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domingo, março 23, 2025

Será que as sondagens mentem tanto como o Montenegro?
-- A palavra ao meu marido --

 

Desde quinta-feira que temos o regabofe instalado na comunicação social. Como foi publicada uma sondagem em que a AD tinha 20% das intenções de voto, o PS 15% e o conjunto da esquerda 3%, a maioria dos comentadores e algumas televisões (claro que a SIC foi a mais entusiástica) não se calaram a tecerem loas à governação do Montenegro, concluindo que Portugal são uns Estados Unidos em miniatura e que, tal como o MAGA em relação ao Trump, a malta se está nas tintas para os "enviesamentos" (para ser meigo) do Montenegro.

Mas vale a pena analisar a sondagem com mais profundidade e rigor do que foi feito propositada ou involuntariamente (quiçá por falta de conhecimento) por alguns dos jornalistas e comentadores. 

Segundo  a ficha técnica da sondagem, o universo da amostra é 802 pessoas (que correspondem aos escassos 15% que responderam às questões o que, já de si, mereceria uma ponderação). Analisemos, então, os números, segundo a informação publicitada.

  • Na AD afirmaram ir votar 160 pessoas, 
  • 120 pessoas afirmaram votar no PS
  • 72 pessoas têm intenção de votar no Chega 
  • na IL temos 32 pessoas 
  • e, em cada um dos partidos de esquerda, menos mal, lá houve uns 8 que têm intenção de votar ou no PC ou no Livre ou no BE. 

Não parecem quantidades de respostas impressionantes para que tanto alarido tenha sido feito.

Aliás, na mesma sondagem,os dados mais interessantes talvez até tenham sido estes:

  • 313 pessoas responderam que ainda não tinham decidido 
  • e 417 pessoas responderam que os esclarecimentos do Montenegro são insuficientes.

Portanto, as conclusões -- admitindo que com um número de respostas tão pequeno podemos considerar os resultados válidos --  são:

  • temos mais indecisos do que o conjunto de intenções de voto nos dois maiores partidos, PDS e PS
  • e mais pessoas do que o total de pessoas que afirmou terem intenções de votar em qualquer dos partidos responderam que pretendem saber mais sobre o Luís e a sua empresa (Spinunviva). 

Ou seja, afinal, as "historietas" do Luís não passaram à história.  

Apresentar os dados desta forma é bastante diferente do que tem sido alardeado pelos órgãos de comunicação social. Seria mais honesto e mais ético apresentar os números como eles são (honi soit qui mal y pense).

Nota: o total das percentagens não dá 100% pelo que pode haver uma questão de casas decimais e/ou de intenções de votos em pequenos partidos aqui não mencionados ou, mesmo, imprecisões nos dados divulgados. 

Já agora, e não querendo aborrecer o Luís, pergunto:

  • Não parece esquisito que, a ser verdade o que tem sido noticiado e não desmentido, o valor do metro quadrado de construção declarado por ele para a luxuosa casa de Espinho -- que até elevador tem --, tenha sido inferior ao preço médio da construção em Espinho? 
  • O valor declarado estará relacionado com alguns subsídios? Ou terá também a ver com alguma 'optimização fiscal'? 
  • Não parece esquisito que uma empresa que se dedicava a atividades relacionadas com o RGPD, só 18 meses depois de iniciar a atividade tenha cumprido os requisitos legais nesta área? 
  • Não parece esquisito que não estejam reduzidos a escrito os contratos relacionados com as avenças da Spinunviva? 
  • Não parece esquisito que alguém que pormenorizou o número e tipo de árvores que tinha em cada terreno não se tenha lembrado das relações comerciais da empresa de que era proprietário? 
  • Não parece esquisito que o advogado Luís não soubesse que a passagem das quotas para a mulher o mantinha como proprietário da Spinunviva?
  • Ou que não podia unir andares com diferentes proprietários?
  • E que os pedidos de licenciamento não podem se apresentados trinta dias depois do início das obras?~
  • ... 

E finalmente, mais uma cereja no topo do bolo. A célebre Inês Patrícia afirmou numa entrevista que  a Spinunviva se auto geria. Até fiquei comovido: recordou-me o PREC e as empresas em autogestão. E das duas uma: ou estamos perante perigosos revolucionários ou querem enganar-nos. Só faltava mais esta pérola! Não parece esquisito... é, no mínimo, muito esquisito!

  • Questão adicional: não seria mau, para sabermos se também não será esquisito, conhecermos quais as despesas contabilizadas na Spinunviva. Terão sido contabilizadas despesas não decorrentes da estrita atividade da empresa? Estando  a empresa em "autogestão", não terão sido indevidamente consideradas admissíveis? Senhores Jornalistas temos e devemos saber!

E uma sugestão aos Senhores Jornalistas: leiam 'Como mentem as sondagens' do Luís Paixão Martins. Talvez vos seja útil.

sexta-feira, outubro 11, 2024

Os da 'bolha' acham-se porta-vozes dos 'Portugueses' e dizem, à boca-cheia, que os 'Portugueses não querem eleições'.
Azarinho.
A mais recente sondagem diz que a maioria dos inquiridos acha que, se o OE não for aprovado, é preferível haver eleições...
Conclusão: os da 'bolha' ainda não perceberam que não pescam nada do que os Portugueses pensam...?

 

Marcelo dá dois passos e, se lhe puserem um microfone à frente da boca, diz 'os portugueses não perceberiam', 'os portugueses não querem' e todas as declinações possíveis do que 'os portugueses querem'. Depois vem o Marques Mendes e com aquele seu ar sonso e bonzinho, enche o peitaça de ar e diz 'os portugueses não iam compreender' e por aí continua, repetindo o mote que o chefe Marcel lançou. E depois vêm todos os outros e outras que, dentro da bolha, esbracejam, nadam, andam de boca aberta, em carneirinho, repetindo-se uns aos outros, e o mantra é sempre o mesmo: 'os portugueses não iam compreender', 'os portugueses não querem eleições'.

