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quarta-feira, setembro 23, 2026

Enquanto houver estrada para andar

 

Tenho tido uns dias ocupados. Como creio que já aqui tinha admitido, cedi à pressão para que a 'nossa' casa de banho fosse reconvertida. Relembro: digo 'nossa' porque é a casa de banho junto ao nosso quarto, já que a outra está bem e recomenda-se. 

E, como sempre acontece, caí na armadilha do 'já agora'. Da base do duche já derivámos também para o lavatório. Novo, coisa diferente. E mexer nestas coisas implica parte do revestimento, parte do pavimento. E, já agora, a torneira do duche também nova, mais para cima. E o pior é que olho para a pobre coitada da casa de banho já com olhos de quem quer ver coisa nova e, portanto, já tudo me parece mal. Já não gosto dos toalheiros onde estão, já não gosto das prateleiras giratórias, já não quero ali o armário espelhado, dito dos medicamentos. Já tudo me parece a precisar de desandar. E o pior, pior mesmo, é que o meu marido não me refreia capazmente.

E o fogão, que já cá estava quando comprámos a casa (já lá vão 6 anos!), um bom fogão mas já certamente com alguns bons anos, também andava a pedir para ser posto em cima de um par de patins. Resisti. Resisti. Até que cedi. Também já encomendámos. 

Todos os materiais, fogão incluído (embora comprado noutro local) só chegam a meados de outubro.

Hoje, enquanto caminhávamos ao luar, eu dizia: 'agora já está tudo encaminhado, tudo o que havia a encomendar está encomendado, já podemos tirar daí o sentido'. Ele disse: 'falta executar'. Exacto. Mas isso também já está contratado. O meu marido lembrou: não o conhecemos, não sabemos como é, vamos esperar que apareça, que trabalhe bem.

Claro. Vamos esperar.

Dá-se também outra circunstância: quando o meu marido se cansa dos programas de televisão comuns, ou vê futebol ou vê cozinhados (ele que pouco ou nada cozinha). Mas agora aparece (creio que no canal 24 kitchen) uma simpática e gravidíssima jovem senhora que remodela cozinhas, Ellen Marie Bennett. Ele ficou entusiasmado e contagiou-me. 

Incrível o que há para arrumar coisas, as ideias, os truques, os apetrechos. Revejo-me nos problemas que levam as pessoas a recorrer a ela. A minha cozinha é aparentemente uma cozinha fantástica: ergonómica, com muita arrumação. Mas, para mim, não é o que eu gostaria. Tem armários até ao tecto, ou quase. Portanto, para chegar às prateleiras de cima só com mini-escadote. Às tantas não faço ideia do que está lá para cima. Mesmo com o escadote, vejo o que está à frente, não o que está para trás. E os compartimentos são um bocado estreitos. Portanto, as coisas estão um bocado salteadas.

A despensa é também um espaço pensado ao milímetro, ultra arrumação: prateleiras altas, fundas, com imensa arrumação. O pior é que são tão fundas que mal tenho percepção do que está lá para o fundo. As prateleiras lá de cima, então, são para mim um mistério. Por vezes, quando me encavalito no mini-escadote, vejo que, pelo menos à frente, estão uns tachos gigantes. Mas está tudo tão inacessível que, na prática me esqueço do que para lá está.

Somos todos escravos do que precisamos / Reduz as necessidades se queres passar bem

O meu marido diz: 'pego naquilo tudo e levo para a cave'. Não me parece lógico. Levar para a cave é, na prática, o mesmo que  nos esquecermos das coisas. E tudo o que voltar a enfiar lá para cima, tem, na mesma, o destino traçado. Por isso, não sei qual a solução. Só se for pôr espelhos na parte de cima das prateleiras....

Outra coisa que agora questiono. Tenho duas gavetas ocupadas com panos de cozinha. Depois de vermos o programa, o meu marido questiona: 'para quê tanto pano de cozinha? duas gavetas desperdiçadas com panos!'. Mas eles existem, têm que estar em algum lado. É certo que estou longe de precisar de todos. Vejo que a dita Ellen, que coloca tudo em caixas e em prateleiras deslizantes ou em prateleiras com degraus, para tudo estar sempre à vista, coloca os panos da louça e das mãos em rolinhos, ao alto, numa cesta, e a cesta está numa prateleira.  Talvez seja uma solução. E fica a gaveta para arrumar especiarias, por exemplo, que hoje tenho os frascos encavalitados em cima uns dos outros, de cada vez que quero um posso ter que tirar os outros todos.

Ou seja, agora olhamos para as coisas com vontade de reformular também tudo. Só que, ao contrário das cozinhas americanas que são gigantes, a minha cozinha é o que é, relativamente estreita, sem margem para grandes reformas. O mais que dá é para reorganizar, repensar as coisas. 

E sei que esta conversa -- no meio da crise energética, no meio dos desequilíbrios de forças a nível internacional, no meio do pântano, que tende a ser infecto, da política nacional, num dia triste em que sentimos a falta do grande Jorge Palma -- é uma não-conversa, é uma futilidade, uma coisa de quem tem pouco com que se ocupar. 

Pois, reconheço que sim -- mas fazer o quê? Sou assim, não sou de me deixar afogar em mágoas ou de me deixar ficar a carpir, sou mais de bola para a frente, enquanto houver estrada para andar acho que a gente deve continuar. Continuar com a vida de sempre, de todos os dias.

Se eu ainda estivesse a trabalhar, iria para o trabalho, trabalharia, embrenhar-me-ia na resolução dos mil problemas que me apareciam. Agora as minhas circunstâncias são outras. Já posso dar-me ao desfrute de me ocupar de temas banais que, provavelmente, são de fazer bocejar o mais careca. Quiçá até o mais cabeludo.

Quem sabe até, um dia destes, não partilho convosco a forma como o meu marido pegou nos meus chás e os arrumou tentando fazer mais ou menos o que viu lá a tal senhora fazer. E depois me dirão se o que ele fez está bem feito. A mim parece-me que tem sérias limitações, mas ele acha que sou eu a embirrar só por ele ter feito aquilo sem me consultar. Claro que não é. De qualquer forma, já arranjou uma solução. Só que, como ele diz, 'falta executar'.  

Enfim.

Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar

A gente vai continuar -- Jorge Palma

Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 09, 2026

A minha casa

 

Esta casa, ao contrário da outra em que vivi antes durante vinte e dois anos e da outra, antes, em que tinha vivido também um ror de anos, e da casa de campo, tem muita manutenção. Já cá vivemos há seis anos e ainda estranho isso. Provavelmente tem a ver com as decisões dos anteriores proprietários que automatizaram tudo. Um dos filhos era todo engenhocas e, talvez por saberem que tinham sempre quem lhes resolvesse os problemas, não se importaram de 'artilhar' tudo e mais alguma coisa. O senhor também gostava de construir coisas, era todo dado à bricolage, aos arranjos de coisas. Também optaram por soluções robustas, de boa qualidade mas que requerem, também elas, conservação. Por exemplo, os estores são como nunca vi coisa assim, um material e um peso que não imaginam. Funcionam com motor elétrico, com comando. Aparentemente tudo bem. Mas, se falha a electricidade, não há estores para ninguém. Ou se falha um motor. E não há como levantar à mão. Os homens dos estores, quando cá vêm, dizem sempre que é raro ver-se estores assim, dizem que são de alta segurança, que por estas janelas não entra ninguém. Amanhã temos cá outra vez uma intervenção, provavelmente mais dois motores novos. E há mais uns quantos estores que precisam de ser alinhados pois são tão pesados que, volta e meia, algumas lâminas parece que desandam ligeiramente, e depois já não fecham bem. Juro: sinto falta de puxar pela fita e conseguir levantar ou baixar uma persiana, sem qualquer ciência.

O portão dos carros a mesma coisa: todo xpto. Agora parece que está com qualquer coisa a fazer mau contacto, e abre e fecha quando lhe apetece, tivemos que desligar, e temos que esperar que cá venha alguém especializado nesta coisa.

Dos sistemas de aquecimento nem é bom falar. Todos integrados e automatizados com uns a serem backup dos outros: painéis para isto e para aquilo, caldeira a gás e a pellets, salamandra elétrica, duas lareiras com recuperador de calor, uma delas dupla e outra com saída de ar para duas divisões.  E tudo ou quase tudo com termostatos, válvulas motorizadas, e sei lá que mais.  O meu marido queixa-se de carregar com os sacos das pellets ou com a limpeza das caldeiras, volta e meia lá tínhamos que andar de volta dos manuais a perceber como é que aquilo estava regulado ou programado. Uma canseira. E depois era preciso virem cá fazer a manutenção disto, daquilo e do outro. Muito bem.Vamos instalar um ar condicionado potente na sala principal, com potência para aquecer essa sala e o piso de cima, coisa sem ciência nenhuma e que seja só de carregar no botão. Para a semana vai ser instalado e que se lixem as complicações. 

