Não me apetece falar do meu dia. Não que tenha sido mau e, à tarde, até tive uma experiência interessante sobre a qual aqui poderia falar e, em especial, fazer comparações com uma realidade antagónica que é que a que melhor conheço.
Mas não está a apetecer-me.
Talvez esteja preguiçosa. Cheguei tarde a casa. Acabámos de jantar já passava um bom bocado das dez e meia da noite. Depois ainda estive a trocar uns dedos de prosa com alguns amigos. E ainda estive a fazer, aqui no google e chatgpt, algumas pesquisas. Por isso agora estou um pouco off. Não respondi ontem aos comentários e acho que hoje vou pelo mesmo caminho. Li-os, claro que sim, e agradeço-os mas acho que as minhas pilhas se vão extinguir no fim deste post. As minhas desculpas. Tentarei responder amanhã.
Mas também acontece que está muito vento. E eu gosto de ouvir o vento, gosto mesmo. Apetece-me estar sem fazer nada, a cabeça encostada ao sofá, a ouvir o vento. Mais nada. Tenho o estore corrido mas a janela de vidro está a bascular. Gosto de sentir o ar fresco da noite. Por isso, ouço tão bem o vento. E quando há árvores por perto, como é aqui o meu caso, ouve-se como que uma espessa valsa, um sopro forte como se mil tigres soprassem ao mesmo tempo.
Mas isto é o lado poético do vento. Há o outro lado. Há sempre outro lado. Há pouco, começámos a ouvir barulhos não identificados. Depois percebemos que vinham do outro lado da casa. O meu marido foi ver lá fora. O estendal de pé tinha caído e um regador andava a rebolar pelo chão.
Gosto de ouvir o vento mas sinto sempre algum temor perante os mais indefesos (sejam pessoas, animais ou árvores). Lembro-me de quando um pinheiro grande, in heaven, ajoelhou. E um cipreste caiu. E um cedro enorme tombou e, quando se quis endireitá-lo, as raízes desenterraram-se. Dias de susto para as minhas árvores.
Mas pior é para as pessoas que não têm boas casas em que possam estar abrigadas.
E, de tudo o que fui conseguindo ler, aos poucos, ao longo do dia, o que mais despertou a minha atenção foi o último post do Steve McCurry. Moments of Devotion.
These are people who are capable of devotion, public devotion, to justice.
They meant what they said and every day that passes, they mean it more.
– Wendell Berry
For the person who is religiously or spiritually inclined,
work even becomes a vehicle for devotion, a way of utilizing one’s gifts and talents to serve others.
Quanto ao que homens loucos andam a fazer pelo mundo não consigo dizer nada. Pessoas em que não habita a bondade, a tolerância ou a compreensão são seres que me são estranhos.
Não sei há quanto tempo existe a palavra resiliência enquanto termo usado fora do âmbito científico. Tenho ideia que até certa altura usávamos outras palavras mas a verdade é que agora percebo a justeza da palavra quando queremos assinalar a resistência perante as adversidades conjugada com a capacidade de seguir em frente. No Priberam leio que Resiliência é, na Física, a Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
Tenho ideia que é da nossa natureza adaptarmo-nos às circunstâncias, superando as dificuldades ou aprendendo a viver com elas.
Seja perante a doença, o desgosto, o medo, dificuldades logística de toda a espécie, a solidão, obstáculos que aparecem em catadupa, desastres naturais, as pessoas, em geral, arranjam forças que julgariam não possuir. Prevalece, habitualmente, o instinto de sobrevivência e a racionalidade. Qualquer coisa como se, nos casos limites, se não os podes vencer, junta-te a eles
Como sempre, Steve McCurry ilustra-o principescamente.
The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places
-Ernest Hemingway
Be like the bird that, passing on her flight awhile on boughs too slight, feels them give way beneath her, and yet sings, knowing that she hath wings.
-Victor Hugo
The greatest glory in living lies not in never falling,
but in rising every time we fall.
-Nelson Mandela
The bamboo that bends is stronger than the oak that resists.
-Japanese proverb
As citações foram retiradas do último post do blog de Steve McCurry, justamente intitulado Portraits of Resilience. Uma maravilha, somo sempre.
Estava eu a ter uma reunião, a porta da sala para o jardim aberta e o dog de guarda deitado, do lado de dentro, a dormir uma bela sesta.
De repente, ouvi-o a ladrar ferozmente. Como sempre, quando pressente perigo, não me abandona. Fica a ladrar para fora mas do lado de dentro. Mas, logo que viu quem era, saiu a correr, aos saltos, feliz da vida. Quem entra pelo lado da frente, se vier silenciosamente, não se ouve do lado das traseiras. Por isso, ferrado como ele estava, só deu por eles quando se acercaram.
Claro que depois já não os largou.
Entretanto, chegou o meu marido. Mas para os sons do meu marido, talvez porque são mais expectáveis, já ele está mais atento. Vai logo a correr para o jardim e, mal o meu marido entra, deita-se no chão para que ele lhe faça festas. Mas hoje deve ter-se atrasado um pouco pois, disse o meu marido, ficou no alinhamento de um pilar e não o viu. Mas o meu marido viu-o vir a correr e estacar, espantado, olhando em todas as direcções, admirado por não ver o dono.
Ao fim da tarde, já livres do trabalho e antes da hora da janta, fomos em grupo fazer uma caminhada. Habituado a passear geralmente apenas com os donos, o urso cabeludo veio saltitante e contente, feliz da vida.
Com os calores crescentes, alterámos a programação da rega. Na parte da frente, começa às nove da noite e vem vindo, por aí, em volta da casa, até que chega ao último ponto, do lado de trás, já mais tarde. Com esta novidade, o urso felpudo entra em órbita, tal a alegria. Persegue o jacto, anda em volta, e, claro está, molha-se de alto a baixo.
