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quarta-feira, novembro 29, 2017

Da prostituição





Por mais do que uma vez disse que, se tivesse que tomar partido entre as Mães de Bragança e as prostitutas brasileiras, provavelmente me colocaria do lado das prostitutas. A forma como aquelas 'mães' falavam incomodava-me profundamente. Lembro-me de as ver, inflamadas, feitas vítimas, clamando vingança. Parecia que se achavam donas dos maridos e falavam como se eles fossem uns atrasados mentais à mercê de umas perdidas. Pelo contrário, as brasileiras pareciam-me inteligentes e dignas. 


Nunca consegui sentir repulsa pelas prostitutas ou, sequer, pela sua profissão. Ao invés, o que lamento é não ter oportunidade de conversar com mulheres que exerçam a prostituição. Quando passo nalguma rua de alguma cidade em que haja mulheres à porta a oferecer os seus serviços (estou a lembrar-me de algumas zonas de Paris ou mesmo duma certa rua do Porto) tenho que controlar a minha curiosidade pois gostava de poder aproximar-me, conhecer a sua história de vida. Deve ser um prazer ouvi-las, devem ter uma experiência de vida riquíssima.


Claro que há muita miséria e, por vezes, muita decadência sobre aqueles corpos e imagino as humilhações que, tantas vezes, devem sofrer. 

Se passo numa estrada nacional, e ainda no outro dia passei, ou em Monsanto, em que há mulheres na berma e camionistas por perto, o que penso é nos riscos que elas correm, no desconforto, nas situações difíceis pelas quais, certamente, passam. Impressiona-me, acima de tudo, a sua coragem.


E, quando penso nas dificuldades terríveis de tão controversa profissão, e pondo agora de lado as humilhações ou os riscos que acima referi, mais do que no comércio do sexo o que a mim me gera uma impressão profunda é a proximidade física que têm que suportar em relação a alguém que, por algum motivo, possa causar-lhes asco ou medo.
Muitas vezes, quando aqui escrevo e mostro que não sinto reservas morais em relação a algum tema, recebo depois críticas por ter sido interpretada como defensora da causa. Por isso, permitam que esclareça o que a mim me parece óbvio mas que pode não o ser para quem me lê: não advogo como recomendável o exercício da prostituição. Mas o facto de não aplaudir ou não incentivar não é sinónimo de me achar moralmente superior a quem o exerça. 

Cada um sabe de si, cada um tem as suas motivações ou necessidades, cada um sabe das suas circunstâncias, cada um lida melhor ou pior com o que tem que fazer para ganhar a vida. As vezes em que eu aturo o que abomino ou me forço a suportar até à náusea situações que afrontam as minhas convicções não têm conta. Penso, nessas alturas, que o que me apeteceria fazer seria virar a mesa, bater com a porta, mandar essa gente dar uma grande curva e, no acto, demitir-me. Mas depois penso que consigo aguentar mais um pouco e que é a minha profissão. Desempregar-me não me parece melhor opção. É aquilo pelo que passo, nessas alturas, mais agradável do que abrir as pernas a um estranho...? Não sei. Nunca experimentei esta opção. Mas de uma coisa estou certa: piores afrontas e mais duras violentações de consciência passam outras pessoas. Entre o asco sentido por uma advogada ao defender um corrupto em tribunal ou o asco sentido por uma mulher que, igualmente por dinheiro, receba um estranho num quarto de pensão, qual é o socialmente mais defensável? Não sei. 

Mais: admito até como provável que algumas mulheres por vontade de aventura, por desfastio ou por qualquer outro motivo que não o económico, resolvam exercer a prostituição, talvez uma prostituição selectiva e que não lhes custe nada. E, também nesses casos, não me sinto tentada a exprimir condenação moral. 


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Tenho andado para escrever isto desde que li um texto magnífico. Foi a Ana que o escreveu e foi das coisas mais verdadeiras e inteligentes que, nos últimos tempos, li na blogosfera. Chama-se Vender sexo e para ele peço a vossa atenção:

nunca considerei que fosse mais grave vender sexo do que vender ideias, do que abrir mão daquilo que se acredita ser certo, por dinheiro, por segurança. nunca considerei a prostituição uma profissão inferior a outra qualquer. qual professor que se sujeita a tutelas das quais discorda, CEOs que negligenciam os valores que apregoam no seio da família, padres que pregam o que não cumprem, médicos que não defendem, com unhas e dentes a vida. vender sexo parece-me muito menos indigno do que qualquer outro contrato que nos faça abrir mão daquilo que somos, daquilo que acreditamos, da nossa verdade.nunca considerei que pudesse interessar a alguém o que considero, mas sabe-me bem escrever isto, porque o penso, e porque faz-me lembrar daquela prostituta que vendia sexo na avenida da boavista para pagar os estudos dos filhos, e também me faz lembrar da colega de trabalho dela, que ajudava os idosos que moravam na rua onde ela alugava o sexo. também me faz lembrar do advogado que forjava provas para vencer os processos, e do homem que caluniava a mulher para que os filhos desrespeitassem a mãe, e do cirurgião que assustava os doentes para vender cirurgias.
e esta manhã, ao acordar, depois de ter escrito isso aí acima antes de me deitar, lembrei-me que também eu troquei sexo para evitar dias de mau humor do homem com quem estava casada, durante anos, por um humor que nunca entendi, que desprezava. nem dinheiro recebi por isso. se tivesse recebido, certamente hoje teria uma vida muito menos trabalhosa, feitas bem as contas até podia estar rica
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E, já agora, que entre e nos faça companhia Séverine, a Belle de Jour


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As fotografias são da autoria de Ellen von Unwerth e, digo eu, nada têm a ver com o tema aqui abordado

Lá em cima Khatia Buniatishvili interpreta Handel

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terça-feira, julho 11, 2017

Todas as memórias são memórias de outros





Neste domingo estive a ler os ensaios e crónicas de Marcello Duarte Mathias. Diz ele, citando outrem, que todas as memórias são memórias de outros. Concordo. Diria eu: que envolvem outros. 

Penso que é bem verdade, isso: se tentar lembrar-me de momentos meus do passado, eles chegam-me sempre com outras pessoas lá dentro. Não tenho grande ideia de mim sozinha. Sempre fui muito gregária. Se estava sozinha, estava a ler e isso não é estar sozinha. Ou estava a escrever cartas e isso muito menos. De resto, em miúda, estava com uma das minhas primas, a que vivia perto de mim, ou com as meninas da rua. Meninas e meninos. Um dos meninos, ilustre deputado e várias vezes ministro e detentor de outros cargos públicos, era um deles. Sempre muito apertadinho. Gostava dele mas não era o meu preferido. Geralmente era ele que ficava a tomar conta a ver se não aparecia ninguém enquanto andávamos por onde não devíamos.

