Já falei muitas vezes que, na minha adolescência, uma das minhas pimeiras escolhas como vocação profissional seria psiquiatria ou, retirando-me daí com receio de enfrentar cadáveres nas aulas de Anatomia em Medicina, psicologia. Desviei-me e tudo bem, realizei-me profissionalmente num mundo completamente diferente. Mas o bichinho ficou.
Contudo, permanece em mim a dúvida sobre a qualidade da terapia quando do outro lado está um psiquiatra ou um psicólogo também com problemas ou limitações.
Também já o contei: uma amiga nossa, psiquiatra e, pelos vistos, tão competente que chegou a directora de serviço num dos principais hospitais do país, era completamente doida. Mas doida varrida. Deixámos de nos dar pois divorciou-se e ficámos amigos do marido. Não apenas o divórcio foi traumatizante para eles, como, face a tudo o que se passou, sentimo-nos mais solidários em relação a ele. E, de resto, mesmo quando tudo estava bem (se é que alguma vez esteve tudo bem, tão doisa ela era), o meu marido não conseguia suportá-la, raspava-se de perto dela sempre que podia. E sempre nos interrogámos: como é que uma maluca assim podia tratar pessoas com doenças do foro mental? Provavelmente, ao trabalhar, transformava-se. Também já o contei: uma vez, um amigo, por razões que não eram de saúde e que agora não vêm aqui ao caso, precisava de consultar uma psiquiatra. Falei-lhe nesta mas avisei-o: não é boa da cabeça, não ponho as mãos no fogo por ela, é maluca mesmo. Pois não é que veio de lá encantado...? Achou-a o máximo, giríssima (e era), com uma voz super sensual, interessantíssima, inteligente, super profissionalona. Nem percebeu a razão dos meus alertas. Fiquei sem saber o que dizer.
Conheço uma outra, não psiquiatra mas psicóloga, psicanalista, conceituada terapeuta. Pois... Nada a ver com a maluqueira da primeira mas diria que também com uma certa pancada. Ainda no outro dia, umas duas outras que também a conhecem bem, se riam com as coisas dela, as desculpas esfarrapadas que arranja, os recuos de última hora que ninguém percebe. Tem coisas que me deixam um bocado de boca aberta, a pensar que, se calhar, algum acompanhamento psicológico não lhe fazia mal nenhum.
E eu penso: se eu precisasse, recorreria a alguma delas...? E não tenho dúvidas: nem pensar. Acho que viria de lá pior do que para lá tinha entrado. No entanto, pode acontecer -- e certamente acontece -- há um qualquer fenómeno que faz com que, quando estão a trabalhar, dispam todas as suas doideiras pessoais e, no acto de terem de cuidar de outras pessoas, se portem de forma sensata e útil.
Lembrei-me destes aspectos ao ver o vídeo abaixo. Imagine-se a responsabilidade: um jovem meio perdido, desinteressado, desligado da vida concreta do dia a dia, com os riscos que isso comporta, riscos até existenciais... e imagine-se se dá com um psicólogo que não bate bem ou que não consegue agarrar os problemas do paciente de forma a restituir-lhe o entusiasmo e a motivação que tão imprescindíveis são a uma vida digna de ser vivida... Há um certo risco nisto, não há?
Contudo, neste caso, parece que o jovem paciente encontrou o terapeuta certo.
O caso do jovem que não sabia como estar no mundo | Do Outro Lado
O psicólogo Pedro Aires Fernandes acompanhou um paciente de 23 anos muito desligado e desinteressado da vida. O caso inquietou-o e levou-o a interrogar-se como terapeuta, como homem e como pai.
Há sempre aquilo, o lugar comum dos dois gumes. Está bem que não estava bem da cabeça quando cometeu o crime... mas o pobre coitado que foi assassinado...? E não pode haver um terceiro gume: o da possibilidade de voltar a acontecer?
Estes domínios, que me atraem -- e, não por acaso, a primeira hipótese de opção profissional quando tive que escolher um curso era a psiquiatria, depois não por causa dos mortos nas aulas de anatomia, depois psicologia, mas, afinal, não porque não sabia se era reconhecido como curso superior --. têm sobre mim o fascínio de tudo se passar dentro da cabeça, de não serem visíveis a olho nu e de ainda estarmos longe de perceber o funcionamento do nosso cérebro.