Tínhamos já acabado de jantar, um dos meninos foi atrás do urso. Veio a rir à gargalhada, numa risota espantada. Atrás, vinha a felpuda fera. Tinha reduzido de volume, parecia outro, um pinto pingão. Muda de fisionomia, fica mesmo cómico.
Depois, quando foi para tirarmos as fotografias de grupo, foi quase sempre o primeiro a vir a correr para o sofá onde nos sentámos todos, os rapazes a fazerem caretas, nós a rirmos. Não houve uma que ficasse totalmente bem: ou era o alf preto e cabeludo a saltar por cima de nós ou os rapazes a fazerem caras malucas. Recebi depois, por whatsapp, a melhor. Todos mais ou menos bem. E eu, no meio da confusão e da gargalhada geral, a rir, de pernas meio abertas, estragando a fotografia.
Quando se foram, ele foi atrás, despedir-se. Quando chegou a casa, finalmente sem outros motivos de distracção, atirou-se à comida. Comeu, comeu, depois arrotou, lambeu-se e veio até aqui à porta desta sala. Olhou para mim e, de súbito, deixou-se cair e aqui dorme a sono solto.
É um companheiro. Uma ternura. Um amigo. Um protector. Irrequieto e traquinas, faz buracos na terra e vem para casa sujar o chão, deu cabo dos meus brincos de princesa, já partiu bocados da sebe. Mas vem encostar-se a mim, deixa-se abraçar, gosta de festas. E gosta de todas as pessoas da família como se fizessem parte do rebanho que defende contra tudo e contra todos. É o nosso grande amigo, é uma presença afectuosa, um sopro de alegria que ilumina as nossas vidas.
Os cães são a nossa conexão com o paraíso. Eles não conhecem o mal, o ciúme ou o descontentamento.
Sentarmo-nos com um cão na encosta de uma colina numa tarde gloriosa é estar de volta ao Éden, onde não fazer nada não era chato. Era paz.
– Milan Kundera
As histórias estão mais cheias de exemplos da fidelidade dos cães do que dos amigos.
– Alexandre Papa
O único amigo absolutamente altruísta que o homem pode ter em este mundo egoísta, aquele que nunca o abandona, aquele que nunca se mostra ingrato ou traiçoeiro é seu cachorro.
- George Graham
Se você acha que é uma pessoa com alguma influência, tente dar ordens ao cachorro de outra pessoa.
- Sabedoria de cowboy
Você acha que os cães não estarão no céu? Digo-lhe, eles estarão lá muito antes de qualquer um de nós.
As fotografias que vêm a seguir ao meu fofo (fotografias feitas noutros dias, uma aqui, outra perto da praia, outras in heaven), são da autoria de Steve McCurry. A penúltima, adorável, foi feita em Portugal. As citações provêm também do post ao qual fanei o título: Our Link to Paradise
Tenho andado numa de cenas domésticas, incapaz de alinhar duas palavras sobre temas que não metam vassoura ou balde e esfregona.
Estiveram cá os meninos e é sempre uma ternurinha boa e uma alegria. Meninos lindos e queridos. Por isso, hoje o dia foi tranquilo e bom. Contudo, agora à noite surgiram uns mails algo inesperados que requereram a minha atenção e consumiram o meu precioso tempo livre.
Por isso, só agora estou a pegar nisto, e já passa bastante da meia-noite. Mas acho que não devo passar ao lado de mais uma daquelas enormes incompreensões históricas: o que está a passar-se no Afeganistão. O precipitar de uma situação inimaginável e as imagens que nos chegam parecem coisa de loucos. Parece uma história mal contada. Parece que adormecemos a meio do filme e que, ao acordar, percebemos que perdemos o fio à meada e já não conseguimos captar patavina do que está a passar-se.
Mas a vida, especialmente a este nível, está cheia de coisas mal explicadas. Ainda me lembro do dia da invasão do Iraque. Eu achava um absurdo e um abuso. Estava revoltada. Parecia-me inconcebível que a comunidade internacional apoiasse uma tal perfídia. Nesse dia, tinha um compromisso num local muito bem, nada mais nada menos que uma belíssima moradia no Restelo. O ambiente não era propício a discussões sobre temas destes até porque a pessoa com quem eu estava, por sinal um conservador encartado, acreditava piamente que haveria razões para a invasão, dizia que não lhe passava sequer pela cabeça que eu pudesse duvidar da veracidade do que presidentes de vários países diziam. Achava que a minha discordância era mais do que blasfémia, era uma coisa inimaginável. Duvidava até da minha inteligência. E eu achava que decisões daquela natureza só poderiam tomar-se mediante a evidência de provas inequívocas e que isso ainda não tinha acontecido e que, portanto, tudo o resto era, em minha opinião, um intolerável atropelo às mais elementares regras que deveriam regular o mundo.
Muitas vezes, desde então, temos falado nisso. Ele costuma dizer que se enganou quanto a isso mas que eu também já me enganei, nomeadamente quando não acreditei que acabassem com o BES e ele me dizia que, por muito estúpida que fosse essa decisão e por muito que lhe custasse dizer que o Passos Coelho era um bronco irresponsável, tudo levava a crer que era ainda mais burro do que parecia e que acreditava que iam mesmo estourar com o banco. E eu teimava que, por muito bronco que o Láparo fosse, não cometeria burrice de tal calibre e, se cometesse, o cego, surdo e mudo do Carlos Costa do Banco de Portugal, haveria de travá-lo. Enganei-me. Quid pro quo.