Depois, mal adolescia, já namorava. E mantinha uma rede de amigos e amigas e organizávamos bailes, convívios, festas de anos, idas ao cinema, passeios à beira-mar ou à praia. 

A minha mãe passava-se e tentava que parte disso fosse desconhecido pelo meu pai. Se eu não conseguia parar em casa, exigia que eu, ao menos, estivesse em casa quando eles, à tarde, chegassem a casa. Claro que aí obedecia. 

Mas lembro-me de episódios isolados, irrelevantes, de forma muito vívida. Por exemplo, quando andava no último do secundário, os meus pais inquietavam-se com a minha vida atribulada, em processo de rompimento com um namorado que amava de paixão, a namorar um outro que me amava de paixão, sempre em actividades sociais de toda a espécie e feitio, a participar num concurso na televisão, a escolher e provar o vestido comprido e a ensaiar a entrada e a valsa para o baile de finalistas, a corresponder-me com uns quantos admiradores de outros liceus que tinha conhecido nesse concurso... e eles não me viam a estudar e temiam que algo corresse mal e que eu não entrasse para a faculdade. Depois, todos os meus colegas andavam na explicação e a minha mãe achava que eu também devia andar. Lá se informou com as colegas e apareceu-me a dizer que havia um professor fantástico, já com alguma idade, professor reformado, que dava expicações, que era melhor eu ir, sempre manteria a disciplina de estudar. Nessas coisas eu ia ver, tinha até alguma curiosidade. Uma casa na baixa, uma daquelas belas casas pombalinas (digo que é pombalina a partir da memória que guardo mas, na verdade, sei lá). Azulejos por fora, varandins. Tocámos à campainha e, quando a porta se abriu, ouvimos lá de cima: 'Pode subir'. Uma escadaria larga em madeira com um bonito corrimão. O senhor esperava-nos. Era pequenino, pullover coçado, lã deslassada, cabelo grisalho, ar um pouco especial. Entrámos numa divisão cujas paredes estavam cobertas por estantes com livros. Daquelas casas com alto pé direito, janelas até ao chão, uma mesa antiga num recanto. Qualquer coisa ali me intimidou. Acho que nem abri a boca. A minha mãe deve ter percebido que eu não estava a aderir. Lembro-me que ela perguntou o preço e que eu achei um exagero. Ele disse que eram lições individuais. Mal comecei a descer as escadas já ia a dizer que nem pensar. A minha mãe admirada: 'mas porquê?'' Lembro-me que disse que era um disparate de caro. A minha mãe disse que o preço não era problema meu. Mas fui categórica. Nem sabia dizer porquê. Aversão instantânea. Hoje sei bem porquê. A questão é que percebi que aquilo era a sério. Seria eu e o velho mestre, sem escapatória. Ora era o que me faltava era perder uma hora das minhas santas tardes a ter que prestar atenção a um professor que notoriamente não me deixaria pôr o pé em ramo verde. Mas hoje penso que o senhor deve ter percebido o meu total desinteresse pelo que ele dizia. E lembro-me daquela casa, tão incrivelmente bonita. 


Acabei por ir parar a um casal, pouco mais velhos que eu mas já com um bebé. Eram estudantes no Técnico, davam explicações para ganhar uns trocos, malta de esquerda, numa casa frequentada por tudo o que era reviralho, incluindo o José Afonso. O meu namorado da altura, que era de outra área, nada de matemáticas ou físicas, aparecia também por lá com a sua guitarra e dava belos concertos, o pessoal todo espalhado pelos sofás ou em almofadas no chão. Quando eles, esse tal casal, souberam que eu ia para lá ficaram preocupados: o que é que uma aluna de 18, 19 ou 20 ia para lá fazer? Na volta sabia mais que eles. Mas nunca houve problema porque, na verdade, eu andava lá porque o meu ex-namorado também andava e era uma maneira, que eu não assumia, para estar perto dele, e porque todos os meus amigos também por lá andavam e porque aquele ambiente era a minha praia. A minha mãe ia ouvindo falar daquele forrobodó e perguntava-me: 'Mas aprendes ou estudas alguma coisa?' e eu não a enganava mas dizia que era importante o convívio e que, parecendo que não, sempre íamos fazendo algumas coisas. Ela encolhia os ombros, sabia desde sempre que pouco havia a fazer. O meu marido diz-lhe: 'Não a educou', referindo-se a mim. A minha mãe ri e confessa: 'Não consegui. Sabe lá... Nunca foi de se deixar educar...' No entanto, ainda hoje tenta mas, claro, as esperanças em ser bem sucedida são cada vez mais diminutas.

Mas voltando ao tal casal de explicadores.

A casa deles era meio escura, parece que tinham aprendido a viver desconfiados. Mas, tirando isso, a informalidade reinava. Lembro-me de uma vez, todos em volta da mesa, o Bê, o explicador, à cabeceira e eu e a maltinha à volta. Como sempre, falava-se de mil coisas e, às tantas, o Jota, um dos meus grandes amigos, usou a palavra falo e detectei uns sorrisos e que, logo, o Bê quis mudar de conversa. E eu 'O que é o falo?' e ele a desconversar e o maluco do Jota e dos outros a cochicharem, a rirem, a quererem metaforizar e o Bê a mandá-los estarem calados e a querer voltar à matéria escolar. Mas eu percebi logo que tinha caroço naquele angu. Não desisti: 'Não vou parar enquanto não me disserem'. O Jota preparava-se para uma alarvidade mas foi logo atalhado pelo Bê. 'Xiu, que é isso?' e o Jota: 'Então... mas não é ela que quer saber?' e o Bê: 'E não sabes dizer de forma educada?' e depois, virando-se para mim, ele próprio subitamente corado, 'É o orgão sexual masculino'. E o Jota: 'Mas quando está teso' e logo o Bê: 'Está mas é calado. Já chega'. E eu morta de riso e de repente tudo a rir à gargalhada.


E, agora que aqui vou, estou com vontade de contar uma coisa do mais divertido que há, que se passou com um colega e presenciado por mim e por outros dois. Mas acho que não devo porque é coisa muito recente e é tão inusitado que não pode ter acontecido o mesmo com mais alguém à superfície da terra e, portanto, se isto for lido por uma das outras quatro pessoas que, de certa forma, participaram, fica logo a cena e os intervenientes identificados. E digo outros quatro porque, em cena, entrou uma mulher que desconhecíamos. Quando contei ao meu marido, quase sem conseguir parar de rir, ele disse: 'Era freira'. Neste domingo, voltei a lembrar-me disso e desatei outra vez na risota e o meu marido voltou a sentenciar 'Só podia ser freira. Só uma freira faria isso'. Não conto agora mas um dia tenho que contar porque uma cena daquelas não pode ficar por registar.

