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quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Quem sou eu?





Nas estatísticas deste blogue, na secção das palavras-chave que trazem as pessoas até aqui, ou seja, o que escrevem nos motores de busca e em que, a partir daí, são remetidas para algumas das minhas páginas, continua a ter lugar de destaque a dúvida que vem desde há anos: 'quem é a autora do blog um jeito manso?'. 

Já fiz vários posts tentando satisfazer essa curiosidade: já pedi ao meu marido e aos meus filhos que falassem de mim, já gravei o meu marido a fazer-me 'entrevistas', já publiquei fotografias minhas feitas por ele, inclusivamente nua, e já me descrevi de diversas maneiras. E, no entanto, pelo que continuo a ver, a curiosidade persiste. 

Dá-me alguma pena isto pois preferia que o blog valesse por si e que quem o escreve fosse assunto de somenos importância para quem o frequenta. Sendo um blog anónimo até poderia ser escrito a quatro mãos ou poderia ser obra de uma equipa que se fosse revezando. Ou poderia ser escrita por um homem a fazer-se passar por mulher ou por uma bibliotecária centenária a fazer-se passar por esta que aqui vos escreve. Mas, enfim, as coisas são o que são e, pelos vistos, a obra parece incompleta a quem a consulta sem que se conheça a autoria.

Portanto, uma vez mais, vou dar o meu melhor na tentativa de me dar a conhecer. E hoje a abordagem é outra, a ver se desta é que que fica claro.


Sendo que se diz que somos o que comemos, vou descrever as minhas refeições típicas durante a semana.

Pequeno almoço

Se tenho mais tempo:
  • Logo em jejum, um copo de água morna com sumo de um limão
Depois tomo banho e etc. Só a seguir tomo o pequeno-almoço propriamente dito:
  • Num prato junto uma mão cheia de salada (alface, canónigo, cenoura ralada, etc, o que houver), um ovo cozido às rodelas, uma beterraba pequena ou parte de uma maior, cozida, uma banana e uma laranja devidamente cortadas. Tempero com orégãos em folhinha seca, um pouco de mel e azeite. 
Se não tenho tempo:
  • De véspera, numa tacinha ponho água e um bocado de flocos de aveia. Levo ao micro-ondas durante dois minutos. Na manhã seguinte, junto uma banana cortada aos bocados, alguns cajus secos, uvas (o que houver à mão).
Depois, tenha ou não tempo, bebo um nespresso, longo e forte, sem açúcar.

Durante a manhã
  • Durante a manhã, habitualmente bebo uma um duas chávenas de infusão do que calhar (cidreira, lúcia-lima, etc.).

Almoço
  • Durante a semana, almoço sempre 'fora' e, obviamente, tento variar. Gosto de ir a restaurantes indianos e aí não dispenso uma chamuça de frango, um pão naan com queijo, depois pode ser borrego com especiarias ou com frutos secos ou com outra coisa qualquer e que pode acompanhar com basmati simples ou couscous. Mas também pode ser uma salada de quinoa com peixe cru, edamame, alface, rúcula e algas. Ou uma empada de salmão fresco acompanhada com puré de legumes e alcachofras. Ou coisas assim. Pode acontecer que também seja cozido à portuguesa. Por norma, não como sobremesa. E por norma acompanho com água das pedras fria, por vezes com gelo e limão.

Lanche
  • Se tenho fome, como alguns miolos de amêndoa. É o meu snack que me faz sentir gulosa, tanto que gosto.

Jantar
  • Sempre sopa. A que hoje comi -- e que é ainda a que fiz no domingo à noite -- levou cebola, cenoura, abóbora, nabo, courgette, chuchu e uma maçã (sem caroços mas com casca). No fim, juntei azeite, moí e juntei espinafres cozidos brevemente.
  • A seguir, qualquer coisa, carne ou peixe, acompanhada apenas por salada. 
  • Depois fruta. Agora tem sido meio dióspiro daqueles grandes (daqueles rijinhos mas maduros, dos que não deixam a boca áspera -- e nada de interpretações enviesados) que corto às rodelas. E aqui é que começa a minha perdição. Em cima de cada rodela ponho uma fatia fininha de queijo e polvilho com canela. Hoje abusei pois, em vez de emental ou flamengo, coloquei ricota. Fica delicioso: dióspiro, madurinho, docinho, e ricota com canela. Mnham-mnham. 
  • Por fim, estrago ainda mais a dieta: um ou dois quadrados de chocolate preto e, ao mesmo tempo, dois ou três cubos de gengibre cristalizado (compro no pingo-doce uns saquinhos com cubos bem definidos; os do auchan são uns cubinhos ínfimos que, ou meto uma mão cheia deles na boca ao mesmo tempo, ou a sensação fica muito aquém).
Durante a semana, habitualmente não bebo chá (melhor: uma infusão) à noite, enquanto aqui estou. 