Mas nestas coisas ninguém de bom senso se sente feliz por ter razão. Tem-se é pena de se ter tido razão. Nem se deve ter pena de não ter tido razão. Aqui, em matérias destas (e uma guerra não é comparável a destruir um banco mesmo causando ondas sucessivas de danos para todo o sistema nos anos seguintes), tudo o que se diga ou pense está a milhas de tudo o que haveria para dizer ou pensar. Por isso, a decisão inteligente, será ficar em silêncio. Ou rezar.
(Uma oração em silêncio, sussurrada com temor e sob a maior incompreensão.)
Com o Afeganistão é quase a mesma coisa. Ninguém sabe bem a dimensão dos imbróglios nem quem está certo ou errado. Nada é linear, nada assenta em premissas francas e inequívocas. Há muita geo-política, muita geo-economia, muita geo-finança -- e muito disto tudo misturado e condimentado com informações geridas e geradas pelos serviços secretos.
Qual a verdade é questão que, nestes casos, está para além da filosofia. A verdade aqui é um pot-pourri de meias verdades, de meias mentiras, de farsas indecorosamente engendradas, de conluios, de traições, de estratégias, de tácticas, de enganos, de erros, de escaramuças, de confusões, de exercícios de relações públicas, de jogos de espelhos, de raciocínios que se perdem nas traduções.
No meio de tudo isto, por muito que custe aceitar, os que morrem, os que ficam estropiados ou traumatizados para o resto da vida são mero pormenor.
Que vinte anos de intervenção não tenham servido para nada, que muitas vidas se tenham perdido para nada são pormenores, pequenos apontamentos que não contam para a história. E é no h minúsculo que manifesto a minha tentativa de mostrar respeito (e muita pena) pelos que, em tudo isto, ficaram para trás.
Aqui, o xadrez joga-se a outro nível: China, Rússia, Estados Unidos, Europa, Reinos do Petróleo e das Armas -- cavalos, bispos, rainhas, peões, torres. Nesta guerra há um tabuleiro: o mundo. Há peças: muitas. Duvido é que haja um rei.
E, depois, colocando as coisas em perspectiva, não sei se alguma coisa neste jogo é mais relevante do que os mortíferos tremores de terra, os dilúvios nunca antes vistos, o degelo cada vez mais acelerado, os calores e os incêndios avassaladores, o mar que paulatinamente vai subindo, a pandemia que vai ceifando vidas -- tudo isto a que se assiste um pouco por todo o lado, desgraças que também sacrificam vidas humanas (e, em alguns casos, não humanas) e que igualmente resultam de decisões erradas e erráticas.
Na minha cabeça, para facilidade de memorização e para efeitos calculatórios, π = 3,1416. Claro que sabia que não era bem isso, que a seguir ao segundo 1 não era um 6, era um 5 e depois um 9 e depois.... um nunca acabar. Simplesmente, atalhava caminho e arredondava onde me parecia que já não fazia muita diferença. Num mundo analógico, as coisas eram 'mais coisa, menos coisa'. Mas o mundo em que vivemos já pouco tem de analógico. Ou seja, em determinadas situações em que a total precisão é fulcral, ter quatro, cinco ou cinquenta ou quinhentas casas decimais já faz diferença. O π entra em tudo o que é lado e a precisão, cada vez mais, é indispensável.
Pi appears everywhere, from the general relativity of Einstein to corrections in your GPS to all sorts of engineering problems involving electronics
Pi is, of course, a mathematical constant defined as the ratio between a circle’s circumference and its diameter. The circumference of a circle, we learn at school, is 2πr, where r is the circle’s radius.
It is a transcendental, irrational number: one with an infinite number of decimal places, and one that can’t be expressed as a fraction of two whole numbers.(...)
The constant appears in Euler’s identity, eiπ + 1 = 0, which has been described as “the single most beautiful equation in history” (and has also featured in a Simpsons episode)
(...) Mathematicians have estimated that an approximation of pi to 39 digits is sufficient for most cosmological calculations – accurate enough to calculate the circumference of the observable universe to within the diameter of a single hydrogen atom.
O artigo é fascinante. É uma lufada de ar fresco e de poesia naquilo que, se nada fizermos para inverter a trajectória, bem pode ser o caminhar para o fim dos tempos.
[Mas vamos fazer, vamos inverter a trajectória, claro que vamos]
Ontem, depois de ter publicado o post da noite, fui espreitar. E fui apenas porque sim. Porque sim, aliás, não. Estava na data limite e já estava intrigada por ainda não o ter. Mas tinha: já lá estava o relatório do último exame. Li em diagonal e, na minha ignorância, percebi que o cenário não era negro. Uma ou outra coisa confirmada e outra coisa que requeria google. Googlei e fiquei sem perceber bem. Entretanto, os médicos próximos já me descansaram e esta quinta-feira, com todos os exames feitos, vou à consulta da especialidade. Espero que a conclusão seja tão leve quanto o desejo.
Há bocado, ao falar com o meu filho, dizia-lhe que queria perceber o que me tinha acontecido. Tenho uma questão que é muito minha, muito matricial: perceber tudo. Enquanto não percebo, parece que fico agarrada ao assunto, com necessidade de investigar e aprofundar. O meu marido diz que isto é um defeito meu e passa a vida a dizer-me: esquece. O meu filho diz que eu deveria era estar contente por aparentemente não haver problema de maior em vez de estar a querer perceber o que se calhar não tem grande explicação. Por vezes, as coisas acontecem porque sim e não porque haja uma causa bem identificada. Pode até acontecer que parte das explicações resida numa coisa muito simples: já não tenho vinte anos.