Na bolha respiram o ar uns dos outros, o ar viciado, e aparentemente também se alimentam do que uns e outros mastigam. Inteligência circular -- infelizmente, sem oxigénio a evitar a putrefacção.

E depois vem uma sondagem e constata-se o óbvio: se não houver OE a maior parte da malta acha que mais vale que haja eleições.

Não é que alguém com dois dedos de testa goste de andar sempre em eleições. Não gosta -- mas também não as teme. E a isto chama-se pragmatismo. Apenas pragmatismo. 

Se estes que por aí andam, na praça pública, a insultar-se uns aos outros (catavento, mentiroso, quis negociar comigo, não quis nada negociar com ele, mente, mente) assim continuarem, sem que ninguém se entenda, uma pouca-vergonha, e, nos intervalos, se o Luís Mentenegro mais o seu Sarmento Pança continuarem a distribuir dinheiro a rodos, despejando money para cima da malta toda, aumentando a despesa pública à cara-podre como há décadas não se via, e se virmos que não passa disto, então não será preferível que se tente encontrar um quadro político mais equilibrado?

Marcelo não deveria ter previsto este caldinho, este granel, antes de andar a dissolver Assembleias, antes andar a destruir maiorias absolutas, antes de obrigar a malta a andar a votar sem necessidade nenhuma? Claro, claro que devia. A Marcelo se deve este lindo panorama.

O que eu gostava é que os directores das televisões percebessem que a malta da bolha já fede e lhes desse uma corrida em osso. É que da boca deles já só sai jaca, ainda por cima jaca regurgitada.

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E queiram descer e, já agora, se souberem, digam quem é o mentiroso encartado: o Ventura ou o Montenegro.

terça-feira, fevereiro 27, 2024

Os 'meus' factos do dia: a importância que os excitados de direita (Maria João Avillez incluída) deram à aparição do Láparo no Algarve e a advertência feita pelo Luís Paixão Martins, na CNN, de que a tracking poll da dita CNN não representa a população votante pelo que os resultados apresentados podem não ser fidedgninos

 

Acordaram-me com um telefonema e já não voltei a adormecer. Com a necessidade de dormir de que sempre padeço, isto é grave. 

Acresce que finalmente vieram cá arranjar um depósito que estava a verter água. Vieram cedo e, claro, foi uma festa a nível canino. O cãobeludo ouve vozes, sente presenças estranhas, e, portanto, ladra, anda pela casa num virote, a avisar-nos do perigo e intrigado por o mandarmos calar em vez de irmos para os abrigos. Não houve sossego.

E se não acontecesse sempre aquilo de que o que pode correr mal, claro que corre sempre mal, teria sido bom. Mas correu mesmo mal e os homens estiveram cá até às nove e tal da noite pois, no fim de subirem e descerem ao telhado, de irem e virem ao sótão, de andarem dentro e fora, a coisa não funcionava. E o cão doido da vida. O meu marido já num desespero com vontade de os ver pelas costas. E eu na mesma. Mas, claro, não podíamos ficar sem água quente.

Com tanto entra e sai deles e tanto ladrar do pobre animal, esqueci-me de baixar o lume do fogão e só dei por ele quando me cheirou a queimado. Arroz queimado. O caldo veio por fora, queimando-se em volta do bico. Penso que foi só a camada inferior do arroz a ficar sacrificada pois, mau grado o intenso pivete a esturro, já o jantámos e estava bom. Como fiz para duas vezes, amanhã, quando formos mais fundo, é que devem ser elas. Mas, optimista que tendo a ser, ainda quero acreditar que, com sorte, o cheiro terá sido sobretudo do caldo queimado, que veio por fora, e não do arrozinho em si. 

De tarde, depois de almoço, estava com sono mas, com as movimentações e o barulho, não deu sequer para fechar os olhos. Mas bem precisava.

Depois dos homens terem saído ainda fomos fazer a caminhada nocturna com o cão de guarda. Um frio que só sentido, um vento antárctico, irrespirável de tão gélido.

Depois é que jantámos. Agora estou cheia de sono. E do cão nem falo: está aqui no chão, estafado, estendido, a dormir a sono solto. Quando é para dormir, costuma sair da sala e vai para os seus aposentos. Hoje não conseguiu, ficou a meio do chão, indiferente a quem entra ou sai da sala.

Não vi televisão senão agora. E pasmo com o relevo que os comentadores estão a dar à aparição do Láparo. Foi ao Algarve, nem sei se a Boliqueime, mostrar o seu sorriso sem lábios, foi lembrar-nos o seu ar malévolo. Um susto. Como se aquela criatura de má memória fosse mobilizadora para alguém. Por exemplo, apanhei um bocado da Maria João Avillez, numa excitação quase desvairada, pegada, imagine-se, com o Bugalho (que, honra lhe seja feita, lhe respondeu à altura), uma coisa que mostra bem a índole inflamada e facciosa das hostes laranjas.

Ouvi, depois, o Paixão Martins dizer que o Passos Coelho talvez mobilize aquela direita que anda indecisa entre o Montenegro e o Ventura. Talvez. Se, com isso, o Láparo conseguir fixar eleitorado laranja em vez de os deixar fugir para o Chega, menos mal.

Gostei foi de ouvir o Paixão Martins passar um atestado de incompetência à CNN por ter uma tracking poll deficiente, que, muito provavelmente, está a distorcer as análises feitas às tendências de voto. Imagino que, a esta hora, os da CNN andem a ver como remediar a situação. A menos que a intenção seja mesmo a de manipular a opinião pública. Já não digo nada.