Já contei que, quando ia para as minhas reuniões a norte (porque, a sul, ia eu a conduzir), tentava ir de boleia e, muitas vezes com um colega e amigo com quem tinha muita confiança. Uma das coisas que eu gostava era de ouvi-lo a falar da prima que era doida-varrida. E, por umas três ou quatro vezes, apanhei, ao vivo, aquelas delirantes conversas. Ele levava o telemóvel em alta voz e não tinha segredos em relação a mim. Cheguei também a apanhar dessas conversas no gabinete dele. Acabava por sair porque eram intermináveis, ele pura e simplesmente não conseguia pôr um fim naquilo. Tudo começava com: 'Ligaste-me?', e dizia o nome dele. Ele dizia que não. Ela insistia: 'Apareceu-me aqui o teu número. Ligaste...'. Ele voltava ao mesmo: 'Não, não te liguei.'. Por fim, pedia-lhe ele: 'Mas, vá, diz lá o que queres.'. E aí a coisa começava a ganhar graça. Lembro-me de uma vez em que ela queria que ele assinasse um documento. Ele perguntava: 'Ah, sim? Mas que documento?'. E ela dizia que o banco dizia que ele tinha que assinar um documento a dar-lhe, a ela, autorização para movimentar a conta. Ele, já não estranhando nada daquilo: 'Eu? Mas a que propósito? A conta é tua. Eu não tenho nada a ver com a tua conta.'. E ela muito admirada: 'Ah não? Julgava que já te tinhas feito titular da minha conta...'. Ele piscava-me o olho e continuava a conversa: 'Eu? Mas então uma pessoa pode fazer-se titular da conta de outra pessoa...?'. Ela ficava em silêncio. Depois dizia: 'Mas tu e a Elita não combinaram fazer-se titulares da minha conta? Ela disse-me que sim.'. Ele fazia-me sinal de que a paranoia dela começava a manifestar-se e retorquia: 'Ah foi? Ela disse-te isso? Mas como é que fazíamos isso sem a tua permissão?'. Silêncio. Ele contra-atacava: 'Mas não foi o Banco que te pediu uma assinatura minha para eu te autorizar a ti a movimentares a tua conta?'. Silêncio dela. Depois, como se já estivesse cansada: 'Eu não estou é a perceber já nada desta conversa...'. Ele concordava: 'Pois, também me parece que essa conversa não tem grande sentido, não.'. Ela ficava em silêncio, ouvia-se a respiração. Depois voltava: 'Mas então tu e a Elita não se fizeram titulares da minha conta?'. Ele começava a agastar-se: 'Olha, não vais volta ao mesmo, pois não? E era só isso? Como pelos vistos estás a fazer confusão, vai lá esclarecer melhor. Eu agora não me dá jeito, estou no carro.'. Silêncio. Depois: 'Ah, estás a conduzir... Então vê lá... Tem cuidado. Mas olha, quando chegares, depois liga-me que é para combinarmos.'. E ele já farto: 'Mas combinarmos o quê?'. E ela: 'Então, vires assinar o documento que o banco pediu.'. Ele: 'Mau... Outra vez...?'. E ela, a suspirar: 'Já estás outra vez impaciente, não se pode falar contigo. Não vês que tenho que esclarecer isto? Julgas que não percebo que já estás a despachar-me?'............
E isto poderia durar quase a viagem inteira, ele a querer desligar e ela a prendê-lo, em loop.
Solteira, sem irmãos, sem pais, apenas com dois primos. Professora do ensino secundário, a maior parte do tempo de baixa, com vários surtos psicóticos, os vizinhos a chamarem a polícia com o barulho que ela fazia supostamente a matar bichos que a queriam atacar. Com duas casas muito bem situadas, requintadamente mobiladas, com obras de arte valiosas, tudo herança dos pais, supostamente com uma conta bancária recheada. Segundo o meu amigo, para entrar em casa dela só de luvas e máscaras. Não limpava as casas nem queria lá ninguém, sempre a achar que todos a queriam roubar. De facto, ele e a prima Elita já tinham falado com ela algumas vezes que era melhor ela ter acompanhamento médico, ter alguém em casa a ajudá-la, que seria mais seguro que alguém mais pudesse também ter acesso à conta, talvez um advogado para ela não desconfiar que eles, os primos, queriam roubá-la. Nunca quis nada. Por duas ou três vezes a polícia levou-a para o hospital e ela deu o contacto dos primos. Lá chegados, encontraram-na a simular uma lucidez que não lhe conheciam. Dizia-me ele: 'Os malucos parecíamos nós, eu e a minha prima Elita'. Dizia também que dela queriam era distância pois estava sempre a insinuar que eles a queriam roubar, tinha chegado a dizer que já tinha apresentado queixa deles.