Se as coisas forem tão tranquilas quanto o espero, logo conto. Não gosto de contar coisas quando estou preocupada e, muito menos, contar coisas que possam preocupar alguém.
Por isso, por me parecer que as conclusões do último relatório não são más de todo (capaz de até serem razoáveis) hoje andei ligeirinha, bem disposta, toda cheia de provocações, quase a fazer a cabeça do meu marido em água. Ainda há pouco, quando eu estava a gozar com ele, queixava-se que estava tramado, que tenho andado tão bem comportada... e que, agora, parece que me tiraram a tampa de cima, e já não há quem tenha mão em mim.
Ao fim da tarde, lembrei-me de ir até à praia e ele alinhou. Foi bom. Mas a maré estava cheia, com pouco areal plano e rijo para caminhar e, além disso, estava um bocado ventoso e fresco. Por isso, não deu para lá estar muito tempo. Mas foi bom.
Vou aprendendo -- ou melhor, forço-me a aprender -- a dosear melhor as horas e o esforço dedicado ao trabalho.
Mesmo agora, antes de ter começado a escrever este post, estive a ler e a responder a mails e, em alguns casos, estava a escrever e a sentir que estava a stressar. Irritam-me as pessoas irresponsáveis ou os aluados que não percebem o que se lhes diz, plantando-se no meio da organização só para empatar. Então, quando recebo mails daqueles, não consigo evitar aquela vibração negativa que me faz sentir irritada. Mas logo respiro fundo e tento dosear também aquela má emoção que não faz nenhum bem à saúde.
E depois há outra coisa... entrámos em Julho. Começo a sentir o apelo das férias.
O ano passado, apesar de altamente desafiante, foi um ano tão pesado e tão complexo para mim -- tantas coisas a acontecerem na minha vida, todas ao mesmo tempo, sem conseguir colocá-las em compartimentos que se fossem fechando -- que parece que fiquei a modos que meio esgotada.
E este ano, apesar de mais sereno -- muito mais, sem comparação -- tem sido também demasiadamente preenchido. Preciso de férias, de um intervalo, de uma interrupção nas minhas rotinas e nas minhas constantes responsabilidades, preciso de conseguir sentir uma coisa que pode parecer básica mas que há séculos que não consigo sentir: que não tenho nada com que me preocupar.
No entanto, esta droga deste coroninha da treta também não ajuda nada.
Devia sentir-me confiante para ir ao cabeleireiro e vir de lá outra, deveria sentir-me confiante para ir para férias, para ir para o Algarve, para um hotel, para ir levar belas massagens com óleos e pedras quentes, deveria para ir dar um passeio pelo país e sentir-me confiante para ir aos bons restaurantes. Mas ainda não me sinto confiante para isso. Tudo o que sejam espaços fechados me parecem ratoeiras em que, ou estamos sempre de máscara, ou é uma questão de sorte. E custa-me estar sempre de máscara.
Como ando nesta, quando cheguei da praia, peguei na tesoura e cortei um bom bocado o cabelo. Precisei de me agarrar para não ir por aí fora... e fazer um corte 'a garçon'. Mas tenho tanto cabelo que, apesar do lavatório ter ficado cheio dele, ainda mantenho aquela juba que, só de olhar, já me dá vontade de lhe meter a tesoura.
Depois enfiei-me na banheira e tomei um rico banho.
Havia restos de ontem, não tive que fazer o jantar. Portanto, menos mal. Mas persiste a ideia: tenho que arranjar maneira de descansar mais a sério, de interromper esta sucessão de dias em que há sempre chatices para resolver. Claro que este susto agora também não ajudou nada, foi mais um stress no meio do stress. Mas, enfim, desde que acabe bem, estará bem.
E, de resto, sei bem: sou uma sortuda, na verdade não tenho de que me queixar.
Portanto, adiante.
[Não tenho paciência para reler este relambório mas receio que esteja num tom de queixume ou lamúria. Não quero isso. Logo, logo, vou lembrar-me de alguma que me empolgue e descanse a cabeça. E logo, logo, hei-de vir para aqui rir e dizer disparates, para espantar estes estados de espírito que não levam a lado nenhum.]
Rir é que é bom. Olhar para a frente é que faz sentido. Nesta valsa a mille temps, o resto -- o tempo em que se olha para dentro ou para trás ou se está a carpir -- é perda de tempo, entretenimento de mau gosto. E essa é que é essa.
And Joy is Everywhere;
It is in the Earth’s green covering of grass;
In the blue serenity of the Sky;
In the reckless exuberance of Spring;
In the severe abstinence of gray Winter;
In the Living flesh that animates our bodily frame;
In the perfect poise of the Human figure, noble and upright;
Nada pode ser tomado como garantido. Nada, nada, nada.
Amores eternos soçobram ao fim de algum tempo. Paixões que se julga fortificadas por unirem almas que quase parecem gémeas esbatem-se e acabam reduzidas a nada. Empregos maravilhosos acabam sem que as pessoas tenham nisso qualquer responsabilidade. Pessoas saudáveis descobrem que afinal, sem o saberem, estão doentes. Gente que se acha o máximo, tratando os outros com mal disfarçada sobranceria, acaba, de um dia para o outro, por ser alvo de desprezo ou chacota. Qualquer de nós já testemunhou ou viveu situações destas. Por isso, quem se sinta titular perpétuo de privilégios, sejam de que natureza forem, está apenas a candidatar-se a um balde de água fria que o deixe desolado até à quinta casa. Mais vale a gente sentir-se agradecida pelo que tem e, a cada momento, estar mentalizado para a probabilidade de, um dia, ter que voltar à casa de partida e, passo a passo, voltar a conquistar tudo (a casa, o trabalho, o amor, a saúde, o respeito alheio, a dignidade)
Muitas quedas, doenças e desgostos podem quase anular uma pessoa e imagino o brutal esforço que é necessário para que se reergam, refaçam, reinventem. Imagino também que, se isso acontecer sem apoio ou companhia, seja muito mais difícil. Por isso, é importante que estejamos despertos para perceber quem, junto a nós, precisa de ajuda. Contudo sei também que muitas vezes quem o precisa não o pede: para não preocupar os outros, para não assumir a sua própria vulnerabilidade, com receio de inspirar pena ou repulsa. Reconhecer que se tem um problema e que se precisa de ajuda é fundamental e requer, muitas vezes, uma grande coragem.