Claro que os apontamentos de Marcello Duarte Mathias não versam sobre episódios desta natureza. Pelo contrário, fala de pessoas públicas, políticos, escritores, refere livros, volta e meia cita pequenos trechos. Tudo de gente bem comportada, tudo ideias bem estruturadas e interessantes. Vai-se lendo e aprendendo, enquanto se partilham bons momentos de memória ou reflexão.

Assinalei algumas passagens para aqui partilhar convosco mas agora está a dar-me preguiça de me pôr a copiar. Portanto, calinas como a esta hora sempre me sinto, deixei-me por aqui ficar a molengar e a deitar conversa fora. E foi o que viram.


[Não digo que estou com sono para não levar outra desanda da minha filha: não faz sentido andares sempre a dizer que tens sono. Se tens tanto sono, porque não vais dormir? -- pergunta o roto ao nu (porque recebo mails dela a horas também impróprias e, feita moralista, também lhe passo lições de moral e saúde mental). Mas é um facto. Tive que me levantar cedo e, como sempre que tenho que me levantar cedo, feita estúpida acordo ainda mil horas mais cedo. E como o dia foi puxadésimo e, à chegada, ainda fui caminhar e comprar fruta aos indianos, tudo deu para tarde e, já se sabe, cair neste sofá é entregar-me, de alma e coração, nos braços de Morfeu. Ou seja, assim sendo, não há volta a dar: fico-me por aqui e espero que vocês fiquem bem].

As fotografias são de Helmut Newton e, claramente, não devem ter nada a ver com o texto. E quem canta Midnight Blues é Snowy White que não faço ideia se faz pendant com a conversa. E eu, com vossa licença, vou pregar para outra freguesia e vamos fazer votos para que amanhã a prosa tenha algum interesse.

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Um dia feliz a todos

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domingo, janeiro 31, 2016

Uma mulher que ama mulheres, uma faiseuse d’images


No post abaixo falei de uma rapariga diferente. Claro que, quando se diz que alguém é diferente, se deve dizer em relação a que é que ela é diferente. Pois bem, direi que a sua vida é diferente da da maioria das raparigas que conhecemos, que o seu mundo é diferente do mundo que conhecemos. E, no entanto, tão intrinsecamente igual a todos nós, ela. E o mundo em que vive tão perto de nós. 
Que me tenham ocorrido as palavras de um físico que fala como um poeta talvez não seja mera coincidência.
Há coisas que me comovem mesmo. Mais do que um murro no estômago é como se uma mão puxasse por mim. Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, vou falar da fotógrafa de que ontem queria falar. Já outras vezes aqui a tive, de visita a Um Jeito Manso mas é sempre muito bem vinda. Bettina Caroline Germaine Rheims é francesa, nascida de uma família ligada à arte, é casada e fez há cerca de um mês 63 anos.

A sua vida tem sido dedicada à fotografia mas, maioritariamente, à fotografia de mulheres. E, quando não fotografa mulheres, fotografa a ambição de o ser ou o paradoxo dos géneros que se confundem.

Charlotte Rampling, por Bettina Rheims

Mas, para nos acompanhar vamos ao som de uma inesperada aventura: 
a fusão entre a Lacrimosa de Mozart e o Hello de Adele. 


Há gostos que são paixões e paixões que se tornam vícios. A escrita é um deles. A fotografia é outro. Não sendo eu senão uma amadora acidental de qualquer destas artes, não poderei sequer trazer-me para dentro de um texto em que se fala de uma mulher que vive de e para a fotografia, que conhece os meandros do mundo da fotografia, que reinventa a condição feminina a cada fotografia que faz. Mas não estou a trazer-me para me comparar: apenas quero dizer que reconheço nas suas obras o prazer enorme de fotografar. Mais: o prazer da procura do momento perfeito em que tudo parece convergir.

Kristin Scott Thomas playing with a blond wig,
Bettina Rheims

Fotografar alguém não é fácil. O resultado é da responsabilidade de quem fotografa e de quem se deixa fotografar. 

Eu que faço fotografias em quantidades escandalosas e que me deixo encantar por tudo e por nada e que adoro fotografar pessoas, apenas me sinto motivada a fotografá-las quando não sabem que as estou a fotografar ou, então, em ambiente normal, sem poses, sem preparação. Não me dá para pedir às pessoas para rirem, para dizerem cheeeeese, para se virarem para aqui ou para ali. Se alguém está com sol na cara e eu gosto, então é assim mesmo, com o rosto banhado pela luz, que farei a fotografia. Se alguém está com sombras no corpo e eu penso que a sombra parece tatuar-se na sua pele, então é isso que eu a quero captar pelo que jamais me ocorreria dizer, saia daí porque está com sombras. 

É a naturalidade que me atrai nos objectos fotografáveis. Por isso, anulo-me, coso-me contra as paredes, espio de longe -- de modo a que a minha presença em nada perturbe a espontaneidade do que fotografo, sejam pessoas, gatos ou paisagens.

Breakfast with Monica Bellucci, Bettina Rheims

Por isso, admiro as pessoas que conseguem fazer fotografias encenadas e em que a fotografia capta a beleza do momento sem que se sinta que há algo forçado ou artificial. Mais: admiro quem consiga imaginar uma pose ou uma situação em que o que resulta é uma história ou a imagem de uma persona que representa uma cena.

Monica Bellucci, uma mulher sensual, cujo rosto e corpo remetem para o prazer dos sentidos aparece, na fotografia de Bettina, como a pecadora apanhada em falta, toda ela gula, sensorialidade, vontade de mais. 

Kristin Scott Thomas, a versátil artista, que tanto nos aparece frágil ou corajosa, santa ou pecadora, aparece, sob a lente de Bettina, desfazendo-se de uma cabeleira loura, mostrando que, de disfarces, se faz a sua carreira e a sua imagem.

Madonna por Bettina Rheims

Madonna, a provocadora, a que não teme rótulos, anátemas, censuras, aparece na fotografia de Bettina como a irreverente, a pronta a tudo, aquela para quem não há limites nem no vestuário, nem nos comportamentos, nem em nada. Cansada depois de uma noite de excessos, descansando depois de um concerto, não o sabemos, mas até da incompreensão das suas quase excessivas encenações se tem feito a vida de Madonna.

Charlotte Rampling, quando era mais nova, era bem a imagem da sedução sofisticada, do convite à partilha de momentos vividos numa intimidade cheia de mistérios, com algum toque de rebeldia, de elegante desafio. Assim a soube captar Bettina Rheims. 

Catherine Deneuve por Bettina Rheims
Catherine Deneuve, bela, discreta, dela se dizia que era fria, apática. Ou que facilmente se poderia tornar uma mulher submissa. E, no entanto, como Belle de Jour apareceu-nos como uma mulher capaz de procurar os prazeres proibidos durante as tardes de tédio. Bettina trouxe-a misteriosa, bela, sofisticada -- mas sobre uma cama, seios acessíveis.