Tirando isso, pouco ou nada mais tenho a dizer. 

Ainda tenho muita triagem a fazer nos livros que estão na cave, ainda a monte, (e preocupa-me, claro que sim, este acréscimo considerável de volumes pois se antes já tinha a perfeita consciência que nem que viva até aos 200 ou 300 anos conseguirei lê-los a todos, agora ainda mais difícil será -- até porque os livros antes tinham uma letra muito miudinha e uma pessoa a partir para aí dos 150 já deve ter uma certa dificuldade em conseguir entender-se com páginas compactas de letrinhas minúsculas; a menos que, daqui por uns anos, já haja maneira de fazer ligação directa entre as páginas dos livros e o cérebro, sem ter que esforçar a vista).

Para além dos livros mais antigos também terem um papel que agora já me parece um pouco desapropriado, alguns também já estão com a folhagem um pouco desconchavada. Mexo-lhes com mil cuidados mas a pensar que deveria dar-me ao luxo de gastar com eles o tempo necessário para recoser as folhas ou para colar as lombadas. Só que continuo a não conseguir dar vazão a tudo o que tenho em mente. Ou são coisas a mais ou tempo a menos ou, o que talvez seja provável, estou a ficar muito menos produtiva do que era antes.

Uma amiga contou-me que o marido, desde que teve covid, não voltou a ser o mesmo, que se cansa muito, que mal dá um par de passos a mais que o habitual fica logo com os bofes de fora. E ela é médica. Ou seja, pelos vistos ainda não descobriu maneira de o voltar a colocar nos eixos. Também tenho ouvido dizer que a gripe deste ano deixa algumas pessoas podres de sono. Ora eu, a seguir a ter covid, faz agora um ano, fiquei alguns meses pedrada de sono. E a gripe que tive há pouco tempo também me deixou com muito menos energia. Se calhar é isso tudo junto que ainda tenho agarrado a mim. Isso mais os anos que tenho em cima. Caraças.

E depois há este meu biorritmozinho do caneco. Podia escrever aqui durante o dia. Mas não senhor. Continuo a achar que o dia é para trabalhar ou fazer tarefas de outro tipo. Escrever aqui é hobby ou vício nocturno. Faça chuva ou faça sol só começo nisto às tantas. Portanto, só por isso, já era caso para ter sono. Agora imagine-se que, para além disso, há ainda o efeito cumulativo do sono e da quebra de energia pós covid e pós gripe. E já nem falo dos meses de stress agudo que vivi com a situação da minha mãe, o último dos quais totalmente arrasador. Conclusão: durante o dia, por vezes penso que quero falar disto ou daquilo. Depois chego aqui à noite e já estou com a bateria nos mínimos. Parvoíce, isto.

Bem.

E esta terça-feira vou ter uma agenda bem preenchida pelo que mais vale não ir muito tarde para a caminha.

Tinha aqui um vídeo bom mas fica para outro dia.

terça-feira, novembro 29, 2016

O PCP e o BE nas sondagens e nos actos





Vou dizer uma coisa.

Nas autárquicas, sempre que me pareceu ser a candidatura mais credível, votei no PCP. Ou melhor, na CDU, acho eu. Claro que não faço ideia qual a diferença entre a CDU e o PCP. Nem sei se CDU é feminina ou masculino pois não sei o que é o C. Podia googlar mas, a esta hora, não estou para isso. Nas legislativas nunca votei no PCP. É gente honesta, não tenho dúvidas disso, mas há ali uma utopia datada, improvável, que me afasta. Sobretudo, há uma forma sectária de ver o mundo. Ou talvez não seja isso, talvez seja apenas uma forma sectária de falar. Não sei. Sou próxima de pessoas do mais PCP que há, militantes, com vida pública ao serviço do partido. Contudo, não consigo falar de política com eles. Dá ideia que têm sempre um inimigo de estimação e que constroem a sua 'narrativa' em torno disso. 

Por isso, o PCP, apesar de reconhecer nos seus militantes uma genuinidade de intenções, não é a minha praia.

Sou, por natureza, despreconceituosa, aberta a ideia novas, gosto de pôr em causa tudo o que seja ortodoxia, não consigo aceitar que me condicionem a liberdade de pensamento e de expressão, sou uma desalinhada por natureza. Não poderia, pois, encaixar-me no PCP.


No Bloco de Esquerda também nunca votei. Ou melhor, votei no Miguel Portas para as Europeias. Mas, por cá, embora lhes reconheça algumas boas ideias e, por vezes, uma inegável capacidade de falar claro e de apontar o dedo a algumas anomalias do 'sistema', nunca votei neles. Sempre me pareceram um bocado inconsequentes, com muita sede de protagonismo, ávidos de mediatismo. Há ali um deslumbramento pelas suas próprias artes performativas que, por vezes, me enfastia. Outras vezes, parece que ficam cegos pelo tacticismo e, na prática, fazem o jogo daqueles a quem dizem combater. Tenho apreço pela inteligência acutilante de Louçã, tenho simpatia pelo humanismo de João Semedo, aprecio a empatia de Marisa Matias, acho que Catarina Martins tem uma combatividade desarmante -- mas, todos juntos, formam uma mistura que não acolhe as minhas simpatias. Acresce que acho que Mariana Mortágua não tem tento na língua, é muito auto-convencida, falta-lhe humildade e falta-lhe a autoridade que advém de uma vida vivida. E é um bocado exasperante constatar que ali, naquele Bloco, cada um pode exibir o ego a seu bel-prazer que não há quem se sinta com autoridade para mandar bater a bolinha baixa a qualquer outro.