O vídeo que abaixo partilho mostra-nos Paul, um jornalista desempregado, sem casa. A sua bonomia e a esperança que o anima são comoventes.
Paul is a journalist. Since losing his job, he has hitchhiked over 36 000km in 15 months across South Africa, looking for work. In a country described as one of the most dangerous in peacetime and with unemployment of well over 30%, his efforts have been in vain. But his journey has taught him many lessons about the kindness of ordinary people.
"We all have problems, we all have challenges. But we all have the ability to do some good." - Paul
Talvez o título 'On the road' devesse ser traduzido não por 'Na rua' mas, talvez, simplesmente, por 'Na estrada' ou 'A caminho', em especial pelo seu incansável caminhar, não menos do que uma média de cerca de oitenta quilómetros por dia ao longo de quinze meses. Comecei por intitular o post por 'sem nada' mas também não é verdade que Paul não tenha nada. Tem. Tem um sorriso cativante, tem força anímica para continuar a tentar ter uma vida mais segura, tem ainda o gosto pela leitura e pelos outros, tem esperança. Por isso, talvez tenha o que é necessário para continuar a procurar uma vida melhor. Fica, pois, simplesmente, 'na rua'
E entrei naquela fase de despedidas do ano que me leva a expressar desejos para o ano que vem.
Por exemplo, gostava de dizer que penso que deveremos sentir compaixão pelos que, sem que alguma vez lhes tenhamos feito algum mal, nos insultam, nos tratam desrespeitosamente. Mas só até ao ponto em que o que nos fazem de mal não nos afecte. A partir daí, há que ter a coragem de lhes dar um claro 'chega para lá', em especial quando o mal já roça a violência, mesmo que apenas psicológica. Em contrapartida, é bom que demonstremos a nossa estima pelos que nos querem bem. O afecto é um dos motores da estabilidade emocional e a sua demonstração, mesmo que não efusiva, é a base na qual assenta a harmonia entre as pessoas. Claro que há muitas pessoas que vivem sozinhas, sem contacto com família ou com amigos, e estão bem assim. Talvez alguns deles tenham amigos virtuais e, de vez em quando, descarreguem as suas frustrações insultando 'conhecidos' por quem alimentam ódios de estimação. Para esses também deveremos, creio eu, reservar alguma compreensão. A vida é curta. Saborearemos melhor o privilégio que nos é dado por vivermos se o fizermos em paz, connosco e com os outros.
As férias grandes este ano são curtas. Mas o dia de hoje foi um dia grande. Pelo dia em si e talvez também por ser um dos últimos dias de férias (este ano apenas são dez), foi não apenas grande como muito bom.
Fomos outra vez à praia de manhã e a minha filha e os meninos juntaram-se-nos. Areal extenso, mar lindo, bom tempo. Para o almoço juntou-se-nos o meu filho e respectiva família. A reunião é sempre motivo de alegria para todos e, em particular, para os meninos que se adoram. Ele trouxe frangos assados, arroz e batatas fritas. Antes, vindos da praia, eu e o meu marido passámos pelo supermercado e trouxemos sumos, pães variados (e se os havia bons) e gelados. Fruta e salada havia em casa. A minha filha trouxe um bolo que fez à noite.
Portanto, mesa grande sob o toldo, cercados por buganvílias em flor. Conversa sempre animada, os meninos sempre em festa. Até me apeteceu cantar os parabéns a você mas ninguém achou que viesse a propósito. Só o bebé, que disse logo que apagava as velas.
Depois, uns em teletrabalho, outros em férias, os meninos na conversa, na partilha de informação sobre vídeos, sobre jogos, a andar de balouço, a brincar, a tarde foi decorrendo na maior tranquilidade. O jardim transmite serenidade, é muito verde, muito acolhedor. Estamos nele e sentimo-nos em paz, longe de qualquer mal.
Mais para o fim da tarde, o meu filho saiu com a criançada toda para um passeio de bicicleta. É uma coisa bonita de se ver. O bebé vai na cadeirinha da bicicleta do pai. Os outros quatro, cada um na sua. Todos de capacete. Um bando animado e colorido.
Passado um bocado, talvez mais de meia hora, não sei, passaram por casa para beber água. Cada um deve ter bebido um litro de água. Vinham encalorados, divertidos. E lá foram de novo. Passado um bocado regressaram, um dos ciclistas tinha dado cabo de um joelho. Mas, valentão, suportou bem a lavagem e tratamento. Depois foi o lanche. Iogurtes, sandes, pães de deus, sumos, bolo.