Mas, dizia-me ele: 'Se a vir, não diz. Vê-se que não anda muito bem arranjada, mas parece assim uma senhora fina, uma aristocrata um pouco alternativa, e consegue manter uma conversa completamente normal, disfarça completamente'.
E tive uma que trabalhava numa das minhas equipas, e cheguei a falar aqui dela, que nunca foi boa da cabeça, mas que chegou a um ponto que começou a ser ameaçadora, os meus colegas já temiam pela minha segurança, já me diziam para eu ter cuidado com ela. Sempre que podia, punha-se virada para mim, a olhar-me fixamente, com ar ameaçador. Chegou a entrar-me no gabinete uma vez que fiquei sozinha naquele piso, a trabalhar até tarde. Quando lhe perguntei o que estava ali a fazer, fez um sorrisinho maligno: 'Não tenha medo, não vou fazer-lhe mal.' E ficou ali a olhar para mim. Mas, ao mesmo tempo, com as pessoas com quem não tinha interacção directa, fazia-se de muito querida, fazia bolos e bolachinhas para oferecer aos colegas, desfazia-se em mesuras com toda a gente. E, no entanto, a nível pessoal a sua vida era uma complicação. Por exemplo, empreendeu que o irmão queria roubar os pais, empreendeu que o irmão tinha feito com que os pais a prejudicassem a ela, apresentou queixa na esquadra contra o irmão, o que levou o pai a cortar relações com ela, engendrava coisas surreais para virar a mãe, já meio demente, contra o irmão. E, a nível profissional, cometeu erros gravíssimos pelos quais responsabilizou outras pessoas, promoveu campanhas de vitimização e, ao mesmo tempo, de culpabilização dos colegas. Nem sei. Conseguiu que todos os colegas directos se incompatibilizassem com ela e que em alguns locais proibissem a sua entrada. Para eu me ver livre dela foi o cabo dos trabalhos. Finalmente, por acharmos que era um caso social, conseguimos mantê-la mas em funções inócuas, em que, na prática, não tinha que interagir com ninguém (pois já toda a gente queria distância e alguns já tinham medo dela), nem havia risco de causar danos com os seus erros. Já eu não estava lá quando soube que a mãe tinha morrido e que, no dia seguinte, apareceu lá, cabelo pintado de uma cor arrojada, vestida de um colorido exuberante e que ria e contava piadas por todo o lado, sem ninguém saber como reagir perante tão insólita reacção.
Isto para dizer que muitas vezes se subestima o risco que pessoas assim podem representar para os outros. Num momento de paranoia, num surto psicótico, podem atacar alguém. Muitos dos que acabam a cometer crimes já antes tinham dado sinal de que a sua estabilidade mental e emocional não existia.
O episódio que aqui partilho é disso exemplo.
O homem que perdeu a liberdade antes de ir para prisão | Do Outro Lado
O psiquiatra Sérgio Saraiva lembra o momento em que um doente percebeu que tinha cometido um crime violento. O caso mostrou-lhe, na prática, como a doença mental grave pode anular a vontade própria.
Nos dias que atravesso a relação entre saúde física e saúde mental é recorrente. Dito desta maneira, se calhar fica a ideia, errada, de que a saúde mental não é física. Creio que é embora nem sempre rastreável através de exames médicos. Ou seja, não há controlo analítico ou RX ou ecografias para se perceber se uma pessoa está com uma depressão, sofre do Síndrome de Munchaüsen ou se, simplesmente, está a atravessa um período conturbado. E se nos é relativamente fácil saber que, se estamos com uma patologia evidente, por exemplo, se fracturamos um osso, devemos procurar ajuda médica, já para as questões mentais pode não ser óbvio. Ou porque achamos que faz parte da nossa maneira de ser, ou seja, não é coisa que deva ser tratada, ou é coisa passageira que saberemos ultrapassar, creio que não é às primeiras que as pessoas, em geral, percebem que devem procurar ajuda.
Ao longo da minha vida tenho-me cruzado com pessoas que, creio, teriam ganho em ter tido acompanhamento psicológico. Uma amiga, por exemplo, saiu directamente de um comportamento tímido e reservado para um totalmente desbragado, sem prestar atenção a nada do que lhe dissessem, entregando-se, sem defesas, a toda a espécie de situações que eram, à vista de todos, situações inviáveis, perigosas, ratoeiras nas quais se ia perder. E, no entanto, atirava-se de cabeça. E saiu de umas para outras, num percurso errático que lhe deixou marcas. Penso que ainda hoje continua a ser como era quando entrou neste registo: atirando-se de cabeça, adolescente até à medula, sem conseguir dosear as emoções, mostrando de forma inocente as suas perplexidades e frustrações. Não sei como é que um psicólogo poderia ter ajudado mas acredito que sim.