Como já o disse muitas vezes, voto maioritariamente PS embora, como tenho confessado, parafraseando o O'Neill, seja na base do 'não me apetece mas voto PS'. Não me revejo nos jogos palacianos, não me revejo em amigalhices aparelhísticas, não me revejo no uso abusivo, para desviar atenções, do verbo fácil. E, por vezes, esses são tiques de que o PS padece (também versejei!). Mas, numa lógica de redução por absurdo, analisando pragmaticamente as alternativas, muitas vezes tenho chegado à conclusão que do mal o menos e, portanto, votei PS.


Mas, pelo que referi, não sou fundamentalista em relação a nenhuma das minhas ideias.


E é assim que é com pena e um sentimento de que uma injustiça está a ser cometida que vejo a fraca preferência dos eleitores pelo PCP que a última sondagem revela. 6% para o PCP é injusto. Desde que apoiou o governo PS, o PCP tem revelado uma enorme dignidade, uma atitude vertical e honrada. Não têm deixado de expor as suas razões, de encabeçar as suas lutas mas sempre de uma forma madura, sempre respeitando o acordo que fizeram, sempre de uma inteireza que deveria merecer melhor reconhecimento. Têm mostrado ser gente de bem e isso não é coisa pouca.


6% é o que o CDS também tem e o CDS é uma mão cheia de nada, um partido pífio, um bando de gente de cabeça oca, uma nítida nulidade. 


E custa-me ver como o BE, com toda o seu histórico de leviandades, algumas das quais bem recentes, consegue a preferência de 8% dos eleitores. 


Há nisto qualquer coisa de muito injusto.

A vida é assim, bem sei, cheia de injustiças, cheia de avaliações deficientes que conduzem a iniquidades. É dos livros: muitas vezes são os melhores que ficam pelo caminho. É da história: muitas vezes é por delicadeza que os melhores se deixam matar. É do dia a dia: muitas vezes são os que mais têm a dizer que menos são ouvidos.

Mas é por ser tão banal que nos conformemos perante toda a espécie de injustiças que a mediocridade vai alastrando como uma mortífera mancha de óleo, fazendo retroceder a civilização, anulando parte da elegância e da beleza da vida.

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E, por falar em beleza e em elegância, as pinturas são de Hiroshige (1797 - 1858) e é Jordi Savall quem interpreta 'Greensleeves'.

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Comecei referindo que ia dizer 'uma coisa' e acabei dizendo uma data delas. As minhas desculpas.

E agora, caso vos apeteça visitar o fantástico mundo das pessoas verdadeiramente inteligentes, queiram, por favor, descer até ao post que se segue.

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domingo, setembro 20, 2015

O Expresso, as sondagens, as imprecisões, as manipulações.
[Votos ou mandatos? Cavaco dá posse a este ou àquele? Daqui por pouco tempo vamos ter eleições legislativas antecipadas?]
É agora assim que aquela gente do Expresso se entretém a atirar poeira para os olhos dos incautos.
(Por estas e por outras é que me mantenho irredutível: enquanto o Expresso continuar a ser esta espécie de jornalismo não o compro!)


No post abaixo falei dos acéfalos que, com a sua inexistente coluna vertebral e reduzida cabeça, na Comissão, Conselho, Parlamento e demais labirintos europeus do poder, se ensarilham uns nos outros enquanto a Europa é invadida caoticamente por milhares (a tender para milhões) de pessoas sem trabalho, sem nada, apenas com a sua coragem, força anímica e esperança.

Aqui, agora, continuo a falar de temas que me incomodam. Mas, atenção, acho que sei pôr as coisas em perspectiva: aquilo de que agora vou falar em nada se compara com o assunto do post de que acima falei. Aqui falo apenas de trapalhices, chico-espertices, coisas menores. Claro que os assuntos do que vou falar não são inocentes e, se querem que vos diga, até acho que é através de manipulações deste género que, um pouco por todo o lado, os eleitores são manipulados a ponto de se desinteressarem dos seus deveres de cidadania e deixarem o seu destino entregue a gente incompetente, paus-mandados, vendidos.

Mas, enfim, agora nem vou por aí para que nem pensem que padeço da mania da perseguição. Não padeço.
...



Quero falar agora um pouco das sondagens com que o Expresso pretende desviar as atenções dos (e)leitores. Agora saíram-se com uma: de que o PS terá mais votos e os Pafs mais mandatos - e, em volta disso, montaram a barraca e estão a fazer um circo.


Os pafiosos artistas
que por aí andam a ver se enganam mais uns quantos:
é o enganam...!


Ora que está em causa nestas eleições (como em todas em que quem está em funções vai a jogo), é uma mistura de duas situações: por um lado avalia-se quem está em funções e, por outro, avalia-se, de entre quem está a ir a votos, qual o que apresenta melhores propostas e merece mais credibilidade para que possamos confiar que, se ganhar as eleições, irá cumprir o programa com que se apresenta.

E é nisto que os eleitores se deverão concentrar. Não é em larachas, bocas dos comentadores-avençados nem em especulações feitas em volta das ditas sondagens.


Gostava de vos dizer, ainda que de forma sumária, como é que se faz uma sondagem (e, acreditem, sei do que falo).

Uma vez sabendo-se o que se pretende perguntar (e, neste caso, é simples: nas próximas eleições, em quem é que vai votar?), começa por se identificar uma amostra significativa para que os resultados obtidos representem a totalidade da população.

Uma amostra significativa deve ter as mesmas características que a população.

Exemplifico com números completamente ao acaso: se a população for 52% feminina e 48% masculina, a amostra também o deve ser. Idem para a repartição etária, idem para a escolaridade, idem para o que for relevante em termos de comportamentos eleitorais. 