E estivemos a ver fotografias de cães que estão para adoptar. Já estamos nesta fase. Depois de, durante anos, eu ter jurado que não voltaria a afeiçoar-me a um cão para não passar pelo desgosto de que ainda não me recuperei quando a nossa canita se foi, já estou convencida a voltar a ter outro. Não sou muito de fiar nestas minhas juras -- é o que se conclui. Estou convencida... mas é um convencimento condicionado. Em abstracto, parece que já percebi que sim, voltarei a ter um amigo daqueles que é tão verdadeiro que tudo farei para nunca o decepcionar mas, em concreto, ainda me custa dar esse passo. Voltar a ter um cão a quem vacinar, tratar, que vai fazer disparates, na volta buracos na relva, necessidades onde não deve, de que não teremos vontade de nos separar quando formos passear, que transportaremos no banco de trás do carro e que provavelmente deixará o carro a cheirar a cão... é daquelas para a qual parece que ainda não estou psicologicamente preparada.
E, quando foi da nossa boxer, havia uns criadores onde uns primos tinham comprado o seu e fomos lá. Tinha pedigree, estava registada, sabíamos de que tamanho iria ser, conhecíamos o seu temperamento. Desta vez decidimos que, a termos cão, será um adoptado. Portanto, não há raça, não há pedigree, na maior parte das vezes não se conhece pai e mãe, não se sabe como será em adulto (se adoptarmos um jovem). Eu não quero com pêlo grande para não encher tudo de pêlo, não quero caniche, não quero esganiçado, não quero tipo galgo ou desses estrelicados. O meu marido quer de porte médio/grande ou grande e que seja um bom cão de guarda. Olhamos para as fotografias e hesitamos. Eu hesito porque receio dar este passo. Ele hesita porque fica na dúvida quanto ao porte e características do cão quando adulto.
Os meninos ficam entusiasmados de cada vez que vêem qualquer um, só querem que o vamos buscar, não vêem a hora de andar por ali a brincar com um cão. E não percebem estas nossas dúvidas.
Depois o meu filho e família lá foram. A minha filha ainda continuou por mais um pouco. Andei a varrer a relva e um dos meninos a ajudar-me, outro a ler o livro dos cães, ela a aproveitar os últimos raios de sol e a ler. E depois também foram.
Eu, ainda de fato de banho, mantive-me a ler o Narciso e Goldbum enquanto os pássaros passeavam e cantavam por entre as árvores. E assim fiquei até que a luz começou a escassear.
Agora que aqui estou de regresso a esta sala clarinha e acolhedora penso que não é preciso procurar muito para encontrar a felicidade. Ela está nas pequenas coisas, na companhia daqueles que amamos, no prazer do contacto com a natureza. É certo que falo de barriga cheia. Quem não tem saúde, quem não tem trabalho ou dinheiro ou condições para viver condignamente não poderá falar como eu falo. Mas eu acredito que, mesmo na adversidade, se conseguirmos contar com a companhia e o apoio dos que nos são queridos, se formos capazes de dar valor aos momentos de luz, aos sorrisos, ao aconchego, então conseguiremos vislumbrar alguns instantes de felicidade. Ainda que breve, a felicidade faz bem à alma. Sentimo-nos bem a viver aquele momento. Parece que a nossa existência se justifica nem que seja apenas por estar a viver aquele bocadinho de vida.
A table, a chair, a bowl of fruit, and a violin; what else does a man need to be happy?– Albert Einstein
A quiet secluded life in the country, with the possibility of being useful to people to whom it is easy to do good, and who are not accustomed to having it done to them; then work which one hopes may be of some use; then rest, nature, books, music, love for one’s neighbors. Such is my idea of happiness.– Leo Tolstoy
It was only a sunny smile, and little it cost in the giving, but like morning light it scattered the night and made the day worth living.– F. Scott Fitzgerald
Happiness is not something ready-made. It comes from your own actions– Dalai Lama
Happiness is a warm puppy.– Charles Schultz
The art of creating intimacy cannot be bought by anything but time, interest and engagement in the people around you.- The Little Book of Hygge: The Danish Way to Live Well, Meik Wiking
True happiness comes from the joy of deeds well done, the zest of creating things new.– Antoine de Saint-Exupery
Life is not a problem to be solved. Just remember to have something that keeps you busy doing what you love while being surrounded by the people who love you.- Ikigai: The Japanese secret to a long and happy life, -- Hector Garcia Puigcerver
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Todas as fotografias são de Steve McCurry e ilustram o seu último post, Happiness: The Power of the Ordinary do seu Steve McCurry Curated, post do qual também transcrevi as citações. Tudo ao som de Debussy interpretando o seu Clair de Lune, coisa que me é algo especial.
Não sou de ligar ao dia de, em especial quando sinto que se mercantiliza uma coisa que não tem preço.
Apesar disso, este ano, no dia da mãe, recebi um boiãozinho de vidro pintado, com terra e uma florzinha pequenina lá dentro. Foi obra da minha filha. Gostei e fiquei sensibilizada. Levou também um para a minha mãe. Muito bonitos, uma ternura.
Vou guardando tudo. Ontem estava a fazer uma limpeza e dei com um vasinho pintado, coisa do meu filho, teria uns cinco anos, e também um bonequinho de madeira com cabelo de lã, já nem sei de qual deles. Por todo o lado me aparecem pecinhas assim. Fico sempre com o coração a sorrir. Quando eram pequeninos, pelos meus anos ou pelo natal, eu sempre dizia que gostava era de receber coisas feitas por eles, fosse o que fosse, mesmo que um papelinho com um desenho, com uma dedicatória. É o que fica. Pelo menos para mim é.
Em contrapartida, nunca fui de oferecer coisas à minha mãe no dia da mãe. Sempre achei que, se o fizesse, estaria a trair o que penso, que dia da mãe é sempre, todos os dias, sem folgas ou feriados, sempre, dia e noite. Por mil anos que passem, os nossos filhos serão sempre os nossos filhos queridos e a nossa mãe será sempre a nossa querida mãe -- todos os dias de todos os anos. Mas, quando me lembro disso, costumo dizer-lhe, mais por graça, mais para fazer de conta que estou a fazer o favor à convenção, mais para parecer que, por uma vez, sou capaz de me alinhar: feliz dia da mãe. Mas desta vez não disse. Feliz não seria palavra que pudesse condizer com aquele dia.