E tive um colaborador que era calado, calado, calado. Nunca se percebia o que lhe ia na cabeça, nunca dava opinião, nunca era capaz de fazer um ponto de situação razoável pois, temendo as dificuldades que sentiria até o trabalho estar concluído, dizia sempre que não sabia quando o acabaria. Tive vários problemas por causa dele. Ninguém conseguia relacionar-se de forma saudável com ele. Parecia ter sempre capital de queixa, notoriamente sentia-se injustiçado, mas nada fazia para contrariar essa situação. Por exemplo, numa reunião, pedia sugestões sobre um tema. As pessoas falavam, opinavam, sugeriam. Ele nada. Quando eu lhe perguntava qual a opinião, fazia um esgar de contrariedade, quase sarcástico, dizia que não queria dizer nada porque os outros antes já tinham dito tudo. Uma vez, sem ninguém perceber porquê, do nada, deu-lhe um ataque de fúria, levantou-se, pegou na cadeira em peso e bateu com ela no chão até a despedaçar. Depois virou costas e foi-se embora. À sua volta, estavam todos estarrecidos. Não vi. Contaram-me. Na verdade, acho que ficaram em pânico pois ele passou do habitual estado de quase zombie a monstro desaustinado. No dia seguinte, chamei-o e perguntei-lhe o que tinha sucedido. Com ar espantado, certamente fingidamente espantado, disse-me que se tinha passado porque a cadeira não prestava, que estava sempre a desencaixar-se mas que tinha vindo mais cedo e a tinha montado, que já estava boa. Penso que era um caso em que teria beneficiado de acompanhamento pois alguma coisa naquela cabeça não estava bem encaixada.
E já nem falo numa outra que, sob a capa da santinha, da boazinha que levava bolinhos feitos por ela para distribuir pelos colegas, que trabalhava horas a fio, até de madrugada e que surpreendia todos pois quando os mais madrugadores chegavam já lá a encontravam, frequentemente fazendo trabalho que nem lhe competia, numa de ser amiga dos que precisavam de ajuda, e que veio a revelar ser dona de uma mente perversa, causando sérias perturbações familiares, sérios danos profissionais, chegando até a causar medo a quem com ela lidava mais de perto. Face à gravidade dos casos em que a soube envolvida, mais diria que seria caso até de internamento.
E, do que tenho visto e sabido, não apenas beneficiam de acompanhamento as pessoas que padecem de algum problema, como os acima referidos, como aqueles que, tendo que lidar com essas pessoas, chegam a um ponto de exaustão ou infelicidade ou permanente dúvida sobre como lidar com a situação que, precisam mesmo de alguém sabedor que, de fora, ajude a encaixar as peças soltas do puzzle e forneça pistas sobre como melhor levar a vida adiante.
O Observador, que não tenho por hábito acompanhar enquanto jornal, tem esta louvável iniciativa de ter um 'canal' em que se debruça sobre os labirintos da mente, quer convidando pessoas a falar sobre os seus problemas e sobre como conseguiram procurar alívio com acompanhamento profissional quer convidando justamente diversos profissionais da área da saúde mental que aqui falam sobre casos concretos. "Do Outro Lado" é a nova rubrica do projeto Mental, do Observador.
Escolho, para já, apenas dois dos vídeos, o primeiro porque me impressionou bastante, até porque desconhecia que havia um síndrome identificado para este tipo de patologia, e o segundo porque me fez lembrar o caso de um colega dos meus filhos que me preocupou bastante na altura e o do filho de um colega meu, um rapaz que, de tão viciado, não apenas deixou de estudar como quase deixou de viver, tornando-se até agressivo para os pais.
“Do Outro Lado”. A doente borderline que inventava sintomas para ser cuidada pelos médicos
A vontade de ajudar a primeira ("e última") paciente com síndrome de Münchhausen levou o psiquiatra João Carlos Melo a uma dedicação que desafia os limites habituais da relação terapêutica.
"Do Outro Lado". O caso do rapaz que jogava online 22 horas por dia
Um paciente dependente de videojogos que não falava nas primeiras consultas. Uma psicóloga grávida pela primeira vez. O caso ajudou Rosário Carmona e Costa a tornar-se a psicoterapeuta que é hoje.