Além disso, há que definir a dimensão da amostra de modo a que os resultados caiam dentro dos intervalos de confiança admissíveis. Por exemplo, se a amostra for tão reduzida que a confiança dos resultados seja rudimentar, então não serve, ter-se-á que arranjar mais inquiridos - mas, atenção, respeitando a caracterização acima descrita.

Caso se pretenda chegar, numa sondagem, ao número de deputados eleitos, dever-se-á ter uma amostra segmentada por forma a poder obter valores distritais, ou seja, deverei ter amostras significativas por distrito ou, pelo menos, para os mais representativos.

Ora, do que vi na ficha técnica da amostra do Expresso, a amostragem não foi distrital mas, sim, regional (5 regiões) e apenas responderam telefonicamente cerca de 1500 pessoas, ou seja, cerca de 300 pessoas por região. Ou seja, as amostras não representam as idiossincrasias reais, distritais, e, além disso, as extrapolações foram feitas, certamente aplicando de forma muito livre o método de Hondt, dada a sua escassa representatividade.
O método Hondt é um modelo matemático utilizado para converter votos em mandatos com vista à composição de órgãos de natureza colegial. Caracteriza-se, essencialmente e de modo simples, pelo facto de o número de eleitos por cada candidatura concorrente a um determinada eleição ser proporcional ao número de eleitores que escolheram votar nessa mesma candidatura. Ora, no âmbito deste sistema existem várias fórmulas ou modelos matemáticos que podem ser utilizados para transformar votos em mandatos a atribuir às candidaturas concorrentes a certa eleição, sendo o método de Hondt um deles. O método de Hondt, integra a categoria dos métodos de divisores - por contraposição à categoria dos métodos de maiores restos - pois a operação matemática consiste precisamente na divisão do número total de votos obtidos por cada candidatura por divisores previamente fixados, no caso 1, 2, 3, 4, 5, e assim sucessivamente.
Através da aplicação do método, pode haver partidos com votos em número razoável que não consigam eleger deputados. Por isso, acontece que as pessoas, votando em pequenos partidos, acabam frequentemente por desperdição votos. 
E essa é uma das armas dos PàFs: ao estarem juntos (PSD+CDS), aproveitam cada voto ao passo que a esquerda (PS, PCP, BE, Livre, AGIR, etc, etc, etc), estando dividida por vários partidos, nomeadamente em vários pequenos partidos, desperdiça um número enorme de votos. 
Voltando à sondagem do Expresso: dada a natureza simplista da amostragem e, portanto, da própria sondagem, dificilmente se poderá atribuir grande credibilidade às conclusões que dali se retiraram.

Que, de um exercício que parece rudimentar, se tenha feito o filme que se fez, com os comentadores a caírem em cima do assunto como se de uma realidade se tratasse, é extraordinário. E que se tenham dado ao desplante de anunciar o que fará Cavaco perante tal situação, ainda mais extraordinário (e ridículo!) é. Liga-se a televisão e parece que já estão a falar de resultados finais e que o que está em causa já é perceber como é que o governo dos pafientos vai funcionar. Tretas. Manipulações desavergonhadas.

Do que me parece ver da ficha técnica da sondagem do Expresso, se alguma credibilidade ela puder ter, será ao nível de votos (não de mandatos) e, como bem refere Pedro Magalhães, dadas as dispersões de resultados entre agências - em que há resultados para todos os gostos - aquilo para que se poderá prestar alguma atenção é para tendências.

Por isso, meus Caros, não nos deixemos manipular pelo Dr. Balsemão, o patrão do Expresso e da SIC, o ex-director do steering committee do Bilderberg (e que agora designou como seu sucessor o nulo-perfeito Durão Barroso). 


Não é por acaso que ao Clube Bilderberg se chama o "governo-sombra mundial". Muito do que se passa no mundo é ali, sigilosamente, discutido e decidido. É gente não eleita, não escrutinada. É gente que usa os meios ao seu dispor para pôr e dispor no mundo, é gente que se serve de peões que, criteriosamente, são postos e removidos dos tabuleiros do poder, conforme as circunstâncias. Jornalistas, advogados, políticos. 


Foquemo-nos, pois, na análise que importa para podermos decidir o nosso voto, não nos deixemos usar como fantoches.  
A questão a resolver é simples: 

  • Queremos mais 4 anos de Láparo e vice-irrevogável? 
  • Ou queremos que vão dar banho ao cão? 



....

Tirando isso, podemos olhar para algumas informações.

Resultados das Eleições 2011



Evolução das sondagens desde Maio 2015



Portanto, 

  • Em 2011 o PS obteve 28,1% dos votos, enquanto agora as sondagens o dão com um resultado entre 33 e 36%
  • Em 2011 o PSD obteve 38,6% e o CDS 11,7%, ou seja, os PàFs tiveram 50,3% e agora as sondagens dão-nos com entre 35 e 38%.

Ou seja, o eleitorado, a ajuizar pelas sondagens, põe o PS a subir 5 a 8% desde as últimas legislativas enquanto dá aos Pàfs uma tareia de 12 a 15% dos votos.


Portanto, vir agora o Expresso -- e todos os papagaios que acefalamente se seguem uns aos outros  --falar de uma dinâmica de vitória dos PàFs é de a gente se rir. 

Como ontem já o disse, tenho cá para mim que vão ter uma surpresa pois intuo que o PS vai ter resultados mais altos e que os PàFs mais baixos e que, portanto, o Cavaco não vai ter que se maçar. Irá dar o lugar de primeiro-Ministro a António Costa e o resto são balelas dos meninos do Expresso. E eu, o que espero, é que, a seguir, António Costa forme um governo de gente qualificada e séria que pense, acima de tudo, nos portugueses.


...

E o que eu penso é que, pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos, não devemos desistir de acreditar nem de lutar - muito menos de votar.