Claro que ainda subsiste o sistema de aquecimento de águas sanitárias com os painéis e os tanques e com um sistema de válvulas e redundâncias do caneco mas isso agora parece que está estabilizado. Esse, quando a temperatura não está à temperatura suficiente, faz accionar a caldeira de gás, mas isso, até ver, está a funcionar bem. Mas, caraças, houve uma altura que sentia cá umas saudades do velhinho sistema de esquentador que era tão simples e tão funcional... 

E nem falei no quadro trifásico com tantos disjuntores que mais parece um piano e em que, volta e meia, andamos a tentar perceber o que é que está pendurado em cada fase, ou, quando alguém vem fazer qualquer coisa que mete electricidade e nos faz perguntas e é sempre uma charada pois, para além do quadro principa, ainda há um no primeiro andar e outro na cave e mais o quadro da iluminação exterior e mais o quadro do sistema de rega. E também penso como era tão bom (e ainda é, no campo) em que há um único quadro elétrico, simples, com dois ou três disjuntores. As coisas simples são tão boas.

Enfim. A verdade é que ou para manutenção preventiva ou para reparação ou para instalação de novo, parece que há sempre gente a ter que vir cá fazer qualquer coisa e há sempre dinheiro extra a gastar. É chato. Felizmente, in heaven, o que há é cortar mato, desbastar árvores, varrer e limpar. De resto é tudo básico. Nem estores há, são portadas que é ainda mais simples.

Dito isto: gosto imenso desta casa, desde o primeiro dia em que a vi senti que tinha chegado a casa. Tudo me parecia fazer sentido, todos os meus móveis e quadros pareciam encontrar aqui o seu destino.  Gosto da arquitectura, gosto dos materiais, gosto da forma irregular, gosto da luz a toda a volta da casa, gosto do jardim. Gosto que seja fácil de limpar. Gosto de me levantar e abrir a porta da cozinha para sentir o ar da rua e apanhar com o sol na cara, gosto de abrir as janelas e parecer que estou a trazer o jardim para dentro de casa. Gosto de fotografar o reflexo da luz nas paredes, nos espelhos, nos vidros. Gosto de tudo. Só gostava mesmo é que fosse mais simples, mais fácil de manter.

quarta-feira, abril 22, 2026

Como atrair passarinhos

 

Por estes dias tenho andado muito ocupada. Percebo agora que estava a modos que a hibernar. Bem digo que tenho um lado de bicho. O meu corpo porta-se de uma forma peculiar, que não segue muito os cânones. Estava frio, húmido, chuvoso, e o meu sono e preguiça não me deixavam espaço para grandes aventuras. Agora que veio o sol parece que ressuscitei, só me apetece fazer coisas, retomar projectos, avançar mesmo que não vá dar onde queria, como queria, quando queria. Por isso, tenho trabalhado horas a fio. Claro que, ainda assim, continuo a caminhar, a fotografar, a tratar da casa, a ir ao ginásio, a fazer compras. Mas, nos intervalos, é sempre a bombar.

Por isso, não tenho conseguido responder aos comentários (mas leio-os e o meu marido também lê os que se referem ao que ele escreve! E agradecemos as vossas palavras). 

Agora são duas da manhã (apesar de ouvir e ler toda a gente a dizer que se deve ir cedo para a cama, continuo a ser a incorrigível ave nocturna de sempre) e esta quarta-feira tenho que acordar muito cedo pois a vida não pára e vamos cá ter quem vem fazer arranjos na maquinaria em que esta casa é fértil. Quando para cá viemos gostámos de tudo, e eu continuo a gostar de quase tudo. Quase. É que, se tivéssemos sido nós a instalar muitas destas coisas, não teríamos tanto equipamento para tudo e mais alguma coisa pois é tudo muito lindo quando tudo funciona, mas é uma carga de trabalhos quando deixa de funcionar e não sabemos porquê, onde mexer, porque deixou de funcionar, com o que é que está relacionado. Mas, enfim, é o que é. De todo o verso há um reverso. Mas, portanto, se não vou já para a cama daqui a nada tocam à campainha e ainda estou a dormir. É que, ainda por cima, é sempre precisa muita interacção: ligar o disjuntor, voltar a ligar, testar a ver se funciona, etc. Isto para não falar que é preciso prender o cão, que ladra como um possuído e, portanto, pelo meio, o meu marido pega nele e vai com ele dar uma volta.

Portanto, com isto, não consigo pronunciar-me sobre as bagunçadas desnotícias que por aí trumpolinam por tudo o que é canto e esquina. A malta que trabalha com ele deve estar a dar em doida. Qualquer dia, de cabeça perdida, ainda se atiram a ele e lhe dão uma tareia. O mundo dos humanos deve ser uma absurda gaiola de malucos para, perante um rei maluco destes que anda a causar mortos e feridos, destruição e desestabilização global, não haver mecanismos para resolver a situação. 

Concluindo, alienada da realidade diária, fico-me por um tema que verdadeiramente me motiva: os passarinhos nos jardins. Adoro, mas quando digo adoro é mesmo de adoração que falo, ouvir os passarinhos, vê-los, estar sossegada a senti-los a andar, felizes da vida, por aqui. Por isso, partilho um vídeo que despertou verdadeiramente o meu interesse.

Como transformar o jardim num paraíso para pássaros
Os conselhos de Alan Titchmarsh

1. Instale casotas para pássaros - certifique-se de que estão fora do alcance dos gatos e num local abrigado. Precisam de ser resistentes, pois na primavera os pássaros podem usá-las para as suas crias.

2.º Instale comedouros para pássaros - no outono e no inverno, os pássaros têm menos alimento do que o normal, pelo que beneficiarão muito de um fornecimento extra.

3.º Plante plantas amigas das aves - plante pelo menos uma das seguintes para fornecer alimento ou abrigo aos seus amigos emplumados:

Os Cotoneaster horizontalis, Pyraccantha e Callicarpa são arbustos que fornecem frutos para as aves.

O Azevinho e a Berberis fornecem espinhos para os ninhos.

A macieira-brava 'Golden Hornet' e a cerejeira.

Os Prunus autumnalis rosea são ótimas árvores para fornecer frutos para as aves.

4.º Construa um bebedouro para pássaros - os pássaros precisam de água e de um local para se limparem. Aqui está uma forma simples de criar um bebedouro para pássaros com um orçamento limitado. Basta fixar um vaso de jardim num pires usando silicone, adicionar pedras para pássaros mais pequenos e encher com água.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, março 24, 2026

Mostra-me a tua casa, dir-te-ei quem és

 

Se no post abaixo abaixo falo da natureza, tão múltipla, tão vibrante, tão divinamente perfeita, e da tocante afinidade que Sir David Attenborough reconhece na expressão de sentimentos entre os macacos, aqui falo de algo muito distante, bem mais comezinho: os objectos que uma pessoa tem na sua casa e que, de certa forma, revelam a sua natureza.

Já falei muitas vezes no assunto. Para mim, estar em casa de alguém pode ser uma experiência simpática mas também pode ser muito hostil. 

Casas escuras em que o pavimento é escuro, as portas escuras, os móveis e os sofás escuros, os azulejos das cozinhas cor de café com leite ou com motivos escuros, tudo é escuro (excepto a casa de banho que é cor de rosa ou verde reluzente), deixam-me atrofiada. Ou casas em que as paredes são maioritariamente vazias e depois, a meio, geralmente mais acima do que devia, está um quadro, por vezes pequeno, por vezes (a meu ver) de mau gosto, ali perdido, deixam-me desconfortável. Ou casas com colchas com folhos e cortinados de cetim, tudo às cores, com almofadas de cetim, também com folhos, em cima da cama, deixam-me incomodada. Nem falo no terror que é ter uma boneca em cima da cama, mas isso, felizmente, ao vivo nunca presenciei. Não consigo conceber como se consegue viver numa casa assim, imagino que isso torne as pessoas infelizes. Ou, então, é porque são infelizes que têm a casa assim. Não sei.

Nem consigo imaginar como se consegue viver numa casa cheia de tralha, carradas de objectos, uma casa impossível de manter arrumada ou limpa. 