Todas elas sabiam que Bettina as olhava através da câmara e, apesar disso, não se inibiram. Mostraram-se tal como ela as imaginou e, no entanto, aparecem inteiras, entregando o seu rosto ou o seu corpo à imaginação da fotógrafa e de quem viesse a contemplar a fotografia. Há coragem em quem se deixa assim fotografar tal como há em quem pede a alguém que se vista de uma determinada maneira, que se coloque numa determinada posição ou que olhe para a câmara de uma determinada maneira. Os retratos de Bettina têm isso: a cumplicidade entre a fotógrafa e quem se deixa fotografar é evidente.

Mas Bettina Rheims não fotografa apenas mulheres célebres nem faz apenas fotografias para grandes marcas como a Chanel ou a Lancôme. 



Não. Ela tem feito outras séries. Começou por fotografar mulheres que faziam striptease. ou acrobacia. 


Noutra altura fotografou mulheres que, de alguma forma, aludiam a motivos religiosos, I.N.R.I. e, como seria de esperar, a polémica foi grande.


Outra série dedicou-se à androginia ou à transsexualidade, Modern Lovers e Gender Studies


Em Heroínes, quis trazer a escultura para o terreno feminino. Mas quis vestir as mulheres com modelos originais. usou modelos famosos. E o resultado foi surpreendente.


Noutra, Chambre Close, um livro feito em parceria com um novelista, Bettina dedicou-se a mulheres que se aborrecem em casa e, que, sem saber o que fazer com o tempo vazio, se entretêm com o seu próprio corpo. Pretendia parodiar a pornografia mas o resultado foi uma interessante mostra do erotismo a solo.



E outras. Ou mulheres anónimas. Muitas. Em qualquer das séries, o interesse que o género feminino é evidente: Bettina Rheims não se cansa de olhar as mulheres e de mostrar a sua diversidade, de mostrar as muitas naturezas que podem encarnar ou encenar, de espreitar os mecanismos da sedução ou da solidão. E as mulheres que ela fotografa deixam-se mostrar, deixam que ela as tente desvendar. Bettina é uma mulher que gosta de mulheres - e é uma excelente retratista, uma talentosa fazedora de imagens.

Maison Européenne de la Photographie, um local de culto da fotografia, em Paris, tem desde dia 28 de Janeiro e até 27 de Março uma exposição de Bettina Rheims.

É do texto do site que o anuncia que retiro estas belas e justas palavras

L’œil de Bettina Rheims embrasse les transgressions et abolit les conventions pour révéler l’intimité la plus profonde et la plus universelle. Dès lors, c’est un jeu de miroirs qui s’enclenche…
Bettina Rheims s’est approprié les codes de la photographie de nu pour les détourner et placer la question de la féminité au cœur de sa pratique. Elle met en danger autant qu’elle sublime la beauté de ces modèles. Mises à nu, vacillantes ou triomphantes, elles bousculent et intimident le spectateur.
Portraitiste brillante, Bettina Rheims a su imposer dans l’imaginaire collectif les visages qui peuplent son monde. Bettina Rheims est avant tout une faiseuse d’images, qui défend dans sa pratique une tradition picturale séculaire. La plupart des photographies de Bettina Rheims témoignent de cet héritage, par un travail sur la composition et la narration notamment.
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Por falar em mulheres, permitam que relembre que, já a seguir, tenho uma outra mulher, uma mulher muito jovem, que também gosta de ver o mundo através da lente mas, por todos os motivos,  rapariga diferente. Não deixem de a ver, por favor.

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segunda-feira, dezembro 29, 2014

3 Corações


Os dois posts abaixo foram dedicados ao humor (e, desde já agradeço aos Leitores que tão amavelmente me fazem chegar piadas tão oportunas): um papagaio feliz da vida com o PSD e aqueles que, estando ainda em Belém, desmentem o Papa no que se refere às figurinhas do presépio.

A seguir, se não se importam.

Aqui, agora, a conversa é outra.


Na maior parte das vezes, os filmes que despertam a minha atenção não passam nos cinemas Lusomundo e, portanto, enquanto os vejo, não ouço sons mandibulares nem sinto o odor enjoativo das pipocas. E não é preconceito meu pois só o descubro depois de me ter interessado por eles. 

Explico. O meu processo de selecção é o seguinte: começo por consultar o cinecartaz para ver os filmes que estão em exibição. Em relação a alguns sinto a curiosidade que me leva a abrir a informação, e, então, leio o resumo. Se acho que algum tem probabilidade de me levar lá, vejo o trailer e só então vou saber em que salas está. 

Dantes, e reportando-me aos tempos mais recentes, o cinema onde mais ia era ao King, ali ao Maria Matos. Mas vai tudo fechando. Subsistem os Medeias. Não sei porquê nunca engracei muito com o Saldanha ou o Fonte Nova mas, paciência, é o que há. 

O filme 3 Coeurs (que quase poderia ser 3 Soeurs, tal a proximidade entre as 3 mulheres do filme, a mãe e as duas filhas) despertou o meu interesse. Gosto de cinema francês, o triunvirato feminino (Charlotte Gainsbourg, Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve, mãe de Chiara) pareceu-me promissor e a história pareceu-me interessante.


Felizmente o meu marido já ultrapassou aquela barreira psicológica que teve até há algum tempo atrás (achava os filmes franceses chatos todos os dias) e, por isso, aceitou a minha proposta. 

Poderíamos ter ido ao Corte Inglês mas aquilo soa-nos sempre a barafunda e fugimos de barafundas como o diabo da cruz. Fomos, portanto, ao que funciona no ex-Monumental que, salvo erro, se designa por Medeia Saldanha. Não é fantástico: as cadeiras não são muito confortáveis, a inclinação da sala não é famosa (felizmente o senhor que estava à minha frente reclinou-se o suficiente para não me tapar a visão) e o espaço entre cadeiras é acanhado. Contudo, talvez porque o filme foi mesmo bastante interessante, acabei por nem dar pelas condições o que também deve significar que elas são piores na aparência do que na realidade.

O actor masculino é Benoît Poelvoorde, um comediante belga que me faz lembrar muito o nosso Eduardo Madeira (e que me deixou com vontade de ver como é que o Eduardo Madeira se sairia num desafio deste tipo). Apesar de comediante, Benoît tem aqui um desempenho surpreendente num papel dramático.


Quanto à dupla feminina: Chiara é parecidíssima com o pai Mastroianni embora com traços da mãe e a Charlotte mistura na perfeição os genes dos pais (Jane Birkin e Serge Gainsbourg).