E temos que acreditar num futuro decente, que traga de volta a esperança e o respeito ao nosso País.


'Love', uma escultura do ucraniano Alexander Milov

.....

E já é tardíssimo e o meu sábado não foi nada descansado. Não consigo reler o que escrevi pelo que vos peço que relevem gralhas que por aí andem. Vou dormir. E é a mim própria que, pela voz da Melody Gardot, desejo:

Good night


.....

Relembro que, no post a seguir, falo da cambada que, enquanto o mundo arde, anda despreocupadamente a dar cabo da Europa.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

...

sábado, setembro 19, 2015

A Senhora Cor de Rosa - que entalou Passos Coelho numa arruada dos PàFs - proporcionou um belo momento em televisão com o Ricardo Araújo Pereira no Isto é tudo muito bonito mas.... Isto num dia em que Costa mostrou o seu sentido de humor, rindo-se ele e o RAP, na maior boa disposição.

E ATENÇÃO: leiam aqui a minha previsão para os resultados relativos ao PS, aos PaFs e ao BE


Uma das grandes vencedoras dos debates políticos nesta campanha eleitoral foi a Senhora Cor de Rosa: entalou o Láparo à grande, não desarmou, deu luta e levou o Passos ao tapete cá com uma pinta...!


Pois bem, Depois de, no outro dia, os Gato Fedorento já terem mostrado esse glorioso momento -- em que, à porta de casa, numa arruada dos PàFs, a senhora, sem papas na língua, exprimiu o que vai na alma de quase todos os idosos do País -- esta sexta-feira, a própria senhora foi aos estúdios da TVI e aguentou-se com um à-vontade surpreendente. Com sentido de humor mas com segurança, respondeu às questões do RAP e aproveitou para voltar a dizer as suas razões de queixa.

Grande ideia, a dos Gato.

Depois, passaram apontamentos de uma espécie de reportagem, aquelas entrevistas 'em quem é que vai votar?' e, aí, até a Cristina Ferreira e outras figuras conhecidas da TVI disseram que iam votar na Senhora Cor de Rosa. E mais: até o David Fonseca apareceu a cantar o Hino com apoiantes equipados com as devidas bandeiras cor de rosa.


A bela Senhora Cor de Rosa, por acaso diabética, sempre sorridente, e uma feroz combatente
Na rua, em terreno aberto, e com as televisões a assistirem, derrotou Passos Coelho que foi uma limpeza!
E, em estúdio, não se deixou intimidar: contra os PaF, marchar, marchar.


Isto é tudo muito bonito mas: a senhora Cor de Rosa com o RAP (que várias vezes se desmanchou a rir)


David Fonseca entoando o hino com os apoiantes da Senhora Cor de Rosa ondulando bandeiras cor de rosa e de Portugal


E aqui, em vídeo, abaixo, o grande momento em que a Senhora Cor de Rosa (quase batendo em acutilância o Costa, a Catarina Martins, o Jerónimo e todos esses aprendizes da política), fez o tonto e mentiroso do Láparo meter a viola no saco. 




..

Quanto a António Costa, apareceu com a pastinha (com que o RAP o tinha brindado em rábula anterior), mostrou que felizmente tem sentido de humor, gozou consigo próprio, desarmou várias vezes o RAP; e o RAP, divertido, bem tentando descalçá-lo, várias vezes se desatou a rir.





....

Gente inteligente e bem humorada é outra coisa! Ficamos todos numa boa onda.

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PS: Estou a ouvir na televisão o resultado das sondagens, com conclusões mais manipuladas que eu sei lá o quê.
(O Expresso e a SIC estão a fazer um frete a quem? Aos amigos do Bilderberg? A quem?)


Pois bem, eu aqui, agora, não é sondagem nem nada disso, é apenas cá um feeling meu. 

Estes são os resultados que eu acho que vamos ter nas próximas legislativas:


PS: pelo menos 39%
PaF:
no máximo 34%

BE: no mínimo 7%


No noite das eleições falamos, ok?

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NB: Sobre sondagens amanhadas a gosto e sobre conclusões à medida, permitam que vos convide a lerem isto.

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quinta-feira, julho 09, 2015

Esta é a ditosa língua, minha amada - grande discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. [E a mais recente sondagem que dá o PS a distanciar-se, e a Lagarde a defender a reestruturação da dívida da Grécia e, para aumentar a barafunda, nails de gel e sei lá que mais]


Eu conto. Cheguei a casa quase às dez da noite depois de um dia de trabalho em que nem tive tempo para pensar na morte da bezerra. Agora, aqui em casa, já estive a preparar a valise para amanhã de manhã me pôr a caminho. Dois dias fora. E acabei de ver que preciso de retocar o verniz. Retocar não, tenho é que retirar o anterior e aplicar uma camada nova. E agora arranjei um novo que tem um gel que se aplica por cima, para simular as nails de gel. Vamos ver se resulta. Vejo lá as raparigas todas com unhas enormes, super-coloridas, super-grandes, super-brilhantes -- e eu completamente banal. Então, no outro dia, li não sei onde que há estes conjuntos de verniz+gel e que isto seca rapidamente, não requer nada daqueles apetrechos das super-manicuras. Numa corrida à hora de almoço, dei um salto à Sephora. O difícil foi a côr. Só gosto de me ver com cores neutras e só lá tinham pink, verde, azul, cinzento, preto. Mas afinal isto era na marca que eu tinha dito. Pedi produto idêntico mas de uma marca qualquer desde que em tom nude. Trouxe l'Oréal e ainda me saíu mais barato. Bem, vou parar para me atirar ao assunto.

Pronto, já está. Parece igual aos outros mas se calhar é esta luz que não deixa ver bem. Pode ser que, daqui a nada, à luz do dia, me deslumbre com as minhas próprias maravilhosas nails.

