) começa a falar-se na necessidade de atenuar estas medidas de austeridade e a reconhecer-se que ajustamentos assim, abruptos, violentos, destroem a economia e impedem o ressurgimento do crescimento. Até a matrafona da Merkel já diz que não quer ser a talibã da austeridade (pudera… sem ter para onde escoar os seus excedentes, a Alemanha começa a sentir a ameaça do abrandamento económico).
Finalmente, ainda que de forma incipiente, começa a falar-se numa espécie de plano Marshall para relançar a economia. Haja Deus!
Poderá dizer-se que falta dinheiro para investir mas isso é uma falsa questão. Vejamos porquê.
De uma forma algo minimalista, o que é necessário fazer restringe-se a duas coisas muito simples.
Primeira – em vez de ter um pensamento assistencialista, atirando as pessoas para o desemprego e depois dando-lhes de comer através de subsídios de emprego ou de subsídios de integração, isenção de isto e mais daquilo, mudem-se as prioridades e empreguem-se essas verbas em actividades reprodutivas. Exemplifico: se se investir no arranjo e modernização das escolas degradadas ou se se construirem residências assistidas para idosos, centros de dias com fisioterapia, apoios médicos e de enfermagem, etc, para além da utilidade óbvia desses investimentos, estará a dar-se emprego a muita gente, desde os que trabalham em funções mais qualificadas (arquitectos, engenheiros, médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, etc, etc) como a menos qualificadas, como ainda desenvolver empresas de materiais de construção e de equipamentos de vária ordem, que por sua vez dão emprego a muito gente, etc, etc. Essas pessoas ao terem trabalho, consumirão, terão poupanças, etc, e a economia começa a rolar. Além disso contribuirão com os seus impostos. Em contrapartida, se estiverem desempregadas, é o Estado que lhes paga directamente através de subsídios e, ganhando muito pouco, não terão poupanças e terão consumos muito baixos.
Segunda que, em parte decorre da primeira: restaure-se a confiança. A economia é a magia de, com poucos recursos, parecer que se tem muitos. Se a pessoa A paga a B, a pessoa B, tendo recebido esse dinheiro, compra e paga a C, a qual, por sua vez, compra e paga a D, a qual por sua vez …. e assim sucessivamente. A verba que anda a girar nesta cadeia pode ser sempre a mesma mas, circulando, anima a actividade de muitos elos dessa cadeia. Em contrapartida, havendo medo, insegurança, ou escassez, haverá retracção e A deixa de pagar a B que já não pode comprar a C, que, portanto, não pode comprar a D e a economia começa a paralisar, o desemprego a aumentar.
Não acontecendo isto, deparar-nos-emos inapelavelmente com o que começa a estar à vista: o aumento do desemprego, a recessão, a continuada quebra de receitas fiscais (apesar da sobrecarga individual), a impossibilidade de amortizar dívida e, até, o seu aumento - ou seja, a temível espiral recessiva que atira com os países para a bancarrota, para a miséria, para a perda de direitos, para a revolta social (e, tantas vezes, para a guerra).
Volto a dizer: isto não é ficção, nem escrita apocalíptica, nem nenhum surto de ‘medinacarreirice’ (e isto sem sentido pejorativo): isto é aritmética simples.
Por isso, no Dia do Trabalhador o que eu quero desejar é que, em breve, se invertam as políticas estúpidas e malévolas que têm vindo a ser seguidas e que, em breve, voltemos a integrar um país viável, um país que acarinhe e retenha os jovens, que respeite os velhos, um país de progresso, um país governado por gente inteligente e competente que respeite os seus concidadãos, um país que perceba a dignidade maior que é devida a quem trabalha e a quem já trabalhou.
*
Gosto de acabar com pensamentos ou imagens positivas.
A palavra, portanto, a António Ramos Rosa
Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
*
E agora um bailado diferente, com uma bela música de guitarra antiga, com umas belas palavras, um bailado ao som de palavras, a poesia de Garcilaso de la Vega. Não deixem de ver, peço-vos, mas vejam-no com o coração aberto que é como se devem ver as coisas belas. A coreografia é de Nacho Duato para a Compañia Nacional de Danza e chama-se 'Por vos muero'.