Agora alguém que tire a bissectriz a isto e descubra a matéria de que sou feita. E, escuso de dizer, a minha doçura tem a explicação simples que se viu. E a barriguinha à Rubens que me enfeita também.

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E se daqui se tira a matéria, há depois o alimento que mantém o espírito e aí o que tenho a dizer é que, nesta vertente, também não há grandes novidades: durante o dia, quando não estou a trabalhar, há música variada, há espreitadelas ao Guardian, há espreitadelas a outros blogues, há espreitadelas a livrarias, há espreitadelas a perfumarias, há condução pela cidade, há momentos de pensamentos à solta, à espreitadelas pela janela. E há olhar o rio quando me levanto e olhar as árvores sempre que posso e olhar as pessoas.

E pensar nas coisas. E nas pessoas. E nos caminhos que tento adivinhar.

E há os mistérios das coisas. E das pessoas. E de tudo. Dos acasos, do devir. Dos deuses que adivinho disfarçados de tempo, de ar, de mar, de árvore. De presenças imateriais e longínquas. Mistérios que me esforço por não desvendar.

E há a poesia que leio e ouço sempre que posso e na qual penso e que me norteia e conduz. E que tento não compreender para não me perder da melodia silenciosa das suas palavras.


E há, aqui à noite, o desdobramento de mim. E o alimento, neste caso, é o perfumado pot pourri composto pelo que calha mas que tem que ser sempre de paz (espreitar um ou outro livro, ver fotografias, ver vídeos, ler com mais calma alguns blogues, voltar a espreitar as notícias, olhar de soslaio a televisão, ler os mails ou os comentários do blog, escrever estas coisas que se alimentam não sei de quê e que servem também não sei para quê mas que, estranhamente, me alimentam a alma)

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E agora, uma vez mais, vou chamar por todos os anjos não apenas para me garantirem uma noite descansada como para vos protegerem

Santa Maria, Santa Teresa, Santa Anna, Santa Susannah
Santa Cecilia, Santa Copelia, Santa Domenica, Mary Angelica
Frater Achad, Frater Pietro, Julianus, Petronilla
Santa, Santos, Miroslaw, Vladimir and all the rest


As quatro primeiras fotografias que usei são de Nick Knight e as duas são de Uldus Bakhtiozin. Aos muito distraídos, informo que nenhuma das retratadas sou eu. A primeira é Sky Ferreira, que não sei quem é, e a segunda desconheço. A música escolhida faz parte da banda sonora de Until the end of the world. 


Flores para todos como agradecimento pela vossa presença aí desse lado.

E um dia feliz.

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Nas esquinas do vislumbre. Na imensidão do deslumbre





No domingo, fizeram directos para mostrar um avião num aeroporto em Marselha. Depois fizeram directos para mostrar o avião a aterrar em Lisboa. Se isto tem interesse para alguém eu não sei. A mim só me faz pensar que está tudo maluco. Mesmo que o avião estivesse cheio de macacos aos saltos ou de freiras a espirrarem e a assoarem-se às saias umas das outras não era caso que justificasse filmar um avião num aeroporto antes de levantar voo ou a aterrar. Nem mesmo se as freiras saíssem do avião todas nuas e às cavalitas dos macacos era caso para fazer directos do Figo-Maduro ou do Ameixa-Amarela. Não há pachorra.

À hora de almoço, depois de longas conversas sobre os pobres portugueses que vieram da China e que, apesar de estarem sãos como pêros e os exames negativos, estão no isolamento, ouço um senhor com voz de chinês e que, afinal de contas, era mesmo chinês, a dizer que entre eles, comerciantes chineses, se tinham organizado e havia casas para quem viesse da China constipado. E eu, que volta e meia, me sinto não apenas beige como completamente burra, pensei cá para mim: mas espera lá, então andam a filmar aviões que trazem vinte portugueses saudáveis mais o corpo diplomático em peso e mais uma brigada de médicos e enfermeiros e caguam para os chineses que chegam da China? (E não, não disse cagam, disse caguam que, como é bom de ver, não é a mesma coisa). E, quem diz chineses, diz todo o resto da malta que chega, directa ou indirectamente, vinda da China? Para esses não há corpo diplomático ou isolamento? Pelos vistos, não. E a jornalista, que têm orgasmos sucessivos com o frisson das notícias sobre os não-infectados, não estabelece a liaison entre os cuidados intensivos com uns e os descuidados desintensivos com outros? Não, não estabelece. 

E eu, face a isto e face à histeria desta gente que me parece mentecapta, desligo-me das notícias e sigo para a música. Abençoada música. Abençoada, abençoada.