Quanto ao filme em si, transcrevo a síntese do argumento tal como se lê no Cinecartaz do Público:
Marc (Benoît Poelvoorde) está na estação de uma aldeia de província. Perdeu o último comboio da noite, que o levaria de volta a Paris. Em compensação, é nesse momento que conhece Sylvie (Charlotte Gainsbourg), com quem sente uma empatia imediata. Acabam por ficar a conversar até à hora do primeiro comboio da manhã. Marc embarca, mas não sem antes combinar um reencontro, dias depois, no Jardim das Tulherias. Ela comparece. Ele, por causa de um enfarte, não. Sem nada que os ligue ou que lhes permita retomar o contacto, ambos regressam às suas vidas. 
Ele há-de conhecer – e marcar casamento com – outra mulher, Sophie (Chiara Mastroianni), para descobrir depois que ela é, afinal, irmã da fascinante desconhecida que nunca esqueceu. 
Apresentado na selecção oficial do Festival de Veneza e do Lisbon & Estoril Film Festival, um melodrama do realizador francês Benoît Jacquot ("Adeus, Minha Rainha"), sobre um triângulo revelador da complexidade das relações amorosas. No elenco, destaca-se ainda a presença de Catherine Deneuve, no papel de mãe das duas irmãs.

Pois devo dizer-vos que gostei bastante do filme. Tem aquele ambiente agradável que se encontra nos filmes europeus. Não há perseguições, crimes, não há pressas, não há barulho. O décor das casas dá gosto (a casa de família é linda), a história avança sem piruetas ou efeitos especiais, há uma representação cuidada, a caracterização das personagens é credível e sustentada, há uma tensão crescente que nos envolve e, portanto, nem damos pelo tempo. Quando o filme acaba não sentimos pressa nenhuma em levantar-nos e quase ficamos com mixed feelings em relação ao final (que, há que confessá-lo, era inevitável).


A única versão que encontrei do trailer já traduzido e disponível para incorporação no editor do blogger é este vídeo aqui abaixo que tem mais do que o simples trailer. Contudo, acho que não prejudica o objectivo de apresentar ao que o 3 Corações vem.




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Relembro: para humor é descer, por favor, até aos dois posts já a seguir.

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segunda-feira, dezembro 17, 2012

Em dia de chuva in heaven, a ficção mistura-se com a realidade. Recordações e despedidas de uma mulher muito bela a quem a vida conduziu à solidão





Choveu hoje, todo o dia a chuva caíu, branda, regular. A casa está fria, húmida. Lá fora tudo molhado, as árvores escorrendo, o musgo subindo pelas paredes. 

Aborrece-me cozinhar apenas para mim. Faço uma sopa que me dá para uma semana, asso um frango que dá para uma semana, como saladas, iogurtes, queijos, frutas. Só não me alimento apenas de fruta, chá, frutos secos, porque acho que isso me poderia trazer problemas e não teria paciência para os resolver.

Peguei na máquina fotográfica, saí. Ninguém na rua. O tempo está para se ficar em casa à lareira, não para andar por aí, à chuva, ao frio. Só por saber que não encontraria ninguém é que saí. Custa-me suportar o olhar das pessoas, as conversas tontas, as vacuidades de quem fala por falar. 

Saí, uma capa cobrindo-me toda, uma sombra também eu, um fantasma deslizando nas sombras. Fui fotografando sabendo que nem vou olhar para as fotografias, fotografo sem objectivo, apenas por necessidade. Ninguém verá as minhas fotografias. Fotografo banalidades, coisas de nada.




Uma rocha coberta de água, uma hera trepando, uns ramos cobertos de pequenas bagas. Fotografo. Depois passo a mão pela pedra fria, molhada. Quero sentir aquilo que vejo, quero aproximar-me daquilo que me convoca.

Depois fotografo umas folhas molhadas, umas folhas de uma cor belíssima mas que, apesar de serem tão belas, em breve estarão desfeitas.




Emociono-me perante estas folhas caídas. Tempos antes fotografei-as na árvore, estavam verdes e viçosas. Agora aqui estão, inertes, belas mas perecíveis. É tão efémera a beleza. E a vida.

Passo por um muro onde sempre gosto de me deter. No verão a parede está branca e as sombras das árvores reflectem-se nele, enchendo-o de vida e de calor.




Agora está frio, a chuva entristece este muro e o painel de azulejos já não parece desafiador como no verão. Agora parece triste, desolado. Les + grands secrets se cachent dans la lumière. Assim foi toda a minha vida: os segredos escondidos pela luz, visíveis. 




O pinheiro parecia coberto de luzes. Talvez seja a forma que encontrou para me lembrar que é quase natal. Ignoro o natal. É um dia como os outros. Um dia de frio e solidão.

Depois voltei para casa. Apeteceu-me pintar. Há tanto tempo que não pintava. Peguei numa tela pequena, depois nas tintas, algumas já estavam secas. 

Um vestígio da antiga emoção, a tela branca sugando as cores que ainda resistem dentro de mim.

Quando pinto sou livre. Não tenho objectivos, não tenho motivos, não tenho restrições. Faço movimentos que não controlo, não vigio, não tento, sequer, interpretar. Não quero que pareça nada, não quero nada.  Sem pensar escolho uma tinta, depois um pincel, depois a minha mão movimenta-se sobre a tela como se dançasse, depois outra tinta, e a dança continua. 




Ninguém me perguntará o que é mas, se o fizesse, eu não poderia responder. Em tempos pintei flores, mulheres, bailados, cidades. Depois, aos poucos, fui conseguindo desfazer-me da realidade, fui conseguindo encontrar a abstracção, a intangível abstracção.

De resto, é assim que vivo, no limiar da abstracção, da intangibilidade.

Alimento-me de recordações.

Há pouco, cavalete, tela, pincéis e tintas arrumados, sentei-me com uma manta sobre os joelhos, peguei num livro. O livro do chá de Kakuzo Okakura. Ultimamente só consigo ler livros assim. O autor é japonês, nascido em 1862. Leio as suas palavras como bebo um chá cuidadosamente preparado,

Por que não destruir flores, se com isso podemos desenvolver novas formas que enobrecem a ideia do mundo? Só lhes pedimos que nos acompanhem no sacrifício ao que é belo. Havemos de expiar o feito consagrando-nos à pureza e à simplicidade. Assim raciocinaram os mestres-do-chá quando estabeleceram o culto-das-flores.

E por estes caminhos feitos de palavras delicadas vou prosseguindo a leitura. Depois volto às minhas recordações. 

Lembro o dia em que soube que o velho senhor que tinha sido o meu companheiro de tanto tempo adoeceu. A minha aflição. A minha vontade de ir ao hospital. Mas, claro, no hospital estaria a família e eu não era da família. A bem da verdade, eu não era nada, não existia. Nem podia manifestar a minha ansiedade para não levantar suspeitas. Toda a minha vida foi assim, viver na sombra. Ninguém desconfiar. Uma vida construída em torno deste propósito: ninguém desconfiar. Disfarçar sentimentos, ansiedades, angústias, alegrias.