Uma vez contei aqui que tinha ido a casa de uma pessoa, um familiar que tinha mudado de casa, tinha mudado de mulher, tinha mudado de vida. A casa foi desenhada por ele, enorme, com múltiplas divisões, algumas ocupadas com os seus objectos de colecção. E vim de lá perdida. Nessa noite quase não dormi, tal o pesadelo. Por todo o lado coisas. Imaginem (e vou dar um exemplo): colecção de relógios. Uma sala enorme, mas mesmo enorme, com relógios de toda a espécie e feitio: de pé, de parede, de móvel, de bolso, de pulso. Muitos, de vários estilos, de várias épocas, de várias marcas. Expositores, vitrinas, tudo cheio. Até relógios de estações de caminho de ferro. Uma coisa inimaginável. Ele feliz da vida. E eu a pensar: mas como é que se limpa isto? Não limpa, é impossível. Ou, lá está, um daqueles pensamentos peregrinos e escusados: um dia que morra, como é que os filhos dão conta de tudo isto? Não dão. Impossível. E, contíguo a esse espaço, havia um ainda maior com outra colecção, peças vindas de todo o mundo, uma coisa que mais parecia um museu. E não vou aqui entrar em detalhes e falar de todas as colecções e de toda a vastidão que é aquele espólio porque, enfim, é um familiar, pessoa estimável, e há sempre o risco de alguém o identificar e achar que estou a ser injusta. Se calhar estou. O dinheiro ali investido nem dá para imaginar e, até por isso, há que valorizar. Mas eu gosto de espaço, de ar que circule, de oxigénio, de luz. Sentir-me-ia apavorada se tivesse que viver ali ou, pior, se estivesse incumbida de manter aquilo limpo. Eu que detesto limpar o pé porque quando limpo é peça a peça, tudo tirado para fora, para limpar por trás e por baixo, não saía dali com vida. No entanto, nitidamente isso não era tema de preocupação nem para ele nem para a mulher. Dá ideia que quem tem muita tralha, colecções infinitas, só pensa em descobrir a peça alemã (é um exemplo), tecnologia xpto, feita no ano de mil novecentos e troca o passo, modelo raro, e vai fazer de tudo para a arranjar, custe o que custar. Não pensa que não precisa dela, que já não tem onde pôr tanta coisa especial, que qualquer dia haverá zonas em que não vai conseguir-se meter um pé e que nem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dariam para limpar tudo como deve ser.

Mas isto para dizer que sou muito sensível a uma decoração equilibrada, com apontamentos alegres, talvez inesperados, pontos de cor, espaço para circular, espaço para descansar, espaço para ler.

De manhã, abro as minhas janelas, deixo que a luz entre, deixo que o ar circule. O meu marido, no inverno, zanga-se: 'Queres que a casa fique gelada?' e vai fechar os vidros. Mas as persianas ficam até acima. E todos os móveis estão dispostos de modo a que não haja obstáculos: o ar, a luz, as pessoas e o cão -- tudo pode deslocar-se à vontade. E há cor e, espero eu, beleza.

Bella, pintada pelo pai, Lucien Freud, em 1987
[Note-se que agora, tantos anos depois, parece mais jovem e mais leve do que quando o pai a pintou]


A casa de Bella Freud, que o algoritmo do Youtube hoje me mostra, é, sem surpresa, uma casa muito agradável. Espaçosa, bonita, com elementos que têm uma história, com contornos de boa disposição. Gostei de ver e espero que também seja do vosso agrado.

Por dentro da casa eclética desta designer em Londres, repleta de objetos sentimentais | Vogue

A residência da estilista de culto Bella Freud, no oeste de Londres, está repleta de detalhes divertidos que refletem o seu círculo eclético de amigos e colaboradores. Enquanto nos guia pela casa, Bella fala sobre o seu falecido pai, o seu bisavô (o lendário Sigmund Freud), exibe uma miniatura dourada da mão de Nick Cave e muito mais
.


E queiram descer um pouco mais caso queiram conhecer a história do Pablo

segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, dezembro 30, 2025

O que querem? Sou humana, chateio-me com porcarias, o que é que posso fazer...?

 

Há um problema de infiltrações e entupimentos, não aqui onde estou agora mas num lugar em que somos nós, eu e o meu marido, que temos que responder. Mil vezes penso que não era mau de todo quando tínhamos em quem delegar. Aqui não dá. 

Tenho até andado enervada pois não se vê solução que seja boa. Todas são complexas e muito dispendiosas e cada uma pior que a outra. Acordei com mensagens e vídeos do canalizador e só pensava que queria que me tirassem do filme de terror em que me estou a ver metida.

Claro que, quando falo com o meu filho, ele desvaloriza, diz que já não me lembro de quando tinha problemas a sério. Lembro-me. Mas as responsabilidades, por serem a nível da empresa, eram, digamos, colectivas. Ou partilhadas. Aqui somos só nós os dois. As decisões temos que ser nós a tomá-las e os custos temos que ser nós a arcar com eles.

Optimista como sou, de vez em quando pensava que o telefonema ou a mensagem seria a dizer que a origem do problema estava detectada, a resolução seria simples. Mas não. Em crescendo de pioria. E depois uma coisa que me enerva. Uma vez inclinava-se para uma coisa, na vez seguinte já era o contrário. Parece que o raciocínio analítico não funciona muito por ali. E eu, nestas coisas, sou cartesiana, lógica, coerente. Desnorteio-me quando me levam a pensar que a origem do problema é uma e portanto é preciso partir tudo ali e acolá e, meia hora depois, já não é isso, o problema deve estar noutra coisa qualquer e tem que se partir noutro lado completamente diferente.

E foi ao longo de todo o santo dia. 

A culminar, já ao fim do dia, veio a indicação dos custos do trabalho do dia, na prática quase todo inconclusivo. Eu estava preparada para que fosse caro e para que não se tivesse andado muito. Só que não se andou praticamente nada e foi para aí quatro vezes mais caro do que o que eu e o meu marido antecipávamos. Um inusitado balúrdio. Usou uma máquina cujo uso implica custos da ordem das muitas centenas de euros. Mas quando disse que a ia usar não avisou. Fiquei, por uns momentos, calada. Incapaz de falar. Não ia insultá-lo, não é a minha maneira de ser, não ia dizer para ir roubar para outro lado. O meu marido tem uma outra reacção. Acha que não é no fim que se discute o valor, se fez e diz que é aquilo, é pagar. Eu torço-me. Não fez orçamento porque não sabia o que ia encontrar, usou uma máquina que não disse que tem custos astronómicos, e no fim é pagar sem protestar? Enfim, fico doente. Protestei, claro. Disse que poderia arranjar outra pessoa, que não levaria a mal. O pior é que não arranjo.

Uma situação que me faz sentir a modos que impotente. O problema tem que ser resolvido, as condicionantes são mais que muitas, não consigo controlar as coisas a ponto de conseguir arranjar alternativas. Tudo coisas que detesto. 

E isto foi só o princípio. 

Não quero pensar agora, nem ficar a pensar que o ano poderia acabar melhor. E que o próximo ano escusava de começar com isto. Mas já estão coisas combinadas para o início do mês que vem. Por isso, o ano vai mesmo começar com chatices que odeio.

Bem sei que há coisas piores, por exemplo aquela velha máxima de que pelo menos não parti uma perna. Claro. Pode um tsunami avançar sobre uma terra e engolir mil e oitocentas pessoas que se pode sempre dizer que pior era se fosse em época alta, a praia estivesse cheia e tivesse engolido duzentas e oitenta mil. Claro. Bem sei. A gente pode vestir a pele da santinha, da optimista compulsiva, e, por mais chatices que tenha, sorrir e mostrar que até está agradecida por ser aquilo e não um meteorito a cair-nos na cabeça. Mas, caraças, às vezes só apetece mesmo é espingardar.

A minha filha compreende a chatice mas também tenta relativizar, diz que estas coisas acontecem. Pois. Sei de tudo isso. Mas sintonizei-me para ter uma vida zen, na maior tranquilidade, longe de problemas, sem contratempos maçadores e dispendiosos, e agora fico desconfortável, incomodada, parece que me estão a puxar para zonas de desconforto em que não quero estar.

Enfim.

Mas olhem, relevem, ok? Não tem jeito nenhum estar a maçar-vos com problemas de entupimentos, esgotos, canalizações, sifões que deveriam existir e que não existem, caixas de esgotos que ninguém encontra, danos progressivos, fugas de origem desconhecida e sei lá que mais. Amanhã tentarei falar de alguma coisa mais interessantes.

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Desejo-vos uma terça-feira feliz

sábado, setembro 13, 2025

‘Uma escapadela secreta onde o verão perdura’: as viagens favoritas dos leitores do Guardian, em setembro, na Europa

 

Ao ver o título da notícia do Guardian (acima, no título), patriota como sou, fui logo ver se aparecia algum destino português. E sim, aparece. Fiquei contente. Mas fiquei admirada. Évora é uma cidade linda (e onde se come bem) mas, ainda assim, estava à espera de um lugar mais pitoresco ou mais desconhecido ou com uma oferta mais diversificada. No entanto, reconheço, é disparate meu, na volta até demonstro algum provincianismo ou alguma miopia.

O Alentejo banha-se em luz dourada até finais de Setembro e Outubro. A região estende-se desde florestas de sobreiros a praias selvagens do Atlântico, com temperaturas diurnas ainda a rondar os 20°C. Na cidade caiada de Évora, ruínas romanas e praças tranquilas convidam a um passeio tranquilo. Mais a oeste, a costa perto de Vila Nova de Milfontes oferece ondas quentes e areias quase desertas. O Alentejo é lânguido e soalheiro, um refúgio secreto onde o verão se prolonga e o tempo parece parar.
Autor do texto: Matthew Healy.
Autor da fotografia:  Praça do Giraldo, Évora. Fotógrafo: Philip Scalia/Alamy

Numa altura em que alguns dos meus amigos andam no laré por locais longínquos e enviam fotografias maravilhosas, eu sinto-me cada vez melhor no nosso país, e, em particular, em casa, seja na da cidade, por acaso perto do mar, seja na do campo, no meio do nada, rodeada de serras e de silêncio. 