De tarde, vinda do trabalho, no carro, ponho na TSF a ver que guerra é que se desencadeou enquanto eu estava a ter uma tarde agradável rodeada de juventude, ouço um comandante a explicar como é que um avião haveria de se portar para não se despenhar. Pensei: caraças, anda para aí um avião prestes a abrir um buraco no chão. Afinal não. A coisa já se tinha dado e nada tinha acontecido de mal. Mas isso não demoveu a TSF: não aconteceu mas podia ter acontecido. Caraças para este jornalismo que adora cadáveres, cheiro a decomposição, anúncios de tragédias. Nem imagino o festim que terá sido nas televisões. 

Não suporto. Caraças, não suporto mesmo. Não há notícias boas? Nada acontece de bom neste mundo? 

Agora chego aqui e vejo que morreu Steiner. E fico sem reacção. Pena em primeiro lugar. Mas, logo a seguir, intimamente penso que as pessoas que vivem das palavras, de escrever, de ler, de opinar, devem chegar a um ponto em que só lhes apetece o silêncio, a ausência de palavras. Como a Agustina. Se eu fosse como eles, haveria de chegar a um ponto em que haveria de me apetecer não me pronunciar ou ler ou escrever palavra que fosse. Só música, música com muitos silêncios dentro que é como deve ser a boa música, de preferência a dos pássaros quando estão lá muito em cima, distraídos da vida, e degustar chá quentinho, e olhar, e semicerrar os olhos devagar, e sentir o perfume das flores, e passar a mão pela macieza de uma capa de veludo, e sentar-me em frente a um muro branco e ver as sombras e a cor da luz a mudar ao longo do dia, de todos os dias do ano. Steiner devia ter, imagino eu, vontade de descansar a cabeça, dar-lhe tréguas da luta com as palavras. E, de resto, pode alguém ficar cá eternamente? Para quê prolongar a existência quando a qualidade de vida já é apenas uma triste sombra do que foi? Portanto, Steiner morreu, viva Steiner. A sua obra fica, independente dele.

E siga o andor.

E, tirando isso, o que posso dizer é que vinha no carro e vinha também a pensar que tempos houve em que a esta hora, aqui sossegada na sala, estava a bordar grandes carpetes de arraiolos, com desenhos que me punham a cabeça em água, desenhos miudinhos, réplicas de grandes tapetes do século dezasseis e dezassete que estão em museus. Gostava tanto. Os desenhos iam nascendo. Depois os desenhos iam aparecendo cheios de cor. Bordava horas a fio, a juta enchendo-se de lã colorida sobre as minhas pernas. Outras vezes estava a pintar, pintava até de madrugada, incapaz de parar, um frémito de emoção e liberdade a percorrer-me o corpo. Ou a ler, a ler pela noite adentro. Porque me dá agora para aqui estar em vez de estar a fazer qualquer dessas coisas? Não sei. Tenho vontade de pintar. Tenho a tela ali atrás, tenho ideia das cores que quero usar, tenho uma vaga ideia das formas. Recuso-me a pensar para não aprofundar a ideia pois gosto é de me deixar surpreender pelo que nasce na tela, independente da minha vontade. E tenho também ali atrás uma carpete incompleta e a vontade que, por vezes, tenho de me voltar pôr a bordar não sei explicar. As saudades, as saudades que tenho.

Saudades de não estar aqui a escrever. 

E, no entanto, quando vinha a pensar nisto, ocorreu-me começar a escrever uma história e, logo ali, começou a forjar-se o que ela seria mas, quando me meto nisso, é tão absorvente, deixa-me tão pouco espaço para o resto, parece que a gente que ali nasce ganha vida própria e eu mal posso esperar todos os dias para aqui chegar e deixar que vivam como gente de verdade. Por isso, evito. Mas faço bem evitar? Ou é irrelevante? Acho que sim, acho que é irrelevante, na verdade o mundo está cheio de ruído e lixo e mais vale é que estejamos sossegados, que eu esteja sossegada: zero waste.

E agora vou mesmo sossegar. Hoje estou em dia de silêncio.
Tremem-me as mãos para ir fazer aquele tom de azul que não me sai da cabeça, um azul a meio tom, meio violeta, meio secreto, meio indefinido e, depois, matizá-lo com fios dourados. Tremem-me as mãos para deixar a mão voar na tela sem que eu saiba o que ela vai fazer. Depois, quando a mão tiver praticado a liberdade, deixá-la escrever sobre mistérios, enigmas, longos espaços abstractos e silenciosos, deixar que seres sem nome e sem rosto habitem esses perigosos lugares sem geografia. Mas não vou fazer nada disso.
Vou simplesmente suspender as palavras. Vou descansar. Vou deixar que o silêncio percorra o seu caminho dentro de mim.

Vou deixar que, na escuridão da noite, novos mundos me visitem na imensidão do deslumbre.


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As fotografias são da autoria de Uldus Bakhtiozin

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A todos desejo um dia bom