Tanta vontade de lhe ir dizer que o queria de volta, que resistisse, que não se fosse embora, que me sentia tão sozinha sem ele, que lhe seria eternamente grata por tudo o que tinha feito por mim. Tanta vontade, sobretudo, de lhe dizer que o perdoava por me ter impedido de ter o nosso bebé. Mas não fui. Nunca fui. Nunca soube da minha aflição.

Voltou para casa, debilitado, dependente, com uma enfermeira ao lado. A família por perto. Nunca consegui coragem sequer para lhe telefonar. Uns tempos depois morreu. Chorei, chorei mas em casa, ou quando estava sozinha, ou quando ninguém me via. Como explicaria o meu choro perante quem não sabia de nada? Queria ir despedir-me dele, ir à igreja. Mas não fui. Não suportaria fingir. Não ali, não nessa última vez.

O vazio que fica ninguém consegue imaginar. Nem despedir-me condignamente eu pude, nem chorar me foi permitido.

Dirão que ninguém me impedia. Não sabem o que é viver uma vida paralela, na sombra, uma vida de disfarce, escondida. É uma coisa que toma conta de nós. Se fosse ao enterro e chorasse como uma viúva , como explicaria isso a quem me perguntasse? Diria, ele era o meu homem? Quem me acreditaria? Diriam que era louca. Ou rejeitar-me-iam para sempre. Ah, o medo da rejeição, o medo da censura, o medo sempre tão presente.




Mas, no dia em que o seu corpo arrefecia numa igreja pejada de gente, ao fim do dia, quando a noite começava a cair, ganhei coragem para me aproximar e passei por fora, encostei-me à parede exterior num dos lados da igreja, e ali fiquei sozinha, agradecendo-lhe, desejando-lhe que descansasse em paz. Pensava que ele iria para junto da nossa filha e isso tranquilizava-me pois tinha, e tantas vezes ainda tenho, um pesadelo recorrente, a minha menina sozinha, nua, com frio, perdida nas ruas escuras de uma cidade deserta.

Apesar de separados, era ele que ainda me pagava o condomínio que era muito elevado. Diriam, se o soubessem, que eu aceitava ser comprada, que com a casa, os bons móveis, o carro (sim, porque ele também me tinha oferecido um carro, cujos custos suportava), ele estava a pagar-me. Que erro... Pagar o quê, se eu tão pouco lhe dava? Ele dizia que me amava pela minha juventude, pela minha beleza, pela minha alegria. Mas eu é que tinha razões para estar grata pois os seus conhecimentos, a sua sabedoria, a sua cultura, o seu humor, o seu amor viril, faziam sentir-me uma mulher grata e realizada. Eu é que tinha razões para lhe pagar, tivesse eu como. Era ele que fazia questão de me oferecer tudo aquilo mas fazia-o dizendo eu sou velho, qualquer dia parto e quero que tu fiques bem, aceita, por favor, aceita se me queres bem. A mim nada me custa e, para ti, vai ser importante no futuro.

Quando morreu, fiquei com uma casa grande de mais, um condomínio caro de mais, um carro caro de mais. Durante uns anos, lutei para os manter, pela sua recordação. Não queria desfazer-me do que ele me tinha dado com tanta preocupação pelo meu futuro mas, suportar aquelas despesas, era-me, então, muito difícil. 

Nunca dizia a ninguém onde vivia. Como explicaria um luxo daqueles? Um ordenado como o que eu tinha jamais daria para uma casa daquelas. No entanto, aquele que o meu coração mais amou e de quem já vos falei foi lá muitas vezes. Quando lá entrou, não queria acreditar. Expliquei-lhe que era uma herança de uma tia. Não sei se acreditou mas riu-se, uma gargalhada das suas, isso é que são tias...!

Depois, mais tarde, quando me cansei de tudo, desfiz-me da casa e do recheio. Mudei-me para um apartamento pequeno, um apartamento de acordo com o que eu podia pagar. Depositei o dinheiro da venda do outro e ainda lá está, nunca mais lhe toquei e acho que nunca vou tocar. 

Quantos amores tive depois dele? Amor a sério só um. Mas tive mais uns romances. Talvez vos conte. Mas foram irrelevantes. Em todos procurei o verdadeiro amor, em todos procurei o amor para toda a vida, uma companhia. Nunca consegui. Por isso, aqui estou, sozinha, uma manta sobre os joelhos, a falar para ninguém.


*

Este texto continua a história que venho contando nos últimos dias e à qual ainda não dei nome, porque ainda não percebi onde é que isto vai parar.

A música é Un bel di vedremo da ópera Madama Butterfly de Puccini, aqui interpretada por Maria Callas.

As fotografias são minhas e foram feitas in heaven. A última é a excepção: é de Catherine Deneuve e não sei por quem foi feita.

*

Permitam ainda que vos convide a permanecerem um pouco mais na minha companhia. No meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, ao som de Elger, as minhas palavras distanciam-se daquele que me ama, ao lado das palavras de Eugénio de Andrade.

*

E, por hoje, já chega, não é?
Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda feira. Divirtam-se, está bem?

domingo, dezembro 16, 2012

Em dia de más recordações






Recordo ou fantasio? Aqui nesta casa fria, escura, habitada por sombras e lamentos, sentada com um casaco sobre os ombros, sozinha, falando para ninguém, recordo ou imagino coisas que nunca se passaram?

Por vezes não sei. Tudo tão distante.

Outras vezes sei, sei muito bem, e tomara não o soubesse, tomara que fosse devaneio, lembranças inventadas.

Ouço por vezes algumas pessoas cheias de auto-confiança dizerem que não lamentam nada, ou que lamentam apenas o que não fizeram. Infelizmente não posso dizer o mesmo.

Prefiro recordar os sorrisos escondidos, os segredos partilhados, a malícia excitante, os telefonemas disfarçados, os beijos roubados, os abraços cheios de promessas, o amor feito à pressa, ou o amor feito sem limites, os passeios de barco longe dos olhares e dos medos, os jantares cúmplices. Prefiro, claro que prefiro. Porque haveria de me atormentar com as decepções, as mentiras, os desgostos? De que serviria isso agora? 

Não guardo rancores. De nada servem. Distanciei-me de tudo e de todos. Ninguém sabe onde vivo, ninguém sabe como me contactar. Sei que isso foi uma forma que arranjei para atenuar a tristeza que sinto por esta solidão. Assim, penso que talvez alguém ainda se lembre de mim, que não me procuram apenas porque perderam o meu rasto. Iludo-me. Iludo-me uma vez mais, não fiz outra coisa a vida inteira.

Uma das pessoas que mais marcou a minha vida foi um homem muito mais velho que eu, um dos homens mais poderosos deste país. Com ele aprendi grande parte do que sei. Fez-me voltar a estudar, fez-me sentir muito especial. Tão meigo, tão atencioso. Amava-me de verdade. Casado, com filhos, com netos. Vivia separado mas não divorciado da mulher mas a vida dele fazia-se muito através dos filhos, das empresas, tudo preparado em termos de sucessão, uma vida pública e social muito activa. Jamais poderia assumir a relação comigo, seria um escândalo.