No outro dia o meu marido estava a sugerir uma viagem e eu, que antes estava sempre numa de ir e que adorava planear, escolher hotéis, ir à aventura, agora penso sobretudo na maçada de fazer malas, na falta de conforto que representa a ausência dos nossos sítios tão bons, ou penso no déjà vu que já tudo me parece, quase como se já nada é verdadeiramente novidade. E quando, no meio deste comodismo, abro uma excepção e penso em ir visitar algum lugar, o que me ocorre é sair de manhã, irmos de carro, levarmos o nosso querido cãobeludo mais fofo, e regressarmos ao fim do dia. Quem me viu e quem me vê.

Mas depois, quando tento situar, no tempo, o momento em que comecei a desinteressar-me por ir viajar, localizo facilmente. Primeiro foi o meu sogro com uma doença grave que nos enchia de preocupação, que ia fazer tratamentos, que era preciso acompanhar, visitar, que nos fazia ter receio de nos ausentarmos. Depois, durante esse mesmo período, foi a minha sogra, também muito mal, internada durante bastante tempo, depois em casa, acamada, a precisar de cuidados permanentes. O que esse período nos trouxe a nível emocional e logístico não tem explicação. A seguir, durante esse mesmo período, foi o tremendo avc do meu pai. Aí a nossa vida complicou-se severamente. Eu e o meu marido cheios de trabalho, com responsabilidades que não podiam ser compatibilizadas com a ocupação que nos era requerida, e as preocupações a sucederem-se, umas atrás de outras. As férias passaram a ser apenas no país e fora de casa não mais que uma semana de seguida. E, ainda assim, íamos sempre com o credo na boca. Entretanto, morreu o meu sogro, algum tempo depois a minha sogra. Depois veio a covid, o confinamento, a morte do meu pai, e, quando já apenas sobrevivia a minha mãe, vieram os horríveis problemas com ela, que me iam levando a uma tremenda depressão tal a situação complexa que ela atravessou. Impossível afastar-me. Já lá vai um ano e picos que se foi, já poderia ter recuperado os meus velhos hábitos de nos pormos na alheta, de irmos passear e descobrir outras terras. Talvez um dia. Mas não sei.

Em retrospectiva, lembro-me de quando trabalhava, saindo de manhã e regressando ao fim do dia, os fins de semana sempre tão cheios de visitas e de mil compromissos, sempre sem tempo para usufruir tranquilamente da nossa casa. Agora consigo fazê-lo. Olho para as árvores, sento-me a ouvir os pássaros, rego, ocupo-me da casa, o meu marido ocupa-se com o jardim, lemos, cozinhamos, caminhamos. Tempos muito tranquilos. 


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Desejo-vos um bom sábado

sábado, junho 14, 2025

Conversa de vizinha


As televisões mostram ataques aéreos de Israel, do Irão. Os comentadores saltaram para os balcões para opinarem sobre a gravidade, sobre os objectivos, sobre os impactos. Mas a mim estas crises entre estes intervenientes deixam-me praticamente indiferente. Sei que é estranho mas é o que é. Não sei se é por ter memória de outros ataques, se é porque tudo isto me cansa porque me parece demasiado estúpido. Não sei. A mim parece-me que o único objectivo que interessa na estratégia dos países é o de atingir melhores índices de desenvolvimento, de justiça, de felicidade. Tudo o que seja invadir outros países ou atirar mísseis para cima de outros países parece-me uma aberração, uma coisa inexplicável.

Custa a compreender como ao longo de anos perduram guerras e guerrilhas, espionagens, provocações, ameaças, entre alguns países. Parecem aqueles vizinhos que disputam uma extrema, que se envolvem em discussões, por vezes mortais sobre a posição de um marco ou de uma vedação. Uma irracionalidade absurda, injustificável. Parece-me insultá-los, chamar-lhes burros, trogloditas. Não me apetece preocupar-me com gente assim.

Parece-me que apenas a paz, a cooperação, a livre circulação, a investigação científica orientada para a qualidade de vida e para a preservação do planeta fazem sentido.

Por isso, não vou falar no assunto.

Vou antes falar de algumas pessoas que, aos poucos, por estas bandas, temos vindo a conhecer.  

Quando eu vivia num prédio mal conhecia quem lá vivia. Também é verdade que trabalhava todo o dia. Mas cada um estava no seu apartamento. Lá calhava coincidirmos no elevador mas eram cumprimentos quase de circunstância que duravam até que o elevador parasse para que algum de nós saísse.

Aqui é diferente. As casas estão separadas por jardins e as pessoas também pouco se veem. Uns trabalham todo o dia, outros só veem a estas casas de vez em quando. Ainda assim, há pessoas com quem nos cruzamos quase diariamente e que cumprimentamos já com alguma familiaridade.

O senhor que cuida amorosamente do seu jardim é daqueles com quem mais simpatizo. Todo o seu jardim é um mimo, todo primorosamente arranjado. Não há uma folha caída, não há uma flor ou uma folha seca. E há caminhos de pedrinhas, há vasos harmoniosamente dispostos. Todas as manhãs vai comprar qualquer coisa ao minimercado, presumo que pão ou fruta ou legumes, e vai à papelaria comprar o jornal. Nunca vi a mulher mas o meu marido diz que já a viu algumas vezes, inclusivamente que no outro dia nos cruzámos com eles no supermercado. Devo passar por malcriada porque parece que não reconheço as pessoas quando as vejo fora do local onde as vejo habitualmente. E, como sou míope, para não me pôr a olhar fixamente para as pessoas para ver se conheço ou não, desabituei-me de olhar com atenção. Por isso, não vejo o que o meu marido vê.

Hoje também passou por nós uma ciclista que nos cumprimentou com uma familiaridade que só poderia ser de quem já nos conhecia. A voz não nos foi estranha. Era lusco-fusco e ela ia de capacete. pareceu-nos que entrou para uma certa casa. Se for, ficamos admirados. Naquela casa morava um casal um bocado hippie, ele mais que ela. Aliás, ele é um bocado estranho. Não cumprimenta, passa sempre na dele. Mas ela era uma simpatia. Víamo-lo muito a passear um grande cão. Falava-nos muito bem, muito simpática. Depois desapareceu. Há bem mais de um ano que não a víamos. Pensávamos que se tinha fartado de aturar aquele antipático. Pois hoje pareceu-nos que era ela. 

Também estamos sem saber o que aconteceu a um senhor de idade. Todos os dias, ele e a mulher iam de braço dado até ao café. Tenho ideia que muitas vezes almoçavam por lá e por lá ficavam durante a tarde na conversa com outras pessoas, a senhora a ler o jornal. A senhora cumprimentava-nos com muita simpatia. O marido, quando via a mulher a cumprimentar-nos, também nos cumprimentava. Tínhamos a impressão que o senhor estaria a ficar com alguma demência pois parecia cada vez mais ausente e com mais dificuldade de autonomia no andar. Nunca mais os vimos. No outro dia, vimos a senhora no jardim, só ela. Estava a regar os vasos. Como estava lá mais para o fundo, não deu para perguntar pelo marido. Mas também receamos que a resposta fosse triste.

Depois há uma casa aqui perto de nós. Cumprimentamo-nos muito amistosamente. O meu marido é que os conhece bem. Eu, se os vir fora do contexto, não os reconhecerei de certeza. Há o homem, a mulher, pelo menos uma filha e um filho. Mas a mulher é igual à filha e há o que pensamos ser a namorada do filho e o que pensamos ser o namorado da filha. E há o que pensamos serem amigos do filho e da filha. Ou seja, há sempre um entra e sai de jovens. Mas também pode ser a dona da casa e eu confundi-la com a filha. O único que é mais ou menos inequívoco é o homem.

Sobre os vizinhos de uma das casas ao lado da nossa nem sei que diga. Falo deles no livro 'Um ordenado paraíso'. 

Não conseguimos perceber a dinâmica desta casa nem conseguimos compreender estes personagens. Já aqui viveram diversas pessoas e, de cada vez, é um mistério absoluto. Grande parte do que descrevo no livro é verídico. Há uma mulher, em particular, que quase parece filha do homem, que por vezes parece a empregada dele, outras vezes parece a patroa, e não conseguimos perceber se é brasileira, se é portuguesa, pois tanto fala um brasileiro cerrado como um português de gema. Tudo o que se passa nessa casa vai para além do nosso entendimento. Acredito que um dia ainda hei de escrever outro livro sobre esta casa -- logo que consiga desvendar o verdadeiro mistério. Porque há mistério, lá disso não tenho dúvida. 

Bem. É tarde. Estão os israelitas e os iranianos às turras e estou nisto, a fofocar sobre os vizinhos. Não se faz.