O meu filho também não me desejou feliz dia da mãe. Sabia que não ia ser um dia feliz.
Mas o dia teve momentos bons. Não vou dizer que não. Teve sim. Estive com a minha mãe. Estive com os meus filhos. Acabei o dia em casa do meu filho, nós numa ponta da mesa, da mesa grande do jardim, eles e os meninos na outra ponta. Tudo muito estranho. O mais pequeno intrigado. Sabe do corona mas não percebe bem que a sua Tá, que sempre o agarra e abraça e enche de beijos, agora se ponha de longe. Fica a olhar de lado, desconfiado, quase sentido. No fim, fez adeus de uma forma carinhosa, uma maturidade naquele sorriso inocente que me enterneceu. Os mais crescidinhos compreendem. Contaram coisas, perguntaram coisas, mostraram coisas. Muito bom, estar com todos eles. Que vontade de os agarrar. A toda a hora a pensar: mas faz isto sentido? será que é mesmo necessário? que mal poderia haver se eu os abraçasse e beijasse? Mas, pronto, tudo isto é estranho e uma pessoa vai interiorizando a estranheza.
Hoje o dia também esteve assim, cinzento, abafado e triste. Mas, ao fim do dia, quando consegui ir dar um passeio por entre as árvores, ao som de um coro de pássaros felizes, quase já estava a dá-lo por perdido, eis que o céu se abriu e, em fez de se pôr, o sol nasceu. E, de súbito, sobreveio aquela poalha dourada que pousou sobre as árvores, sobre o alecrim, sobre o rosmaninho e sobre a madressilva, aquela luz mansa que adoça o olhar e a alma. E eu, que ainda tinha limpezas para fazer, fui-me a elas com mais gosto e energia.
Estive a trabalhar até há pouco. Depois da jornada do costume, que acabou tarde, vieram as limpezas e, a seguir à janta, que foi o resto do almoço, engrenei no turno da noite. Agora aqui estou, já liberta, e, como habitualmente, fui espreitar os ilustres da galeria lateral. E fui da ternura à saudade, da surpresa ao agrado, da admiração ao riso, da aprendizagem à estranheza. Até que cheguei a um que me derrubou tal a força do abraço que continha. Every Day is Mothers’ Day. Uma maravilha, um aconchego. Provêm de lá estas fotografias -- que são todas do autor do blog, Steve McCurry, excepto a última que é de Dorothea Lange -- tal como de lá vêm também as citações que mais abaixo podem ser lidas bem como a Reverie de Scott Buckley.
Motherhood: All love begins and ends there.
– Robert Browning
It may be possible to gild pure gold, but who can make his mother more beautiful?
– Mahatma Gandhi
All that I am, or ever hope to be, I owe to my angel mother.
– Abraham Lincoln
Mother is the name for God in the lips and hearts of little children.
– William Makepeace Thackeray
Mother: the most beautiful word on the lips of mankind.
—Kahlil Gibran
A mother’s love for her child is like nothing else in the world. It knows no law…
– Agatha Christie
Todas as mães têm uma força imensa, uma força que move o mundo
Só uma coisa: é que, no meio da trabalheira, me lembrei de convocar a família para uma vídeoconferência. Como em cada casa há mais que um computador, os dos adultos e o iPad dos meninos -- que na escola já o usam e agora por maioria de razão -- receberam todos convocatória. E, então, foi uma alegria. Na casa do meu filho, os meninos estavam felizes, cada um em seu sítio, conversando uns com os outros por esta via e aparecendo, de surpresa aos outros, para mutuamente se surpreenderem. O primeiro meeting foi a seguir ao almoço mas houve confusão pois um dos da minha filha estava a ir para as aulas. Mas a menina apareceu toda aperaltada. Adorei vê-la. Disse-lhe: 'Mas estás tão bonita, com uma roupa tão bonita...'. Ela, coquette, disfarçando: 'Não, não, nada, apeteceu-me foi pôr umas collants, há muito tempo que não usava...'. Ouvi o pai a dizer: 'Foi, foi...'. O meu marido segredou: 'Não digas nada, não a envergonhes'. A posteriori, tive que lhe explicar que a alegria de perceber que os outros reparam em como nos arranjámos bem às vezes parece timidez. Mas, por baixo do que parece timidez, está a alegria, a motivação para uma próxima vez.
Ao fim da tarde já estávamos todos. O que em tempos era, aqui, por mim, chamado de ex-bebé e que agora já é um menino crescido com nove anos estava a fazer um lego que lhe oferecemos e que os tios encomendaram, por nós, recorrendo à glovo. Gostou do presente. Estava já resignada à ideia de não podermos oferecer-lhe um presentinho, quando os tios se lembraram desta alternativa. Assim, quando ele até estava conformado com a ideia de que, face às circunstâncias, não poderia ter presentes, o meu menino mais querido recebeu vários. Aliás, do lado da mãe, também. É que mal ela pressentiu que isto poderia acontecer, ainda a porca não tinha começado a torcer o rabo, foi logo a correr, num fim de dia, e preveniu-se com o qb para lhe organizar uma festinha e ter presente para o seu 'bichinho'. Entretanto, o menino do meio queria era combinar jogar o fortnite com os primos. Ela mostrou-nos o trabalho que tinha feito de tarde e que me pareceu um cogumelo cheio de brilhantes e que, afinal, era uma menina, creio que com brilhantes no cabelo. O bebé andava à aventura, descobrindo os irmãos, perguntando coisas, radiante da vida. O mais crescido de todos, está cada vez mais um pré-adolescente. Ainda hoje, ao vê-lo numa fotografia de costas, até tive que ampliar, já me parecia um rapazinho crescido, outro que não ele. Meu amor mais lindo.