Compreendi perfeitamente. Eu também não o poderia assumir e, ao mesmo tempo, continuar a trabalhar perto dele. E deixar de trabalhar estava fora de questão, não quereria ser a concubina, a mulher 'por conta', sempre fiz questão de manter a minha independência. Pode agora não parecer, mas sempre me achei uma mulher orgulhosa, muito ciosa da minha dignidade.

Através dos seus relatos, pelo que me contava quando à noite jantávamos juntos, conheci ministros, empresários, banqueiros. O que eu gostava de saber aquelas peripécias, o que eu aprendia.

Comprou e pôs em meu nome um andar enorme que mobilou a seu gosto, móveis bons, sofás largos, confortáveis, quadros valiosos. Era lá que eu vivia e era lá que ele, tantas vezes, jantava e dormia comigo.

Em público, éramos quase uns estranhos, uma relação formal. À noite, algumas noites, éramos marido e mulher. Partilhávamos confidências, conversávamos.

Foi ele que me ensinou a arte de amar. A sua memória era surpreendente e, de cor, enquanto galantemente me cortejava, dizia com a sua voz quente e baixa:


Se não for meiga quanto baste nem corresponder ao teu amor,
    porfia e persiste. Acabará por tornar-se carinhosa.
Dobra-se, quando vergado com jeito, o ramo da árvore;
    vais parti-lo se puseres à prova a tua força;
com jeito, a nado se passam as águas; mas não serás capaz de vencer
    o rio, se nadares contra a corrente que com as águas se arrasta


E depois, no fim, ria e dizia, aprende, miúda, que eu não vivo para sempre; e é bom que domines a arte de amar, e depois, já viste? vais surpreender os teus namorados, quando eles menos esperarem, começas a dizer Ovídio, ninguém resistirá a tal coisa.

Eu ria. Na altura pensava lá eu em ter outra pessoa?

No entanto, tantas vezes depois eu usei os seus ensinamentos, tornou-se um vício, talvez o meu único vício.

Era feliz, nessa altura. Se alguém nos visse juntos, talvez nos censurasse: tem idade para ser pai dela, pai ou, mesmo, avô.

Mas eu gostava muito dele, abriu-me as portas para o mundo, para a vida. Vivia na sombra, uma vida cheia de jardins proibidos, mas eu achava isso natural, não me passava pela cabeça censurá-lo. E era-lhe agradecida. Questionava-me mas que vê ele em mim? Não me ocorria que talvez gostasse do meu corpo ágil e jovem, que talvez gostasse da minha alegria espontânea, da minha inocência.

Até que um dia, não sei como, apesar das mil precauções, engravidei. Que alegria senti, que alegria, que alegria. 

Mas não durou muito essa alegria. Quando lhe disse, ficou muito sério, que aquilo não deveria ter acontecido, que era impossível. Assustei-me, não contava com a secura da sua reacção.




Chorei, implorei, mas ele foi implacável. Um dia pareceu-me vê-lo também a chorar mas disfarçou (e pode até não ter sido isso, nunca percebi bem o que sentia a esse propósito). Levou-me a Espanha, fomos de carro e, durante a viagem, quase não falámos. De vez em quando fazia-me uma festa. Chorei quase todo o caminho. Por fim já só soluçava.

Ele foi muito carinhoso, esteve sempre comigo e também estava triste. 




A sua tristezae foi, na altura, o meu único consolo. No regresso eu vinha vazia, de repente a minha vida tinha sido esvaziada de sentido.

Lembro-me de me olhar ao espelho e não conseguir encarar-me.




Matei o meu filho, pensava enquanto os meus olhos acusadores me olhavam. Não era filho que eu pensava, era filha. Pensava que era uma menina. Ainda hoje penso nisso, penso no nome que lhe daria. Penso que o não deveria ter feito.

Arrependo-me tanto, tanto, tanto. Porque fiz eu aquilo? A troco de quê? 

Algum tempo depois deixou-me, que tinha conhecido uma outra. Mentira. O que se passava é que o que acontecera lhe era insuportável. A minha tristeza era para ele uma acusação muito forte. Não pensas nunca na tua filha pequenina? Não pensas que poderíamos ter uma menina que por aqui andasse, que te chamasse oh meu paizinho querido, não pensas? Zangava-se quando eu dizia isto. Dizia que eu o martirizava. 

Mas não fora só a nossa filha que tinha morrido. O afecto entre nós tinha também morrido. 

Fez questão que eu ficasse com a casa.

Fiquei sozinha numa casa grande, cara. Quem soubesse diria que eu era uma oportunista. Ninguém saberia que eu abdicara de mim e que tirara a vida à minha filha.

Não voltei a engravidar. Não calhou. Não aconteceu. O meu grande sonho, o maior de todos, também ficou pelo caminho.

*

Este texto é continuação de três textos anteriores e eu prometo que quando perceber melhor que história é esta lhe dou um título, para mais facilmente me poder referir a ela. 

A música é O mio babbino caro de Puccini e aqui é interpretado por Elisabeth Schwarzkopf. 

Não sei quem fez estas fotografias de Catherine Deneuve. 

O trecho em itálico foi escrito por Ovídio e faz parte do capítulo dedicado à Persistência no livro II na Arte de Amar (mistério desvendado pela Leitora Fantástica conforme refiro no post abaixo).

*

Resta-me, por hoje, desejar-vos um belo domingo. 

sábado, dezembro 15, 2012

Como é bom o amor em Paris (e como pode ser triste o regresso a Lisboa)






Lembro-me de um dia, lembro-me tão bem como se fosse hoje, em que aquele que o meu coração mais amou tinha uma reunião numa segunda feira. Arranjou maneira de ir logo ao fim da tarde de sexta feira e levou-me com ele. Nunca eu tinha estado em Paris. Que emoção. No aeroporto fingimos que não nos conhecíamos não fosse o diabo tecê-las. Mas depois, ah que deslumbramento, namorados clandestinos, só nós dois contra o resto do mundo, um amor tão doce.




Protegidos da rotina, protegidos do lado aborrecido da vida - a mulher teria o lado oficial, o papel passado, mas eu e ele tínhamos o namoro, a paixão nunca totalmente concretizada, a que clamava sempre por uma próxima vez - vivemos Paris, a cidade do amor, como se vivêssemos um sonho. Passeámos, fizemos compras, foi lá que ele me ofereceu aquele caso de pele, eu não queria, tão caro, tão caro, uma fortuna, não, não, mas ele fez questão, foi lá também que ele me ofereceu este relógio, mas tanto dinheiro, levo-te à ruína, não quero, mas para que é tanto luxo? Mas ele dizia que eu merecia isso e muito mais, andámos de mão dada, andámos de braço dado como um casal, e isso foi, talvez, o melhor, tanto que eu desejava isso, andar na rua como se fossemos um casal, que felicidade. Fomos à ópera, conheci a biblioteca, fomos a museus. Tanta coisa em tão pouco tempo.