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Um bom sábado

sábado, maio 10, 2025

Em dia de cenas variadas e de animada conversa política com dois sportinguistas de gema

 

Andamos às voltas com equipamentos de aquecimento que faziam (e fazem) parte da casa. O filho dos ex-donos é um engenheiro que não é daqueles teóricos, é todo do tipo engenhocas. E, do que percebi, quando jovem (e ainda é jovem) terá pensado formar uma empresa e, talvez para se treinar (ou para facturar, não sei), foi montando coisas em casa dos pais. Tudo do bom e do melhor, verdade seja dito, mas nada standard, nada documentado, tudo de uma redundância e complexidade tais que ainda não desencantámos quem aqui chegue e perceba o que vê.

Tudo estaria bem se o jovem, por sinal super prestável e simpático, se tivesse mantido no 'ramo' e pudesse dar assistência. Mas não, já não está nessa. E também já não se lembra. Já comprámos a casa há quase 5 anos e a montagem de toda esta incrível traquitana deve ter acontecido bastante antes. Portanto, é natural que não se lembre.

E o que acontece é que vem um e vem outro e olham para isto tudo, equipamentos, bombas, manómetros, termómetros, tubos em todas as direcções, e ficam sem saber onde mexer. Pior, com medo de mexerem. 

No outro dia, já esta semana, veio um senhor simpaticíssimo, aumentou a pressão, purgou, injectou um líquido, fez lá o que entendeu... e o problema principal manteve-se. Hoje regressou e, depois de andar às aranhas durante não sei quanto tempo, resolveu mexer numa válvula que está num outro local e que, aparentemente, nem tem a ver com este filme... e, como por magia, o problema resolveu-se. Mas nem ele soube explicar nem eu consegui perceber. E fico com a sensação que foi uma solução um bocado às três pancadas pois resolveu-se agora mas, no inverno, quando ligarmos outro equipamento, ficaremos com outro problema. Mas, pronto, agora parece que está e só posso dar-me por contente.

O meu filho sempre disse que uma coisa tão extraordinária e tão complexa em vez de um activo, de uma mais-valia, pode tornar-se num passivo, uma dor de cabeça. Vários técnicos que cá têm vindo têm dito que, por eles, acabavam com tudo e montavam uma coisa simples. Mas quando se fala na possibilidade de o fazerem, fazem marcha atrás pois o desmontar tudo o que para ali está parece ser, em si, também bastante complexo.

Como sou curiosa, para tentar descortinar o funcionamento daquela parafernália, já recorri ao chatgpt, mostrando fotografias. Elogiou bastante o sistema e fez uma série de recomendações que igualmente não compreendi.

Tirando este tema que esta sexta-feira de manhã nos obrigou a andar de um lado para o outro, a abrir portões para passar equipamento, depois ir buscar uma escada para ir ao telhado, depois uma mangueira para juntar água ao produto, depois desligar uma coisa no sótão, depois ir ver outra coisa não sei onde -- isto dividido entre mim e o meu marido depois de termos o cão devidamente isolado, o cujo ladra freneticamente  -- hoje fomos almoçar com dois dos meninos. 

Depois fomos ver se comprávamos um corta-sebes telescópico mas que, afinal, só por encomenda. Aproveitámos ainda para ir a outra loja pois o meu marido queria comprar uma daquelas mantas térmicas de emergência. Claro que aproveitei para trazer umas coisitas para mim. Antes comprava roupa que desse para o trabalho e para situações equivalentes a nível de exigência. E o que agora verifico é que me faltam peças simples, nomeadamente para usar no ginásio. Por isso, trouxe duas blusinhas daquele tecido muito fininho e com buraquinhos que deve ser para arejar. E uns calções também de tecido maleável, meio curtos mas não shortinhos. Vim de lá bem contente com os materiais -- imagino que se lavem bem e sequem ainda melhor, obviamente sem precisarem de ser engomados -- e com as cores e os feitios.

Devo também dizer que já há caracóis (cozinhados) à venda. Por isso, ao jantar, para além da sopinha, comi caracóis. Não me pareceram excepcionais mas creio que o problema estava na cozedura, parece que estavam um bocado mal cozidos. Mas, ainda assim, bastante razoáveis.

Claro que tudo isto, dito assim, parece que nada vale muito. Mas vale. Ao almoço, estivemos a conversar sobre profissões e sobre política, incluindo a questão dos impostos e das contribuições sociais. E gostei imenso. Os manos são muito diferentes: um mais liberal, mais puxando ao pai, outro com uma consciência social apurada, mais na linha da mãe. Ouvi-los a argumentar, a forma como se rebatiam, se chamavam mutuamente a atenção para alguns aspetos, foi uma agradável surpresa. Um tem dezasseis anos, outro catorze recém feitos, e a forma ponderada, abrangente, como o mais novo, ainda tão novinho, falou sobre estes temas, deixou-me com vontade de o encher de beijinhos. E ao mais velho, tão impulsivo, com uma tal verve argumentativa, também. Meus ricos meninos. Dois futebolistas, além disso. Sportinguistas, claro -- em stress pelo jogo, já a fazerem figas para irem festejar para o Marquês.

E agora não vem muito a propósito mas vi este vídeo e gostei imenso, imenso. E, portanto, aqui está.

Teenager Forced To KILL Friend: Shocking Story from Stranger's Past


Um bom sábado

quinta-feira, dezembro 26, 2024

O almoço de natal - menu e receitas

 

Estou a ver se não adormeço... Vou ver se consigo manter-me acordada para contar o que foi o almoço de Natal.

Prato de peixe

Como os meninos nunca querem comer peixe no dia de Natal, nomeadamente bacalhau, lembrei-me de inventar qualquer coisa que fosse mais apelativa para eles.

Trouxas de Bacalhau:

Cozi batata doce roxa (que fica negra como breu quando coze e que é deliciosa), batata roxa normal, ovos, couve Pak Choi, bacalhau.

Depois de tudo cozido, tirei as espinhas ao bacalhau, descasquei os ovos, esmaguei tudo com garfo. Numa frigideira, fritei em azeite cebola com uma folha de louro. Quando estava frita, retirei a cebola e o louro e envolvi o puré. Depois temperei com salsa picada e pus um puco de sumo de limão. Envolvi.

Tinha massa folhada rectangular, comprada. Cortei cada rectângulo em quadrados pequenos, talvez de 10 cm de lado. Em cada quadrado pus uma colherada generosa do puré. Fechei a trouxinha. 

Num tabuleiro coloquei azeite e mel. Rebolei lá as trouxinhas. Depois polvilhei bastamente cada uma com sementes de sésamo e sementes de chia.

Rolinhos de salmão

Cozi batata doce cor de laranja, ovo, lombo de salmão. Depois esmaguei tudo e temperei com azeite e limão.

Cortei os rectângulos de massa folhada em rectângulos. Em cada pequeno rectângulo coloquei uma colherada de puré e enrolei. 

Fiz a mesma coisa que às trouxas. Envolvi-as em azeite e mel e polvilhei com as sementes de sésamo e chia.

Entretanto, tinha o forno a aquecer. Com o forno a 170º, introduzi as trouxinhas e os rolinhos. 

Quando estavam tostadinhas, estavam prontas.

Foram servidas com salada de alface e quase funcionou como uma entrada.

Prato de carne

Para carne: Perna de borrego, um peito/entrecosto de borrego, uma peça de entrecosto alto de porco. E uma morcela de arroz e uma alheira.

De véspera preparei uma marinada com cerveja, alhos, pó de pimentão doce, orégãos, tomilho, alecrim, sal, azeite. Num tabuleiro temperei a perna e num outro a peça de entrecosto de porco. Não temperei de véspera o entrecosto de borrego pois, como era baixo, poderia ficar excessivamente impregnado.

Rebolei cada peça na marinada. cada peça tinha levado uns golpes para ficar mais saboroso e para assar melhor. Tapei cada tabuleiro com papel de alumínio e coloquei no frigorífico.

Ontem quando chegámos a casa, seria uma e tal da manhã, o meu marido colocou lenha de azinho no forno de lenha. Como se levanta cedo, lá para as sete e tal, já o forno estava mais ou menos quente, colocou mais lenha para se formar mais fogo e aumentar o calor. E tirou os tabuleiros do frigorífico pois, segundo o meu filho, grande mentor destas incursões gastronómicas, a carne não deveria entrar muito fria no forno.

De manhã, escorri o caldo da marinada para que o sabor não se impusesse demasiado. Temperos puxados não são connosco. 

No tabuleiro maior, coloquei legumes: cebolas grandes, um grande alho francês cortado em bocados, uma beringela, com casca, aberta ao meio, courgettes, cenouras, abóbora em cubos, um ramo de salsa, duas couves pak choi. Ficou completamente cheio. Polvilhei com um pouco de sal. Em cima dessa fofa cama, coloquei a grande perna de borrego.

No outro tabuleiro, também a marinada escorrida, coloquei uma grelha. E a peça de entrecosto ficou alto, na grelha. Cobri ambos com papel de alumínio.

La para as dez e tal, o meu marido empurrou as brasas para o canto e colocou os tabuleiros. 