Enquanto estou nisto, vejo as notícias na televisão: o PS finalmente numa rota ascendente nas sondagens. 


Pode ser que estejamos perante uma tendência estável e que, a partir de agora, seja assim, milho a milho, até que o eleitorado demonstre que acredita no PS. Pelo que ouço, o pessoal odeia o Passos Coelho e as suas políticas mas ainda não se revê nas políticas do PS.
É isso: o PS tem que sair da casca e começar a afirmar-se. Se arranjar uma mão cheia de gente qualificada e credível que saiba expôr o que defende, de uma forma clara e assertiva (vejam-se as excelentes prestações televisivas do Embaixador Seixas da Costa, como ontem referi), num ápice o distanciamento do PS face aos malfadados PaFs se acentua. 

Agora estou a ouvir outra coisa extraordinária: a sempre bronzeada (com ar quase esturricado) Lagarde afirma que a solução para a Grécia tem que, forçosamente, passar pela reestruturação da dívida. Oh la la.

Sempre quero ver o que vão agora dizer o Láparo, a Marilú e o Nuno Melo: que a Lacoisa é defensora dos relapsos desta vida? 
Ai, as cambalhotas que os seres destituídos se vêem forçados a dar. Mas nada garante que percebam que as dão, provavelmente cambalhotam, rebolam-se e pinoteiam sem sequer perceber que o estão a fazer. Tudo é possível. Ou então, dão por isso e acham que nós é que somos burros, pois, depois das cambalhotas trapalhonas, não é raro aparecerem a gabar-se de que fizeram um elegante pas-de-deux. Aliada à falta de inteligência vem neles a falta de vergonha.

Bem. Adiante. Tenho que ir ao que interessa que se faz tarde.

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Em primeiro lugar, quero dizer que recebi com grande tristeza a notícia da morte do meu professor de Grafologia, o querido Dr. Alberto Vaz da Silva de quem aqui falei no outro dia. Vão partindo. Vão voando para outro universo. Fica-nos a memória e o carinho que sentirmos quando nos lembrarmos deles.


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Em segundo lugar, quero aqui deixar o extraordinário discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. 



Hélia Correia discursa ao receber o Prémio Camões - com um vestido azul e uma echarpe branca, as cores da Grécia


Σμυρνέικο Μινόρε - Σαβίνα Γιαννάτου - Primavera en Salonico - Smyraean Air 
Savina Yannatou


É um discurso longo e sei bem que a blogosfera é mais lugar de toca-e-foge do que de textos que nos envolvem como uma longa túnica. Não quero saber. O Um Jeito Manso é um lugar onde as palavras reinam, delas é todo o espaço que queiram ocupar. E as palavras de Hélia Correia merecem mais, muito mais do que todos os espaços onde a língua portuguesa seja amada e respeitada.





O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra.

Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português.

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.




Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.

Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construirem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol  considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar - não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração - um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada".    

ζουν Ελλ?δα , zoun Elláda, viva a Grécia.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira. 
Desejo-vos tudo de bom, muitas alegrias, sonhos felizes.

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segunda-feira, maio 30, 2011

Marcelo Rebelo de Sousa e as sondagens (ou melhor, o Prof. Marcelo e a campanha eleitoral): ou o mau serviço que a TVI está a prestar ao País. E a razão que dou a Henrique Raposo relativamente ao artigo do Expresso neste sábado



Com o ar doutoral de sempre, Marcelo Rebelo de Sousa - que é um nome incontornável na Comunicação em Portugal e que tem inegáveis dons pedagógicos sendo, por isso, ouvido com respeito por largas camadas da população - revelou na TVI, na sua charla dominical, que antevê agora que Sócrates tem 30% de probabilidades de ganhar as eleições.

Há uma semana, dizia que essa probabilidade não passava de 10%. Ou seja, segundo o Professor Marcelo, as probabilidades de Sócrates ganhar, numa semana, triplicaram.

Com isto, Marcelo pôs o pé em matéria que lhe é estranha e, hélas, escorregou.

Marcelo move-se bem em terrenos que são os da subjectividade, os da opinião, os do aconselhamento (embora não seja um aconselhamento bacteriologicamente puro: geralmente é tendencioso ou envenenado).

Mas já revela algumas dificuldades quando o tema envolve números.

Mas se o assunto, para além de números, ainda envolve cálculos, aí é que Marcelo torce mesmo o rabo.

Ora bem. De acordo com as sondagens (e para melhor acertarmos, tomemos a média das sondagens – para que a lei dos grandes números faça a estatística ganhar maior adesão à realidade), as tendências situam os resultados sensivelmente na fronteira do empate técnico entre o PS e o PSD.

Ou seja, independentemente das percentagens que cada partido (PCP, BE, CDS, PSD, PS, etc) venha a obter, o partido com maior número de votos será um dos dois, PS ou PSD mas, encontrando-se quase empatados, a probabilidade de qualquer deles vir a ser o vencedor da noite, será de… cerca de 50%. Lapaliciano.

 
E isto é o que as sondagens têm vindo a revelar nas últimas semanas.

Umas adiantavam o PS por uma unha negra, outras adiantam agora o PSD de outro tanto mas, em média, as diferenças entre um e outro situam-se no intervalo da margem de erro.

Hoje temos de novo uma sondagem em que o PSD se distancia mais do PS mas, ao mesmo tempo, temos outra com uma diferença de apenas cerca de 1%.

Depende dos métodos, das amostras.

Portanto, seria bom se Marcelo fosse um pouco mais rigoroso no que diz.