E, de noite, eu era a sua modelo, a sua boneca, a sua dócil criatura.

Tinha-me também oferecido uma lingerie, uma loja que só visto ali para os lados da Pigalle, e quis que eu a experimentasse. Experimentei. Quis que eu deixasse que me fotografasse. Deixei. Podia lá eu negar-lhe algum pedido?




Mas não vou agora fingir que o fiz contrariada. Fiz porque quis. Acedi sempre a tudo porque quis. 

Quando ele apontava a máquina fotográfica na minha direcção parece que eu ficava outra, parece que me desinibia, que me inspirava. De lingerie preta, a fumar, exalando sensualmente o fumo, sentindo-me apetecível, uma irresistível sedutora, oferecendo-me sobre a cama, sobre o sofá, eu tinha um enorme prazer em vê-lo excitado enquanto me fotografava.




Quanto mais ele se descontrolava, doido de excitação, mais eu provocava, oferecendo-me languidamente à objectiva.

Foram noites de grande prazer, não o escondo - porque haveria de esconder?

Enquanto me fotografava costumava pedir-me, ensina-me a arte de amar, ensina-me como só tu sabes.

E eu, de olhos semicerrados - enquanto fazia deslizar vagarosamente a alça do corpete, enquanto deixava antever, devagar, devagar, o seio, aos poucos, aos poucos até ao mamilo - com voz baixa, quase rouca, ia ciciando,


Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas
    podem ser conquistadas; e vais conquistá-las; basta que estendas as redes
Tal como Vénus furtiva é grata ao homem, assim o é também à mulher;
    o homem disfarça mal; ela é com mais recato que alimenta o desejo.
Se aos homens der mais jeito não serem os primeiros a pedir,
    logo a mulher, vencida, há-de assumir o papel de quem pede.
Na mansidão do prado, é a fêmea que solta mugidos ao touro,
    é a fêmea sempre que relincha ao cavalo de rijos cascos.


E ele, o meu amado, o meu devoto fotógrafo, disparava, disparava, quase sem ver, enlouquecido pela minha voz, pelo meu corpo, pela minha sensualidade.

Pelo menos uma vez por dia, geralmente de manhã e antes de sairmos para jantar, ele colocava-se junto à janela, de pé, e falava com a mulher. Relatava reuniões intermináveis, negociações complicadas, falava das saudades que tinha, pedia para falar com os miúdos, prometia presentes, enviava beijinhos. Eu ouvia com indiferença, e pensava é um filme, mente à mulher para poder estar comigo, prefere estar aqui comigo do que a aturar a vaidosa, a fútil, a palerma da mulher, e sorria, superior, agradecida por ele ser o amante querido que eu tanto amava.




O relógio é este, uso-o sempre, é lindo. Olho as fotografias, estava bonita eu, sentia-me tão irresistível, achava que ia ser tão feliz. Achava que ia voltar muitas vezes para ser feliz outras tantas. Paris. Paris. Que saudades.

Não voltei.

Regressámos a Lisboa na terça feira. Antes de abandonarmos o hotel, quando íamos a sair do quarto, ele puxou-me por um braço. Abraçou-me, beijou-me. Temos que fazer as despedidas agora porque no aeroporto ou no avião não dá, não vá alguém que me conheça ver-me. Aceitei. Beijos apaixonados e abraços apertados e quentes não se podem rejeitar. E feliz como estava, porque haveria eu de rejeitar?

Quando o avião aterrou ele disse-me que a mulher e os filhos o iam buscar e que era melhor não sairmos juntos. Foi uma decepção que tive, porque é que não me avisaste antes?, mas ele encolheu os ombros como se fosse coisa sem importância. Aceitei, estava habituada a aceitar, estava já tão habituada a viver na sombra. 

Penso agora nisto e vejo que toda a minha vida arrastei as sombras como se fossem pesados mantos que me cobrissem.

Ele saíu, não tinha que esperar pela bagagem, levava apenas uma mala que cabia nos compartimentos da bagagem de mão. Eu não, eu tinha uma mala maior, carregada.

Quando me vi no aeroporto sozinha, arrastando uma mala pesada senti-me insignificante, senti uma tristeza. Mas mais triste fiquei quando, indo eu a arrastar a mala, sem ninguém que me ajudasse, o vi abraçado à mulher, de mão dada com um dos filhos, sorridentes, felizes, uma família feliz. Iam a sair do edifício, não me viram e eu fiquei ali parada, sentindo-me um nada.

Fui para a fila dos táxis, já era de noite, e eu ali sozinha. A bela mulher que eu era, tão desejada, tão amada, de repente ali sozinha. Que pena tive, então, de mim.




Cheguei a casa e tão desfeita me sentia que, nesse dia,  nem tive coragem de desfazer a mala. Tinha-me chocado o ar de família feliz, tinha-me chocado a forma como ele se tinha livrado da minha presença, como se eu não tivesse sentimentos. Eu era a outra, a que tinha que se sujeitar a tudo, a que recebia presentes, beijos, noites de amor num hotel e ponto final. Claro que eu sabia que era a outra mas a outra é tão mulher, tão humana, tão frágil, como qualquer outra pessoa, como a mulher legítima. 

Mas nunca lhe falei nisto. Prosseguimos a nossa relação como antes. Sempre consegui disfarçar muito bem o que sinto, sempre calei as minhas mágoas, sempre me contentei com o que me davam, sempre esperançada em que um dia teria tudo aquilo que desejava. Nunca tive.


*

Este texto é a continuação do penúltimo e do antepenúltimo textos. Ainda não dei um nome a esta história nem a esta mulher porque ainda não sei se vai ter continuação. Se vier a ser uma história talvez lhe fique bem o nome Casta Diva e talvez a mulher possa vir a chamar-se Maria Beatriz.

A música é, justamente, Casta Diva de Bellini, aqui interpretada por Cecilia Bartoli.

Catherine Deneuve aqui é retratada por Helmut Newton. Contudo, desconheço a autoria da última fotografia.

Continuo a não identificar o texto em itálico e isso é deliberado.

*

Hoje no Ginjal encerro o ciclo que dediquei a Ernesto Lecuona com dança. O Grupo Corpo dança Te he visto pasar e a música, a voz e os corpos são uma maravilha. Não quererão ir até lá, deitar uma espreitadela?


*

Chove que é uma maravilha. Os campos e as barragens agradecem a chuva que cai com vigor. Vejo-a lá em baixo, contra um fundo escuro, iluminada sob a luz do candeeiro. 

Aproveitem, meus caros leitores, o encanto de um fim de semana chuvoso e frio. 
Desejo-vos um belo sábado!