(Nestes dias é tal a azáfama que não me ocorre fotografar. E depois, quando chegam, é a confusão de sempre e a alegria das trocas de presentes. E, às tantas, já está tudo esfomeado. E, portanto, nunca consigo ter a reportagem do making of nem sequer fotografias do produto final. Por isso, coloco aqui apenas a fotografia da lareira. Lá em cima, a arvorezinha das luzinhas que está por cima. E foi porque a minha filha felizmente fotografou a troca de presentes e o ambiente e eu agora repesquei estas pois, assim como assim, sempre dão alguma cor ao post)

Continuando...

Acompanhamentos

Arroz de forno

Entretanto, numa panela cozi uma perna de frango e um osso de vaca, uma grande cebola, um alho francês, salsa. Sem sal e já explico porquê. A água era o triplo do arroz que ia fazer.

Quando estava tudo cozido, retirei o osso de vaca que era destinado ao cão, para estar entretido. 

Depois desossei a perna de frango e escorri o caldo.

No caldo acima descrito, juntei uns mini-cubinhos de bacon, uns bocadinhos de chouriço de carne alentejana e um pouco de sal. Quando ferveu, juntei o arroz. Antes que estivesse pronto, retirei, coloquei num tabuleiro, cobri com mais cubinhos de bacon e chouriço às rodelas. Um pouco antes de irmos almoçar, foi para o forno de lenha. Nessa altura, em assadores de barro, a morcela de arroz e a alheira foram também para o forno, para estarem na mesa como entrada.

Batatinhas de forno

Cozi, com pele, batatinhas das pequeninas. Quando estavam quase, escorri e coloquei num tabuleiro Temperei com bacon aos cubinhos, sempre pouco, só para dar sabor, um pouco de orégãos e alecrim e azeite. E foi para o forno, neste caso para o forno da cozinha.

Empada de galinha

(Extra)

Foi um extra de última hora. 

Tinha-me sobrado quase um rectângulo de massa folhada fresca. Então, juntei os legumes da cozedura para o caldo do arroz e a carne de galinha desossada, coloquei um pouco de sal, um pouco de hortelã, misturei tudo com um garfo. Coloquei na massa folhada e fechei o rectângulo. Pincelei também com azeite e mel e também coloquei sementes. Ficou uma empada de galinha que também foi aprecada.

Volto às carnes de forno

A meio do processo de confecção, tirámos os tabuleiros para virar a carne ao contrário, voltando a ir para lá. Pincelei com o caldo da marinada e com azeite e mel. 

O processo foi monitorizado. Estaria pronto quando o interior da carne chegasse aos 70º. E só o ficou lá para as 13:30 ou talvez um pouco mais. Ou seja, cerca de 3 horas.

Esqueci-me de falar no entrecosto de borrego. Só foi para o forno já mais para o fim. 

Devo dizer que foi tudo apreciado. 

Sobremesas

Para sobremesa, eu e o meu marido fizemos um doce de abóbora e queijo cottage mas não seguimos exactamente a receita pelo que não ficou extraordinário. Por isso, não o descrevo. Se voltarmos a fazê-lo e resultar bem, depois conto.

A minha filha trouxe um bolo de iogurte que fez com cobertura de chocolate que ficou mesmo bom, um bolo-rei dito da Versalhes (passe a publicidade) e um bolo de limão estrela de natal da Padaria Portuguesa (passe também a publicidade). A minha nora trouxe arroz-doce, sempre uma delícia, umas rabanadas muito boas que fez com a mãe e com a minha neta (mulheres de armas, que dão belas sovas na massa) e ainda bolo-rei. E tinha também doces de ovos e bombons. E, como fruta, um prato com dióspiros às rodelas em volta, com centro de uvas.

Também havia queijos mas, para dizer a verdade, nem lhes toquei...

Vinhos

Aqui receio errar pois é pelouro do meu marido e, sinceramente, não prestei bem atenção. Só bebi o tinto e era muito bom. Tenho ideia que o branco era Burmester e que o tinto era Reguengos Reserva mas se calhar devia confirmar e ser mais específica mas agora não consigo, ele já se retirou. Ainda por cima tem andado um bocado constipado e à noite fica cheio de tosse.

Para quem não bebeu vinho, também havia Pleno (creio que de chá verde e limão) e água....

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E agora já estamos a pensar no repasto para o dia de Ano Novo. E já há algumas sugestões no ar e parecem-me bem. Depois conto. 

Chateia-me um bocado fazer comida só para nós os dois mas adoro fazer comida para muita gente. A rotina maça-me. O que gosto é de confusão, de estar sob stress e de improvisar.

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Claro que, quer antes, quer agora, não consigo deixar de pensar na minha mãe que no ano passado, por esta altura, estava tão mal, internada, com os médicos a dizerem-nos que a situação era terminal, que poderia ir-se de um momento para o outro. Naquela altura, não só a aflição de vê-la tão mal como a inquietação e perturbação por termos descoberto que ela estava tão mal quando já não havia nada a fazer, deixavam-me de rastos. 

Mas a vida é assim mesmo: efémera. Chega a uma altura em que, para uns, se acaba. São lugares comuns, mas é o que é. 

Mas a vida continua para quem cá está. Os miúdos estão felizes da vida, a sua alegria preenche todos os espaços. E o ambiente é harmonioso, afável, todos numa boa onda. Neste nosso primeiro Natal sem ela, hoje não se falou na sua ausência, mas sei que todos, ou quase todos, pensámos na tristeza que foi a sua partida. Mas há que aceitar que não há nada a fazer. A vida continua. E que continue bem e que seja bondosa para todos e que nós, os que estamos cá, saibamos apreciá-la, honrá-la, e saibamos sentir-nos agradecidos por tudo o que ela nos dá. Mesmo que, por vezes, seja ingrata.

E, pronto, já chega de conversa, estou cansada, com sono.

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E dias felizes para todos

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Uma questão de ménage

 

Vou tendo notícias dos meus amigos e vou constatando o óbvio. E só não digo o óbvio ululante porque prefiro não me esticar no vocabulário. Vou manter-me comezinha. E não é que goste particularmente de me ver aqui comezinha mas foi o que me ocorreu. E o óbvio que vou constatando é que hoje é um que tem uma coisa, depois é outro de quem andávamos sem saber e que, afinal, teve uma cena e está internado, num outro dia é uma que é operada às cataratas, e depois é alguém que conta que vai começar a fazer tratamentos. E já nem falo na tristeza que é quando a gente se lembra de alguém de quem já não sabe há algum tempo e aparece alguém que diz, com ar compungido que essa pessoa, infelizmente, já cá não está. Pois é. Não vamos todos chegar aos 120 nem vamos todos de viagem no mesmo dia. Haveremos de ir aos poucos. Mas, felizmente, a maioria ainda está na boa. Mas isto de estar na 'boa' é relativo pois a verdade é que quando não dói aqui, dói ali. Claro que há dias em que não dói nada. Ou, então, dói um bocadinho e a gente cagua nisso (calma, comezinha me mantenho: educadamente interpus um u entre o g e o a -- ah, que sopinha de letras mais gira...).

Como hoje andava a doer-me um bocado o pé, o meu filho disse que eu deveria era fazer mais exercício, que cada vez lê em mais sítios que a massa muscular é fundamental. Não tenho ido fazer deep mix pois estou cada vez mais avessa a compromissos e a horários. Mas, se calhar, tenho que fazer mais do que caminhadas. A lida da casa não é suficiente para não perder massa muscular. 

E, agora que falo em lida da casa, fico a pensar em que mais é que poderei fazer que me fortaleça os músculos. Uma das coisas que me parece que é boa para os braços é varrer. E com aquela coisa que não é ancinho mas que também não é vassoura, raspo a terra onde a relva seca, e isso requer força. E ando com regadores de água. E gosto de lavar coisas. Mas passar a ferro, que também deve dar músculo, praticamente é coisa que já não se pratica cá em casa. E limpar o pó odeio. Mas isso não deve fazer nada à massa muscular. Andar a lavar casas de banho, o chão, roupa, tudo isso é bom para mim. Mas peçam-me para limpar o pó e fico doente. É que para limpar o pó sou meticulosa, reentrância a reentrância, por baixo, por trás, as pernas das cadeiras, das mesas, as traves. Tudo, coisinha a coisinha. E, por isso, levo horas. E odeio, odeio gastar horas de vida com uma tarefa tão sem graça.

Talvez por isso, quando chego a qualquer lado, uma das coisas em que reparo é se é fácil de limpar. No verão estive na casa de uma amiga onde ainda não tinha ido. Estupidamente em vez de louvar a graça dos objectos, o ambiente acolhedor ou a beleza das pinturas, o que me saiu foi: 'Limpar esta tua casa deve ser uma trabalheira...'. Ela riu-se. Acho que nunca tinha pensado nisso. Respondeu: 'Não sei, é a minha empregada que trata de tudo. Desde que me reformei só lhe peço é que não ande com os tarecos à volta enquanto eu estiver a dormir.'