Além disso, o que ele disse pode ter uma leitura perversa: se a tendência fosse para Sócrates triplicar a cada semana a probabilidade de vencer, então para a semana a probabilidade seria de 3x30% ou seja 90%, isto é, já teria a vitória no papo. Errado.




Tem razão o Henrique Raposo (que, inteligente como é, quando for mais crescido ainda há-de perceber que o mundo não é tão a preto e branco como agora ainda o vê), quando, no Expresso deste sábado, se atirou com vigor a Marcelo Rebelo de Sousa referindo que é uma pessoa que não cria valor, que não acrescenta, que não traça um rumo, nada.

Nisto concordo com Henrique Raposo: semana após semana Marcelo faz críticas, dá as tácticas, tenta fazer coaching (mas sempre procurando favorecer o partido a que pertence e é compreensível – o que já não é compreensível é que se faça de santinho, fingindo que está ali a dar conselhos pro bono nem faz sentido que a TVI lhe dê a tribuna que está a dar).

Também eu, ainda um dia eu gostaria de ver Marcelo Rebelo de Sousa a olhar mais longe, a usar a sua inegável capacidade pedagógica para ajudar a descobrir um caminho para o País, a delinear uma estratégia de desenvolvimento sustentável para Portugal.

terça-feira, maio 24, 2011

Não me interessa nada que as sondagens de hoje apontem para empate. O que se está a passar nesta campanha é baixa política. É alienação. É estupidez. Permitam-me que hoje partilhe convosco alguns conceitos de gestão, pode ser que se apliquem à política

Ontem referi aqui uma conferência a que assisti com Tom Peters, especialista internacional em gestão, autor de best sellers (In Search of Excellence é um deles), reputado consultor e conferencista.

Uma dúzia de ideias chaves, interpretadas com profissionalismo, uma mise-en scène animada e ilustrada com exemplos apelativos, convincentes, e saímos de lá a dar por bem empregue o tempo e o dinheiro que a conferência custou (e que não é pouco).

O que ele diz destina-se a empresas e organizações em geral.

Mas hoje lembrei-me de ver em que medida algumas daquelas ideias podem ser úteis na política.

Aqui vos deixo (com letras grandes e a cores, à semelhança dos powers-points de Tom Peters) as seguintes ideias que, definitivamente, não estão a ser seguidas nem nesta campanha, nem na política portuguesa em geral - em que, sistematicamente, assistimos a ataques pessoais, em que os adversários políticos se relacionam como inimigos, em que mais parece estarem ao serviço dos partidos ou das corporações a que pertencem do que ao serviço dos outros:


Don’t let the enemy rule your life


An organization is people serving people. As organizações existem para servir. Ponto. Os líderes vivem para servir. Ponto.


K = R = P

    Kindness = Repeat Business = Profit


e, já agora, uma observação:

O problema raramente, ou nunca, é o problema. A resposta ao problema acaba invariavelmente por se tornar o verdadeiro problema.


sábado, maio 07, 2011

Sócrates à frente de Passos Coelho nas intenções de voto, de acordo com as últimas sondagens - dá para perceber?



Fazendo a média entre as duas sondagens divulgadas nestes últimos dias, poderá dizer-se que, à data da sua sua realização, há sensivelmente um empate técnico entre Sócrates e Passos Coelho.

Apelando a alguns conhecimentos de probabilidades e, sobretudo, ao senso comum, poderá dizer-se que, a julgar pela tendência que se vem desenhando e, ainda mais, analisando o que vem acontecendo, sou tentada a dizer que, realizando a sondagem hoje, a diferença se acentuaria a favor de Sócrates.

Mas, como é possível? Sócrates esteve no poder nos últimos 6 anos, o país acabou de ter que pedir apoio externo, o país está agrilhoado a um acordo que o obriga, sob supervisão de funcionários estrangeiros, a apertar o cinto, a arrumar a casa como há décadas o não fazia. A economia não está bem e a auto-estima nacional está péssima.

E, apesar de tudo isto,... a população continua a apostar em Sócrates para 1º ministro?

Dá para entender?!

No entanto, não são precisas explicações muito científicas para perceber a coisa.

Suponham os meus amigos que são homens (talvez alguns não tenham dificuldade nisso). Suponham agora que têm umas calças (que alguns achariam fora de moda, outros que o tecido não é grande coisa, mas enfim, gostos não se discutem) mas que já têm algum brilho, com as presilhas um bocado gastas, a parte de baixo, a que roça nos sapatos, já a dar mostras de querer desfiar.

Resolvem: está na hora de mudar.

Vão à loja comprar outras e os meus amigos, que têm um gosto comum, começam a ficar preocupados: vêem umas à boca de sino, um pouco curtas, new fashion, outras aparentemente muito male mas, afinal, justinhas, de lycra, tipo calcinha de bandarilheiro, outras de caqui com peitilho, dão voltas e mais voltas e conseguem descobrir umas mais ou menos normais, animados lá vão provar e afinal são 3 números abaixo, pedem à empregada que veja se tem o vosso número e ela, depois de 10 minutos lá para dentro, no armazém, aparece com umas dobradas, afinal tinha, vêem o número e é o vosso e, ufff, dirigem-se para a caixa. No balcão, quando as empregadas as abrem para as acondicionar no saco, viram-nas e explica-vos que a parte escura era o avesso e... o que fica à vista são umas calças às cores, com a braguilha abotoada com grandes botões dourados, com presilhas para o cinto encarnadas, com borboletas pregadas nos bolsos, com o bolso de trás bordado a lantejoulas 'make a better world' e que, afinal, o que parecia um par de calças normais não passa de uma maluquice da pior espécie.


O que fazem os meus amigos?

Presumo que, se de facto são pessoas com um gosto comum, encolhem os ombros e, que remédio, continuam com as mesmas calças: desistem, para já, de mudar.