Foi ele que me baptizou como Tá. Era bebé, ainda não falava e quando eu lá ia a casa, ria, brincava e dizia tá, tá, tá. Um dia a minha filha disse: eu acho que a tá és tu. Não achei, achei que era apenas alegria. Mas, à medida que foi crescendo e dizendo as primeiras palavras, foi ficando cada vez mais claro que a Tá era mesmo eu. E era. E ainda hoje sou.
Momentos bons. Aos poucos vamo-nos habituando a apreciar os sucedâneos, como se estivéssemos a descobrir outras formas de expressar o afecto.
E esteve sol. Não um sol exuberante mas, antes, aquele solzinho manso que nos faz brilhar os olhos e o coração. Depois do cinzento e do frio que me custou na alma, um dia suave, morninho, aprazível.
Tive reuniões na rua. Via-me no monitor do computador com o cabelo luzindo ao sol, o rosto atravessado pela luz. Do outro lado, ouviram os passarinhos. Senti-me melhor, consegui trazer um pouco do encantamento do lugar para dentro de situações que de encantamento têm raspas.
Na parte da manhã, só me despachei do trabalho bem depois da uma e, antes do meeting familiar das duas, tinha que almoçar e telefonar à minha mãe pelo que foi de raspão que, antes de fazer a chamada, vi os números. Vi o número absoluto dos novos casos e mentalmente calculei que não devia chegar aos 10%. Fiquei contente. Em número absoluto são muitos, os casos difíceis vão surgindo, cada vez mais, os que não resistem também. Mas, se conseguirmos continuar assim, regredindo na percentagem, estaremos a ir no bom caminho e talvez consigamos evitar chegar ao desespero mais absoluto em que, por exemplo, se vive em algumas regiões de Espanha ou Itália. Mas, ainda assim, vai ser muito mau. Quem está mal, está mal durante muito tempo. É daqueles casos em que a matemática também ajuda. Neste caso é a teoria das filas de espera que entra em cena. Neste caso há mais doentes a chegarem aos cuidados intensivos do que a sair deles. Desenvolve-se o efeito de acumulação que, neste caso, tem a particularidade de estarmos a falar de pessoas a precisarem de assistência para respirar e de os que lá estão não darem o lugar a outros senão ao fim de muito tempo (a menos que morram antes, claro). É, pois, fácil modelizar a situação para calcular de quantos ventiladores se vai precisar tal como é fácil perceber que, por muitos que haja, serão sempre poucos.
Caneco. Não queria falar nisto.
Queria falar noutra coisa.
Mas a esta hora estou a ver o Governo Sombra e, uma vez mais, aprecio a sensatez e a honestidade intelectual de Pedro Mexia e a estupidez insanável de João Miguel Tavares. Agora acha que o governo vai ter que dizer em que data é que se vai poder abandonar o distanciamento social. Como se o governo devesse ser mentiroso e estúpido só para lhe agradar. Só um mentecapto pode pensar assim, caraças. E eu a única coisa com que me espanto é por alguém o convidar para emitir opinião. E não apenas o convidam como lhe pagam. Gente, certamente, ainda mais burra que ele.
E, já agora que voltei a descambar para este tema tão incontornável, deixem que expresse a minha estranheza por não ver sinais de solidariedade e compaixão por parte da Igreja. Não digo que não haja, digo apenas que não vejo. Esperaria que os cardeais e bispos anunciassem que os mosteiros e demais edifícios habitáveis tinham sido cedidos para alojar idosos de lares onde surgem casos ou, de futuro, se não houver lugar para albergar infectados ou doentes em recuperação mas ainda contagiosos. Assim como esperaria que a Igreja tivesse já anunciado que padres, freiras, diáconos, acólitos, beatos e demais fiéis tinham sido alocados ao cuidado de idosos isolados em casa, ao cuidado dos sem abrigo e de todos que sejam vítimas indefesas desta droga virulenta. Mas não ouvi ainda nada disso. Não sei o que se passa. Agora que missas e outros ajuntamentos estão fora de questão (e presumo que nem façam grande falta), não estaria na altura dos devotos receberem formação e mostrarem que existem para abnegadamente servir os outros? Mas, na volta, está bem, está.
Bem. Digo que não quero falar nisto e, mal me distraio, aqui estou caída. É que queria era falar do post tão bonito do Steve McCurry, do qual retirei as fotografias e as citações abaixo que aqui partilho convosco: Proud, Strong, Unshakeable: Portraits of Resilence.
The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places – Ernest Hemingway
Resilience is the ability to overcome adversity, cope with setbacks, and persevere in the face of trauma and deprivation.
The greatest glory in living lies not in never falling, but in rising every time we fall. – Nelson Mandela
The bamboo that bends is stronger than the oak that resists. – provérbio japonês
E queria falar disto porque sinceramente acredito que, no meio da adversidade, da saudade, do medo, do sofrimento, do desespero, das dificuldades e da falta de alento, é necessário que, de dentro de nós, se levante a força que todos temos, uma força mesmo que desconhecida, se levante a esperança, se levante a persistência. Haveremos de chegar a dias melhores. É respirar fundo, olhar pela janela, procurar uma ideia que traga paz e beleza, levantar a cabeça, esperar que melhores dias cheguem -- e acreditar.