Por exemplo, ao ver a casa aqui abaixo, sem dúvida uma casa fantástica, ainda por cima principescamente decorada para esta época festiva, o que penso é que é casa em que eu não poderia viver: ou teria que andar lá sempre gente a cirandar e a limpar ou, então, aquilo deveria estar sempre carregadinho de pó.

Mas vejam. E inspirem-se.

Inside Richard E. Grant’s Georgian House at Christmas | Design Notes

Richard E. Grant welcomes us into his London home at Christmas. Filled with an abundance of treasures, Richard’s house sits within a walled garden littered with the dark foliage of evergreen topiary and ivy-clad trees, all providing an atmospheric backdrop for the attractive façade of his Georgian house.

“It looks like something that, I suppose, I have fantasised about living in since I was a little boy,” says the Saltburn actor as he sits in the drawing room of his rectory. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Richard E. Grant’s house in Richmond, which has been given a maximalist boost of lavish Christmas decorations for the festive season.


E uma boa semana para todos

quinta-feira, outubro 24, 2024

Ah que bom poder estar em casa, descansada...

 

Já aqui falei nisso muitas vezes: casei-me com vinte anos. Estudava (ia às aulas, fazia trabalhos, tinha exames) em metade do dia e, na outra metade, dava aulas. 

Depois fui trabalhar para uma empresa. Usava diversos transportes públicos e, numa parte do percurso, uma carrinha da empresa. Saía de casa às sete e picos da manhã e chegava às sete e tal da tarde e, como coincidiu com o inverno, já era de noite. Entretanto engravidei. E ali andava eu. E até aproveitava um dos transportes para fazer rosetas de lã em crochet para fazer mantinhas para o berço. 

Depois nasceu a minha filha. Mudei de local de trabalho mas continuei a usar diversos transportes, aliás ainda mais, pois, antes de ir trabalhar, ia deixar a bebé a casa da minha sogra. E ao fim do dia a mesma coisa. Com ela ao colo, com sacos, em eléctricos, em autocarros. O meu marido estava na altura na Marinha e não conseguia andar ele a levar a nossa filha. Além do mais, eu amamentei-a até tarde. Ou seja, dava-lhe de mamar antes de ir trabalhar e, à tarde, mal chegava a casa da minha sogra, dava-lhe outra vez de mamar.

E logo a seguir engravidei do meu filho e aí levava-o a ele, levava-a a ela ao colégio. Felizmente (felizmente, neste sentido), entretanto o meu marido já estava a trabalhar numa empresa e já conseguia participar nesta logística, aliviando-me um pouco.

Nessa altura comecei a ter muito mais trabalho, com muitas reuniões, indo de vez em quando para fora de Lisboa e, por vezes, para fora do País.

Ou seja, não conseguia ter tempo de qualidade em casa.

Nessa altura os nossos filhos ainda não namoravam nem tinham os seus próprios compromissos, salvo algumas festas de anos ou práticas desportivas. Por isso, tínhamos margem para, ao fim de semana, combinar almoçaradas, picnics e passeios com amigos. E tínhamos também que visitar a família. Nessa altura ainda estavam todos vivos. Por isso, nem ao fim de semana eu conseguia estar calmamente em casa.

Quando vinham as férias, e geralmente nunca conseguíamos ter mais que três semanas, íamos sempre pelo menos uma semana para o Algarve, outra semana íamos passear e lá conseguíamos estar cerca de uma semana em casa para ir à praia por cá. Quando eu pensava o que queria fazer nas férias, o que eu gostaria mesmo era de ficar em casa, Mas, claro, em especial com crianças pequenas ou adolescentes, fazer praia era fundamental. Além disso, também gostava de passear.

E depois arranjámos a casa no campo e, por isso, os fins de semana passaram a ser lá mas era uma logística complicada, carregados de comida e toda a espécie de tralha. E havia obras, andávamos a plantar arvores, a família também ia muito lá.

Depois veio o tempo da velhice e das doenças dos pais de ambos, o que nos exigia visitas, trabalhos, fazer compras e ir lá levar, etc. 

Até ao fim (salvo os tempos do confinamento e do teletrabalho) diariamente saía cedo de casa e chegava ao fim do dia. Horas e horas de trabalho, rematadas e iniciadas com horas de trânsito. 

Quando estava a aproximar-se o tempo de nos reformarmos, o meu maior sonho era poder ficar em casa sossegada. 

Contudo, mal me reformei, tive um problema num joelho que me obrigou a exames e tratamentos, depois veio a Covid e o sono que nos trouxe, depois vieram as crises da minha mãe, estando duas vezes internada, depois veio aquele período em que eu julgava que ela andava constantemente com crises de hipocondria e várias vezes fui com ela para o hospital passando lá a noite inteira à espera. O desfecho foi o que eu não esperava, ao descobrir que, afinal, estava mesmo doente e de forma terminal. 

A seguir veio o calvário de esvaziar a sua casa.

Portanto, só recentemente me vi com disponibilidade para ficar em casa sem encargos, sem afazeres, sem preocupações. De vez em quando sinto que o meu corpo e a minha mente ainda não aprenderam esta nova realidade pois parece que ainda receio que venha alguma má notícia, parece que ainda receio afastar-me muito pois 'pode acontecer alguma coisa'. Mas, finalmente, começo a usar os meus dias para fazer aquilo de que gosto.

Por exemplo, hoje, depois do pequeno almoço, pus-me 'à verão' e fui sentar-me ao sol. Levei um chapéu e um livro. Ouvia os passarinhos enquanto lia. Uma maravilha. Entretanto, o meu marido foi desbastar um bocado de uma sebe para podermos ter mais sol no sítio onde eu estava. 

Depois fomos ao supermercado, ele foi comprar uns jeans e trouxemos o almoço de lá.

Aqui já em casa, almoçámos e fui outra vez sentar-me ao sol a ler. Depois vim para casa, estive a fazer coisas que devia. Mas tudo tranquilamente, na boa, sem pressas, sem stresses. 

Ao fim da tarde, a temperatura amena, a luz muito dourada, os passarinhos a esvoaçarem junto a mim, o cão sentado ao meu lado, pensei que finalmente, ao fim de tanto e tanto tempo, posso usar descansadamente a minha casa.

E é tão bom, tão, tão bom. Sinto-me feliz, agradecida.


quinta-feira, setembro 05, 2024

A teoria do caos em palavras simples, palavras ao alcance de qualquer borboleta

 

O meu marido lesionou-se, anda a fazer fisioterapia. Tanto serra, tanto poda, tanto carrega que o ombro deu de si. Poderia ter paciência para fazer o que qualquer pessoa faz: ficar quieto, pôr gelo. Não tem. Mas de tarde pôs-se a ver um filme qualquer na Netflix e a seguir pôs-se a ler. Pensei que estava a levar a sério a recomendação de alguma contenção.

Entretanto, ao fim da tarde, quase noitinha, fui regar umas zonas não abrangidas pelo sistema de rega bem como vasos. Quando regressei, estava o pátio cheio de ramos e de folhas e andava ele com um serrote com um cabo de uns dois metros a cortar os rebentos ladrões da buganvília, uns ramos gigantes que crescem espetados em direcção ao céu. 

Entretanto anoiteceu, ficámos ali, já de luz acesa, a varrer e a limpar as mesas, as cadeiras, estava tudo cheio de flores e folhas, ele a juntar os ramos. Depois ainda fui regar outros vasos. Gostei de andar por ali nestas andanças já de noite.

O cão mais fofo também estava feliz, andava a brincar em nossa volta.

Tirando isso, posso acrescentar que estive a ler um livro do Paolo Cognetti, 'Sem nunca chegar ao fim'. Foi a minha filha que me empestou. Infelizmente já não foi traduzido pelo Pedro Tamen, que trazia uma sensibilidade poética muito especial aos livros anteriormente publicados em Portugal. Mas, ainda assim, é um livro sereno, um daqueles livros que me trazem prazer. Não há aventuras escaldantes, crimes inexplicáveis, dramas de caixão à cova. Há a descrição de uma caminhada na montanha. E eu acho isso maravilhoso.

Pelo meio, estive a escrever. Tinha uma ideia em mente mas, nestas coisas, as palavras têm vida própria. E estão a levar-me por outros caminhos. Quando acabei fiquei de olhos fechados a pensar: 'Para onde é que estou a ser levada?'. 

Há uma dose grande de imprevisibilidade nisto tudo.

Por exemplo, na minha vida recente aconteceu uma coisa completamente improvável. Aliás, uma sucessão de coisas absolutamente improváveis. Não só improváveis como, até, inexplicáveis. E nem vale a pena eu tentar compreender pois são eventos alheios que escapam totalmente ao meu controlo. O que sei é que, face a isso, estou agora metida em trabalhos em que até há duas semanas nem pensava. O que esteve na origem de tudo não consigo nem imaginar. Se fosse ficção, eu acharia inverosímil. 

É aquilo de que o bater de asas de uma borboleta aqui pode provocar um tufão no outro lado do mundo.

A simple guide to chaos theory - BBC World Service

According to classical physics and the laws of Isaac Newton, it should be easy to predict the behaviour of objects throughout the universe with relative ease.

But in 1961, a meteorologist unwittingly discovered this was not the case – that there was a lot more uncertainty around us. Here's how chaos theory and its butterfly effect, has changed the way we think about our Universe.


Dias felizes

domingo, setembro 01, 2024

A consciência das plantas

 

Já contei que muitas das flores, das árvores, das trepadeiras e das sebes deste meu jardim já existiam quando para cá viemos morar, há sensivelmente quatro anos. E, não sei por que artes mágicas, tudo desatou a crescer de forma algo exuberante. Não é apenas a antiga dona da casa que fica espantada quando cá vem, sou também eu que, ao ver fotografias dessa altura, fico admirada. Quase parece outro jardim.

Ela tinha feito cursos de jardinagem e andava em cima do jardineiro para que ele se aplicasse segundo os ensinamentos que ela tinha adquirido e, mesmo sem ele, ela era super cuidadosa. Sabia quando e como podar cada variedade, quando e como adubar flores e árvores.

Nós aqui somos diferentes. Empíricos. Eu, em especial, sou sobretudo intuitiva e, muito acima de tudo, tenho um respeito absoluto pelas plantas. Podo o que acho que é de podar e não toco no que acho que deve ser deixado por si ou que pode ser ajeitado a bem, sem amputar.

Tudo se desenvolve, tudo floresce. O meu marido acha demais. O meu filho, no outro dia, uniu-se ao pai, dizendo que, pelo menos o que está na passagem, deveria ser cortado. Sendo bastante alto, andava com a cabeça a roçar nas folhagens ou tinha que andar às voltas para se desviar. O meu marido sentiu que tinha claque e sentiu-se vitorioso. Acabei por ceder: só o que estava na passagem... Claro que, mal virei costas, o meu marido se esticou e foi mais além. Mas não ficou mal pelo que deixei passar...

Mesmo a árvore borboleteira que há uma meia dúzia de meses recebi de presente, uma coisinha mínima num vasinho, está enorme, florida, preparada para vir a ser um belo exemplar. Vou encaminhando, prendendo a estacas, cortando derivações desnecessárias, olhando, com encantamento, o milagre do crescimento.

No outro dia, uma conhecida, ao ver a suculenta que tenho à porta, disse-me que, há tempos, disse a uma amiga que acha que aquela variedade aprecia é que não lhe liguem muito pois nunca viu nenhuma como a minha e acha que eu não lhe presto atenção. Mas presto. Presto é não querendo mudá-la. E ela desenvolve-se como quer, majestosa, delicada. No outro dia, uma parte dessa planta partiu-se. Tive muita pena mas depois pensei que não ia perder aquela parte da flor. Coloquei-a na terra, num outro vaso. Pegou e desatou a desenvolver-se de forma exuberante. Até tive que passar uma fita por ela para a prender a uma armação de madeira que está ao pé para que, por terra, não se parta também.

O meu marido é o meu oposto: se vir um ramo partido, deita-o fora, não lhe passa pela cabeça espetá-lo na terra a ver se dali algo renasce.

Já falei disso muitas vezes: ele gosta mesmo é de cortar, se possível a eito. Mas já não é como era antes, está ligeiramente mais cuidadoso e, quando acha que a coisa requer tratamento de choque, geralmente já me consulta antes de fazer coisas graves e irreversíveis. Infelizmente nem sempre o faz. Ainda no outro dia, no campo, de roçadora em punho, coisa que me aterroriza, deu cabo de um medronheiro que despontava e cujo crescimento eu observava com carinho. Fiquei para morrer. E o nosso casamento só não acabou pois, in extremis, resolvi dar-lhe mais uma oportunidade.

Hoje andou encavalitado num escadote antigo e periclitante, mas que é muito alto, a cortar os ramos do chorão que estavam em cima do telhado e a podar ramos de glicínia, que cresce a um ritmo vertiginoso e que galga para cima do telhado de forma galopante. Fica lindo, em especial quando se cobre de cachos de florzinhas delicadas e lindas, mas, neste caso, percebo a necessidade dos cortes pois é muito verdade que, à velocidade a que aqui tudo se desenvolve, se não tentamos refrear algumas destas plantas, quando dermos por ela, a casa está tapada por vegetação. E, no caso dos telhados, é tramado pois pode levantar as telhas e depois entra água em casa.

Uma vez li um livro sobre um jardineiro e adorei. Também vi um filme, aliás, dois, e também adorei. É uma profissão que, quando exercida com desvelo e amor, é maravilhosa.

Aprendemos que as plantas não têm cabeça, que não têm tino. Há muito quem ache que a nível de intelecto ou de emoções são abaixo de calhaus.

Como também tenho muito respeito por pedras, não me revejo nesse desdém.

Mas não sei nada de botânica para poder ajuizar se as plantas sabem o que querem, se demonstram o seu querer e o seu bem-estar ou as suas afinidades através da forma como se desenvolvem.

Geralmente, quando aqui partilho vídeos, faço alguma validação, mesmo que ligeira, para perceber se não é tanga, se há fundamentação científica. No caso do vídeo que hoje aqui partilho, confesso a minha ignorância para poder avaliar se tudo o que aqui se diz tem validação científica. Mas, como é tema que me agrada, arrisco.

PLANTS Have CONSCIOUSNESS & Self-Awareness

Do plants speak the secret language of awareness, whispering knowledge and weaving connections to our Earth? Discover the science of superorganisms which are cosmic antennae with their own voice, healing humanity with melodies and music.

Listen to plants, the silent consciousness uniting all life. Flowers, trees, and fields exhibit unique anatomical and communication abilities to express agency and information. Roots, soil, pollen, and weather are all aspects of a supportive ecosystem teaching us about interconnected auditory understanding between species … at the crossroads of modern research and ancient wisdom.


Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, agosto 26, 2024

Este post não é sobre uma ave que passa cantando

 

Dia tranquilo. 

Comecei o dia a regar o jardim. O sistema de rega parece que pifou. Para ser mais precisa, não o sistema de rega em si mas o autómato que o comanda. Por isso, não arranca.

Pelo meu marido, não arranca, não arranca. Por ele, ou desencantamos alguém que o arranje ou nada a fazer. Por mim, não. Dá sempre como desculpa que não acha bem gastar água a regar. Não concordo. Acho que uma maneira de combatermos a desertificação é termos árvores, o solo coberto, vegetação. Nem é só a estética da coisa, é também uma questão ambiental.

Quando ele me viu de fato de banho e havaianas, espantou-se: 'Onde é que vais, de fato de banho?'. Ia regar, claro.

Reguei tudo bem regadinho e só não acabei a autobanhar-me porque já estávamos atrasados. Não sei como mas temos sempre qualquer coisa para fazer ou temos sempre que ir aqui ou ali. 

O almoço foram restos, como é óbvio. 

Depois de almoço, deitei-me a ler um livro e, passado um bocado, adormeci. Mas para que não pensem que em vez de ler só durmo, desta vez completo a narrativa e digo que, depois de acordar, continuei a ler. Um livro que me tem dado muito que pensar. Um dia que tenha sossego na cabeça, hei de falar nele.

Mas é um facto: não ando a ler tanto quanto era meu hábito e tanto quanto gosto e isto porque ando viciada em escrever. Só me apetece escrever. Por exemplo, estou aqui e as minhas mãos até fervilham com a matéria caliente que a minha cabeça está danadinha para deixar sair. Uma maluqueira, esta mania de escrever.

Um dia que eu consiga publicar alguma coisa e me torne uma escritora célebre vocês podem vir aqui ver como são os bastidores de uma escritora maluca. 

(Riam-se, riam-se...)

Gostava ainda  de contar uma coisa que não tem nada a ver mas de que agora me lembrei. Ontem, de manhã, eu e o meu marido fomos fazer uma caminhada por onde não costumamos passear. Às tantas começámos a ouvir uma música. Mas uma música sublime. Parei a tentar identificar. Não consegui. Sei que há apps para o descobrir mas não quis perturbar o momento pondo-me à procura de apps e tretas tecnológicas ali totalmente descabidas. O som vinha de uma casa muito bonita, uma casa incomum com uma arquitectura também sublime. Por mim, sentava-me no passeio e deixava-me ficar ali. Pensei que, por vezes, a felicidade aparece assim, como um momento inesperado.

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E agora, para não me despedir assim, sem mais, à papo-seco, procurei uma música qualquer e encontrei esta que também não tem nada a ver com o post. É o que é. 

Atahualpa Yupanqui - Ave que pasas cantando (en directo, 12.04.1977)

Cancion interpretada por el mas importante folclorista que ha tenido Argentina, en el programa "Esta noche fiesta". Su nombre verdadero era  Héctor Roberto Chavero Aramburu y junto a su esposa Paula Nenette Pepin fueron autores de piezas que se han convertido en clasicas del folclore argentino


Uma boa semana!